Minha jangada vai partir por mar.


E grande será sua viagem, passará por tantas dificuldades: tempestades, calmarias , furacões. Mas neste caminhar aprenderá a ser melhor, a conviver, a renascer, a lutar por um ideal.

Partir é mudar, é romper.

Os que não partem, não mudam, não se permitem acomodam-se a si mesmos e a situação existente, virando espíritos de louça.

Espíritos de louça.
Nunca quiseram enfrentar os mares inóspitos e desconhecidos.
Nunca erraram.
Nunca tiveram que alterar a rota.
Nunca sentiram o que era desespero, ou o orvalho das manhãs a lavar seus rostos.
Nunca tiveram a alegria de um bom vento a içar sua velas.

Espíritos de louça.

Ficaram nas cidades, querendo se poupar. Não saíram. Não caíram. Não sofreram.
Pensam que viveram o bastante. Repetem programas pré-configurados de competir, ser ambicioso, agredir...

Fantasias? Nunca as tivera!
Amores? " Já me decepcionei muito..., nem pensar..., são todos iguais..."

Ele se acha perfeito. É metódico. É sensato. Nunca errou. Nunca vivenciou ,
nem a mais simples das aventuras que é tomar banho de chuva.
Sempre às voltas com tarefas a concluir, estudos a concretizar, ambições pelo poder e pelo dinheiro.

Tenho ira dos sensatos.
Tenho ira dos que se auto-apregoam como puros e perfeitos.
Tenho ira de todos os que cegamente querem impor suas verdades aos "ímpios".

Não gostaria de ser como os que ficaram na cidade.

Gostaria de ser como Buda, que fez seu aprendizado caminhando por entre vilas, povos, desertos e montanhas.

Gosto de viajantes, Dos que partem em busca de seu ideais. Dos que nunca deixam morrer sonhos, desejos, fantasias e realizações. Dos que fazem brilhar "a menina dos olhos" quando falam do que acreditam ou amam.

Ficar na cidade representa a passividade. Representa a estagnação. Representa a
monotonia. A rotina metódica, calculista e racional: trabalho-casa-trabalho ou estudos-casa-estudos, ou ainda, casa-casa-casa que vai destruindo o germe da vida que habita em cada um de nós.

Perderam até a capacidade de maravilhar-se. E maravilhar-se é capacitar o
olhar para sintonizá-lo ao outro, ao ar, à terra, à água, e ao fogo que nos rodeia e faz vibrar a vida.

É um olhar holístico, integral. Que vê filosofia num simples balançar de árvores no quintal.

Gosto dos que chegam à cidade, vindo de seus barcos. São líderes.

Não desanimam, à primeira dificuldade. São humanos de carne e osso: choram, riem, amam, perdoam, esbravejam. Não são protótipos programáveis de seres humanos.

Não são avessos ao sentir.

Tenho dó dos que temem a esperança, contida em cada gesto de perdão,
de recomeço, de luta.

Sentir é a essência do viver.

Para crescer é imprescindível expor-se, tomar posição, acreditar em algo, arriscar-se no vazio.

Tenho dó dos acomodados e conformados. Ah! Foi Deus quem quis.

Pobre Deus, leva a culpa de tudo.

É o alibi perfeito para nossa estranha maneira de ser feliz. Ser feliz sem se arriscar. Sem colocar os pés na lama. Sem os perfumes das flores que vicejam na primavera.

Tire seu Corsário da areia, aprume-o para o mar, aproveite os ventos e singre novos mares do existir.
Clique aqui e veja a música a qual

Assédio Moral Lateral


Falta correção de ortografia. Escrevi num vomitar existencial.
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Para entender o assédio lateral, entre colegas de mesmo nível, precisamos revisar os conceitos de poder. Vale a leitura deste material.
http://www.facef.br/facefpesquisa/2005/nr1/2_DINIZ_LIMONGI.pdf
Assédio moral envolve o uso indevido e abuso de poder.

Existem em resumo quatro vetores de poder:

- Coercitivo (institucional, hierarquizado, de supervisão/gestão).

- De Referência (de pessoa mais experiente, mais antiga, mais conhecedora de algo).

- Influência (o exercido sobre nós, oriundo de quem admiramos e nos identificamos).

- Regulatório (o que é mandatário legal, previsto em regulamentos e normativos).

Destes vetores, os que o uso inadequado poderá derivar em assédio moral são os dois primeiros.
Hoje, a refletir sobre o menos escrito e detalhado, o lateral. O do Tigrão. Personagem que chamarei o assediador lateral, entre pares.
Depois escrevo sobre o Buana, personagem a quem chamarei o gerente assediador.
O assédio lateral é muito difícil de ser caracterizado, mais das vezes relativizado e banalizado quando a vítima se declara assediada.
Todo mundo diz, isto é coisa de trabalho. Conflitos sempre acontecerão. O problema é o relacionamento interpessoal, etc., etc.
E o Tigrão vai se safando.
O Tigrão é aquele colega que todos nós já topamos com ele um dia.

Que o gerente vê suas atitudes, mas não quer mexer com ele.

O Tigrão tem um tipo de poder chamado de referência. Seja por antiguidade (conhecedor exímio da cultura da agência e cidade), seja por conhecimento técnico acumulado, o Tigrão tem algo pra botar na mesa.

Ele habita praticamente todos os lugares de trabalho, bancários ou não.

Perseguem os novatos, mais tímidos, os mais simples, mesmo que do nível dele.
Caçoam, sonegam informações, espalham boatos, agem com violência verbal.
Eles tem tanto medo de serem passados para trás, pelo novo que acontece na figurado do outro perseguido, que psicanaliticamente falando reagem contra-transferindo, devolvem pra vítima suas próprias frustrações, acomodando nela coisas que não consegue resolver na sua própria psiquê. Passa por inveja, mágoas antigas, ciúmes, vivências passadas mal-resolvidas que o outro desperta nele.

Em vez de fazer terapia, ele faz brutaria com o outro. É assim que ele sobrevive, sempre à custa de sugar a essência do outro. Um vampiro emocio-organizacional.

Uma pessoa insalubre e toxica. Mas que tem sua plateia e sua guarida organizacional.

Como não há hierarquia na relação assediador-assediado lateral, o Tigrão vale-se disto para deitar e rolar.
Sabe que não poderá ser "punido", e que o assunto ficará restrito às rodas mais próximas, e aos ecossistemas organizacionais nos quais impera.

Caberia aos gestores bons, coisa mais difícil nas organizações do que achar dinheiro na rua, intervir neste ambiente de trabalho onde impera os tigrões e punir estas situações de assédio. Harmonizando ambientes de trabalho.

Mas, no geral eles não o fazem. Para eles é até cômodo ter tigrões, pois vão desviando o foco de sua gestão. O pior, muitas das vezes age pelos Tigrões. E até os incentiva.

Uma cena do Tigrão.

Funci novo pega o telefone, liga para o Tigrão. Tem uma dúvida que só o Tigrão sabe resolver.
No meio do telefonema o funci novo tosse. O Tigrão diz em voz alta, para todos ouvi-lo, "que está sendo desrespeitado, pois o novato não o chamou de senhor". E desliga o telefone.

Noutra cena o Tigrão afirma, com voz das selvas, "que o novato só está fazendo serviço errado e atrasando o trabalho."

Todos ao redor riem. Alguns de medo, pois também já foram vítimas ou ainda o são do Tigrão. E é melhor não provocá-lo, ou tê-lo como "amigo".

Muitos falam que o temem, mas como são do mesmo nível, nada podem fazer.

Muitos se aliam ao Tigrão para receberem uma falsa sensação de proteção. Igual à relação traficante x alguns membros da comunidade.

Na selva corporativa, diariamente o Tigrão escolhe um cristo para achincalhar, perseguir, maltratar.
Quando o bicho pega pra seu lado, muitos o defendem. (Veja livro Pedagogia do Opressor.)
“Ele está cansado."
"Ele já deu muito por isto aqui.”
“Ele é assim mesmo.".
“No fundo ele é bom."
“Ele é o melhor vendedor"
“Ele é peixe do gerente, do cliente, de um político, maçom, rotariano, da igreja”.
Na frente do gerente é uma ovelha.
Mas, até o gerente sabe que não é. Ou é surdo, ou cego.
O Tigrão é um doente, um psicopata, um mal-resolvido. Um neurótico, um perseguidor, um aprendiz-de-autoritário.
O Tigrão está sempre de mal com a vida, e pronto a destilar seu veneno contra sua vítima do mês.
Um Tigrão num local de trabalho é suficiente para empestar todo o ar que se respira, e acabar com qualquer iniciativa de melhoria do clima de trabalho.
Por que há tantos Tigrões? Por que não há gestão nos locais de trabalho.
Não se acompanha, dialoga, conversa. Não há tempo para isso.

Não se faz a avaliação individual, o gestor não escuta sua base, não procura saber o que de fato ocorre no "submundo" do crime.

Metas, metas, metas, prazos curtos, poucos recursos.
Não está nada fácil a vida de um gerente. Embora haja gerentes que mesmo diante deste cenário fazem gestão de suas equipes. Raros, quais moedas achadas no chão, mas tenho vários relatos neste sentido.

E, pra você que ler este texto, tem uma forma de se livrar do Tigrão. Enfrentá-lo e mandá-lo catar coquinho. No fundo ele é um bobão-frágil. Que se fortalece te espezinhando, pois sua autoestima chegou à zero. Só se nutre de estima, sugando o outro, um vampiro emocio-organizacional.

Cuidado. Esta forma poderá mobilizar toda a rede de apoio que ele mantém, sob seu jugo de dominação a voltar-se contra você. Ele vai posar de vítima e vai articular muitos contra você.

Então ensino a segunda forma. Esta você vai fazendo enquanto não adquire sua própria rede de defensores. Para que na hora que chute nos ovos do Tigrão tenha gente que lhe apoie. A segunda forma é evitar ao máximo o contato com ele. Você não vai mudá-lo. E a terceira forma, a melhor de todas, mude a você mesmo. Se não podemos mudar uma realidade, mudamos a forma pela qual a compreendemos. Por exemplo, não posso mudar meu coração, que dispara a 170 vez por outra e não sinto nada, então não fico procurando razão para ser infeliz, comprei um polar que disparará quando ele passar de 140 e irei ao hospital. Adaptei-me a uma situação limite que não posso modificá-la. É congênita.

Pergunte-se porque o Tigrão te faz tanto mal. Por que o que ele te diz, ou como ele age contigo mexe tanto contigo. Sabendo que ele é um merda, releve. No limite, ele tá te ensinando inteligência emocional.

Então não espere tratamento diferente dele para contigo.

Vá dando-lhe a pior das iras, a indiferença.

Quando receber uma bronca faça cara de paisagem. Não converse com ninguém sobre o Tigrão, pois ele tem uma rede que vai te procurar, te instigar, para devolver pra ele como tu se sentiu. Ao saber pelos outros ele irá gozar de felicidade pelo que te provocou. Um caso de masoquismo projetado.

Então guarde só pra si.

Se quiser desabafar escreve um blog em homenagem as "tigraiadas" que recebe dele.

É uma forma humorada de ir sarando das investidas diárias contra tua pessoa. Vai registrando num diário.

Sem falar que depois você está todo documentado pra enfiar uma ação de Assédio nas costas dele.

Procure o sindicato, procure padre, pastor, psicólogo, amigos, converse, converse sobre o que está se passando.

Tente captar de pessoas, não diretamente envolvidas, ao revelar-lhes as cenas de tirania que está sendo vítima, se você não está aumentado as coisas, sendo muito dramático sensível ou vendo a vida pela lente da emoção.

Mas não tente educar um Tigrão. Nem chamá-lo para uma conversa

Nem surra de chicote de aroeira braba muda um autoritário. Não adianta chamá-lo para um conversa.

Não estou falando de conflitos diários entre colegas. Estou falando de um assediador. Não estou falando de dificuldades de relacionamento em equipe. Estou falando de um perseguidor cruel.

Para conflitos e relacionamento em equipe há jeito. Há formas de o grupo se educar e crescer. E superar.

Para a doença do assediador a forma é a justiça, a denúncia, é o pau no lombo.
Tem que sentir no bolso que os atos que praticam vão impossibilitar seu crescimento.

Mas, o tratamento que as organizações do trabalho dão a este tema é pífio.

E os sindicatos idem.

Espera-se que ações cheguem à justiça ou sindicato, para a intervenção.

E o que chega não representa nem 10% do que de fato ocorre. Então é preciso outro tipo de ação para coibir o assédio moral. Visitas aos locais de trabalho para conversas individuais, para monitoramento do fenômeno Tigrão e do Buana (tema do próximo capítulo).
Falta ação de campo, pesquisa nas bases. Aberturas de canais indiretos, e novas instâncias de participação.


E, caso tenha um Tigrão na tua equipe, e não o esteja usando em interesse próprio, chame-o para uma conversa difícil.

Tigrões temem a hierarquia e sabem obedecer a ordens que é uma beleza.

Basta dizer que tá de olho nele, para ele ficar igual a macarrão em água quente: molinho, molinho e escaldado.

Especialmente para uma vítima de um Tigrão que escutei seu desabafo na noite de ontem.

Atitudes florezinhas amarelas.


Neste fim de tarde estava tomando um cappuccino, perdido em devaneios ao olhar pela janela da cozinha a boniteza de um entardecer. Eis que voltando da “viagem” pouso meu pensar sobre o beiral daquela janela, cheio de vasinhos de velhas violetas, quase mortas. De uma delas, que teima em afirmar sua vida, emergem algumas florezinhas e botões amarelos. Ela é a única de um conjunto de cinco vasinhos, todos tratados com a mesma luz e água, e nas mesmas condições, que teima em florescer.

Pensei em cenas recém-vividas, com pessoas de atitudes-florezinhas-amarelas com as quais cruzei.

Atitudes generosas, mansas de coração, que nos valorizam, nos fazem sentir importantes, gratuitas e que fazem a diferença no nosso dia.
Estas atitudes brotam de pessoas que vivem em iguais condições de outras, de onde são mais raras.
Elas encantam o jardim de nosso viver.
Receber uma atitude-florzinha-amarela é tão bom.
Ficamos até sem jeito.
A vida anda tão bruta, que não esperamos mais reconhecimento em nada que fazemos.
E é o ciclo de Tanatos. Não recebemos, não aprendemos a doar.

Hoje pela manhã, fui procurado por um colega de trabalho. Ele precisava compartilhar a experiência que vivera, nos últimos 15 dias. Falou com olhinhos de atitudes-florezinhas-amarelas o que fizera. Da parte da parentada de sua mãe, restou um tio vivo. Um tio que não se locomovia mais com tanta facilidade, pelas dificuldades inerentes a ser cadeirante no Brasil.

Então ele viajou de Brasília, com o seu filho até a casa do tio em Santo André-SP.
O pegou de surpresa ao convidá-lo para rever a parentada ainda viva que mora no estado de SP: filhos, sobrinhos, netos e até os cunhados.
O colocou no seu carro e rodou mais de 1000 km, SP adentro, visitando com ele, cidade a cidade.
Imagino as dificuldades de acesso durante o trajeto, e como foram contornadas com uma alta dose de atitude-florezinhas-amarela, a atitude do amor gratuito.
Seja para levá-lo ao banheiro, entrar em restaurantes e locais para dormir sem acessibilidade, coisa comum por estas bandas.
Em cada parada, 70 quilos nos braços, pegos com o cuidado que pegamos nossos filhos no colo – até colocá-los na cadeira de rodas.
Em cada parada, um monte de recordações de família, abraços, festança e aconchego.
Que cena linda. Fiquei profundamente comovido com sua história. Com seu desapego. Com seu senso de urgência em oferecer ao outro – importante no seu viver, algo significativo diante de suas limitações.
Fiquei com aquela atitude-florezinhas-amarela no coração. Marcou-me.

Outro dia, vi o sofrimento de uma equipe ao se despedir de seu gerente, assassinado quando sacava dinheiro.

Um dos integrantes revelou o que dissera a Pastora, nos seu culto de sete dias, se é que existe isto.
Ela falou que nos momentos de prece, durante os cultos, ele sempre orava pedindo pela sua equipe de trabalho. Que Deus a guardasse e a protegesse de todo o mal.
Ao conhecer esta história, tive a exata noção do tamanho do luto que a sua equipe estava vivendo e do quanto devia estar sendo difícil para eles.
Mas a vida anda rara de atitudes-florezinhas-amarelas.

As pessoas estão se embrutecendo, competindo acirradamente umas com as outras, fechando-se e ensimesmando em cápsulas de sobrevivência.
Vez, por outras, sob as mesmas condições brotam pessoas-florezinhas-amarelas e alegram nossa jornada. Quem tiver uma por perto a cultive e guarde-a com carinho.

Ela é uma bênção e um estímulo para o nosso viver.

O compositor e cantor mineiro, Vander Lee, retratou muito bem a carência de atitudes de gratidão, bondade, valorização, ternura, perdão, amor, dos tempos atuais na sua bela canção, Onde Deus Possa Me Ouvir, veja:

“Sabe o que eu queria agora, meu bem”...? Sair chegar lá fora e encontrar alguém



Que não me dissesse nada. Não me perguntasse nada também.
Que me oferecesse um colo ou um ombro. Onde eu desaguasse todo desengano
Mas a vida anda louca. As pessoas andam tristes.
Meus amigos são amigos de ninguém.
Sabe o que eu mais quero agora, meu amor? Morar no interior do meu interior
Pra entender porque se agridem. Se empurram pro abismo
Se debatem, se combatem sem saber. 
Meu amor... Deixa-me chorar até cansar. Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir. 
Minha dor... Eu não consigo compreender. Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui pode sair.



Esta composição revela uma tendência em nossa sociedade: estamos mais conectados e mais sozinhos, nesta correria da sobrevivência.
Por isso, tão poucas atitudes-florezinhas-amarelas florescem pouco em nosso meio.

Se até as crianças na mais tenra idade já aprendem que precisam competir para vencerem, que não podem compartilhar seus brinquedos nas escolas, que batem nos outros para marcar seus territórios-tribais, que não sabem lidar com a frustração de nem sempre ter o que pede, pois acham que tudo gravita ao seu redor.

Estamos sedentos de paz.
Sedentos de atenção e ternura.
Sedentos de alguém que nos afague, proteja, incentive, ame e diga vez por outra, quando ficamos aflitos: “calma, é só um sangramentozinho, logo passará”.

Então, convido-lhe a cultivar no jardim de seu coração atitudes-florezinhas-amarelas.

A não esperar recebê-las para ofertá-las.
A dizer agora a quem tu amas o quanto esta pessoa é especial.
A visitar teus vizinhos e dar-lhes um mimo qualquer, para estreitar a relação.
A perdoar mágoas encanecidas.
A valorizar os membros de tua equipe e dizer-lhe, um a um, o quanto o trabalho deles contribui para o alcance dos resultados de tua gestão.
A oferecer bondade, generosidade, sem querer algo em troca.
A encontrar o seu “tio”, para surpreendê-lo com um gesto de amor qualquer.
Acho que o terreno para florezinhas amarelas é especial. Nele há menos ódio, menos rancor, menos sentimentos de vingança, poder e inveja. Mais flexibilidade, aceitação, reconhecimento, docilidade e respeito ao outro.

De minha parte, acho que ultimamente venho sendo uma violeta-velha-sem-flor.
Talvez por isso, marcou-me tanto as histórias do tio-cadeirante-viajante; e a do gerente-falecido-orante.
Elas sopraram uma brisa suave e fecunda nas minhas folhas-violetas-velhas, estimulando sua inflorescência.
Renovo, portanto, os votos de fazer minha parte com mais atitudes-florezinhas-amarela.
Enquanto digitava esta parte do texto, um vizinho que adquiriu um lote perto de minha asa parou no meu portão.
Queria saber como era por aqui, se era seguro, etc. e tal. Chamei-lhe para conhecer a casa, o jardim, minhas cadeiras de pneu.
No final, ofereci a ele e sua esposa, durante o período da construção, as instalações aqui de casa, para a guarda de algo mais valioso, para o uso de banheiros, ou tomarem água e até para uma prosa domingueira sobre o andar da obra.
Os olhos dos vizinhos ficaram com o mesmo dilatar dos meus, ao escutar as histórias que narro nesta crônica. Não esperavam esta atitude.
Que em mim já foi tão normal, e que hoje me causou surpresa.
Talvez, inspirado por esta crônica, agi assim e transmiti ao outro desconhecido uma generosidade gratuita.
Gostei de mim mais um pouco. Criei novos vínculos, que outrora criara com tanta facilidade.
Que bom! Há esperanças para meu vasinho de violeta-quase morto.
Posto o vídeo com esta bela canção, vale a escuta e reflexão.

A saga de um coração ligeirinho



24/03/2011

Segunda dia 14 o coração fazia 10 dias que batia a 160 por minuto. De tanto insistirem, os colegas de trabalho me fizeram ir ao HCOR. Aliado a isto, no final de semana pesquisando na internet achei um remédio bom pra taquicardia, um betabloqueador. Comprei o bichim, tomei, e o coração continuou a 160, além do que quase morro do efeito colateral, fiquei revirando-me com nauseas e fortes dores no peito no chão do banheiro do quarto de hóspedes e a esposa no 2 andar, sem saber de nada e eu sem forças para pedir ajuda. Depois tomei uma ducha fria e "sarei". Ou seja, naquela segunda eu tava desconfiado de algo tava errado.

Quando cheguei no HCOR, minha intenção era tomar um "cachete" e ir pra casa. Quando o pessoal da emergência fez o eletro, já foram logo empurrando remédio na veia, proibindo-me de falar e me movimentar, na maca mesmo subiram comigo, com expressões preocupadas, para a UTI. Só consegui mandar uns SMS e falar com a esposa, sob a cara feia do enfermeiro. Meu coração estava fibrilando e poderia parar a qualquer momento. Na UTI, passei 6 dias, durantes os quais fui submetido a duas sessões de desfibrilação, por eletrochoque, sem resultados, e uma ablação, cirurgia por catérter que queima vários nervos do coração defeituosos. Esta deu certo, e tive alta no domingo. Agora recupero-me do pulmão, que por muito tempo acostumara-se a receber muito sangue e trabalhar pouco. Devo voltar ao trabalho

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16/12/2011

Após acompanhamento mensal, desde a última intervenção, a minha médica encaminhou-me para outro cardiologista, especialista em arritmias. No meu acompanhamento mensal com ela ela via que tinha algo que não ia bem. Apareciam muitas extras-sistoles, micro-paradas, fibriliação, taquicardias no exame holter. Não era para aparecer. Ela detectou que algo não ia bem nos atrios. Em março operei os ventrículos. Então passe a ser acompanhado por um especialista em taquicardias e fribrilação atrial que , descobriu de onde vinham, das artérias mamárias, e me operou 14.12. outro cardiologista descobriu o que era e me operou dia 14.12. A operação foi um sucesso, mais 5 dias recupero. Sangrei muito pela jugular e perdi 3 litros de água pela sonda renal. Isto causou um choque hipostástico e a morte chegou bem perto. A pressão caiu na madrugada para 6 x 4. Apensar dos apitos do terminal, todo mundo tava atendendo outros casos. Fui salvo pelos caras que passavam pra trocar a roupa de cama um outro leito ao lado do meu. Quado viram a poça de sangue e urina eram enormes. Mas a operação foi um sucesso, descobriram uma síndrome rara 1 em 10000000 que faz com que um dos nervos do cordão umbilical não morra ao ser cortado de minha mãe. Um tal de Ligamento de Marshal nervo do cordão umbilical ficou ligado e mandava o coração fibrilar a 160 por minuto. Em março fiz uma cirurgia, mas o problema continuou. Nesta, quando iam terminado as mais de 6 horas de intervenção tocaram com os cateteres no nervo esquecido - resquicio do Marshal e ele detonou o coração. O coração fibrilhou a mil por hora na frente de 3 cardiologistas cirurgiões. Então, eles o cauterizaram. Mas foi sorte. Eles já estavam terminando as cauterizações noutras áreas. Aliás, sorte não, foi a Providência Divina. Veja a explicação técnica:

"Posteriormente, outros locais como o ligamento de Marshall (um remanescente embriológico da veia cava superior esquerda), a veia cava superior, a crista terminalis e o seio coronário foram identificados como origem de atividade focal rápida capaz de iniciar e perpetuar a Fibrilação Atrial."



E ele vez por outra pensava que podia funcionar e desregulava todo o músculo. Eles descobriram aos 45mim do 2 tempo da operação de 6 horas, quando já retiravam os cateteres, um deles tocou no nervo e o coração deu uma forte fibrilada, repetiram, idem, aí foi só matá-lo .e bater e aí fode tudo. Estou mito cansado e com fortes curativos nas safenas e jugular. Mas bem feliz!!! Este nervo falso iria me matar. DEUS OPEROU!

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21.12.2011

Sai de casa pra ter alta com consulta de "retorno" com meu cirurgião no HCOR. Sinto que algo não vai bem já na mocinha que faz o eletro. "O senhor tem sempre destas arritmias? Não está sentindo nada?"

- Eu não.



Ao ser atendido confirmo minha suspeita, ferrei-me novamente. O médico sério ligando pra um monte de hospitais onde tenha vaga pra fazer uma ecografia trans-esofágica, e um eletrochoque.

Estou com fluter atrial e o coração colado a 170 por minuto.

Ele pede a Cristina que compre uma injeção subcutânea de anticoagulante no caminho para o hospital que fará a eco e a aplique no meu bucho.

Não há tempo a perder. Com 170 fibrilações por minuto, se tiver um trombo vai se desprender. E, como ele fez um monte de cauterizações, é um risco sério.

No hospital o exame é invasivo, mas de um metro de tubo goela abaixo, e a doutora me explicando que posso enjoar, vomitar, etc.

Falo pra ela, "o que é um peido pra quem tá cagado".

Ela faz o exame e não acha trombo. Libera para o eletrochoque.

Corremos para o outro hospital onde tinha vaga no centro cirúrgico, já que o procedimento é sob anestesia e monitoramento.

Na ante-sala da UTI fazem fila para verem um coração a 170 e o dono sem sentir nada.

Nosso médico já tá esperando.

Ao pegarem a veia a perdem. A enfermeira pede desculpas. Dor do cacete.

Falo: "o que são dois peidos pra quem tá cagado". Ela não entende nada.

Começa a sedação, e meus pensamentos vão para a cadeira de pneus que sentei nela ontem. Não sei porque fui pensar logo nisto.



Levei o choque e o coração voltou ao normal.



Acordo na UTi, miha esposa sorridente. Eu bem tanquilo. Eis que adentra na sala e recuperação minha antiga estagiária, de 10 anos atrás. Penso, agora morri mesmo, é o filme de minha vida.



2 minuto depois, entra o cardiologista e explica que tava financiando uma casa com ela, e ao dizer quem estava na sala de recuperação, ela fez questão de me ver adordado pois eu houvera sido seu "chefe" em 2000.



Mais 1 minuto teria me cagado todo de medo de ter morrido.

O médico alegou que não sabe o que fez o coração colar novamente a 170 minuto, mais suspeita de uma inflamação e pequeno derrame pelos tiros que ele deu.

Na dúvida, como não sinto nada, obrigou-me a medir as batidas 3 vezes ao dia

Agora em casa, esperando nova injeção no bucho que a Cris me dará.

No caminho para casa, ja de alta após 12 horas de agonia, passamos por uma exposição de móveis.

Cris disse, estas aí sim, são bonitas!

Pensei ao ouvir aquele soco-comentário sobre minhas belas cadeiras de resto de pneu. "Oo que são 3 peidos pra quem tá cagado mesmo". rsrrs

Mas, se não fosse a Cris a burucracia não tinha liberado a cardioversão a tempo. Ela literalmente subiu as tamancas.

Estou tão furado que se tomar um suco vai sair por todo canto.

Mais um dia, mais uma vitória.

Em tempo: De quebra dei uma força a minha antiga estagiária da Dipes - Roberta Borges a vender uma casa para meu médico. Eles estavam negociando no escritório da UTI enquanto eu me recuperava da anestesia. Quando ela soube que e era eu o seu paciente, pediu-me para me ver ao me acordar. Demos boas risadas dos bons tempos que vivemos na Dipes.



Robertinha espero que feche negócio, vou cobrar minha Comissão em Stela Artois e picanha argentina.

Um conto de Natal

Sai cedinho com o JG para colher sangue, na avenida comercial do Jardim Botânico e encontro à venda, ao lado de um velho ônibus, este conjunto de terraço feito com restos de pneus velhos. Embeveci com o impacto ambiental positivo daquele produto. Colhi o sangue e na volta parei pra fazer negócio. Sr. Natanael, artesão de borracha, como se diz, natural de Quirinópolis-Go, seguiu-me com seu ônibus-1973.

Fomos descarregar o conjunto comprado lá em casa. Entre uma cadeira e outra descarregada, não me contive e perguntei a sua história com estas belas cadeiras.

Ele me falou que sempre se sentiu um perdedor da vida.
Ao falar seus olhos marejaram.
Farejei uma crônica. Pessoas simples, histórias belas.
Ele me disse que sempre foi um usurpador da natureza, um vilão.
Sempre esteve na ilegalidade.
Derrubava campos de futebol de matas protegidas por reservas e as revendia em madeira e carvão no mercado negro.
Até que um dia foi pego e perdeu tudo.
Depois passou a pescar, mas uma vez de forma ilegal, aproveitando a época do defeso para oferecer peixes, a preços convidativos.
Mais uma vez foi pego e perdeu tudo.
Sentia vergonha das enrascadas insustentáveis em que se metia.
Mas analfabeto, sem qualificação alguma, não sabia como criar seus dois filhos e a esposa.
Passou fome, fez biscates, e pra ter alguma comida em casa saia cedinho para pescar num velho opala.
Um dia pediu a Deus uma luz. Ele queria sair desta vida de perdedor, de ilegal, de só se meter em encrencas. Ele me disse isso sorrindo, não mais com olhos marejados, mais com uma altivez invejável.
"Cuidado com o que pede, vai que ele te atenda", falou-me sorrido.
Então, um belo dia, voltando de uma pescaria o seu carro quebrou perto de uma cidadezinha Paraíso das Águas-MT.
Caminhou até á cidade pra buscar ajuda, com apenas R$ 15,00 no bolso.
Bateu de porta em porta, como um pedinte, pedindo um socorro.
Numa das casinhas que bateu, morava outro remediado da vida, outro pobre como ele.
Este, o ofereceu pernoite. Cedinho, Natanael levantou-se e com os míseros R$ 15,00 investiu tudo em pães, leite e um bolo para agradecer ao seu anfitrião.
Ao voltar percebe na porta do casebre uma discussão. Tem alguém, de forma rude, cobrando uma dívida de seu anfitrião.
Ele interveio pedindo calma.
No calor da discussão o credor diz que montou uma borracharia em Paraíso, e que está precisando de todo o dinheiro que emprestara, por isso veio cobrar.
Naquele momento Sr. Natanael percebeu que Deus estava agindo.
Lembrou-se que houvera sido borracheiro, num dos tantos bicos que fizera.
Perguntou ao credor irado se ele estava precisando de funcionário, ao que ele respondeu que sim.
Falou inclusive que estava indo na cidade vizinha tentar contratar alguém, por isso precisava de dinheiro.
Sr. Natanael revelou que já houvera trabalhado numa borracharia e que trabalharia para ele até conseguir dinheiro para consertar seu Opala, e pagar a pequena dívida de seu anfitrião, pequena para nós que lemos este texto. Para um miserável, R$ 50,00 pode significar um mês de sobrevivência.

Feito o trato. Sr. Natanael mandou buscar a esposa e filho que ficaram todos albergados no pequeno casebre de seu solidário amigo.

Numa terça à tarde, dia de pouco movimento, Natanael resolve fazer com restos de borracha um mimo para sua esposa, um vaso de flores.

Ela adora o presente. Era o pouco que ele tinha para manifestar de alguma forma o seu amor, e o seu agradecimento, por ela acompanhá-lo nesta vida tão miserável.

Então, daquele simples vaso vai se espalhando a notícia - e notícia em cidade pequena voa que ele faz trabalhos artísticos com borracha.

Um dia, um distinto senhor, o procura para consertar sua velha poltrona feita de tiras de pneus.

Natanael comenta com sua esposa. "Que cadeira feia, acho que posso melhorá-la".

E assim o faz.

O seu cliente ficou maravilhado e muito agradecido com o belo serviço.

Este distinto senhor, de Paraíso das Águas, recebia muitas visitas, e todos queriam saber onde "comprara" aquela poltrona linda. Ele indicava o Natanael.

Os negócios prosperaram. Pagou a dívida do seu anfitrião, consertou seu Opala, e voltou para sua Quirinópolis. Ali abriu seu "atelier", e já se vão oito anos.

Sua história tão rica, tão verdadeira e humana, me fez comprar outro jogo de jardim para presentear meu irmão.
Agradeci ter conhecido Sr. Natanael. Na saída deixou seu cartão e pediu-me para chamar-lhe de Natal, como seus amigos o chamam. Agora os olhos que marejaram foram os meus.

Naquela simples e suja borracharia, tal qual a estrebaria na qual Jesus Nasceu, fez-se uma vida nova.

Naquele vaso de flores de borracha, feio aos olhos de tantos, mais feito com tanto carinho pelo Natal para sua esposa, estava o milagre de Deus na sua vida!

Minha esposa achou horríveis minhas belas cadeiras. Mas ainda não leu esta crônica. Quem sabe após ler mude de opinião. Às vezes, o contexto precisa do texto, e vice-versa, para termos pretextos de rever nossas posições.

Sempre me sentirei forte ao sentar-me nas cadeiras do Natal.

Nelas, Deus manifestou seu poder de transformar vidas insustentáveis, em sustentáveis.

Quem Sou?

Queria me apresentar melhor aos que foram se chegando no meu cantinho.
Amigos e amigas, sejam bem-vindos e bem-vindas ao meu blog.
Aqui é o meu ninho virtual. Meu diário. Onde me refrigero e me energizo para o arriscoso processo de viver. Onde compartilho os mais íntimos e os mais preciosos acontecimentos do meu vir-a-ser. Ao fazê-lo, crio identificações com outros nas mesmas situações que vivo - mobilizando uma rede de sentimentos e empatia, e porque não dizer de solidariedade.

Exponho-me e desnudo-me aqui. Foi minha opção e escolha ao criá-lo. E esta opção carrega em si mesma fortes riscos de ser mal compreendido e ou os derivados de qualquer exposição pública. Aqui posto meus medos, vitórias, decepções, alegrias...

Aqui é meu espaço catártico, caótico, sem nexo, sem pudores, sem comedimentos.

Não preciso de palco, nem tenho tendências ao exibicionismo. Só sinto prazer em relatar cenas que considero significativas no meu dia-a-dia, como se as compartilhassem numa roda de fogueira, ou na cozinha da casa da vovó. Ou num diário virtual.

Em alguns "compartilhares" corro o risco de ser mal interpretado, afinal as pessoas possuem percepções próprias, e posso ferir algum deles no seu mundo de valores.

A estes peço desculpas. Mas previno-lhe, poderei faze-lo novamente.

Já bastam tantas outras instituições que participo e nas quais tenho que por máscaras para ser aceito, não é?

Não vou candidatar-me a cargo público, nem tenho maiores pretensões profissionais, nada que o uso de meus posts poderiam "destruir' minha imagem. Bela imagem desta pança de cerveja.

Então, relaxei e gozei e aqui encontrei minha melhor porção.

Outro dia li de um fotógrafo famoso uma dica para boas fotos: " tire-as para você, não para que outros a vejam, ou para publicá-las em concursos."

O que posto é do meu infinito particular. E ao fazê-lo curo-me pela palavra.

Este blog é um cantinho de meu ser, com suas maluquices, besteiras e sentimentos.

Não participo mais de comunidade que precise vestir roupa para postar, entendem?

E não temo mais ser perseguido pelos meus posicionamentos. Já paguei este pedágio e foi muito caro.

Quem sou eu?

Eu já dei risada até a barriga doer. Já corri até perder o fôlego. Chorei até dormir e acordei com o rosto desfigurado. Faço inúmeras ricardadas. Já quis ser padre e revolucionário. Criei bode, cachorros, abelhas, peixes, gansos...
Já deitei na grama de madrugada e vi a lua virar sol. Fui filatelista, colecionador de decalques, torcedor da Raposa, atleta e professor de natação. Já me perdi andando pela Caatinga. Já atirei numa espingarda 36, e de raspão acertei a mamãe. Já aprontei com as amadas, e tive homéricas dores de consciência. Gosto de cozinhar, gosto de receber amigos, gosto de lecionar.

Às vezes sou tímido, quase um bicho do mato, noutras pareço um camelô, de tão falante. Posso até aparentar ser um chatildo, sei lá, às vezes eu sou mesmo.

Não coço o saco, não gosto de ficar papeando sobre carros da moda, futebol, ou mulher. Não cuspo no chão e não sei olhar para as partes energéticas femininas, sem ficar vermelho ou dá na cara.

Tenho dificuldade de me defender, e quando não gosto de algo, todo mundo percebe. Tenho medo de tirar sangue e de dentista. Não gosto de confusão, de barraco. Quase parto dessa pra melhor, num acidente de moto. Odeio ficar parado, inclusive em cama de hospital. Desde o acidente de moto, nunca mais subi numa possante. Daquele acidente, restou-me uma sequela para lembranças afetivas, tenho que olhar as fotos para lembrar.

Não fixo nomes e rostos, tudo é difícil de recordar, por isso bato um monte de fotos. Deve ser um problema com a porta USB de meu cérebro.

Abandonei o 3º ano de Eng. Civil, ao engravidar - nas coxas a minha antiga namorada (é verdade, mas ninguém acredita, só eu e ela).
Fui professor de religião, em colégio de freiras, As Damas. A ex-namorada que engravidei, mãe de meus 3 primeiros filhos, estudava naquele colégio, embora não fosse minha aluna, assim mesmo a notícia causou frisson. Divorciei-me aos 10 anos de casado, casei novamente com Cristina e com ela tive meus 4º filho.
Sou pai do Tiago (27), Priscila (24), Rodrigo (22) e João Gabriel (2,5).

Entrei no BB e em psicologia por provocações externas. De um guardinha que me barrou noa cesso ao estacionamento do BB, quando me dirigia para fazer a compensação pelo Banorte, banco que trabalhava. Ele disse que eu entraria se estivesse de moto ou de carro, mas de bicicleta só funcionários do BB. E em psicologia por ser alertado por uma senhora da igreja que eu não poderia conduzir umas dinâmicas de grupo, num encontro da pastoral da juventude. Para ela, só psicólogos poderiam. Ainda bem que não briguei com ela, ela foi a Coordenadora do curso de psi que fiz na UEPB. Sim, ao ingressar no BB fui de bicicleta no BB Campina Grande-PB, para abrir a conta e preparar os documentos para posse em Poções-BA. O guardinha ficou puto, mas teve que me deixar entrar.

Fundei uma ONG que cuidava de portadores do vírus da aids, o GAV.

Gosto de goiaba e jambo, já subi em árvore pra roubar fruta, subi em telhado para empinar papagaios. Desci calçada de patinete, freando com a chinela no chão. Fiz caverna do super-herói, no sotão lá de casa. Adorava ver "Viagem ao Fundo do Mar" e "Perdidos no Espaço". Sempre gostei de tecnologia. Tenho medo de polícia e de ladrão.

Vi meu ônibus sair, ficando com o bilhete na mão, corri atrás dele, pagando mico e perdendo a condução. Alás já paguei inúmeros micos, me acho um pouco Mr. Bean.

Já quase me afoguei no mar. Na infância adorava monteiro Lobato e a coleção Pequenos Cientistas.

Nadava um hora por dia para compensar um crescimento do coração, que depois ficou provado que era ósseo, este coração...

Cai de escada de coral e quebrei o braço, já fiz juras de amor eterno, e serenatas. Já saí para caminhar sem rumo, sem nada na cabeça, ou tudo, só para ouvir as estrelas e falar com a lua. Já corri pra não deixar alguém chorando. Já fiquei sozinho no meio de mil pessoas, sentindo a falta de uma só. Já vi pôr-de-sol vermelho, já olhei a cidade do alto, e mesmo assim não encontrei o meu lugar.

Já levei bofete no olho e nunca mais briguei. Sim já brochei, e acho que na infância fiz troca-troca, não me lembro bem.

Vez por outra posto vídeo ou fotos de cuecas ou semi-nu que são uma atração à parte.

Este sou eu, um monte de contradições, de sentimentos confusos, e maluquices.

Mas, de uma coisa tenham certeza, sou muito fiel a alguns valores, e por eles me transformo continuamente: a fé em Jesus - que nunca a perdi embora a não diga o mesmo de suas igrejas, as amizades, a família, o trabalho, a gratidão, a solidariedade, a bondade, a força de vontade de teimar em sempre recomeçar.

Tenho um blog e ficarei honrado com sua visita.

Restauração

Desde 1995 fiquei com raiva do natal.
Naquele ano houve profundas transformações na minha vida e me separei.
Então o natal passou a soar melancólico para mim.
Lembrava das novenas de natal que conduzia.
Dos jantares ao som de noite feliz.
Das visitas aos parentes e hospitais.
Mas, como recém-separado, virei a sensação daquele ano da Igreja do Rosário, fui marginalizado.
Todos olhavam com ares de crítica, eu era o louco que houvera abandonado 3 criancinhas por causa de uma mulher, etc etc etc.
Todos que militavam comigo, desde a mais tenra idade, nas pastorais da Igreja do Rosário passaram a me ignorar.
Virei um "maldito".
Uma companhia nada desejável. Um louco varrido.
Onde ainda encontrei algum apoio foram com pessoas não crentes.
Ninguém perguntava minhas razões, só me condenavam.
O que mais me doía era não poder participar do sacramento da Comunhão pois, separados não podem, segundo o código canônico.
Então, rompi com tudo aquilo que se chamava igreja.
Em Brasília não procurei mais. Mas não perdi a fé nas coisas do alto. só nas coisas daqui de baixo.

Contudo, acho que no íntimo fiquei de mal de Deus. Era como se eu esperasse uma defesa Dele, um agir contra tanta hipocrisia.

Então natal passou a representar o que eu não tinha mais, as novenas, os "noite felizes", a comunidade cristã, os pais e filhos longes.

Então achava um tanto triste e torcia para passar logo.

Criticava a festa de árvores, luzes e consumo que desvirtuou o natal, do sentido do nascimento de Cristo. Sem falar nas músicas pegajosas, no povo que briga o ano todo e se junta pra se "confraternizar" e dos excluídos do acesso aos templos do consumo.

Hoje me peguei sintonizando as músicas de natal na Sky, canal 464.
Acho que fiz as pazes com o natal, e talvez comigo mesmo.

Uma alegria e a sensação de quem tira um fardo enorme dos ombros invadiu meu ser.

Perdoei a Deus. Ele não teve culpa. E chorei. Fazia tanto tempo que não chorava. Um choro gostoso, soluçado, daqueles que a gente não quer que pare pois é choro de libertação, alívio, de alegria.

Tal qual uma fumaça, o luto da abrupta ruptura do convívio com pais, filhos, amigos, do GAV, da Igreja do Rosário - onde um dia quis ser padre, da minha querida cidade, que carregava desde 1995 ao vir para Brasília, se esvaiu.

Então, compartilho com meus amigos e amigas que este natal de 2011 está sendo meu primeiro natal desde 1995.

Aos que me leem, e estão sofrendo uma espécie de luto nestes dias. E que se sentem melancólicos, amargurados, faço votos para que num belo dia, num dia qualquer, como este 18/12, vocês chorem rios de lágrimas, como o fiz a pouco, e que sejam aquelas que estavam contidas no mais fundo do coração.

Que estas lágrimas lavem seu pesar e os libertem de toda mágoa, culpa, e sofrimento.

Agora vou tirar a Rena de luzinhas da caixa e montá-la.

Posto a música que cantava nas novenas de natal que conduzia, em nove residências, desde meus 11 anos de idade e até meus 29.

Feliz Natal!
Noite Feliz
http://www.youtube.com/watch?v=pBlpi_bx2Hk&feature=related

A Teia da Vida



A vida se impõe, mesmo quando de tão machucados com o dia-a-dia aprendemos a construir teias, a enredar armações, a aprisionar presas - reais ou imaginárias, interiores ou exteriores, para sobreviver.

Eis que um belo dia o amor e o perdão pedem passagem e nos resgatam.

Eles chegam de mansinho, com a docilidade de uma gota de água, e restabelecem nosso fluxo vital. Restauram forças esgotadas.

Ficamos surpresos conosco mesmos, pois aranha pesávamos que éramos, de tão fragilizados que estávamos em nossa auto-estima e sentido da vida.

Estas gotas podem vir do outro que cruza em nossa caminho. Este outro que confia em nós, que nos incentiva a superar nossas limitações.

Que enxerga em nós, tal qual amor de mãe, para além do que apresentamos de "fachada". Para além de nossa teia sufocante ou de nossas personas toxicas.

Assim como esta surpresa-aranha, que nunca imaginou que sua teia acumularia água, nosso ser quando tocado pelo amor explode em renascimentos, e novas todas as coisas se fazem.

Bendita aranha, bendita chuva, bendita teia que recolhe, além de pobres insetos, água que subverte a sua ordem reinante, e transcende ao seu próprio vir-a-ser.

Não é no Proctologista!

Fazendo o exame periódico, digo ao médico que estou legal, só o que me incomoda é que tenho ido ao banheiro com a sensação de querer fazer xixi, e aí eu espero, espero e nada!
O médico olha-me por cima dos óculos, e diz que é bom que eu procure um especialista, mas que deve ser estresse.
Seis meses se passaram e resolvo procurar um especialista, já que o “problema” continua.
Entro na Internet e começo a fuçar para ver o que pode está ocasionando isto.
Fico logo informado que estes sintomas podem indicar uma inflamação ou tumor na próstata.
Vixe! Problemas na próstata nunca são bem-vindos.
Pergunto a um colega de trabalho qual é a especialidade de um médico de próstata,
Ele diz que é claro que é um proctologista. Entro no site da Cassi . Seleciono uns nomes e o começo a telefonar, marco logo com o primeiro que tem vaga.
De manhã acordo ansioso. Tomo aquele banho, preparo-me para o “exame cruel”, até cueca nova boto.
Não quis ver nem a cara da mulher, sai mais cedo do que ela.
Do trabalho vou ao médico.
Chego no estacionamento do Setor Hospitalar Norte e procuro uma meia hora o Bloco N e nada.
Pergunto ao flanelinha, ele olha para meu papel e diz que meu endereço é no Setor Hospitalar Sul.
Realmente, estava nervoso.
Lá sigo para a Asa Sul, agora distante uns 18 KM de onde me encontrava.
Chego no consultório. Faço a ficha.
Aguardo, cabisbaixo, a minha vez.
Não sem olhar de soslaio para as outras vítimas masculinas que ali se encontram.
Pouco tempo depois, um médico sai com uma ficha na mão e me chama.

“Sr. Ricardo!”

“Sou eu doutor.”

Ele diz, que eu posso entrar e complementa com um risonho “seja bem-vindo”.
Eu penso: "só se for bem-vindo ao inferno".
Mas, me afeiçoei com o cara.
Pinta de boa gente.
Dedos grandes... ui!
Conto meu caso.
Digo a história do xixi intermitente, da sensação de sobrar ainda xixi pra fazer, e que, para "acalmar a mulher”, vim fazer o toque anal.
Ele sutilmente me corrige.
Diz que é toque retal. (1º mico)
Ele continua a conversa e diz que sentir a próstata não é a especialidade de um proctologista, por incrível que pareça, e sim de um urologista.
Que ele pode até fazer o toque retal, mas que mesmo assim terei que fazer de novo com um urologista.
Eu digo:
“é ruim heim doutor, 2 vezes no mesmo dia, desse jeito vou acabar gostando!”.
Ele se despede e indica um urologista, seu amigo.
Saí pensando, “que merda, logo agora que já tinha vencido a timidez e medo, vou ter que falar tudo de novo a um outro cara.”
Eu já tinha até me afeiçoado com aquele médico.
Lá vou eu ao urologista.
Consigo com a simpática recepcionista, excepcionalmente, um encaixe numa desistência que acontecera.
Entro no consultório.
Um senhor gordo, fortão, falador, me recebe.
Pelo aperto de mão sinto que estou no profissional certo.
Conversa vai, conversa vem, pergunta da família, do trabalho, eu cá com meus botões pensando: “são as preliminares”.
Repito meu sintoma.
Ele pergunta se eu estou tomando descongestionante nasal.
Eu digo, “que diabos descongestionante nasal tem a ver com dificuldade de fazer xixi.?”
Ele diz que é um dos efeitos colaterais daquelas drogas.
            Dou uma risada
Nunca pensei que um simples descongestionante provocasse uma falência hidráulica
Então ele dá o golpe mortal:
“Vamos ali...”
Vamos fazer um "toquezinho rápido", fiquei imaginando: “como será o demorado!”?
Ele pede que eu me dispa.
Vou logo tirando o sapato e a camisa;
Ele diz que não precisa, só a calça e a cueca. (2º mico)
Fico nu e vou me preparando para ficar de bruços na maca, com a bufança pra cima.
Ele então sorrindo diz:
“Assim já é covardia, pode deitar de frente mesmo!”
Eu penso: terceiro mico!
Só comigo...
Ele tenta me consolar dizendo que é um exame rotineiro
Eu penso, “só se for pra ele”.
Então, enquanto ele se prepara, blefo dizendo que não estou tenso, pois sou psicólogo e preparado para momentos tensos.
Ele só faz: “hummm!’
Não sei o que aquele “humm...” significou, aliás, 1 minuto depois eu soube.
Sem dizer mais nada, ele se apropriou do “meu ser”. Sem piedade.
Quando vi o dedo dele já tava mexendo lá por dentro.
Oooohh cabra bruto!
E ele ainda fica comentado: “a próstata tá mole!”.
Eu pergunto se é ruim ou bom!
Ele diz que é bom.
Termina o exame, sem nenhuma palavra de consolo ou de carinho.
Volto para sua sala, com uma sensação estranha.
Ele me diz que notou uma pequena inflamação, coisa discreta, e que passará exames complementares.
E, caso não detectassse nada nos exames complementares, eu precisaria fazer um acompanhamento
Pensei: “qual será a periodicidade deste acompanhamento”?
Vai que seja mensal!!!
Eu heim!!
Sai dali, desconfiado, para pedir os exames nas mocinhas da recepção.
Pergunto pra mocinha toda sorridente que me atende (um sorriso como quem diz: “num é bom bichim!”!)
Como é mesmo o nome do médico que me atendeu?
Ela olha-me espantada!
“O senhor foi atendido por um médico e não sabia nem o nome dele?”
Eu disse: “saber o nome, nestes casos, pode complicar!”.
A mocinha sorriu.
Voltei para casa remoendo sensações estranhas.
Uma coisa descobri: no mínimo este exame serve para memória!
Aos colegas, com mais de 40, que lêem esta história - quem examina próstata é o Urologista!


Caminhos do Amor

Cristina e nosso filho o JG (dez-2011)


Nos idos de 1995 eu era voluntário, em Campina Grande-PB, de uma ONG chamada Grupo de Apoio à Vida - GAV.
Como fruto daquele trabalho, acabei sendo convidado para preparar e ministrar dois cursos no Rio de Janeiro, no Encontro Nacional de Pessoas Vivendo com AIDS, com os temas: PERCEPÇÃO SOCIAL EM TEMPOS DE AIDS e O CORPO FALA. No sábado a sala do curso estava lotada. Casa cheia. Sem mais vagas. Insistentemente, uma turma batia à porta, pedindo para adentrar ao recinto. Fiz um acordo com os participantes, para que eles permitissem que aquele grupo do Paraná pudesse adentrar, ficando sentados nos corredores.

Tudo ok!

O primeiro curso foi puxado e cheio de emoções. Terminei um bagaço.
No encerramento uma jovem da delegação paranaense procurou-me dizendo que houvera adorado a forma de condução.
 Fiquei todo "ancho". (orgulhoso)
Manhã de domingo, 2º curso, 2º tema, 2ª sala lotada, 2ª batida na porta, 2ª delegação do Paraná que chega afobada pedindo uma exceção.
Mais um acordo com o grupo, mais uma flexibilização nas normas.Afinal, regras foram feitas para serem flexibilizadas, quando a ética fala mais forte. No final do curso, a mesma jovem chega fazendo elogios e convida-me para o jantar de despedida da delegação do Paraná que seria na cobertura do hotel onde estavam hospedados, em Copacabana.

Eu falei sorrindo: - Só assim vocês me pagam as duas exceções! À noite, depois de uns 3 chopes, percebi a beleza daquela jovem. Seu sorriso era contagiante. E não deu outra - entre um choppe e outro lasquei-lhe um beijo na boca.Ela chorou.Eu disse se tá chorando porquê você tem AIDS, e eu estou te beijando, deixe de besteira.Para pegar AIDS pelo beijo os dois têm que ter sangramento na boca, e eu pelo menos não tenho. Ela não falou nada.

Continuava feliz, mas de vez em quando caia uma lágrima. E eu mudei a estratégia dizendo:

 - Se está chorando com medo de está sendo enganada, com o golpe do “cara que ta se divorciando”, fique tranqüila, mês que vem a papelada estará pronta e poderei te provar. Ela deu uma gargalhada e disse:

- Não é nada disso seu bobo. Primeiro não tenho AIDS.

Eu disse:

- Como você participou dos meus cursos, cujo público-alvo era portadores do vírus da AIDS?

Ela falou:

- É que cuido de 30 portadores e precisava me capacitar. Segundo, se você está me dizendo que está divorciado eu acredito.

Eu disse:

- E por que cargas d água este choro?

Ela falou que quando as coisas entre ela e um cara estavam ficando boas, como naquela noite, ela achava que que acabaria, mais cedo ou mais tarde, estragando o clima, e depois ficava se sentido culpada. Pedi que ela fosse mais clara. Ela disse que temia que eu a chamasse para o “vamos ver”, e, como ela era virgem, não aceitava este tipo de convite, e com a sua negativa, a noite acabava indo para o brejo, uma vez que o proponente ficava muio irado, eroticamente falando. Eu pensei ligeiro e falei:

- Minha fia, hímen na Paraíba não é um troféu. A noite está linda, respeitarei teu momento, que tal continuarmos nesta cobertura, conversando, rindo com nossas besteiras, olhando as estelas e contando causos.

Voltei para Campina Grande apaixonado. Os colegas perguntavam o que era aquele maldito sorriso que eu estampava no rosto. Eu caladinho num dizia nada. Segredo! Passaram-se três anos daquele encontro, já namorávamos três anos à distância. Nas minhas férias eu a encontrava, e nas delas ela me encontrava. Para matar as saudades eram um tal de telefonema para lá e para cá, cartas, e email que num acabavam mais.

Ela trabalhava como assistente social na Fundação Telepar, e não conseguia um emprego com este perfil/remuneração em Campina Grande-PB. Naquele mês de junho-1998, endoidei de saudade. Campina Grande respirava São João, que por sua vez inspirava os casais apaixonados a dançarem nas quadrilhas, forrós e a desfilarem abraçadinhos no Parque do Povo. Pensei então em aproveitar uma reunião para despacho de Operações de Crédito, que teria com o Superintendente Regional (SUREG) do BB de  Campina Grande, para pedir sua ajuda para conseguir uma transferência para Londrina - PR.

Entrei na sala do Superintendente Regional (SUREG) do Banco do Brasil, chamado Gregório Magno. Ele fumava um charuto (naquela época ainda podia), abri os dossiês e esclareci algumas pendências nas operações sobre análise. No final da reunião, tomei coragem, e pedi para ele ligar para o Sureg de Londrina-PR (acho que era o Altino) tentando ver se havia vaga na sua jurisdição, nem que fosse como posto-efetivo.

Então ouvi o “eita porra’ mais sonoro da minha vida. O Gregório bufava de indignação. Dizia:

- Tu ficaste doido. Vai acabar com tua carreira. Mês que vem abre uma vaga de Gerente Negocial na Sureg, você tem todo o perfil para concorrer à vaga. Não vou fazer uma besteira desta. Volte para a seu setor!

Puxei o fôlego, mordi a língua, e bati em retirada. Os olhos cheios de lágrimas. Uma vontade danada de pedir demissão e jogar tudo para as favas. Quando caminhava no corredor, em direção ao elevador, ouvi ao longe o grito do Gregório:

- Ricardim, qual o motivo desta doidice?

Voltei esperançoso e um tanto constrangido. Afinal, falar o real motivo podia ser mal interpretado, e queimar minha carreira. Ele, e muitos outros, poderiam pensar que eu estava descompromissado com o Banco e que tinha endoidado.

Mas, optei pela verdade:

- Chefe estou apaixonado por uma moçoila de lá, e faz 3 anos que namoro à distância. Num guento mais. Ele disse:

- Assim a coisa é diferente. Se tem amor no meio pode contar comigo. Como é mesmo o nome do Sureg Londrina-PR, vamos ligar para ele e interceder.

Na mesma hora ele ligou para o Altino. Altino, foi muito atencioso, mas alegou que não havia mais nenhuma vaga. Em Londrina houvera sido fechados órgãos regionais e a praça era exportadora de mão de obra.

No gesto e fisionomia do Gregório, ao receber aquela notícia, senti o quanto ele tinha se preocupado comigo. Vi como um gestor amigo faz a diferença na vida de um colega. Ele chegou a ficar triste. Solidarizou-se. Quis saber os detalhes do namoro, quem era ela, como eu fazia com a saudade, etc, etc, etc.

Uma ano depois, em 1999, passei numa seleção para analista júnior, na Controladoria, agora só ficaria a 1.000 km de Londrina, daria até para pegar um ônibus na sexta-feira, vê-la no sábado, voltando no domingo. Pense numa fuleiragem amorosa!

O Gregório ainda teve um último gesto de solidariedade. À época a UFRH só tava liberando a posse de funcionários, oriundos de agência com mais de 50% de claros na dotação, se contasse com o “de acordo” da Estadual.

O Gregório defendeu o parecer favorável, junto ao Estadual, e expediu de sua própria máquina o “de acordo”.

 Em tempo: Aquela jovem conseguiu passar num concurso em Brasília, em 2000. Casamos-nos em 2006.


Empurrãozinho na Auto-Estima.

Alcione, Pedro e Shirley - BB Poções-BA, 1986
Para meus filhos... 

Como cheguei ao BB. (Leiam nas vezes que fecharem as portas de seu viver)

Em 1984-86, eu era compensador do Banco Nacional do Norte - BANORTE. Todas as noites, ia com minha moto levando o malote de cheques do Banorte, para a a Câmara de Compensação do BB - de Campina Grande (Ag. 0063-9). 

Dava uma buzinada e o guardinha deixava colocá-la no estacionamento interno da agência. Adorava aquele ambiente, no qual nos encontrávamos com funcis de todos os bancos, para fazer a Compe. Quando a Câmara "batia na hora", era motivo de comemoração. Ninguém teria que pagar multa. Isto mesmo. Multa!

O Banco responsável pelo atraso da Compe, tinha que recolher ao BB uma multa. Esta taxa o Banqueiro particular repassava para seu funci-compensador. Quando a compe "batia na hora", saíamos e tomávamos uma cervejinha antes de ir para casa, lá pelas duas da manhã.

Numa destas madrugadas me estrepei com a moto (fevereiro 1986) ao ir para casa, conseguindo a proeza de bater num parabrisas de um carro que descia uma ladeira em alta-velocidade. Quase morro! A moto de tão amassada, só serviu para o ferro-velho. Após um mês de licença-saúde, e com a cabeça colada, vendi a moto no ferro velho, e com o pouco dinheiro que rendeu comprei uma bicicleta. Naquela segunda feira, 30 dias após meu afastamento, retorno ao Banorte.
Vou pedalando e feliz. Afinal, escapei por pouco. Restou uma amnésia, coisa besta.

Chego no Banorte e sou recebido com festa.
Senti que era querido.
Compensadores de vários bancos passam por lá e me abraçam. Todos dizem:
"Te aguardamos mais tarde, às 23hrs, na abertura da Compe BB".

Não vejo a hora de levar os cheques e rever os amigos dos vários bancos.

Às 22 hrs já estou com tudo pronto, loteado, capeado, compe 30 nos trinques.
Sigo para o BB, pedalando e feliz.
Num dos guidons da direção, vai pendurado o malotinho da compe.
A distancia era pequena, uns 300 metros.
Chegando naquela imensa portaria de ferro, que dava acesso ao estacionamento e sub-solo da compe, buzino com a campainha da bicicleta.
E faço trim-trim no portão do BB.
O guardinha olha para mim e diz:
- Com bicicleta você do Banorte não pode entrar.
Eu digo:
- Como?

O guardinha irredutível afirma que só pode entrar no estacionamento veículos (motos e carros), e que "ordens são ordens". Além disso, "de bicicleta só o pessoá do BB".

Corri para deixar de volta no Banorte a bicicleta. Depois desembestei numa maratona de 300 metros, a mais rápida da minha vida, só imaginando a multa que poderia pagar, afinal faltavam pouco tempo para abrir a Compe. Cheguei ainda a tempo, morto de cansado, e bati na portinhola do BB. O guardinha abriu, não sem esconder uma ponta de sarcasmo no seu rosto.

Eu olhei para aquele guardinha e disse:
"- Um dia ainda vou entrar de bicicleta aqui!"

Ele falou:
"- Só se for funcionário! De outros bancos só de carro ou a pé."
Depois daquela noite, nunca estudei tanto na vida para entrar no BB. Chegava da Compe e, antes de dormir, ainda fazia uma série de execícios da apostila do Celso André.

Para encurtar a história, 4 meses depois eu passava no concurso do BB.
Aprovado na datilografia, no admissional. Baixa da profissional do Banorte e agendamento de apresentação no BB para a segunda feira.
Recebo uma carta-convocação para posse dizendo inclusive que, caso precisasse do auxílio deslocamento, fosse na agência qualificadora, munido daquele documento para receber o adiantamento daquele dinheiro.
E eu precisava, e como!
Iria tomar posse em Poções-BA, distante 1.800 KM de Campina Grande-PB, via Itapemirim.
Despedi-me do pessoal do Banorte.
E, no outro dia monto na grandiosa bicicleta e sigo para o BB.
Do sorriso estampado no rosto, umas gostas de veneno escorriam.
Fiz trim-trim, o guardinha abriu a portinhola e disse-me.
"De bicicleta, sem crachá do BB, não entra no estacionamento."
Perguntei-lhe: "Funcionário entra?"
Ele disse, "Sim, Até de Jegue"...

Então, mostrei-lhe um termo de posse.

Ele estranhou. Aquilo em minhas mãos. Cara, crachá!
Saiu da rotina. Ele, desconcertado que ficara, disse-me que iria falar com o chefe e fechou a portinhola. Uma pequenininha, veja na porta de alumínio do lado direito da foto.
Aqueles minutos foram séculos. Logo após, ele reabre a portinhola e me diz, com uma expressão frustada e incredúla:

- O sr. pode entrar!

Aquele pedalar representou o trajeto mais bonito que vivi. Confesso que vivi.
Todo garboso segui para III Andar, no qual funcionava o administrativo, pegando o elevador do sub-solo.
Entrei por aquele portão de bicicleta... nele fiquei... e lá se vão 27 anos de amor/ ódio, alegria/tristeza, esperança/desesperança, otimismo/pessimismo... sempre vencendo nos duetos os primeiros substantivos, os mais importantes.
Agradeço àquele guardinha, ele não sabe o bem que me fez!
Nem sempre quem te fecha o portão, fecha as portas de teu viver.
"Faça da queda um passo de dança."

Solidariedaids!

Ministrando Palestra  -  Causa da AIDS
Em 12 março de 1994 fundei, junto com minha ex-mulher e Eliana, o Grupo de Apoio à Vida - GAV.
Dedicamos nossas vidas a este grupo; místico, mágico e mobilizador.  Todos os serviços que prestávamos eram gratuitos. E toda a ajuda que recebíamos era voluntária, principalmente de colegas do BB Campina Grande-PB. O grupo tinha mais de 30 voluntários, nas mais diversas especialidades. Ainda existe. Chama-se GAV - Grupo de Apoio à Vida, e foi a primeira Ong-Aids da Paraíba. Fazíamos visitas domiciliares, tínhamos um disk-aids, campanhas por alimentação e medicação, protestos para aumento da assistência e fim do preconceitos. Semanalmente nos reuníamos para avaliar a situação e trocar experiências, além de chorar e esperançar juntos.

Abaixo um extrato de nosso caminhada.
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APENAS SÓ MAIS UMA NOITE DE Solidariedade ...

18:00 (Sábado)

Telefone toca no disk-aids.
As informações passadas, colhidas por todo o dia, do paciente R. apontam para um preocupante estado depressivo. Preocupante, porque o paciente tem história de suicídio, uma vez que crises de depressão são"normais" para quem tem a doença.

Precisamos agir!

É hora de entrar em contato com outros portadores e formar o comitê de auto-ajuda.

18:30
Corredores do hospital vazios. Um vazio angustiante, alguns poucos doentes caminham com seus pedestais de soro.

18:35
Nos aproximamos da enfermaria onde estão companheiros infectados. Levamos nas mãos os equipamentos que compramos com a doação recebida do PROJETO NOSSO IRMÃO (BANCO DO BRASIL): uma TV Preto e Branco, um ventilador e um radio-gravador.

18:40
Tomamos fôlego para entrar no quarto. Precisamos de bastante energia: é uma visita que precisa funcionar, do ponto de vista motivacional, para um dos companheiros do GAV, que está com depressão e tem historia de suicídio.

18:41
- Surpresa!
- Ventilador para matar o calor...
- Televisão para ver a novela...
- Radio-Gravador para ouvir Juarez Amaral...

18:42
R.L nos olha com a vista perdida. Aproximo-me dele e digo:
- E aí cara , não foi você mesmo que falou que os portadores são "fera", "arrebentam". O que é que tá acontecendo contigo?

Sento-me na sua cama, conversamos sobre novas drogas, vejo suas fotos, falamos do GAV , seus projetos e seus sonhos.
Com um meneio na cabeça, R.L pede para que eu me aproxime e quase que num cochicho diz:

- Me chama a Dliretora do Hospital, não agüento mais, quero morrer.

Olho para o grupo da visita, o que dizer?
O que dizer a quem já luta por 2 anos contra este vírus cruel?

O silêncio se faz.

É um silêncio em que olhares se cruzam, olhos ficam marejados, o grupo ansioso espera.

Folheio suas fotos, ganhando tempo, olho para seu companheiro de quarto, ele também espera uma resposta.

De repente percebo que ele está com uma Bíblia na mãos, seria aquela uma resposta?

(Vacilo... Somos uma ONG não religiosa, porém respeitamos as crenças seria ético entrar por aí? Particularmente sou religioso , o que se costuma chamar vulgarmente de "católico praticante")

- R.L, você crer em Deus?
- Sim! Ele é meu sustento.
- O que você você responderia a JESUS quando chegasse lá por cima e Ele lhe perguntasse: O que você veio fazer aqui? Sabes que ainda não te chamei?
Quem vai dar testemunho de luta no teu lugar? Quem vai estimular outros portadores a lutarem?

Noto que seus olhos brilham. Ele sentiu a fisgada. Como que mudasse de assunto R.L tenta responder porque resiste a tanto tempo...

Lembra dos primeiros anos da doença, das primeiras infecções, de tantos que ajudou a não se desesperar. A cada lembrança de luta, seus olhos brilham com mais intensidade.

19:42

O grupo já mais relaxado faz projetos, como se estivera numa de suas reuniões ordinárias, ali, na beira do leito de RL.
. Nosso amigo, já mais animado, lembra-se que pode dar cursos de primeiros socorros, aos portadores assistidos pelo GAV. Que pode até ficar um período na sede fazendo plantão no disk-aids.

19:43
Entra um profissional que "veste branco" no quarto, sem dar conta do que se passou ali, fala em voz alta:

- LEVANTEM-SE DA CAMA. VISITAS NÃO SENTAM NA CAMA, PODEM TRAZER DOENÇA

R.L espera ele sair e "dá a língua".

Nós rimos.

Um riso gostoso, um riso fraterno.

Aquela "dada de língua" de RL, era um sinal de esperança.

Em tempo: RL virou um dos ativistas mais fortes do GAV. Morreu em 1998, após resistir por 4 anos à doença.

01/12 - Dia Internacional de Luta Contra Aids

Hoje é o dia Internacional de luta contra a Aids.

Aos portadores do vírus, uma palavra de esperança - a cura virá, continuem resistindo.

Aos que não se previnem, um alerta: a Aids avança justamente pela soberba e ignorância dos que dizem: "eu sei quem tem aids", ou "se eu me infectar tomo o coquetel de retroviral e cura".

Ambos errados.

Quem ama, protege! Use camisinha.


Reproduzo um dos textos que escrevi quando estive à frente de uma ONG Aids, o GAV, em Campina Grande-PB, de 1994 a 1999.
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Muita coisa muda quando se descobre a soropositividade. Mas, a vida é mudança permanente. Viver é modificar-se. Portanto, precisamos aprender a conviver com essas modificações necessárias, a nossa vida quotidiana.

Não há nenhuma , ou quase nenhuma informação para a pessoa portadora do vírus. Esta é uma fase difícil de ser ultrapassada. Os primeiros momentos são sempre de grande insegurança , inquietação e instabilidade. O impacto da notícia gera terror e pânico. É precisamos entender com clareza as opções que se tem pela frente.
Só não podemos nos deixar matar pelo medo e pelos preconceitos, inclusive por aqueles que estão dentro de nós mesmos. O impacto do HIV atinge muito mais do que as pessoas HIV positivas. Tem implicações para seus parceiros sexuais e membros da família, e foi por esta razão que a X Conferência Internacional de AIDS, realizada no Japão declarou que a família exerce um papel preponderante nas terapias e na evolução da doença.

Por outro lado, as pessoas HIV positivas têm um papel importante no apoio prestado a outras pessoas na mesma situação, já que sua experiência de viver com o vírus pode ajudá-las a entender os sentimentos e reações dessas outras pessoas.

A solidão , a clandestinidade vai produzindo uma morte - a morte social. Amigos e parentes muitas vezes deixam de visitar, ou quando visitam olham para portadores do HIV como se fora marcianos.

Caso você tenha algum amigo portador do vírus HIV saiba que sua presença amiga, sua solidariedade, seu apoio, melhora a imunidade e potencializa os efeitos dos medicamentos que ele toma, ajudando inclusive para que ele não desista de tomá-los ou de cuidar-se.

Saiba que seu amigo é um lutador, e que a cada dia sobrevivido é um a menos para a hora da cura.

E que todos os muros e monstros do preconceitos caiam, abrindo possibilidades de encontro e solidariedade para quem em HIV-Aids.

Carregue Menos Fardos!

Às vezes, tal qual este bimotor a hélice - ultrapassado junto aos grandalhões turbinados, mas eficiente em sua trajetória, precisamos voltar às nossa origens e recuperar nossos antigos projetos de vida e valores.

Tal qual este velho bimotor, cumprindo sua missão, nossa felicidade pode está justamente em carregar menos fardos, ser menos potente, valente, inclemente, menos vaidoso, ter menos quereres e poderes.

Sem importar-se com os grandalhões à nossa volta, ostentando a marca da hora, o discurso da hora, e de alta toxidade emocional.

Cada vez fico mais convicto que o segredo da vida plena é uma utopia, uma fantasia, uma idiossincrasia.

Um jeito de viver desapegado, simples, permitindo-se diminuir o ritmo, para contemplar a beleza da vida e criar vínculos verdadeiros com todos que nos rodeiam.

O problema é que nos adaptamos aos novos tempos e tocamos nossa vida, e a de nossos filhos, com a velocidade de jatos de cruzeiros.

Neste devir tão veloz, os espaços para encontros verdadeiros ou para contemplação rareiam.

Há crianças que de tão completa sua agenda não têm tempo para brincarem.

Há adultos que de tanto empenho no trabalho, com suas jornadas de 12 horas, além de continuarem trabalhando nos seus lares, não possuem mais tempo livre para levarem-se para passear.
Sem falar que quando possuem um certo tempo livre precisam correr nos estudos para não serem descartados pelo mercado.

Alguns dirão, mas esta é a realidade do mundo corporativo.

Não resta dúvida.

Mas, a sociedade avançará.

Chegará um tempo no qual as pessoas pensarão duas vezes antes de assumir determinadas posições corporativas, sopesando o custo de vida que terão que arcar para bem desempenhá-las.

Chegará um tempo que voltaremos a colocar as cadeiras nas calçadas para conversar alegremente com nossos vizinhos, sentindo o vento-aracati soprando em nosso ser.

Nem que sejam calçadas virtuais, tais como esta do FB.

Nos perguntaremos de que vale tanta correria, tanta competição, se no final o bimotor a hélice também cumpriu a sua missão. E talvez com mais plenitude em seu viver.

Talvez o poeta esteja correto na sua canção-reflexão A Lista.
http://www.youtube.com/watch?v=zMxW-IMUzaM&feature=relatedA Lista

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