Sorriso de Alívio



Diário de um pai babão.
Era uma manhã como as outras quaisquer, destes últimos 30 dias.
Entro na UTI no horário de minha vista, pela manhã às 11h00min. Minha esposa faz as visitas da tarde. A médica plantonista me chama numa sala. Já vou estremecido, o que houvera acontecido?
Faz as preliminares mais longas de minha vida, pergunta pela mãe, se ela não vem pela manhã, coisa e tal...
Tal e coisa.
E eu tendo síncopes, disfarçando a ansiedade, comas pernas em bambolê, e segurando a onda.
Aí ela fala que o João Gabriel passou no teste de alimentar-se pela mamadeira. Embora no dia anterior, dia 3/8/2009, ele houvera tirado zero no teste de comer pelo copinho, no da mamadeira, feito ontem, no início da manhã (04/8/2009), ele tirou 10.
Ou seja, ficou com uma média de cinco. E uma média cinco, pra quem está na UTI, é vitória.
Aí ela deu a notícia que ele estava de alta. Agora iria para o quarto da maternidade, treinar alimentação no peito e mamadeira, e se não perder peso, irá para casa em até cinco dias.
O tempo parou quando ouvi aquela frase, Não sabia se abraçava a doutora, se beijava, se saia correndo... Liguei para a esposa e ela amarelou... Pediu mais uma tarde, não tava segura de que seria uma boa mãe, entrou em pânico.
Eu só ria, sorria mesmo, e fiquei ao lado do João Gabriel, contemplando seu rosto sem a sonda nasogástrica.
Não via e ouvia nada, só aquele pequeno ser que me dá tamanha satisfação e vontade de viver. Que me faz um pai bobão, abestado.
Fiquei ali o fitando, com a câmera em punho, eis que ele abre esta expressão, que emoldura esta foto. Um sorriso "monalisiano". O primeiro que testemunhei. Um sorriso de libertação. Não me contive, ri também. Ri das nossas travessuras que faremos sem a mamãe saber, descer de patinete a rua, soltar pipa no telhado, fazer trilha, acampar no gramado, cozinhar, comer tudo que é porqueira.
O relógio deu 12h00min, senti que era a última despedida, da rotina de visita uma vez por dia na UTI. Agora, poderíamos ficar junto o quanto quiséssemos.
Por um instante ouvi os sabias e bem-te-vis de Brasília, senti o céu azul inundando meu ser, colorindo novamente minha vida. Senti o quanto os amigos fazem a diferença em nossa caminhada. Aí pensei, tenho que blogar.


UTI Neonatal






Meu primeiro contato com a UTI Neonatal foi com o nascimento do João Gabriel, em 06.07.2009.
Ele veio ao mundo com 33 semanas, pesando 1.430kg. Ainda na sala de cirurgia, após a cesárea, fui chamado pela pediatra para "visitar" o João Gabriel na UTI Neonatal, mais conhecida como UTIN.
Minha primeira sensação foi de pânico, eu iria visitá-lo só, sem a minha esposa.
A médica me disse que tudo corria bem com nosso filho. Eu fixava o olhar em cada parte de seu corpo, vendo se tinha nascido perfeito. Deparei-me com um sexto dedo no seu pezinho e fiquei atônito.
A partir dali, não ouvi mais nada, esperando um diagnóstico de qualquer problema cromossômico. Afinal, fomos pais aos 44 anos, e ela aos 43.
A médica ignorava minha expressão de pânico e não deu maiores informações sobre aquele dedo extra, dizendo vagamente "alguns bebês nascem assim, não é nada".
Voltei para a sala de recuperação do pós-operatório e minha esposa sacou, pela minha expressão, que algo houvera ocorrido.
Contei pra ela, procurando-a acalmá-la. Ela logo queria saber a extensão do problema, se ele ouvia, se via, se movimentava os membros, se tinha outras seqüelas.
Aos poucos fui trocando de assunto, falando do quanto ele tinha sido esperto no teste de apgar, etc.
Mais uma vez estávamos sós, tendo que lidar com medos, frustrações e o sofrer de uma família que não pode acalentar seu filho ao nascer.

Primeiro desafio dos pais de UTIN: Não ficar com o filho.
Para nós foi muito dolorido não poder pegá-lo no colo, alimentar, dar banho, vestir as roupinhas, fazer a festa do "cachimbo", convidar os amigos para celebrarem... Tudo fica envolto em silêncio, ansiedade, culpa e medo.
As lembrancinhas, os presentinhos, roupinhas, as comidas e licores, vão sendo esquecidos num cantinho qualquer, sem muita atenção. Perde o sentido, o foco.
Não é humano, aliás, não é animal.
Sei que é necessário, mas,psicologicamente, uma brutalidade. As UTINs deveriam ter sistema de web-câmera para que os pais pudessem, ao menos, ver seus filhos. Ou um sistema de visitas mais intensivo, nos primeiros dias. As visitas são limitadas a duas vezes por dia, em períodos de 60 e 90 minutos.
Tudo ali é novidade: os produtos de assepsia, o jaleco, os sons, o ritmo, a forma com a qual não se deve olhar para outros bebês.
Vamos aprendendo tudo numa velocidade enorme. As siglas IG, RN, Saturação, tudo estranho e num dialeto diferente.
Ao voltar pra casa, deixando minha esposa com minha sogra no apartamento do hospital, procurei ajuda no Google e descobri que o sexto dedo trata-se de uma anomalia cromossômica leve, chamada de Polidactia. E que é operável, tão logo a criança cresça, não carregando consigo nenhum outro tipo de seqüelas.
Três dias após o nascimento.
Cheguei ao hospital e estávamos aflitos por notícias de nosso filho. O horário de visitas da manhã só iniciaria às 11h00min. Queríamos saber como ele passara a noite.
Infelizmente, ninguém ligou para nosso quarto, prestando estas informações. Aí tomei coragem e liguei para a UTIN.
Descobri que ele teve dificuldades respiratórias e tinha sido entubado.
No horário previsto para a visita levei minha esposa, na cadeira de rodas, para a UTIN. Ela tinha dificuldades para andar e houvera passado uma noite horrível com muito sangramento e pressão alta.
Entramos naquele ambiente e só tínhamos olhos para nosso filho. Ficamos aqueles 60 minutos em silêncio, acariciando o seu corpo pelas janelinhas da incubadora. Ninguém se aproximou da gente. Nenhuma informação.
Cris segurava-se em pé. Embora cansada e com pressão alta, ninguém disponibilizou uma cadeira para ela se sentar.
Ficamos em estado de choque, ao ver nosso filho com tantos sensores sobre seu corpo, cateteres, sondas, aparelho de oxigênio, monitores cardíacos...
Aquela sinfonia é dramática, são alertas sonoros e luminosos, que não sabemos o que significam.
Numa dessas ocasiões, quando um alerta soava estridente, uma enfermeira aproximou-se, abriu a incubadora, fez uma massagem no seu peito, fechou a incubadora e saiu dizendo "eles às vezes esquecem-se de respirar". Pronto, aí que ficamos nervosos mesmo.
À tarde e durante os próximos três dias, repetiu-se a mesma cena e a mesma falta de informações.
Os profissionais da UTIN não conseguem perceber que também estamos naquela incubadora. Que também estamos na UTIN. Que nenhum pai ou mãe fica feliz em vez seu filho numa UTI, mesmo sabendo que ele está sendo bem tratado.
O que todo pai e mãe querem, é ver seu filho em casa, no seu lar.
A estrutura de uma UTIN não é preparada para acolher esta demanda de atenção dos pais aflitos e deprimidos por não poderem ajudar seus filhos. Ela não é nada humanizada.
As pessoas que ali trabalham estão mais preocupadas em preencherem formulários e as tabelas nos seus terminais de computadores, realizarem procedimentos quase rotineiros, do que interagirem com os pais. Somos quase vistos como "intrusos".

Segundo desafio dos pais de UTIN: Ser notado.
Imaginamos que ao chegar à UTIN os técnicos diriam: "chegaram os pais do João Gabriel". Achamos que fariam festa, que viriam nos cumprimentar.
Acontece que eles cuidam de outros tantos bebês e não têm tempo para este tipo de amenidades.
A UTIN funciona como uma linha de montagem, cada funcionário é responsável por uma tarefa. Mas, a tarefa principal, dar um sentido de família àquela criança, ninguém assume. Talvez para não gerar vínculos, ou até para não criar falsas expectativas. Não sei...
Só sei que fica uma 2ª dica: metam a boca no trombone, se façam ser notados. Sei que é difícil.
Eu sei que não é fácil. Estamos tão fragilizados que não temos energia para novos embates. E depois, temos medo dos profissionais sentirem-se incomodados e descontarem nos nossos filhos, ou seja, ficamos reféns da situação.
Mas, a dica é justamente o oposto. Procure ajuda. Chame o médico de plantão para conversar. Você tem direito a esclarecimentos sobre seu filho. Até o Código da Infância e Juventude garante isto, até mães e pais de jovens apenados têm direito a informação sobre seus filhos; imagine sobre os bebês em tratamento.
Num desses primeiros dias, na visita da tarde, minha esposa foi impedida de visitar nosso filho. A atendente disse que ela não podia entrar naquele momento, pois "estavam fazendo um procedimento com nosso filho". Que ela deveria aguardar. Aqueles foram os 40 minutos mais sofridos para uma mãe. Qual era o procedimento? O que estava acontecendo? Finalmente, ao adentrar na UTIN, ela descobriu que estavam implantando um cateter profundo chamado de "PIC", sendo este "procedimento" muito sofrido para os pais presenciarem.
Mais uma vez ficamos calados, não nos fizemos notar.

Chegando ao término da primeira semana de nascimento.
Chegamos pra visita da manhã, nosso filho estava fazendo quatro dias de nascido. Pela primeira vez o médico de plantão fez contato conosco.
Nossa médica obstetra falou com ele a respeito de nossa falta de informação.
Dia seguinte, não era ele o plantonista e o silêncio voltou.
Mais um dia sem informação.
No outro dia, uma médica nos abordou. Ela foi super gentil, nos informou tudo, acalmou-nos.
Não me contive e falei do quanto estávamos nos sentido desamparados, sem apoio. Que minha esposa ainda estava internada no hospital com crise de hipertensão e que em todas aquelas visitas ninguém chegava com um banquinho ou cadeira e que não tínhamos nos sentido reconhecidos em nossa aflição de pais.
Ela nos disse que é uma ferrenha defensora da humanização das UTIS e que este tema é tratado nas reuniões da equipe.
No outro dia, aproximaram-se outra médica de plantão e a psicóloga da UTIN. Estavam visivelmente irritadas. Falavam que aquela era uma das melhores UTIs do país, que nosso filho estava super bem tratado. Que a falta de cadeira é geral no hospital, que é um problema do dono do hospital.
A psicóloga falou que não tinha nos procurado, pois estava dando o tempo para que elaborássemos nossa vivência e que nossa sensação de desamparo podia ser um “déficit de percepção”, pois, até então, nunca tinha escutado isto.
Aí tivemos que dizer que havíamos feito amizades com outros casais que relatavam as mesmas dificuldades.
Não precisa mais dizer que viramos motivo de murmúrios e visível antipatia: éramos o "casal da cadeira".
Para complicar ainda mais, nesta semana, uma médica neurologista, amiga da família, ofereceu-se para fazer um teste no nosso filho. Dirigiu-se para a UTIN e foi barrada pela médica de plantão, que não autorizou seu ingresso.
Neste mesmo dia, depois de muita insistência conseguimos que, um de meus filhos visitasse seu irmão, mesmo que por breves minutos.
Ele fez toda a operação de assepsia, botou o jaleco, etc. Chegou perto do irmão e pediu para tocá-lo. A Psicóloga, a mesma do "elaborar", disse: "melhor não".
Não precisa dizer o quanto aquele toque seria importante para nossa família. Não precisa dizer o quanto ele ficou frustrado...
Terceiro desafio dos pais de UTI: Faça parcerias.
Não estamos sozinhos naquele ambiente. Outros pais comungam da mesma jornada, com histórias de vida parecidas. Conhecê-los nos fortalece.
Identifique os profissionais de saúde mais acessíveis, faça contato, diga o quanto precisa deles, faça perguntas.
A segunda semana de nascido.
Aprendemos a nos virar sozinhos. Buscamos informações sobre aqueles aparelhos, descobrimos sites e comunidades na web.
Descobrimos a função de cada aparelho e seus níveis de normalidade e anormalidade. Descobrimos que muitas das vezes os sons emitidos são de mau contato e não de qualquer problema.
Descobrimos que eles estão ali, plugados em nossos filhos, para dar-lhes uma melhor condição de vida. São do bem. Embora assustem, eles são imprescindíveis à manutenção da vida.
Ficamos "expert', passamos a trocar informações com outros pais e a entender que a paciência é vital. Por exemplo, o ganho de peso é gradual, cada 30 gramas/dia devem ser comemoradas.
Os dias são lentos e não adianta nossa ansiedade. Os bebês têm seu próprio tempo para amadurecerem.
Descobrimos, inclusive, que cada um dos profissionais da UTIN não nos trata daquele jeito por maldade, talvez nem tenham a real compreensão de nossa necessidade de atenção. Talvez, estejam tão empenhados em salvar nossos filhos, que passamos a ser invisíveis.

Quarto desafio dos pais de UTI - Não esmorecer
Não se culpe ou vitimize. Não vai adiantar nada ficar bravo, espernear, brigar com todos. Você está frágil, cansado, aflito com a jornada que está apenas começando. Mas, lembrem-se, outros passaram por ela e saíram mais fortes.
Então, fiquem visíveis para vocês mesmo, não esqueçam de que ainda são um casal, que outros filhos precisam de vocês e que os familiares estão todos na corrente.
Não desanime ao ver o quarto do bebê sem sua presença ainda. Pense assim: ele está numa espécie de "colônia de férias", cheio de amiguinhos.
Não se esconda, não se deprima. Lute, aja, procure ajuda, se a barra estiver pesando mais do que você suporta.
Lembre-se que seu bebê capta sua energia, então procure sempre levar uma energia boa, prá cima, otimista.


-------------------------------------------------------------------------------------------------Por questões éticas, não citamos nome do hospital e médicos.

Força


No  silêncio da noite, naquela madrugada fria, uma mãe vela sua filha...
No leito de um hospital, uma esposa passa os dias a cuidar de seu marido...
Uma avó  cria, em sua casa, seu neto: um órfão, órfão da AIDS...
Como seria a vida dos portadores da AIDS se não tivesse uma mãe a quem recorrer. Quantos são os que se descobrem com AIDS e vêm para o  colo da sua mãe.
De onde pode brotar maior afeto e compreensão para as vítimas da AIDS?
De onde pode brotar mais ternura e esperança para as vítimas da AIDS?
De onde pode brotar mais fé e força de vontade para as vítimas da AIDS?
Só do seio de suas mães!
São elas  que assumem as dores de seus filhos. São elas que não se envergonham de acolhê-los muitos há tanto tempo longe de casa. São elas que se descobrem portadoras da vida, para aqueles que a sociedade vê como portadores da morte.
Simples mães, sem grandes estudos filosóficos, sem grandes estudos humanístico-existenciais, sem grandes "psicologias”... Simples mães.
Mestras, doutoradas, PHDs na arte de amparar e amar a seus filhos.   É claro que, nesta homenagem também estão inclusas as esposas da AIDS. Mulheres  fortes algumas que junto com a AIDS descobriram a infidelidade de seus parceiros. E, mesmo assim, assumiram com redobrado vigor seus lares. Quantas destas, esposas da AIDS, mesmo contaminadas pelo vírus, mantém a serenidade enquanto cuidam de seus maridos, já em fase mais avançada da doença. Quantas são testemunhos vivos de força e de luz para os filhos. Estas esposas da AIDS mereciam um destaque especial neste dia das mães. Bravas e valorosas companheiras de seus maridos. Como que verdadeiras "mulheres de Atenas", elas vão vivendo seus dias e neles tercendo uma  rede da solidariedade e de fortaleza.
     Não fazem perguntas: "Como?”, "Com quem?”, "Quando?”, "Por quê?"...  Elas, em sua sabedoria milenar, sabem que já  não há respostas. O drama da AIDS é por si só, maior que todas as explicações, e elas sabem disso.
     Muitas não querem fazer o teste - não estou sentindo nada, me deixeeu cuidar primeiro de  meu marido. Outras se agarram a seus filhos e, é por eles, que lutam até a última gota pela saúde da família.
     Neste dia, gostaríamos de homenagear a todas as mães que convivem  com a AIDS. Elas são exemplos de grandeza. Exemplos de dedicação, elas são amostras do que há de melhor na humanidade. Elas são as expressões vivas da esperança e da solidariedade.
     Lembro-me da mãe de Carmelucia. Carinhosamente ela molhava os seus lábios ressecados com água. Carmelucia já não conseguia  engolir com facilidade lá estava, ao seu lado, sua mãe a colocar com conta-gotas pequenas quantidades de água em sua boca. Recordo-me de quando Carmem, já nos seus últimos dias, quase que num sussurro falou - no Natal vamos comer uma "galinha à cabidela" feita por mamãe para todo o GAV. Olhos se entrecortaram e aquela mãe num momento de íntima comunhão disse
- vamos sim, filha, você vai se recuperar e farei a galinha para seus amigos.
     Lembro-me da mãe de Rosinaldo lutando, dia e noite, para que seu filho vencesse aquela infecção. Lembro-me da Mãe de Solange, que com tanto amor cuidou dela e de seu neto.  Lembro-me da mãe de Ana Maria que, a tempo oportuno, perdoou sua filha e a acolheu em seu lar.
          Estas mães passaram pelo "vale de lágrimas" com profunda firmeza e coragem. Souberam acompanhar seus filhos até a despedida da morte.  Souberam vencer os muros da intolerância e do preconceito e amar sem medidas.
     Outras mães nos vêm à cabeça. Mães que estão na batalha. Mães que não deixam seus filhos, netos  e esposos desanimarem.
   - Coragem filho a cura da AIDS está por vir...
   - Por que tanta esperança, já estou cansado disto tudo!
   - Deixa de besteira menino, com a sífilis foi assim mesmo e descobriram a Penicilina.
     Cada uma delas nos marca. Umas pela tenacidade e coragem. Outras, pela paz e
Harmonia. É como que em cada gesto de uma mãe se escondesse a infinita beleza do criador. 
     Mães lutadoras. Mães que mesmo diante de mil injustiças sociais mantêm-se fiéis os seus filhos.  São elas que farão construir uma nova sociedade. Onde haja casa, comida, justiça, emprego e saúde para todos.



Retalhos da vovó


Lembro-me com saudade das colchas de retalho de minha vó. Na sua simplicidade,  ela pacientemente juntava cada pedacinho de tecido que sobrava dos cortes, numa sacola.  Passava o ano a costurá-los,  um a um, numa bela colcha multicolorida. Cada cama recebia a sua colcha nova, e ela, ansiosa, esperava a visita de final de ano dos netos. Naquelas camas forradas um pedacinho de cada veste que ela tinha feito durante o ano para seus familiares:   pedaços  da camisa de papai, do calção azul de meu irmão e  da  saia  toda florida de minha mana. Em cada retalho um pouco de nós e de nossa família. Aquela colcha era mística. Era sagrada. Falava e abraçava  quem nela repousava.  Neste final de ano gostaria que toda humanidade se sentisse parte  daquela colcha de minha vó.  Colcha que aceitava as diferenças individuais: azul, branco, amarelo. Também as  diferentes dimensões de cada tecido e numa harmonia divina dava forma, onde todos só viam  caos.  Creio que nosso coração quanto mais parecido ficar  com aquela colcha,  será mais verdadeiro e belo.  Somos   colcha de retalhos quando percebemos, em nós,  fragmentos de uns tantos Outros. Em mim:  meu pai,  irmão,  vizinho, amigo de trabalho, minha companheira, minha filha,  meu templo,  nosso  Deus.
Somos colcha de retalhos quando durante a vida aprendemos a construir, cada dia, tijolo a tijolo os alicerces da esperança e cidadania.   Alguns porém,  infelizmente,  perderam-se no caminho. Não conseguem mais unir os retalhos  e transformar as adversidades em oportunidades de crescimento. Que tipo de colcha formei em 1998? Ela está bonita?  Multicolorida, aconchegante, macia e limpa?   Ou nosso preconceito afastou-nos dos Outros tornando-nos  monótonos e insípidos, um tecido desbotado, uniforme, que não enche de vida os que o observam, que não aconchega  os cansados e desesperados?
Procure no baú de seu coração retalhos de  apertos de mão,  de estímulos, de carícias,  de apoio e compreensão:  um beijo nos filhos, um  doente socorrido, uma  lágrima que teimou em cair,  quando  uma criança pediu  uma coberta e  comida para aplacar o frio e a fome. A colcha que costuro neste ano ainda não terminou. Restam alguns dias. Poderei ainda ir buscar, no fundo do baú de meu coração, alguns retalhos que deixei de lado e que agora são vitais. Acrescentar mais  branco, da paz. Verde, da esperança.  Vermelho, da  fortaleza. Azul,  da pureza. Amarelo,  da fé. Ir buscar nos recônditos mais escondidos de nosso ser um gesto de perdão, um olhar amigo e um sorriso de esperança.
Afinal, vendo-nos como colcha, sabemos que não estamos sós. Que cada um   dos que tomaram parte dela  tornou-se agora o meu sustento, minha alegria e  razão  de viver.  Neste mês,  derradeiro do ano,   escrevamos no nossos retalhos, retalhos de nosso coração, mensagens  com palavras  garrafais escritas nos porta-estandartes  aos que amamos.
Escrevamos com tintas de sangue, de compromisso  o  nome das pessoas que fazem parte de nossa história. Que em nossa colcha eles sejam homenageados e que  saibam quão preciosos e únicos são em nossa vida.

Ame em legítima defesa


O telefone tocava na ONG Aids, chamada Grupo de Apoi à Vida - GAV. Do outro lado da linha uma voz de uma jovem chorando. Perguntamos seu nome , ela não responde , só faz chorar... diz que sua vida está sem sentido. Perguntamos o que a aflige , se é algo relacionado com a AIDS. Mais choros. Começamos a ficar aflitos. Quem seria aquela jovem? Por que drama estaria passando? Como estabelecer uma ponte, um contato mínimo que possibilitasse ajuda-la?
Ela diz que tem que desligar, depois volta a ligar , quem sabe...
Mais uma vez ligou. Demos um endereço para que mantivéssemos um contato pessoal. Ela aparece, constatamos sua juventude e beleza. Ela estava como uma gatinha assustada.
- O que está lhe assustando, você está com AIDS?
Mais choro. Parecia difícil conseguir que ela se abrisse. Começamos a ficar preocupados. O que se passaria no seu coração?
Ela nos fala que é de São Paulo-SP , e veio para C. Grande-PB ha pouco tempo. E que agora sua vida está terminada...
Lentamente , puxa de sua carteira um retrato.
Na foto um jovem bonito.
Quem é ele?
Ela diz que era seu ex-namorado, paulista. Até aí nenhuma razão prá tanto choro. Será possível que está moça tenha errado o telefone , e ao invés de ligar para o CVV ter ligado para o GAV/TELPA - Disque AIDS ? Alguns de nós, pensam logo que o caso é de pura paixonite aguda, sem nenhuma implicação com a AIDS. Outros ficam com uma "pulga" atrás da orelha.
E aí veio a grande revelação. A jovem tinha recebido uma carta de São Paulo , de seus amigos, dizendo que o seu ex-namorado tinha morrido de AIDS!
Apertamos nosso coração, mordemos a língua e perguntamos:
-quanto tempo vocês namoraram? - 4 anos !
Disfarçamos nossa preocupação. Em 4 anos poderia ter rolado muita coisa. Sabíamos de casos de relacionamentos, marido x mulher, que um dos dois não se infectou, mas era pura loteria. Aí, na nossa frente, estava alguém precisando de apoio, atenção e sobretudo muita esperança.
Ela nos falou que já não comia direito. Passava as noites em insônia. E que gardara só para si tal revelação.
Esse quadro de pânico , de medo extremado, somatiza reações das mais descabidas possíveis: febres , suores noturnos , calafrios, diarréias. Todas estas reações ela vinha apresentando , o que segundo ela , era a certeza do diagnóstico- AIDS!
Naquele estado só uma saída, fazer o teste urgente e encarar de frente a situação. Numa manhã fria de sábado, cerramos as portas da Sede e passamos longas horas tentando convece-la a fazer o teste. Sabíamos que, mesmo se não estivesse com o vírus, o seu fantasma não sairia de sua cabeça. Conversamos sobre as possibilidades dos soropositivos, das novas drogas , dos avanços da ciência. Trouxemos outros portadores para dá coragem. Finalmente fomos buscar o analista. Quando ele começou a tirar seu sangue, ela quis puxar o braço e desistir. Foi um momento de grande tensão. Aos poucos ela afouxou o braço e rendeu-se. Aninhou a cabeça nos seios de uma voluntária, como a procurar sua própria mãe.
Lentamente o sangue foi subindo pelo tubo: 5,10,15ml pronto, estavam ali suas esperanças e seus desafios .
Ao término da coleta ela nos beijou. Disse já está mais aliviada; que era como que tivesse terminado de fazer as provas do vestibular. Que tinha se livrado de um peso e que agora estaria nas mãos de Deus. Nunca torcemos tanto. Ela era tão jovem. Tão frágil. Agüentaria um resultado positivo? Teríamos forças para demovê-la da idéia de se suicidar?
Agora quem passou a não dormir fomos nós. Cada dia era uma árdua espera.
Tivemos que nos encher de forças para ir buscar seus exames.
Numa manhã de sábado, tive a infeliz idéia de ligar para o laboratório ,para saber se o exame tinha chegado.
A resposta foi afirmativa. E agora? Os únicos membros do grupo que sabiam do caso estavam numa cidade do interior, fazendo uma visita. Seria justo fazer aquela jovem esperar mais um final de semana. Fui buscar meu primeiro exame. A jovem plantonista me olhou com olhos estranhos. Na requisição estava escrito "HIV". Não agüentei chegar ao carro e rasguei o envelope: "Reação imunofluorescência Anti-HIV - NEGATIVA"
Não acreditei , e acho que fiquei uns bons minutos abobalhado , lendo e relendo aquela frase.
Chegando em casa , peguei o telefone e liguei para ela.
- Olha menina-moça, seu presente de São João: resultado negativo...
- Negativo é bom ou é ruim?
Não me contive e caí numa gargalhada. É bom companheira. Você conseguiu , através de um capricho da natureza e da acidez de sua vagina, conter o vírus ... parabéns!
Ela não se conteve de alegria, soltou o telefone e ficou dando gritos. Acho que seus familiares pensaram que ela tinha endoidado de vez. O que estaria fazendo ,pulando de alegria, aquela que só vivia pelos cantos das paredes choramingando? Esta foi uma historia com um final feliz. Quantas não tem este final?
O terreno está aberto para a AIDS e para as gravidezes precoces. Falta de informação adequada. É aquela idéia que AIDS é doença do "outro". Ou aquela que diz assim: "tá vendo que meu namorado, fofinho, gostosinho , pode está contaminado pelo HIV? "
Não nos cansamos de dizer que a AIDS não vê cara. Não nos cansamos de alertar que a fase da AIDS-Migratoria em C. Grande já passou.
Agora ,nos deparamos com a AIDS em grupos que fazem prostituição em nossa cidade. Já tem gente se sentindo aliviada quando a filha , que chorava pelos cantos da parede , diz está grávida , ao invés de está com AIDS. - Isto é uma absurdo! Da gravidez precoce para a AIDS não falta muita coisa. E mais uma festa popular passou sem que se desse ênfase à prevenção da AIDS. O animador dos palcos mandava um abraço para a barraca do "tuita". Ou, saudava o Sr. fulano de tal que acabava de chegar ao local. Em nenhum momento lembrou-se de alertar que "de prazer não se morre , se vive !". Que usar preservativo é questão vital!
Ame em legitima defesa - exija o preservativo!

Uma atitude amante



Um dia fomos amantes. Amantes da alegria, amantes da esperança. Brincávamos com areia, pés no chão, fantasias mil. Éramos amantes da vida para encontrá-la: a vida, os mínimos recursos de tempo e lugar. Tudo poderia ser transformado com um simples toque amoroso. O quintal velho, cheio de tralhas, transformava-se num palácio, onde a jovem e bonita criança fingia ser o rei ou rainha, ou até o valente guerreiro que iria resgatar a donzela. Amantes. Ah! Como era bom quando éramos amantes.
Depois “crescemos”, aprendemos a franzir o cenho, a trapacear com a vida, a mentir. Mentir para nós mesmos. Fomos sendo alimentados com alimentos podres e sem vida, matéria da qual se constitui os medíocres. Os dias se passaram e, quando olhamos nossas fotos infanto-juvenis, não nos reconhecemos mais. Profissionalizamos a relação com o próximo, instrumentalizando-o.
Você que lê este texto acredita, como eu, que não há nada mais revolucionário, nos dias de hoje, do que um casal de amantes?
Companheiro e companheira: amantes. Pais e filhos: amantes. Na profissão: amante. Na vida mística: amante. Na relação com os que nos cercam: amantes.
Ser amante é atitude. É cuidado. É zelo. Ser amante é despir-se e permitir que o outro faça em nós morada. Ser amante é sentir a presença do amado, mesmo a quilômetros de distância, irradiando fé e fortaleza em nosso caminhar. Ser amante é ter uma razão para voltar para casa. Ser amante é elevar o coração quando nos fere a retina uma árvore em flor, um luar, um por do sol e uma música romântica.
Mas não é fácil ser amante. É que a gente se acostuma com migalhas. É como se ao nascer recebêssemos um remédio de nome: poção de “amor”. Só que perdemos a receita que o acompanhava. Nesta estava escrito: “quanto maior o uso, em doses oportunas e na medida, mais conservadas ficarão a quantidade e a natureza deste precioso remédio”.
Como “perdemos a receita”, entendemos que aquela poção deveria ser cuidadosamente guardada e conservada, utilizando-a em pequenas doses e parcimoniosamente.
De tanto guardar, reter e conservar ela apodreceu e adoecemos. Em nosso ser, chagas visíveis de feridas narcisísticas. Em nosso ser, um coração apodrecido, dissimulando sua tristeza através de uma relação de ódio, poder, ter e “prazeres anestésicos” com os que nos rodeiam. Tristes, apáticos e opacos vamos conduzindo-nos como quem carrega seu próprio ataúde. Apenas sobrevivendo como plantas longe do sol.
O antídoto a isto tudo você sabe bem qual é. Quando uma voz grita no seu ser e diz “subverta a ordem reinante”. É a sua criança, rebelde e liberta, que apela para melhores dias.
Deixe esta criança agir em você. Você lembra a última loucura que realizou inebriado pela “droga” do amor?
Faz muito tempo?
Uma flor que remeteu para sua filha. Um CD que comprou de surpresa para o filho. Um telefonema chamando a esposa para um encontro caliente, após o trabalho, e longe da rotina do dia-a-dia. Ser amante é ousar. É expor-se a riscos, alguns imaginários outros reais. Ser amante remete à instabilidade e ao desequilíbrio, talvez por isso os verdadeiros amantes sacudam o pó da monotonia e consigam transformar “velhas em novas todas as coisas”. Conseguem, periodicamente, retirar a pasta que se acumula em seus olhos que, como um filtro, impede-nos de sorrir, namorar, beijar, perdoar e crescer profissionalmente. Amantes acreditam que os dias são urgentes. Que o efêmero fulgor da felicidade deve ser vivenciado em sua plenitude. Amantes não sabem quando será o próximo “encontro”, portanto vivem o de agora, com intensidade redobrada.
Amantes, de cedo, aprendem que a saudade é o maior termômetro para aferir suas próprias vidas. Saudade dos filhos. Saudade do colo e ternura de um abraço. Saudade dos amigos.
Saudade de quando ela lia os jornais, de quando assistiam a filmes juntos, de quando viajavam, ou quando nos dias frios eles se aninhavam tomando café e assistindo ao “Jô Onze e Meia”...
Amantes sabem, também, que a saudade é passageira, pois vivem de promessas e estas os seduzem e os elevam a outra dimensão. Que a saudade é a presença da ausência.
Um dia reivindicaremos o direito a ser amante e a amar como amantes. Descobriremos, a tempo, a receita que acompanhava o remédio do amor que recebemos ao nascer.
• Ser amante, no trabalho, é romper com o conformismo e pessimismo construindo uma nova relação onde a iniciativa, criatividade e mutabilidade sejam peças fundamentais. Ser amante de nós mesmos. Curtir, comentar e compartilhar a nós mesmos.

• Ser amante, no casamento, é todo dia reinventá-lo ou decretar o “último ano do resto de nossas vidas”. Não conhece este decreto? É um decreto que afirma que não adianta acrescentar anos a vida de casado e sim vida aos anos de casado. O casamento é vivido sem a pressão de “ter que dar certo” ou a moral de que “pelos filhos vale qualquer sacrifício”. Achar a receita e a poção deste remédio é nossa meta. É um jeito subversivo de olhar o que nos resta e tentar reinvesti-lo de um novo sentido. Vim achar minha receita aos 25. Ela estava perdida num cantinho escuro e de difícil acesso de meu coração. Achei quando fiz a mim mesmo a cruel pergunta: sou feliz?
Desde então minha vida transformou-se. Aos olhos dos outros, alguns outros “humanus mediocrinus”, para pior. Mas, o que fazer com as constatações deste grupo de humanos? Estes que se acostumaram ao mofo e ao pó acumulados nas coisas, quando estas perdem sua dinâmica. Só uma atitude é possível: dar descarga neles. Exercitar o ouvir do coração e a intuição infantil é procurar um espaço possível para a construção de uma vida amorosa e ludicamente feliz.
O que importa é a sensação de liberdade, de frescor, algo que só a justiça e a verdade podem produzir, já que, como diz o filósofo, a “felicidade é efeito colateral”. Então, amigo, procure com atenção sua receita. Não tema fazer a pergunta cruel e rever sua vida. Sempre há tempo, até no último suspiro, para ousar mudar. Avaliar a relação com o trabalho, com os filhos, com nosso companheiro e com a sociedade. E até nossa relação com o místico, com o espiritual que nos reveste de significado. Permear estas relações com a certeza da fragilidade dos dias e, portanto, com o cuidado e a atenção redobrados que estas requerem é preciso, e vital para a sua renovação.

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