Deguste Prazeres.


Tem um pedacinho de céu em Londrina-PR que sempre que posso vou ali restabelecer as energias.
Trata-se de um restaurante rural chamado de Porco no Tacho.

De culinária alemã, italiana e caipira juntas e misturadas, ali aprendo sempre que vou a arte da convivência. Fica na região Norte de Londrina, num bairro chamado Heimtal.

Já sou recebido como um amigo da família. Já sei quem casou, adoeceu, viajou.

Pego logo “meu lugar, em pé e no canto grande balcão no qual o Julinho serve as costelas no bafo, preparadas com horas de antecedência.

Ali, exerço uma das minhas maiores vocações: observar.

Fico tomando minha caipirinha e vendo o prazer que o Julinho tem de atender, de destrinchar a carne e servi-la a clientes salivantes.

Sempre troca um dedinho de prosa, nem que seja um “espero que goste”.

A cada um ele destina um encantamento. Muitos conhecem pelo nome.

E, a vários, apresenta-me como “o Paraíba que mora em Brasília, trabalha no BB e sempre vem nos ver.”

Ele usa o “Paraíba” com carinho, não como em algumas regiões o termos é usado.

Ali fico proseando, prosa curta, com cuidado para não atrapalhá-lo na fina arte de abrir a costela, e limpá-la antes de servi-la.

Aos poucos os outros membros do clã vão passando pelo “meu balcão” e me atualizando das novidades de suas famílias.

O assunto ontem foi as artes do patriarca da família, alemanzão da gema, casado com a matriarca italiana Nilda, que há dois meses quebrou a clavícula.

Ele é o responsável por assar o porco no tacho.

E, entre uma fornada e outras, encosta no balcão pra prosear.

Ontem em contou que sarou rápido porquê fez uma receita antiga, um unguento que aprendeu com o clã: gema de ovo e breu misturados, e aplicados sobre a derme como um emplasto.

Fiquei pensando: o emplastou pode ter ajudado, mas a vontade de viver e voltar a mexer o tacho do porco funcionaram como catalisadores da recuperação.

Você tem um lugar “Porco no Tacho” em seu viver?
Um cantinho de paz, de valorização, no qual você não é mais um RG na multidão?
Um cantinho de afeto, de boas lembranças, de fraterna coletividade.
Aliás, afeto é o que mais se cozinha no tacho daquele restaurante.

Fico observando como o clã se trata, e trata aos clientes.

Overdoses de alegria, respeito e afeto. Ninguém passa despercebido.
Aliás, na fila pra servir a costela ninguém escapa do afeto do Julinho.
Daquele que olha nos olhos, sorri e te abraça na alma.
A fila pode estar grande, clientes ávidos e babando, mas mesmo assim ele dispensa a cada um uma saudação, um dedo de prosa, um reconhecimento da presença.
Julinho gosta do que faz. Gosta de atender. Gosta de gente.
Aliás, gostar de gente é uma característica do clã que ali trabalha e nos recebe tão bem.

São uns 12 ítalos-alemãs-brasileiros que se alternam nas várias atividades de um restaurante rural.

A mistura da italianada, alemanizada e brasileirada deu um toque cultural maravilhoso ao lugar, uma energia de encontros e coragem.
Coragem de migrantes e sobreviventes, como todos nós.

O lugar nasceu do futebol. Como assim?

Faz parte da propriedade da família um campo de futebol gramado e bem cuidado, ainda existente e que funciona ao lado do restaurante.

Dona Nilda, a matriarca da família, servia aos jogadores – quando do término das partidas, fartas porções de porco assado num tacho, feito em rústicos fogões a lenha.

O cheiro da fritada inebriava os jogadores que encontravam nas farta comida uma razão a mais para se alegrarem.

Aos poucos, e de tanto ouvir que ela tinha jeito pra coisa, dona Nilda foi abrindo seu restaurante.

E, os jogadores foram chamando amigos e familiares para almoçarem ali.

O lugar nasceu com a marca de encontros, de confraternizações.

Tal qual os que acontecem ao término das peladas, país afora.

Pelo tamanho do lugar, poderíamos passar despercebidos, afinal são mais de 500 lugares.

Porém, ninguém ali passa despercebido.

Ali mora o amor.

E o amor reconhece pessoas, mesmo nas multidões.

O amor torna-nos únicos, indivíduos, plenos.

O amor consegue gerar amálgamas de coletivos, onde antes habitava um punhado de gente dispersa.

Naquela família, mais que saciar a fome, saciamos necessidades de afeto, de presença, de comunhão e alegria de estarmos vivos.
Imagino dona Nilda temperando o porco hoje, aproveitando o dia que fecha para preparar as carnes. Temperar os porcos, carneiros, preparar as linguiças.
Imagino a alegria daquele povo, hoje reunido em família, comentando sobre a semana que passou, e sobre um Paraíba que gosta de prosa e de fotografia.

Imagino-os desejando minha volta em breve. Querendo receber meus livros, ver os resultados das fotos, comentarem como o JG cresceu.

Recebo com fartura, no coração, as energias de ser bem aceito, de ser querido e sigo minha jornada mais forte, mais pleno e agradecido por existirem ainda pessoas-ninho como aquelas: famílias recebendo famílias. Com emoções cozidas no tacho, e esquentadas na lenha do amor, sendo partilhadas em doses fartas.

Imagino dona Nilda temperando hoje as carnes da semana; com olhos de esperança e generosas pitadas de dedicação, ansiando para que elas cumpram a missão de ser milagre.

De juntar e encantar pessoas na difícil arte do encontro e convivência.

Nas mesas de refeições milagres podem ocorrer.

Conquistas podem ser celebradas. Projetos podem ser desenhados.

Afetos podem ser expressados.

Quando nos reunimos, para brindar e saborear prazeres gastronômicos, milagres podem ocorrer.
Milagres do perdão, da aceitação, do dissolver de mágoas encardidas, do destilar de ódios ressentidos, do saborear de novas esperanças... coisas que uma mesa farta e ao lado de pessoas queridas podem proporcionar.

Decante Impurezas Emocionais


Tonhão e Prego são dois piscineiros conhecidos.
Todos os sábados os vejo trabalharem.
Daquele carro, caindo aos pedaços, vão tirando os instrumentos da labuta.
Sempre começam os trabalhos com uma rede, uma espécie de puçá, que com ele vão tirando as folhas e lixos depositados na superfície da piscina.
Depois, jogam um pó químico num balde, juntam-lhe água, mexem e despejam em várias partes da piscina.
Sempre fiquei invocado com aquilo.
Nesse sábado perguntei o que era.
Eles disseram-me que se tratava de um produto químico, à base de alumínio, cujo papel é o de aglutinar as partículas menores, em suspensão na água, e que não são pegas pela rede.
Após o jogarem na piscina, esperam um tempo, e o efeito de aglutinação ocorre.
Uma a uma, o monte de poeira, e de sujeira que estava em suspensão, vão se juntando.
Assim, vão ficando pesadas e caem para o fundo da piscina, em flocos.
Ali, são retiradas por uma espécie de rodo que as sugam.
O produto age como uma espécie de de floculizador. Se é que existe esta palavra.
Quando terminam de retirar as impurezas, jogam o cloro e partem para outra piscina.
Pensei, não é que nossa saúde mental é como a limpeza de uma piscina.
Tonhão e Prego me deram uma excelente dica.
Na nossa "piscina mental", dia-a-dia vai caindo no seu interior sujeira, poluição emocional, coisas que tiram a pureza de propósitos e o sentido de nosso viver.
Uma mágoa aqui, um luto acolá, uma desilusão ali, uma intriga de onde não se espera...
E nossa piscina vai ficando turva.
Aí vamos com nossa rede interior tirando os problemas de letra, superando as dificuldades, fechando ciclos de relacionamentos doentios.
Outros tipos de danos á nossa psiquê pedem uma intervenção mais profunda. Não conseguimos tirá-los de nossa vida tão facilmente.
Pedem o "Alumínio".
São sujeiras de difícil tratamento. Culpas mais profundas, sofrimentos, expectativas não realizadas, desamor sofrido, perdão não recebido, etc.
E, nosso aparelho psíquico é forte o suficiente para lidar com isto também.
Leva mais tempo para purificar-nos novamente, mas conseguiremos.
Se não o fosse, estaríamos todos num hospício.
Ou entupidos de tarjas pretas da vida.
Todos temos uma rede interior para as coisas que nos sujam e magoam mais superficiais.
E, temos o pó químico, para processar dores mais difíceis de serem limpas.
Somos condenados à liberdade e autonomia. Somos fortes.
Contudo, alguns de nós, ou eu e você, em algum momento de nossas vidas podemos precisar mandar para baixo traumas e mágoas difíceis de serem eliminadas, na superfície de nosso ser.
É quando precisamos transcender á dor e recriar a nós mesmos.
E tome "Alumínio" para processar esse tipo de pesar.
São sujeiras interiores que pedem um tempo próprio de cura. De processamento e curtimento do luto.
Conheço um monte de gente que fala dos traumas que sofreram, há dez anos atrás, como se tivesse sido ontem.
Falam de seus ex-cônjuges, e o processo de separação, como se acontecesse recentemente.
De seu ex-chefes, ex-empresas, ex-tudo, como se fosse agora.
Conseguem, inclusive, trazer novamente à tona toda a dor e energia ruim que um dia sentiram com aquilo.
Conheço pessoas que perderam entes queridos há décadas e ainda processam o luto. ainda carregam em si a dor da separação de amantes.
A piscina interior está suja.
Não conseguem forças para decantar o lixo, para que no interior dos seus corações possam ser devidamente convertido em algo mais produtivo, menos doloroso.
Nessas pessoas, a sujeita está em suspensão, à flor da pele em "piscina emocional.".
Não conseguiram ainda que elas sejam trabalhadas no fundo de seus corações-piscina e sejam sugadas pela rodo da vida.
Estão ali, bem presentes, a infernizá-las e a apodrecerem suas águas existenciais.
Decantar culpas, sofreres, lutos de qualquer natureza é uma arte. A arte do existir.
Tonhão e Prego mostraram-me que nem toda sujeira pode ser retirada com a rede.
Algumas, precisam decantar.
Precisam pesar em nossas vidas, para que dela saibamos que precisamos nos livrar. Já deram. Já pesaram mais da conta.
Decantar algumas impurezas de nosso viver, será preciso para que nossa piscina interior rejuvenesça.
Mas, exige uma postura corajosa diante da vida. Uma postura de quem não mais espera respostas da vida, mas as oferece.
Exige desprendimento, renúncia, aceitação.
Exige recomeços, esperanças torpes, otimismos bestas.
Decantar é um ato de sabedoria.
É a capacidade de transcender à existência e superar a si mesmo, cotidianamente.
Exige tirar o foco de si mesmo, numa vitimização mórbida, e olhar para a vida que lhe rodeia.
Exige paciência para consigo mesmo, e uma santa urgência em "amorosidar" os interiores do eu.
Decante sua dor, culpa, luto... já é chegada a hora.




Outros precisam mergulhar em suas águas límpidas e refrescarem-se em teu ser.































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Germinar

Presas, presos, cercas, muros e dentes.
Asas, sonhos, curativos, escadas e sorrisos.
Entre o que quero ser e o que sou.
Entre a palavra e o gesto.
A força e o medo.
Habita um eu que desfia ao desafiar.
Silêncios cotidianos que gritam.
Esperas necessárias que partem.
Pensamentos incondicionais atemorizadores.
Fantasmas na noite-dia.
Presas de afeto.
Presos de liberdade.
Cercas dos valores.
Muros das fantasias.
Dentes que degustam vida.
Entre o que quero ser e sou,
Habita uma criança faceira que não teme
subverter a realidade,
ao olhar-se no espelho, e teimar em ver-se
diferente todos os dias.

A Síndrome da Alienação Fantástica


Meu querido pré-aposentado ou recém, continuo esse bate papo contigo, hoje, à sombra de uma centenária figueira.

Hoje quero convidá-lo a refletir sobre mais uma das três síndromes que, pedagogicamente, criei visando melhor ilustrar algumas situações psicossociais que ocorrem na aposentadoria.  São elas: a da Alienação Fantástica; a da Abstinência ao Sobrenome Corporativo; e a do Ninho Vazio.

Hoje nossa conversa será sobre a da Alienação Fantástica.

Esta Síndrome, caso não tratada a tempo, causa muito sofrimento no período de vida que chamo de pós-carreira: a aposentadoria.

Ela é fruto de expectativas superdimensionadas.
Estava programando uma ida à Jericoacoara com minha esposa. No caminho íamos pousar em Trairi-CE, na praia de Mudaú. Trata-se de uma praia paradisíaca, situada, justamente, entre Fortaleza e Jeri.

Liguei para uma pousada e reservei um quarto. Minha esposa sofre com alergia à picada de pernilongos e foi logo perguntando se tinha aquele chatos insetos por lá.

Falei que sim. 

“- Será que no lugar que ficaremos hospedados têm muriçocas?
Tem. Mas já pedi que colocassem um mosqueteiro no quarto.”

Pronto.  Consegui trazer a expectativa dela para a realidade. 

Ao assim fazer, evitei frustrações e desentendimentos futuros e desnecessários.

Ela, simplesmente, se preparou para as muriçocas. 

Adicionalmente, pedi ao hotel que colocassem uma espécie de rede de filó que no Nordeste chamamos de Mosquiteiro, sobre a cama.

Tudo certo. 

Ao chegarmos naquela pequena cidade, nossa estada foi tão boa que desistimos de ir à Jeri. A visão das dunas e barra do rio Mundaú entrando mar adentro, no município de Trairi-CE, é fantástica.

Uma praia linda, deserta e repleta de coqueirais, com uma população local vivendo da pesca e um povo acolhedor. 
Ali, ela mal se lembrou dos "abençoados" mosquitos que a perseguem.  

Agora imagine se eu lhe digo que não haveria mosquitos.  Qual seria sua expectativa?

A Síndrome da Alienação Fantástica que criei para, didaticamente falar sobre expectativas, é nutrida por uma idealização da aposentadoria.

São fantasias, desconexas da realidade, que são em muito ampliadas causando, quando de sua não realização, muito sofrimento e sentimento de inadequação.

É a doença das expectativas irreais.

É como um glaucoma ou catarata, que alteram o olhar. Alteram a visão, ao ver o que dentro dos olhos habita.

Imagine um professor que nutre expectativa de pegar a pior turma do colégio.

Imagine um gestor que nutre a expectativa de receber um funcionário rebelde em sua equipe.

Imagine um casal que nutre a expectativa de que a cidade em que se hospedarão é suja e violenta.

Todos, sem exceção, verão aquilo que habita em suas expectativas.

Tendemos a moldar a realidade para que ela caiba dentro de nosso modelo mental.

Por isso expectativas poucas, ou muitas, são enganosas.

Distorcem a realidade. 
Então, caro amigo ou amiga que irá trilhar seu novo caminho como aposentado, cuidado para não esperar demais.
"Esperar" demais.

Pé no chão. 

São três ordens de expectativas da Síndrome da Alienação Fantástica que se não forem bem trabalhadas dificultarão a adaptação aos novos tempos:

As Afetivas; as Sociais e as Econômicas.

As Afetivas são em relação aos filhos, amigos, cônjuges e familiares. 

O aposentado acha que eles estarão mais disponíveis e, na sua alienação fantástica, acha que recuperará anos de distanciamento, na sua primeira semana como aposentado.

Aposentados assim destroem casamentos. Não os deles, mas os de seus filhos.

Pois, têm necessidade que todos estejam em sua casa, em churrascos que duram meses, em todo tipo de lazer ou celebração.

Sufocam seus familiares reivindicando um excesso de atenção, pois "agora têm tempo".

Na vida afetiva, esquecem-se de  reconquistar os espaços devagarinho, um dia por vez. 

Esquecem que o lar é dividido com vários que aprenderam a não tê-lo por mais de 10 horas diárias.

Então, eles, quando voltam aos lares, se sentem sem espaço.  Até os netos, que antes brincavam no seu lar sem serem importunados, passam a incomodá-lo.

Pegam no pé de seu cônjuge, ou acabam por terminar relações, pelo "peso” que passam a sentir nos silêncios que gritam entre os dois. 

Passam a querer controlar a vida dos filhos, do cônjuge, pois agora têm tempo.

E, em sua fantasia, acha que foi abandonado por todos. Passa o dia zapeando na TV, aguardando telefonemas e contatos dos seus, e ainda acha que foi abandonado.

Ele desloca o sentido de sua vida para os mais próximos e ficam carentes de atenção, muita atenção.

Coloca o kit aposentado e ainda culpa todo mundo por seu estado de desajuste. O kit consiste na cadeira de balanço, sofá ou rede, no controle remoto, palavras cruzadas, pijamas e tudo que lhe anestesie a realidade, dos tarjas pretas ao álcool.

Fica ranzinza, hipersensível e irritadiço.  Literalmente definha a cada dia.

Planeja mil coisas para serem feitas junto aos que gosta, mas esquecem que eles não se aposentaram.

Ficam supercarentes, liga para os filhos várias vezes e quando os filhos não lhes correspondem como queriam sentem-se impotentes e tristes.

Se o seu cônjuge continuou a trabalhar, passa a ser cobrado por uma maior dedicação e tempo para com quem se aposentou.

Como ele não se preparou para ocupar sua vida, no pós-carreira, quer ocupar sua vida ocupando a vida dos outros. Entende?

O problema não é seu querer de afeto, é a dose que bota nisso. A intensidade.

A outra manifestação da Síndrome é a social. 

Ele acha que continua a fazer parte do grupo que conviveu por décadas e espera ainda ser chamado para os eventos sociais que o grupo articula.

Ledo engano.  A fila anda.  O grupo se auto organiza numa agenda própria e nem sempre se lembra de convidá-lo. 

E, como ele não planejou outros espaços de convivência social, restando-lhe apenas o dos amigos do trabalho, vai ficando infeliz e sentindo-se solitário.

No começo ele ainda acompanha as notícias, depois chega ao ponto de querer acesso à Intranet da Empresa para manter-se atualizado socialmente do que está rolando.

Ele não trabalhou em si mesmo essa expectativa de vida social, pós-carreira. 

Uma pena.  

Não sai do lugar social em que se encontra para construir novos relacionamentos. Não se move.

O culpado são os outros que lhes abandonou.

Não se afilia a mais nada, nem ao clube dos amigos do dominó.

E, alienado fantasticamente, acha que será visto, notado, chamado... Sem que dele dependa reconstruir redes de relacionamento, reais ou virtuais.

Espera estímulos, reconhecimento, convites, de forma saudosista.

Não vira a página da empresa e assume sua nova carreira, nova jornada.

Não cria disciplinas, rotinas, projetos que possa preencher seu dia.

As expectativas sociais superdimensionadas causam angustia pelas não realizações. 

Espera ainda ser convidado para as celebrações sociais da turma do trabalho, ou da própria empresa, e, ao saber que elas aconteceram sem ele presente, vai definhando.

Uma co-dependência social mórbida. Doentia. 

Não consegue construir outros grupos de referência, ficando numa espécie de saudosismo masoquista.

Somos seres sociais, precisamos das redes de relacionamento. Imagine o sofrimento de quem as perde, por se conceber como tendo só elas.

A terceira manifestação da Síndrome é a Econômica. 

Esta é muito propagada pelas agências de turismo da "terceira idade”, que vendem uma vida repleta de Cruzeiros e Volta ao Mundo. 

Por um momento os adoentados, psicossocialmente falando, pensam que a grana será suficiente para fazer tudo o que não fizeram durante suas extensas jornadas laborais.

Aos poucos vão percebendo que, quem se aposenta e vive só da aposentadoria, empobrece. 

E, que as contas a pagar continuam ali, pertinho, demandando atenção.

Noutro extremo estão os que nunca se aposentam, ao fazerem as contas do quanto perderão. 

Ficam igualmente presos a uma existência que só se realiza no poder econômico.

Não fazem conta do que vale poder ir pescar no Lago Paranoá, numa segunda de sol. 

Esquecem o prazer de pequenas coisas.

Alienam-se de si mesmos e buscam nas coisas um sentido para a vida.

Como não as consegue, culpam-se por não serem feliz.

Materializam e monetarizam a sua existência, sentido até vergonha de não terem acesso aos bens materiais que idealizaram para o período da aposentadoria.

Vivem na espera de convites para novos trabalhos. Para consultorias, condução de aulas, etc.

Esperam, esperam e esperam. E, a cada espera frustrada, mais se afundam.

Mas, não fazem nada que possa valer, do ponto de vista existencial, fazer que sua vida valha a pena de ser vivida.

Comparam-se aos outros e punem-se por não terem feito isto ou aquilo na vida produtiva de antes da aposentadoria.

Vivem uma espécie de luto nostálgico, com forte apelo econômico, que vai correndo-lhes os propósitos e sentido do viver.

Seus papos giram em torno do preço dos remédios, degradação do valor da aposentadoria, custos dos impostos e serviços públicos.
De um lado os que monetarizam tudo, esquecendo o valor de um por do sol. Do outro, os que saem torrando todas as economias, achando que as férias serão eternas e que, mais cedo ou mais tarde, será chamado para novos trabalhos remunerados.

Vivem de forma perdulária, ou entristecem-se por não poderem consumir o que, em suas fantasias de alienação fantástica, esperavam fazê-lo na aposentadoria.

Acreditam que os novos trabalhos surgirão por osmose, e que a qualquer momento, bastando entregar seu currículo, será chamado para lecionar, prestar consultoria, etc.

Ficam no aguardo. E sofrem. Sofrem, pois currículo a currículo vão vendo que voltar a trabalhar de forma remunerada, do dia pra noite, não é fácil.

Algumas pessoas me procuram e me falam que conhecem muitas pessoas felizes na aposentadoria.

Também conheço. Um monte.

Mas, meus escritos são duros e terapêuticos, para que funcionem como uma vacina, produzindo anticorpos para prevenir possíveis depressões naquele estado - como aposentado.

Não falo do que funciona, nesse momento. Ainda falarei contigo sobre isto.

Falo do que não funcionará, prevenindo-o e lhe ajudando a "focar" as expectativas mitigando os riscos de sofrimento psíquico.
Falo das muriçocas que existem na praia de Mundaú. Mas, ao falar delas, digo-lhe que foram as melhores micro férias que tiramos.

Espero que sua aposentadoria seja assim: plena, feliz, cheia de propósitos e de novos projetos, remunerados ou não.

Mas, escute-me quando falo das Síndromes.  Essa minha fala é fruto de leitura e atendimentos que fiz, ao longo de minhas pesquisas sobre o tema, desde 1998.

Tome a vacina que lhe prescrevo. Nada de querer que o mundo afetivo gire em torno de você, só porque se aposentou.

Nada de olhar a vida com as lentes da emoção, quando sentir que está difícil resgatar sentimentos que já teve para os que amou.

Faz parte do pacote. 

Nada de achar que está sozinho ao sentir que seu antigo grupo social não mais lhe faz presença. 

Lembre-se que você passava 10 horas, no mínimo, com o grupo social do trabalho. 

Fará falta. Ahh se fará!  

Mas, outros grupos estão só esperando tua chegada para se fazerem morada em teu ser. 

Só te peço uma coisa: não deixe para procurá-los após aposentar-se.   Comece a cativá-los em tua vida anos antes.

Somos seres gregários, de agrupamentos, mesmo que seja o grupo que se reúne para jogar dominó.

Por último, recapitulando,  qual assalariado tem dinheiro para viver esbanjando? Curtindo a vida adoidado? 

Isso é bonito nos filmes, nos panfletos de agências de turismo. Na vida real, você ficará mais pobre, contudo, garanto-lhe: não há riquezas apenas no contracheque do final do mês.

Há outras formas de riquezas, além das coisas monetarizadas. 

Há outras riquezas que, no corre-corre do trabalho foste deixando de lado, ou não valorizando-as. 

Quer riqueza maior do que armar uma rede no Parque da Cidade e nela balançar lendo um livro bom.  Ou voltar a estudar?

Ou o tempo livre pra fazer nada. Nada. Só banhar-se no sol e agradecer que está vivo.

Não se puna, ou culpe, por continuar devendo, cheio de prestações, e muitos ainda garantindo o sustento dos filhos. 

Você chegou longe demais, frente a milhões de brasileiros. 

Relaxe e curta outras oportunidades de acumular tesouros que nunca tinha percebido.

Tesouros de afeto, de paz, de cidadania, de ética e solidariedade.

Vacine-se contra a primeira das Síndromes. 

Ajuste suas expectativas. 

E seja feliz sem esperar tanto dos outros que lhe rodeiam.

E sem fantasiar e idealizar tanto sua existência.


Amarre seu arado a uma nuvem e aprenda a ser feliz consigo mesmo.

Perversa Sociedade Pós-Moderna


Resolve tudo a seu jeito com violência emocional, arrogância, prepotência e intolerância à menor frustração.

Quer ir "pra janelinha e ficar no corredor", ao mesmo tempo, e, em ambos casos, sem fazer esforço. Sem disciplina e propósito.

Passa o dia com tédio, achando que nasceu para ser mais, achando que tudo ao redor, inclusive no que trabalha é pequeno, pobre e medíocre.

Não ama ninguém com profundidade. Vive no verniz.

Ao se olhar no espelho não se vê realmente. Vê um ego inflado, com uma persona distorcida para projetar sua fantasia e desejo de dominação, ou manipulação, de tudo e todos ao seu redor.

Desiste fácil, ou se desmotiva, caso não receba estímulos diários.

Nenhuma autocrítica ou Semancol. A culpa por tudo que lhe ocorre sempre será do Sistema, da escola, dos pais, amigos, chefe, empresa...

Vive na provisoriedade e ansiedade mil, sempre com a mala feita. Nunca relaxa, desfaz as malas e é feliz com o que possui, no aqui e agora.

Aliás, não valoriza o que possui. O gramado do vizinho é sempre melhor que o de sua casa.

Sua ambição é mórbida. E a vontade de crescer, a qualquer custo, o faz focar sua carreira apenas em ascensão.

Compara-se constantemente com os outros, mas ele é que é o cara.

Nunca pede ajuda, ou um feedback de omo está. Não precisa.

Tem um Deus, ou todos os Deuses, mas não tem compaixão pelo próximo, nenhuma.

Na infância foi super-mimado.

Todos diziam que ele era um menino prodígio. Tirava excelentes notas, dominava vários idiomas, menino viajado...
E, ele acreditou que era um pequeno Deus. 


Se os pais soubesse o estrago que fariam nele...

Só não foi ensinado a respeitar e conviver com as diferenças. A ser ético, manso e justo de coração.

Tem alto quociente intelectual e fraco quociente emocional.

Fazia birra para conseguir tudo que queria. Seus pais deram-lhe presentes, contudo esqueceram-se de lhe dar limites.

Seus valores são consumo, poder e aparência. 

Altamente individualista.

Tem uma vaidade tremenda, beirando o narcisismo.

Precisam que as pessoas alimentem nele sua autoestima. Por isso, se expõe de todas as maneiras.

Seu Templo, o Shopping. Sua fé as Marcas. Suas preces, o consumo.

Deleta o outro tão fácil de sua vida, quanto mudam de fases ou adquirem vidas nos videogames.

Se basta sozinho.

Como amante é um eterno masturbador solitário. Não aprendeu a trocar.

No diálogo, é só monólogo.

Começa mil coisas ao mesmo tempo, mas não termina nenhuma.

Acha que sabe tudo, mas sem o Google se desespera.

Não aprendeu a perder, nem tampouco a pedir desculpas.

Gratidão, não existe em seu vocabulário, afinal tudo gira ao seu redor.

Não aprende com os erros. Pois não erra. Subestima e menospreza todo mundo que pensa diferente.

Seu nome: Grande Parte da Sociedade Pós-Moderna. Com exceções, claro.

E, não me venham com Geração Y, Z...

É todo mundo que está ficando assim, inclusive, eu e você que me lê. Em alguma medida... 


Infelizmente esta é cultura atual em todo canto do mundo. 
De levar vantagem em tudo.
De sempre vencer. De considerar o derrotado como um traste.
De banalizar a dor, de coisificar o outro e de monetarizar a existência.
Não só a cultura de jovens e adolescentes; de todos.
De tanto conviver com isso, vamos incorporando valores pobres, como os acima relatados.
Todos temos que nos policiar, e nos educar para um outro mundo possível.  E é urgente!

Sons dos Repinique


Nada mais bacana que ver a bateria de uma escola de samba, no dia do desfile. Tudo encadeado, orquestrado e funcionando. uma vibração que dá gosto.
A música enche a alma e não tem como deixar de se remexer.
Acho lindo, inclusive a paradinha e o recuo que fazem.
Na escola de samba se a bateria atravessa o samba já viu, né?
Invariavelmente todas recebem 10 nas notas da apuração.
Para isto, meses de treino, ensaios, suor e aprendizados.
Naquela noite João ia tocando seu Repinique, ou Repique Timbal , como queiram.
O som dele, marcava a cadência com um grave ritmado.
Eis que a pele do repinique do João rompe. Não aguentara a força de seus toques, e o contínuo estresse a que vira sendo submetida, ao longo de ensaios diários. além, claro, do próprio tempo da pele, uma espécie de couro branco, que dele se tira o som, ao bater nele.
João compunha uma fileira de 12 repeniquistas, e estava passando em frente da Comissão julgadora do desfile.
João continuou a bater seu repenique.
Mesmo furado, mesmo sem dele extrair som algum, continuou na formação.
Se ele saísse da formação rpejudicaria a escola, pelo buraco que deixaria, facilmente percebido pela Comissão.
Então, continuou batendo o vazio, como numa espécie de dublagem.
No recuo da escola, a organização logo socorreu-lhe com um reserva.
João, grande João e que lição nos deu.
Nosso aparelho emocional é como a pele do repenique. Vai aguentando a dor e a delícia de viver.
Contudo, em situação mais delicadas pode se romper.

Aí, nesse momento, percebemos que tudo não faz mais sentido. 

Não conseguimos extrair som algum de nosso ser.

Perdemos a graça, o brilho nos olhos, a vontade de tocar velhos ou novos projetos, e até os mais cotidianos deles.

Vivenciamos lutos e sofreres interiores.

Reais, ou imaginários.  A nossa pele existencial rompeu, agora estamos à mercê do que pensa os outros sobre nós, ou do que pensamos que deles recebemos.

Perdemos a capacidade de reagir, de nos defender, de lidar com coisas antes tão triviais.

Temos raiva de nós mesmos por nos sentimos tão frágeis, perecíveis, impotentes frente aos acontecimentos, que antes tirávamos de letra.

Algo em nós se quebrou, rompeu, cindiu. 

Recomendo aos que assim estão se sentindo. 

Continue em formação, na escola de samba de tua vida, tal o João.

Não pare de andar.

Marche.

Não é hora de trocar o Repinique.

A Comissão julgadora observa.

Finja, morda a língua, continue.

Tenha um senso de representação, de personagem mesmo, e atue no seu próprio palco.

Duble-se a si mesmo, quando de ti saiam sons belos.

Não se proste!

Logo, seu Repinique será trocado. 

Mas, repito, não desista!

Continue levando-se para passear, indo ver os filmes em cartaz, aceitando à contra-gosto os convites dos amigos para sair.

Continue.

Não pare.

Essa dor que sente vai passar é na dinâmica da própria vida.

Acredite.

Não pare.

Matricule-se num curso de dança de salão. Inscreva-se numa equipe de corrida de rua. 

Saia sem rumo fotografando o amanhã. Mas, não pare!

Continue batendo seu repinique, mesmo om o tecido rasgado, sem dele sair som algum, finja!

A depressão quer motivos para te deprimir. Não os dê.

Finja. Faca entrando goela abaixo, coração apertado, finja!

Continue perfilado no grupo dos repiniqueiros. entre 11 com som, quem perceberá você?

Engane a Comissão Julgadora, ou, até seja destacado por ela por ter continuado cantando o enredo e compondo o grupo, no lugar em que os fracos teriam desistido.

Nosso pano existencial rompe-se ao longo da vida e do viver.

Mas, garanto-lhes, ele se recompõe, mais cedo ou mais tarde.

Desde que não saia da vida.

Passar uns tempos sem emitir som algum, no repinique da vida, faz parte do crescimento do ser. 

Saber lidar com esse momento é o que fará toda a diferença.




Ruínas e Escombros do Ser

Se tua autoestima e motivação dependerem do que os outros te fazem, ou deixam de fazer; pensam de ti, ou deixam de pensar; reconhecem em ti, ou deixam de reconhecer; amam em ti, ou deixam de amar; te ajudam, ou deixam de ajudar: sinto te dizer, estarás morando no outro e não em ti.
E, condenado a grandes doses de tristeza, vida afora. Se não gostares de ti mesmo, independente do agir do outro sobre ti, serás ruínas e escombros nessa jornada. E um eterno aprendiz de como ser um infeliz. Se dê valor, sem ser prepotente ou auto-suficiente, besta ou orgulhoso. Apenas, goste de si mesmo. Mesmo levando pancadas dos outros. As pancadas só farão morada em ti se permitires, portanto, reaja e lamba suas feridas. Renasça mais forte a cada desilusão, desamor e agressão que venha a sofrer. Não se torne aquilo que abomina nos outros. Não desista de si mesmo. E, não terceirize suas culpas e felicidade.

Treinando Gratidão

Aquele senhor tinha algo incomum. Atendia a todos com um sorriso tão largo, tinha prazer em servir. Já fiz muitos vôos e nunca tinha visto um comissário tão solícito. Na saída, eu lhe disse: "Seu atendimento é espetacular".

Ando treinando gratidão. Treinando agradecer o que me faz bem.

Percebi que essa competência escasseava em mim.

Agora treino. Procuro ficar com as antenas ligadas e reconhecer os que me ajudaram em algum momento de meu viver, sendo-lhes grato.

O garçom que agrega um pires de arroz, num prato no qual isto não estava previsto, só para atender a um desejo de mãe para que seu filhote almoce melhor.

Vim meditando sobre gratidão. Parece que sempre merecemos as coisas e nunca paramos para reconhecer aquela ajuda especial, aquela força que recebemos, aquele abraço fraterno, ou até um telefonema solidário.

Achamos que não precisa.

Hoje, ao abrir minha caixa de email, li um agradecimento de leitor de meu blog, o Bode com Farinha, nesses termos:

"Escrevo para agradecer a você por compartilhar com os leitores através de seu blog, e agora também através de seu novo livro, tamanha beleza, sabedoria e amor à vida e ao ser humano!"

Esse leitor deixou em mim sua marca. A marca da gratidão. Tal a mão na foto que ilustra o texto.

Olhe para essa marca de mão nas costas de meu cunhado. Ela foi desenhada com filtro solar. Uma mão de filtro solar protegeu parte das costas, a outra ficou exposta. Deu no que deu.

Acho que a gratidão age assim em nossas vidas.

Ela deixa marcas, em que agradece e no que é agradecido.

Mas tem que ser verdadeira e sem segundas intenções.

Tem que ser genuína.

Pare e pense nas coisa que todos os dias alguém faz para que sua vida se torne melhor. Você já agradeceu por isso?

Quantas pessoas passam em nossas idas, levantando-se cedinho para fazer nosso café, sequer receberam um obrigado ao longo de nossas vidas.

Quantos filhos nunca agradeceram por nada aos seus pais.

Quem treina os músculos da gratidão, desenvolve-se em humanidade.

Gratidão são as marcas que os outros deixam em nós. Pequenos gestos, grandes atitudes. Coisas que poderiam passar despercebidas, ou desprezadas, se não fosse pelo simples fato de dizer: "Obrigado pelo que fez."

Dizemos tão pouco isto. Parece que achamos que não precisa. Que o outro já sabe do que pensamos sobre aquilo que ele fez por nós. Etc, etc, etc.

Ou, como não recebemos, não damos.

Deveria haver a disciplina gratidão nas escolas. Na sociedade de consumo tão individualista, tão mercantilizada, tão banalizada em suas relações com o outro, vamos materializando tudo - convertendo tudo em preço, e este é o principio da não gratidão.

Achamos que sempre temos direito, sempre merecemos, e nunca apuramos nossa percepção para ver o quanto o outro se esforçou para nos fazer o bem, nos apoiar, nos ajudar.

Eu agora treino gratidão. Tenho metas diárias de agradecer.

Fico procurando uma oportunidade, e, pimba: meta do dia cumprida.

O porteiro do condomínio, um entre tantos, é o único que diz: "Sr. Ricardo têm correspondências."

O restante espera que eu vá abrir a caixa postal. Ele não, ele sabe quando ela está cheia e me avisa.

Hoje completei minha meta com ele. Agradeci ser reconhecido por ele.

Quando agradecemos, quando temos gratidão, exercitamos também a humildade. Humildade de saber que sozinhos somos nada, somos matéria orgânica sem viço.

É preciso treinar a gratidão. Educar-nos na gratidão.

Seremos melhores como coletividade, não tenho dúvida. E, reforçará, em quem agiu com esmero, o comportamento que ele teve e que foi digno de registro.

Engasgos da Alma

Hoje saltei umas quatro fileiras do cinema, numa velocidade supersônica, para ajudar num resgate.

O filme corria de excelente grado, letreiros finais, música de encerramento e todos emocionados sem uma palavra sequer no cinema.

Eis que, naquele silêncio majestoso, irrompe um grito de mãe:
"SOCORRO, MEU FILHO NÃO CONSEGUE RESPIRAR!"

Não pensei "dias" vezes, sai pulando as fileiras, outros mais de perto acorreram e batiam nas costas do menino, de uns 12 anos.

Foi o minuto mais longo de minha vida, e aquele pequeno jovem nada de respirar.

O instinto me levou a massagear sua garganta, acima e abaixo do Pomo de Adão.

Não sei se ajudou, ou não, só sei que ao fazê-lo, como numa cena cinema, o menino respirou e chorou.

Puxei-lhe no meu colo, beijei-lhe a fronte e o entreguei a sua mãe.

Na saída, olhei para ele e disse: você foi muito corajoso!

Depois, fiquei umas horas sem reação, muito emocionado. No meus braços, um jovem sem respirar, e o longo tempo da apneia mostrando-lhe as presas da morte.

Os sons dos outros que tentavam ajudar, metendo a mão na boca do jovem, batendo nas suas costas, e até sacudindo-o de pernas para o ar ficaram marcados em mim.

Algo me guiou pra massagear sua garganta, a sair da arquibancada da vida e agir.

Fiquei pensando nas coisas que estamos com elas engasgadas, sem forças para expeli-las.

O quanto faz bem uns tapões de amigos em nossas costas, ou até uma massagem como a que fiz.

O músculo cansado do coração agradecerá. Tem engasgos de alma que dificultam a passagem de ar para nossa autoestima.

E aí, só uns tapões em nós mesmos para tomarmos prumo e corrigirmos rotas.

Dói, mas salvará o doente!

Em tempo: O filme, belíssimo por sinal, chama-se As Aventuras de Peabody.

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