Vento Esperança

Tempo lindo em Brasília, nublado, frio, ameaçando chover - este é o tempo lindo para nordestinos, razão de estranhamento de minha esposa sulista. 
O vento sopra com força, à frente de nossa casa, na rua Caminho da Esperança. 
Vejo folhas, gravetos e flores flutuando, junto com a poeira barrenta do Cerrado. 
Um vento que uiva com força, como que soprasse a esperança para os abatidos, cansados e desiludidos da vida, abrindo novos caminhos, novas possibilidades para seu viver. 
Sopra vento esperança, abre caminhos para todos que buscam a luz de dias melhores. 
Em nome deles, acenderei à noite minha lareira de jardim. 
Um buraco no chão no qual se põe lenha e fogo, e fica-se em volta aquecendo corações.

O Presente do Futuro

Saudades de quando o futuro era longe. Eis que agora ele se faz presente. Chega atabalhoadamente, sem pedir licença: antecipando sonhos, realizando expectativas, ou frustando antigas esperanças. Presente do futuro, teu nome é meu viver! 

Confuso, mas gostando deste ser que se revela, descortina-se em sentimentos e se nutre de pessoas-luz, das "acontecenças" cotidianas e das belezuras da natureza. Ando abestado com a "envelhescência" que me chega, com suas emoções que brotam e fluem em meu ser, vindas de não sei onde e o porquê!

"E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver"


Ao se perder, contemple a paisagem!



Só comigo, se perder ao voltar de Pirenópolis para Brasília e rodar mais de 250 km bestas. Saí pela manhã da Pousada dos Pirineus, local de um evento que conduzia, e segui pela ponte nova. Lá na frente, numa rotatória de acesso a algumas estradas me lasquei. Era pra ter dobrado à esquerda, e seguir em direção à Brasília via Corumbá de Goiás. Tinha a opção em frente, à esquerda e à direita. Não vi placas. Pego à direita. Primeira cagada. Noto que algo está errado quando ao meu lado, faceando a estrada, vejo uma pista de aeroporto. Ela não estava ali há dois dias.

Fico encucado.

Mas homem é bicho tinhoso em parar para perguntar, e ainda não me rendi ao Google Maps no celular. Então sigo, sigo... Lá na frente resolvo voltar.

Isso depois de uns 40 km. Na volta, vejo um acesso de asfalto e dobro por lá, "acho que é por aqui". Desço por lá e rodo mais uns 30 km até um pequeno vilarejo. Estranho, muito estranho. Acho que estou perdido.

Dou ré e volto de onde saí. Sigo refazendo o caminho, voltando para Piri, contemplando a pista do aeroporto que agora passa ao meu lado.

No abençoado trevo de três pontas, pego o sentido subindo. II erro.

Deveria ser em frente. Rodo uns 50 km e vejo que estou completamente perdido. Esta estrada dá numa bem maior. Faço a opção de dobrar à direita, novamente à direita me ferra, por isso sou de opção política de esquerda. Rodo, rodo... E vejo a placa Belém - Brasília, BR 153, penso: "fodeu".

Se continuasse por lá, nestas horas estaria chegando à Amazônia legal.

Volto, e sigo no sento inverso.

Lá na frente, supero minha implicação em perguntar e dirijo-me a um motorista que estava parado no acostamento.

- Pra Brasília é por onde?

Ele diz: "só seguir em frente."

Eu segui.

Por isso não pergunto.

Chegar chega. Mas você fará uma alça de uns 120 km, indo no sentido Goiânia, e virando - desça vez à esquerda em Anápolis.

Subi pela BR 153, agora sentido SUL, seguindo o conselho do motorista.

Pego trechos em obras e muito trânsito de caminhões. Trafego pesado.

O conselho dele foi o mesmo de dizer a quem está em Recife que se chega em João Pessoa por Caruaru.

Chegar chega. Mas ao descer na sua testa estará inscrita a palavra: otário.

Você rodará mais 200 km por este caminho, tendo que passar por Campina Grande-PB.

O certo seria voltar de onde vim e, naquele vilarejo que dei ré, seguir em frente.

Mas, ele não errou. Eu que não me fiz claro o suficiente. Ele deveria ter pensado que eu vinha da BR 153 norte. E o mais lógico seria mesmo, seguir em frente até Anápolis.

Agora se ele soubesse que eu tinha saído do acesso a Pirenópolis... Seria outra história.

Ele saberia que "sei" andar por aquelas estradas estaduais, que são mais fáceis de chegar a Brasília.

Quem pergunta errado, assume os riscos. Fiquei pensando num ditado popular, que agora reescrevo, pelos caminhos errados por onde trilhei.

Cagando, andando e fazendo as perguntas corretas para saber se caminha na direção está correta.

Então sosseguei, e resolvi apreciar a paisagem e vez por outra parar para tirar fotos, como a que ilustra esta crônica.

Compreendi que se não posso mudar uma situação-limite, dada, acontecida, pelo menos posso mudar a mim mesmo. Mudando a forma pela qual a mesma está me abalando, importunando, mobilizando energias, secando as forças.

E ao mudar esta percepção, poderá sobrar espaço na psique para apreciar a paisagem, e agradecer pelo que restou. No meu caso, aquela paisagem do Cerrado, com morros cobertos de ipês amarelos, e campos com belas árvores que se despem de suas folhas e vestem-se de lilás, como a da foto.

Ou até ao passar numa cidade na qual sempre quis parar, quando viajo para Goiânia ou Londrina, e nunca o fiz - sou daqueles motoristas que não param na estrada. Só para abastecer e fazer a descarga hidráulica.

Superei mais esta minha abestagem interior e parei.

O que é um peido pra quem já está cagado mesmo?

Parei em Abadiânia, cidade de bonito artesanato de beira de estrada, com muitas panelas de ferro, barro e cobre. Ali comprei um paneleiro trapezoidal que há tempos procurava. E uma daquelas campainhas - estilo sino de torre de igreja, com um São Francisco entalhado nela. Minha mulher é louca por aquilo e vou presenteá-la mais tarde.

Tomei um copo de água, troquei um dedo de prosa com o vendedor.

Respirei fundo, e olhei para o horizonte à minha frente. Mais 150 km e chegarei a Brasília.

Matutando meus aprenderes, saquei mais uma vez que não temos controle sobre tudo que nos acontece. Das decisões erradas que porventura tomamos e que vamos pagando seu preço. Mas, temos o controle do quanto queremos que de fato isso fique importunando nosso viver, feito cheiro de creolina. Tem hora que precisamos dizer, basta!

Chega.

Não deu.

Paciência.

Lembre-se de abrir as janelas para o que restou de seu viver.  E, despudoradamente, reaprenda a contemplar as bonitezas que a emolduram. Aquelas mesmas que a revolta, o sofrer, a mágoa ou culpa estão impossibilitando de serem vistas, sentidas e até saboreadas.

Ultimamente ando precisando abrir janelas em meu viver, e ver as árvores da paisagem, tal qual as desta foto, que se vestem de lilás para me abençoarem gratuitamente!