Cartas ao JG - Despedida da Neta




Filho, hoje acordei sentido falta do aroma do café invadindo meu sono.
Adorava aquele aroma todas as manhãs de sábado. Parecia ser a vida chamando para brincar fora.
Neta foi embora, de repente, na quinta feira.
Neta cuidou de nossa casa, e de nós por quase quatro anos.
Ela veio de uma lugarejo próximo à Bom Jesus da Lapa-BA, e daqui de casa fez seu lar.
Não tinha amigos ou família em Brasília, ela era do tipo caseira.
Todos os sábados, eu tomava aquele café gostoso, passado na hora, e perguntava de sua faculdade de enfermagem.
Ela contava em detalhes as aulas, as notas, as dificuldades.
Sentia-me parte de sua vida e gostava daquilo.
Você era muito apegado com ela.
Neta era muito meiga com você e conosco.
Agora desço e vou alimentar Balu. Balu é nosso labrador de quatro anos. Acho que Balu sentiu também, animais sentem.
Sua mãe está mais conformada. Neta conversou com ela e disse-lhe que ia voltar para o sítio dos pais, e depois ia morar em Goaiânia, na casa de uma prima.
Lá procuraria tratamento para suas dores de cabeça, já que a prima é enfermeira. E que ira transferir o curso.
torço para que os sonhos da Neta continuem sendo realidades em ações cotidianas.
JG, meu filho, eu suspeito que Neta saiu de Brasília por está sofrendo ameaças, coisas do coração, coisas que vêm com as tranqueiras que vamos nos envolvendo vida afora.
Por isso, cuidado!
Existem amores sadios e amores vadios. Os vadios causam muita dor e estragos por onde passam. Como saber em qual dos dois está se metendo? Não faço a menor ideia. Amor não pede licença, arromba a porta de nosso coração.
Mas, aprendi com a vida, de pancadas em pancadas, a pelo instinto identificar as amores-tóxicos.
Ontem cheguei mais tarde, abri nova disciplina no IBMEC, papai gosta muito de dá aulas. A disciplina é Gestão de Pessoas, o enfoque da primeira aula foi sobre a importância das pessoas que compõe nossa equipe, seus talentos e valores.
Neta era da nossa equipe que chamamos família. Tinha vários talentos e habilidades que a tornavam especial. Vamos sentir muita falta.
Agora começamos a sentir falta de coisas que nos habituamos;
quem ficará contigo enquanto vamos ao curso de casais hoje à tarde?
Quem limpará o canil do Balu?
Quem sairá recolhendo minhas coisas que deixo por todo canto? Quem fará aquela farofa de ovo com cenoura que abria meus trabalhos etílicos nos sábados? Quem te levará ao parquinho?
Sei que daremos um jeito, iremos nos adaptar, ninguém é insubstituível.
Mais cedo ou mais tarde outra "Neta" chegará.
Mas, guarda no coração aqueles que te servem com amor. Eles podem até ser como nossos dedos mindinhos, que nem percebemos que os temos, mas quando um espinho entra neles sabemos que fazem parte de nosso corpo e têm sua importância.

Só escrevo-lhe sobre Neta para que um dia, ao ler estas linhas, aprenda a dar valor aos pequenos e humildes que passam na tua vida.
Você não é apenas um contratador de seus serviços. você está permitindo que eles adentrem teu lar, então deverá ser mais que um formal patrão.
Deverá ser um amigo, um apoio, um orientador, um estimulador de suas vidas-severinas, termos que papai usa -oriundo de uma canção, para definir a vida dura dos trabalhadores "da base da cadeia alimentar" de nosso Brasil.

Gostei de ter voltado o carro, na noite da quinta feira, quando vi a Neta com sua pequena mala no ponto do ônibus. Malas de pobres carregam pouca coisa. Já tinha me despedido dela pela manhã. Mas não tive coragem de levá-lo até ela. Quando voltávamos do trabalho e escola a vimos no ponto do ônibus.
Dei rê e ofereci carona, ela não quis, alegou que o ônibus estava passando em poucos minutos. Emocionado à abençoei. Tirei você da cadeirinha e você a abraçou. Não tive coragem de vê-la novamente, sabia que ela chorava. Tirei você dela, e parti sem olhar pra trás.
Agora vou te levar ao parquinho.
Lembra-te sempre, ninguém deverá passar pela tua vida e sair da mesma forma, nem tu nem ele.
Seja esperança para os cansados.
Seja afeto para os carentes.
Seja sabedoria para os incautos. Seja solidariedade para os aflitos. Seja amor para os duros de coração. Seja paz para os agressivos.
Seja ponte, no lugar de muros, para todos que de ti precisarem.
Mas, repito-lhe, lembras da Netas que ajudarão você a prosseguir, seja-lhes sempre grato.

# Se não fosse pelos clientes!




Uma das coisas mais difíceis que venho enfrentando no mundo do trabalho é não perder a capacidade de servir.
De me perceber como servidor.
Tem dias que tenho recaídas e trato com rispidez meus clientes.
Ou não tenho tempo para com eles.
Ou até não procuro uma inovadora forma de atendê-los para além dos limites que se apresentam.
Fico remoendo o que fiz de errado.
Porque soltei os cachorros?
Porque da frieza e apatia.
Sabe o que concluo: faltou-me inteligência emocional e uma de suas disciplinas: a empatia.
É muito fácil brincar de pega ladrão ou de esconde-esconde com os clientes.

Todos os dias o monstro dos processos, das normas e da burocracia afia os dentes para regular as entregas somente ao que é previsto.
Esconde-se atrás de processos, leis, regulamentos, emails para, num jogo de empurra-empurra, transferir responsabilidades e delegar culpas.
Pior ainda quando aparecem situações não previstas. Quando o planejado sai dos trilhos, quando o contexto muda.

O que fazer com o powerpoint, com o processo, com o fluxo quando nele as necessidades dos clientes não estão previstas? Reinvente-o!
Digo-lhe: atue no imperativo da urgência; faça e aconteça novas realidades, privilegiando o atendimento de seus clientes.
É quando não basta enviar um email pedindo providências, descansando impávido e colosso como o Brasil.
É quando a situação reclama iniciativas, reclama colocar-se no lugar do outro, na priorização da busca de soluções, e não culpados, que é devido.
Uma dica me ajuda a domar o monstro do Burnout (veja no Google Síndrome de Burnout) comum a quem lida com atendimento. Pergunto-me: e se fosse comigo? Como gostaria que as coisas acontecessem?

Como gostaria de ser atendido, ouvido, contemplado nas minhas necessidades e expectativas?
Todos os dias rezo para não cair na tentação de endurecer ou embrutecer meu coração com os clientes difíceis.
Aqueles do tipo ranzinzas, chatos, ou entristecer-me com os ingratos que nunca voltam para agradecer ou que exigem mais do que podemos ofertar, até ferindo princípios éticos.
Quem trabalha com serviços e com atendimento a clientes internos ou externos tem que construir um altarzinho emocional em seu lar e, todas as noites, purificar-se para continuar servindo no outro dia apesar dos pesares, das caras feias, dos maus tratos e do pouco reconhecimento.

Servindo apesar das condições de oferta de bens e serviços muitas das vezes serem precárias.
Tem que identificar três aspectos:
1. Qual é meu negócio, sua importância e características?
2. Qual a minha carteira de produtos, serviços e processos que ofereço?
3. Quais são meus clientes?
4. Quais os resultados que são esperados de minha área, e qual a minha contribuição no seu alcance?

Se conseguirmos responder as questões acima o nosso autoconhecimento aumentará e, o envolvimento e mobilização com os quais nos entregaremos ao trabalho também.

Se não vejo um porquê trabalhar e servir, de que serve minha obra nesse espaço de tempo e lugar?

Se assim não o faço para que de mim necessitam?
Se não fosse pelos clientes o que seria do sentido de meu trabalho?
A dificuldade de se ver como um líder servidor vem das várias instituições pedagógicas que a vida vai nos matriculando: a família, a escola, as igrejas, ou outras agremiações, os amigos e o trabalho.
Ensina-se a ganhar, dominar, conquistar, aprisionar.
Nunca a servir. Servir não é, digamos um tema da pauta contemporânea.
Nem em manuais de Administração.
O que mais escuto são profissionais falando mal de seus clientes com uma vitalidade impressionante.

Professores de seus alunos, profissionais de saúde de seus pacientes, religiosos de suas ovelhas.
O cliente virou um saco. E sofre as consequências da degradação das relações de trabalho, stress, metas abusivas e equipes reduzidas.
Contudo, qual o motivo que leva pessoas, sob as mesmas condições acima, continuarem a atender bem?

Elas encontraram um prazer e satisfação no que conseguem resolver para seus clientes.

Profissionais que nunca aprenderam nas suas vidas a acolher o outro, em suas necessidades, de repente ingressam no mercado de trabalho e precisam fazer isso. Precisam escutar, "empatizar", solidarizar-se, dialogar, negociar, gerir restrições, inovar, fazer de limões limonadas.

E aí a porca torce o rabo.

Se não se tem isso no interior como postura resolva-acabativa da vida, como desenvolver essas competências profissionais tão fundamentais à entrega de valor e resultados?

Mais uma vez, pela busca do sentido do trabalho, que é construir, com o que se tem, significados de sentido nos processos e fluxos do trabalho.
Por trás de cada email, telefonema, contato, tem alguém precisando de nosso talento.
Compreender nossas próprias emoções e trabalhá-las é fundamental para reverter os perfis egoísta, indiferente, dominador e opressor, incutidos em nosso modelo mental.

Que nos afastam da qualidade do atendimento, criando entre nós e eles muros erguidos com tijolos de nãos e argamassas de gerúndios: Não pode, não posso, estamos analisando, estamos verificando.
Como ser um líder servidor com esse modelo de ser humano impregnado nas atitudes?
Busque no autoconhecimento melhorar todos os dias, aprender com os erros, voltar a encantar-se com o que faz e com o que entrega de valor.

No limite, cuidar para que não fique máquina, pois "homens é que sois".
Nossa tentação é automatizar-nos também. Aliás, tente ir a uma igreja na qual você nunca entrou. Em algumas delas não será notado nem percebido.
Os serviços religiosos foram automatizados. Você virou um input-output. Perdeu a identidade.
Não é mais acolhido e percebido.
Estudando formas de falso-processamento do luto descobri que os números de prontuários médicos são uma delas.

É o RN 5 que veio a óbito. (RN = Recém-Nascido).

Protegem-se com o número para anestesiar o coração do afeto dos nomes.
Compreende?
Vejo pessoas que trabalham com demandas dos clientes tão irritadas com os mesmos que penso: será um eterno infeliz.

Afinal... são justamente essas demandas que mantém a chama do trabalho acesa.
Pois, não são justamente as demandas, por mais malucas que sejam, que edificam os propósitos de nosso trabalho?
Todos os dias vacino-me contra a indiferença de não mais me colocar no lugar do outro que me procura.

Nem sempre consigo e, me entristeço. Tem dias que chuto o balde, que vomito más vontades. Que me olho no espelho e não gosto do que fiz, da falta de empatia com a qual agi, protegido pelo relógio, pelos números, ou por uma desculpa qualquer.

Empatia é mais que uma palavra bonita, é gesto concreto.

Hoje vi uma cena que me marcou, e não era para marcar. Abastecia o carro, pedi a maquineta para passar o cartão, o frentista aproximou-se com ela. Um outro veio em seu encalço, pedindo a máquina. O que estava me atendendo disse-lhe que já estava usando. O outro, indiferente ao meu atendimento que estava prestes a começar, insistiu em usá-la.

Senti-me invisível para aquele frentista sem noção. O da maquineta fincou pé e me atendeu primeiro.
Vibrei.
Corta a cena: na hora do almoço vou ao mercado comprar desodorante, esqueci de passá-lo ao sair de casa. Ao me atender a caixa vê sua supervisora passando e grita: "não esqueça de ver o negócio de minhas férias".

A chefa dá um resmungão sonoro e faísca: "você só sairá daqui a seis meses, tenha calma minha filha, tá nervosa é..." A caixa, desconcertada baixa a vista e diz: "É que eu preciso me programar".
Agora quem baixa a vista sou eu. Qual a dificuldade em servir um despacho de férias, seja positivo ou negativo?

E, se fosse o pedido de férias da Supervisora. Se o diálogo fosse da Supervisora com sua chefia imediata, no mesmo sentido, como ela gostaria de ver sua necessidade encaminhada, atendida?

E se fosse com ela?

Fico matutando, qual prejuízo aos negócios e à produtividade que líderes autocráticos não-servidores causam.

Sem falar do exemplo que estão passando. Equipes são a cara de seus líderes. Quando um líder não entende e articula as demandas de seus clientes com prazer, seja os clientes internos ou externos, está "educando" seu grupo a agir da mesma maneira. Aprende-se por osmose e imitação.

Sobra para os clientes.

Outro dia fui buscar um cartão na nova agência. Era a primeira vez que ali ia, após transferirem minha conta.
Só queria um café, um bom dia, e um "o senhor precisa de algo mais?".
A mocinha, mecanicamente, anunciou meu nome e entregou-me o cartão. E só.
Cri cri cri.
Fiquei com cara de bobo, esperando um algo mais.
Um sorriso, um: "até a próxima".
Acho que ela não estava num bom dia. Coitada... virou uma máquina de entregar cartões.

Você fala que tem muito serviço, que não dá. Digo-lhe: arranje outra desculpa.
Servir é atitude que se faz quando se tem até segundos de contato.

É postura. É decisão de amar. 
É visão de mundo, de ser humano.
Já sentiu calor humano em telefonista de call-center. Eu já.

Já sentiu ser bem atendido pela atendente de plantão médico, um lugar que é sempre um caos? Eu já.
Já sentiu ser bem atendido por aquele cara mais atarefado do setor, mais sem tempo? Eu já.
Essas pessoas desafiam lugares comuns e encontraram sentido e prazer no atendimento ao cliente, e não no frio processo que conduzem.

Servir é verbo que pede iniciativa e ousadia para ser conjugado.
E é um verbo que se conjuga somente no presente, não no passado nem no futuro.
Toda vez que um cliente lhe procurar, seja interno, seja externo, pense nisso: posso fazer a diferença na vida dele agora, na hora da verdade.

Até com uma palavra branda em meio ao turbilhão de emoções a ti trazidas.
Atender nem sempre é resolver. Muitas das vezes o não resolver é atender também e o demandante ainda sai feliz.
É arte que exige humildade e sabedoria. Até para dizer o não.
O melhor curso de atendimento é o mais difícil. Passa por ética e cidadania. Passa por respeito, humanidade e afeto nas relações de trabalho. Passa por encontrar um valor no que entrega, atende e serve. E é difícil um curso prover essas competências quando não às nutrimos em nossos corações.
Quando a visão do outro que nutro, no jardim do meu coração, é de estorvo, de peso, de chatice não adiantará horas e horas de capacitação.
Lembro-me de um copeiro que fiou chateado de ter que servir o café no quarto andar onde eu trabalhava na agência.
Até então ali era um depósito. Um dia disse-lhe: amigo, agradeça ter clientes mesmo que em andares diferentes. Você não tem ideia do quanto é esperado ao adentrar nosso salão.
Pronto!! Fez-se a mágica. Todas as vezes que ele chegava, começávamos em coro a saudar seu nome. Ele já vinha sorrindo. Confesso que passou a servir mais o quarto andar do que o terceiro. rsrs

Ele achou um sentido no estímulo que passou a receber dos clientes do quarto andar, ávidos por um cafezinho matinal. Mudou a percepção. Nós não éramos mais os chatos do quarto andar, os últimos da fila da copa. Éramos os animados que chamavam seu nome, em coro, quando ele saia do elevador. Agora éramos pessoas para ele. E não uma garrafa de café a mais para ser distribuída, entende?

Emails tem rostos, sons, cheiros, afetos, lembranças. Uns gritam, outros sussurram. Uns pedem socorro, outros são ríspidos, duros. Pessoas não são fáceis. Mas sem elas qual é a razão de viver mesmo?

Se não fosse pelos clientes, de todos os naipes, qual sentido teria o meu trabalho?

Visite seu “altarzinho” e processe seu dia cansativo, nem sempre fácil.

Têm pessoas que embora não lhe falem precisam demais de você.

Depure a desmotivação, renove-se e amanhã esteja revigorado para continuar a prestar o melhor atendimento que pode dar nas condições apresentadas.
Seja único.
Continue acreditando em bobas utopias: como a de gostar de gente, de servi-las e encontrar prazer no que se faz.
Diante de um pedido, de uma busca, de um ser que bate à porta de teu coração precisando de algo, diga no interior de teu ser: Sim, eu quero ajudar!

Cartas ao JG - Páscoa 2014

Cartas ao JG - Páscoa 2014

Querido João Gabriel, escrevo estas linhas antes que eu me esqueça, e para manter as lembranças vivas. Ando esquecendo de muita coisa, você sabia que hoje confundi o marido da Rafinha? Rafinha é a irmã da Carol, namorada do Tiago. Pense num mico! Multiplique por dois.
Nossa páscoa de 2014 foi especial. Você tinha 4 anos e 9 meses, não se lembrará quando adulto.
Começamos indo conhecer Paracatu-MG, fica a uns 200 KM aqui de casa. Peguei aquela estrada que vai pra Cristalina por dentro, sentido São Sebastião-DF Unaí-MG, no trevo, segui via Cristalina.

É uma estradinha muito boa. Estava em frenesi. Conhecer uma nova cidade me atrai. De Cristalina pra lá, segui pela BR 040, por mais 100 KM.

Chegamos à noite, próximo das 20hrs. Fiquei todo orgulhoso de acertar o hotel de primeira. Seu pai tem dificuldades com mapas e geo-orientação.

Na noite de quinta fomos conhecer a cidade. Foi amor à primeira vista. Um misto de urbano, histórico e caipira se mistura numa amálgama poderosa.

Você perguntou se tem shopping, morri de rir. Sim, filho, tem. Mas seu pai não gosta.

Fomos jantar num restaurante transado, na rua Olegário Maciel, o Fornalha.

Você adorou, pois tinha daqueles parquinhos de brinquedos de plástico. Logo fez amizade com outras crianças.

À noite acompanhamos parte da procissão do Senhor Morto, que saiu com todos os atores que minutos antes encenaram a Paixão. Ela saiu do Largo Rosário, e era acompanhada por uma banda marial tocando músicas melodiosas e que evocavam o drama da paixão.

Papai ficou muito emocionado. Aqueles guardas batendo as matracas, e lanças no chão, faziam a marcação da música. Algo envolvente e dramático. .
O povo seguia com velas e contrição. Uma cena das antigas e bela. Digna de um filme Italiano.

Na sexta saímos cedinho para um eco-parque chamado de Traíras. Mas uma vez, fiquei orgulhoso de minha condução. Segui via Guarda-Mor e pimba, 38 km depois chegamos.

No caminho, parei para fotografar umas florezinhas brancas. Elas mais parecem chumaços de algodão.

Chegamos ao lugar e gostamos. Limpo, muito verde, uma piscina rústica de uns 300 metros por 100. Toda plana e rasinha. E o melhor filho, a água morninha.

Você fez amizade com a Marcela e pulou todos os corguinhos que na piscina caiam. O pai da Marcela, o Marcelo é muito simpático e colocou vocês no caiaque.

Eu acompanhava fotografando. Depois foi a vez da tirolesa, que caia na piscina, uma delícia. Marcela emprestou-lhe o colete e você foi umas quatro vezes.

Depois foi comer churrasco que o pai da Marcela fazia. Não sabia que podia levar carvão e carne. Da próxima vez faremos um.

Você adora churrasco.

Papai gostou muito de uma cachoeira que funciona como o sangradouro da piscina. Fiz uma hidromassagem deliciosa.

Mamãe se bronzeava. No almoço comemos uma peixada e pirão maravilhosos. Mas, quem roubou a festa foi uma arara da casa, mansinha, que veio comer em nosso prato.

Depois de comer melancia, ela pulou em cima de minha Coca. Acho que está viciada em Coca-Cola.

Voltamos perto das 1530hrs, foi um dia inacreditável. Amizades e natureza, que queremos mais para sermos felizes?

Depois fomos jantar perto do hotel. Você pediu para comer pizza. Lembra que entrei numa contramão e você alertou para placa?

Nem eu nem sua mãe vimos. Seria uma batida das boas. Papai, papai...

O lugar era charmoso e servia muito bem.

No sábado, pela manhã, saímos para fotografar o Centro Histórico, você adorou a Casa da Cultura, o Museu e o parquinho do Lardo de Santana.

Quanta história vimos juntos!
Lembra da frondosa Paineira Rosa, no girador do Cemitério? Ela estava coberta de flores. Um dia você ira revê-la. Enquanto não parei o carro e fiz as fotos não sosseguei.
Enchi o rolo de filme (uma velha expressão para dizer que tirei mutias fotos).

Depois, fomos almoçar na asa da Consensa. Ali, você se esbaldou, até casa da árvore tinha.

O lugar é um misto de museu e restaurante. Senti-me no Séc. XVIII, em plena exploração do ouro. Uma das fontes de renda da região.

Voltamos para hotel, e, antes de fazer o check-out, você nadou tudo quanto pode na pequena piscina do hotel.

Eu entrei também e te ensinei a dar as braçadas. Você já tá bom em flutuação e pernadas. Faltam os braços. Rimos bastante. Sua mãe embevecida, como todas as mães, olhava para nós como quem diz: malucos.

Voltamos, e a nossa casa pareceu mais perto. Quem volta tem essa sensação.

Antecipamos a volta. Sua mãe queria muito participar da celebração da Igreja Metodista do Domingo de Páscoa, pela manhã. E, eu fora "convocado" pelo Pastor André para tirar fotos, visto que haveria batizados.
Foi na casa do Duque, um dia lindo de céu azul e pessoas felizes e boas que se juntaram.
Uma tocante celebração à vida. Você, como sempre, corria e corria e corria. Eu, como sempre, fotografava e fotografava e fotografava.
Depois da Cerimônia acompanhei os adolescentes e entrei na piscina, eu estava preparado com calção de banho por baixo, pois iríamos almoçar na casa de seu tio, o Guga, e lá tem piscina.

Foi uma farra na piscina. Até você entrou de cueca.

Outros adultos, estimulados pelo seu pai, também mergulharam de roupa e tudo. Uma farra das boas.

Depois fomos almoçar na casa do tio Guga. Tava tudo lindo para o almoço da Páscoa. Só senti falta de uma reza, e, o pior, não a puxei. Depois fiquei me sentindo mal por não ter evocado o nome do Senhor Jesus, nem que fosse num Pai Nosso apressado. E, tome ovos da páscoa. Você ganhou vários, com vários brinquedos. No meu tempo não tinha esta moda. Agora, mais valem os brinquedos do que o chocolate.

Minha filha, sua irmã, estava linda. Ela veio de Campina Grande-PB, passar o feriadão aqui e comemorar o noivado. Ainda não tinha visto minha filha de noiva.
Foi uma sensação boa, sei que ela segue os caminhos do coração. E, gosto muito do Bodão, o Hugo, seu agora Noivo.

Descansei, depois do almoço, no redário e babei de dormir.

À noite fomos ao culto e você levou um puxão de orelhas de seu pai, por ter apagado as velas do altar. Você estava impossível. O Pastor elogiou as fotos e a postura de servir de seu pai. Fiquei todo ancho. (acho-=fofo=sentido-se o cara).
No outro dia, a segunda, foi tudo de bom. Acordei cedo e levei o carro para lavar. Depois comprei carne para churrasco, carvão e pão.

Foi uma bonita manhã. Eu e sua mãe fizemos o primeiro faxinão da área de lazer juntos, em quatro anos que aqui moramos. Tome esfregão, água, e tome cumplicidade.

Obedeci todas as ordens, lava ali, esfrega aqui, olha a teia de aranha ali. Estou todo quebrado de tanta água que puxei com o rodo. E, até você entrou na dança, lavando pequenos objetos e as cadeiras.

Perto das 1330 seus irmãos Tiago e Priscila chegaram para almoçarem, trazendo o Hugo, a Rafinha e o Braz. Depois, de surpresa, apareceram o mano Guga, a Patrícia e a Gabi.

Agora ninguém mais me criticava por botar muita comida no fogo. Tá vendo?

Na casa de papai sempre boto comida para um batalhão. Qual problema, se sobrar, comemos na semana.

Tiramos fotos juntos, você fazendo birra. Tem hora que você não quer bater fotos, e eu fico puto de raiva.

Fiquei tão feliz de juntar minha família, ou melhor parte dela. Faltou o Rodrigo, seu irmão caçula que estava na Paraíba.

O assunto do almoço foi o casamento de Priscila. Com direito a piti e choro dela, aflita com tanta coisa pra organizar. Qual noiva não fica assim?

Descobri que o pai da noiva é quem custeia. Ainda bem que já tinha tomada umas outras. rsrsrs

Lá se vai minhas PLRs 2014. Mas, a causa é justa e só tenho uma filha. Ufa!!!

Senti-me honrado em poder ajudá-la nesse momento tão lindo.

À noite, você capotou cedo. Tava cansado. Fomos ver um filme, um drama, daqueles de chorar e comer pipocas.

Filho, aprenda a viver intensamente.
Contudo, reserve tempo para as coisas do alto, as de baixo e as do meio.

Tá registrado. Filho, esta é uma das formas que encontrei de conviver com com minha amnésia.

Tempos Modernos



Neste domingo de páscoa reflito sobre os três ídolos modernos, que nos afastam de Deus:

- O narcisismo, e aqui faço uma pausa, não tem a ver com auto-estima. Narcisismo é a doença do eu, centrado em si mesmo. Auto-estima é a confiança e o gostar de si mesmo, incluindo no gostar o outro. Quem tem auto-estima boa tem empatia pelo outro. Um dos sintomas do doente de narciso é a falta do alegrar-se com a conquista do outro, com suas felicidades e bênçãos. Mesmo que não chegue a ser inveja. Trata-se de um sutil sentimento, "meu pirão primeiro". E, como o do outro chegou na frente, finjo não o ver. Ou, passo longe dele. Isso quando não o secamos numa frustrante inveja. Somos menos indiferentes a um outro que chora, do que a um outro que sorri. E, a indiferença é o pior tipo de ódio.
- A ingratidão, quando tocamos nossa vida sem levar em consideração tudo que para ela existir teve que apoiar, ajudar, estimular e se doar. O jogo termina, celebramos a vitória, mas esquecemos de quem manteve os vestiários limpos, nossa roupa lavada. Parece que merecemos tudo, e, por merecermos, pra que dizer obrigado? O café quentinho ao amanhecer parece que sempre esteve ali, virou um móvel, uma coisa, não é mais percebido como um pequeno prazer. Uma gota de felicidade seria suficiente para mudar nosso humor, mas vivemos em busca do copo cheio, assim, tudo nos falta, nada nos sacia. Quantos cristãos lembraram-se hoje e lhes foram grato, a quem renasceu por eles. Entre uma garfada e outra, uma dose e outra, quantos cristãos louvaram ao seu Deus que os redimiu na cruz?

- A falta de doação, de generosidade. Uma sociedade perversa que desaprendeu a doar, se é que já o fez, e a ser solidária. No lusco-fusco das mídias sociais, doar-se é ser frágil, piegas, quase um pamonha. Hoje ensina-se em todas instituições educativas: família, escola, igrejas, trabalho para a prosperidade. Ensina-se a ter, como ter. Aprende-se a reter, a acumular, a amealhar, mesmo que não nos pertença. Doar tempo de afeto ao outro, doar conhecimentos, doar atitudes, doar bens, doar compaixão... tão difícil. Na Selva Social em que nos tornamos, parar e solidarizar-se com o outro é uma utopia cada vez mais distante. Doar abraços, bom-dias, eu te amos, confio em ti... doar de nós mesmos numa TXAI.

Admiro e curto meu sapato rasgado. Posso não ter todas as respostas, não ser exemplo para muitos, soar estranho para outros tantos, mas o sapato rasgado, das lutas pelos ideais que acredito, tornam meu caminhar coerente. Posso não saber direito os caminhos, mas sei que não vou pelos dos ídolos do homo-selfie (narcisismo), do homo-ingratus e do homo-cofre.

A quem me diz, vem por aqui, digo-lhe, vou não!. Prefiro caminhar com sapatos gastos, porém confortáveis, do que usar os que todos os dias me oferecem para calçar: belos e vistosos, que junto a eles vem a renúncia aos valores que ainda acredito.

Um tela de cinema, uma vida que se descortina

"Neta, você vai viajar 
no feriado da Semana Santa?"

"Vou não.
Eu vou ao cinema. Nunca fui."

Simples são os sonhos da Neta. Do alto de seus 20 e poucos anos, tem mais sabedoria do que muito marmanjo barbudo.

Não se deixa sofrer por coisa pouca, e adapta o seu padrão perceptivo e expectativas à sua realidade social, retirando das pequenas coisas prazeres e sobre-viveres.

Neta mora conosco e é nossa "serviçal". Trabalha das 7 da manhã às 16:00, quando larga a labuta e corre para o ponto de ônibus.

Ela cursa a Enfermagem, numa faculdade privada de Brasília. Sempre que perco o sono e escrevo, varando noites, é um bálsamo revigorante escutar o portão abrindo. Sei que a guerreira Neta chegou. E, eu estou acordado reclamando de que mesmo?

Simples são os sonhos da Neta.

Como os de investir todo seu salário no custeio de sua faculdade.

Ou, conhecer o cinema.
Sonhos que os muitos filhos urbanos, de classe média, não mais os valorizam, afinal sempre estiveram a mão.

Convivi com ela três anos e não sabia que ela não conhecia o cinema.

Para mim, ao ir cinema era como ir a festinha infantil. Todo mundo já tinha ido.

Penitenciei-me por nunca ter forçado a barra para ela ir conosco.

Confesso que a chamamos, mas, tímida que é, tem medo de gente da cidade.

Agora tomou coragem e vai com as amigas do curso.

Já parou para pensar nas coisa que têm e que são bênção e que talvez não esteja dando a devida atenção?

Coisas simples, mas tão inacessíveis aos pequenos.

Valorizar os pequenos prazeres, conquistas, projetos é muito para nutrir um sentimento plenitude.

Tem gente que está sempre em falta. Sentido-se em falta para com algo, ou consigo mesmo, nunca permitem-se a homeopáticas doses de felicidade.

Gente sempre resmungona, reclamona, ranzinza que não remodela seu viver para curtir coisas pertinho de acontecerem, e legais, tal como ir ao cinema.

Que bom que Jesus nasceu num curral. Entre pobres, ensinou o verdadeiro sentido da vida: amar e servir.

Simples são os sonhos da Neta. Imagino sua carinha vendo a telona se abrir, o som invadir cada canto. E se for 3D, vixe Maria!, será muita emoção.

Um dia feliz, num futuro plantado no hoje, terei a honra de publicar as fotos de sua formatura.

Eu estava ranzinza e pessimista. A alegria que a Neta expressou ao relatar sua futura ida ao cinema me purificou, lavou-me por inteiro.
De que eu reclamava mesmo?

Limpo e esperançoso, grato pelas pequenas e grandes coisas que são bênçãos em meu viver, animado para enfrentar as tempestades, agora posso viver minha Páscoa. Obrigado Neta, seu cinema foi minha quaresma.

Homo-Selfie



Eu selfio.
                            Tu selfias.
                                                      Ele selfiará.

Mas o que é selfie?

É um termo em inglês, conceituado como o ato de fazer autoretrato.

Hoje, vinha dirigindo de volta pra casa e num é que o condutor do veículo a frente resolveu fazer um selfie.
Pense num cabra doido. Ainda bem que com o trânsito lento, daria para fazer vários selfies.
Aproveitei o engarrafamento, e umas vivências profissionais recentes, para refletir sobre a cultura selfie.
Existe um certo selfie-style no ar. Que vem sendo alimentado por autores de livros de personal-selfie, igrejas dos selfies, e, muito, muito mesmo marketing de consumos-selfies.

Compartilho selfies, logo existo. O jeito selfie de ser, para além das prosaicas fotos, é uma forma de se perceber como centro.

Centro da vida, do trabalho, da família, do prédio onde mora.
Centro da relação.
Tudo gira em torno do Homo-Selfie. Sua dor é a maior.  A injustiça que sofreu, idem.
As oportunidades que não teve acesso, nem me fale!
Egos inflados em si mesmos, arrotam suas conquistas como os antigos bárbaros apresentavam os bens saqueados das suas invasões.
Não têm autoconsciência, a força imensa de sua "gravidade interior", faz com que tudo acabe girando sobre eles mesmos.

Não conseguem se compadecer com o outro, com a dor do outro. Ter compaixão de qualquer espécie.

Também não se alegram com a alegria do outro. Neles, a vozinha interior nutre diálogos de inveja.

Selfies estão por aí soltos, em toda parte.

E, de qualquer idade.

São a resposta de uma sociedade que chegou aos limites da ética e razão.

Tudo foi banalizado.  Assista a qualquer jornal popular que verá coisas que não mais lhe causará comoção, tornaram-se corriqueiras.

Antevejo uma epidemia de falta de sentido da vida.

Você me pergunta, mas o Homo-selfie (HS) não é cheio de sentido no viver?

Respondo-lhe, mentira.  É raso como um pires em qualquer emoção mais profunda, que o sacuda.

Ele é uma enganação de si mesmo.  Não se permite amar, e amar é sofrer.
Não se doa a ninguém, nem a causa alguma.

E, está sempre resmungando, ou choramingando atenção.
Manipula todos para que o endeusem e o cubram de estímulos.
Querem o futuro agora e já.
Não conseguem ver outros padrões de referência, até para num processo de comparação, se tocarem.

Homo-Selfie não conseguem expressar gratidão, por nada ou coisa alguma.

Como perceber o dom, a graça de viver, a bênção e prazeres das coisas simples e pequenas conquistas, se o HS sempre se ver, como alguém, para com quem a vida está eternamente em débito?

Ando irritado com os Homo-selfies.

Relacionamentos são desafios a dois, caso um deles seja um HS.
Imagine o estrago de um chefe-selfie?
Até de uma instituição-selfie.

Os HS não aprenderam a ralar. A perder um jogo e continuarem na partida. Mais ainda, não aprenderam a cooperar.

HS são uma praga nas sociedades modernas.

Uma praga que a infecionará com a epidemia da desilusão.

Não sem razão o número de pessoas que atentam contra a própria vida vem aumentando, ano a ano, e em todos os países.
Pessoas que não aprenderam a perder, a sofrer e a cair.
Então, as quedas são percebidas como enoooorrrmeeeees, os lutos, enorrrrrrrmes.
E a saída, fácil, fácil, é só desligar o HD.
Afinal, não querem aparentar serem um "não-selfie".
Selfies estão sempre de "bem com a vida".

Estamos criando uma geração de pessoas frágeis. Na fachada se acham, mas não aguentam o menor tranco emocional. Para qualquer adversidade, ou saem culpando todo mundo, menos a eles mesmos, ou se entopem de drogas lícitas ou ilícitas.

Pessoas-Selfies olham para vida pelo retrovisor.
Reproduzindo em seu EU, o que fazem com seus celulares.
E a vida vai passando lá fora. E ele se fotografando.
Lá fora a cena está desenrolando, o atleta invade a área pra fazer o gol, e o HS se autofotografando.

Entenda a metáfora. Não é contra a fotografia selfie. Autoretratos existem desde as cavernas.

É sobre a psico-selfie que falo. Só uso a metáfora da foto. Da necessidade de expor o EU, colocá-lo no centro da experiência de viver. E, isto é a mãe de todas as depressões.

Perde-se o vínculo coletivo, comunitário, fraternal. Fundamentais para a saúde mental.

HS olham para trás, ou para si mesmos, quando podem avançar, ou contemplar o que passa ao seu redor.

E, tudo vai ficando sem sentido.

O pior, não têm autoconsciência e não sabem de onde vem tanta amargura, tanto vazio.

Respondo-lhes, do espelho.

Um espelho narcisístico, que projeta sombras alucinantes no teatro da vida. Que em vão tentam tocar em pessoas expulsas do palco do seu viver; amedrontadas por suas atitudes egoístas e individualistas , na ganância de tudo ter e poder. Nas fantasias de dominação projetadas no seu ego inflado.

Ando ficando ranzinza. Não perco a esperança na humanidade, mas precisamos de uma revolução do ser.

E, não será puxada pelas instituições religiosas, ou por ativistas político-culturais.

Por quem será puxada?  Não sei. Por estas instituições não será. Também viraram selfies.

Quem sabe a revolução está iniciando com os Selfies-Nós, aquelas fotos que o amigo chama o grupo de amigos?

Quem sabe não será pelas redes sociais que Comunidades educaram para novas posturas do ser?

Quem sabe se o próprio povo simples não encontre as saídas e os imitemos.

Quem sabe não fiquemos sozinhos demais, com fotos demais só nossa, e passamos a fazer mais selfies-coletivos, juntando mais, o nós em nosso ser, e menos nós no nosso viver.

Quem sabe?

Podas Necessárias

Plantei-te como vinha nova.

Num terreno sem beleza ou 

formosura.

No lugar de um piso, 
cerâmica, piscina, 
ou coisa que disputa o verde.

Abri as covas a trator, 
dado a dureza do solo. 
As enchi com terra molinha, 
vermelha, e as deitei no solo.

Mesmo antes das paredes erguidas, já as tinha por companhia e cuidado.
Aguava e via suas dificuldades em crescerem.
Esperei os primeiros frutos e flores tal qual um pai amoroso espera as vitórias dos filhos.
Plantei-te como vinha nova.
Muitas, trouxe de terras distantes, na mala do carro.
Cinco anos depois faço a primeira poda.
Na Lichia, uma poda radical. Todas as folhas são decepadas. Estavam doentes com um tipo de ferrugem que enrugava suas folhas.

Não há medicamento. Só o severo corte das folhas pode estancar a doença e matar os agressores por inanição.

No Flamboyant o corte foi de alguns caules frondosos. A árvore está imensa, mas vem sombreando suas irmãs.

Na Ameixa o corte foi mais dolorido e definitivo. Cortei-lhe a própria carne, decepando-a para a vida. Não colocava frutos e nem crescia, estava ocupando uma preciosa área.

Senti por ela, amanhã vou plantar uma graviola no lugar.

Há cortes necessários ao nosso desenvolver.

Coisas que se agarram à nossa caminhada e nos tornam infelizes.

Algumas pedem uma poda mansa. Daquela que fiz no Flamboyant.  São coisas que embora belas, tal a copa do Flamboyant, pelo excesso em nosso viver, estão fazendo mal ás outras áreas do ser.

Estão sobreando outras capacidades, inibindo vida pelo excesso de dedicação a ela destinado.
Existem amores que sombream, pelo excesso.
Relações pais e filhos.
Relações com o trabalho, ou com o sagrado.
Até relações de ativismo ideológicas.
Tudo em excesso sombreia e tira o vigor de outras dimensões.

Outros cortes mais fáceis, são de atitudes e comportamentos adquiridos e que não mais respondem às nossas necessidades de crescimento. Um hábito aqui, uma mania acolá, um jeito errado de proceder, ou reagir. Coisas que no aprendizado diário vamos ajustando.

São cortes mais fáceis, não menos dolorosos, posto cortes que são.

Outros pedem uma intervenção mais radical. Pedem fartas doses de esperança, que após todas as folhas decepadas, do caule e troncos nascerá folhas sadias, sem a doença que as vitimava.

São os grandes lutos de nosso viver. Perdas que tiram todo nosso viço, verde, vigor.

Quem olha de longe não vê nossa copa, flores, folhas.

Só cuales e troncos retorcidos.

Acham que morremos.

Mas, não.

Nossas raízes estão íntegras, e teimarão - numa peleja de vida e morte, contra o tempo para circularem a seiva da vida em nosso ser, nos fazendo brotar novamente, e bem mais sadios.

São perdas de separações, de relações mórbidas, co-dependências afetivas. São distanciamento de tudo que se fixou em nosso ser, até de alguns tipos de amigos, tal aquele fungo-ferrugem nas folhas. Ousamos nos matar um pouco para sobreviver mais adiante.

Enganamos a dor.

Por último, existem situações com as quais nos deparamos que precisam de uma intervenção maior.

Não há mais frutos, nem flores, nem renovação das folhas e crescimento do caule.

Estancamos.

Para estas, só decisões radicais. Mudar de curso superior, de cidade, de penteado.

Romper com padrões culturais, sociais e religiosos, um dia aprendidos e que não geram mais vida.

Superar traumas familiares, até afastando-se de sua origem.

O corte é radical. Não mesmos mais os mesmos, após o machado na alma.

Contudo, abriremos nosso solo às possibilidades de outros tipos de sementes e mudas serem cultivadas. Mesmo que leve tempo, ficaremos melhores, ahhh se ficaremos!




Saber que tipo de poda pede nosso ser, ou áreas dele, é arte, é sabedoria, é intuição, instinto de sobrevivência.

Nunca teremos certeza absoluta.

Só sabemos uma coisa, pior não poderá ficar.

Plantei-te como vinha nova.

Não tinha formosura ou graça.

Num terreno árido e sem nutrientes.

Preparei-te para a vida.

Cuidei de cada cacho, de cada broto.

Agora, nas tuas sombras, reconcilio-me comigo mesmo e, com os sangramentos que drenavam seiva dos ramos de meu existir.

Prefiro a nudez de uma árvore sem folhas do que as aparências e vazio de uma vida sem sentido.

Se estou certo? Não sei.

Haveria outras saídas para a Ameixa, Lichia e Flamboyant?

Poderia haver sim.

Mil outras possibilidades. Mas as suas.

As minhas, seguem um ponto localizado entre o ótimo e o regular.

Ali oscilo e tento fixar minha caminhada. Um ponto marcado pela luta da razão com o coração. Um duelo de gigantes.

Ali, vou encontrando as metades do meu ser: em cada entrega, em cada renúncia, em cada nova semente que ocupa covas velhas da minha alma.

Aparando Arestas do Ser

Acordo feliz com os temas que vivi em SP. Profundamente agradecido pela oportunidade que a GECAP 7 e GENEG 2 me proporcionaram. E, ainda em transe, com tanta coisa boa que no coletivo de sentimentos fomos vivendo, ao longo do dia de ontem. Um dia dedicado a reflexões sobre amor, esperança, otimismo e gratidão. Reflexões fora de moda em cursos corporativos. Umas 110 pessoas cantando, abraçando, compartilhando emoções, produzindo significados, sendo gente, humanas.

O amor é decisão. Decisão de ser diferente, agir diferente, pensar diferente. É maior do que o ódio, a mágoa, a inveja, a mentira.

A esperança é verbo. Um vir-a-ser. Um verbo que traduz o presente, em ações intencionais para o futuro desejado.

O otimismo é o colírio que limpa as pupilas da alma, do opaco cotidiano da indiferença. Ele modula nossas ações, e abre caminho para outras possibilidades de superação, coisa que pessimistas desaprenderam a enxergar, pelas cataratas na alma que possuem.

A gratidão é um abraço que damos na vida, reconhecendo tudo e todos que nas pequenas coisas a tornam especial. A gratidão é a doação de nós mesmos aos outros e ao que nos rodeia, tocando-lhes de forma especial e dizendo-lhes obrigado.  Obrigado por esta manhã que desperta ao sons de bem-te-vis.

Durante oito horas, 110 líderes de processos e sistemas da Tecnologia da Informação: engenheiros de software, arquitetos de soluções, designs de infraestrutura em TI,  viveram um único propósito: trabalhar e malhar a musculatura do coração, reduzindo as celulites da alma.

Choro, silêncios, contato com um eu esquecido e empoeirado, alegria, e até preces...

Evocamos o passado, para caminhar ao futuro.

Lembramos a todo momento que o essencial é quem faz da vida valer a pena ser vivida. Ou seja, as pedras grandes em primeiro lugar.  Um dia intenso, com fartas cenas de entrega, doação, perdão a si mesmo e ao outro.

Acordo ainda emocionado, já em Brasília, e leio a mensagem do Papa, no Angelus 16/02/2014.  Uma mensagem que não conhecia, mas que esteve contida em várias intervenções da plenária, quando falavam do impacto das calúnias e fofocas na vida das pessoas e grupos. É de suma importância crescer como pessoa, deixar de lado tudo que atrapalha o  singrar pelos mares do Ser.
Tudo que vai se fixando no nosso barco do eu, como os mariscos em transatlânticos.  Ter a coragem de se despir das tranqueiras que foram sendo acumuladas em nossa casco e que dificultam a jornada.

Aparar as arestas da fofoca, da inveja, da mágoa, do ressentimento.

Vejam abaixo que linda mensagem do Papa Francisco
"Jesus era prático, falava sempre com exemplos para se fazer compreender, pondo em confronto a Lei antiga e o que Ele nos diz. Começa pelo quinto mandamento do decálogo: «Ouvistes que foi dito aos antigos: "Não matarás"... Eu, porém, vos digo que qualquer um que, sem motivo, se encolerizar contra o seu irmão, será réu de juízo» (vv. 21-22). Com isto, Jesus recorda-nos que também as palavras podem matar! Quando se diz que uma pessoa tem língua de serpente, o que significa? Que as suas palavras matam! Portanto, não só não se deve atentar contra a vida do próximo, mas nem sequer fazer cair sobre ele o veneno da ira e da calúnia. Nem sequer falar mal dele. Chegamos às indiscrições: também os mexericos podem matar, porque matam a reputação das pessoas! É tão feio falar mal! No início pode parecer uma coisa agradável, até divertida, como comer um rebuçado. Mas no final, enche-nos o coração de amargura, e envenena também a nós. Digo-vos a verdade, estou certo de que se cada um de nós fizesse o propósito de evitar os mexericos, tornar-se-ia santo! É um bom caminho! Queremos tornar-nos santos? Sim ou não? Queremos viver apegados aos mexericos como costume? Sim ou não? Então estamos de acordo: nada de indiscrições! A quem o segue, Jesus propõe a perfeição do amor: um amor cuja única medida é não ter medida, ir além de qualquer cálculo. O amor ao próximo é uma atitude tão fundamental que Jesus chega a afirmar que a nossa relação com Deus não pode ser sincera se não quisermos fazer as pazes com o próximo. E diz assim: «Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com o teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta» (vv. 23-24). Por isso somos chamados a reconciliar-nos com os nossos irmãos antes de manifestar a nossa devoção ao Senhor na oração."

Eu acredito, e nós podemos.

Cenas de uma fome noturna, num quarto de hotel:
Preço de um Misto Quente no hotel R$ 20,00.
Preço de um pão com recheado com uns 200 
gramas de mortadela, + um X-tudo duplo +
 2 copos de suco de frutas vermelhas. 
Mais o bom atendimento dos bares de esquina
do Centro de SP = R$ 19,40. 

Eis que ao escrever estas linhas batem na porta do quarto. 
Pergunto quem é. Um tanto assustado. Caipira tem medo de cidade grande.
Ouço uma voz: "cortesia". 
Era um garçom trazendo uma bonita fatia de doce e água, 
como cortesia do hotel.
Então, como por mágica, abri o coração e pensei: 
nada é tão ruim que não possa melhorar. 
Já me hospedei em tantos lugares e nunca tinha visto nada igual. Embora o preço do Misto seja escandaloso, 
para duas fatias de pão, uma de queijo e outra de presunto,
ainda assim, recuperei a sensação de ser bem atendido.
Nós só queremos uma chance para desfazermos 
as más impressões.
Dormirei com a saudável experiência de ter sido identificado como pessoa e mimado. 
Você pode até dizer: é tudo marketing, comercial. 
Eu, digo-lhe: que seja! 
Melhor assim do que entrarmos e sairmos de estabelecimentos comerciais sem sermos notados.
Mudando o rumo da prosa, agora passo a limpo 
temas do retiro profissional que produzi e conduzirei
amanhã, o primeiro em meus 20 anos como facilitador de grupo. Um sonho há tanto tempo acalentado. 
A base conceitual que norteará as reflexões é de 
ordem filosófica, com ênfase na psicologia positiva, narrações de trajetórias de vida e logoterapia. Pensei cada detalhe, cada intervenção, cada vivência como quem abraça um irmão querido. Estou ansioso ao extremo, frio na barriga, sensação de medo, de não conseguir fluir o roteiro proposto. Essa sensação antes de aberturas de turmas, cursos, eventos acompanha-me. Um terror pedagógico. Então, percebem como o gesto do garçom me tirou de um mundo de lamúrias com o Misto e tocou-me ao coração?
Como é bom, nos momentos de angústia e aperto no coração, que alguém bata à porta de nosso coração, e diga-nos com gestos simples o quanto para ele somos queridos. 
Nem que seja trazendo um pedaço de doce e água, numa bandeja. 
E o que mais gostei, da surpresa, não usaram o interfone, bateram á minha porta. Amei.
Surpreenda hoje alguém também, faça-lhe um mimo.
De surpresas boas e surpresas boas, a humanidade  mudará.
Eu acredito, e nós podemos!

Jardineiros de Sentido


Ela poderia ter passado despercebida. Invisível na sua discreta intervenção de mover um vaso de flores de lugar.
Mas, quem carrega flores e fica invisível?
Flores são presença, são sentimentos, são bilhetes da mãe natureza dizendo que nos ama.
Hoje queria um milhão de flores para acalmar lutos de pessoas queridas.
Um milhão de flores para perfumar almas sofridas, colorir vidas monocromáticas e atrair borboletas e beija-flores mil.
Lembro os primeiros cheiros de flores que senti. Eram flores de pé de Santos. Flores de altares e de jazigos.
Depois, mais maduro, comecei a ver que elas não se prestavam somente a igrejas e cemitérios. Elas eram a expressão de amor, e não de sofrer.
Eram purgativas de vidas vazias.
Desde então, apaixonei-me por todo tipo de flor, confesso-lhe que um pouco mais daquelas flores bobas amarelas que nascem em todo pé de calçada ou terreno baldio.
Um dia recebi um ramalhete de flores. Não sabia o que fazer com ele. Os colegas de trabalho caçoavam. Eu, vermelho, vermelho.
Mais vermelho do que elas. Ahh se fosse hoje, faria até onda e sairia desfilando-o pra mostrar a todo mundo.
Mais cedo, ao sair para o trabalho, o meu amigo beija-flor estava de namoro com uma flor do deserto que crio.
Uma cena tão linda.
Em cada tremular de suas asas, uma parada para bicá-la, sugando seu néctar e pólen. Eram parceiros do eterno.
Amos as flores.
Pessoas são flores, embora nem todas assim se percebam.
Existem as mais sofisticadas, de pouca simplicidade, e muito distanciamento dos mortais.
Existem as de todos os dias, como as violetas e bouganvilles.
Existem as de raro trato, de tão especiais, precisam ser amadas mesmo que só se mostre numas hastes e algumas folhas, um belo dia ela despontará em orquídea rara e bela.
Existem as flores sobreviventes, que com pouca coisa florescem em mil tons.
Ela levou o vaso de flores. Teve pena dele, pois, após o evento, ficaria num canto qualquer pedindo água e sol.
Ela cuidou do vaso de flores.
Creio que aqui e acolá sinais de uma humanidade mais terna, gentil e solidária vai aparecendo.
Estamos cansados do pó, fuligem e asfalto da cidade grande, que estranha valores mais amorosos.
A humanidade está carente de flores-pessoas. Cuidadas por jardineiros de esperanças. Jardineiros de sentido.
Como essa jovem que cuidou de um vaso de flores, esquecido pós-evento.
Cuidemos das pessoas-flores que todos os dias cruzam nosso viver.
Algumas precisam de nosso sol, água, ou de um simples abraço.

Antes que eu me esqueça - "Vidário" Prévio - Versão I


1.       Ricardo de Faria Barros, Ricardim, 49 anos, falecido em XXXX (local) no dia XX/XX/XXXX, vítima de xxxxx.  Ricardim nasceu em Campina Grande-PB, no bairro da Prata, tendo como pais Evandy e Denise, funcionários aposentados do SENAI.  Teve dois irmãos: Gustavo e Andreia e 15 tios.   

2.       Durante sua juventude estudou no Colégio Diocesano Pio XI, e militou nas pastorais sociais da Igreja do Rosário, praticando diariamente natação no SESI.  Em 1986, ingressou no Banco do Brasil. Desde 1997, morava em Brasília, onde atualmente desempenhava as funções de Gerente de Capital Humano, na Diretoria de Tecnologia do Banco do Brasil. Em Brasília, residia no Jardim Botânico, Cond. Amobb.

3.       Casado com Maria Cristina, com quem teve seu 4. Filho, o João Gabriel (4).  Do primeiro casamento, teve três filhos: Tiago (29), Priscila (27) e Rodrigo (25).  Criava o labrador Balu, com o qual era muito apegado.  Tinha três sobrinhos: Artur, Bianca e Gabi.  E “noras e genro”: Carol, Andreza e Hugo, o Bodão como ele carinhosamente o chamava.

4.       Em 1994 fundou uma ONG, sendo seu Presidente até 1998. A ONG chama-se Grupo de Apoio à Vida - GAV, e ainda presta apoio a pessoas e famílias com AIDS.  Formou-se em Psicologia pela UEPB, em 1996, na abordagem da Logoterapia. Em 2005, especializou-se em gestão de pessoas (USP). E, em 2007, foi reconhecido pela UNB como Mestre em Gestão Social e Trabalho.

5.        Ricardim era a ternura em pessoa. Gostava das coisas simples, da mesa farta de afeto e esperanças.  Gostava de cozinhar, de fotografar, de escrever e de ser educador. Cada pessoa, para ele, era fonte inesgotável de sabedoria.  Publicou dois livros: Sobre a Vida e o Viver, e, Apanhadores de Possibilidades nos Campos do Infinito.  Tinha um blog: Bode com Farinha, no qual publicava suas inquietações e reflexões sobre a vida.  Considerando-se quase um pregador virtual.

6.       Ricardim era do tipo que tinha um milhão de amigos.  Seja em comunidades virtuais (Progrid, Otimistas BB) seja seus alunos dos cursos de pós-graduação na Católica, Ibmec, e UNIP.  Era educador de vários cursos do BB e orgulhava-se de fazer parte do grupo de educadores, formadores de outros educadores.  Considerava-se bom de praça e procurava não alimentar mágoas e rancores por muito tempo. Era hábil na capacidade de harmonizar ambientes e interagir com todas as tribos culturais. Não gostava de confusão e de ambientes de desconfiança.

7.       Integrou importantes equipes de projetos no BB, com realizações como: os Fóruns de Pessoas, Desenvolvimento Sustentável, Governança de TI  e o programa de trainees da Tecnologia do BB, chamado de Progrid. Não tinha medo da morte. Dizia-se de malas prontas para ela. Ressaltava sempre que atingira o maior grau de satisfação na carreira fazendo o que fazia na Tecnologia, e que ela o resgatara profissionalmente.  
8.       Ele era eclético, do tipo que sendo católico, ia à missa no domingo bem cedo, e à noite ia ao culto da igreja Metodista do Jardim Botânico, acompanhando sua esposa. Dizia que não tinha problemas em conviver com diferenças, desde que elas lhes ensinassem algo. Um de seus maiores prazeres era frequentar a feira livre de São Sebastião-DF, cidade do entorno de Brasília, e contemplar o movimento de feira e a vida simples das pessoas, comendo pastel com caldo de cana na barraca La Deyse.  Ninguém cruzava no seu caminho e saia sem um olhar afetuoso e otimista.
9.       Ele brincava que queria morrer de forma elegante, nunca atropelado. A morte fez-lhe a brincadeira final.  Bem ao seu estilo, que adorava pegar trotes nos colegas de trabalho.  Algumas coisas não realizou, com as quais sonhava: conhecer melhor a América Latina, Portugal, o Jalapão e o Monte Roraima.  Também sonhava com um tempo no qual as pessoas fossem mais acessíveis, amistosas, solidárias e fraternas, isso também ficará para depois. Os tempos estão difíceis nestes quesitos.  Ele doou todos os órgãos. Ricardim militou, por muitos anos, na Teologia da Libertação, e era simpatizante do PT, embora não o poupasse de críticas ferozes. Sonhava com um Brasil melhor e mais justo.
10.    Uma palavra deixa aos filhos: Saudades.  Uma missão deixa aos amigos: Subvertam a realidade e transformem o mundo em algo melhor do que acharam. Uma canção deixa para Cristina: Contigo Aprendi. Um pedido deixa aos desafetos: Perdão.  Se ele pudesse voltar à vida, curtiria mais a família e menos o Facebook.   Deixou seus bens para seus filhos e esposa.  Doou para sua ex-mulher, após inventário, um salário de referência do BB.    
11.     A cerimônia de despedida será regada à caipirinha e licores, com fundo musical de clássicos do cinema e da MPB.  Para carregá-lo até o colchão de grama enumerou os filhos: Tiago e Rodrigo. Seu pai Evandy e seu irmão Gustavo. Seus amigos: Maurício Lyra e Marcus Fahl.  Como carregadores virtuais gostaria de ter os amigos que aparecem na sua página principal do FB, na data de sua morte. 
12.    O evento começara às 11hrs com previsão de enceramento para às 13hrs. Serão servidos salgados, café e caldo de cana, especialmente preparados pela lanchonete La Dayse.  Na descida final, quer ouvir Porque Ele Vive.
13.    Ele estará vestido com a camisa do Progrid e calça jeans. Não vai usar chumaços no nariz, acha cafona. Pede muitas flores, e menos cravos. Durante o evento, poderão dirigir a palavra seus amigos do BB, o Pastor André e seus familiares. Sempre com mensagens de fé, poesia e otimismo. O evento ocorrerá no Campo da Esperança, no dia X, às 11hrs.  
14.    Na sua lápide, Ricardim quis que fosse gravada a seguinte expressão:


 Se for para chorar que seja por uma noite e um dia.  Vou ali e encontro-lhe mais tarde. Afinal, na casa do Pai há muitas moradas.

#Aqueçe teu coração.















Não te canses de soprar a ânima da vida,

nas brasas incandescentes de teu coração.

Junta teus pesares, cuida de tuas feridas e supere o cansaço.

Junta tudo que te diminui, te oprime e magoa e lança ao fogo de teu coração.

Purifica-te, como minerais ao fogo.

Consome-te e morre para ti mesmo, para que renasças mais forte.

"Se o grão de trigo não morrer".

Não queiras um coração transgênico,

daquele tipo de semente que não dará mais vida após seu nascimento,

pois nos laboratórios cortaram-lhe as possibilidades de fecundar novas vidas,

com suas sementes estéreis.

Não queiras um coração transgênico,

encapsulado em si mesmo.

Abre teu coração à vida que sopra em todo lugar.

Tem compaixão e empatia para com os outros corações

que crepitam em teu ser.

Faz fecundo teu agir no mundo.

Dá frutos de bondade, paz e justiça.



Aquece teu coração, não deixa que as chamas do amor e do tesão pela vida se apaguem.



E não há técnica melhor para manter um coração aquecido

do que se doar, do que ser grato e generoso.

Há muitos fogos apagando ao teu redor,

precisando de uma brasa tua incandescente, um soprar de vida que de ti brotará.

Anima aos cansados e sem esperança.

Fortalece os sofridos e apáticos.

Sê bênção e calor para os que de ti fizerem morada.

Mas, repito-lhe, cuida para que ano a ano teu coração não perca o fulgor,

o viço, a capacidade de reacender, reanimar-se, assombrar-se

e até indignar-se com o que precisa mudar.

É de encantamentos que se formam as chamas.

Triste corações frios, gélidos, cobertos pelas cinzas da indiferença e egoísmo,

que já não se espantam e não admiram a maravilhosa odisseia da vida e do viver.


Mas, mesmo os mais gélidos corações,

caso recebam de ti um punhado de brasa e o sopro do amor irão crepitar novamente.



Sopra vida por onde passar, faz revigorante tua presença na vida do outro, sê luz.

Assim estimularás labaredas de sentido, de afeto,

e aquecerás corações cobertos de fuligem e sem luz.

Tão comuns em infartados emocionais nos dias presentes.

Positiva-Mente


Um dos aprendizados mais 
importantes é o do agir positivamente.
Precisamos remodular nosso
aparelho mental para esse aprendizado. Aprender a ser bom, alegre, grato, 
otimista e esperançoso.
Somos treinados, desde a infância,
para focar nos problemas e ampliar o 
que nos falta e nos faz infelizes. 
Chamar atenção para um estado 
doloroso do ser atrai estímulos, atenção,e ficamos viciados nisso. 
Aprendemos a curtir, curtir, 
comentar e compartilhar um 
estilo de vida enfastiado e negativo, 
no qual ninguém presta e a vida está sempre nos devendo algo. 
A psicologia positiva não é uma psicologia de auto-ajuda. 
Ela reconhece que há situações difíceis, limites, dolorosas. 
Só modula o filtro perceptivo para buscar outras perspectivas que ainda restam, 
apesar da dor, trauma ou situação desagradável que lhe acontece. 

Tomo a liberdade em enumerar algumas lições que venho tentando praticar em meu viver. Estou ainda no Nível I do curso. 

Lição 1  -  Crie um diário de gratidão e vá anotando nele as coisas pelas quais é grato. Enumere todos os dias três coisas de que é grato. Não precisam ser coisas do tipo top top top.  Pense em coisas do tipo, como é boa esta coberta quentinha que me aquece. A ela sou grato.

Lição 2 -    Tenha metas em elogiar as pessoas que cruzam teu caminho, em se doar e praticar gestos de bondade.  Ainda mais, reconheça, reconheça, reconheça. Valorize, valorize, valorize. Cuidado para não pensar demais em você, ficando num estado de ansiedade e hiperreflexão mórbido, impotente. tire o foco de você: doe-se ao outro, seja bom, pratique a generosidade e atos de gentileza. 

Lição 3 - Filtre os tóxicos-emocionais ao seu redor.  Contudo aprenda a conviver com os mal-humorados, sem se contaminar. Não existe uma bolha para você habitar nela. 

Lição  4 - Valorize os pequenos prazeres, pequenas alegrias, pequenos momentos de felicidade e satisfação.  Fique atento a eles, estão em toda parte. Olhe o que lhe acontece como bênção, e não como maldição. 

Lição 5 - Interesse-se genuinamente pelo outro, pela sua história. Ele tem qualidades, já deve ter superado tanta coisa, tem uma vida rica e que você não conhece ainda. Cada pessoa que cruzará nosso caminho, ela e nós, podemos continuar nossa rotas diferentes, desde que seja um encontro verdadeiro.  

Lição 6 - Não desanime com o sofrimento. Ele faz parte do pacote do viver. Desvie rotas, altere cursos de ação, mude e transforme-se a si mesmo diante de uma dor.  Seja um guerreiro na sua doença, no seu luto, na sua situação desagradável. Outros te seguirão.   Aprenda a transcender, a voar, a fantasiar uma existência plena de sentido. 

Lição 7 - Leve-se para tomar sol, caminhe, contemple a natureza. Não fique amofinado em casa. Cultive práticas de qualidade de vida. Saia, nem que seja para observar a vida que teima em acontecer, até numa feira livre, ou numa praça de alimentação de um shopping qualquer. 

Lição 8 - Amplie suas redes de referência relacionais.  Sejam reais, sejam virtuais. Os relacionamentos interpessoais são bálsamos e fontes de sentido e sendo de pertencimento.  Só cuide com as toxinas emocionais que eventualmente possam circular em suas redes relacionais, aprenda a filtrá-las. 

Lição 9 - Esteja presente. Tenha senso de possibilidades, de ator, de protagonista, de missão no palco de sua vida. O aqui e agora é tão rico de pequenas realizações, prazeres, acontecimentos legais, contudo pelo excesso de negativismo não conseguimos mais ver. Nossos olhos ficam opacos pela indiferença. Nosso foco é no trânsito pesado, e não na música linda que toca no rádio, ou na árvores floridas com as quais cruzamos, ou aquele por do sol lindo.  

Lição 10 -  Todos os dias vacine-se contra as infecções do ser, oriundas dos vírus do medo, ansiedade, luto, ira, culpa, inveja e mágoa. Vacinas de afeto, perdão, aceitação,  esperança, coragem, diálogo, fé na vida, nos homens e no que virá. 

Lição 11 - Medite todos os dias. Se for espiritual, ore. Na meditação integre-se à natureza, ao cosmos. Evite debulhar os problemas, os pedidos, o que te faz infeliz. Relaxe e contemple a vida plena ao seu redor. Curta estar vivo. Um pássaro que canta, uma brisa que chega. Uma pessoa boa que te fez e faz bem. Foque na paz. 

Lição 12.  Crie rituais positivos.  Todos os dias vou dar bom dia. Todos os dias vou abraçar alguém. Todos os dias vou agradecer algo. Todos os dias vou fazer algo que goste, não precisa ser trabalhoso e caro. Enumere suas bênçãos e caminhe mais uma légua em busca do ser.

Lição 13 - Se nada funcionar, respire, respire, respire, e, diga: só por hoje vou agir diferente, nem que seja vivendo um papel que me soe ainda estranho - no teatro e palco da vida e do viver.  Como se estivesse fazendo um exercício, numa academia, nem sempre fáceis de serem executados. Faça, mesmo que não goste exercícios, perdoar, não falar em mágoas, ter interesse pelo outro, cultivar gestos de carinho e afeto. Aos poucos, estes novos comportamentos, vão modulando novas operações em seu modelo mental.  O que chamo de aprendizado da psicologia positiva.

Há uma pessoa MH370 perto de você

Eles não têm nome, histórias, 
cenas de vidas sendo evocadas
nas redes de TV.
São simplesmente os 239 
passageiros do voo MH370, 
da Malaysia Airlines, ainda desaparecido.
Perderam suas identidades. 
Viraram um número, uma estatística.
Quem são? 
Quais seus sonhos?
O que faziam? 
Quem são suas famílias?
Silêncio.
Reduzir a dor a um número é uma estratégia perversa para anular autonomias, isolar sofreres e 
banalizar o luto.
Viramos um número, numa 
prancheta de prontuário, ou uma matrícula numa Corporação 
qualquer. Despersonalizados.
Há momentos em nosso viver que ficamos assim, tal qual o MH370.

Ficando sendo chamados como os 239 do MH370.
Sem face, expressão, 
isolados e perdidos.
Todos se afastam.
Cansam de nós mesmos e de nosso estado de humor, de sofrimento ou perda.

Cansam de nossos vícios, comportamentos e atitudes.
Deletam-nos de seu GPS existencial.
Desistem de procurar-nos, buscar-nos para um encontro, aconchego ou um afeto despretensioso.
Não se cansem em participar das buscas pelos seres humanos.
Andamos muito sozinhos,
Andamos muito MH370.
Mesmo quando todos ao lado desistiram.
Mesmo quando todos ao lado desanimaram.
Acreditem nele. 

Naquele que todos dão por perdido.
E em seu potencial de transformação.
E o busque mais uma vez.
Muitas pessoas ao nosso lado precisam serem resgatadas.
Precisam de nosso apoio, luz, força e fé.
Estão apáticas, órfãs de si mesmas, sentido-se desamparadas.
São do voo MH370.
Vocês têm o dom de tocá-las, de buscá-las, de ampará-las em seus seres.
Há muitos invisíveis perto de vocês. Pessoas humildes, simples que acabam passando em nossas vidas como móveis, utensílios domésticos, ferramentas, ou seja, coisas. 

Excluídas da vida, condenadas a uma espécie de morte, morte social.
Deem vida às pessoas invisíveis.
Não desistam de sua busca.
Não desistam ainda.
Tentem mais um pouco.
Amem-as incondicionalmente, bobamente, estupidamente!
Mas, repito-lhes, amem-as.
Só o amor pode transformar vidas
e devolver identidades.

Acorda, vem ver a lua!


Em menos de 24hrs este post, na página Prozac Virtual, já recebeu mais de 2.200 compartilhamentos.

Com um desabafo direto, simples e de fácil entendimento, a autora exprime um sentimento coletivo de desamparo, de perplexidade com a vida contemporânea. Perdi um tempinho e naveguei por alguns dos comentários.

Solidarizei-me com muitos que frequentaram aquele divã virtual e desabafaram seus sofreres.

Estamos imersos numa epidemia psico-social de falta de sentido. Falta de uns porquês para viver.

Uma sociedade que adoece por anemia de propósitos.




Mas, em alguns momentos, e pra começo de conversa, deitar a alma é bom. Descansar sentimentos, parar e relaxar de si mesmo e das preocupações que lhe afinge.

Só te peço.

Que o sono seja de uma noite apenas, que seja rejuvenescedor em tua alma como aquele sono pós almoço, aquela soneca de 20 minutos antes do 2º turno de trabalho.

Que teu sono de alma seja leve.

Muitos pensam em tornar eterno este sono, pensam em desistir.

Estão por demais cansados para continuarem enfrentando seus problemas.

Não veem saída, todas as portas estão fechadas e o luto invade todo seu ser.

A eles digo, calma.

É só um pesadelo.

É natural que você sofra. Esteja angustiado, melancólico e até desesperado.

A dor é tua, de mais ninguém.

E, desconfio dos que não sofrem.

Sofrer faz parte do pacote do bem viver.

Só te digo, em algum momento tu ouvirá uma canção em teu interior dizendo: "Acorda, vem olhar a lua".

E tua acordarás melhor. Mais animado, rejuvenescido.

Pronto a recomeçar.

Viver é cansativo.

Amar é exaustivo.

Ama-se quem não corresponde. Ama-se e não se sabe o porquê.

Ama-se quem ama, mas não ama como acha que merece amar.

Ama-se e não se sabe viver sem, criando fixações e dependências mórbidas.

Ama-se e inveja-se o amor do lado.

Ama-se e nega-se a si mesmo.

Relações vão se desgastando, corroendo sabores e exalando odores.

E, em algum momento, sentimos necessidade de deitar a alma.

Super saudável.

E normal.

Não.

Você não está deprimido.

Só cansado. Exausto emocionalmente. Descrente e com apatia comportamental.

Perdeu o viço.

Digo-lhe, já passei por isso, e, muitas vezes .

E, em todas as idades.

Não há idade com sofreres menores ou maiores.

Lembro de canseira em minha alma quando aos 12 fui rejeitado pela colega de classe, que só dava atenção aos de outras turmas mais velhos.

Lembro de canseiras de minha alma quando aos 18 não sabia se casava, comprava uma moto, ou fazia eng. civil.

Não há idade para mensurar o tamanho do sofrer.

Sofrer é sofrer. E, para quem sofre, é sempre enooorrrmeeee!

Dói em quem sofre, e, se a dor é tua, então não é de mais ninguém.

Entende?

Vive-se tempos de pouca aceitação da dor. Uma sociedade que precisa fingir que todo mundo é alegre e feliz. Isto vende.

Vidas editadas no Facebook provocam, em que as acessa, sentimentos de frustração e inveja. "Queria ser como você..."

Deixe de besteira.

Todos têm um sofrer em algum canto do coração.

Todos têm um quarto na alma, no qual deitam-se quando cansados.

E, muitos, já pensaram em algum momento de suas vidas a não se levantarem mais.

Não se culpe.

Apenas, após o descanso, acorde sua alma para novos sentimentos.

Avalie a situação, despindo-se das lentes da emoção.

Integre-se a outros que já viveram dores semelhantes, e que já passaram por elas.

Escreva. Crie um blog, um diário. Compartilhe seus sofreres com amigos preciosos.

Ore ao bom Deus, depositando seu jugo(*) Nele.

Mas, repito, resista mais uma noite.

Acorde-se e veja a vida que lhe resta, e não a que lhe falta.




Levou um fora?

Teu amor não te corresponde?

Teu filho não te ama?

Teu trabalho é uma droga?

Teu chefe te entristece?

Sofre de solidão?

Tem muita saudade do ente querido?

Tem medo e ansiedade em relação ao futuro?

Tá com receio de não conseguir um lugar ao sol?




Calma, tudo isso também passa. E, em algum momento todos já sentimos o que tu agora sente. E sobrevivemos a nós mesmos e nossa dor tão grande.




Quem sabe não é a hora de cuidar de você?




De tirar essas tralhas emocionais que roubam tua razão de existir?




Que estão te intoxicando.




No fundo do poço do elevador não tem uma mola, tem a você mesmo dando-se valor e atribuindo valor ao que de fato vale a pena por aquilo viver.




Deite-se e descanse.




Você não está doente. Só cansado.




Acredite, todos nós já nos deitamos ou podemos nesse momento estarmos lendo este texto deitados.




Acredite, todos nós já conseguimos acordar, de algum momento dif´cil e sobreviver a ele e o caos que produziu.




Somos fortes.




Uma dica, pare de olhar para si mesmo com comiseração, com pena ou como vítima da realidade.




Isso funciona como um sonífero. quem se considera vítima nunca assume o protagonismo de seu vier, está sempre à espera do outro.




Pare de esperar respostas da vida.

Forneça você mesmo as respostas.




Quem sabe não é chegada a hora de mudar. Quem sabe?




Pare de se olhar no espelho. De ampliar mais ainda teu sofrer com as lentes da emoção.




De querer receber afagos e estímulos por aparentar tristeza, fraqueza, ou apatia.




Agora a vida é contigo mesmo. Isto só funcionava na primeira infância.




E chega, já é hora de olhar a lua, levante da cama, tua alma já tá ficando amofinada de tanto dormir.




Jugo = Viga de madeira que divide o peso numa junta de bois de tração.

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