Reconhecer, verbo de "gratidar"

Hoje fomos almoçar no Tradição Mineira, em São Sebastião-DF. Apesar da cozinha mineira, o recinto é eclético e tem a melhor paella, tambaqui, e caldeirada do Brasil.
Sempre disse, quando ali comia esses pratos, que de tão bom mereciam de joelhos uma prece.
Mas, nem sempre tem. Trata-se de um prato caro, para os padrões de self-service, ainda mais de uma cidadezinha do entorno de Brasília, de baixo poder aquisitivo.

Mas, hoje tinha. Que dia mágico. Desde o café com Sr. Valdecir, até um almoço com uma amiga, num cantinho que guardo como referência culinária, apesar de ser "no suburbio".
Hoje a caldeirada estava melhor ainda. E, o tambaqui dissolvia na boca, entremeado por um molho que o lambuzava, e que só o molho era tão bom que dava pra comer com pão.
A amiga que conosco dividia a mesa era a Edna. Ela veio de Londrina nos visitar. Edna é uma grande Chef, daquelas que com simples omelete faz um manjar.
Minhas recordações gastronômicas-afetivas de Londrina passam pela casa da Edna, e sua mama, que tem o mesmo dom. Aliás, elas disputam. Sou um feliz cobaia de seus pratos há 20 anos.
Edna provou o peixe, e fechou olhos. Achei que ela estava estranhando o sabor. Depois, provou a caldeirada.
E, me olhando fixamente, e disse: "que delícia, que mão tem esse cozinheiro(a)!"

Aí, aproveitei que o garçom ia passando e disse-lhe: " você poderia chamar a cozinheira para que possamos elogiar seu prato".
Demorou um século. Nada dela chegar. Até achamos que ela tava muito atarefada, ou era tímida.
Mas, eis que chega perto de nós uma risonha senhora. Perguntamos, "é você quem faz essa maravilha de peixe e caldeirada?"
Ela respondeu que sim.
Chama-se Noélia. Filha de uma família muito pobre, de dez irmãos, a mãe saia para trabalhar e ela bem jovem era quem assumia a feitura da comida da casa.
"E ai de mim se mamãe chegasse e eu não estivesse com o almoço pronto, e bom. Mamãe me ensinou tudo que sei da cozinha, e cozinha melhor do que eu..."

Depois ela explicou o segredo do tambaqui, o seu molho de azeite que o cobre.
Perguntamos se ela cozinha pra fora, nas noites. Ela disse que tem livre de segunda à quinta.
Já deixamos apalavrado uma quinta aqui em casa, será uma paella, uma caldeirada, e dois tambaquis. E para minha família do DF, amigos e o povo da igreja. E tem que ser até natal. Não adio mais festa alguma.
Nem terceirizo meu prazer. E, quer prazer maior do que dividir a mesa e as coisas boas com os amigos?
Hoje meu texto vai pra Noélia, que de suas mãos nascem maravilhas, tal qual os quindins de Dona Benta.
Noélia ficou radiante com nosso gesto, de chamá-la.
Acho que não é comum ela ser chamada.
Creio que a sociedade como um todo anda reconhecendo pouco as pessoas.
E, quando somos reconhecidos, ficamos até sem jeito.
Ela de tão feliz, desatou a falar de receitas, doces, saladas, carnes. De tudo Noélia manja. E sua fala é alegre, mansa e encadeada. Ela ama cozinhar. Disse-lhe que tenho uma história com o tambaqui. Desde que comi um enorme, no Pará, e pela primeira vez soube que costela também é de peixe.
Então ela falou que fará para mim uma muqueca de tambaqui. Fiquei emocionado, e perguntei-lhe como ela faz para tirar as "costelas". Ela me disse que é seu segredo, e que no domingo 10/11 minha moqueca estará lá, esperando-me chegar.
Como é bom criar pontes. Quantos profissionais Noélia estão dentro de nossas organizações fazendo seus manjares e sendo tão pouco reconhecidos pelos clientes.
Reconheçamos! Reconheçamos! Reconheçamos!
Afinal, reconhecer é o efeito colateral de nos sentimos gratos por algo. Reconhecer é a pratica do "gratidar".
Sim meus amigos, gratidão também é verbo. Que pode mudar vida, ou dias. Tenho certeza que mudamos o resto do dia da Noélia, quando ela ficou com nosso gostinho em seu coração.

Cartas ao JG - Não vos conformeis com este mundo.

Ao lado de onde deixo o carro para lavar tem essa "praça". Sempre quis conhecer quem plantou e cuida de cada canteiro com esmero. Perguntando ao dono do lava-jato, mês passado, ele me falou quem era, apontando para um senhor que vinha atravessando a rua, trazendo uma pá com algo dentro.
Aí, aproximei-me dele, respeitosamente, quase como a lhe prestar reverência.
Ele contou-me que é chamado de Franco, e que o conteúdo da pá são folhas secas, que ele coloca nos canteiros, "para que as raízes fiquem protegidas do sol quente, e a água conserve um pouco mais de sua umidade, coberta pelo manto de folhas."
Têm três domingos que entabulamos uma breve conversa, enquanto o carro lava. Acerto a hora que ele está dando manutenção na "sua praça": entre 8h e 8h30min do domingo.
Sr. Franco é zelador e mora "de favor" nos fundos da Igreja Batista Maanaim, situada na Av. Comercial 81 de São Sebastião-DF.


A igreja fica na rua à frente da praça, a mesma que ele adotou como se sua fosse.
Antes a praça não tinha árvores. Sr. Franco plantou uma a uma. Muitas transportando dos fundos do quinta da igreja, nascidas de sementes ao leu, outras ele mesmo fazendo as mudinhas, como essa da foto.
Seu maior orgulho é a jaqueira, nascida de um bago de jaca que o pastor comeu no quinta,l e soltou a semente no terreno. "Eu avistei aquela mudinha que sofria, com as raízes esparramadas pelo cimento do quintal, aí tive dó e a trasportei para a praça. Hoje é a maior árvore, e dará jacas muito boas".
Sr, Franco disse-me que não têm posses, e que não queria morrer sem deixar algo de seu na Terra.
E que aí começou a plantar e cultivar a terra da praça, canteiro à canteiro, para criar seu jardim, um jardim para a humanidade.
Quem viu essa foto do Google Street e ver a praça agora, dois anos após, pode ter uma ideia do trabalho de Franco.



Ele renovou o espaço, a partir da renovação de si mesmo.
Lembrou-me um texto que gosto muito na Bíblia, na Carta dos Romanos, Cap. 12, versículo 2: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e julgar".
Ele fez isso, e com maestria. Sr. Franco é uma pessoa renovada, em espírito e verdade. Ele não se conformou ao ver a praça abandonada. Agiu. Domingo vou presenteá-lo com uma muda. quero tomar parte nisso também.
Sabe meu filho JG, contei-lhe essa história, pois um dia você fará um piquenique embaixo das árvores de Sr. Franco,e vai se lembrar de mim, e do que lhe falo hoje: Não podemos nos conformar em habitar num mundo ruim. Precisamos renová-lo, mas é preciso antes que nos renovemos.
Seja revolucionário, não se acovarde, não se deixe moldar pelo que não presta. Não desanime, mesmos e todos ao teu lado forem pobres de espírito. Não se torne como eles. Renove seu espírito diariamente. E, em seguida, transforme a si mesmo, a pessoas e a realidades.
Outro dia li que uma senhora aqui de Brasília-DF foi multada pela Companhia de Água - CAESB, por ter emprestado água a um vizinho que tinha a casa em construção, com o auxílio de uma mangueira. Ela pagou a sua cta. Não roubou nada. Pagou os litros que solidariamente cedeu. Não era um "gato". Mesmo assim, os agentes da burrice administrativa foram importuná-la com uma multa.
Quero que fique indignado com isso, e descumpra essa lei. Sempre que a ética da vida estiver acima da lei moral, siga a primeira. Mesmo que seja punido. ficarei orgulhoso de ti.
Qualquer vizinho que me peça uma mangueira de água, para ajudar numa situação de contingência e provisoria, a terá e de bom grado. Que venham me multar Pagarei com orgulho.
Não me conformarei a isto!
Não se conforme ao desumano, à natureza das coisas que lhe dirão que sempre foram assim.
Mude. Mude-se. E, sempre para melhor.
Cuidado com o lugar comum, o mais fácil. Cuidado com as massas, o sem noção das boiadas.
Seja diferente. Tenha sua própria opinião, mesmo que destoe do coro dos conformados e falsamente contentes.
Encontre sua praça para adotar. Encontre propósitos pelo que viver. Deixe seu legado. Mas, repito-lhe, como Paulo falou, transformai esse mundo.
Não perca nunca a capacidade de se assombrar com o que desumano seja, ou de se encantar com o que divino sopre.
E, seja contribuição do bem. Antes que me esqueça, fique de olho na jaca. Coma uma por seu pai, e bote uma placa no seu tronco: Jaqueira Franco.



Quanto ao resto, já será amanhã.

Pela manhã fui deixar o pequeno JG no seu treino de futebol, era umas 9hrs. Quando voltava, e ainda nas imediações, vi três balanços esvoaçantes.
Andei mais uns metros e a vozinha me falou: "Não vai voltar?"
Brequei o carro, dei ré, e fiquei alguns minutos contemplando a cena.

Eram três irmãs, não sei se gêmeas, mas que vestiam um vestido da mesma padronagem e que brincavam com se fosse a primeira vez num balanço.

Aquele minutos foram catedrais em minha alma.

Aí, uma delas olhou para trás e me viu, e abriu um sorriso.
Elas estavam imersas no brincar, num simples brincar de balançar.

Quando vim buscar o JG no futebol, já pelas 10h30min, vi que o Condomínio Ouro Vermelho-DF estava fazendo a festa das crianças, dos condôminos e funcionários.
Então, descobri que aquelas três meninas eram filhas de um dos aux. de serv. gerais que sempre o vejo na jardinando.
Imagino a mãe dela comprando uns metros de tecido e fazendo um modelo para cada filha.
Hoje, meninas urbanas e criadas com tudo, se usarem o mesmo vestido deprimem.
Elas não, elas estavam inteiras e intensas no simples fato e milagre de existir, e de brincar.
Não tinham tempo para vaidades, ou birra.
Estavam aproveitando o brinquedo, com gosto: leves, soltas, alegres e livres, aproveitando o que a vida lhes dá, no momento.
De sua condição social, não é comum tempo de brincar, nem brincar em parquinhos bacanas, com brinquedos prestando, sem estarem danificados.
Voltei pra casa feliz. Orgulhoso daqueles papai e mamãe que não se vergam, e deram do que tinham de melhor para as meninas.
Orgulhoso da meninas, pelo tanto de prazer que demostraram num brinquedo que meninos da cidade grande rejeitam, só querendo coisas mais sofisticadas ou eletrônicas.

A vida é feita desse balançar. Sim meus amigos e amigas, contemple essa foto. Sinta a vida. Sinta a alegria de ser dessas meninas.

Hoje preparei os quartos para que meus filhos venham dormir em casa. Arrumei o de hóspedes para o Tiago Barros​ e a esposa, e o escritório para o Rodrigo Barros​ e esposa.
Fofei a cama, acionei o mata muriçocas, liguei o ar previamente.
É disso que também pode ser feita a vida. Do prazer de arrumar a cama para receber os filhos.

À tarde cantei parabéns para a Lia, 5 aninhos, e fiz muitas fotos dela de borboleta. É disso que que também pode ser feita a vida.

Antes disso, preparei quatro sementeiras, com substrato dos bons, para ver se consigo tirar umas mudas de uma árvore que prometi à minha sogra que faria uma muda para sua casa.
É disso que também pode ser feito uma vida boa.

Mais cedo, na calçada de casa, num local que antes era um muro e a calçada gramada, fiz um canteiro de Marias Sem Vergonhas e Onze Horas, apoiando a terra numa pequena mureta de um tijolo deitado, sem cimento mesmo, e depois pintei de branco os tijolos, e reguei os canteiros. É disso que pode ser feito uma vida boa.

Mais tarde, boca da noite, meu filho mais velho vem trazer em casa uma muda de Oliveira para que amanhã eu presenteei meu mano, que se aposentará na segunda. Quero marcar essa data com uma planta sagrada.
É disso que pode ser feito uma vida boa.

É queridos amigos, tudo isso talvez não tivesse acontecido se eu não visse, pelas 9hrs da manhã, as meninas na sua avoante alegria.
Quando vemos o amor acontecer, nos outros, e se formos do bem, nossos neurônios espelhos se conectarão ao amor e também sairão amando, à sua maneira.
Talvez, naquela festinha que tinha pula pula, escorregador inflável, pipoca, dindim e algodão doce, quem mais se divertiu foram aquelas meninas, que pela sua pobreza e pouco acesso a bens materiais, ainda conseguem se assombrar com coisas que nossos olhos, opacos pela indiferença, já delas não se encantam mais.
Já sinto o prazer do encontro de amanhã, com Sr. Valdecir. Vou tomar um café com ele, e falar de como podemos terminar sua casinha. Sr. Valdecir, que não existia há 7 dias atrás,e que só passou a existir porque me permiti: prestar atenção e fazer contato, me conectar.
Quantas coisas vamos perdendo por estarmos ficando insensíveis, ensandecidos, velozes e furiosos demais?
Quantas?
Uma sociedade que por uma disputa por uma cadeira de praça de alimentação de shopping acaba em luta corporal e tiro.
Precisamos urgentemente resgatar o encanto das coisas simples, tal balançar num balanco.
Voltar a perceber que a vida acontece em todo lugar, e que é só ficar mais atento e programar o cérebro para extrair e selecionar coisas para as quais viver vale a pena.
Acabo de receber convite do vizinho Pergentino Araújo​ para "ser cobaia" num prato. Esse convite também é uma coisa boa que por ela vale a pena viver.

Ficará para outro dia, agora vou comer pipoca e ver um filme qualquer mais dona patroa. Isso também é uma coisa boa pela qual vale a pena viver.

Procure a sua, está cheio... Mas, perca o orgulho, a vaidade, e se tiver que usar o mesmo vestido, para ir numa festa, vá! No limite, a questão será de você para consigo mesmo.
Então, pare de querer agradar todo mundo. Condicionando sua felicidade a ser aceito e a receber migalhas de afeto, em troca de sua submissão.
Entre no seu balanço, balance, sinta a vida, voe, dance, liberte-se e leve-se para passear. Viva a vida que vale a pena, a das alegrias bobas, dos prazeres pequenos, da felicidade de instantes mágicos, saboreados como quem degusta um bom vinho. Como aquele de quem apalpa a cama para o filho dormir.
Quanto ao resto, já será amanhã!

Tempo de Travessias

Eu e Paulinha investimos um tempo da sexta para arrumar os "trem" de meu amigo, na empresa, da qual ele se aposentará em breve. Ele estava fora, quando tomou a decisão, e depois nos comunicou. Então, resolvemos ajudá-lo a se despir da corporação. Pegamos umas caixas de papelão e fomos entocando tudo lá dentro. Depois, ele fará a seleção do que realmente quer ficar, ou expurgar.

Para pessoas como esse meu amigo, e para quem mais possa, que viverá ou já viveu essa decisão, hoje escrevo. Gostaria de abraçá-las e dizer obrigado, por tanta entrega, resultados e dedicação. E até, por tanta horas sem família, dedicadas a uma outra família, a corporativa.  É hora de pedir uma caixa de papelão, juntar os cacos de si mesmo, espalhados num apartamento corporativo que chamamos de estação de trabalho, e fazer uma mudança para nós mesmos. Quem trabalha desde jovem, quando chega esse dia, vive emoções contraditórias. Não à tôa se diz que a realidade está grávida do seu contrário.
Mas, eis que chega a hora. Algumas de forma precipitada, abruptas, sem muito 
planejamento. Outras, mais trabalhadas ao longo dos anos que se avizinham da decisão.
Para vocês que estão pegando o beco, em direção à outra margem do rio, gostaria de oferecer-lhes uma caixa de ferramentas - use-a sem moderação.

1. Feridas Corporativas - Sare as feridas corporativas, caso tenha saído com elas. Nada de ficar remoendo cenas do que poderia ter sido. Evite resignações, ressentimentos, ou sair batendo a porta. A Instituição é sempre maior do que as pessoas, e ela lhe deu muita sombra. Zere as faturas com passado. Nada de ficar remoendo essa espécie de saudosismo mórbido.

2. Tranco da Rotina - Aguente o tranco da segunda feira sem terno, pela primeira vez em tanto tempo. Você terá uma tentação enorme de acessar as notícias da empresa, manter-se na rede do whats, e até dar pitacos sobre decisões corporativas. Aguente o tranco! Ela, a empresa, passará, você passarinho, como disse o poeta.

3. Sentido na Vida - Encontre mais fontes de sentido na vida, do que a do trabalho formal que assumiu por tantos anos. Há ainda muitas aventuras a viver, conhecimentos a conhecer, descobertas a se permitir, pessoas a encontrar. Há uns 30 anos ainda serem vividos, não vá querer vivê-los numa cadeira do papai, e com um controle remoto a lhe controlar.
4. Desapego de Eros - Exercite o desapego da separação dos amantes. Aceite-se nesse momento de vazio, de saudades, de um certo entristecer. São normais, afinal a aposentadoria é um dos processos de luto mais significativo que o ser humano passa, quase que uma morte social. Acolha esse momento, não lute contra ele, nem ache que está doente. Faz parte. Uma boa parcela de tua vida, inclusive círculo de amizade, foi organizado em torno do trabalho, é natural esse apego. Mas, só você poderá ir se desapegando, pouco a pouco, dia a dia. Ao transferir a energia do apego para outros apegos. Vivemos de apegos, apegue-se a outros motivos.

5. Tempo Kairós - Ocupe o tempo. Ocupe o tempo. Ocupe o tempo. Há um tempo que chamamos de Kairós, é o tempo saboreado, degustado, um tempo que que pintamos nele a vida, tal qual fazemos naqueles cadernos de pintura. Crie disciplinas, rotinas, para marcar o tempo. Matricule-se em cursos, participe de grupos, reanime Hobbies, crie uma agenda própria para seguir. Não entre na onda do "Já que" da família: "Já que" não está fazendo nada, troque o óleo do meu carro". Você pode até trocar, desde que você tenha tempo livre. Entendeu meu caro?

6. Não se Aposente - Essa ideia de férias eternas, de pendurar a chuteira, de vestir um pijama - caso você ponha em prática, nela acreditando, vai sequestrar tua qualidade de vida, vai matá-lo um pouquinho a cada dia. Nada disso. Você deve construir sua pós-carreira. Agora no seu ritmo e priorizando coisas que de fato quer fazer. Pode escrever o livro da família; pode sair fotografando as árvores do seu bairro, pode ajudar numa creche, pode sair com os amigos, pode aprender um idioma, ou dança de salão, pode se envolver em questões comunitárias, pode participar mais das atividades da igreja, ser voluntário. Só não fique mofando, estagnado, na ante-sala da morte, esperando a foice chegar. Movimente-se.

7. Saúde - A saúde é um completo bem-estar mental, físico, social e espiritual. Cuide dela. Coma mais verdes. Beba menos. Exercite-se. Tome sol. Medite. Inscreva-se em corridas de rua, pedal, participe de grupos sociais, até de dominó. Não terceirize sua saúde, faça exames preventivos. Mas, principalmente, cuide das emoções, cultivando as emoções positivas: generosidade, gratidão, empatia, compaixão, esperança, paz, otimismo e amor. Evite os cupins da alma: o excesso de reclamação, crítica ou negatividade sobre si mesmo, os outros ou a realidade. Esses três vilões, consumidos em excesso, roubam-lhe, descaradamente, energia vital. Vão secar-lhe, murchando lentamente, tornando-se um velho rabugento e cheio de ódios encardidos. Cuide do ser espiritual, ore, contemple, agradeça, louve, aprenda o sabor de ver o sol nascendo, ou indo dormir, todos os dias e de graça, só para sentir a Graça de estar vivo.

8. Se Conecte - Têm grupos muito legais precisando de sua presença. Conecte-se a eles. Têm grupos de aposentados, de igreja, de família, de besteira, de amigos. Não importa. Baixe seu Facebook, WhatsApp, crie uma conta no Instagran e saia fotografando o bom, o belo e o virtuoso. Esses grupos são terapêuticos. Caso algum deles não esteja lhe fazendo bem, delete-os de seu viver. E, entre noutros. Mas, conecte-se! Inúmeras pesquisas reforçam o valor dos relacionamentos - digitais ou presenciais, como fonte de satisfação na vida. Somos seres relacionais, e isso nos torna melhores.

9. Cultive o Bom, Belo e Virtuoso - Ser mais feliz é uma decisão racional, fruto das escolhas que vamos fazendo. É caminho, não é chegada. E, no caminho para o + feliz, leia coisas bacanas, ouça coisas belas, fale do bom. Aos poucos essas coisas vão alterando o filtro perceptivo e seletivo de tua vida. Para melhor. Poste o bom, compartilhe o bom, curta o bom. Seja bom. Todos os dias crie uma meta: vou ver três coisas boas, belas ou virtuosas que acontecem no meu viver e anotar algo sobre elas à noite, antes de dormir. Podem ser coisas que fizeram para contigo, ou que você testemunhou, ou que fez. Coisas do tipo um ipê florido na calçada, por onde passou há 35 anos, e nunca tinha reparado.

10. Ame-se de Montão - Por muitos anos você trabalhou para os outros, preencheu uma agenda apertada para prover sua família. Por muitos anos não sobrou tempo para você. Todo seu ser girava em torno das preocupações do trabalho, algumas trazendo até sua casa. Agora você precisa renascer para si mesmo. Restaurar sonhos adormecidos, projetos esquecidos numa gaveta de seu coração. Precisa cuidar de si mesmo. Levar-se para passear. Aprender a almoçar sozinho e gostar. Ir ao teatro, cinema, fazer pequenas viagens ou lazeres, dentro de seu orçamento. Curtir você, para além da imagem que galvanizou no seu nome, a da corporação em que trabalhou, ao ponto de virar seu sobrenome. Agora você sua carteira de identidade é mais importante do que sua carteira profissional. Ame-se de forma inteira, intensa e íntegra. Valorize-se, faça diariamente conservas emocionais. Sare culpas, arrependimentos mágoas e outras emoções negativas. Perdoe-se, pare de ser tão severo consigo mesmo. E, libere a energia e fluxo do amor em teu viver. Quem sabe perdoando também, ou renovando aquele amor que passou tanto tempo só recebendo as migalhas do que sobrava de ti, após horas de dedicação a tua empresa.

São essas as dez ferramentas que te dedico. Espero que algumas delas faça sentido. Por fim, deixo-lhes uma poesia que resume tudo:

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

Aprender a Servir

Na minha eclética vida religiosa, alternando entre a missa matinal e o culto noturno, uma cena sempre me chama a atenção e me assombra ao coração.
No culto da Ceia, nos primeiros domingos, lá na Metodista do Jardim Botânico-DF, após a Ceia as crianças saem recolhendo os copinhos.
Prestem atenção nessa foto. Ela foi clicada num instante mágico. Pare de ler, e olhe profundamente a foto.
Na foto, três crianças. Ao fundo, o meu JG sorrindo. Doando copos para a pilha, um menininho de camisa verde. E menina de laço no cabelo toda feliz em poder servir, recolhendo os copinhos.
Aliás, na cena todos estão servindo.
Não meus amigos, não pensem que o JG e o menininho também não tinham suas pilhas de copos.
Eles tinham. Mas, a brincadeira não era ver quem acumulava mais copos e ganhava do outro.
A brincadeira era cooperar, era rapidamente recolher o maior número possível, ajudando para que tudo ficasse em ordem.
Reparem a expressão do menino de verde. Nem um apego, nenhuma disputa, apenas contribuição. Doação genuína de si mesmo, de suas posses (os copinhos), para algo maior, a pilha da menina.
Reparem no rosto da menininha, você ver a graça de Deus? Eu vejo.
Reparem no sorriso, fraterno e solidário, do JG. Que estava segurando sua própria pilha, e em nenhum momento fez expressão de quem "tinha perdido". Ou disputou os copos do menininho de verde.
Esses valores precisamos ensinar a nossas crianças. Não achar que tudo é papel da escola e terceirizar nossa responsabilidade.
Numa sociedade tão individualista e gananciosa, ensinar a servir é imperativo.
Ensinar a conviver, ensinar a ser grato, ensinar a ajudar nas tarefas domésticas, ensinar a respeitar os mais simples, ensinar o valor do esforço e disciplina, diante das tarefas escolares.
Ensina o amor, a amar, a perdoar, a ser solidário e distribuir o que tem demais, de brinquedos a roupas.
Nunca esqueci minha mãe sempre arrumando mais um prato de comida, para quem passava na porta lá de casa pedindo.
Muitas das vezes, tudo já tinha sido consumido, e ela ainda dava um jeito de colocar algo na latinha de doce que o pedinte oferecia.
Minha mãe ensinou-me, com seu exemplo, a partilhar.
Meu pai ensinou-me a acolher. Recebia como ninguém em nossa casa. Esforçava-se para que todos estivessem bem. E a cada um tinha uma atenção especial, perto de papai ninguém é estrangeiro.
Podemos ensinar às nossas crianças muitos valores, que uma vez aprendidos, pela força do exemplo, delas nunca mais sairão.
Quem aprende a servir copinhos, num ritual religioso, aprende a servir justiça, paz e amor para quem com ele cruzar.
Quem aprende a receber copinhos, numa postura de acolhimento, aprende a ser grato, a alegrar-se com pequenas coisas, a em tudo perceber o traço de Deus.
Quem de longe, olha vibrando, aprende a alegrar-se com a alegria do outro, aprende o valor da empatia, aprende a ser nós, e não eu. Aprende que para fazer gol não precisa estar jogando.
Muitas das vezes, só em não atrapalhar, já fazemos gol.
É urgente voltar a ensinar valores do Ser aos nossos filhos.
Para que não venham a tornar-se gerentes autoritários, profissionais que trabalham sem sabor, ou omissos cidadãos. Valores tais como:
O de ser contribuição é um ensinamento digno da paternidade e maternidade.
O de ser cooperativo, solidário e amigo, são ensinamentos que farão toda a diferença, em todas as etapas e situações de nossa vida, ouso dizer.
O de saber perder, lidar com limites e frustrações, ou até decepções. ou seja, saber que mais importante do que valorizar a queda, é concentrar forças no levantar-se. E, aprender com ela.
Nessa foto têm os valores acima: tem o da perda, quando JG poderia ter recebido os copinhos do amiguinho, e ele optou pela menininha.
Têm o da cooperação, amizade e solidariedade. Tem o de ser contribuição, muitas das vezes só torcendo pelo que está acontecendo com o outro.
Bela foto, belos exemplos para nós, que vamos desaprendendo tudo isso, pouco a pouco, ao cruzarmos com exemplos ao contrário que acabam por também nos inspirar, ou influenciar, o que é uma pena.
Sirva seus copinhos. Acolha com alegria os copinhos que recebe. E torça, mesmo de longe, por quem está com a pilha de copinhos bem alta, "batendo a meta. " Converta a metáfora para todas as áreas de teu viver. E serás mais feliz, garanto-lhe!
Foi isso que hoje aprendi e contigo compartilho.

Ensinar a pensar


Professor Adoniran e Professora Luciene, no lançamento meu livro.

Uma das aulas mais esperadas, quando cursava a Oitava Série e Científico - Nível Médio de hoje, era a do professor de história, o Adoniran.

Naqueles anos, entre 1978 e 1981, no saudoso Colégio Diocesano Pio XI, aquele professor me agraciou com algo que carrego até hoje, possibilitando uma mudança significativa na minha visão de mundo.
Nunca esquecerei seus textos, impressos em mimeógrafo a álcool, no qual toda a aula começava com uma poesia, ou uma letra de MPB.
Era algo místico, ele pedia para fazermos um círculo, entregava aquela folha já desgastada, por ter passado por outras turmas, e nela havia palavras para degustarmos seu sabor.
Lembro que conheci as letras de Fagner pelo professor Adoniran.
Risonhamente, ele saia distribuindo para cada um a letra, como a da canção noturno, abaixo:

Noturno (Fagner)

O aço dos meus olhos
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio
Mas deixaram suas marcas
Se hoje sou deserto
É que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força
E a ventania vem mais forte.

Depois, num pequeno gravador, ele colocava a canção para tocar. Quando era canção. Quando era poema, ele o declamava.
Depois começava o sabor de ensinar. Parágrafo a parágrafo ele nos provocava a entender o conceito que estava por trás das palavras.
- Pessoal, o que Fagner quer dizer com “ o aço de meus olhos? ”
- Pessoal, o que Fagner quer dizer com “se hoje sou deserto? ”.
E tome participação. E tome abertura do pensamento à força das palavras, procurando compreende-las em sua essência, e entrelinhas.
Após esse “aquecimento”, ele abria o livro e com o mesmo estilo dialogava conosco sobre a história do Brasil. A não escrita.
Adoniran influenciou meu modelo mental, de como me aproprio das palavras para buscar nelas significados, ou o que dizem sem querer, ou não dizem, mesmo querendo.
Nunca mais li um poema do mesmo jeito, nem ouvi uma canção.

Precisamos de mais Adonirans, desenvolvendo nos jovens o pensamento crítico. A capacidade de análise, de mergulhar num conceito, de não consumir orelhas de livros, apenas.
Vejam a matéria de hoje do Correio Brasiliense:
“Samsung pede a usuários do Galaxy 7 que desliguem o aparelho.”
Nas horas em que leio algo assim, ou do tipo, volto àquela cadeira do Pio XI e escuto meu querido professor dizendo:
“O que vocês entendem disso? ”
Escuto a turma participando da aula, com tema Manchete Correio Braziliense de 11/10/2016.
- Como mandar desligar aparelho?
- E se eu não quiser desligar?
- O celular é meu, ela não pode me mandar fazer nada, já comprei.
- Quando será ligado novamente?
- E se meus parentes e amigos precisarem falar comigo?
- Quem compra um celular para desligá-lo?
- Por que desligá-lo?
- Quem vai substituir meu celular?
- Reclamo para o Bispo?
Salve Adoniran!

Nessa sociedade de ovelhas, ditas pensantes, precisamos desenvolver a capacidade de análise crítica.
A etimologia de "crítica" vem da palavra grega krimein, que significa "quebrar". A ideia da crítica é quebrar um conceito em pedaços para analisá-lo de vários ângulos, ou perspectivas.

Mais alguns exemplos de matérias que em mim baixam o professor Adoniran:
Uol - “Publicar textos que Renato Russo fez aos 15 anos é ofendê-lo.”
Veja - "Consumir o alimento 5 segundos depois não é seguro."

Ensinar a pensar deve ser um dos maiores legados dos mestres que tivemos pela vida, formais ou informais.
Ensinar a questionar o lugar comum das atitudes, comportamentos e gestos dessa sociedade excludente e altamente individualista que estamos a produzir.
Ensinar a pensar sobre o pensado. Que missão digna de por ela viver.
Sem cair no outro extremo, o de criticar tudo, e o de procurar pelo em ovo.
Mas, não abdicar de uma visão consciente e transformadora da realidade.
Não terceirizar sua opinião ao coro de massas insanas.
Que, engolem e consomem tudo que a ela é destinado, sem se permitir ao benefício da dúvida. Ou a exercitar a leitura das entrelinhas, das ideologias, subliminares ou não, que perpassam o texto.
Saudades das aulas do professor Adoniran. Não sem razão, ao lançar meu primeiro livro em Campina Grande-PB, fiz questão de que fosse no museu que ele criou, nos fundos de sua casa.
Foi uma tarde e noite memoráveis.
Então caros amigos e amigas, tenhamos mais cuidados com as palavras. Elas não são inocentes. Elas carregam intenções, significados, cheiros, sabores, tons.
Por exemplo, alguém diz que o assassino agiu em “legítima defesa”.
Acione a tecla Adoniran: “O que é legítima defesa? ”. “Em que condições o conceito pode ser usado? ” Houve testemunhas que endossam essa posição? ” “Ele estava defendendo, de forma legítima, o que mesmo? ”
Outro exemplo, GDF implanta a taxa de contingência sobre consumo de água?
“O que é contingência? ”. “De quanto é essa taxa? ” “É mesmo uma taxa ou não seria uma multa? ”
“Por que a população vai pagar uma multa sobre o que gastar a mais? Não seria melhor ter um desconto sobre o que economizar? ”
“É legal essa taxa de contingência? ” “E quando os reservatórios encherem, a taxa será devolvida? ”

Percebem como é legal, acionar a tecla Adoniran. Vamos procurando o sabor e sentido das palavras, vamos despindo-lhes.

As palavras formam, deformam e conformam. Portanto, pense bem antes de usá-las, você poderá estar destruindo vidas, ou libertando autonomias. Fique com a segunda.
Nessa babel digital em que vivemos, não se tem nenhum cuidado com as palavras.
Nem tampouco analisa-se mais profundamente, no estilo professor Adoniran, as mensagens contidas nelas, explícitas ou implícitas.
E alguns ainda as curtem, ou compartilham.
Sem qualquer esforço de comprovação e veracidade, de confronto com a análise crítica, permitindo-se a outras vistas do ponto.
Ensinar nossos jovens a pensar é urgente. Mas, talvez isso só aconteça em outro tipo de escola, e até de família.
Precisamos desenvolver a capacidade de leitura da realidade, da vida, do outro e de si mesmo, para que possamos assumir com protagonismo nosso futuro, e parar de repetir e copiar tudo que a aldeia global apregoa 24hrs por dia, sem qualquer juízo de valor, ou pudor ético.
Adoniran entra na sala, é sua última aula, nossos olhos marejados. Estamos a dias do natal de 1981, E iremos partir para a faculdade da vida. Silenciosamente coloca uma última canção, distribui o texto. É a música Oh My Love, de Fagner
E para nós deseja que vida afora nunca nos esqueçamos do que fala a canção e que tenhamos sempre a mente aberta, a espinha aberta e um coração em eterno recomeços, de olhos bem abertos e prestando atenção a tudo de bom, belo e virtuosos que a vida ainda pode nos oferecer:

Oh! My Love (Fagner)
Pela primeira vez na vida
Meus olhos estão abertos

Oh! Meu amor
Pela primeira vez na vida
Meus olhos vêem

Eu vejo o vento, eu vejo a árvore
Tudo está tão claro em meu viver
Eu vejo a nuvem, eu vejo o céu
Tudo está tão claro em nosso mundo”

Ricardim, pergunta-me Adoniran, e antes ele não via porque?

Essa é fácil professor, por que têm coisas que só conseguimos ver quando amamos, com olhos amorosos, o ódio nos cega, a vingança idem, a mágoa, inveja e o medo, também.
Só olhos renascidos de si mesmos abrem-se ao milagre do viver.
Valeu professor! Eu vejo o vento, eu vejo a árvore... 
E só queria que soubesse que você teve um papel importante nessa visão.

Regue seu Buxinho


Querido buxinho, replantando hoje um de teus irmãos, verdinho-verdinho, vi que falhei para contigo.
Ao novo buxinho, prometo-lhe não mais deixá-lo sem água, como fiz com o anterior, confiando apenas na sorte de chuvas erráticas.
De agora em diante, cuidarei para que todas as noites, antes de dormir, tu recebas generosa quantia de água.
Caso contrário, teu destino será igual ao daquele o que jaz ao teu lado.
Quantas coisas vão nos murchando, diariamente, em nós grudadas e sem que sobre elas façamos algo, intencionalmente para reestabelecer a vida.
E vamos ficando secos – emocionalmente falando.
Precisamos de pausas. No corre corre da cidade grande, na luta pela sobrevivência, e após um dia de peleja na selva corporativa, precisamos restaurar sentimentos, renovar valores e entrar em contato conosco mesmo, para juntar os nossos cacos que foram caindo ao longo do dia.
Uma água que jogo em mim, todas as noites antes de dormir, é rememorar meu dia.
Minutos depois em que a luz se apaga. Quando posso ouvir até o respirar de minha parceira, então brinco de soltar meus pensamentos e aguar meu ser.
Vou me lembrando do que prestei atenção, ao longo do dia, de bom, belo e virtuoso.
Hoje, ao caminhar após o almoço vi uma menininha voltando da creche, com sua babá. No caminho ia pegando varetas e brincando de fada.
Vi quatro senhores que faziam a cesta, embaixo das copas de frondosas árvores, jogarem um carteado. Vi um moço fabricando pães sírios, ao vivo e a cores, e uma moça distribuindo-os após o tempo de forno, também ao vivo e a cores, aos clientes do restaurante em que almocei.
Vi um gerente apresentar o tema de sua área, com tanta empolgação e energia que dava gosto. Antes de dormir, sempre conecto-me às coisas boas. Em algumas ocasiões, levo-me para banhar-me no barreiro de meu avô paterno, ou comer goiaba no quintal de minha avó materna.
Precisamos de momentos de água, antes de nos levar para dormir. Mesmo cheios de problemas, caso esteja, ainda assim você pode se dar as mãos e caminhar pelas suas boas lembranças, verdadeiras conservas emocionais.
Inúmeras pesquisas comprovam que o amadurecer com qualidade de vida passa pelo que habita nosso pensamento.
Se não tivermos cuidado, o que nele habita e com ele passamos o dia, vai secando nossa seiva.
Vamos ficando ressentidos, descrentes e sem esperança.
Olho para o buxinho seco, e vejo dele teimarem folhas verdes, ainda. Vou aguá-lo também, quem sabe?
Pessoas também são assim, mesmo secas e sem qualquer formosura, podem renascer, lentamente, após o tempo de aridez.
E, após renascidas, é só cuidar para não voltar tudo ao que era antes.
É preciso cultivar espaços diários de encontro consigo mesmo, de revisão de vida, para permitir que o crescer irrompa e renove-se.
Não ir para a cama com um perdão adiado. Um abraço negado. Ou, um eu te amo, nem sequer balbuciado.
Tá certo que vez por outra, a coisa pesa demais, e não tem jeito: faltará água emocional em nosso ser.
Faz parte.
Esses momentos de veranicos emocionais são importantes.
São estados de espírito que dizem a nós mesmos que as coisas não estão tão legais quando desejamos, e nem sempre podemos sobre elas agir.
Contudo, cuide para que a falta de rega no seu coração não perdure. Não fiquei ligado a função “Play Triste” por muito tempo, sem você fazer algo para reverter esse sentimento.
Aja, se ajude a não murchar.
Leia coisas bacanas. Ouça também. Cuidado com os filtros negativos do viver.
Cuidado com a descrença, em si mesmo, nos outros e na realidade.
Toda forma de desesperança é como falta de água no buxinho.
Mesmo assim, nosso ser aguenta momentos assim. O que ele não aguenta é uma eternidade assim.
Aí, morremos em vida. O que é muito ruim.
Pense em seu ser como esse buxinho verde. Ele precisa de escolhas racionais que você fará, ao longo do dia, para preservar nele a vida.
Quantas coisas durante o dia podemos sobre elas ser mais flexíveis, tolerantes, e, até relevá-las.
Deixar de lado posturas muito rigorosas, enérgicas, cheias de razões.
E, fluir. Deixar fluir a vida, em toda sua beleza e contradições.
Costumo dizer que precisamos de duas coisas, durante o dia, para manter nossa seiva e fecundidade.
A primeira delas é fazer cirurgia bariátrica de pensamentos ruins, de críticas e reclamações de todos os tipos e intensidades. Na hora que o pensamento chegar, coloque outro no lugar, debata com ele, tire dele a força do mal.
A segunda delas é a academia da alma. Representada por práticas. Ninguém faz academia, ninguém malha, lendo livros. Malhar a alma significa praticar o bom, o belo e o virtuoso.
Com ações concretas de paz, reconciliação, amorosidade, respeito, mansidão, bondade e ética.
Sim, é possível! Outro dia a Catarina mobilizou uma rede de condôminos para comprarmos presentes para os filhos dos funcionários, e a ideia bombou. Todos ajudaram. Catarina desafiou o lugar comum, a imobilidade, e nos liderou numa causa do bem.
Catarina colocou água em nossos buxinhos.
Um monte de coisas boas espera por nós para acontecerem, desde que por nós paridas.
Na vida têm regadores sobrando. É só prestarmos atenção.
Para também pegar o nosso e sair distribuindo água a corações ressecados.

Um Regador de Luz




Uma luz diferente acompanhava a manhã desse domingo. Não era nem oito horas e o céu já descortinava-se num azul primavera estonteante.
Saí em direção à feira livre de São Sebastião-DF, na qual bato ponto todo domingo cedinho, na mesa da Pastelaria La Deysy.
No caminho, a luz me acompanha, o dia está místico, pensei. Nessas horas, em que isso me acontece, presto mais atenção. Não é sempre, mas hoje a luz está ali, querendo me falar algo.
Já chegando próximo à Av. Comercial, vejo um senhorzinho no aceiro da pista, ao lado da calçada, do lado direito, no qual não têm casas.
Olho, mas não vejo, apressado que estava e já processando a agenda que iria cumprir na feira: alfaces, espinafre, brócolis, carregador de celular, bicicleta do JG pra consertar, churrasqueira de espeto para comprar, e leite gourmet, direito da vaca, para fazer coalhada.
O carro segue por uns 200 metros, e a luz me fala. Você não viu aquilo?
Breco o carro, subo a calçada e dou meia volta. Vou passando devagarinho, o mesmo senhorzinho está ali.
Numa mão um balde, na outra uma panelinha pequena, como um papeiro.
E, ele está molhando as plantas, num singelo canteiro que certamente ele fez e cuida.
Ele me ver tirando a foto. Sem jeito, por ter invadido a privacidade dele, corro pra me apresentar e louvar seu gesto, de molhar as plantas. Apresento-me, e ele também: "Meu nome é Valdecir".

Saio para a feira com o gosto do gesto do Valdecir na minha mente. Mudou meu dia. Ele era a luz. E eis que a luz se fez.
Pensei, vou comprar uma flor para presentear Sr. Valdecir. Dito e feito, escolhi um hibisco cor de laranja, bem formado e com muitos botões. Apressei o passo da agenda, e, perto das 9h30min encostei no barraco em que ele me disse que morava com a filha. Trata-se de uma ocupação irregular, para qual eu sempre torcia o nariz quando por ali passava.
O barraco fica na calçada esquerda, da que ele fez o canteiro. Veja na foto que terá uma ideia.
Bato palmas e ele sai. Já vem abrindo um sorriso, digo-lhe que vim presenteá-lo com uma muda. Ele me diz que eu não posso presenteá-lo e ir já embora, que preciso tomar um café com ele.
Aí ele abre o portão, coloca-me pra dentro do singelo lote, no qual nos fundos mora sua filha mais nova, com dois netos, e ele mora num barraco ao lado, de uns 16m2, que construiu ni lote para não "incomodar a filha". No seu barraco tem quatto e banheiro, uma saleta e a cozinha, tudo numa meia água, de 3 metros de largura, por seis de comprimento.
Entrei ali e senti uma tremenda paz. As paredes do barraco forradas por fotos, de todas as épocas e motivos. Ele me serve o café e começa a contar-me sua história. Diz que veio de Princesa Izabel-PB, ainda jovem. E que teve sete filhos. Seis deles moram em Brasília e uma voltou para Paraíba. É viúvo. Diz ainda que tempos atrás vendeu sua casa, "uma casa boa" no centro de São Sebastião, e com o dinheiro dela comprou dois barracos para os filhos, e ainda ajudou a filha mais nova, que vive com dificuldade para criar dois filhos e é solteira.
Seus filhos protestaram, ao que ele respondeu-lhes "Deus já me deu sombra demais, agora é hora de eu dar sombra para meus filhos".
E vendeu tudo para cuidar da caçula, e netos, e viver perto dela, apoiando-lhe no que precisa.
Tomei mais uns goles do café, emocionado. Sua casinha toda pra fazer ainda. Paredes sem pintura, banheiro sem cerâmica, cozinha apertada e quente.
Mas, eu me sentia num palácio. Quanta paz tem ali! Quanta luz vinha do coração grato e sábio de Sr. Valdecir.
Aí ele foi me mostrando, foto a foto, como se estivéssemos numa galeria do Louvre.
Falava de cada bisneto, neto, filho, filha e seus agregados com tanto carinho, com tanto esmero, que dava gosto ficar ali ouvindo.
Não havia um ponta de mágoa, de resignação, dele só saiam coisas boas, para com todos que mostrava as fotos. Até o que "abandonou a filha" mereceu uma palavra de respeito. "Ele soube que era melhor partir, não maltratou minha filha, e fez a coisa certa. Entre eles não deu. Paciência. Mas é um bom rapaz".
Na saída fizemos um self, não sem antes prometermos não nos perdemos um do outro, e inserir na minha agenda domingueira o café do Sr. Valdecir.
Que do alto dos 75 anos, de uma pele enrugada e tostada pela vida difícil que teve, dele não ouvi uma só palavra de murmuração, reclamação ou queixa da vida.
Ele falou-me que vai plantar "o nosso hibisco" no meio do canteiro que ele fez. Falou "nosso", e fiquei profundamente emocionado.
Pronto amigos(as), agora tenho um pé de hibisco pra chamar de meu, plantado de "meia" com Sr. Valdecir.
Trocamos telefones, abraços fraternos, e nos despedimos. Com o mesmo enlevo com que a luz se despede do dia.
Domingo vou pedir que ele orce a cerâmica do banheiro, vou presenteá-lo com a pintura de sua casa e terminar o banheiro. É o mínimo que posso fazer, "Deus também me deu muita sombra".
Pessoas como Sr. Valdecir são anjos entre nós. Elas possuem um sentido da vida que as tornam inabaláveis. O propósito de Sr. Valdecir excede sua família, atinge os amigos, eu que passei por lá, e você que está lendo.
Atinge também a natureza, fazendo seu canteiro onde antes não existia nada, apenas um terreno abandonado e cheio de lixo.
Todos os dias ele carrega pesado balde, para sua idade, atravessa a rua, e molha uma a uma suas - aliás, nossas plantinhas. Não deixou de servir, de se sentir útil, de melhorar o mundo no qual habita.
Seu gesto de doação aos filhos é uma lição. Quantas famílias se destroem justamente na hora do inventário. Ele não. Antes de morrer já deu e dá do seu melhor.
Agora entendi de onde vinha aquela luz. É a luz de pessoas do bem, pacatos cidadãos de nosso querido Brasil. Eles estão por toda parte, com seus baldes e panelinhas irrigando corações e mentes, de pessoas prestes a desistirem de regar a semente da esperança.

Aquela água que Sr. Valdeci molha suas plantinhas é a água da vida. A água que nos torna viçosos, corajosos, otimistas e cheios de garra para superar nossos limites.
Então, inspiremo-nos nele. Corramos para adotar um jardim, compreenda a analogia.
Que possamos ser acolhedores como ele, que possamos abrir nosso lar a um estranho e oferecer hospitalidade e amor, regados por um cafezinho sem bolacha, que possamos parar com tanta falta de tesão pela vida, com tantas vidas no piloto automático, sem mais prestar atenção que ainda podemos ser bênção para quem nos rodeia.
Será que não tem alguém perto de ti precisando de um pouco de água?
Será que não tem alguém precisando de tua sombra?
Será que não tem alguém precisando de tua luz e acolhida? Corações cansados, que só precisam entrar no teu lar para de lá saírem renovados, restaurados em sua força de viver.
Ame por inteiro, bobamente, entusiasticamente, viver é bom demais.
Deixe de guardar besteiras e tranqueiras no coração.
Desapegue-se de tudo que te intoxica emocionalmente, até de certas pessoas.
Seja inteiro e intenso em tudo que faz. Seja ternura, paz, mansidão e generosidade. E dará uma sombra boa, para que sob ela habitem pessoas que precisam descansar, às vezes até de si mesmas.
Não vejo a hora de domingo chegar na sombra de Sr. Valdecir.
Mas, antes disso, amanhã ligarei para ele, perto das 9hrs, vou saber se ele molhou nosso hibisco.
Sim, agora é nosso! Temos um hibisco em comum.
Não podia ir dormir com tanta emoção que degustei da vida, pela manhã, sem dividi-las com cada um de vocês que me leem.
Vocês que tornam minha vida melhor. E, antes que me esqueça, obrigado por existirem. Vocês são sombra em meu viver.



Inspire-se!


5, 4, 3, 2, 1
Inspire-se!
Inspire
Expire.
Em cindo segundos, quantos pensamentos foram inspiradores em teu ser?
Conecte-se neles.
Desconecte-se de tudo que oprime, agride, prende, restringe, limita, amaldiçoa, para se conectar a melhores fontes de inspiração.
Há um mundo em ebulição, mares revoltos, vendavais.
Há movimento, pessoas correndo, carros alados...
Tudo pede pressa, ontem, velocidade.
Tudo fica velho hoje, descartável.
Tempos velozes e furiosos, tempos incertos.
Não se perca dos valores mais nobres, no meio desse frenesi de mudanças.
Seja revolucionário, pare! Encontre tempo para parar e avaliar o caminho, traçar novas rotas, alterar posições.
No tempo em que lê esse texto, nem você, nem o seu amigo distante são mais os mesmos.
Decisões já foram tomadas, ações postas em práticas, células morreram, esperanças renasceram, vidas germinadas.
Faça parte da corrente do bem. Aproveite a mudança para construir o mundo que almeja, no agora, no já.
Participe. Saia da arquibancada de seu viver.
Abrace, beije, cumprimente quem contigo está, também nesse mar bravio e ventanias assustadoras.
Ele também está com medo, e precisa de sua confiança para prosseguir.
Desconecte-se do wifi, por um momento, e conecte-se ao coração de quem está ao teu lado, conecte-se à humanidade. Por mais banda larga humana, e já!
A natureza está grávida de seu contrário.
Em meio à pressa, prazos urgentes, recursos escassos, pare mais tempo no sinal, para dizer mais frases - a um amigo distante, daquela da canção:
“Olá, como vai?
“Eu vou indo? e você como vai?”
“O sinal vai abri...”
Não deixe o sinal abrir sem acontecer sua presença no mundo.
Não terceirize sua vida, felicidade, esperanças.
Há também tempo para pausas, como essa, para recolhimento, para autoconhecimento, para evolução. Tudo move para o novo, com caos e ordem no mesmo cenário.
Evolua seu Pokémon interior, caminhe mais uma légua para chocar o ovo do novo.
Use o tempo frenético de mudanças a seu favor.
Esteja 100% presente, no aqui e agora.
Distorça a percepção do tempo, ao transformar Cronos em Kairós, pela força do amor, pela força do nós, em nós irmanados num mesmo ideal.
No reino de Kairós, um minuto pode ser uma hora.
Conecte-se ao que lhe inspira.
Desconecte-se do que lhe afasta da humanidade.
O que lhe inspira?
O que você anda inspirando?
O que você expira?
Se inspire, inspire, expire...
Se inspire, inspire, expire...
Preste atenção!
Há vida acontecendo em tudo lugar.
Floresça, não se deixe murchar, e também não murche o outro.
A lagarta que habita um casulo inspira-se num amanhã “voante”.
A lagarta inspira transformações, mudança, presente o tempo.
A borboleta é a sua melhor expiração, para a mãe natureza, é doação alada.
A semente que descansa em solo fecundo, inspira-se na árvore que poderá ser.
A semente inspira, inspira, inspira: água, luz, nutrientes.
A árvore que dá sombra, frutos, flores, é sua melhor expiração, é a sua oferta de gratidão por ter desenvolvido.
Toda a vida é mudança. Tudo em conexão: eu me inspiro; inspiro e expilo.
O que te inspira?
O milagre da vida? Aquele espermatozoide que venceu mil barreiras para você estar vivo, acasalando-se com um óvulo esperançoso, ainda está lhe assombrando.
Ou você perdeu a conexão com o que realmente importa, o que realmente é digno de inspiração.
Desconecte-se da indiferença das coisas. Olhe a vida ao lado acontecendo. Inspire-se no agora, preste atenção.
Contemple a força dos ventos, dos mares, veja neles a conexão com algo maior, do qual você faz parte.
Inspire-se!
Conecte-se ao que te inspira.
Mas, não guarde só para si. Aprenda a expirar coisas boas.
Diminua a poluição comportamental ao teu redor. Ajude ao ecossistema emocional, mudando, transformando pessoas, ambiente e negócios, para melhor. Melhor do que encontrou quando chegou.
Seja a inspiração que te inspira.
Seja transição, ponte, mudança para o Ser +
Tudo na vida está em evolução, mas escolha o lado bacana da evolução. Aquele que conecta pessoas em prol de um mundo melhor, mais justo e inclusivo.
Inspire-se nos bons exemplos, bons líderes, numa vida que vale a pena ser vivida, que por breve que é, não pode ser medíocre.
Olhe para quem do teu lado está. Inspire essa pessoa, acolha-a no seu coração.
Coloque-se como serviço, para ela.
Sem inspiração, tudo que trocaremos com o meio ambiente é oxigênio por gás carbônico.
Com inspiração, além destes, trocaremos energia, mobilização, superação, resultados, mansidão, gratidão, generosidade, reconhecimento, força de vontade, apoio, amizade, justiça e paz. Entregues de forma engajada e sustentável.
O que lhe inspira?
Estar aqui lhe inspira?
Então: Inspire-se, inspira e expire o bem, o bom e o virtuoso.
Construa o mundo que deseja, participe!
Seja inspiração!
Inspire-se na comunhão de amigos que preparam uma costela de fogo do chão.
Expire amizade.
Inspire-se numa mãe que nina seu bebê, enquanto dirige-se à creche, antes de ir trabalhar.
Expire cuidado.
Inspire-se num caixa de banco que atende a cada um como se fosse único, presenteando seus clientes com um sorriso cortês.
Expire empatia.
Inspire-se num atendente que colhe a assinatura de um financiamento imobiliários, com lágrimas vertendo, por saber que ali tem sonho sendo realizado.
Expire cidadania.
Inspire-se, é urgente!
Inspire, expire. Inspire, expire...
Inspire generosidade, paz, ternura, perdão, coragem e ética.
Expire doação, harmonia, amor, reconciliação, fortaleza e justiça.
Não esqueça de inspirar-se em coisas boas, belas e virtuosa.
Afinal, é isso que nos move na vida: inspiração.

Do que se faz uma vida boa?


De que se faz uma vida boa, uma daqueles que dizemos “tá tranquila e favorável”?
Será que é a tranquilidade da falta de movimento?
Ou, não será exatamente o oposto?
Manter a tranquilidade em meio ao movimento.
Não, não tema a mudança: a velocidade das coisas, dos tempos, dos movimentos...
Aproveite o ritmo. Gingue, dance, pule, ande, estique-se, surfe, corra, encontre seu espaço no turbilhão de transformações mas alinhe-se ao ritmo da vida cotidiana.
Mas, não pare de crescer.
Uma vida boa se faz em movimento.
Movendo a ação para frente!
Sendo e acontecendo no seu lugar no mundo. Participando!
Tudo em movimento antecipa infinitos, traz-lhe a valor presente.
O espermatozoide em direção ao óvulo, antecipa o bebê.
A semente em direção à terra, antecipa os frutos.
A esperança em direção ao futuro, antecipa possibilidades.
Tudo que cresce muda, transforma-se, move-se!
Mas, crescer dói e é arriscado. É melhor – pensam as amebas, estagnar.
Mas, não somos amebas. Embora uns se pareçam, por desistirem do jogo da vida antes do apito final.
O que leva um ser humano a crescer? Inspirações.
Inspirações são o motor da vida. O que lhe inspira?
Quem lhe inspira?
A quem você inspira?
Inspiração é o motor da mudança, o vetor do novo que vem vindo logo ali, dobrando a esquina.
O que são sonhos senão inspirações de propósitos?
O que é a vida, senão esse momento aqui, agora, no qual você vê esse vídeo?
Seja a inspiração que lhe inspira!
Evolua, sem se perder de si mesmo.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as estações, tudo na vida é mudança”
Seja a mudança que almeja, corra, veleje, ande, abrace, dance, estique-se, mova-se.
Mas não esqueça, sempre em direção ao + Ser.
Ao ser mais.
Mais gente. Mais humano. Mais fraterno. Mais cidadão. Mais solidário. Mais tolerante. Mais ético. Mais generoso. Mais grato. Mais amoroso. Mais engajado.
Não é hora de lançar as âncoras do teu ser. Vem vindo uma tempestade lá fora.
Aproveite a força dos ventos, aprume as velas, ajuste o leme em direção ao futuro que almeja.
É hora de subir as âncoras, navegar nos mares bravios e enfrentar os furacões da incerteza.
Mas, não estará só.
Olhe ao teu lado!
Estamos todos, juntos e separados, conectados nesse mesmo propósito:
Ser fonte de inspiração de mudança para o melhor.
E transformar esse mundo em algo melhor do que encontramos pela força do sonho.
Afinal, sonho que se sonha juntos vira realidade.

Derrapadas nas Curvas da Vida


Há momentos na vida em que acontece de se derrapar na curva, tal qual esse meu vizinho que graças a Deus os pinheiros amorteceram o impacto da queda e ele não se feriu gravemente.
Ele cochilou, voltando dos embalos de sábado à noite.
Têm momentos em nossa vida que derrapamos, emocionalmente falando.
Que sobramos na curva e parece que tudo não faz mais sentido, e que recomeçar é difícil demais, quase impossível.
Nos vemos tal qual esse carro, sem forças para sair do buraco.
E, nosso instinto de sobrevivência fica lutando para dali sair, e cada vez em que não conseguimos, mas atolados vamos ficando, nos sentindo impotentes conosco mesmo, e chateados.
Existem muitas situações que provocam em nós essa sensação a de que derrapamos, emocionalmente falando, e estamos no fundo do poço.
Uma separação, não estas separações globais. Que na semana vindoura ambos já estão em Caras e bocas com outras(os).
Falo de separação real, daquelas que sempre dói, e muito.
Existe derrapada pelo luto da morte de um ente querido.
Ou aquela derrapada de não conseguir algo muito desejado, e para o que muito se trabalhou.
Outras pelas dores de amar, seja por um amor não correspondido; seja pela de um amor impossível.
Existe ainda a derrapada do trabalho, quando cheios de obrigações a pagar, filhos a criar, e já na idade adulta, perdemos o emprego.
Ou, ainda no trabalho, quando vamos perdendo o encanto, o prazer e nós sentindo vampirizados emocionalmente pela empresa, chefe, colegas e a própria natureza do trabalho.
Como podem ver, queridos amigos(as) são muitas formas de derrapar, na curva da vida.
Na hora em que derrapamos, é preciso abrir uma caixa de ferramentas emocionais que vão nos ajudar a sair do carro e chamar o guincho, entende a analogia?

O que tem nessa caixa de ferramentas?

A primeira ferramenta é a do acolhimento. É de acolher o sofrer. Acolher a tristeza e pesar. Parar de lutar contra ele. A tristeza faz parte de momentos de derrapada emocional, doente estaria se triste não ficasse. Então, primeira recomendação, acolha a dor.
Ela é só sua, e de mais ninguém, como diz a canção. Ninguém, por mais íntimo eu que seja, poderá sentir o que sentes no teu entristecer. Cada um vive, talvez a mesma cena, de forma diferente. E, talvez até alguns passem por elas sem sobrarem na curva e derraparem. Mas, você sobrou, então acolha-se. Não acelere seu processo de pesar. Não apresse o rio. Nem ache que está doente. Tristeza não é doença.

A segunda ferramenta é a de contabilizar as sobras. O que você ainda pode fazer, apesar da situação, dado que ela não poderá mudar. Se não podemos mudar uma situação, ainda assim podemos mudar a nós mesmos, diante dela, sobre a forma pela qual ela nos impacta. Esse é um processo racional. Você debatendo consigo mesmo. Eu sei que sofre. Que a dor de tua mãe que faleceu tira toda a vida de teu viver. Que a dor do emprego perdido, no momento que nem esse, tira qualquer centelha de otimismo. Eu sei. e acolho contigo essa dor, e mais tantas outras que você esteja passando. Só digo-lhe que contabilizar as sobras não é negar a dor. Não é sair sambando no asfalto, fingindo que nada lhe aconteceu. Contabilizar as sobras é se perceber como um corajoso viajante, dia a dia, cumprindo sua jornada no vale de lágrimas. É ver que ainda resta-lhe áreas da vida que não foram tolhidas, naquela curva. E, começar a investir nelas. Primeiro acolhemos o sofrer. Depois, chega hora, de darmos uma resposta ao sofrer. De proteger nosso ferimento emocional com curativo,para que não volte a infecionar. Nesse omento é de fundamental importância não se alimentar de pensamentos ruins, leituras deprimentes, músicas da mesma espécie, e até pessoas. Têm pessoas que adoram desgraça. E, ficam mexendo na ferida, só para se nutrir da dor do outro.
Afaste-se delas. Se ajude. Faça coisas não desejadas, como se fosse remédio que tomasse. Por exemplo, não negar a todos os convites para sair com os amigos. Eles sabem que você está triste. E não vão querer tirar esse seu direito. Só querem estar ao teu lado. Combine isso com eles. Faça uma espécie de contrato de que certos temas não devem ser tocados, e que você não estará muito para papo. Mesmo assim, se forem teus amigos, só pelo prazer de sentarem à mesa contigo, eles toparão. Aos poucos. Se na primeira ferramenta é você quem opera. Na segunda é a vida. A vida é terapêutica. E bons amigos são fonte de vida. Permita-se a vida. Leve-se para passear. Tomar sol. Visite alguém que precisa de você, doe-se ao outro. Verá que voltará um pouco melhor.

E a terceira ferramenta é a espiritualidade. É sentir-se amado(a) pelo bom Deus. É saber que se não morreu naquela curva é por que algo de bom vai acontecer. E que, isso que sofre no momento, passará. Que amanhã será melhor. Que você dará a volta por cima. A esperança é um valor da espiritualidade. A esperança é o cabo de aço que nos puxa do buraco. Um dia atendi a uma pessoa que perdeu o emprego, de forma bem dramática. 

Eu dizia para ele: "Pense como num game, você está numa fase ruim, que é difícil mudar dela, e se sente impotente, sem ver futuro ou perspectiva. Mas você é forte, é corajoso, tem disciplina, e pode se preparar para mudar de fase, mesmo que ainda viva algum tempo nessa fase ruim. Um dia quero receber um email teu assim: Ricardim, mudei de fase." Confesso-lhe que guardo esse email até hoje, ele mudou de fase, e para melhor. Não sabemos a força que temos de mudança, quando pedras são atiradas a nós, muros são erguidos, ou em poços profundos a vida nos meteu, só sabemos de uma coisa, a força de transformação de um ser humano que passa por dificuldades é tremenda. Esse ser humano, com os joelhos no chão, se restaura. Dele brotam renovos, e ele faz daquelas pedras que a vida lhe atirou um altar de esperança, ou uma ponte para o futuro.

Resumindo, se você se sente como quem derrapou numa curva e caiu num buraco, do ponto de vista emocional, abra sua caixa de ferramentas.
A primeira dela chama-se acolher. Compreender-se em seu sofrer. Não se chicotear.
A segunda delas chama-se fazer algo com o que restou, contando com a ajuda dos amigos. Ir, lentamente, saindo da posição de vítima da situação, e reassumir o leme do barco de seu viver.
A terceira delas chama-se a força dos valores, um de seus cabos de aço: a fé. Os valores saram feridas. O valor da gratidão. Da doação de si mesmo ao outro, mais necessitado. Talvez, seja pela espiritualidade, que saibamos a hora de fechar janelas, virar páginas, e cuidado novamente de nós mesmos, tolhidos pelo vendaval do luto. Quer seja pela força do perdão, quer seja pelo cultivo da confiança e auto-estima, quer seja pela entrega do sofrer ao Senhor Jesus, em ação de graças. Sim, amigos e amigas, em tudo dai graças. Afinal, tudo passa, nós passarinhos, e pássaros de uma terra santa.

Semear no Pó



Não sei com vocês, mas sábado acordei sorrindo. Sempre abro um sorrisão quando chega outubro. Considero o mês mais simpático do ano.
Tem dia das crianças, dos professores, recesso escolar, é aniversário e feriado de Campina Grande-PB, é enforcar e ir pra praia. É festa de Nossa Senhora do Rosário e de Nossa Senhora da Conceição,e correndo por fora de São Francisco.
Quando chega em outubro para mim já é natal. Natal é nascimento, e nasci em outubro.
Aproveitando a energia do dia 1, e o fato de ser um sábado, resolvi plantar sementes adormecidas que colhi, lá no Cemitério de Pirajuí-SP, em setembro, quando fui embarcar a minha sogrona, a Madalena Pinatti.
Quem um dia for à Pìrajuí, deixe de besteira e vá visitar o Cemitério de lá.
O corredor principal é coberto por trepadeiras amarelas, de uma flor exótica, não comum, que vai se enramando por sobre a estrutura de madeira, formando um telhado de folhas e flores, belíssimo, em mais ou menos uns 100 metros de extensão.
Colhi umas sementes e decidi que já era hora de deitá-las ao chão.
Resolvi apostar, plantar no pó, como fazemos no Nordeste, quando a intuição - ao olhar para o horizonte, nos diz que vão chegar as chuvas.
Dois dias depois, na segunda, deu uma chuva das boas. Daquelas que mansamente passa inteiro garoando, chuvinha fraca, mas constante, das que alimenta a terra.
Pensei comigo, as sementes agora estão prontas, ninho alimentado com a bênção da água, agora elas vão debutar no desfile da vida, e apresentarem seu melhor potencial.
Desde então, todos os dias quando chego do trabalho vou dar uma olhada nos canteiros.
Acho que muita coisa em nossa vida é plantar no pó. É acreditar contra toda desesperança.
Tem gente que diz que a vida nunca acontece pra ela, mas não planta no pó. Aí, quando chegam as chuvas, nada de sementes para aproveitarem a oportunidade.
Plantar no pó é acreditar no sonho, é perseguir um ideal, é focar num objetivo.
Mas, não só isso. Isso todo mundo faz. Isso é só intenção.
Precisa saltar no escuro, no vazio do infinito, e apostar em si mesmo, lançando-se á terra, mesmo que árida.
Quando dava aulas numa modesta Faculdade, há uns 40 km de casa, que pagava pouco e atrasado, estava plantando no pó.
Quando chegassem as chuvas, de outras oportunidades, eu já teria ganho experiência em sala de aula, e já podia comprovar docência de ensino superior, num meio dificílimo de entrar.
Por dois anos ali ensinei, pagando pra trabalhar, e um dia um dos professores falou de meu nome a um outro, de outro Centro, e a chuva chegou.
Vivemos hoje uma ambição tão grande, que não temos mais paciência para plantar no pó.
Tudo tem que ser pra já, pra ontem, e - de preferência, sem esforço e disciplina.
Não meus queridos e queridas, não se chega a lugar algum sem aprender a plantar as sementes do vir-a-ser, no pó de uma terra árida.
Sem essa aposta em si mesmo, sem buscar suas melhoras, sem abrir-se a novas oportunidades, que só serão aproveitadas caso esteja para elas capacitado.
Quantas vezes deitei minha semente da esperança de dias melhores em terreno tão sequioso. Que dele não vinha nenhum sinal de que seria possível.
Algumas sementes acabei perdendo, na vida não se ganha muita das coisas em que apostamos. Mas, se não apostar em todas as chances que aparecer, como emplacar pelo menos uma?
Outro dia conversava com o Danilo, motorista da Companhia de Energia da Copel, perguntei-lhe se os outros motoristas também tinham feito o concurso para Aux. Comercial, ele falou que não.
Que eles não se interessaram.
E assim é a vida. Eu vibro quando converso com vigilantes e eles me dizem que vão fazer o curso de Brigadista. Para um vigilante, chegar a Brigadista é como ver nascer os brotos de minha semente.
Mas, como chegar a brigadista sem se preparar? Sem fazer o curso, a prova e se certificar?
Será que apenas no desejo ele chegará? Desejos são como minhas sementes que estavam nessa caixa da foto. Apenas potenciais. Agora, quando eles deitam-se no solo, entendam a metáfora, viram possibilidades concretas.
Não podemos desanimar em buscar nossas melhoras, nosso aprimoramento pessoal e profissional. Agora mesmo minha filha passa uns tempos sozinha, fazendo Doutorado em Natal, deixando o marido só, em Brasília.
E, qual é o problema? Se ela não investir nisso, que tipo de árvore poderá colher no futuro, para o próprio casal usufruir de sua sombra, flores e frutos?
O problema é que estamos perdendo tenacidade, resiliência, capacidade de adiar prazeres, em busca de algo maior mais à frente.
E desanimamos fácil. Não passamos num processo seletivo e já pensamos em desistir, ou terceirizamos a culpa.
Desaprendemos a plantar no pó. A esperar, contra toda evidência em contrário.
Cleusinete Damasceno, a Neta, está terminando seu curso de enfermagem na UNIP. Quando ela começou, morava conosco e investia 90% do que recebia para custear seu curso: mensalidade, roupa, livros e deslocamento.
Outras Netas, não acreditam mais na força da semente que têm em seu interior, e não apostam em suas carreiras. Gastam tudo que ganham no consumo desenfreado, sem se capacitarem para algo mais.
Neta não. Ela passou 4 anos sem comprar uma calcinha. Privando-se de todo pequeno lazer ou conforto dos pobres.
E, agora, está prestes a se formar.
Neta semeou por quatro anos no pó. Agora ela colherá.
Mislene, telefonista da BBTS, mãe de dois filhos, morando longe, trabalho puxado, todos os dias fazia seu curso de Secretariado Executivo, à noite.
Outro dia, apareceu uma oportunidade de trabalho melhor, para cujo perfil exigia essa formação, e ela emplacou.
Agora Mislene é Secretaria Executiva de importante órgão no DF.
Eu sei que você está pensando que têm os que correm por fora, os de QI - a turma do pistolão.
Tem. Aqui e em qualquer lugar.
Mas, para pobre, só há uma chance de abrir caminho, para além dessa turma, é a de se capacitar.
Estudar, estudar e estudar. Aproveitar toda oportunidade de crescimento.
Não meus amigos e amigas, não é hora de desanimar em nossas vidas, em qualquer área dela que aparentemente esteja dando errado, ou já deu. É hora de buscar a caixa de sementes e voltar a acreditar em nós mesmos. Voltar a sonhar. Não se deixar abater por um fracasso, ou pelo desânimo que toma conta de parte da população brasileira.
É hora de cuidar de nós mesmos, de nos levar para semear, de não deixar que adormeçam nossos sonhos.
É hora de nos plantar no terreno do infinito. Talvez, as coisas em que nos capacitemos agora, ou apostas em que fizemos, só deem fruto anos à frente. Ou nem deem. Mas, pior seria se nelas não tivéssemos investido.
Ou seja, se não tivéssemos nelas apostados, seriam apenas intenções, que são diferentes de possibilidades.
Sinta que a chuva vem chegando em sua vida, logo ali, vem dobrando a esquina.
Caminhe mais uma légua. Não se entregue à estagnação de si mesmo. Renove suas esperanças. E acredite que o melhor de tua vida ainda está por vir!
Mas, repito-lhe, tenha paciência. Na vida não há almoço grátis, nem quem chegou a janelinha fez isso sem esforço, disciplina e muitas noites sem dormir.
Plantar no pó pode ser também, coisas para além dos estudos.
Como aquela mãe que usa o amor exigente para não desanimar do filho, e continuar esperando por ele, pelo seu desabrochar.
Ou, aquela pessoa que continua a investir no casamento, mesmo quando tudo ao redor nega-lhe certezas.
Ou ainda, quem não desanima de procurar emprego, batendo de porta em porta.
Ou, quem não desanima diante de tratamentos para doenças crônicas, para os quais não ver muito progresso, e mesmo assim persevera.
Poderia citar muito mais coisas que são como quem planta sementes na terra árida, com um coração esperançoso que não tardará as chuvas serôdias(*) chegarem.
Vem comigo, me dá a tua mão. Esforce-se mais um pouquinho, não se junte à mediocridade de quem faz todo dia tudo igual, da mesma forma, e quer resultados diferentes.
Serôdias - Aquela chuva que chega quando ninguém mais espera.

O Reclamão de Poeira Cósmica


Se há um mal que atinge toda a humanidade é a reclamação.
Não falo da reclamação legítima, por direitos, por cidadania, por melhores processos, ou coisas como tal.
Falo da reclamação da poeira cósmica.
Como assim, Ricardim?
É amigos, a pessoa está tão doente que reclama até da chuva de partículas cósmicas da qual ouviu falar que cairia nessa noite.
A doença da reclamação contagia.
Você está numa rodinha de amigos, o papo gostoso, leve, aí um começa: reclama do síndico, do vizinho de apartamento, da vaga apertada da garagem, do barulho de crianças nas escadas.
Pronto, conte até três e parece que somos regidos pelo maestro reclamão, entramos como diz os jovens na mesma vibe, e não sobra nada: da sogra ao trabalho.
Essa doença se instala em nós com a força de um hábito.
No início são reclamações legítimas, ponderadas, conscientes.
Mas, com o avançar dos anos, o reclamão doente vai estendendo sua reclamação para todas as áreas de seu viver.
Fruto de uma personalidade altamente rigorosa, rígida, inflexível, perfeccionista e até, em alguns momentos, intolerante, a mente do reclamão se abastece dela mesma. Nutre-se a si mesma.
Os pensamentos entram em loop, da hora em que acorda, á que vai dormir, sempre destacando o que não está, segundo seu filtro seletivo de percepção distorcida, o que não está nos “conformes”.
Considero seu poder quase o de um vírus. No caso, um vírus emocional.
Para ilustrar o quanto o hábito de reclamar de todos e tudo pode se converter numa doença, vou associar com minha compra de bicicleta.
Recentemente entrei em vários sites para comprar umas bicicletas aqui pra casa.
Fiz pesquisa no Google, em lojas especializadas, e até no youtube.
Confesso-lhes que tive dificuldades. Há um montão de tipos e funcionalidades – em cada acessório, e fiquei perdidim.
Bem, essa compra se realizou há um mês.
Quem avisará aos sites que já comprei?
Porque agora, toda vez que entro no Google, Facebook e até no prosaico Gmail, tem um anuncio, ou vários deles, de ofertas de bicicleta.
Os mecanismos de busca entenderam minha necessidade e expectativa: comprar uma bicicleta. E agora ficam me atolando de comerciais.
Entendeu a metáfora?
Não?
Deixe eu ser mais claro. O nosso cérebro é um grande Google. Ele ativa o mecanismo da percepção seletiva para focar no que queremos encontrar, e no que está de acordo com nossa visão de mundo.
Então, ele cria o hábito, para simplificar seu processamento.
O hábito de reclamar atua retirando da realidade apenas os aspectos que estão fora de ordem, que deixam a desejar, que estão aquém de nossas expectativas.
E o hábito de reclamação atuará como esse Google das Bicicletas. Em todos os nossos relacionamentos, nas interações de consumo, na percepção e sentido do trabalho e da vida, lá estará o hábito em nós arraigado, extraindo da realidade coisas para retroalimentar sua energia reclamatória.
Alguns exemplos: Uma iniciativa maravilhosa e solidária de oferecer pão quentinho, na porta do Condomínio, em dois horários.
Então o reclamão doente entra na comunidade e solta seu veneno. O contexto é de todos elogiando a qualidade e a iniciativa, e aí ele solta um: “Não gostei, o pão está muito massudo”.
Nessa hora ele ativa os hábitos do mesmo naipe adormecidos e começa a sinfonia da rabugice: “O horário é muito ruim”. “Não tem troco”. “Quem disse que quero doar parte da renda aos necessitados, melhor me dar em desconto”. “O saco que acondiciona o pão se rasga fácil...”. “Deve ter alguém ganhando um por fora”.
Nunca vi tanto mal humor solto pelas redes sociais e na WEB.
Isso é ruim. Não falo de postura consciente, falo de doença.
A doença de reclamar até da poeira cósmica.
No meus mesmo condomínio, acompanho umas discussões pelo whatsapp que beiram o surreal.
Outro dia um coelho soltou-se e foi pastar na rua. Moro num Condomínio horizontal, há 25 KM de Brasília, numa área que antes era uma imensa fazenda do Cerrado. Pois bem, uma reclamona fez o maior furdunço, porque o coelho estava indo pastar na sua calçada e seus cachorros latiam.
Queria multar o coelho, o dono do coelho, e até botá-lo numa carrocinha de coelhos, se é que tem.
Outro dia, nessa prosaica comunidade, uma pessoa revelou que estava com Zika. Não pensem que o primeiro post foi de solidariedade. Pelo contrário, a pessoa nada sutilmente sugeriu que o condômino fosse isolado, para que mosquitos não o picassem, na sua própria casa, e saíssem condomínio adentro. Decretou o isolamento do pobre coitado, que quase morria de dores terríveis da Zika.
Estamos ficando todos doentes. No trabalho a roda mais animada é a de falar mal do chefe. Em segundo lugar a dos colegas de outras equipes. Em terceiro da própria empresa. E em quarto do próprio trabalho.
Mas, é um falar mal doente. Não é para mudar. Não é para propor transformar algo. É só para falar mal, pelo simples prazer, o do hábito, de destilar a reclamação. E sair com o peito estufado, de quem tem certeza de tudo.
De quem é rígido, inflexível, e cheio de direitos. Aliás, vivemos a época de direitos. Todo mundo cheio de direitos.
Há uma boa notícia. Caso o reclamão comece a fazer um diário de seu dia, anotando as reclamações proferidas, ele pode começar a frear a força do hábito.
Chamo a isso de pensar sobre o pensado.
Por incrível que parece, uns 50% do que pensamos ao longo do dia, não é pensado por nós.
São barulhos de nossa mente, são rotinas e modos de ser pré-configurados que sobre eles vamos perdendo o controle.
Assumir o controle do que pensamos, e do efeito dele sobre nós mesmos, o outro ou a própria realidade é uma questão e saúde emocional.
Experimente botar uma pulseira no braço, amanhã, e ficar pelo menos um dia sem reclamar. Procurando ver a vida com o olhar do que ela está em sobra, e não do que lhe falta.
E, todas as vezes que ao pensar sobre o pensado, se flagrar reclamando, troque a pulseira de posição no braço. Pode ser aqueles elásticos de amarrar dinheiro, que seja.
Você ficará impressionado(a) do poder do hábito reclamão em nossas vidas. E não falo em reclamação apenas pensada. Essa não vale trocar de lugar a pulseira. Falo de reclamação falada, ou digitada.
O cara compra um carro zero bala, e reclama de um barulho. Outra pessoa acaba de pintar a casa e reclama que a massa não foi bem lixada em 2% da área.
Se você tem filhos, e for do tipo reclamão de poeira cósmica, cuidado. Eles irão aprender. Aprenderão a fiar tão rígidos, pensamento inflexível, cheio de razões e radicais em sua expectativa sobre o outro, a si mesmo e as coisas tal qual você.
Fui criado numa casa que não ouvia reclamações. E não é que não tínhamos problemas. Mas meus pais perdiam mais tempo em buscar alternativas para solucioná-los do que ficar na murmuração e reclamação.
Meus pais falavam bem do seu chefe, Diretor Stênio Lopes. Falavam bem do Senai, mesmo pagando-lhes muito pouco. Nunca vi reclamarem de colegas de trabalho, de vizinhos, da família ou de sua condição social. Tudo era esperança, alegria e paz. Eram feliz com o que tinham.
Quando papai voltava das visitas quinzenais, ao fim do mundo, supervisionando o funcionamento de precárias escolas móveis, montadas em rústicos barracões de prefeiturasaíba. Sob calor escaldante, em locais sem estrutura alguma, nunca o vi reclamando da dormida, da comida, do calor ou distância, e até dos alunos e professores. E, ele fez essa viagens por uns bons 20 anos.
O verbo reclamar não habitava em nosso lar. Então, com isso quero dizer que podemos reprogramar o cérebro. Sair desse hábito nocivo, avaliar o pensar sobre o pensado.
Se tocar se não está sendo chato, sempre avaliando a si mesmo, os outros e a realidade como em falta para consigo mesmo. Sempre com murmurações. Nunca acolhendo o que a vida oferece para aquele momento. Sempre colocando-a numa posição de dívida, de quero mais.
Do tipo que chega num esplendoroso hotel à beira mar e reclama que só pega dois canais de TV. Do tipo que adora postar negatividade, murmurações, nunca vendo o que já está bom.
Tem que parar de acumular esse tipo de coisa, ao longo do dia. Para não ficar selecionando justamente isso, o que é digno de reclamação, como dados primários da realidade. Tal qual meus anúncios de bicicleta fazem no meu mundo digital.
Deixo-vos com um psicólogo Português que o reputo muito, o Miguel Lucas:
“A pessoa reclamona torna-se hábil no desenvolvimento de uma percepção apurada e refinada em tudo que possa ser-lhe desagradável ou que não esteja de acordo com aquilo que quer e gosta. A pessoa especializa-se numa sensibilidade desmedida para aquilo que pode causar-lhe algum grau de insatisfação, mesmo que essa insatisfação seja ínfima. Com um “detetor de queixa” apuradissimo, tal Homem Aranha com o seu “detetor de perigo” a pessoa fica à mercê de um mecanismo que pela força do hábito se tornou automático. Passa a acontecer sem a pessoa se dar conta, o que a impede de ter uma noção do seu diálogo destrutivo.
Será que toda a enxurrada de queixas trouxeram alguma vantagem para a sua vida, para o seu bem-estar, para a sua produtividade no trabalho, para o seu relacionamento? Provavelmente não. Então, certamente justifica-se tomar consciência do possível impacto negativo que as queixas desmedidas podem estar a provocar na sua vida, e eventualmente nas pessoas com que interage.
Pelo menos, nem que seja por breves momentos questione-se:
 Porque é que é propenso a queixar-se?
 Tem sido útil?
 Ajuda-o no seu dia-a-dia?
 Promove-lhe a motivação?
 Ajuda a influenciar positivamente os outros?
 Promove as soluções para os seus problemas?
 Promove-lhe a saúde física e psicológica?
Arrisco a dizer, que salvo raras excepções, queixar-se nada tem de positivo. É um comportamento verbal autosabotador. Antes de queixar-se reflita:
 É verdade?
 É benéfico?
 É inspirador?
 É necessário?
 É simpático?
Se maioritariamente responder negativamente. Não se queixe. Trave a sua língua a tempo de conseguir reestruturar o seu pensamento e pensar numa alternativa mais viável e adequada à interpretação da situação que enfrenta.”

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