Caminhos do Amor

Cristina e nosso filho o JG (dez-2011)


Nos idos de 1995 eu era voluntário, em Campina Grande-PB, de uma ONG chamada Grupo de Apoio à Vida - GAV.
Como fruto daquele trabalho, acabei sendo convidado para preparar e ministrar dois cursos no Rio de Janeiro, no Encontro Nacional de Pessoas Vivendo com AIDS, com os temas: PERCEPÇÃO SOCIAL EM TEMPOS DE AIDS e O CORPO FALA. No sábado a sala do curso estava lotada. Casa cheia. Sem mais vagas. Insistentemente, uma turma batia à porta, pedindo para adentrar ao recinto. Fiz um acordo com os participantes, para que eles permitissem que aquele grupo do Paraná pudesse adentrar, ficando sentados nos corredores.

Tudo ok!

O primeiro curso foi puxado e cheio de emoções. Terminei um bagaço.
No encerramento uma jovem da delegação paranaense procurou-me dizendo que houvera adorado a forma de condução.
 Fiquei todo "ancho". (orgulhoso)
Manhã de domingo, 2º curso, 2º tema, 2ª sala lotada, 2ª batida na porta, 2ª delegação do Paraná que chega afobada pedindo uma exceção.
Mais um acordo com o grupo, mais uma flexibilização nas normas.Afinal, regras foram feitas para serem flexibilizadas, quando a ética fala mais forte. No final do curso, a mesma jovem chega fazendo elogios e convida-me para o jantar de despedida da delegação do Paraná que seria na cobertura do hotel onde estavam hospedados, em Copacabana.

Eu falei sorrindo: - Só assim vocês me pagam as duas exceções! À noite, depois de uns 3 chopes, percebi a beleza daquela jovem. Seu sorriso era contagiante. E não deu outra - entre um choppe e outro lasquei-lhe um beijo na boca.Ela chorou.Eu disse se tá chorando porquê você tem AIDS, e eu estou te beijando, deixe de besteira.Para pegar AIDS pelo beijo os dois têm que ter sangramento na boca, e eu pelo menos não tenho. Ela não falou nada.

Continuava feliz, mas de vez em quando caia uma lágrima. E eu mudei a estratégia dizendo:

 - Se está chorando com medo de está sendo enganada, com o golpe do “cara que ta se divorciando”, fique tranqüila, mês que vem a papelada estará pronta e poderei te provar. Ela deu uma gargalhada e disse:

- Não é nada disso seu bobo. Primeiro não tenho AIDS.

Eu disse:

- Como você participou dos meus cursos, cujo público-alvo era portadores do vírus da AIDS?

Ela falou:

- É que cuido de 30 portadores e precisava me capacitar. Segundo, se você está me dizendo que está divorciado eu acredito.

Eu disse:

- E por que cargas d água este choro?

Ela falou que quando as coisas entre ela e um cara estavam ficando boas, como naquela noite, ela achava que que acabaria, mais cedo ou mais tarde, estragando o clima, e depois ficava se sentido culpada. Pedi que ela fosse mais clara. Ela disse que temia que eu a chamasse para o “vamos ver”, e, como ela era virgem, não aceitava este tipo de convite, e com a sua negativa, a noite acabava indo para o brejo, uma vez que o proponente ficava muio irado, eroticamente falando. Eu pensei ligeiro e falei:

- Minha fia, hímen na Paraíba não é um troféu. A noite está linda, respeitarei teu momento, que tal continuarmos nesta cobertura, conversando, rindo com nossas besteiras, olhando as estelas e contando causos.

Voltei para Campina Grande apaixonado. Os colegas perguntavam o que era aquele maldito sorriso que eu estampava no rosto. Eu caladinho num dizia nada. Segredo! Passaram-se três anos daquele encontro, já namorávamos três anos à distância. Nas minhas férias eu a encontrava, e nas delas ela me encontrava. Para matar as saudades eram um tal de telefonema para lá e para cá, cartas, e email que num acabavam mais.

Ela trabalhava como assistente social na Fundação Telepar, e não conseguia um emprego com este perfil/remuneração em Campina Grande-PB. Naquele mês de junho-1998, endoidei de saudade. Campina Grande respirava São João, que por sua vez inspirava os casais apaixonados a dançarem nas quadrilhas, forrós e a desfilarem abraçadinhos no Parque do Povo. Pensei então em aproveitar uma reunião para despacho de Operações de Crédito, que teria com o Superintendente Regional (SUREG) do BB de  Campina Grande, para pedir sua ajuda para conseguir uma transferência para Londrina - PR.

Entrei na sala do Superintendente Regional (SUREG) do Banco do Brasil, chamado Gregório Magno. Ele fumava um charuto (naquela época ainda podia), abri os dossiês e esclareci algumas pendências nas operações sobre análise. No final da reunião, tomei coragem, e pedi para ele ligar para o Sureg de Londrina-PR (acho que era o Altino) tentando ver se havia vaga na sua jurisdição, nem que fosse como posto-efetivo.

Então ouvi o “eita porra’ mais sonoro da minha vida. O Gregório bufava de indignação. Dizia:

- Tu ficaste doido. Vai acabar com tua carreira. Mês que vem abre uma vaga de Gerente Negocial na Sureg, você tem todo o perfil para concorrer à vaga. Não vou fazer uma besteira desta. Volte para a seu setor!

Puxei o fôlego, mordi a língua, e bati em retirada. Os olhos cheios de lágrimas. Uma vontade danada de pedir demissão e jogar tudo para as favas. Quando caminhava no corredor, em direção ao elevador, ouvi ao longe o grito do Gregório:

- Ricardim, qual o motivo desta doidice?

Voltei esperançoso e um tanto constrangido. Afinal, falar o real motivo podia ser mal interpretado, e queimar minha carreira. Ele, e muitos outros, poderiam pensar que eu estava descompromissado com o Banco e que tinha endoidado.

Mas, optei pela verdade:

- Chefe estou apaixonado por uma moçoila de lá, e faz 3 anos que namoro à distância. Num guento mais. Ele disse:

- Assim a coisa é diferente. Se tem amor no meio pode contar comigo. Como é mesmo o nome do Sureg Londrina-PR, vamos ligar para ele e interceder.

Na mesma hora ele ligou para o Altino. Altino, foi muito atencioso, mas alegou que não havia mais nenhuma vaga. Em Londrina houvera sido fechados órgãos regionais e a praça era exportadora de mão de obra.

No gesto e fisionomia do Gregório, ao receber aquela notícia, senti o quanto ele tinha se preocupado comigo. Vi como um gestor amigo faz a diferença na vida de um colega. Ele chegou a ficar triste. Solidarizou-se. Quis saber os detalhes do namoro, quem era ela, como eu fazia com a saudade, etc, etc, etc.

Uma ano depois, em 1999, passei numa seleção para analista júnior, na Controladoria, agora só ficaria a 1.000 km de Londrina, daria até para pegar um ônibus na sexta-feira, vê-la no sábado, voltando no domingo. Pense numa fuleiragem amorosa!

O Gregório ainda teve um último gesto de solidariedade. À época a UFRH só tava liberando a posse de funcionários, oriundos de agência com mais de 50% de claros na dotação, se contasse com o “de acordo” da Estadual.

O Gregório defendeu o parecer favorável, junto ao Estadual, e expediu de sua própria máquina o “de acordo”.

 Em tempo: Aquela jovem conseguiu passar num concurso em Brasília, em 2000. Casamos-nos em 2006.


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