Somos poesia!

De repente, de um abraço, de um choro saudoso, de um afago, de um luar, de um sorriso, de um gesto solidário, de um encanto - não mais que de repente, a poesia irrompe nosso ser, sem pedir licença, e faz emergir sentimentos esquecidos em nosso viver. Largados num canto qualquer. Adormecidos ou anestesiados, ou ambos. Faz-nos repensar o já pensado; ressignificar o significado e reencontrar o encontrado. A poesia molda o agir e acende o olhar, capacitando-nos a transcender! A poesia é uma saída USB, sempre pronta a encontrar razões, que até a própria razão desconhece, para conectar seres - eternizando-os.

Feedback pode ser um ato de amor.



Todo mundo um dia se depara com a necessidade de falar algo a alguém, e um algo nem sempre agradável.
Algo que incomoda e que precisa ser resolvido.
Na administração, chama-se de feedback, palavra que caracteriza um retorno sobre algo acontecido.
No jargão popular, chama-se de conselho. 
Conselho e feedbacks nem sempre são fáceis de serem dados, ou bons, nem pra quem os emite nem para quem os recebe.
Um dia estava esperando meu filho ser liberado das aulas do colégio. 
Na portaria, uma grade nos dividia das crianças que brincavam no pátio.
Os meninos mais velhos já liberados correm pelo pátio.
Uma mãe ao meu lado procura seu filho.
Eis que um jovenzinho aproxima-se pelo lado de dentro e dirige a palavra àquela mãe.
Tia, você é a mãe do Juninho? 
Ela responde que sim.
E ele continua o diálogo perguntando.
- Por que o Juninho não usa meias quando bota tênis?
A mãe responde que o Juninho na pressa de se vestir não gosta de colocar meias.
A criança emenda.
- Ohh tia, quando ele tira o tênis fica tudo fedido.
Que sabedoria dessa criança ao emitir um feedback.
Ele fez duas perguntas. 
Na primeira procurou se cercar de cuidados conferindo se aquela senhora de fato era a mãe do Juninho.

O feedback deve ser fornecido à pessoa correta, e não a terceiros, pois virará fofoca, maledicência e da pior qualidade.
Em nada ajudará ao ser humano em seu crescimento. 

O jovem procurou a pessoa correta, a mãe. Uma mãe de um menor, para quem de direito devem ser dirigidas críticas ao comportamento de seus filhos.
Na segunda pergunta ele sondou o que poderia haver com o Juninho, já que para ele meias e tênis andavam juntos.
Ele fez uma coisa difícil e mágica, ele perguntou. Uma pergunta maiêutica, socrática.
Uma pergunta que abre um monte de possibilidades de análise, na sua resposta. Que abre uma avenida de compreensão.
Uma simples pergunta.
Por que?
A mãe respondeu e o jovem continuou sendo impecável.
Ele não discutiu, debateu, tentou convencer a mulher de que o seu filho era fedido. Ele não a agrediu.
Apenas constatou, com simplicidade e autenticidade, não sem antes emendar uma exclamação e um carinhoso “tia”: 
- “Quando ele tira o tênis fica tudo fedido”.
Perfeito.
Ele caracterizou um comportamento observado. Ele descreveu uma cena.
Não rotulou. Não agiu com preconceito, ou afirmou algo do tipo:
“Juninho é fedido!”.
Não, não é Juninho que é fedido. É a falta de meias ao usar o tênis que deixa tudo fedido.
Exalando chulé!
O jovem conseguiu fazer uma análise clara e sábia da situação. Usou da razão e lógica para entender o fenômeno do fedor.
Ele foi grande.
Não tenha dúvida que aquela mulher, também sábia, uma vez que não retrucou o jovem também cresceu com o feedback ou conselho.
Juninho passará a usar meias, ou pó anti-chulé, ahh se passará.
Se todo mundo tivesse esse cuidado no que fala ao outro, na hora de admoestar, na hora de orientar, na hora de avaliar algo que não está nos conformes.
Ter a sabedoria de iniciar perguntando sobre o acontecido ao envolvido. Dando-lhe chances de explicar o contexto da ação, seus motivos e direcionadores do comportamento observado.
“Juninho tem pressa ao se arrumar...”
Ao iniciar uma sessão de feedback com uma pergunta, suscita-se espaço para o diálogo socrático, o parto das ideias chamado de maiêutica.
Abrem-se possibilidades para reposicionamentos, esclarecimentos, melhor compreensão do observado, agora descrito pelo seu próprio protagonista. Sem terceiros, sem distorções perceptivas, furto de nossa limitação inata de perceber. 
O pequeno jovem usou de táticas estratégicas na condução de um feedback qualificador, aquele que nos torna melhores depois que ouvimos:

1. Pedido de maiores informações sobre aquilo que ocorreu. Na perspectiva de seu protagonista.

2. Narração descritiva do incômodo com o fato acontecido, sem adjetivações, sem personalização.

3. Criação de um ambiente sereno, de respeito, de diálogo. (“Oh tia...”)

4. Corte cirúrgico da cena, possibilitando ao outro um espaço de reflexão e mudança. Lembram que o jovem não fez uma réplica. Ouviu as explicações da mãe e ponto.

Costumo dizer que um feedback, ou conselho, pode ser um ato de amor. 
Um ato de quem acredita na força dos seres humanos de mudarem e que todos podem despertar o potencial interior no outro. Que muita das vezes só precisa de um toque, uma palavra, uma orientação.
Cuidar da forma é meio caminho andado para o resultado que se espera. Tem gente que bota os pés pelas mãos, chuta o balde, agride com palavras e acha que está dando conselho ou feedback.
Está não. Feedback precisa ser acolhido por quem recebe e este acolhimento é vital para a transformação. Um acolhimento de quem sabe que quem o está formulando não quer o mal dele, confia nele, acredita nele.
Feedback é um ato de amor, de profunda humanidade, de amorosidade.
Mesmo duro, às vezes constrangedor, difícil... ainda assim quando formulado com amor ele mexe com quem o escuta. Às vezes dias depois, ou até anos. Mas, fica a semente.

Ainda hoje lembro-me de um “fodeback” que recebi, estes também ficam. Após um processo seletivo uma das entrevistadoras disse-me que minha risada, alegria, ao longo das atividades tinha um “que de cinismo, de ironia...”.
Aquilo acabou comigo, por muitos meses adiante. Se ela perguntasse o porquê de minha alegria, naquele dia, eu teria tanto a lhe falar.
Uma pena! Outro dia um colega me procurou arrasado, alguém lhe dissera que o fato dele ter uma leve gagueira o incomodava.
Como alguém pode dizer isso a alguém?
O colega iria poder curar a gagueira? Era algo sobre o qual tinha controle?
Poderia mudar?

Por que então essa necessidade de violentar o outro com conselhos e feddbacks inúteis, que mais bem faz a quem o fala, numa masoquismo inverso, de ver o outro sofrer, de que para o outro que o recebe.
Aprendamos com este jovem que não deixou de pontuar o que lhe incomodava, sem queimar as pontes de relacionais.

Por uma Etiqueta em Redes Sociais, Urgente!


Por uma Etiqueta em Redes Sociais, Urgente! 
O ambiente das redes sociais reproduz o ambiente social no qual vivemos, com nossa cultura e valores contemporâneos. Entre em qualquer matéria, sobre qualquer coisa, e leia os comentários colocados no rodapé. Caso o site não tenha filtrado, você lerá absurdos e ficará sem acreditar se o que leu é o que o cara pensa mesmo. De tanta aberração escrita.
Muita intolerância, muita falta de convivência com outras vistas de um ponto.
Muita gritaria virtual e pouca paz.
A pessoa posta numa comunidade que gosta de um determinado poeta, cantor, etc. Não passa um minuto e entra um outro detonando, não só o comentário mas até quem o fez, descambando para ataques pessoais, o que é pior ainda.
Este que detona vai buscar em orelhas de livros argumentos e humilha o autor do post.
E assim vamos reproduzindo uma sociedade perversa, veloz e furiosa que desaprendeu a conviver.
Sabe aquelas fechadas no trânsito? Sabe aquele cara que "sai do engarrafamento", dirigindo na faixa de acostamento. E passa ao lado de seu carro com ar de vitorioso?
Sabe aquele cara que não deixa ninguém falar, que sempre está certo que foi criado sem limites, achando que tudo podia, pois tudo tinha?
Sabe aquele cara que botava apelidos em todo mundo, que sacaneava com as diferenças de sotaques, de opções sexuais, de cores, de religião, etc?

Ele está aqui também.

E aqui conseguiu finalmente o que sempre precisou. Palanque para satisfazer sua fraca autoestima, seu ego centrado.

Muita gente acha que pode falar o que quiser. Dizer o que quiser. Aproveita a onda e desce o cacete.
Esquece a força da palavra escrita. Esquece que pode responder pelo que fala.
Gostam de palco, de plateia. Moleques virtuais.
Gostam da polêmica, do conflito, do caos. Da briga, adoram uma briga.
Não sabem dialogar como quem joga frescobol na praia, sem deixar a palavra cair.

Eles gostam mesmo é de jogar pingue-pongue, a palavra é feita para derrubar, para atacar, para vencer o outro.
Tal bola de pingue pongue. É para vencer o outro. Sempre. Diferente do jogo de frescobol à beira-mar. Ali. a bola é tratada com carinho, arrumada par ao outro continuar a jogá-la, sem perdê-la, sem deixá-la cair. Como num diálogo entre iguais, um diálogo assertivo, construtivo, com amorosidade. Que não significa concordar com o que o outro diz, mas com cuidado apresentar outras vistas de um ponto. e abrir-se a visão de mundo e o lugar de onde fala do outro. Crescendo todos no embate das ideias, como numa ágora.
Não medem sua discordâncias no parâmetro do quanto ainda resta de concordância. Não semeiam convergências.

"Não concordo". Mas em quanto? De um a 100 qual o valor da discordância?

Leitor de orelha de livro sai arrotando sua pseudosapiência e humilhando a todos. Não pensa. Não pondera. Não mede o impacto do que diz. Joga merda no ventilador e pronto. Para ele sempre tem alguém armando, conspirando, tramando.
Acredita que há uma sala que se reúnem pessoas para tramarem contra as outras. Só ele é ético, cidadão e honesto. O resto ele sempre vê com desconfiança. Acha que é democrata, desde que não o contrariem.

Possui a inteligência emocional de uma ameba.

E vamos reproduzindo no meio virtual os resultado de uma escola e família que não ensinam os aprenderes do Ser e do Conviver.

Famílias que criam seus filhos para oprimirem, para destacarem-se mesmo que sob as costas dos outros.

Escolas que não ensinam a escutatória. A convivência, o respeito e o exercício do diálogo.

Uma sociedade excludente, agressiva e veloz... conectada mas sem criar vínculos.

Conectada, mas sem ser rede. Uma conexão de espinhos amontoados.

Sem liga entre eles.

Lógico, há muitas exceções. Há pessoas que usam o espaço virtual de forma super legal. Elas também reproduzem a sociedade. Também há pessoas solidárias, cidadãs e éticas na sociedade.

O problema é que o primeiro grupo: altamente individualista, narcisista, intolerante está sendo gerado em maior quantidade. Alimentam-se do outro, qual formigas matando as folhas. Filhos mimados e sem limites que nunca tiveram que "pegar ônibus", ou ralar por nada, que seus quartos têm todos os recursos de uma casa, que os isolam inclusive do contato com outras pessoas, geram adultos prepotentes, auto-suficientes e se achando o centro do mundo e atenções.
Para estas pessoas ter gratidão, compaixão, solidariedade, empatia pelo outro é super difícil, elas não aprenderam... ainda!

Quando só nos resta orar

Não pude deixar de me comover com este jovem que ajoelhado ergue as mãos em prece, pedindo proteção para seu grupo. Ele não está se rendendo. O ângulo dos braços e a posição da cabeça revelam que ele está em prece. Ele não teme levar um tiro pelas costas, uma bala de borracha que fere e machuca, mais do que a carne, a dignidade. Ele está firme nos seus propósitos, mesmo diante de tanto conflito e violência. À sua maneira encontrou um jeito de fazer a diferença. Quanta coragem, discernimento e ousadia. Quando estamos sofrendo violências, quantas das vezes, voltar-nos para o bom Deus é caminho! E, para isso, é preciso afastar-nos da fonte do mal. Isto não significa ser covarde. É uma estratégia de enfrentamento, que pelo contrário, exige muito mais coragem do que reagir à agressão, com agressão. É uma não-violência-ativa que produz um efeito paralisante no agressor. Ele não espera este gesto. Imagino o quanto o policial ficou atônito com o jovem em prece, principalmente se também é um homem de fé. Guardarei com emoção esta cena. Sempre que diante de violências que poderão aparecer em meu caminho, seja uma fechada no trânsito, seja uma "trairagem" de colega, uma calúnia, uma ofensa, ou uma puxada de tapete qualquer... antes de reagir, lembrarei de pôr os joelhos no chão e erguer as mãos em prece, pedindo proteção e sabedoria para enfrentar a situação sem aumentar ainda mais a violência da situação. Abençoado jovem, hoje tu me encantou, que nada de mal possa ter lhe ocorrido! É preciso esperar contra toda desesperança e amar as pessoas como se não houvesse o amanhã, mesmo que dando-lhe as costas e em joelho rezando por elas.

Tolerância


Sábado de sol, mês de junho. Festas juninas a mil em Brasília. Sigo com JG para o arrraiá de seu colégio. Atrasados, como sempre. Corro, 120 por hora. Chegamos quase no último segundo, sua par de quadrilha já desesperada.

Eles entram no salão divinamente, ao som de Luiz Gonzaga. Encho os olhos de lágrimas. Saudades de meu povo, muitas saudades.
Após apresentação, João Gabriel vai brincar no pula pula inflável. A algazarra das crianças impressiona. Sento-me na entrada, e escuto aqueles sons embevecido. Uma mãe acompanha comigo os pulos de sua filha. Eis que soltam perto de seu pés um daqueles estalos que explodem. Ela surta com o barulho. Olha pra trás e solta os cachorros: "Que merda, vão soltar este negócio na puta que pariu!"
O pai da criança que estalou o estalo sai em defesa dela e xinga a mulher. A mulher vocifera que não gosta de barulho aos seus pés. João Gabriel brinca, sua filha brinca. O avô toma as dores da neta que soltou o estalo e xinga também a mulher, todos xingam a mulher que acuada cala-se. O pai do menino, não satisfeito com tantos xingamentos, ao sair da cena, volta-se repentinamente e joga um estalo nos pés da mulher. Vejo tudo assustado. Nosso filhos brincam no pula pula.
Fico imaginando o porquê daquela mulher estar tão azeda com folguedos juninos.
E o porquê da reação daquele pai que foi provocar a mulher.
Afinal, tudo é alegria e trata-se de uma festa junina. Testemunho a cena impotente, contudo pronto para reagir em defesa daquela mulher, afinal são dois contra uma. Nossos filhos olham assustados o bate-boca. Inocentes sorriem. Só não interfiro para não piorar ainda mais a situação. Após um monte de imprecações os homens "adultos" saem, e satisfeitos, "pagaram"o dissabor que ouviram. Não sabem o exemplo que semearam no filho que tudo via, aquele que soltou o estalinho
Terminam as apresentações juninas. Vamos nos dirigindo ao nosso carro.
À nossa frente segue aquela mulher, a do barraco do traque junino, vejo que ela tem dois filhos. Um deles vai com ela, outro com a babá. O que vai com a babá tem dificuldade de locomoção e compreensão. Deve ter sofrido paralisia cerebral ao nascer. Imagino o quanto ele deve se assustar com barulhos, já que sua cognição é imatura. O quanto ela deve estar estressada com a lida diária com uma criança com necessidades especiais. Ahh!!! Agora entendo aquela mãe.
Como seria legal se pudéssemos saber da história dos outros, antes de violentá-los com nossas sábias razões.

Eles poderiam simplesmente terem saído da cena. Mas, o gosto da batalha, do sangue, os mobilizam. Precisavam mostrarem-se fortes, e não perguntaram o cara ainda voltou e cuspiu um estalo nos pés da senhora. Assustando-lhe mais uma vez. Sequer procurou saber o que tinha assustado aquela frágil mulher. Ou sacarem o quanto ela poderia ter reagido daquela forma por uma vida difícil que leva. Não relevaram. Sofri por ela, ao saber de sua condição. Mas, não justifica sua atitude também grosseira. Cansado. Estou cansado de tanta violência e falta de tolerância. Precisava terem voltado e estalado um traque nos pés da senhora, na frente de sua filha?

No caminho de volta para casa, um jardineiro que tem um ano que me promete recuperar meu sistema de irrigação, comido pelos cachorros, diz que está na minha casa e que vai resolver a parada. Peço para passar o fone para minha mensalista, e a oriento para fornecer-lhes cerveja. Minha esposa reclama, diz que ele não merece nada, pelas desfeita que me fez. Digo-lhe: "é minha cota de bondade que faço neste dia... o que custa uma cerveja gelada, mesmo para quem me traiu por um ano?"
Quanto custa reatar uma relação? Uma cerveja?

Saiu barato!

Bip bip bip.,,,

Ao longe o som fazia um bip bip baixinho. Diferente de outros bip bip a que me acostumara. Sentia uma sensação estranha, como se tirassem pouco a pouco minha camisa e o calor fosse descendo. Olhei no relógio: 4h da manhã.
Senti a morte ao lado. Sem forças para gritar ou acenar, seria uma morte silenciosa. Com muito esforço virei a cabeça para o lado, de onde vinha sons, procurando ajuda. Observei um casal de auxiliares de enfermagem trocando os lençóis de uma das camas da UTI Cardíaca, de alguém que horas antes partira. Trocamos olhares. Eles pararam o que faziam. Fitaram-me. Viram que de meu pescoço escorria, pelo curativo da jugular, um rio de sangue. Acionaram a ilha da enfermaria que estavam ocupados com outras ocorrências. Pessoas de branco corriam. Expressões preocupadas ao meu redor. Ouvi "pressão 6 por 4". Sentia calma. Nada de luz, de desespero. Uma calma de quem partiria sem grandes dívidas emotivas. Aos poucos, o calor foi voltando. Mexia o corpo para ter certeza de que ali ainda estava. Uma alegria invadiu-me, estampou-se no meu rosto. Fora engano. Erro de leito. A morte seguiu adiante. Queria fazer amor com todos. Queria publicar minhas graças, revelar minhas bênçãos. Em êxtase pensava em beijar a todos. Rememorei quantos estavam me esperando, lado de fora. Quantos que por eles eu tinha uma razão para voltar para casa. Aplicaram-me um sossega leão. Acordei pelas 10hs. Cansado. Exausto. Abri os olhos, a cama ao lado agora tinha um novo cliente. Vi um lanchinho ao lado de meu leito. Um suco, umas frutas, bolachas e uma pequena garrafa com leite. Sorvi um a um como um banquete divino. Que sabor! Deliciava-me com coisas simples que desaprendera a gostar, até a bolacha quebrando no céu da boca. Coisas que os olhos opacos da indiferença tornaram-nas banais. Saboreei aquela pera como a única. Rodei-lhe e vi nela um traço de mulher. Estava tendo alucinações? Aceitei de bom grado o chamado do fisioterapeuta para andar, andar dói com a sonda. Aceitei tudo como dádiva. Aprendi que sou "morrível". E, em assim sendo, preciso ser "vivível" sempre! Para que, quando ela não errar o endereço, eu possa - pelo amor que plantei ter pelo menos seis pessoas levando-me - do leito lenhoso para a terra macia. Semearão meu ser ali e germinarei nos braços do Pai.

Um Armário de Aromas-Afetivos

Hoje abri um armários de aromas.
Senti o cheiro da casa de meus pais, cheiro de bife refogado, cheiro de cera no piso, mil vezes encerado.
Senti o cheiro da praia, cheiro do sargaço, das ondas em vapor.
Senti o cheiro do amor, cheiro de liberdade.
Revirei mais um pouco e senti o cheiro das folgueiras de São João, das pólvoras de buscapés.
O perfume das fraldas de meus filhos.
Sorvi o aroma de leite com café, tomado nas madrugadas dos treinos de natação no SESI.
Tomei coragem e fui mais a fundo, revirei no cantinho do armário, e senti o cheiro de minha mãe. Quanta saudade de seu colo, no qual deitava a cabeça para ver TV.
Cheiros, odores, memória afetiva-aromática que vamos construindo com nossa história.
Alguns, daria a vida para sorvê-los novamente.
Alguns, só de senti-los pulsa em mim a força da vida.
Outros, temia. Cheiravam a mistério, ao sagrado, um sagrado que reverencio e que cheira a incenso.
Tem lares que cheiram.
Tem pessoas que cheiram.
Cheiro para mim é o que cheira bem. O que fede chamo de fedor. Catinga.
Tem pessoas que são aroma. Tem cheiro de terra chuva na terra.
Queria uma máquina de guardar e reproduzir aromas afetivos.
Cada manhã escolheria um deles para abrir meu dia.
Como não existe, procuro sorvê-los intensamente, neste aqui e agora, com a certeza de que passarão.
Sinta o aroma dos que te rodeiam.
Sinta o aroma das coisas, da terra, do lar, do quarto, da cozinha, dos móveis, das plantas.
São aromas que falam.
São perfumes que escrevem tua história.
Fechei o armário de cheiros, não sem antes pegar um deles para reviver, um cheiro especial, o cheiro de estrume de vaca que sentia ao passar finais de semana no sitio de meu avô, no sertão da Paraíba.
Como gostava de acordar cedinho, ouvindo os sinos da criação, os sons de meu Avõ aboiando, e sorvendo aquele aroma de estrume.
Abria a janela do quarto que dava para o pequeno estábulo e a vida acontecia lá fora.

Pensatas Poéticas

Sinta o toque do sereno, anunciando a manhã vindoura.
Saia do sereno. Só o sinta.
Mas saia.
Sereno adoece.
Volte-se para o interior protegido.
Ali, acenda o fogo da sua cozinha interior.
Revire-se na frigideira de seu ser, refogando-se em mil sabores.
Revire-se na frigideira do ser.
Neste revirar-se, dispa-se de tudo que te atormenta.
Frite gorduras existenciais.
Abra-se ao novo, uma pitada aqui, outra acolá...
Tudo na simplicidade e com cuidado.
Crescer dói e se errar na mão, ou adoça demais, ou salga.
Cuidado, as relações e encontros pedem calma, tempo.
Pedem candura, ternura, desculpas. Pedem jeito, não força.
Vaidades, etiquetas, ditos, não ditos, mal ditos tudo se esvai em fumaça, no calor da frigideira vital. O que fica na mistura do ser são os sabores para quem nos saboreia. Queira ser sabor para todos.

Pensatas Poéticas

Acordei sentimentos matinais. 
Um choro de criança ferida ouve-se em minha alma. Vagarosamente, entre soluços e incontidas lágrimas, caminho tateando por entre labirintos de móveis em forma de gente. Procuro adiante um traço do que fui, vejo borrões. Alucinado, contemplo o escuro, tropeço em móveis-gente, e os abraço. Uns respondem, outros silenciam. Afinal, móveis que o são, não se dão ao luxo de esticar mãos, acolher inquietudes e acarinhar pensamentos. Sigo pela trama do tecido de que é feito o viver, embaraçado, confesso que cansei... Respiro ofegante. Acalmo sensações. Revejo saudades escondidas, viajo para lugares recônditos, apriscos de meu ser. Movo-me até eles e sinto a paz. Uma alegria imensa me invade, ali vejo outros belos e afetuosos seres, não estou só!

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