Retalhos da vovó


Lembro-me com saudade das colchas de retalho de minha vó. Na sua simplicidade,  ela pacientemente juntava cada pedacinho de tecido que sobrava dos cortes, numa sacola.  Passava o ano a costurá-los,  um a um, numa bela colcha multicolorida. Cada cama recebia a sua colcha nova, e ela, ansiosa, esperava a visita de final de ano dos netos. Naquelas camas forradas um pedacinho de cada veste que ela tinha feito durante o ano para seus familiares:   pedaços  da camisa de papai, do calção azul de meu irmão e  da  saia  toda florida de minha mana. Em cada retalho um pouco de nós e de nossa família. Aquela colcha era mística. Era sagrada. Falava e abraçava  quem nela repousava.  Neste final de ano gostaria que toda humanidade se sentisse parte  daquela colcha de minha vó.  Colcha que aceitava as diferenças individuais: azul, branco, amarelo. Também as  diferentes dimensões de cada tecido e numa harmonia divina dava forma, onde todos só viam  caos.  Creio que nosso coração quanto mais parecido ficar  com aquela colcha,  será mais verdadeiro e belo.  Somos   colcha de retalhos quando percebemos, em nós,  fragmentos de uns tantos Outros. Em mim:  meu pai,  irmão,  vizinho, amigo de trabalho, minha companheira, minha filha,  meu templo,  nosso  Deus.
Somos colcha de retalhos quando durante a vida aprendemos a construir, cada dia, tijolo a tijolo os alicerces da esperança e cidadania.   Alguns porém,  infelizmente,  perderam-se no caminho. Não conseguem mais unir os retalhos  e transformar as adversidades em oportunidades de crescimento. Que tipo de colcha formei em 1998? Ela está bonita?  Multicolorida, aconchegante, macia e limpa?   Ou nosso preconceito afastou-nos dos Outros tornando-nos  monótonos e insípidos, um tecido desbotado, uniforme, que não enche de vida os que o observam, que não aconchega  os cansados e desesperados?
Procure no baú de seu coração retalhos de  apertos de mão,  de estímulos, de carícias,  de apoio e compreensão:  um beijo nos filhos, um  doente socorrido, uma  lágrima que teimou em cair,  quando  uma criança pediu  uma coberta e  comida para aplacar o frio e a fome. A colcha que costuro neste ano ainda não terminou. Restam alguns dias. Poderei ainda ir buscar, no fundo do baú de meu coração, alguns retalhos que deixei de lado e que agora são vitais. Acrescentar mais  branco, da paz. Verde, da esperança.  Vermelho, da  fortaleza. Azul,  da pureza. Amarelo,  da fé. Ir buscar nos recônditos mais escondidos de nosso ser um gesto de perdão, um olhar amigo e um sorriso de esperança.
Afinal, vendo-nos como colcha, sabemos que não estamos sós. Que cada um   dos que tomaram parte dela  tornou-se agora o meu sustento, minha alegria e  razão  de viver.  Neste mês,  derradeiro do ano,   escrevamos no nossos retalhos, retalhos de nosso coração, mensagens  com palavras  garrafais escritas nos porta-estandartes  aos que amamos.
Escrevamos com tintas de sangue, de compromisso  o  nome das pessoas que fazem parte de nossa história. Que em nossa colcha eles sejam homenageados e que  saibam quão preciosos e únicos são em nossa vida.

Um comentário:

  1. a colcha de retalhos de minha avó continua na familia....ai que saudades daquelas tarde de bolinho de chuva na cozinha.........

    estou adorando!
    beijos

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