Cartas ao JG - Não Aprisione o Amor ( Por Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 7 anos)


Sabe filho, na última sexta estivemos juntos no Parque da Cidade (Brasília-DF) e foi uma sensação impactante em meu viver.
Quando cheguei em Brasília, em 1999, minha vida estava um caos. Casamento desfeito, filhos longe e pais longe, saudades, pouquíssimo dinheiro, a carreira no BB uma incógnita e por refazer-se.
Aprendi a caminhar pelo Parque da Cidade, enquanto tecia uma colcha de sentimentos contraditórios.
Ontem, depois de 18 anos, voltei nele. Nesse intervalo de tempo, fui umas quatro vezes, limitando-me ás churrasqueiras.
Ontem não. Ontem estava finalmente em paz, depois de tanto esforço para reconstruir minha vida e carreira.
Notei que as árvores cresceram e novos espaços foram construídos.
Fizemos umas trilhas bem bacanas, saindo das tradicionais pistas de caminhada ou pedal.
Você levou um rasante de uma família de Quero-queros que defendia sua ninhada. Assustado, deixou a sandália de lado e correu para meus braços.
Foi um abraço gostoso, acolhendo-te no teu pavor e choro.
Vimos uma família de João de Barro, entrando e saindo de sua casa, o que é raridade de se ver.
Depois, ficamos sob copa de árvores frondosas, olhando os gansos com seus grasnidos e flutuantes evoluções.
Onde eu estava esses anos todos que não voltei a ti?
Mas, creio que não estava preparado emocionalmente para acolher o Parque da Cidade, agora ele é todo meu, repleto de cantinhos do tipo: "a tampa de minha panela". Tudo pede tempo, lombo, curtição, toda perda reclama um cadê.
Te falei dos perfumes, das árvores, do som dos pássaros, entre uma pegada e outra de pokémon que fazia.
Me redescobri em cada passo, arejei meu viver a cada lufada de ar que entrava mundo afora dos pulmões de meu viver.
Subimos pela ponte dos cadeados, e vimos vários peixes nadando à flor da pele da água.
Filho, por mais simbólico que seja, nunca coloque cadeado no seu amor.
Nunca!
Amores não precisam de cadeados para manterem-se unidos. Precisam de três atitudes, apenas três:
A primeira é um não se cansar de fazer pequenas coisinhas para o outro, agrados, mimos, doações de si mesmo, pequenos gestos de gentileza e atenção. É saber expressar cuidado, fazendo com que ele se sinta reconhecido e estimado. Ser grato ao outro, por ele existir, está também no primeiro mandamento do amor.
A segunda é um não se cansar de apreciar o mundo do outro, seus hobbies, histórias, sua família, coisas de que ele gosta, inclusive de seus amigos e trabalho, de sua histórias e estórias, de sua cultura e valores.
A terceira é um não se cansar em perdoar o outro. Relacionamentos verdadeiros e livres pedem perdão. Não aquele perdão protocolar. Mas, o perdão autêntico, fruto de mágoas emancipadas de si mesmas. Aquele perdão fruto do diálogo, empatia e da mística de querer fazer o outro feliz.
Siga, você e ela, os três passos e economizem com os cadeados.
Hoje saí para colecionar fotos de flores. Comecei o dia com a da Algaroba e Jasmim, que pediam um carinho de olhar meu.
Depois, subi uma barreira, entrando em parte de Cerrado conservada ainda. E achei uma flor que nunca tinha parado para percebê-la.
Para vê-la bem, tinha que sentar no chão. Ela ilustra essa Carta para ti.
Com ela aprendi que a vida pede pausas, renovos, reconciliações.
Talvez o mais importante desses últimos 15 dias do ano seja justamente essa primavera emocional que se dá em todo mundo.
Em cada lugar, das Nações Indígenas às populações de grandes centros urbanos, o amor está no ar.
Mensagens e vídeos maravilhosos são postados, famílias, amigos e empresas fazem concorridas confraternizações, algumas delas acabando em vexames, dado a energia emocional que circula.
Nestes 15 dias a paz debuta nos corações, o perdão encontra seu espaço e as pessoas se esforçam para serem melhores, umas com as outras.
Lembra as três dicas para não "cadear" o amor, em ferros de pontes de cadeados?
Acho que a humanidade pratica um pouco as três recomendações pra quem se ama: cuida mais do próximo, tem mais empatia pelo seu mundo e o perdoa verdadeiramente.
E, o mundo fica um pouco melhor, nem que seja por breves dias.
Não tem importância a efemeridade dessas atitudes. Elas são sinais de que podemos, quando queremos. Podemos sim, fazer correntes de amor. Podemos liberar o fluxo do bom, do belo e do virtuoso.
Podemos emancipar emoções positivas, libertar-nos de condicionamentos asfixiantes, e de toda foram de dependências relacional, das drogas, ou de bens materiais.
Podemos ser solidários, fraternos, éticos, mansos, justos e de uma cultura de paz.
Todo final de ano mostramos isso a nós mesmos e aos outros.
O bacana é que o povo do bem tem seu espaço, nas redes sociais e mídia. Tão carregadas de negatividade e intolerância.
O desafio filho meu, é converter essas mensagens, vídeos, todos belíssimos, em atitude concreta ali, do teu ladinho pedindo atenção.
E, fazer essa conversão do discurso em práticas, por toda a vida, e não só por 15 dias.
Aí sim, a primavera emocional será todo dia. Dia de cuidar, de apreciar e de perdoar o outro.
Você me pergunta, quem é o outro? A resposta só saberá praticando..., começando por aquele mais próximo que divide tua escova de dentes.
Depois, verás como é bom ampliar essa prática, e o amor pedirá tua atenção em todo lugar.
Obrigado por um passeio tão cheio de amor, um reencontro comigo mesmo, por entre alamedas que nelas deixei tantas lágrimas.
Das quais vejo a relva, as flores e frutos renascendo!

Cartas ao JG - O primeiro dia em que papai chegou mais cedo em casa. (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel 7 anos)


No dia em que levantei para ir trabalhar pela última vez, ao ir me aposentar do BB, você dormia conosco. Sua mãe saiu mais cedo para trabalhar, e eu fui fazer a barba, observando-lhe de longe.

Procurei um último paletó e gravata, despedindo-me deles, ufa!

Ao abrir o guarda-roupas você acordou. 

Olhou para mim e fez algo que nunca tinha feito, disse-me: “Papai, me dê a mão!”

E, risonhos, seguramos nossas mãos. Você não tem ideia do quanto naquele dia eu estava precisando de tuas mãos. 

Segui para o trabalho lembrando a noite anterior, a da festinha de despedida que fizeram para teu pai, no 5 andar de onde trabalhava, a BB Tecnologia e Serviços.

Foi uma daquelas despedidas alegres, intimista, com mil abraços e troca de cumplicidade.

Ganhei uma radiola, um livro de receitas e os lugares de sua origem,  e um álbum de retratos com algumas de minhas fotos.

Em cada detalhe da festa eu sentia o carinho dos organizadores.  Na saída, caminho de casa, lá pela meia noite, fui parado numa blitz. Mostrei os documentos e fui liberado, não era daquelas com bafômetro. Filho, se beber não dirija. Eu fiz besteira, deveria ter chamado um Uber. Será que quando ler essa carta terá Uber ainda?

Mas, que foi sorte foi!!!!  Ou os anjos.  

Tenho a firme convicção de que anjos existem. E que o meu anjo da guarda é hiperativo. Pois, ando vendo a graça de sua proteção e ternura comigo em todo lugar.

Voltando ao dia de nossas mãos, botei a bicicleta no carro e parti. Eu queria sair de bicicleta.

Exatamente às 13h30min, abracei a Paulinha e a Dona Estela, nossas terceirizadas mais queridas, e fui para o térreo do prédio, com os amigos Paulo Roberto e Flavia Minucci.


Parceiros de tantas lutas, de tanta amizade. Eles iam operar as câmeras, para registrar o meu momento. Sim filho, a vida pede instantes mágicos. Faça os teus. Não se importe com o que vão pensar, é a tua vida. 
Saí pedalando e na calçada, tirei a “farda.”  Eu tinha ido com uma roupa debaixo, então a coisa não foi tão indecente. Lancei o paletó ao alto, depois a calça, que caiu em cima da laje da guarita. Rsrs
Depois arrumei novamente a bicicleta, despedi-me dos vigilantes e recepcionistas, dei um abraço apertado nos amigos: Paulo, Gustavo e Flávia. E segui caminho.
Entrando pela L2 choveu um pouco, novamente choveu. No dia em que dei baixa antecipada na carteira profissional, ao de lá sair e ver que ela foi assinada para baixa em 28/12/2016 por Domingues Quintiliano, também choveu. Brasília tem estado muito quente, e essa chuvas arejam a alma.
Chegando na portaria de nosso condomínio, o vigilante informou que havia duas encomendas deixadas pelos Correios. 
Numa delas, a Carmem também Quintiliano (note as coincidências angelicais) tinha enviado um presente para teu pai, em retribuição aos meus livros que recebera.
Ela andava ansiosa, já tinha feito o despacho a muitos dias e estava muito atrasada a entrega. Coisas do período natalino. 
Abri a caixa com sofreguidão. Você estava brincando na casa do Gustavo, Rafael e a Manu.
Foram meus primeiros presentes como aposentado, e fiz um UAUUU!!!
Era um avental personalizado, para mim e você.
No meu: “Chef Ricardim”.
No teu: “JG, ajudante do Chef Ricardim” 

As pessoas que sem querer ajudamos, a própria vida se encarrega de devolver em dobro, surpreendendo-nos num momento tão significativo.
Comecei bem, de avental e gosto de cozinhar, de receber, de congregar pessoas em volta de comida, muita comida e das nordestinas, com sustança.
No fundo do pacote uma caixinha. Abri e me emocionei, era um terço.   Seu pai é católico, sua mãe é evangélica, e nos damos bem. Nunca brigamos por Jesus.
Aquele terço foi um convite para que na vida de aposentado eu não me afaste das coisas de Deus. Fiquei um tempão com ele nas mãos.
Aí lembrei do outro pacote. Quando abri não acreditei no que via.  Era uma nova câmera fotográfica que comprei no Mercado Livre, uma Sony A6000, cuja entrega era esperada para até 6/1/2017. 
Fui pego com mais uma surpresa.  Agora tenho uma radiola, dois aventais, o meu e o teu, um terço e uma máquina fotográfica. Acho que será um excelente começo do segundo tempo.  Penso comigo, há anjos por aqui!!!



Então lembro que os pedreiros estão tocando uma pequena obra, lá no quintal, um muro de arrimo. Vou lá, e o Mineiro me diz: “Já que o senhor está em casa, vai faltar dois sacos de cimento e uns 10 tijolos, pode ir buscar?”.
Não deu nem tempo abrir o vinho, e já tinha freguês se escalando no meu tempo livre, para os famosos “Já Que....”
rsrs  Contudo, saí feliz, com a missão de achar os tijolos e cimentos e trazê-los a tempo de a obra não parar. Eu estava receoso em dirigir, dado o turbilhão de emoções, mas fui devagarinho. Pensei, ter algo para fazer é bom, mesmo que seja ir comprar cimento. 
Há anjos nesse lugar, não sem razão o nome da rua de nosso Cond. É Caminho da Esperança, e o mesmo está localizado na Avenida do Sol.
Luz e esperança, é ou não é coisa dos anjos?
Pelas 20hrs os vizinhos da esquerda, Catarina e Pergentino, me chamam para me darem um presente. É um vinho daqueles que eu tomava, quando vivia no vermelho, no início de minha vida profissional, na qual tudo era tão difícil e de um futuro temeroso. Peguei aquela garrafa de Cidra Cereser com carinho, amanhã comprarei o Uísque Druyrs para tomar junto com ela, na sexta à noite. Meu amigo Catão e Iza chegam da Paraíba, para visitarem sua filhota, a vizinha Catarina.
Daremos boas risadas lembrando de nossos tempos de muita pindaíba, no início de nossa carreira na qual conviemos por uns 12 anos.

Volto pra casa e o vizinho da frente, o Djalma, oferece uns sacos de areia e brita, que sobraram da obra dele. 
Fico lisonjeado com a generosidade e aceito de pronto, “vai que...”.
Agora você dorme feliz. Sua mãe foi dormir mais cedo, amanhã ela trabalha. Alguém tem que trabalhar nessa casa.
E nós fomos ver o filme Meu Amigo, o Dragão e você gostou muito. 
Para não se esquecer de lembrar, escrevo-lhe nessa noite o que aprendi nesses dias de dezembro, dias e intensas emoções em meu viver: a vida nos devolve o que sem esperar nada em troca a ela ofertamos.
Então, filho meu, construa sua carreira profissional pautando-a na ética, na cooperação com os outros, na amistosidade e bons relacionamentos interpessoais.
Até os mais simples, os invisíveis corporativos, são dignos de teu respeito e consideração. Não pise em ninguém.
Não faça inimigos no trabalho, eles não esqueceram de ti. Diferentemente de alguns amigos. Desvie, drible, se contorça, mas só entre em brigas boas, escolhendo-as a dedo.
Nunca procurei trabalho bom. Se era uma caixa que precisava ser movida, eu movia. Se era uma pilha de documentos que precisava ser conferida, eu conferia. E, em tudo que fazia achava graça e sentido. Sabia que estaria ajudando em algo, ou a alguém. 
Se você não der valor ao que faz, não espere que alguém lhe dê.
Fiz coisas que não faria novamente, muitas. Por exemplo, escrever para alguém quando se está nervoso. 
Ou retrucar de pronto, uma afronta mais contundente, só ampliando o problema.
Mas, você terá que encontrar seu próprio caminho. O mundo do trabalho está ficando insalubre, emocionalmente falando. 
Daqui a uns anos a CIPA vai pedir o uso de EPE, no lugar dos famosos EPI, o EPE seria: Equipamento de Proteção Emocional.
Vou te dar, nessa noite, os meus equipamentos. A oração é um deles. Não se levar tão a sério é outro. Não se culpar ou se punir quando não consegue fazer algo dentro da margem perfeição. Acreditar que amanhã será melhor do que hoje. E que isso, isso, isso, isso que você sentirá e que lhe dará uma gastura nas tripas dos sentimentos, também passará. Proteja-se da insalubridade emocional das corporações do trabalho criando seus infinitos particulares para nele habitar. E, escolhendo bem teus amigos e tuas referências de líderes. Eles serão fundamentais para que os malas, sádicos, tiranos e paranoicos soltos pelos CNPJs não murchem tua graça de viver. 
E, não esqueça de teu anjo da guarda. 
Na vida não tem almoço grátis. Embora eu saiba aonde amanhã posso almoçar de graça. Lá no veiiin.
Mesmo não tendo almoço grátis, cuidado com a ambição de querer chegar logo na janelinha, sem ter que fazer esforço, só porque acha que merece. Merece coisa nenhuma.
Tem gente que está ficando deprimida porque o foco era ser promovido. Depois que foi, perdeu o Norte e o brilho. 
O foco nunca pode ser esse, isso é efeito colateral, consequência. 
Mas, tem que ralar, se preparar, ter disciplina. E, muitas das vezes, ainda assim não será suficiente. Simplesmente outros aspectos foram considerados na promoção, e você ficou de fora. 
Saia mais forte e produtivo do que chegou no processo seletivo, ou eles estarão certos.
Você passará por severas mudanças na vida, coisas que sairão do lugar, de um dia para o outro, e te pegará desprevenido. Não deprima perante elas. No lugar da depressão, acione a tecla da coragem. A coragem dos sobreviventes, que nos torna mais fortes e melhores. Entende?
Adapte seu estilo de vida à sua renda. Não se envergonhe de ser pobre. Prepare-se para quando a oportunidade passar à galope, pular nela e segurar-se bem firme. 
Só se lembre de que a cada escolha, um monte de renúncias, e faz parte.  Sem as renúncias, tudo é ilusão de que será fácil. Vidas editadas, sem sentido, que só funcionarão no power-point.   
Poderá ter que renunciar às paradas da moda. Ou aos templos do consumo. Tudo besteira. Bom mesmo é poder tomar banho pelado, em algum lugar bem escondido do lago Paranoá. Isso sim, não tem preço, não se compra e não se renuncia. A isso chamo viver!

Ops, tive uma ideia para amanhã! 

Bora?

Pedalando para a outra margem (Autor Ricardo de Faria Barros, o Ricardim)



Hoje saí do BB e de bicicleta. Do jeito em que entrei, desafiando um guardinha que tinha me proibido. A bicicleta de hoje é melhor. Mas, a outra tinha aquela campainha que virou retrô. Ela me foi dada de presente pelo meu pai, como resto da venda de uma moto totalmente destruída. É que em 1985 sofri um grave acidente com ela. Eu era compensador, do Banco Nacional do Norte - BANORTE, e quando voltava do serviço, pela madrugada adentro, entrei de cabeça num carro. Voltando ao trabalho, após recuperação, fui com a bicicleta fazer a compensação no Banco do Brasil. Perto das 23hrs, bato na portinhola de ferro e o guardinha acena negativamente. Alega que de bicicleta não posso acessar o estacionamento interno. Pergunto-lhe caso eu fosse funcionário do BB se eu podia. ele me diz que sim. E continuou: "Compensadores de outros bancos só entram a pé, de moto ou carro - bicicleta não está na minha lista permitida". Disse-lhe então que um dia entraria ali de bicicleta. Alguns meses depois, passei no concurso do BB, e entrei de bicicleta por aquele portão, para buscar o adiantamento de viagem a serviço, para tomar posse na cidade de Poções-BA, a 1.800 KM da minha. Pedalei causando, como dizem os jovens, todo garboso e de peito inflado. Fui escriturário, caixa, ass, de operações, colaborador, analista júnior, pleno, sênior, gerente de projeto, assessor máster, gerente de divisão e deixo o BB em função executiva como Assessor Especial da Presidência da BBTS.
Saio o melhor do que entrei. Aprendi no lombo algumas lições:
a. Não se deve entrar em todas as brigas, tem que aprender a perder algumas. E sabe se erguer, sem fazer daquilo uma catástrofe, pelas lentes distorcidas da emoção.
b. Não adiantar procurar o sentido no trabalho se não se sente mais o trabalho, se perdeu o sentido da vida. Procure este primeiro. Depois, achar o outro será bem mais fácil. Ou seja, esse sentido não está lá longe, ele está no fazer do agora, até autenticando documentos em filas quilométricas, num caixa de cidadezinha do interior.
c. Mais aprendi com líderes bacanas do que nos cursos e livros. Portanto, inspire-se em pessoas que dão sombra. Tem muito Zé Ruela solto por aí. Gente mal resolvida, infeliz, resmugona, rabugenta e chata, que te levará para baixo. Inspire-se e aprenda com líderes verdadeiros, que muitas das vezes não tem cargo hierárquico.
d. Deixe seu legado. Seja bênção para quem de ti precisar. Melhore o lugar em que chegou, as coisas que encontrou e contribua para que as pessoas sejam emancipadas delas mesmas, de suas estacas interiores.
e. Preste atenção. Ritualize e celebre a vida. Cultive o bom, o belo e o virtuoso. A vida passa muito rápido. Não se importe com o que irão pensar de você.Seja você mesmo, e não um projeto do outro, um ator. Crie momentos especiais com o nada, com o agora, simplesmente prestando mais atenção ao que acontece na periferia de teu viver, que tua preocupação e ansiedade não deixa mais ver, ou valorizar.
Por último, aprendi que o Universo não gravita em torno do BB. Que não sou insubstituível, e que nem sempre foi pessoal a puxada de tapete. Ligar o foda-se pode ser muito importante na sua carreira. Mas, cada vez que eu liguei o meu, tornei-me mais dedicado ainda! Para não dar o gostinho, entende?

Clique abaixo e veja o vídeo dos monentos finais do BB:

Cartas ao JG - Quem é Jesus? (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 7 anos)

Querido João Gabriel, nesse natal convidei algumas pessoas para estarem conosco e falarem de Jesus.
O motivo é que descobri que não o conheço.
Se não o conheço, como posso amá-lo?
O Jesus que conheci, foi-me apresentado pelas religiões, dogmas, catecismos, e por pregadores de cara sisuda, que nos ameaçavam com o inferno, caso não saíssemos do pecado.
Hoje vieram três pessoas em nosso lar, vieram falar de Jesus para nós.

A primeira que começou a testemunhar era uma mulher da vida. Como chamamos no baixo clero, uma puta.
Ela dirigiu-nos a palavra.
Jesus chegou em minha vida no dia em que fui acusada de adultério. Uma horda de pessoas me empurrou para uma praça pública e ali, pedras na mão, começaram meu julgamento. Eu baixei a cabeça, sabia que morreria em poucos minutos.
Aí notei que a horda silenciou. Não tive coragem de erguer minha face. Achei que a qualquer momento um tijolo racharia meu crânio. Eis que escuto uma voz: “Quem dessa multidão não tiver pecado, que atire a primeira pedra! ”
E todos foram embora e deixaram-me em paz. No outro dia, eu sabia que Jesus iria almoçar na casa de gente famosa. E, como um deles tinha sido meu cliente, pedi-lhe que entrasse escondida no almoço. Entrei e me aproximei Dele, vindo pelas suas costas. Ninguém me percebeu chegando perto Dele. Aliás, as pessoas baixavam a vista ao me ver, no claro do dia, e aquilo protegeu meu avançar lentamente até Ele Chegando bem perto, tirei de meus peitos um pequeno frasco com um óleo perfumado e medicamentoso, para pés cansados, um unguento. Então, ungi-lhe os pés, massageando-os e lavando-os, para que aqueles pés cansados de tanto caminhar entre nós recebesse um conforto da ternura, do cuidado. Usei de meu melhor unguento perfumado e relaxante, daqueles que só usava quando recebia renomados cidadãos de Roma. E aí, Ricardim, ele olhou-me com olhos de lua cheia e me amou, libertando-me de tudo que me impedia de ser.
Olhei para JG e pedi que ele fosse buscar meu disco de Vinil mais precioso, um Cartola que ganhei do Anderson Nobre, e a presenteei com ele.
Ela me disse que todos naquela mesa, aqueles que o receberam, esqueceram de fazer-lhe qualquer agrado, só querendo “venha a nós”. E nada de vosso Reino. Ela me disse que a força do amor Dele restaurou no coração dela a vontade de viver, de outra forma, dando-lhe a dignidade de recomeçar.

Fez-se silêncio compungido.

Até que um franzino senhor ergueu a voz. Eu fazia parte do grupo odiado pelos judeus. Eu cobrava imposto deles, para o governo de Roma, me chamo Zaqueu. E não era pouco imposto. Aos que não pagavam, eu decretava penas severas. Minha presença era motivo de nojo, entre eles, os judeus. Para eles, eu representava a escória da sociedade. Eu tinha acumulado muito dinheiro, era rico. Parte do imposto que eu recolhia, desviava para mim mesmo. Mas não era feliz. Tinha tudo. Casa boa, comida farta, bebida a perder de vista e muitas mulheres. Muitas! Mas, vivia com gosto de guarda-chuva na boca. Vocês me tendem Ricardim e JG? Aquela vida de poder, prazer e ter não me saciava. No outro dia, após os bacanais, eu me sentia vazio, infeliz, sem amor algum. Aliás, nunca amei ninguém até Ele. De tanto cobrar impostos dos Judeus fiquei sabendo que um de seus profetas iria passar perto de minha casa. E que esse profeta falava de amor. Amor era o único bem que eu ainda não tinha. Então, com mente de acumulador, pensei: “tenho que conquistar o amor”. A multidão se acumulou na pequena ruela, eu não conseguia ver nada, tenho 1 metro e 60 cm e todos cobrem minha visão. Eu precisava ver quem era aquele profeta que falava de amor, quem sabe ele me venderia o segredo de amar. Vi que tinha uma árvore que sombreava a passagem. Subi num telhado, e dele me trepei nos galhos da árvore, tal você faz JG.
Lá de cima senti o que ele vinha passando. O povo cantava, gritava, lançavam sobre ele pétalas de flores, e pó de arroz. Outros faziam súplicas lancinantes. Quando ele passa embaixo da árvore parou. Sabe JG, senti o mesmo que vê sento quando seu pai para e lhe ver lá no alto da seriguela. E lhe diz: “Desce daí”. Ele olhou-me e disse: Desça daí, hoje vou entrar na tua casa. Houve um murmúrio geral, as pessoas sabiam quem eu era. Muitos afastaram-se Dele, em protesto. Um de seus discípulos cochichou algo em seu ouvido, notei que Ele ficou bravo com o discípulo, que se afastou Dele. Sabe Ricardim e JG, Ele entrou em minha casa sem me pedir anda em troca. Eu fui quem se antecipou e resolvi doar a metade de meus bens aos pobres e ressarcir em 4 vezes todos que fraudei. Ele não me pediu nada. Só me amou. E, rendido estou ao Amor Dele.

Aí filho, você pediu um pouco de churrasco e quebrou a emoção que reinava na mesa.

Nessa hora nossa terceira convidada fala. Eu tinha uma doença incurável. Um fluxo de sangue saia de alguns de seus poros. Como quem tinha lepra, eu não podia entrar na cidade, sem antes ter pessoas à frente batendo sinos para que se afastassem de mim. Me isolaram de todos. Eu vivia numa espécie de chiqueiro de porcos, para não contaminar ninguém. À noite chorava de saudade de meus filhos que não podia mais niná-los. Durante o dia eles vinham me alimentar, por entre as frestas de minha “casa”. Fui condenada à morte em vida, a pior de todas, a morte social. Não podia ir às festas, ao Templo, à feira e à praça. Nessa hora filho, você perguntou: Por que?
Ela te respondeu assim. JG, fui condenada pelo medo, desconfiança e preconceito, fruto da ignorância e visão distorcida da realidade. Minha doença não é contagiosa, ou transmissível, ela é genética. Mas, naquela época, não havia conhecimento, e onde o conhecimento falta, as trevas abundam. Um de meus filhos me disse que chegaria mais tarde com o almoço, pois iria ver Jesus, um profeta famoso que iria passar pela cidade. Que só falava de amor.
Não dormi naquela noite. Se esse profeta falava de amor, saberia o que estou passando. Então preparei um plano. Precisava chegar até ele. Botei umas vestes pesadas, sobre minha pele em sangue vivo. Mesmo doendo, pelas inflamações, era necessário que eu me disfarçasse. E segui até a estrada. Uma multidão me empurrou para longe. Só tinha uma forma de chegar até ele, ir me rastejando entre os pés. Meu corpo todo doía. Ia avançando, por baixo, levando chutes, empurrões e xingamentos. Eu ia engatinhando, avançando, minhas roupas velhas foram se rasgando, o sangue aparecia. Eu rastejava, dolorida. Eis que vejo um manto branco à minha frente, ergo a vista e vejo que só pode ser Ele. Engatinho com todas as forças que me restam, toco seu manto. E uma força sai dele, me renovando inteiramente. Sinto-me curada. Ele para. Pergunta em voz alta, “quem me tocou?” Os apóstolos dizem-no que todos o tocaram, tal a multidão que se comprimia sobre Ele. Ele retruca que dentre todos os toques, aquele tinha sido o único toque de fé que recebera, os restantes eram de interesse apenas Ele volta-se para mim e me reconhece. E diz que a minha fé havia me curado. Umas pessoas chegam perto Dele e dizem-no que já não precisa ir curar a menininha doente, que ela falecera. Como se Lhe culpassem por ter parado e se importado comigo. Ele apenas resmunga: Ela dorme. O povo ao meu redor, ao me reconhecer, abriu uma clareira, com medo de minha doença. Ele diz em voz alta que estou curada. E que posso voltar para casa. Aquilo foi minha maior honra maior. Poder voltar a viver com meu povo, meus amados, sem ser dentro de uma prisão, a qual o preconceito me condenara.

Ricardim e JG, esse é o Jesus que nos tocou e que conhecemos. O resto é só um esboço do que ele é. Gente que briga em nome Dele, com as “armaduras da fé”.
Gente que olha a trave no olho do próximo, sem nenhuma misericórdia aos que pensam e agem diferente deles. Gente repleta de dogmas, verdades sagradas, preceitos, lições decoradas de velhos catecismos, de sisudos apóstolos falando de amor, com práticas de desamor e de gente que prega muito mais o Deus vingativo do pecado e da morte, do que o que conhecemos, o do amor e da graça. Nosso Jesus, que nesse dia lhes apresentamos, é o do amor incondicional.

Meus três convidados, juntam as mãos às nossas e desejam Feliz Natal.

Feliz Natal Ricardim e seus amigos(as) que nos leem. E lembrem-se, nada é maior e mais forte do que a força do amor.

E, o amor não tem bandeira, país, credo, gênero, raça, sotaque, ideologia, cheiro, ou forma.

O amor simplesmente ama: sem porquês, "ifs", ou circunstâncias.

Belos como Estela Maris {Autor Ricardo de Faria Barros}


Estávamos na Praia de Lucena, na Paraíba, há uns 40 KM de João Pessoa quando decidimos caminhar pela areia, até onde a praia desse uma curva, seguindo a rota dos coqueirais. O dia estava lindo, céu anil e o mar bem morno, uma delícia.
Deixamos a mesa, de bar de praia, sob os cuidados da Celina e o JG e seguimos para aventurar pelas redondezas.
Ao longe, começamos a avistar um ajuntamento de pessoas bem mar adentro. Como aquilo era possível, como elas estavam a pé, naquele local bem no fundo, cercadas por mar de ambos os lados?
A cena era de indefinível beleza, e percebemos que elas estavam sobre uma faixa de areia de uns 200 metros de largura, por uns três quilômetros de comprimento, que se projetava ao alto mar.
Como se fora um banco de areia, em formato de bengala.
Até ousados motoristas, e suas possantes 4 x 4, naquela faixa entravam e seguiam até onde havia praia, tendo ao seu lado mar profundo.
Descobrimos que esse lugar chama-se de Pontinha de Lucena e é uma das joias da Paraíba, não divulgadas. Infelizmente, ou felizmente, dependendo do ângulo.
Mesmo receosos, com medo da maré subir rapidamente, resolvemos por aquele istmo caminhar, até onde a faixa de areia se encontrasse com o mar profundo.
Quando acabou a faixa de areia, ainda tinha uns 200 metros de mar bem rasinho, que ondas tímidas lavavam a areia. Sobre as quais conchinhas descansavam, ou conversavam alegremente.
Eis que avistamos a estonteante Estrela do Mar, a "EstelaMaris", a rainha do mar e sua esplendorosa beleza.
Tive receio que mais alguém a visse e a retirasse do leito do mar, como um troféu, coisa de incautos banhistas.
Para mim, só levo de troféu as fotografias. E, discretamente, sem chamar muita atenção de outros banhistas que estavam próximos, fiz uma sequencia de fotos da rainha do mar.
Quem ver uma estrela do mar não fica mai o mesmo.
A nossa, essa da foto, tinha 9 pernas.
Já era uma adulta, uma Senhora Estela Maris {Estrela do Mar}.
Entabulei uma conversa com ela enquanto pedia umas poses. Ela falou-me que seu segredo está na forma como cada perna distribui a força para o corpo, irradiando em triângulos imaginários o peso.
Não entendi e perguntei-lhe: "como?"
Ela me disse que cada perna não termina sobre a outra, mas sim sobre um espaço formado por duas outras, distribuindo a tensão pelo conjunto.
E que, desse modo, quando perdia uma da pernas, por algum acidente ou ataque dos bichos do mar, o impacto era apenas da que tinha sido decepada, sem provocar danos nas demais, por não estarem ligadas extremo a extremo.
Louvei ao bom Deus por aquela explicação e pela sabedoria da mãe natureza ao conceber o projeto estrutural da Estrela do Mar.
Ali à minha frente havia nove pernas que não causavam dano algum, às suas companheiras, quando de forma orquestrada se locomoviam.
Também, estavam nove pernas que se ajudavam, ao respeitarem a autonomia uma das outras ao dividirem entre si as tensões do ambiente e do movimento das coisas.
Em engenharia civil o fenômeno que elas criaram chama-se de treliça, muito utilizada nas coberturas de edificações, em aço e madeira.
A treliça torna três hastes que se conectam (pernas das estrela do mar), num triângulo de forças, bem mais fortes, caso assim não o fizessem.
Creio que essa estrela do mar tem muito a nos ensinar sobre relacionamentos.
Relacionamentos verdadeiros, autênticos, livres e emancipadores de nosso potencial.
Quem me lê nesse momento e tem relacionamentos assim sabe do que falo.
Relacionamentos que nos ajudam a suportar as tensões, mas não carregam nosso próprio peso - tirando de nós mesmos a possibilidade de crescer, ao sufocar-nos com tanto cuidado.
Relacionamentos que nos ajudam a caminhar, tal qual as nove pernas da Estrela, ao criar sinergias de movimento, deixando por ele fluir as emoções positivas em nosso viver.
Quem tem um amigo, ou mais de um, caso felizardo seja, sabe de que falo.
Aquele amigo que quando estamos cansados, querendo desanimar, sem qualquer reação de mexer nossa perna, ele mexe a dele, ao nosso lado, e nos faz avançar mais um pouco, sem tirar de nós o papel de ser protagonista de nosso próprio existir.
Minha Dama do Mar, a ti sou grato. Fazia quase um ano que essa crônica estava guardada em meu coração e não encontrava palavras para descrevê-la, agora elas me vem aos borbotões.
Para compreender as estrelas do mar precisa já ter se sentido amado, precisa também já ter amado.
Precisa da ternura do olhar, do afeto do acolher e do sentir brotando de empático ser. Como quem deixa fluir por si mesmo e pelos outros que lhes rodeiam a luz de nalvas manhãs, descortinando-se surpresas por existir.
Temos então nove possibilidades de movimentar nosso ser, em busca do ser mais, sem que nenhuma delas crie na outra uma co-dependência doentia, nem diminua-lhe a força. Pelo contrário, essas nove possibilidades combinam-se, em sinérgicos arranjos, potencializando o efeito de uma sobre a outra, tal qual minha amiga do mar faz, ao avançar mar adentro.
Cuide de suas nove perninhas emocionais que as defino como, sem nenhum critério de ordem ou importância, abaixo:
Gratidão
Perdão
Generosidade
Esperança
Amorosidade
Esperança
Solidariedade
Paz
Mansidão
Essas nove emoções transformam vidas modorrentas em vidas encantadas, dão propósito e significado ao acontecer.
Nos libertam de condicionantes, de determinismos e de influências toxicas, restaurando nossas forças e cirando corajosas metamorfoses, para o mais.
Então, queridos e pacientes leitores, de meus textões, as pernas são os relacionamentos saudáveis. E o combustível que as fazem andar, crescer, desenvolverem-se são a mística energia das nove emoções, atuando sobre as pernas de viajantes peregrinos - de nós mesmos, que no limite é o que somos.

Eu vi a Pietà (Autor Ricardo de Faria Barros, Ricardim)


Você já viu a Pietà, aquela escultura de Michelangelo?
Ou o encontro do Rio São Francisco com o mar?
Ou o orgulho de uma mãe, ao deixar a maternidade com seu filho?
Já testemunhou em sua vida a satisfação de receber o primeiro salário, aquele que mais parece um tesouro, fruto de seu trabalho que é?
Você já viu o júbilo de um estudante ao concluir sua primeira graduação?
Já viu a esperança de mãos em prece, diante do insondável de uma doença impactante?
Você já tocou o amor, num abraço de eternidades, daquele nos quais o tempo se contorce para não perder nem uma cena, de afetos enamorados?
Você já viu a felicidade de quem caminha por roçados, em tenras mudas de feijão e milho, e ao longe contempla a babuja em forma de doce relva, que saciará animais fomentos?
Você já se sentiu acolhido pelo místico cheiro de altar, reinante na cozinha de seus pais, ou avós?

Todas essas cenas habitam um mundo mágico, místico, misterioso. O mundo dos carinhos d´alma. Quando estas cenas acontecem, e mais uma infinidade desse naipe, um rasgo de luz desce da eternidade e, qual um flash, ilumina instantes mágicos. Galvanizando-os em nossas mentes e corações.
E, desses instantes em instantes, a vida vai acontecendo e desabrochando, em mil tons de significados.
Dirigindo para São Sebastião-DF, com uma lista de afazeres sabadinos à tocar, de longe vislumbro uma cena, que cegou os olhos meus de tanta belezura.

Sr. Valdecir, do alto de seus 75 anos, está pintando sua casa de amarelo.
Numa corrente virtuosa, temos nos cotizado para prover pequenas reformas em seu barraco.
Já colocamos revestimos e forramos o banheiro, pintamos o interior da casinha e, mais recentemente, afixamos uma faixa de cerâmica no exterior, de um metro, para proteger a parede das chuvas e umidade.
Ficou faltando pintar o muro da casa. Na última semana, pedi que ele orçasse o valor da pintura externa. Ele me disse que com duas latas o serviço estaria feito. Providenciei as latas de tinta, e guardei uma quantia para custear a mão de obra.
Mal não foi minha surpresa, o Sr. Valdecir de próprio punho tocou o serviço.
Então ao vê-lo pintando a casinha, parei o carro e disse-lhe:
- Oxente não contratou o Sr. Damião.
Sr. Damião foi quem pintou o interior do barraco, a um custo de R$ 100,00 dia.
E Sr. Valdecir me responde:
- Não quis lhe dar mais gastança, decidi eu mesmo pintar minha casinha.
Uaauuu!!! Quanta dignidade e altivez nesse gesto dele. Ele podia ter contratado Sr. Damião, afinal o serviço era custeado por terceiros. Mas, ele quis aliviar o peso.

Ele quis tomar parte naquilo, emprestando com a dignidade de seu gesto, e as força de seu suor, um rasgo de luz no infinito. Antes de ligar o carro, e partir, ele veio até mim e me disse: “Veja como está ficando bonita minha casa...”

De seu ser resplandecia uma luz, inenarrável. Contemplei aquele rosto cheio de rugas, de tanta peleja pela vida, e pedi para fazermos um self.

Chego em casa radiante, com gosto de luz no coração. E aí percebo uma cena de indefinível beleza.
Meus três filhos, noras e genro, assumiram a produção da Ceia de Natal, de um Natal antecipado, privilegiando nesse encontro a estada de meus pais na cidade, e a deles, já que 2/4 de meus filhos passará o Natal no Nordeste.

A cozinha estava um frisson. Eles botaram logo para correr a mim mesmo, e a papai. Segundo eles, nós bagunçamos tudo, e não temos lá muita higiene gastronômica.
Intriga da oposição. rsrs
Então, ficamos ao longe, contemplando a cena. Era um tal de picar maça, uvas-passa e desfiar frango que mas parecia coisa de cozinha internacional.
Rodrigo e Andreza assumiram a farofa e o frango desfiado. Tiago e Carol, o bacalhau. Priscila e Hugo, a salada e o Chester.
Como numa orquestra, tudo era sincronizado e harmonizado. Fechei os olhos e escutei com o coração a preciosidade da cena de filhos cozinharem para seus pais, tios, avós e amigos.
Tinha horas em que o stress aumentava, daquelas que eles não podiam parar nem para fazer fotos, tal a adrenalina no preparo dos pratos e o tempo que escorria pelas conchas.
Outro rasgo de luz desceu da eternidade para habitar aquele instante mágico, místico e mobilizador de boas emoções.

À noite, mesas postas, bem caprichadas pela decoradora-mor, a Cristina – minha esposa. Tudo estava pronto, perto das 21h30min todos os convidados já tinham chegado.
E a noite estava tão bela como uma canção de amor, de amor daqueles correspondido.
Pontualmente as 22hrs, fez-se um silêncio no recinto. A mesa da janta seria posta. Uma a um os chefs foram trazendo seus pratos. Mais parecendo uma procissão, de tanta reverência e sacralidade que emprestaram ao momento.
Todos comeram e elogiaram os pratos. Os filhos e “agregados”, enfim relaxaram. Deu certo.
A alegria deles era contagiante. Principalmente quando percebiam as pessoas repetindo os pratos.
Depois de saciados, passamos a contar nossas histórias, de vidas editadas, das partes boas que vamos guardando para abrir suas narrativas, em momentos como esse, como quem abre boas comportas emocionais.
E assim, de pequenos momentos mágicos, muitas das vezes não mais percebidos – pelo cansaço e aflição de corações galopantes, compomos nosso raiar de um outro dia possível.
Mais orante, terno, amoroso e tolerante.
Sábado eu vi a Pietà, em cada uma das cenas que acima descrevi. Pietà que para ser vista tem que se desnudar da arrogância, dos olhos opacos da indiferença e de toda espécie de orgulho e egoísmo.
Tem que ser vista com pelo olhar de uma criança, de uma criança que nasceu num estábulo, para nos ensinar que somos predestinados ao amor. É só ficar atento.
Um amor que ventila nosso ser, que areja nossos dias, que independente do que façamos, ele está acontecendo agora, nesse exato momento em que me lê.
Sempre com infinitas possibilidades, em mil variações, duração e intensidade, tal como as que produz qual a Brisa Aracati quando adentra por 300 KM, pelo Sertão do Ceará, trazendo consigo a umidade do Rio Jaguaribe e do Mar.
Renovando a esperança e vontade de viver por onde passa.
Bora lá, prestemos mais atenção, vejamos a Pietá!

Cartas ao JG - Paredes Encantadas (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, de 7 anos)

Sabe filho, hoje pela manhã quase não trocamos palavras, no trajeto ao trabalho/escola.
Eu dirigia pensativo aqui em Brasília-DF.
Chateado com a operadora de telefone residencial que há 4 dias nos deixa sem serviços.
Você, matava o tempo jogando no meu celular.
Esse pensar negativo que me absorvia apertou o "Play" da tecla Aborrecimento.
E fiquei com ela ligada, tirando toda a graça do início da manhã.
Em meio a pensamentos encaracolados e sem cor, percebo algo voando sobre o teto de um carro, que seguia à minha frente no lado direito.
Estávamos passando perto do Iate, na Av. das Nações.
Aprumo a visão, incrédulo.
Olho atentamente para aquilo, e pisco os olhos.
O que será que está voando sobre o teto de um carro vermelho, que segue à minha frente, na faixa da direita?
Algo semelhante a um pássaro, vermelho e azul.
Mas, não poderia ser um pássaro, estava muito perto do teto e rápido, uns 60km.
Seria um novo tipo de Drone?
Seria uma pipa, amarrada de dentro do carro?
Acelero o carro para emparelhar, e meu coração fica em estado de graça, vejo que é uma Arara.
Um belo exemplar, com asas que de uma ponta a outra deveria ter uns 80cm. Ela voa bem rente ao teto, acompanhando aquele carro.
Cheguei a pensar que o seu treinador estivesse dentro dele, se é que existe treinador de Araras.
Mas, quando saí da Avenida, pegando o acesso pela UNB, percebo que ela agora acompanha meu carro. No lado esquerdo.
No banco de trás você jogava com meu celular. Eu de tão abismado, de tão estupefato com a beleza da cena, travei de emoção e não consegui alertá-lo para vê-la também.
Desculpe.
A cena era idílica. Lembrava aqueles desenhos animados. Ou filmes de ficção, no qual os bichos interagem com humanos.
A Sra. Arara batia asas vigorosas, a pouco metros de meu lado. Linda, linda, linda. Mais à frente, eu dobrei à direita e ela seguiu caminho.
Cheguei ao trabalho em êxtase. Minha face estava radiante.
Paulinha, nossa telefonista, soltou um: “O que você tem, está estranhamente feliz?”
Disse-lhe que vim para o trabalho com uma Arara.
Aí ela perguntou-me da internet lá de casa.
Então, dei-me conta que houvera esquecido completamente do aborrecimento que logo cedo acompanhara meu dia.
A Arara curou-me de todo pessimismo, decepção e angústia com atendimentos frustrantes que vinha recebendo, ao longo da semana.
Ela tirou o “play” do modo Aborrecimento.
E renovou minhas esperanças.
Pensei na importância das pequenas alegrias que vamos tendo ao longo do dia, para nos dar forças na caminhada.
Mal soletrava esses pensares, no meu pensamento, e a Paulinha vem me mostrar o vídeo de seu apartamento, finalmente decorado.
Ela levou meses brigando com a construtora, que entregou seu Ap. cheio de defeitos.
Agora ela está radiante. Monstra-me o vídeo que fez, cômodo á cômodo, e sua alegria me enebria.
Após meses de chateação com a construtora, daquelas que temos quando percebemos que a cerâmica está soltando, de tão mal colocada que foi, ela finalmente pode lavar, encerar e decorar seu ninho.
Ela me mostra cada cantinho, com um olhar faiscante.
Quando o vídeo chega na sala, ela dá um pause e me mostra a parede que decorou. Ela me disse que não tinha dinheiro para papel parede, para estampas bonitas.
Então, recortou borboletas que achou num site, as fixou com durex, e fez daquela parede um quadro de Matisse.
Aquela parede virou uma parede encantada, quase um altar.
Sensacional! Paulinha encontrou seu jeito de cultivar pequenas alegrias. Ela me disse que quando chega em casa, e olha para seu cafofo arrumado, ela esquece de tudo: do atraso do ônibus, do salário pouco, do cansativo dia, e senta-se no sofá contemplando a revoada de borboletas.
Sabe filho, precisamos dessas pequenas alegrias. Mas, para vê-las precisamos nos desconectar, de pensamentos negativos, ou até de tecnologias, como seu celular durante o voo da Arara.
Um pensamento negativo só deixa de funcionar no modo Play ativado quando nos permitimos a um outro, de sinal diferente.
Assim será com muitas coisas em teu viver. Quando não tiver dinheiro para algo, faça como a Paulinha, corte as borboletas de papel, cole-as com durex, e curta sua parede possível. Entende filho meu?
Deixe a mística e mágica de uma Arara alada encantar teus dias.
Veja que belo aquela mãe, ao atravessar o filho para a escola, proteger com suas mãos o ouvido dele, da ventania que nos cercava.
Você viu?
Veja que belo aquela vovó dando o almoço para sua neta.
Você viu?
Lembra de sua alegria, domingo passado, quando chegávamos na igreja e ao estacionar apareceu um Pikachu, no jogo Pokémon.
Você ficou radiante, excitado para capturá-lo. E depois, após a missão cumprida, seu coração exultava de felicidade, quase parando o tempo.
Você até esqueceu que estava chateado por não ter conseguido acessar a rede, durante o domingo, com seus vídeos intermináveis de youtubers de jogos.
Precisamos dessas vadias alegrias, dessas brevidades de luz, para amortecer as pancadas do dia a dia direcionando nosso olhar para o lado bom da vida.
Sei que a rede continuará desconectada, mas outras emoções passam também a habitar teu coração, quando se deixa por elas também guiar.
Emoções positivas precisam de cuidado e zelo no seu cultivo. Aprenda a cultivá-las. Na maior parte das vezes elas estão ali, pertinho, disponíveis ao toque de seu olhar. É só prestar atenção e acolher o bom, o belo e o virtuoso.
A vida pede momentos de paz, de contemplação, de reabastecimento de valores e propósitos. A vida pede poesia, mesmo que na dureza do asfalto.
Pede amorosidade, em nalvas eternidades, de gente que te quer bem e cuida de ti.
Tire o play do modo Aborrecer. Com essa tecla apertada, nada verás de bom acontecendo em ti mesmo, no outro ou na realidade.
No modo Aborrecer, até as manhãs mais radiantes se tornam cinzentas e perigosas. Roubando-lhe vida, motivação e entusiasmo. Na agenda de teu coração, deixe páginas em branco para preenche-las com borboletas, araras, pikachus e, nunca esqueça, com a fé.
Aquela que nos dá a alegria duradoura, não importando as circunstâncias.
Aquela Arara que acompanhou nosso carro, por uns 200 metros, e nos deu ânimo de viver, nos acompanha dia a dia, está sempre conosco, e se chama Espírito Santo.
Ele é nossa chama de viver e o Guardião de nossa esperança

Não pode! (Autor Ricardo de Faria Barros, o Ricardim)

Todos na escola do JG estão de férias, menos um punhado de meninos, que como ele fazem parte da turma do integral e ainda ficarão até sexta.

No horário costumeiro, daquele da balbúrdia de voos de passarinhos livres, agora reina um silêncio.
JG nessa semana só está indo para brincar, acabaram as disciplinas, e ele passou de ano. 

Aproximo-me da recepção para anunciar minha chegada, para que as tias tragam-no até mim.
Perto da portaria, um belo presépio, anuncia o nascimento de Jesus.

À minha frente, uma senhora bem meiga pede ao porteiro para que seu neto não seja anunciado. Ela quer entrar e fazer uma surpresa, daquelas boas surpresas de vovós. É que hoje foi ela quem veio lhe buscar, para uma noitada de shopping.
O porteiro diz que não pode entrar e fazer surpresa. Que são as tias que trazem os meninos.

A vovó murcha.
Eu murcho.
A humanidade murcha.

Não havia lugar para o amor daquela vovó, na estrutura rígida daquele proceder.

O Presépio testemunhava tudo, cabisbaixo. Dele, uma Senhora de papel emana um olhar de compaixão, para a vovó.

Escondendo-se atrás de processos inflexíveis, pessoas só cumprem as ordens, sem ponderá-las frente à ética da vida. Esquecendo-se que no gesto daquela senhora, estava o que o Dono do presépio nos ensina, o amor. 

Aquele mesmo Amor que contraria e subverte a ordem reinante: ao colher espigas no dia de sábado; ao não apedrejar a "pecadora", ao tomar água e conversar com a Samaritana, ao expulsar os mercadores do Templo, ao, ao, ao, ao...

Preciso de agendas com páginas em branco. (Autor Ricardo de Faria Barros, Ricardim)


Acordei bem cedo e dona patroa chamou-me para decidir sobre a escola do JG, para 2017. Na pauta, duas opções com turno integral:
a. Mantê-lo na mesma em que estudou em 2016;
b. Ou, transferi-lo para outra. Melhor equipada, contudo mais "salgada".
Confesso-lhes que já estava pendendo para a opção b, dado as opções que tinha, até que Cristina soltou a seguinte pérola, bem de leve, languidamente:
- "Mais amado, na opção b eles não servem as crianças na hora do almoço. E o pai precisa ir almoçar com eles."
Perguntei-lhe se eu teria que todos os dias estar disponível para almoçar com o JG. Ela respondeu que sim.
Então disse-lhe: não posso!.
Aí ela soltou um: Por que, você não estará aposentado".
Aí eu disse-lhe:
"Estarei aposentado, mas não para bater ponto na hora do almoço todos os dias. Ainda não sei em que posso trabalhar, ou fazer nada nesse horário, portanto não posso assumir compromissos desse naipe".
Saindo de casa, paguei logo todas as mensalidades de 2017, da escola da opção a, antecipadamente, para não correr mais riscos. rsrs
Lembrei de uma senhora que me procurou após uma palestra sobre o tema aposentadoria. Ela revelou-me que seu marido era um exímio cozinheiro, de final de semana, um verdadeiro chef. E que ele aposentou-se recentemente, sendo que ela precisaria trabalhar mais uns anos. Aí ela lhe propôs ficar ir almoçando em casa, sendo que ele cozinharia para ambos. E ele não topou, alegando que não se aposentou para virar cozinheiro dela, abrindo uma crise no casamento.
Ele está certo. Eu estou certo.
Tem um poema chamado Cântico Negro que revela esse estado de espírito, meu e o do chef-maridão:
Cântico Negro (de José Régio
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali..."
Era isso que queria compartilhar. Não temos agenda disponível para fazer coisas por obrigação.
Não iremos por aí. Encontrar atividades prazerosas que preencham uma vida é trabalho de artesão, artesão do viver.
Quem deve definir como vai investir o capital do tempo é o seu proprietário. Ou seja, eu e você que também está se aposentado, ou já se aposentou.
Precisamos de uma agenda, na qual, meticulosamente, possamos anotar as coisas que vamos fazer no dia, para nosso prazer.
Se em algumas delas, as agendas coincidirem, ótimo. Caso não, nada de ficar se sentindo culpado. Pense assim: e se eu estivesse no trabalho, como essa situação seria equacionada?
A conciliação das expectativas e necessidades da vida contemporânea, no pós-carreira, exigirá empatia, diálogo e abertura para novos caminhos, na outra margem do rio de si mesmo. Não poderá ser fruto de imposição, ou chantagem emocional. Não se sinta culpado pelas horas livres. Elas foram duramente conquistadas, em jornadas de 10, 12, 14horas, desde muito tempo.
E, se lhe perguntarem o que está fazendo, diga em alto e bom som: NADA! Ou, TUDO.
Afinal, o nada pode ser tudo. E o tudo pode ser um nada.
Só quem saberá quando um é o outro, é quem o degusta, no sentido, ou falta de sentido de viver.
Só sei que não vou por ali.

Ps. 
Eu preciso ter disponibilidade para mim mesmo, e até, caso apareçam, para outras ocupações remuneradas. Não seria ético de minha parte aceitar, e algum dia furar. Aposento-me com renda menor do que na ativa. E, preciso correr atrás. Não quero ficar preso a esse tipo de compromisso, por mais paizão que me considere. Preciso de agendas com páginas em branco.

Harmonias impensáveis e inspiradoras (Autor Ricardo de Faria Barros)


A primeira vez que entrei num Centro de Tradições Gaúchas foi ontem à noite, aqui em Brasília, num show em homenagem à Luiz Gonzaga, patrocinado pela Acampi - Associação Cultural dos Amigos do Piauí. Sou paraibano e almoço num restaurante cujos donos e familiares são piauenses, foram eles quem me convidaram.
A Acampi esperava umas 400 pessoas, mas tiveram que improvisar mesas e cadeiras, pois esse público estimado triplicou.
No palco, a Orquestra Sinfônica de Teresina (OST), apresentando sua magistral Cantata Gonzaguiana.
A cada interpretação, podia sentir a emoção no ar. Entre asas brancas e léguas tiranas, aprendemos o valor de celebrar a vida, a arte do encontro, o valor da palavra, do humor e da ajuda fraterna
Somos assim, um povo falante e amigo.
Pelos participantes desfilavam formosas gaúchas e gaúchos, todos paramentados em seus trajes típicos, dando ao ambiente um toque de Brasil universal, sem muros ideológicos e preconceituosos, que estamos a precisar. Um Brasil singular, complexo e multicultural.
Isso é o que chamado de respeito e valorização da riqueza de nosso povo.
Perto de nós chamou a atenção um casal que desfilava por entre mesas com um carrinho e bebê. Meu filho disse, pai, acho que estão sem mesa. E estavam.
Chamamos para nossa mesa, afastamos umas cadeias, bolsas, e os acolhemos. Ele é de Santa Maria-RS e ela de Teresina, o fllhote de 8 meses, o Artur, já é Brasiliense.
Na saída, fui premiado por eles do raro DVD do show, já que ninguém sabia se tinha para vender e onde era. Creio que as cópias esgotaram-se logo, e por isso eles meio que "esconderam" a comercialização. Mas, meu inquilino de mesa de bar, fez um mimo e ao encontrá-los, trouxe um para ele e um para mim.
Após a canja, feita pelo primo do dono do restaurante em que almoço, Sr. Zé Nascimento, escuto vindo da mesa de trás um "Professor Ricardo".
Aí a festa foi completa, era um aluno da Faculdade Projeção, na qual lecionei no curso de Administração, por uns quatro anos e ali fui muito feliz.
Ele trouxe o clã interior do Piauí, tinha uns 20. E, fez questão de apresentar-me a todos e todas, sempre com palavras elogiosas ao seu professor.
Quando o pai do FrancildoMorais apertou minha mão perguntou-me: "Ele lhe deu muito trabalho". Respondi sorrindo que sim, mas como era muito gente boa, o aprovei. Aí todos caíram na gargalhada.
Creio que isso é a maior riqueza de nosso povo, que em cada Estado tem suas próprias manifestações culturais, um patrimônio imaterial que precisa ser preservado e degustado por todos. Sem barreiras.
Após a cantata um dos organizadores veio em nossa mesa, aí fiquei sabendo que a Acampi trará outras manifestações culturais para o CTG Jayme Caetano Braun.
Que legal essa parceria Piauí e Rio Grande do Sul. Que legal um ajuntamento como o do csal em nossa mesa. Ele me disse que só não encara bode. Marque -1 no meu caderno, mas o jeito carinhoso que ninava seu filho, deu-lhe uma marcação de +11, ou seja, ele ficou no 10.
Posso conviver com quem não come bode, desde que saiba ninar o seu filho.
Era sobre isso que queria debulhar essas letrinhas contigo. Sobre a arte do encontro. De não ver o diferente como anormal.
De permitir-se conhecer e conectar valores culturais, que são a essência de um povo.
Eis que um frisson tomou conta de todos. Violinos, fagotes, violoncelos e uma sanfona chorosa, uma zambumba e um triangulo, começaram a dialogar sobre Asas, e asas Brancas.
As pessoas se abraçavam, choravam, umas dançavam emocionadas. Aí cantor da cantata, o João abriu seu vozeirão que mais parecei um clone do Velho Lua, e ninguém aguentou.
Asa Branca é uma carta de amor, de Lula para Rosinha, seu amor de juventude, abortado pelo pai dela, poderoso fazendeiro que o ameaçou com a morte, caso não zarpasse dali. No último verso, Luiz Gonzaga se vinga do Coronel, dizendo eu voltarei:
"Quando o verde dos teus óio
Se espanhar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração."
E, sem querer, ele criou um tema que une povos do mundo tudo, que um dia tiveram que migrar de região, de amor, de trabalho, de si mesmos.
Ou seja, de quem se viu um dia longe de seu lugar, de seu amor, de seu infinito particular.
Aquela noite evoca em meu coração tanta emoção, tanta coisa boa sendo conectada, que fico pensando, por que tantas divisões?
Por que estamos ficando assim, um povo tão agressivo, tão separatista, tão besta, em seu próprio feudo ideológico, que mais se parece com uma fortaleza, intransponível.
A Acampi e o CTG; o Guilherme e a Márcia, os pais do Artur, provaram que a mistura é que torna o belo duradouro e sustentável.
E A Orqruestra de Teresina, selou essa convicção, mostrando em sons que a mistura nos torna melhores, afinal no palco havia uns dez diferentes instrumentos, que numa harmonização impressionante, criaram juntos um universo espetacular.
A isso chamo de humanização!

Clique aqui e saboreei um pouco do que relato acima.
Cantata Gonzaguiana - Orquestra Sinfônica de Teresina

Seja Kefir (Autor Ricardo de Faria Barros)

Hoje, o Anderson Itaborahy presentou-me com Kefir.
Então, acabo de consagrar o Kefir como o primeirão na lista de coisas estranhas que já ganhei, acompanhando de perto pela Fúrcula, um ossinho de galinha em forma de V que ganhei do Pericles Mota. Que já foi objeto de uma das minhas crônicas.
Ao chegar em casa, estudando o Kefir, tive uma exata noção da intensidade, significado e mística de seu gesto. E o coração não para de pular, em forma de gratidão.
Pelo seu gesto, quando me presenteoou, eu senti que naquela doação havia mais que do que algo pastoso branco, "de fazer iogurte".
"Deixe o Kefir respirar". "Não mate o Kefir". "Não bote no lixo o excesso, tem que ser doado". "O segredo é a doação". "No dia que não quiser mais, solte-o num rio".
Ele falava pausadamente, como quem fazia uma prece. Acolhi aquele gesto com o coração enebriado, de tanta singularidade que vivia
Anderson Itaborahy foi quem abriu os caminhos de minha carreira, em 2008, quando fui cedido pela Diretoria de Pessoas para integrar um Projeto que ele conduzia, de Governança de Tecnologia da Informação. Eu era o único psicólogo, "povo de RH", numa tribo de arquitetos de TI, desenvolvedores, especialistas em riscos, em segurança da informação, arquitetura organizacional e outros temas fora de meu jargão. Era um tal de ITIL pra lá, e CoBIT pra cá, que gastava toda minha cara de inteligente.
Devo muito ao Itaborahy. Ele foi o primeiro que acreditou em meus devaneios corporativos, em gestão de pessoas, dando-me condições junto com Mauricio LyraLilian Borges Moraes e Agamenon Segundo de estruturarmos a Frente Pessoas, na Diretoria de Tecnologia. Sabedor da iniciativa, o diretor Luiz Freitas nos adotou, e nunca mais a loucura teve cercas, ele nos deu patrocínio e tesão, nascia a área de Capital Humano da Ditec, e já era 2011.
Recorrendo à Wiki compartilho que o Kefir é uma colônia de microrganismos, repleta de lactobacilos e leveduras, que ao entrarem em contato com o leite, quebram sua estrutura decompondo-a em umas trinta moléculas excepcionais ao desenvolvimento do ser humano. O iogurte, feito a partir dos "Grãos do Kefir", tem efeito Probiótico. Que são alimentos vivos com função benéfica ao organismo, por exemplo sobre o equilíbrio bacteriano intestinal, controle do colesterol e redução do risco de câncer.
O Kefir era uma preciosidade escondida pelas tribos congregadas por Maomé, na Arábia, e resto do Oriente Médio. E, suas Colônias de cepas de bactérias se aglomeravam em grãos brancos, que iam passando de geração em geração, sempre em generosas doações, quase dotes nupciais. Ninguém jamais poderia perdê-las, pois representavam uma das maiores conquistas à sobrevivência do Homem, além de ser capaz de quebrar a lactose do leite de animais, que era a de fazer com ele uma espécie de milagre, de alquimia, decompondo-o em inúmeras vitaminas, proteínas e minerais, que seriam excretados, caso não decompostos pelos bichinhos do Kefir.
O termo deriva do turco keif que significa "bem-estar" ou "bem-viver".
De origem antiga e aparentemente misteriosa, o Kefir era conhecido na antiguidade como a “bebida do profeta”, e o fermento usado para prepará-lo como “Grãos do profeta Maomé”. O Kefir teve sua origem nas montanhas do Cáucaso. Em adição, o livro bíblico de Êxodo descreve um produto com características semelhante ao Kefir, denominado de Maná.
Em 1900, médicos russo tentaram roubar o Kefir, dos muçulmanos do Cáucaso. O plano era ardiloso. Eles enviaram uma bela mulher, com intuito de "convencer" o rei a presenteá-la com Grãos de Kefir, caso por ela se apaixonasse.
Bem, o rei caucasiano se apaixonou, mas não deixou a formosa mulher voltar para Rússia com os Grãos. Pelo contrário, a sequestrou para si mesmo.
Bem feito.
Oito anos depois, o Czar da Rússia a liberta e pune o rei do Cáucaso com a paga de um tesouro para ela, a titulo de indenização, pelos 8 anos em que ficou presa. Ela não pediu ouro, nem diamantes, nem animais, ela pediu Grãos de Kefir.
Por causa daquela bela mulher, quase cem anos depois, o Kefir rompeu as montanhas geográficas, políticas, religiosas do Cáucaso, chegando em minha casa, aqui em Brasilia.
É ou não é emocionante? Meu primeiro trabalho, como aposentado, será dirigir espiritualmente a cerimônia de Suzana Braz e Yuri. O segundo que me foi dado foi o de hoje, o de ser um produtor de Kefir.
Como não ficar emocionado? Cultivar algo que carrega o nome de "bem-estar", ou de "bem-viver" é para mim de um significado tremendo.
Acho que no fundo essa é a missão que todos nós carregamos. Ser uma colônia de Kefir para o outro, para a realidade e para nós mesmos. Quebrando estruturas opressoras, injustiças, catalizando emoções e reações do povo do bem, ampliando a intensidade e foco de suas ações, tal qual as bactérias milenares fazem com o leite, tornando-o mais que simples alimento.
Cheguei em casa ansioso. Precisava seguir o ritual. Peguei uma vasilha de plástico. Derramei nela 1]2 litro de leite desnatado, à temperatura ambiente. Cristina observava curiosa. JG desceu da sala da TV para acompanhar. Fui misturando os Grãos do Kefir ao leite, cada um de nós leu um dos versículos abaixo.
"O Senhor te abençoe e te guarde;
O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti;
O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz." Números 6:24-26
Cobri a mistura com uma paninho de filó, e a levei para um lugar bem escuro e seguro, para que a alquimia aconteça, até amanhã à noite. , para que se desenvolva. Amanhã, seguirei o rito, coando os grãos e separando o iogurte preparado. No outro dia se repete. Sempre falando palavras de esperança, de paz, de amor. Que hoje escolhi Números. Amanhã, pode ser um poema de Vinicius, de um amigo. De nalva cor.
Espero que tenha entendido a metáfora. Podemos catalizar bem-estar e bem-viver nas nossas interações sociais. Podemos cultivar colônias de bondade, mansidão, respeito, ética e paz.
Sim, nós podemos ser Kefir.
Basta, não calar a força do gesto, soltar as garras da mágoa, doar perdão, abrir a cortina do medo, despir a alma de ódios e carregar a chama da esperança. Aí o Kefir quebrará a mais dura molécula da contemporaneidade, a da indiferença ao outro.

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