Superação

Final de uma semana cansativa abro um uísque e sirvo-me de dose farta. No pomar, contemplo o entardecer e as montanhas suspirando pelo banho de lua.
No CD escuto músicas de antigos eventos que conduzi mil lembranças soluçadas vão brotando em estertores da frágil memória.
Eis que a Neta surge. Neta mora conosco, trabalha em nosso lar desde 2011.
Um doce de pessoa. Ela saiu da roça em 2011, com 17 anos, migrou 600 km para ganhar a vida no DF. Deixou uma família feliz, pais amorosos, e veio procurar as melhoras de seu viver.
Neta me aborda com seu notebook ligado e diz:
“Sr. Ricardo, o sr. que ver minhas notas da faculdade?”
Emocionei-me com tanta delicadeza de gesto, com tanta simplicidade e necessidade de compartilhar.
Disse-lhe que claro.
E ela, toda orgulhosa mostrava as notas boas, os 10, e lamentava os 5,5 ou os 6.
Neta faz Enfermagem, à noite.
Cursa o primeiro período.
Ela vivia me dizendo que queria fazer faculdade. Eu a aconselhei pra fazer uma aqui em São Sebastião, uma de Administração.
Ela me disse que seu sonho é ser enfermeira e que procuraria uma que fosse seu sonho.
Desde então tentou os ENENS da vida pra ingresso na UNB e nesse meio tempo fez vestibular para a UNIP e passou.
Paga quase mil reais por mês. Leva hora e meia pra ir e vir, mas não desiste. Toma 4 conduções em busca de seu sonho.
Todo mundo dizia que Neta não conseguiria trabalhar. Ela levou uma queda e machucou a cabeça. Ela se diz “um pouco lerda”.
Mas, ela superou-se e com dedicação não só aprendeu como virou professorinha da escola rural onde habitava e catequista da pequena comunidade de lá.
Neta tem sonho simples, sonho de escaladas, de determinação.
Não se abate.
Devora todos os livros de minha biblioteca, e foi leitora assídua de meu livro Sobre a Vida e o Viver.
Mas, não pensem que não dá duro. É o dia inteiro cuidando da casa, e a casa é grande.
Neta é meu exemplo para não desistir de buscar sempre mais.
De aprimorar.
Todos os dias, quando chego cansado da lida e não a vejo em casa, sei que ela está estudando e isso me motiva a não desanimar.
Agora ela faz mais um ENEN, seu sonho é estudar em escola pública.
Acredito que Brasil afora exista muitas Netas. Netas obstinadas, que remodelam seus destinos.
Acho que vou prepará-la para o concurso do BB.
Do jeito que ela tem leitura, vai longe.
Ontem, mal me recuperava da emoção de ver o excelente boletim da Neta.
Emoção de sentir-me de alguma maneira parte de seu viver, leio um post que ela fez nos dias dos pais que me encanta pela sensibilidade, compartilho com vocês.
“Meus pais... rostos cansados teus representa uma história e são tantas... Quantas experiências, quantas histórias para contar, quantos conselhos para dar, quanta paciência para nos suportar.
Uns advogados nas nossas vidas. Mediadores em nossas decisões. Vocês são o meio termo, o equilíbrio, a palavra de esperança, o colo que anima, o ombro que apesar de cansado apoia.
O olhar da complacência...
Saudades suas.
Saudades de quando criança. Onde tudo era alegria aí na casa de pedra.
Saudades de tomar banho na chuva, de andar de cavalo mesmo sem saber direito.
Saudades de ir pra roça com vcs tão longe de casa.
Saudades de pentear seus cabelos, beijar seus rostinhos, saudades de tudo...
Amo-te meus pais!!!!!!!”


Vai Neta, nos leva com tua motivação a nos inspirarmos em teu exemplo de força de vontade e atitude otimista.
Queremos também superar dificuldades, vencer desafios, encontrar forças para recomeçar, e aprender contigo a enfeitiçar o luto da saudade, transformando-o na esperança dos reencontros.
Vai Neta, luta que não estarás nunca sozinha!
Outros te seguirão e te apoiarão. A natureza conspira em favor dos obstinados.
E, mostre-me sempre o boletim!

Obs: Na foto, Neta é a primeira à esquerda.

Fragmentos

Retalhos de visões. Fragmentos de realidades. 
São as pessoas. 
Juntas, completam-se e fazem coletivos de subjetividades, que na intencionalidade do
ser, criam amálgamas de sentidos.

Não é por um limão galego!

Se no domingo passado você saísse às ruas em busca de honestidade e valor poderia ter esbarrado nesse jovenzinho, sem querer. Ele ajuda sua vó a vender verduras na feira. O seu avô não pode mais acompanhá-la, pois sofreu um AVC. Cheguei ao meu lugar costumeiro, na lanchonete La-Dayse e "minha mesa" estava ocupada. Dali contemplo em prece o burburinho da feira-livre. Então, fiquei em pé, perto de uma banca de verduras esperando a mesa vagar. Eis que chega um cliente: postura afobada e com peito estufado encara o jovem vendedor das verduras, atrás de limão Galego. O jovem diz que já vendeu tudo. Ele então vê um saco com uns 5 limões em seu interior. Passo seguinte argui o jovem com olhar e palavras querendo levá-lo. O jovem diz que já fora vendido. Ele, então propõe que o jovem tire um limão do saco e o venda, uma vez que só precisará de um limão-galego. O jovem diz que não pode. O cliente irrita-se e ameaça falar com a vó do menino. Ele então diz que ela já vem chegando. Quando ela chega, ele tenta novamente. Repete a mesma cantilena, encarando a vozinha. Ela, serena e com uma altivez surpreendente, diz que o neto está certo e que não pode tirar um limão do saco, uma vez que já os vendera e o outro cliente ainda virá buscá-lo. O senhor então dá uma rabissaca e sai da banca resmungando impropérios. Eu fiquei na posição estatua. Degustando cena a cena do espetáculo de honra e dignidade que presenciara. De respeito e ética. Dos mais pobres, dos remediados dessa vida, brota gestos que muitos letrados e pessoas influentes não o fariam, caso estivessem em seus lugares. Bendito limão-galego que se manteve junto aos seus quatro irmãos e pode exercitar naquele jovenzinho e sua vó tamanha atitude. Mas era apenas um limão galego. Era, mas seria a diferença entre ser ético, e meio ético. Só isso! E, como não existe meio-ético. Quais limões galegos você irá preservar para conservar ético? Que proposta vai desconsiderar por ferir teus valores? A quem mandará ir pastar por te fazer propostas desumanas? Todos os dias alguns desses "clientes" nos abordam - na banca de nossa vida, desafiando nosso coração. Não ceda.
Resista à corrente. Aprendamos com essa criança a ser ético, justo, digno e coerente mesmo nas pequenas coisas. Fiel no pouco, fiel no muito. Não é por um limão galego, é por dormir em paz com a consciência. 

Com que roupa?

Eu acompanho essas flores tem uns anos. Ela brota da trepadeira que se enrosca nesse jequitibá. Lá pelo fim de setembro, início de outubro. Ela é temperamental, em uma semana explode em flores amarelas e tchau. Em anos passados já perdi de fotografá-la, pois deixei para a semana seguinte. 
Quando entra agosto começo a ficar de olho nela. Dessa vez ela me pregou um susto. Passei na sexta-feira dia 25/09 e nada de flor. Até pensei comigo, será que esse ano ela desistiu de florar?
Na segunda, dia 28 vou dirigindo e quase solto a direção de tamanho espetáculo. Ela se vestiu de flores amarelas no final de semana. Estava linda, linda.
No outro dia trouxe a máquina e a documentei. Nessa semana já não havia mais flores.
Agradeci ao bom Deus as fotos que fiz. Agradeci o gesto que vi minhas amigas fazendo, quando as levei para verem as flores. Elas colheram um pequeno buquê as cheiraram.
Saindo de lá, fiquei matutando, nunc tinha sentido o cheiro daquelas flores. Disfarcei que ainda iria bater umas fotos, parei perto da árvore, e peguei um punhado delas na mão e as sorvi com suavidade. Elas tinham um aroma gostoso, perfume de primavera, perfume de flores vadias.
Lembrei-me de uma cena do filme Gênio Indomável no qual um jovem com um QI altíssimo, mas com uma dificuldade relacional também muito alta, passa a ter sessões obrigatórias com um psiquiatra, por recomendação da delegacia da infância (ele está desajustado socialmente falando).
Durante todas as sessões o rapaz não se deixa analisar, invertendo o jogo e enchendo a cabeça do psiquiatra com uma sabedoria livresca sobre tudo e todos. Numa cena memorável o psiquiatra, cansado de tanta presunção de sabedoria, começa a dialogar sobre a Capela Sistina no Vaticano. E o faz perceber que embora saiba tudo sobre aquela bela obra ele não sabe o cheiro no interior da Capela Sistina. Aí, o rapaz titubeia, aflige-se, inquieta-se, e não responde. Abaixo transcrevo o diálogo emocionante:
“Se eu te perguntar sobre arte, me dirá tudo escrito sobre o tema. Michelangelo, você sabe muito sobre ele: sua obra, aspirações políticas, ele e o papa, tendências sexuais, tudo. Mas não pode falar do cheiro da Capela Sistina. Nunca esteve lá, nem olhou aquele teto lindo. Nunca o viu. Se eu te perguntar sobre mulheres, me dará uma lista das favoritas. Já deve ter transado algumas vezes, mas não sabe o que é acordar ao lado de uma mulher e se sentir realmente feliz. Você é um garoto sofrido. Se perguntar sobre a guerra, vai me citar Shakespeare “Outra vez ao mar, amigos.” Mas não conhece a guerra. Nunca teve a cabeça do seu melhor amigo no colo e viu seu último suspiro pedindo ajuda. Se te perguntar sobre amor, citará um soneto. Mas nunca olhou uma mulher e se sentiu completamente vulnerável. Alguém que o entendesse com um olhar, como se Deus tivesse posto um anjo na Terra só para você, para salvá-lo do inferno. E você sem saber como ser o anjo dela, como amá-la, apoiá-la, estar com ela sempre, em tudo… no câncer. Não sabe o que é dormir sentado num hospital por dois meses, segurando a mão dela, porque os médicos viam em seus olhos que o termo “horário de visitas” não se aplica a você. Não sabe nada de perda, porque ela só ocorre quando você ama algo mais que a si próprio. Duvido que já tenha amado alguém assim. Olho pra você, e não vejo um homem inteligente e confiante. Só um garoto convencido e assustado. Mas você é um gênio, é inegável. Ninguém entenderia sua complexidade.”

Corte a cena e voltamos a minha trepadeira amarela. Eu não sabia o cheiro das flores dela.
Passara por elas já há quatro anos e não sabia.
Só as via, fotografava.
Agora eu sei.
Agora eu cheirei.
Agora somos únicos, formamos uma composição do aroma com meu olfato.
Agora suas flores tem cheiro para mim, na minha memória afetiva olfativa.
Penso que muitas coisas de nosso viver são assim, isoladas racionalmente como se delas se extraíssem apenas conhecimentos cognitivos.
Isolando a emoção, o afeto, o sentimento. Parece que isso é uma fuga. É mais fácil não se envolver, não cheirar as flores.
Ligar à vida no piloto automático e retirar de todas as cenas as emoções nela contida, numa besta pretensão de não sofrer ou se envolver.
É como diz o poeta Toquinho: Quem já passou por essa vida e não viveu,
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu.
Porque a vida só se dá pra quem se deu,
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.”
Viver é sujar as mãos, envolver-se, gritar, chorar, sorrir, lambuzar-se, e pisar na terra.
Tomar banho de chuva.
Viver é botar emoção em tudo, e explorar o desconhecido permitindo-se voar em busca de novos horizontes.
Viver é sofrer, perder, ganhar, prazer.
Viver é dá marcha ré e voltar pra cheirar umas flores amarelas. Pois, essa experiência será única e só minha; E que por melhor que seja a descrição de seu cheiro, de seu aroma, nada substituirá sentir por mim mesmo.
Viver é entregar-se de corpo e alma. É torcer, vibrar, cantar, dançar, sentir o calor do outro.
Viver é pegar um voo qualquer e ir cheirar o interior da Capela Sistina. Já me disseram que tem cheiro de bolor. Mas de que bolor mesmo? Tenho que ir cheirá-la.
Não adie emoções. Não deixe para depois.
Viva intensamente.
Volte pra bater aquela foto que esqueceu. Coma aquele aperitivo que queria comer.
Ande de pés descalços na chuva caso sinta-se bem.
Faça um monte de coisas que gosta e que sobre elas ninguém tem satisfações a receber.
Brinque, liberte a criança ferida e reprimida que foi “formada” na forma das famílias, escolas, organizações.
Respeitando os direitos dos outros, a ética e a natureza curta-se de montão.
Faça seu próprio aniversário, leve-se para passear, se dê de presente um dia só seu.
Seja sua melhor expressão de você mesmo, autêntico. Verdadeiro. Seja gente.
E gente é assim mesmo, gente é cultura, são subjetividades, é loucura.
Gente é belo por ser assim.
Um dia minha filha mandou-me um link de um vídeo de uma senhora que chorava frente ao policial, pois roubaram sua casa e levaram sua galinha.
Isso mesmo. Sua galinha.
Ela daria todos os bens materiais ao ladrão em troca de ter a galinha novamente.
Aquela era sua galinha de estimação.
Essa senhora me emocionou. Ela é gente.
Ela não se deixou contaminar-se pela indiferença, materialismo, racionalidade que tentam proteger-nos do sentir.
Era a galinha amada dela e pronto.
Às favas para que a achasse ridícula.
Se eu pudesse voltar às cenas de meu viver teria vivido tantas coisas que por pudor, timidez, acomodação, medo não vivi.
Teria prestado mais atenção nos momentos bons, menos nos ruins.
Teria anotado os endereços de meus amigos e não deixado irem sem um abraço.
Teria feito outro vestibular, e para medicina, enquanto discutia com um amigo se nos inscrevíamos no curso de engenharia civil para qual passara.
Agora procuro os pequenos prazeres e os vivo. Como goiabas todos os dias às 15hrs no prédio onde trabalho.
É um ritual. Levanto-me, desço até o estacionamento, tiro uma goiaba, e volto feliz da vida comendo-a.
Agora volto pra tirar fotos de cenas que marquei.
Agora, não solto a cena enquanto não provo com todo o meu ser de todas as emoções dela advindas.
Esse sou eu e pronto.
Sou a minha essência. Se quero ir com camisa xadrez numa quarta feira, qual problema?
Tem muita gente dizendo é por ali, é por “alá”...
Mas é você quem terá que cheirar as flores para que sua vida faça sentido.
Não será o outro quem te dará o sentido.
Portanto, suje as mãos, sorva a vida e deguste sentimentos.