Ame em legítima defesa


O telefone tocava na ONG Aids, chamada Grupo de Apoi à Vida - GAV. Do outro lado da linha uma voz de uma jovem chorando. Perguntamos seu nome , ela não responde , só faz chorar... diz que sua vida está sem sentido. Perguntamos o que a aflige , se é algo relacionado com a AIDS. Mais choros. Começamos a ficar aflitos. Quem seria aquela jovem? Por que drama estaria passando? Como estabelecer uma ponte, um contato mínimo que possibilitasse ajuda-la?
Ela diz que tem que desligar, depois volta a ligar , quem sabe...
Mais uma vez ligou. Demos um endereço para que mantivéssemos um contato pessoal. Ela aparece, constatamos sua juventude e beleza. Ela estava como uma gatinha assustada.
- O que está lhe assustando, você está com AIDS?
Mais choro. Parecia difícil conseguir que ela se abrisse. Começamos a ficar preocupados. O que se passaria no seu coração?
Ela nos fala que é de São Paulo-SP , e veio para C. Grande-PB ha pouco tempo. E que agora sua vida está terminada...
Lentamente , puxa de sua carteira um retrato.
Na foto um jovem bonito.
Quem é ele?
Ela diz que era seu ex-namorado, paulista. Até aí nenhuma razão prá tanto choro. Será possível que está moça tenha errado o telefone , e ao invés de ligar para o CVV ter ligado para o GAV/TELPA - Disque AIDS ? Alguns de nós, pensam logo que o caso é de pura paixonite aguda, sem nenhuma implicação com a AIDS. Outros ficam com uma "pulga" atrás da orelha.
E aí veio a grande revelação. A jovem tinha recebido uma carta de São Paulo , de seus amigos, dizendo que o seu ex-namorado tinha morrido de AIDS!
Apertamos nosso coração, mordemos a língua e perguntamos:
-quanto tempo vocês namoraram? - 4 anos !
Disfarçamos nossa preocupação. Em 4 anos poderia ter rolado muita coisa. Sabíamos de casos de relacionamentos, marido x mulher, que um dos dois não se infectou, mas era pura loteria. Aí, na nossa frente, estava alguém precisando de apoio, atenção e sobretudo muita esperança.
Ela nos falou que já não comia direito. Passava as noites em insônia. E que gardara só para si tal revelação.
Esse quadro de pânico , de medo extremado, somatiza reações das mais descabidas possíveis: febres , suores noturnos , calafrios, diarréias. Todas estas reações ela vinha apresentando , o que segundo ela , era a certeza do diagnóstico- AIDS!
Naquele estado só uma saída, fazer o teste urgente e encarar de frente a situação. Numa manhã fria de sábado, cerramos as portas da Sede e passamos longas horas tentando convece-la a fazer o teste. Sabíamos que, mesmo se não estivesse com o vírus, o seu fantasma não sairia de sua cabeça. Conversamos sobre as possibilidades dos soropositivos, das novas drogas , dos avanços da ciência. Trouxemos outros portadores para dá coragem. Finalmente fomos buscar o analista. Quando ele começou a tirar seu sangue, ela quis puxar o braço e desistir. Foi um momento de grande tensão. Aos poucos ela afouxou o braço e rendeu-se. Aninhou a cabeça nos seios de uma voluntária, como a procurar sua própria mãe.
Lentamente o sangue foi subindo pelo tubo: 5,10,15ml pronto, estavam ali suas esperanças e seus desafios .
Ao término da coleta ela nos beijou. Disse já está mais aliviada; que era como que tivesse terminado de fazer as provas do vestibular. Que tinha se livrado de um peso e que agora estaria nas mãos de Deus. Nunca torcemos tanto. Ela era tão jovem. Tão frágil. Agüentaria um resultado positivo? Teríamos forças para demovê-la da idéia de se suicidar?
Agora quem passou a não dormir fomos nós. Cada dia era uma árdua espera.
Tivemos que nos encher de forças para ir buscar seus exames.
Numa manhã de sábado, tive a infeliz idéia de ligar para o laboratório ,para saber se o exame tinha chegado.
A resposta foi afirmativa. E agora? Os únicos membros do grupo que sabiam do caso estavam numa cidade do interior, fazendo uma visita. Seria justo fazer aquela jovem esperar mais um final de semana. Fui buscar meu primeiro exame. A jovem plantonista me olhou com olhos estranhos. Na requisição estava escrito "HIV". Não agüentei chegar ao carro e rasguei o envelope: "Reação imunofluorescência Anti-HIV - NEGATIVA"
Não acreditei , e acho que fiquei uns bons minutos abobalhado , lendo e relendo aquela frase.
Chegando em casa , peguei o telefone e liguei para ela.
- Olha menina-moça, seu presente de São João: resultado negativo...
- Negativo é bom ou é ruim?
Não me contive e caí numa gargalhada. É bom companheira. Você conseguiu , através de um capricho da natureza e da acidez de sua vagina, conter o vírus ... parabéns!
Ela não se conteve de alegria, soltou o telefone e ficou dando gritos. Acho que seus familiares pensaram que ela tinha endoidado de vez. O que estaria fazendo ,pulando de alegria, aquela que só vivia pelos cantos das paredes choramingando? Esta foi uma historia com um final feliz. Quantas não tem este final?
O terreno está aberto para a AIDS e para as gravidezes precoces. Falta de informação adequada. É aquela idéia que AIDS é doença do "outro". Ou aquela que diz assim: "tá vendo que meu namorado, fofinho, gostosinho , pode está contaminado pelo HIV? "
Não nos cansamos de dizer que a AIDS não vê cara. Não nos cansamos de alertar que a fase da AIDS-Migratoria em C. Grande já passou.
Agora ,nos deparamos com a AIDS em grupos que fazem prostituição em nossa cidade. Já tem gente se sentindo aliviada quando a filha , que chorava pelos cantos da parede , diz está grávida , ao invés de está com AIDS. - Isto é uma absurdo! Da gravidez precoce para a AIDS não falta muita coisa. E mais uma festa popular passou sem que se desse ênfase à prevenção da AIDS. O animador dos palcos mandava um abraço para a barraca do "tuita". Ou, saudava o Sr. fulano de tal que acabava de chegar ao local. Em nenhum momento lembrou-se de alertar que "de prazer não se morre , se vive !". Que usar preservativo é questão vital!
Ame em legitima defesa - exija o preservativo!

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