Grávidos de Infinitos


Hoje perdi um monte de fotos boas. Saí para a feira e no caminho um cano de abastecimento que passava ao lado da via se rompeu e dele saia uma cortina de água sobre a avenida. Um jato em forma de arco, por onde os carros necessariamente precisariam passar. Passei e fiquei embaixo dele, aproveitando aquele lava jato e lavando o carro uns minutos. Mais à frente uma rara borboleta azul, deu o ar da graça, borboletando bem próximo de mim. E, para completar uma carroça de burros seguia caminho para a feira, levando uma senhora, seus dois filhos e o marido a guiando. Ela com um guarda-chuva protegendo as crias do sol. Uma bela cena expressionista. Perdi tudo, esqueci a câmera em casa. Um amigo uma vez me disse que seu segredo para tirar boas fotos era andar sempre com a câmera a postos. É uma boa metáfora para falar sobre a diferença entre expectativas e possibilidades. Expectativa de tirar boas fotos não bastam. Se porto sempre comigo uma câmera, agora sim, agora tenho uma possibilidade concreta de fazer fotos cotidianas bacanas.
E, ao publicá-las, tocar no infinito de quem as verá. Tem uma cena no filme Gladiador que gosto muito na qual o General Maximus (Russell Crowe) exorta seus liderados: "What you do in life echoes in eternity" , "O que você faz nesta vida ecoa na eternidade".
É de uma profunda sabedoria e beleza o que ele diz. Pois, é só o que fazemos nesta vida real, que abre e altera a roda do carrossel do destino chamada de futuro.

Então, nesta vida procure ser um apanhado de possibilidades, nos campos do infinito. Como?
Saindo da arquibancada da vida e vindo jogar seu jogo. Deixando de ser expectador de sua trajetória e movendo carrossel do destino a seu favor.
Sendo a mudança que deseja e deixando de ser mera expectativa.
Há uma diferença bem simples entre expectativa e possibilidade. Na primeira só há desejo, sonho, fantasia. Na segunda há ação, contribuição e investimento.
Na expectativa nosso ser não é mobilizado e move a ação em busca da mudança que almeja. Na possibilidade, há uma intencionalidade, move-se a ação da vida em prol daquilo que buscamos e a natureza acabará por conspirar a favor.
Por exemplo, você viu um programa que mostra hortas dentro de pequenos vasos, próprias para apartamentos. Você mora em apartamento e ficou com a expectativa de um dia ter uma horta dessas. Ou, de que adianta querer viajar para os EUA, pegando uma boa promoção de passagens, se não se tiver Visto de entrada? Sem o Visto será apenas uma expectativa. Com o Visto será uma possibilidade. Agora, só o visto não garante, precisa ter dinheiro e disponibilidade, aí já entramos no terro da realidade. já pode se ruma possibilidade. . Não tenho passaporte. Indo ao supermercado, você comprou alguns vasos plásticos, substrato e sementes de hortaliças, pronto agora você tem a possibilidade de ter sua horta.
Pode até esquecer estes pacotes na dispensa. Pode até mudar de ideia. Mas que sempre terá a possibilidade de arregaçar as mangas e faze-lo, terá. Dependerá de sua motivação e envolvimento pessoal, as condições objetivas já foram criadas.
Tenho a expectativa de ganhar um dia na loteria. Mas não jogo, logo...
Todas as semanas meu sogro jogo o mesmo número na loteria, isto é o que nos difere: ele tem a possibilidade de ficar milionário, eu não!
Quando nos movemos na arte da possibilidade, investindo nossa energia psicológica nas coisas que queremos os sonhos vão ficando mais perto, quase tocamos o infinito.
As possibilidades, amantes que são das realidades, estão sempre grávidas de infinitos.

A amiga Sandra me disse: “Infinitas são as possibilidades das nossas escolhas, de quais caminhos a seguir...” E, “a cada escolha, uma renúncia”, disse-me o amigo Luiz Freitas.
Este é um apelo que faço. O apelo para que no movamos e alteremos nosso ambiente para melhor, nossa vida, nossa comunidade, nosso local de trabalho.
Deixando de ser expectativa e sendo possibilidade. Possibilidade de amar, de perdoar, de aprender, de ajudar, de transformar realidades.
E aí você deixará de ser marionete da vida e do viver. Desenvolverá a autonomia e agirá para que as coisas mudem, saindo da posição de eterno reclamão, da posição de vítima, de quem as coisas sempre estão contra você, para a de agente de mudança.
Plante as sementes de seus sonhos. Aprendi com Bem Zander, no seu livro a Arte da Possibilidade, que a liderança é uma arte, a arte da possibilidade.
O que eu quero que aconteça? Todos os dias pessoas que irradiam possibilidades se fazem esta pergunta. São pessoas que desenvolvem seu autoconhecimento e investem, no aqui e agora, para que as coisas deixem de ser como são: imanência, para mudá-las no que der, alterando a visão e perspectiva de futuro: transcendência.
Este é o lugar que habita ser que irradia possibilidades. O papel do líder é avivar possibilidades em outras pessoas, despertá-las, sendo um apanhador de possibilidades, fazendo-as ecoarem no infinito das mudanças que acontecerão. Bem Zander nos ensina: “Se participarmos integralmente de nosso destino, estaremos na fila da frente de nossa vida. Atire-se em sua própria vida como uma pedra no lago e observe as ondas. Um dos modos de viver na fila da frente de nossa vida é sustentar uma visão, ter um propósito e mantê-lo com você todos os dias”
E, este ser que irradia possibilidades, qual ondas num lago, vê muitas das vezes o que ninguém vê. Enxerga potenciais, enxerga o futuro, onde os outros só veem limites, dificuldades. A visão de futuro altera comportamentos. O poder da visão é extraordinário, transforma o modo como vemos o mundo e o nosso curso de ação.
Passamos a semear possibilidades e não escassez. Celebrar o que há de bom no mundo. Voar para os limites do ser. E encontrar a diferença entre sentido da vida e sucesso na vida. Entre ser o melhor do mundo e o melhor para o mundo.
Um sentido não o da escassez, da restrição, da limitação, mas o das possibilidades. Não de forma exclusiva, mas inclusiva. Coisas incríveis acontecem quando estamos abertos às possibilidades. Por exemplo, você pode parar o que está fazendo, pegar seu telefone, e dizer para alguém o quanto a ama. Tem possibilidade de fazer isto? Lógico. Então, corra e faça amor com as possibilidades, engravidando o seu infinito. Um dia coisas belas nascerão deste ato de amor que produziu. A natureza está grávida de seu contrário, portanto nada é, está! Não se conforme, não se acomode, mude. Estude, prepare-se, corra atrás, aja e semeei agora as condições instrumentais para o futuro que almeja.

Seja a mudança que almeja!

Digo aos meus filhos que trabalham, e aos meus queridos alunos: encontrem o sentido do trabalho no que fazem, nos resultados que oferecem e atribuem valor. No cliente que atendem, na competência que desenvolvem e aplicam, na superação de desafios que motiva. Sejam autores e atores de sua história. Sejam protagonistas, com autonomia e iniciativa. Levantem a bunda da cadeira, trabalhem com afinco, e busquem sempre o crescimento: profissional, espiritual e social. Desenvolvam a inteligência emocional, será ela quem fará toda a diferença na sua empregabilidade. Seja a mudança que almejam. Mudem, tudo é mudança. Só cuidem com os modismos. Não foquem sua evolução nos reconhecimentos que recebem, na relação com a chefia e políticas da empresa. "Eles passam, você passarinho". Foquem em vocês mesmo. No prazer de fazerem e acontecerem. Gerenciem sua carreira como uma empresa S/A. Se você dependerem dos seu líderes, das condições de trabalho, dos processos de trabalho e gestão da empresa, e até dos seus colegas para encontrar motivação... estará perdido! Ela tem que ser uma chama interior, de quem sabe que está fazendo o melhor que pode, dentro das possibilidades lhes oferecida. Cuidem de sua autoestima. Se vocês não se derem valor, não esperem que o valor que lhes darão seja suficiente. Sempre será pouco. O outro sempre nos deverá algo, em gentileza, atenção e reconhecimento. Ampliem seu contexto de referência, vejam outras realidades, parem de olhar para seu umbigo. Agradeçam as bênçãos que já receberam. Contem, exercitem e publiquem todos os dias os dons e graças da vida e do viver. Os tesouros que ganharam, os avanços que conseguiram. Não se comparem, não se curvem, não se prostem, não assumam o papel de vítima, ou de revolucionário estéril, sem propostas e ações concretas. Sejam coerentes entre o que pregam e fazem. Sempre ajudem a quem precisa. Sejam gentis e humanos. Aprendam a recomeçar sempre. Cuidado com olho gordo, inveja, admirem os que conseguiram, copiem seus exemplos, nunca os sequem. Inveja imobiliza. Cuidado: o ódio e mágoa, para com o outro, sempre deixará um pouco em vocês, dispam-se delas, não as carreguem para sempre. Se aprenderem como, ensinem ao seu pai e professor. Ambição, sempre dosada. Humildade, sem ser subserviente. Ética, ao extremo, sem ser chato. Bondade, sem ser besta. Cidadania, sem ser xiita. Liderança, sem ser boi de piranha. Nunca queira um chefe de inimigo. Na dúvida, deixem ele quieto e engulam seu rancor. Liguem o cagando e andando, vez por outra. Vocês não resolverão todos os problemas com os quais se depararem. Amem, amem, amem. Perdoem, perdoem, perdoem. É bom ter amigos. Tirem fotos, bastante fotos. Elas mostrarão seus bons momentos, e ajudarão a suportar os dias de infelicidade. Ajoelhem-se e louvem ao bom Deus. Sempre. Cuidado com cartões de crédito e dívidas. Cuidado com amigos-mala, eles poderão te levar para caminhos ruins. E alguns são sem volta. Ou de volta difícil. Namorado ou namorada pode ajudá-los a alçar vôos, ou pode derrubá-los. Escolham e fiquem com os que lhes libertam. Cuidado com a co-dependência afetiva. Ninguém é cara metade de ninguém, somos cara-inteira. Se vocês não se amarem não amarão ninguém, nem se sentirão suficientemente amados. Não guiem sua vida pelos elogios que recebem, pela aparência e fachada. Sejam vocês mesmos. Ninguém precisa de uma roupa de griffe para ser feliz, só os fracos de espírito. Viajem, frequentem feiras livres, aprendam com o povo simples. Sejam solidários, há muita gente sofrendo. Vejam o mercado, compreendam onde inseridos e até a dimensão política da gestão, não é está fácil ser gestor. Não o culpem por tudo. Evitem as rodinhas que passam o dia falando mal do chefe, colegas, empresa e do clima. Reclamam de tudo e sempre são vítimas, o outro é o culpado, nunca eles. Nem sempre as coisas são pessoais, contra vocês. Algumas fazem são estruturais, sob as quais vocês não tem controle. Mudem suas crenças sobre o trabalho e elas mudarão o jeito de perceberem e fazerem as coisas. Vejam o copo meio cheio. Não há mal que sempre dure e bem que não feneça. A vida roda! A fila anda. Se estiverem muito incomodados, busquem outro trabalho. Outras oportunidades, mas preparem-se para isso. Nunca, nunca mesmo, cuspam no prato que comeram. Mesmo que todos ao lado façam isso. Pode ser auto ajuda de um pai e professor, mas é nisso que acredito. Esta é minha pregação para um mundo melhor. Meu sacerdócio.

Tirei zero, e daí!

Convivo diariamente com pessoas que pararam de focar suas carreiras em desempenho, e ficam alucinadas em ascender, ascender, ascender. Pessoas até com pouco tempo de empresa, e de idade, que desconsideram que nossa carreira é de no mínimo 30 anos.
E, como as promoções que quer participar e vencer não acontecem na velocidade que almejam, na velocidade que esperam e que acham merecer, ficam resignadas e entram no piloto automático.
Crescer é bom, mas tem que ter paciência. Não pode queimar o filme e ser percebido como carreirista. Não pode involuir após um processo no qual não passou.
Ou não pode participar.
Ou até involuir depois que é promovido, entrando numa zona de conforto.
Ambição é excelente, nos faz querer mais e mais. Porém, se a dose é grande, ela nos fará sempre infelizes. Sempre ansiando algo, procurando algo. Nunca contente com meu fusquinha. A satisfação com o trabalho vai além de promoção. Fui muito feliz por cinco anos como caixa efetivo, durante os quais perdi umas 4 promoções para outros colegas, que a empresa achou melhor preparados para outros cargos.
Processava meu luto com mais trabalho ainda. E também vi um monte de Zé Ruela sendo promovido e trabalhando ao meu lado, em funções melhor remuneradas. Cagava e andava para eles. Nunca me nivelava por eles.
Nem tampouco deixava que eles me tirassem do sério. Nunca fiquei olhando a carreira do vizinho, seu cargo, procurando razões para sofrer numa inveja mórbida.
E não existe nada pior, no mundo altamente competitivo das organizações do trabalho, do que assumir um cargo para o qual não está preparando e lhe falta maturidade, cancha e um dos componentes do CHA: conhecimento, habilidade ou atitude. Ah, mas conheço um cara que assumiu. Deixa ele quieto.
Não queira para você o inferno de trabalhar sem motivação, sem sentidos no trabalho - só pelo apego ao cargo que este Zé Ruela viverá nas suas horas de jornada.
Pense num cara que vai sofrer!
Nada pior do que assumir um cargo e ninguém te considerar legítimo para ele. Cada vez mais raro, este fenômeno é o ruim para todos.
E assim foi na minha carreira de 27 anos de BB.
Ajustei meu estilo de vida às condições econômicas que o cargo me permitia.
Quando caixa, às de caixa. E aprendi a viver com pouco e ser feliz comendo bode com farinha na feira livre.
Via colegas endividando-se para fazerem festas de quinze anos, para proporcionarem roupas de marca, viagens aos filhos, carrões do ano.
Resisti, eu e meus bravos filhos. A festa de 15 anos de minha filha, feita por ela mesma, não me sai da cabeça: Pizza e guaraná com as amigas do colégio, lá em casa.
Carrego menos fardos em meu viver e aceito as bênçãos de um dia feliz, mesmo que seja sem almoço, para economizar. Ah! quantas vezes fiz isso, comendo pão com manteiga ou pipoca. E fui vivendo. Buscando prazer em coisas simples e acessíveis ao meu padrão de vida.
Lembro do dia que ligaram para mim e disseram que eu havia sido indicado para um importante cargo gerencial. Mandaram até que eu arrumasse as gavetas.
Passaram-se os dias e nada, e nada. Por uma questão de ética não liguei cobrando nada.
Meses depois soube do preenchimento da vaga num informativo interno que publicava o nome dos promovidos. Um telefonema explicando-me o que ocorrera não recebi. Engoli em seco e continuei a trabalhar e a viver com o que tinha.
E, quando fui participar de uma seleção para um cargo que amava, que ficaria perto de minha Paraíba. Não é que rolei na Segunda Etapa, a que pedia uma redação sobre gestão de pessoas. Sabem minha nota? ZERO. Estou falando, zero!
E já era professor de disciplinas da área.
Quase endoido. Mas, só por um dia. Então rasguei aquele zero que machucava meu viver. Deletei ele de minhas recordações. Pouquíssimas pessoas sabem disso. Só hoje falo dele nove anos depois. Se endoidasse daria razão a quem corrigiu aquela prova, ou não aceitou meu recurso. E assalariado não tem direito a endoidar, tem que continuar batalhando e sendo bom profissional senão sai do circuíto. Simples assim. 

Acontece que o funil vai ficando estreito. As oportunidades rareando à medida que subimos na "cadeia alimentar". E não é porque você não foi promovido que deve odiar seu trabalho e a empresa. Não há espaço para todos serem gerentes. E isso não torna os não gerentes menos felizes ou competentes. Apenas, a conta nem sempre fecha. 
Então, desencuque, caso você ainda não tenha sido reconhecido em processos seletivos. E, não peça a Deus. Vai que Ele te atenda. Nem sempre a promoção é o melhor para nós. Carreiras exigem escolhas. E exigem prontidão. Esteja pronto para pegar a oportunidade passando a galope à sua frente. Prepare-se e rale!
E tome ralação! Quando eu era Escriturário, eu ralava na substituição do Caixa. Quando eu era Caixa, eu ralava como Assistente, após fechamento. Quando era Júnior, eu ralava como Pleno, nunca escolhendo trabalhos. Quando era Pleno, eu ralava como Sênior, liderando grupos e projetos. Quando Sênior eu ralava como gestor, conduzindo e influenciando na mudança das coisas. Quando era Gerente de Núcleo, eu ralava como de Divisão, articulando-me e negociando globalmente. Prontidão é isso! Essa é a parte que tenho controle sobre o processo. Sim, subi um a um os degraus da carreira, e no meio da subida, ainda tive que estacionar em alguns. Mas nunca quebrei a escada. A mesma que subimos pode ser a que desceremos. É preciso ter humildade e compreensão do todo.Tem gente que ganhou um cargo e perdeu a família, o lazer, a si próprio. São escolhas. Todas têm preço. A cada escolha uma renúncia. Mas, uma escolha inadiável e que te fará feliz, é a escolha de viver o dia de hoje nas graças e bênçãos que ele oferece. De agradecer até onde chegou e sossegar o coração, esperando tempos melhores. Uma espera trabalhando. Plantando sementes que germinarão no amanhã. E, caso não germinem, nem sempre foi culpa sua. Continue a lançá-las, o tempo e solo poderão mudar e quando menos esperar verá elas germinarem. Acredite em si mesmo. E nunca pare na estrada da vida. Se parar, que seja apenas por uma noite e um dia. Depois, enxugue as lágrimas e continue a lutar.

Chicão não morreu!

Era um domingo ensolarado. Na pauta, atividades prazerosas do tipo: brincar com JG, soltar Balu, cuidar das plantas, armar a rede, lagartear ao sol e bebericar uma caipirinha. 
No som, botei pra tocar umas serestas das boas. 
Em dado momento, resolvi checar meus e-mails e Facebook. 
Aí vi esta mensagem do Vinicius acima. 
Não precisa dizer que todo o relax, paz e harmonia de um domingo foram embora. 
Chicão, amigo querido, exemplo de professor, humildade e sabedoria em pessoa. 
Não podia ser! Subi e desabafei com minha esposa. 
Até comentei que achava que tinha perdido o velório, o que me fazia sentir pior ainda. 
A partir daquele momento todo o meu corpo e ser entraram em processo de luto. 
Hormônios dispararam, emoções alteraram pressão, batimentos cardíacos e até o metabolismo basal da fome foi alterado. 
O luto abre caminho sobre a fisiologia e pede espaço para acontecer. 
Uma onda de tristeza invadiu meu ser. 
Nada mais se fazia belo: Balu, plantas, sol, JG, serestas... 
Tudo se tornara opaco frente à saudade do amigo que se fora. 
Fui procurar antigas recordações, para evocá-lo; 
Rememorei vivências das salas dos professores da Faculdade Projeção, na qual tínhamos agradáveis tertúlias. 
Escola na qual fui muito feliz como educador, junto com o finado. 
Busquei na biblioteca um livro dele, sobre gestão do conhecimento, que eu adquirira em 2010. 
Revi sua dedicatória e me emocionei. Sai para procurar fotos e tentar achar alguma que relembrasse o Chicão. Estivemos juntos em várias colações de grau como professores homenageados pelos alunos do Projeção. E havia entre nós certa cumplicidade de fazer o melhor pelo ato educativo, de dar o melhor da gente. 
É duro perder um amigo. 
Passei então a tentar um contato com amigos comuns, procurando maiores informações. 
O que se revelou infrutífero. Todos estavam fora ou não conectados. 
À noite, fui tomado de um susto. 
O colega esclareceu que fora um engano. Quem morreu foi a mãe do professor. 
Passei uns segundos em transe. 
Pensava: imagine se eu cruzo com o Chicão, na tarde deste domingo? 
Quem morreria seria eu, de medo de alma penada! 
Após o breve pensamento, dei um sonoro Ufa! 
E um eita porra interior! 
Chicão está vivo, viva! 
Agora vou visitá-lo na Faculdade Projeção. 
Vou dizer o quanto ele é importante para mim. 
Vou dá meus pêsames por sua mãe. 
E levarei meu livro para ele. 
Chicão e o que senti me fez lembrar uma recente decisão de categorizar o luto como mais uma das doenças mentais. 
Ou seja, meu luto poderia ser catalogado, segundo a nova classificação psiquiátrica, como doença mental. 
Daqui a pouco qualquer traço de infelicidade, tristeza, melancolia será patológico. Será doença. 
Um absurdo! 
Revirando as memórias relembro de situações que quiseram poupar os familiares do último contato com seus falecidos, sob o pretexto de protegê-los. 
Proteger do luto, como querem fazer os que entopem os enlutados de remédios para esquecerem-se de lembrar. 
Numa situação pude intervir, ele até hoje agradece ter visto o filho, mesmo que numa situação difícil. 
Na outra, pude ajudar um amigo a abrir o quarto do filho falecido, que familiares tinha trancado e escondido a chave dele, desde a morte do filho, seis meses atrás. 
Precisamos chorar as mil lágrimas de dor, de desespero, de saudade. 
Faz parte do pacote da vida e do viver. 
Nas duas situações e em outras tantas que vivi parece que nos incomoda a pessoa triste. 
E este incomodo faz-nos sair correndo para prescrever os mais diversos remédios para a pobre coitada, que só quer expressar sua tristeza e pronto. Deixem-na em paz. 
Outro dia um amigo confidenciou os dramas de lidar com um adolescente com autismo. 
Ele só queria desabafar o dia a dia de uma família com necessidades especiais. 
Pronto, choveram fórmulas, conselhos e propostas medicamentosas para que ele tivesse “saúde mental” para lidar com a “depressão” de ter um filho anormal. 
Meu Pai! 
Quanta crueldade. Este pai tem direito a ficar triste. Chateado, cansado, estressado com a lida difícil e diária que tem que suportar. 
Não está doente. 
Está sofrendo. E ponto. 
Na sociedade moderna o modismo dos remédios da felicidade vão disseminando uma falsa crença de que é possível resolver tudo, ou esquecer-se de tudo, com uma dosagem adequada de um produto químico qualquer. 
Santa ilusão. Interesses milionários de grandes laboratórios estão por trás, além de profissionais inescrupulosos. 
No meu estágio supervisionado cumpria a carga horária no hospital de Esperança-PB. Das 7 às 9 da manhã e nos sábados. Fiz isso por um ano. Era impressionante o quanto de pessoas me procuravam confundindo-me com psiquiatra, para renovar a receita e “pegar mais remédios”. 
Como não posso tirar medicação tinha um pacto com médicos sérios. Os que eu encaminhava com um bilhete para atendimento eles sabiam que podiam retirar a medicação. 
Lembro-me de uma senhora que tomava tarja preta há dois anos. Sua doença? O marido lhe abandonara para ir trabalhar em São Paulo e nunca lhe dera notícias, era uma das que chamamos de viúvas da seca. 
Ela tinha ou não tinha razão para chorar, sofrer, entristecer-se? 
Desde quando decepção é doença? 
Dói pra danado, mas doença não é! 
É um cálice que temos que beber. 
Esta tentativa moderna e medicamentosa de nos distanciarmos do objeto do sofrer, isolando-o numa redoma, para controlá-lo, vai cobrar um preço muito caro da sociedade. 
Vamos perder a capacidade de reagir à dor, por falta de treino, por falta de contato com ela e de aprendizado com as situações. 
Ou seja, no dia que faltar um diazepan por perto, uma cocaína, um álcool, e estivermos imersos num processo de sofrer, vamos explodir ao primeiro cara que buzinar o veículo na nossa traseira. 
Acontece que um sofrer mal vivido vai dificultar o processo de recuperação da própria dor interior. E ele pode voltar lá na frente, aí sim, sob forma de depressão ou outra patologia mental. 
A vida cobra cada lágrima engolida, cada tristeza violada, cada luto mal dormido, às vezes com comportamentos de distanciamento e embotamento de emoções. 
Conheci uma senhora que flagrou uma carta de uma amante, na mesa de trabalho do marido. Procurou-me e disse que tinha perdido o orgasmo, desde então. É que ela adiou o chute que queria dá na bunda dele, racionalizou a dor que sentia por causa dos filhos, fingiu-se de forte, e engoliu em seco para não causar má impressão..., aquilo somatizou por dentro e explodiu no seu prazer sexual, tornando-a anorgástica. 
Um absurdo. Temos direito ao luto. E, para alguns, duas semanas serão suficientes. Para outros, dependendo do impacto da morte do ente. 
Daqui a pouco um fora que um adolescente levar da namorada, uma crise de espinhas no rosto, uma não escalação para o time de futebol juvenil, será motivo de levar nossos adolescentes ao doutor em busca de remédios para eles. 

Remédio? Deixa sofrer. Eles passaram por isso. Nós passamos.

Não precisamos poupá-los de tudo como se a vida fosse sempre boa.
Tem coisas chatas e eles precisam aprender e treinar a passar por elas. 
Assim vão adquirindo maturidade e inteligência emocional. 
Fui procurado por uma aluna a Kássila. 
Ela, tão jovem recebeu um pre-diagnóstico de uma doença gravíssima. Estava angustiada, ansiosa, frente á espera dos exames conclusivos. Ela soube viver estes trinta dias de espera com uma fortaleza digna de inveja. Não buscou refúgio em drogas, álcool, etc. 
Aguentou o tranco emocional. Hoje recebeu o resultado e não tem a doença. 
Mas, o que ela aprendeu nestes trinta dias de sofrer a que se permitiu, sem se entupir de remédios, ficará para sempre na vida dela. Noutros episódios de sofrer vai encontrar forças para resistir, baseada nesta vivência, que ninguém poderá tirar de si. 
De tanto isolar-nos da dor vamos aos poucos criando uma resistência a lidar com perdas, frustrações, expectativas não realizadas, decepções, entre outras. 
Já viu como os enterros, baseados no modismo americano, estão ficando assépticos. Parece que chorar é brega. 
Daqui a pouco, tudo será delivery. Alguém virá buscar o corpo, e ponto. 
Pela internet, conectado a uma webcam acompanharemos o traslado até a terra mais macia. Tudo em nossa casa e de nosso laptop. 
Sem o cheiro da morte e da vida que nestes momentos se embrincam. Tudo limpo, chique e sem emoção. 
Assim como o antibiótico só deve ser prescrito nos casos de infecções que o recomendem, sob-risco de criarmos resistência aos medicamentos corremos o risco de criamos uma sociedade que de tanto anestesiar a dor, entupindo-se de ansiolíticos, antidepressivos, álcool e outras drogas lícitas e drogas ilícitas não saberá mais lidar com emoções; sem o apoio de muletas químicas. 
E o aprender a lidar com estas emoções, processá-las no curso normal da vida, faz parte do processo de amadurecimento e crescimento, para o qual nunca estaremos prontos. 
Voltemos ao Chicão e meu sofrer. 
Naquele domingo cresci emocionalmente. 
Exercitei a compaixão, a misericórdia, a solidariedade, a saudade, as lembranças de quem nos fez bem. 
Cresci. 
Pude fazer contato comigo mesmo, conectar-me a sentimentos nobres. E sentir-me parte de algo maior, a humanidade e suas dores. 
O que me irrita é que tudo vai virando doença e anormalidade. 
Se for criança levada está hiperativa e tome ritalina nela. Se estiver desconcentrado no colégio está com déficit de atenção e tome remédio; se amanhã está alegre e depois triste, é bipolar, benzoamídico nele; se tem tontura e aperto na garganta e está com síndrome do pânico, se passa umas noites sem dormir, tome Rivotril. Se anda desmotivado, acabrunhado, prozac nele. Se anda nervoso e pensativo, está deprimido, Olcadil nele. 
E vamos vivendo o “amedicamento” da alma, e a coisificação da vida, redimindo-a numa cápsula salvadora qualquer. 
Há capsulas á venda para tudo: para falta de perdão; para mágoa; para frustração;


para melancolia; para ansiedade, para o desamor... 
Até santinhos são pregados em locais de grande concentração oferecendo curas para tudo. Igrejas embarcam nessa moda e ninguém “anormal’ é deixado em paz. 
Todos querem salvá-lo. 
Seja com alimentação, esporte, lazer, reza droga ilícita, ou lícita, com receitas populares e mandigas. 
O mercado da alegria a qualquer preço está em alta. 
Leve um triste para a salvação! 
Em baixa estão os espaços de filosofia, de autoconhecimento, de contemplação, de silêncio, de reflexão, de se "pensativação." 
Aliás, refletir também virou doença: “sintomas de hiperreflexão”. 
Aqui, felicidade à venda! 
Sem falar nos livros, manuais e vídeos de autoajuda de quinta categoria. Aquela que diz “acorde diga bom dia e tudo será lindo”...: “O mundo conspirará a favor e você será feliz, acredite.” Aí o mundo esquece-se de conspirar e você fica duplamente chateado, agora consigo próprio, pois faltou força de vontade. 
Parece que tudo agora está resolvido com esta simples frase: “Pense positivo!”. 
E começamos a carregar um profundo sentimento de culpa: pois se as coisas não vão bem é que "não pensamos positivo, não captamos a energias, não entramos em sintonia, não atingimos o grau de meditação desejado". Alienação de massa. E você que está lendo este texto não pense que sou um apóstolo da infelicidade e da tristeza. Não é nada disto. 
Sou feliz, sou triste. Sou azedo, sou doce. E já tomei tarja preta para tratar depressão. 
E sou defensor de seu uso. Mas, só em caso de extrema necessidade e muito bem diagnosticado. 
E sei o que é depressão. Estive lá. E sei bem sua diferença com episódios de tristeza. 
Repudio esta forma de como estas fórmulas mágicas chegam e são consumidas, pois acho que ao longo do tempo elas vão provocando sequelas profundas, nas pessoas que as procuram, gerando uma sensação de que quando não deu certo é a pessoa que não as empregou direito. 
Portanto, pense duas vezes antes de se entupir de tarja preta. Nem tudo que te faz infeliz te faz mal... No arriscoso processo do viver, não há almoço grátis. Tem dias de frustração, perdas, decepção, de alegria, motivação, de desânimo, de tristeza, de saudades, de luto, de júbilo, de excitação, de felicidade e de paz. Tem dias de tudo. Cuidado com fórmulas que anestesiam teu sofrer como se ficar triste fosse doença. Doença é nunca sentir razões para ficar triste... É perder a autoconsciência e o autoconhecimento que nos revelam o que não está bom e nos dão o impulso interior necessário para mudar o que dá para mudar. E conviver com o que dá para conviver. 
Como psicólogo tive alguns atendimentos que liberei nas primeiras sessões. Não era depressão. Era sofrer. Era luto mal vivido. Choro reprimido. Perdão adiado. Saudade pressentida. Mágoa encardida. Culpa anoitecida. Sapo digerido. Para essas pessoas eu digo: volte e sofra. Se doer tome um "doflex" existencial ajudando alguém. Sempre tem alguém precisando de nós, e ao ajudá-lo ajudamos a nós mesmos a processar o sofrer. A tristeza é um momento de espírito: "ela passará, você passarinho". É quase que uma infecção emocional, tem seu tempo, sua evolução. Seu próprio ritmo de cura, e em cada pessoa difere. Quando não vivenciada, evitada, vamos criando resistências a ela, buscando no álcool, drogas, e outras fugas formas de não enfrentá-las. Só em casos extremos evolui para depressão. Se tem amigos, excelente, ajudam bastante. Principalmente se respeitarem teu momento. Se tem espiritualidade, excelente, ajudará a melhor se compreender e a resistir, divida seu peso interior com Jesus. 
Importante é se compreender, se aceitar. Evitar flagelar sua autoestima. Se vitimizar. 
Muitos estão como você só não tem coragem de expressar. Na verdade, você é que é forte em demostrar que sofre. 
Acredite... mas cedo ou mais tarde o sofrer vai dissipando. Não apresse o rio interior. A vida é terapêutica. 
Vez por outra se leve para passear. Visite presídios, hospitais, creches, asilos. 
Ajude quem precisa. Aos poucos você vai refazendo sua vida. Reescrevendo sua história. Só não embarque na onda do ser feliz é normal ser triste é doença. Doença é não entrar em contato com os próprios sentimentos e reagir a eles, deslocando-os e negando-lhes com apoio de um ópio qualquer.

Uma pua, uns amigos, uma vida!




Uma pua, uns amigos, uma vida!

Nos idos de 1986, um ladrão ficou famoso em Poções-BA. Ali eu residia quando comecei a trabalhar no BB. Morava na rua Vitória da Conquista.
O ladrão chamava-se da Pua.
A notícia do ladrão da pua, altamente periculoso e ousado espalhou o pânico por toda a região. Ninguém mais dormia em paz. O meliante pueiro era assunto de todas as rodas, das etílicas às religiosas.
Aquela cidadezinha, ávida por assunto, tinha todas as manhãs farto material para suas rodas de conversa, um prato cheio. Onde ele atacara novamente? O que levara? Quem seria ele? Quais as pistas policiais? Intervenção já!
O povo se ouriçava.
Diariamente, algum infortunado tinha sua casa arrombada, da maneira mais silenciosa e limpa possível. Aliás, limpa ficava a casa. O cara era engenhoso. Ele usava a pua, este instrumento que você vê na foto. Uma espécie de furadeira manual. Ele entrava pelos fundos das casas e fazia uns 40 furos na porta de trás. Os furos unidos iam desenhando/"costurando" uma espécie de retângulo de vazios, até que, quando completado o ladrão puxava o tampo para fora. Depois, adentrava com sua mão e sorrateiramente abria a fechadura da porta. Serviço limpo. O meliante era engenhoso. Naquela noite de 1986 o meu primeiro filho, o Tiago, chorava muito. Ele estava com 14 meses. Como era chorão meu Deus do Céu. Descobrimos depois que era fome. Sim, fome. Alguém nos dissera que não podia dá muito leite ao menino. E as rações eram cronometradas: 21:00, 03:00; 08:00 e assim por diante. E o pobre passava fome. Naquela madrugada, não fora diferente. Perto das 3 da manhã, tome choro. E levantei para ir preparar sua ração enquanto a mãe o acalentava com aquela música inebriante: a, a, a... a, a, a. Segui para a cozinha, cambaleando de sono, naquela casa mais comprida do que um dia de fome.
Abri a geladeira, enchi sua mamadeira e voltei para o quarto. Quando ele começou a sorvê-la, calou-se.
Fez o silêncio, ou quase. Da cozinha veio um som áspero. Um estalo forte e seco. Corri para cozinha ver o que era. Pensei que algo tinha caído no chão, algo que deixara solto na pia. Nunca imaginei que viria o que vi. Quando acendi a luz da cozinha vi a mão do ladrão da pua, do lado de dentro da porta. Num gesto de bravura-louca peguei uma peixeira e urrei que o mataria. "Vou te matar seu filho da puta". Ele puxou a mão e correu. Eu abri a porta e sai correndo atrás do seu vulto, naquele quintal enorme e cheio de árvores, esgueirando-se e pulando tudo que encontrava pela frente. No final do lote ele pulou o muro do vizinho e desapareceu envolto nas brumas de Avalon-Poções.
Liguei para a polícia relatando o ocorrido. Pronto!
A casa virou notícia. Sirenes, colegas do BB, todos vinham ver o paraíba que botou o ladrão da pua para correr.
Na mesma noite, colegas solidários ofereceram suas residências para dormimos. Disse-lhes que era besteira. E ficamos em casa mesmo. Uns arranjaram pregos e madeira e improvisaram um tampo na porta. Uma festa na rua Vitória da Conquista, madrugada a dentro. Recebi então do Alvina, colega caixa da ag. do BB em Poções (o Antonio Carlos), um presente. Era um revólver. Nunca tinha visto um tão bonito. Pequeno, um 22, que segundo ele: "Se o cara for gordo a bala não entra."
De tão fraco que era o revólver. Mas impunha medo. Aquele 22 foi melhor do que lexotan. Por muito tempo carreguei-lhe comigo. Sentia-me seguro com ele por perto. Nunca esquecerei o gesto do Alvina e de sua esposa, naquela madrugada fria, quase como a nos dizerem: "cuidaremos de vocês". Eu e minha esposa, e um bebê de 14 meses, todos assustados e sem nenhum parente em terras tão distantes.
Poções-BA dista 1.800 km de Campina Grande-PB.
Recebemos aquele revólver não como uma arma. Mas como um abraço, um apoio solidário. Saí até no jornal, de tão famoso que o caso ficou. Não me lembro se pelo grito, pelo susto, se foi pego, ou por que saiu do ramo, o ladrão da pua parou. Não agiu novamente.
Pelo impulso e instinto eu podia ter morrido, de furadas de pua, não recomendo a quem me lê reagir. Só grite.
Poções foi uma bênção em meu viver. Quase um almanaque emocional.
Um lunário perpetum.
Ali dei aulas de natação, na AABB, para complementar a renda. Formei umas duas turmas. Até aluno com dificuldade de locomoção ia para as aulas, como terapêutica, e as mães adoravam ver os filhote evoluindo. Ali aprendi a me virar sozinho. A cozinhar, a tecer uma rede de amigos. A ser gente. Poções foi uma escola de vida, de fé, de amor. Lembro quando um amigo do BB perdeu sua esposa, na assassina BR 116. Ele ficou transtornado, de luto por um bom tempo. O que o sustentava eram os filhos. Abatido, sem vida, um dia ele aceitou nosso convite para comer uns frutos do mar. Ali, o apresentei a uma amiga. De saída em saída, ele foram se gostando. Os dois até hoje estão juntos e fui o padrinho do seu casamento. Poções foram tantas histórias que daria um livro. Deus me abençou muito naqueles 15 meses de Poções.
Um jovenzito bancário de 22 anos e um mundo a descobrir. Com cinco meses de Poções, após a pua, minha ex-mulher voltou definitivamente para Paraíba, levando o Tiago. Ela deprimiu e foi se tratar. Pronto, fiquei sozinho.
Doeu, como doeu.
Aprendi um monte de coisas. Até cozinhar. Lembro que a primeira sopa-carne que eu fiz, errei na pitada dos temperos, e ficou horrível. Mas, uma senhora que morava em frente de casa me ensinou as artes da cozinha. O valor da pitada, uma pitada de sal, uma pitada de cominho...rsrs e várias pitadas de amor.
Como fui amado. Até por gente que mal conhecia, anjos em forma de gente.
Outros foram gente em forma de anjos: o Alcione, o Deraldo, o Pedro, o Alvina nenhum me deixava só. Parece até que tinha disputa para me pegarem para almoços de finais de semana, happy hours; Como este da foto com Alcione, Pedro e a sua futura esposa.
Eles sabiam o quanto eu sofria com a separação precoce da família.
Até hoje guardo no coração o quanto fui amado. Alcione foi meu supervisor do Setin, Setor Interno do BB. Ensinou-me muito de BB. Ensinou-me a fazer duas coisas ao mesmo tempo, a ser compromissado e leal, com ele aprendi a ser elétrico. Deraldo ensinou-me o valor da amizade, daquele amigo que fala pouco, e que está sempre presente. Com Deraldo dividi a pensão de Dona Alvina, logo que cheguei por uns 3 meses, até achar uma casa (com telefone) para alugar. Casa com telefone era luxo e eu precisava manter pais e sogros informados na minha aventura baiana.
Quantas ordens de pagamento recebi de meus pais para ajudar na minha sobrevivência. Tudo tão difícil e pobre, como todo início de carreira.
Deraldo foi meu psicólogo e companheiro fiel de boteco. Aguentou minhas lamúrias, bravamente.
Adorava perder umas partidas de xadrez para ele. Eu não jogava nada, e Deraldo é mestre em Xadrez. Em Poções participei do Movimento de Familiar Cristão (MFC), acho que era esse o nome. Aquilo me ajudou, conheci muita gente boa, do verdureiro ao padre.
Já o Alvina, o Antonio Carlos, era o líder que eu queria ser quando crescesse.
Todos o respeitavam. Ele juntava conhecimento com atitude. E sempre tinha uma proposta para que o trabalho fosse melhor executado. Baiano típico, risonho, tirava onda com todo mundo, nem minha mãe escapou no dia de minha posse. “Conheçi muito sua mãe”.
Contudo, tirante a graça da posse, ele ficou meu amigo e me defendia de tudo que era bola quadrada que vinha em minha direção. Basta dizer que na pensão que fiquei, ele era considerado filho (daí seu apelido de Alvina), e nem precisa dizer que meus pratos de refeição eram sempre maiores dos do Deraldo. rsrs Peixe é peixe.
O ladrão da pua juntou uma cidade para nos proteger. Como era legal aquele sentimento, raro nos dias atuais. Um sentimento de acolher, de integrar, de ambientar e se fazer família social, para os que se achegavam num lugar qualquer. Esta foto é o final da rua Vitória da Conquista, rua que morei, já bem perto da BR 116. Aquela casa amarela era um bar que servia frutos do mar. Foi ali que apresentei ao Pedro Nelson a sua futura Esposa. A igreja que eu frequentava, chama-se do Divino Espírito Santo. Ali, com Pe Valdir, fiz muita pastoral social. Pe. Valdir era simpatizante do que viria a ser o PT. E muito me influenciou na visão de esquerda que tenho.
Todo mundo deveria ter direito aos amigos que tive e que nas horas difíceis me apoiaram.
Amigos como Eva e Messias, um casal que conheci no MFC e que possuía um pequeno estabelecimento de material de construção. Daria tudo para reencontrá-los e agradecer o que fizeram por mim. Aprendi a gostar de seresta com Messias e Eva. Indo jantar em Vitória da Conquista (60km); comer massa e ouvir uma boa seresta. Que casal amigo. Em 86, eles não deixaram que eu passasse o natal sozinho. Buzinaram na porta até eu abrir. Era manhã de 25/12. Chorara com saudades na noite anterior. Seria meu primeiro natal sem família. O pessoal do BB tinha feito de tudo para eu não ficar só. Mas eu inventara umas mentiras, disse-lhes que viajaria. Queria ficar só mesmo. Encher a cara. Na manhã de 25, um carro buzina insistentemente. Fico puto e abro a porta.
Era o Messias e Eva. Eles me forçam a ir com eles, passar o Natal com a mãe do Messias, em Jaguaquara. Ela nos esperava para a janta, com uma FATADA (nem queira saber o que é). Chegamos lá e a vovozinha octogenária toda feliz nos recebe, Agradeci ao bom Deus aquela noite. Ela nos leva para ver o prato. Da cozinha vem um cheiro de urina fétido. Messias ria aos borbotões. Eva tapa o nariz. E me diz: a vovó esqueceu de lavar os rins do boi em 4 águas. A mãe do Messias nos chama até à cozinha. Ela abre a panela. Eu e o Messias sorvemos aquele gás. Olhamos para ela, que com expressão tão doce esperava nossa aprovação, e dizemos quase em coro: "está muito cheirosa esta fatada!". Saímos rindo em direção ao primeiro bar da esquina. Só embriagados comeríamos aquilo. E comemos. Eva livrou-se, era vegetariana. Cada dia de 1987 foi especial. Era mais um dia de resistir. Minha esposa não voltou. O sogro, que Deus o tenha, falou-me que ela estava muito deprimida e fazendo tratamento psiquiátrico e que iria conseguir me "tirar dali". Não sabia ele o quanto eu gostava. Após 8 meses morando só, ele conseguiu minha "relocalização" para Remígio, uns 30 Km de Campina Grande. Fiquei alegre e triste. Alegre por me juntar aos meus. Triste por deixar aquele pedaço de esperança e de paz que foi Poções. Deixar tantos amigos-irmãos. Deixar tanta vida, tanta cultura, tanta pujança, tantos finais de semana ouvindo Xangai e Elomar, nas Barrancas do Rio Gavião. A despedida foi na AABB, com direito até a vitelo na churras. Quanto choro... quanto choro... nunca tive coragem de voltar em Poções. Nem para ser padrinho. Sou padrinho sem ter ido ao casório, pelo menos não me lembro. Hoje entendo o porquê de alguns nordestinos não voltarem mais à sua terra quando migram. É a dor da saudade do que foram ali. Em Poções-BA, aprendi a jogar o baba (futebol), a jogar o bogue (pôquer de dado), aprendi o valor de uma festa do Divino, o valor de um grupo de amigos. Aprendi que a fé se expressa em amor e o amor é a fé maior, um amor de um Scoboca 22 (o apelido do revólver); o amor de um jogo de xadrez; de uma macarronada domingueira, de uma fatada mal-cheirosa, de uma pensão chamada Alvina. De um grupo de pessoas que aprenderam que fé e vida são parte da mesma essência, amigos do MFC: da foto histórica com Eva, Messias, Pedro, Deraldo, só faltando o Alvina, no quintal lá de casa. O mesmo que corri atrás do homem da pua.

No Jogo da Vida, não há Replay



Sempre que pego o JG no colégio volto para casa voando que nem bala. Temo os engarrafamentos na subida para o Jardim Botânico, e imediações, que após a entrega do Jardim Mangueiral ficou um caos, afinal são mais 20.000 moradores.
Terça voltava com ele do Colégio, aproveitando para curtir este momento. Gosto de ouvi-lo conversar com seus bonecos.
Quando estou com aulas à noite, nem sempre posso pegá-lo todos os dias. E este momento para mim tem sido especial: de levá-lo e buscá-lo no Colégio. JG vai fazer quatro anos, e “cursa” o Jardim.
Durante o retorno para casa, algo me incomodava, e era a luz do entardecer em Brasília. Uma luz que já é especial todos os dias. Contudo aquele dia estava anormal. Algo acontecia no sol.
A luminosidade estava estranha. Nós fotógrafos, amadores ou profissionais, sabemos o quanto a luz é tudo. Tudo numa foto é luz, contraluz, sem luz... sombras e nuances.
O sol estava explodindo em vermelhidão. Um pôr do sol diferente. Por onde vinha, não dava para parar o carro e fotografá-lo. Contudo, ao passar sobre a 3. Ponte, e ao olhar o lago, quase bato no carro à frente. O cenário era indescritível. O lago refletia o sol, como um espelho em fogo. Fui mudando de faixa, saindo da rápida para a do meio. Na saída da ponte vi vários carros parados, registrando o fenômeno. Já perdendo a chance de parar, fiz uma manobra brusca, mudei para a faixa da direita, e em seguida para o acostamento e parei nos últimos 100 metros de faixa de escape existente no local. Registrei aquela cena e saí feliz da vida. No outro dia, me equipei com a máquina profissional e lente apropriada, no dia anterior fizera a foto com o celular mesmo. E saí de casa pronto para registrar o espetáculo na volta. Ao pegar o JG já vi que algo não dera certo. Sem chances. O céu estava diferente do dia anterior.
Não tinha aquele efeito filtro difuso. Um pôr do sol bonito, porém sem aquele uaaauuuu!!! De qualquer forma, pensei: “tirarei uma foto após a ponte, que é sempre bonita de se ver”.
Ledo engano. Uma viatura policial estava ali parada, reprimindo os que ousavam estacionar. Não me perguntem o porquê. Coisas da repressão. Assim sendo, ninguém era suficiente macho para parar o carro, com medo de levar uma bronca. Mesmos sem placas com dizeres de proibido estacionar. Acelerei e segui adiante. Fiquei pensando: uma área tão bonita deveria era ter uma placa com os dizeres: “Parem aqui! Curtam e registrem o belo pôr do sol, ambiente grátis para encantamentos”. Ou seja, parei no dia e hora certa. Até mesmo por que aquele fenômeno meteorológico foi único, veja os motivos: uma determinada umidade do ar (1); a presença de gotículas dispersas de resto de chuva (2); nuvens esparsas (3); vento quase zero (4); umas explosões solares que por aqui chegaram – soube na noite ao ler a Folha de SP (5); um lago sereno (6); a posição do sol, metade na Ásia, metade América (7); restos de poeira suspensas no ar (8), ausência de barcos marolando a água  e prejudicando o espelho (9) . A combinação destas nove variáveis, num lance espetacular do Criador, transformou aquele pôr do sol em único. No reino das probabilidades seria 9 elevado a 9, ou seja, 81 combinações possíveis. E aconteceu uma delas, com tudo favorável. No dia seguinte, não só a polícia atrapalharia. As variáveis já não eram tão favoráveis. Mudaram. Tudo muda. Não só as estações.
Tudo é feito de mudança.
Fiquei pensando nas coisas que perdemos de aproveitar por não entender que aquele é o momento. Por adiá-las.
Eu perderia aquela foto se não tivesse parado. Se tivesse deixado para o dia seguinte.
Fiquei pensando nas coisas que vamos guardando para um dia usar. Todo mundo deve ter em casa algo guardado num recanto qualquer. Uma dispensa, um depósito, um closet, um quarto de despejos, ou num guarda-roupa velho, e até embaixo da cama. Fiquei matutando sobre estas possibilidades que temos para usar o que guardamos e vamos postergando. Parece que pensamos que temos a vida toda para aproveitá-las, e vamos adiando, adiando, ou esperando um dia ideal, um dia bom, etc.
Aqui no depósito de casa tem bem escondido, num canto qualquer, um conjunto de cerâmica Marajoara para feijoada. Como este da foto. Nunca comi feijoada nele. Acho que nunca comerei. Outro dia falei para minha mulher que eu iria morrer sem comer feijoada  naqueles vasos. Ela sorriu e quase ouvi dizê-la: "Vai mesmo"!.
Devo ter perdido de fazer um monte de coisa por adiar. Outro dia vibrei comigo mesmo. Estava em Foz do Iguaçu onde iria ministrar uma palestra sobre aposentadoria, na Itaipu. Não conhecia a cidade. A palestra seria 4 da tarde. Acordei e pensei, será que não deveria ir conhecer as Cataratas? E se atrasar? E se algo acontecer? Tomei coragem e me dirigi a um taxista, que recomendo para quem for à Foz. Ele me disse: “levo o sr e trago em 4 horas. Vamos?” Era perto de 10hrs. Muita emoção. Para mim, que sou rigoroso com horários e fico nervoso antes de primeiras aulas e palestras, imagine. Rompi meu dilema e fui já pronto para voltar direto para o local do evento, caso uma emergência acontecesse. Almoço? Esqueça!
Troquei pelas Cataratas. E foi maravilhoso. No caminho ele convenceu-me a ir ao Paraguai, após a palestra. Atravessar a ponte e visitar umas lojas que ficam abertas até as 22hrs. Fui, gostei e comprei. Rsrsrs
Voltando aos nossos armários, interiores ou materiais, acho que guardamos muitas coisas para usar depois. Para curtir depois. Para fazer depois. E a roda viva da vida não para. Não nos aguarda. Não há replay para um beijo não dado, um abraço adiado, um perdão negado.
A vida segue seu ritmo e não nos aguarda numa estação qualquer. Passa. Tudo passa. A dor e a alegria.
Descaradamente, sem pedir licença, aquele filho que brica na beira mar, enquanto você se bronzeia e ler revistas, passa. Ele e você. Um dia sentirá falta de ter brincado com ele de fazer castelos na areia.
Nada é eterno. Nem juventude, nem velhice. A vida acontece e acontece.
Simples assim, a vida acontece enquanto dormimos, ou acordados.
Acontece. Não nos espera. JG cresce. Foi bebê, se não tirei foto, curti aquele momento... Já era.
O sistema da vida é bruto. Não nos espera.
Abrir-se às possibilidades que “esta acontecença” da vida oferece, seja comendo uma deliciosa feijoada, numa tigela chique, ou botando um belo vestido para trabalhar, ou usando aquele cristal guardado no fundo do armário. É urgente. Ou até mesmo fechando a revista e saindo do sol para brincar embaixo do guarda-sol de fazer açudes e castelos de areia.
São escolhas.
Melhor fazê-las enquanto a roda da vida está favorável.
Vou negociar melhor com dona patroa. A feijoada. Aquele pôr do sol que não se repetiu foi uma lição para meu viver.
Lição que compartilho com vocês.
Não saia de casa sem dizer o quanto ama as pessoas que lhe fazem feliz.
Vez por outra se dê um bom presente, tome aquele vinho que guardou para um dia especial.
Afinal, especial é viver. E, todos os dias, sempre há algo a celebrar neste milagre da vida.
Portanto, celebre tudo!
E sempre, mais sempre mesmo, esteja aberto ao novo.
A pensar e agir de forma diferente. Aprendendo e apreendendo novos comportamentos, hobbies, culturas, dando espaço para que nossa rotina santa de cada dia seja arejada.
Abra sua dispensa interior e não tema expor ao mundo suas marajoaras mais belas, os seus bons valores, aqueles que são a sua melhor expressão de si mesmo.
Não os guarde só para si, como um objeto de valor num depósito qualquer.
Quem sabe não será ela (sua marajoara de valores) quem alimentará pessoas com fome e sedentas de ternura, solidariedade, atenção, respeito e amizade.
E, sempre que olhar algo lindo, sentir algo novo, forte, apaixonante. Não siga adiante. Pare e o sorva. Embriague-se deste momento.
Viva-o sem pressa, mesmo que só você esteja vendo e sentido as fadas e anjos em festa ao teu redor.

A paz foi embora!

Carentes de paz!
Um motorista de 18 anos atingiu a traseira de uma moto, no momento em que saía de um bar, numa cidade do entorno de Brasília. Ele não parou para ajudar. O fato irritou outros motociclistas que viram a cena e passaram a lhes perseguir. Durante a perseguição, o condutor do veículo capotou e morreu no local. Outros três ocupantes ficaram feridos. Um pessoal que estava próximo ao local foi ajudar a socorrer as vítimas. Contudo, foi impedido pelo grupo de motociclistas. Começa uma discussão, um dos motociclistas esfaqueia e mata um dos que tentava ajudar. Todos fogem. O primeiro motoqueiro, aquele que originou a perseguição, passa bem. Outros, nem tanto. Saldo da barbárie: dois mortos. A notícia ocupou uma pequena coluna do jornal de maior circulação do DF, deste final de semana. E ponto. Página virada. Ninguém mais fala. Não há nomes, protestos, histórias de vida, mães chorando, investigação decente e maiores repercussões. Troca-se a pauta. Vira-se a página. É a banalização da violência, a coisificação do Homem. Tudo fica natural, até o não se envolver, protestar ou revoltar-se. Onde andará o grupo de motociclistas que matou estes dois jovens? Talvez, na esquina de nossa casa. Pronto a continuar a agir com violência, afinal, estamos no país da impunidade de todos os tipos.

Mães, num pente uma ponte de esperança.


Esperava meus filhos chegarem de Campina Grande, na rodoviária de João Pessoa.

Já era quase meia noite. Esperava dentro do carro, no estacionamento, que tem uma vista privilegiada do setor de compra de passagens da rodoviária. Para matar o tempo, observo as cenas do cotidiano.
Gosto de observar.  
Concentro-me numa pequena "procissão" que segue pela área dos guichês de passagens, todos fechados àquela hora. 
Uma mãe, acompanhada pelos três filhos, caminha vagarosamente em direção ao guichê da Itapemirim, fechado àquela hora. 
Sobre sua cabeça carrega uma enorme caixa de papelão. Nas mãos, sacolas plásticas. Os filhos miúdos a acompanham, em fila indiana.
Ela olha para os lados, como quem a procurar os vigias ou polícia, não os vê, e ali mesmo, na soleira do guichê, larga suas sacolas no chão e desce a caixa.
Das sacolas, tira algo que não identifico de longe e alimenta os filhos.
Deve ser pão ou bolachas.
Da caixa de papelão, ela vai tirando outros papelões dobrados. 
Um a um, vai esticando-lhes no chão à sua frente, forrando-o com esmero. 
Percebo então a grandeza da cena, ela constrói uma base que servirá de cama para seus filhotes.
Os protege do frio e sujeira.
Os meninos acompanham tudo, solenemente.
Estão quietos. Cansados.
Devem ter vindo de longe.
Aqueles papelões dobrados se transformam, pelo amor daquela mãe, numa cama, num leito quentinho e limpo.
Um a um, os meninos vão se deitando sobre o papelão, e disputando a "almofada de colo de mãe". A melhor. 
De repente, ela tira algo da sacola e pede que os meninos se levantem.
De longe saquei o que era. 

Um pente.

Verti lágrimas. 

Cada um vai sendo chamado para perto dela.
E ela penteia seus cabelos, docilmente, vagarosamente, como quem a expressar cuidado, daquele de um amor que excede.  
Beija-lhes e os libera para a "cama" novamente.

Fiquei petrificado com o que vi. Abençoado pente.

Aquele pente foi o que restou de dignidade para aquela mãe. Diante de uma situação de risco social que enfrenta.
Aquele pente transformou-se em ponte: ponte para o amor, para a eternidade de um gesto de cuidado.
Aquele pente, e aquele pentear, mudaram meu viver.
Com tão pouco, com tanta limitações, com tanta miséria, ainda assim, aquela mãe encontrou um espaço do ser, um vir-a-ser, para resgatar o pouco de dignidade que a pobreza lhe levara, a dignidade de dormir penteando.
Banho ela não podia dar.
Perfume, não tinha.
Lençóis cheirosos, muito menos.
O que ela podia dar, era de si mesma. E deu. 
Uns restos de papelão, como mágica, a mágica do amor transformaram-se em cama e lençóis. Umas bolachas guardadas, num fundo de um saco, transformaram-se em jantar. Um pente, transformou-se em banho, cuidado e pijama.
O amor transforma todas as coisas.
A elegância e belezura de pentear os cabelos de seus filhos ecoará na eternidade.
Agora sim, eles estavam prontos para dormirem.
Estavam "limpos". Limpos pelo amor de uma mãe.
Abençoadas mães que quando tudo lhes faltam, quando tudo lhes é negado, ainda assim lembram-se de retirar um pente mágico de uma sacola de retirante e cuidar de seus filhos.
E dele, como que numa varinha de condão, fazer milagre, aconchego, ternura e cuidado.
Abençoadas mães e seus pentes que nos tornam melhores como seres humanos. 

Muitos outros filhos, naquela noite, talvez não tenham recebido o respeito e carinho que aquela mãe doou aos seus, num simples ato de forrar a "cama' para eles, alimentá-los com o que tinha, e pentear seus cabelos. 

Desejo a todas as mães e pães que a força desta mulher, movendo-se na esperança de melhores dias, incentive e ilumine a jornada de tantos que teimam em desafiar as condições da realidade e lutam para que seus filhos tenha melhores condições de vida. 

Pense nesse pente. E, quando tudo lhes faltar, você poderá ter num cantinho qualquer do seu coração, algo que ainda sirva para expressar cuidado, carinho e atenção para com o outro, nem que seja um simples pente.  

Podemos fazer do pente uma ponte de esperança, para os que cruzam nosso viver. 
Que tal?

Conectados, mas só?










Era uma noite de céu incrivelmente límpido no centro de São Paulo. Na programação, iríamos conhecer o restaurante Terraço Itália, no 42. andar de um prédio no Centro da cidade, na Av. Ipiranga. O segundo edifício mais alto do Brasil, com 165 metros.

Ao chegarmos, um frisson nos acompanhou desde a entrada monumental do local. Era um lugar lindo. Em cada mesa uma vela e flores. Casais apaixonados conversavam pertinho. Um lugar que convidava ao enamoramento, charmoso, envolvente e romântico. Como chegamos na abertura da casa, às 20h30min, pegamos uma mesa bem posicionada, que nos dava uma ampla visão externa e um bom acesso à pista de dança.

Às 21hrs começou a tocar a banda do Elizeu Storion, um show à parte. Sua voz supera finda e rouca lembrava Rod Stewart.
Tudo perfeito.
Antes das 21h30min, todas as mesas já estavam ocupadas, em sua maioria por casais. 
Pedi um bom vinho para esposa e fiz a degustação de todas as cervejas da casa. Não gosto muito de vinho, desculpe se te magoei. 
Não nos cansávamos de olhar a noite de SP, os prédios iluminados, as grandes avenidas tomadas por carros num frenético vai e vem.
São Paulo exala vida e nunca dorme.
Vez por outra helicópteros passavam bem perto das janelas de vidro do lugar, como que a brindar seus ocupantes com a visão da banda e do local aconchegante.
Nossos vizinhos de mesa chamaram nossa atenção.
Todas as vezes que passávamos por eles, em direção à pista de dança, nos chamava atenção o fato de que em plena noite romântica cada um operava o seu iphone. 
Não, eles não estavam brigados. Sim, eram namorados, flagramos um beijo. 
O barato deles era teclar nas suas redes sociais, e vez por outra trocarem entre si os celulares, prova inconteste de confiança e amor. Amor em tempos de WEB. 
Aí, cada um deles via o que rolava na página do outro, davam risadas, e destrocavam os celulares.
Ainda bem que não sentaram perto da banda do Storian, ele teria infartado de desgosto. Indiferença mata.
Quem sou eu para julgá-los? Embora esta foto seja emblemática e ilustre o que víamos.
No outro dia fomos ao teatro, e até o final do primeiro ato, tinha gente à nossa frente “narrando” o espetáculo no seu face-celular. 
Poucos viram do ato em si, concentrados que estavam em expor algo, postar algo, comentar talvez o que estavam fazendo.
De cabeça baixa, perderam a cena da mulher que vestida de noiva relatava na abertura da peça as desventuras dela ao ter se casado com o “traste” do seu marido (Peça Casal TPM). 

No retorno ao trabalho relatei o fato e os amigos disseram-me ser cada vez mais comum este comportamento em todos os locais de ajuntamento humano: b
ares, igrejas, estádios de futebol...
Segundo um deles, um dia desses ficou ao lado de uma mesa com três moças e dois rapazes, todos conectados em suas redes sociais, um silêncio entre eles de dá dó, só cortado por uma ou outra “apresentação da tela do celular” e do que ali rolava para o restante do grupo.

Muita banda larga digital e pouca humana. Conectados, mas sós!
Não se apresse em me julgar quadrado, fora dos tempos modernos. Sou virtual e de muitos tempos atrás, desde os chats do ZAZ. Ou das RBS. 
O que me preocupa é se estamos perdendo a capacidade de conversar, sem ter que editar o texto. De expressar emoções, sem ter que retocar a cena.
De sermos nós mesmos, autênticos, sem virarmos co-dependentes digitais do que o outro acha de nosso post, foto, crônica (como esta), de nossa viagem, etc.!
Preocupa-me o desaprendizado em estabelecer vínculos afetivos reais, quando a presença real está tão próxima que daria para abraça-la, ou tocá-la com nossa mão estendida.
Vivemos o reinado do curtir, comentar, compartilhar, num narcisismo digital que Freud não imaginou que pudesse acontecer.

Haverá o dia que nascerá uma nova especialidade de psicologia, psicologia digital.
No link abaixo, a doutora Sherry Turkle analisa como os nossos dispositivos e personalidades online estão redefinindo conexão humana e comunicação -- e nos pede para pensar profundamente sobre os novos tipos de conexão que queremos. Depois de ler o texto clique abaixo para ver o vídeo, legendado:

Conectados, mas só?
Vale cuidar para que a banda não fique tocando sozinha, os casais dançando, e você vendo a vida passar pela tela de um aparelho qualquer.Descobrimos que nosso garçom é do Ceará, chamava-se Rocha. Descobrimos que gostamos de dançar, mesmo sem saber direito.
Descobrimos que o prato mais suculento é o menos pedido, um Carré de Cordeiro.
Descobrimos que estar juntos, ouvindo uma boa música, sem nada falar, pode ser a maior de todas as comunicações.
Descobrimos que uma vela acesa, dança, e o fogo nos hipnotiza com sua dança, chamando-nos à ternura do encontro.
Mais duas cervejas e um cálice de vinho, descobrimos que ainda podemos conversar de algo diferente do que nosso filho o JG.
Que podemos brincar de contar estrelas, aviões, casais de vermelho e preto, brincar de quem sabe a música...
Descobrimos tudo isto por deixarmos nossos celulares em casa, e nos conectarmos um ao outro.

A conversa face-a-face cura, liberta, transforma.
A conversa virtual cura, liberta, transforma.
As coisas podem ser E e E. Não preciso deixar meu celular em casa. 
Só preciso me abrir às possibilidades que uma vida sem edição pode oferecer. 
Abrir-me ao que acontece ao meu redor. 
Posso me conectar, checar e-mails, páginas pessoais e ainda assim estar presente. 
É tudo uma questão de dosar. Aliás, o face, via celular, trás à mesa a presença de tantos outros. Este relacionamento virtual é super legal e gera novas possibilidades, interações e bons vínculos - impensados anos atrás. Mas, se não cuidar, o outro real se desconectará do também outro real, por falta de banda larga humana. Como em tudo, a diferença entre a droga que mata e a que cura é a dose.

Quanto ao casal, saímos antes deles. Faço votos para que ao término de suas atualizações possam se despir de toda a tecnologia, e se vestirem um do outro para o enlace e dança do encontro.

O Amor Subverte a Ordem Reinante

Dia 31/03/2013, ele posava para foto com sua esposa. Ela 56 anos, ele 54. Ambos debulhando feijão, num ponto improvisado, sobre uma tábua, nas extremidades laterais de uma feira livre. Senti a falta deles por dois domingos. Pensava que ela gripara. Mas não. Ele, o seu maridão, sofreu um AVC dois dias depois desta foto. Agora, com um lado paralisado, luta para recuperar os movimentos, disse-me sua brava esposa. Do alto de sua pobreza e pequenez, tudo é tão difícil para este casal. Que Deus os guarde e os abençoe. Hoje sua esposa foi debulhar sozinha, com ajuda de um neto, o feijão. Foi garantir sua subsistência. Deixou seu amado na casa da filha e seguiu vida adiante. Quanta fortaleza! Os pobres não tem tempo para processar o luto. Estão sempre pelejando para sobreviverem. O Reino dos Céus é deles por pelejar. Não tenho dúvidas.

Hoje, dia 01/05/2013, fomos à tardinha levar uma palavra de esperança ao Sr. Jair e esposa, casal amigo que nos acostumamos em tomar café ao lado de sua banquinha de feijão verde, ovos, limão e algumas poucas verduras, na feira de São Sebastião. Casal simples e amoroso. Ele sofreu um AVC tem 15 dias. Perdeu movimentos de um dos lados. Desde o acontecido o casal está na casa da filha, na cidade, onde é mais fácil o acesso de profissionais de saúde e para irem fazer exames. Ontem seu genro os levou para dormirem na chácara e os buscou hoje. Ele falou que nunca tinha dormido tão bem nestes 15 dias. Ela me disse que ele falara, é só botar o pé na chácara que volto a andar. Não voltou. E voltou. Andou em pensamento, em emoção, em caminhadas místicas na terra que é sua há 20 anos. Ele e sua esposa se fortalecem mutuamente, são 32 anos de um casamento feito de luta, coragem e sobrevivência para criar os três filhos. Amor e esperança traduzem a história deste casal. Não é fácil perder a mobilidade, e em nosso país mais difícil ainda. Mas, eles não reclamam. Aliás, fomos lhes dar uma palavra de ânimo, baseada no Salmo 23,1: "O Senhor é meu Pastor e nada me faltará." E no Evangelho de João 14,1: "Não se pertube o vosso coração." E quem saiu revigorado fomos nós. Perguntei o que ele queria de nós de SP, já que viajaremos amanhã para lá. Ele nos falou, "que vão e voltem em paz." Perguntei-lhe como ele viu a chácara. Ele falou com olhos brilhando de cada muda de planta, criação e do seu poço de água "quase mineral". Falou das galinhas, que lhe conhecem pelo "cheiro" e correm pra perto dele, como fizeram ontem. Disse-me que notou que morreram umas 12, das 30 que tinha. Acha que foi de saudade. Nessa hora, enchemos os olhos. A chácara não tem quem cuide, só eles, então já viu né! O principal eles tem. Amor. E o amor faz milagres. Abençoado casal que se ama e que juntos enfrentam, do alto de sua pobreza, as dificuldades de uma reabilitação de um AVC.


Utopia e Realidade

Sou um realista utópico. Não acho que utópicos são necessariamente não-realistas. Movo-me na realidade, embora nade para a utopia. Sou um otimista, vez por outra pessimista. Aliás, sou um pouco de tudo. Estes conceitos, este dicionário, não cabe no ser. Não cabe definir uma atitude dentro de uma planilha excel para acompanhá-la diariamente. Nunca gostei de coisas E ou E. Somos paradoxos. Somos E e E. O que nos define são nossa realizações, nossos agir no mundo, e é nesse cotidiano que se revela nossa face maior, somos quem quer um mundo melhor, sem desanimar do que vê por aí, influenciando o bem ao redor, ou somos dos que desanimaram com o que viram e ficaram sentados à beira do caminho, só reclamando e numa postura de vítima? Do sistema, da empresa, do gerente, de tudo?
 Para mim, uma postura positiva, uma psicologia cotidiana positiva, ajuda. Mas, ela não significa que não sejamos realistas, racionais, lógicos. Somos homos sapiens demiens. E o real, de que real falamos mesmo? Sobre que perspectiva? Não percebemos o real em sua completude, percebemos, o que nossa historicidade e valores filtram. O espaço do sonho, da fantasia, dos desejos, da esperança, são a subversão da ordem reinante. Eles significam que apesar das condições insalubres, da dureza do dia a dia, crê-se que se avança na compreensão de novos patamares de realidade. Sendo duro, sem perder a ternura, como falou um cara famoso, ou semeando entre lágrimas, como falou um menos famoso. Somos o que somos e o que define nossa postura no mundo é o espelho do outro.  No final, será ele quem julgará o que de fato somos. Agora vou pigar meu gardenal.

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