Não Era Apenas um Rodo (Por Ricardo de Faria Barros)


Saí cedinho para pegar o primeiro horário na dentista, que me atende no Paranoá, uma das Regiões Administrativas do DF.
Ao estacionar, fui comprar pão de queijo, que já virou tradição levar para o pessoal da clínica. Um agrado para quem cuida muito bem de mim.
Olhei no relógio e vi que ainda faltava um tempão para meu horário das 9h, e que tinha chegado cedo demais.
Então, fui escutar músicas no carro. Enquanto isto, observo a abertura das portas dos estabelecimentos comerciais, para que seus funcionários entrem.
Vejo uns chegando mais apressados, por certo perderam a hora.
Outros se despedindo dos filhos, que devem ir para as escolas.
Um outro, aproveita para fumar lá fora, com um olhar distante.
De repente, eis que todos se reúnem na calçada e começa um verdadeiro ritual. Um com a mangueira, outro com balde, e tem a turma do rodo e da vassoura.
Demoro um pouco para entender o que ocorre.
Eles estão tirando o excesso de sujeira que está ficando nas calçadas, de acesso aos estabelecimentos, por conta de uma obra que por ali se faz.
Noto que uma das funcionárias não tem muita intimidade com o rodo.
E, até baixo o som do carro para ver a preleção da mais experiente.
"Amiga, faz assim, segura firme e passa como quem alisa um bolo, indo colado ao chão e para frente".
Ahh, agora entendi onde era o erro dela. rsrs
Mas, a carinha da mocinha era de quem estava chegando naquela firma agora. Talvez até nesta semana, na qual o comércio começa a aquecer com as festas juninas e as férias de meio do ano.
Ela meio que estava sem jeito com aquilo que ali ocorria.
Contido, ela sorria, um sorriso humilde, de quem não tinha ideia de que iria enfrentar uma limpeza de calçada, como parte de suas atribuições laborais.
Mas, ela não desistiu. Minutos depois, já estava toda desinibida, e até tirando onda com a outras, dizendo que o pedaço dela já estava limpo e o das outras ainda estava sujo e molhado.
Sorri também com ela.
E humanizei meu coração ao dela.
Podia ser minha filha. Podia ser a tua filha.
Se fosse a minha menina Priscila, hoje com seus 34 anos, e ela comentasse comigo nesta noite; sobre o que tem feito na primeira semana de trabalho, naquela firma do rodo, eu diria para ela ser a melhor lavadora de calçadas da equipe.
Simples assim.
Quando precisamos trabalhar, não há trabalho ruim. É o que temos para hoje e nele temos que nos envolver, até para que possamos aproveitar alguma oportunidade de crescimento. Ou para que num processo de demissão, nosso nome seja poupado.
Diria:
- “Priscila se envolva com o trabalho que tu tens. E, nele dê o seu melhor.
É importante que você ressignifique esta tua experiência.
No lugar de se sentir humilhada, envergonhada, sinta-se parte de um time, comprometida, engajada e conectada com o que precisa ser feito.
E o que precisava ser feito, nesta manhã, era criar melhores condições de limpeza para que os clientes acessem à tua empresa, e sem esperar pelos serviços públicos, que deveriam se responsabilizar por esta iniciativa.”

É importante olhar em perspectiva. Em muitas empresas são os próprios profissionais que assumem a copa e a limpeza. E isto não é desonra para ninguém. É que estas empresas, pelo porte delas, não têm condições de contratar zeladoras e pessoal da copa, para com este tipo e serviço.
Lógico, que quanto maior a empresa mais as funções vão se segregando e eu não consigo ver isto funcionando de forma legal, pois que seria uma forma de assédio, de desvio de função, e de economia ultrajante de custos.
Mas, não é o caso.
O caso é que não dá tempo de pensar em algo do tipo. A poeira é sazonal, fruto de uma obra local, e é preciso juntar o time e resolver a parada.
Eu já entrei em situações assim, quando trabalhava no BB, e não me senti humilhado. Embora não estivessem bem nas minhas funções, eu sabia que aquilo lá era uma contribuição e que eu podia ajudar.
Lembro quando Betinho foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz, o Banco do Brasil mobilizou a sociedade para angariar assinaturas que defendessem a indicação, a nível mundial.
O gerente da agência me chamou e perguntou se eu tinha coragem e aceitava ir para um ponto movimentado da cidade de Campina Grande-PB, o Calçadão, e ali ficasse angariando assinaturas.
Perguntei-lhe: “Cadê a mesa, as cadeiras e a prancheta com o abaixo-assinado? Vamos é pra já!”
Noutra vez, o BB foi convidado a pagar uma determinada quantia aos flagelados da seca, e o acordado era que eles não iam se dirigir ao Banco, e sim o Banco iria até eles.
O gerente perguntou qual caixa queria ir levando o dinheiro dentro de um carro da PF, e passar o dia pelos sítios, cooperativas, escolas e associações pagando os flagelados da seca. E isto por uns 15 dias.
Topei na hora.
Trabalhar naquelas condições insalubres, e de altíssimo risco, não estava nos meus planos, mas alguém precisava fazer. E eu entendi o contexto da iniciativa, e a ela me conectei, mudando a forma como muito de meus pares estava enxergando aquela iniciativa de filantropia social.
Esta mocinha me orgulhou muito.
De não ter desistido. De ter mudado sua postura. De ter treinado a resiliência e o trabalho em equipe.
De lutar por seu lugar ao sol. Num mercado de trabalho tão frágil e sem garantias como o dos profissionais do varejo. Principalmente quando a economia não está nos seus melhores dias.
Fiquei pensando nos rodos que posso pegar e ajudar na limpeza de tantas calçadas. Seja na minha família, seja na sociedade, seja nos locais por onde passo e que posso ser contribuição.
Sendo o melhor que puder para o mundo, e não o melhor do mundo.
Obrigado pela lição de profissionalismo e resiliência, mocinha do rodo de camisa vermelha. Sinta-se acolhida e respeitada.
Com certeza, você irá longe nas ocupações de trabalho que vier a assumir.




 

Sobre tampas e panelas. (Por Ricardo de Faria Barros)



"Aqueles lá, são a tampa e a panela."

Outro dia ouvi esta frase, e nunca mais olhei para uma panela e sua tampa, da mesma forma.
Você já deve ter escutado, não é?
É uma frase pequena, com apenas cinco palavras, mas que possui uma imensidão de significados.
Num livro bem recente, a pesquisadora Stephanie Cacioppo estuda os efeitos da tampa e da panela no organismo. Este livro, que ainda não tem tradução no Brasil, se chama Wired For Love.
Recentemente, Stephanie deu uma entrevista à Folha de São Paulo a qual transcrevo um pedacinho:

Folha de São Paulo (20/04/2022): O amor é necessário para a sobrevivência?

Stephanie: O amor é uma necessidade biológica, assim como a água, o exercício físico ou o alimento. Minhas pesquisas me convenceram que uma vida amorosa sadia é tão essencial ao bem-estar das pessoas quanto uma boa alimentação. Essa vida amorosa pode incluir seu parceiro amado, seu círculo de melhores amigos, um grupo social, uma causa, sua família ou até mesmo seu time esportivo favorito.
(Veja em https://folha.com/2wy3zcpv)

Nunca tinha parado para pensar no amor como uma necessidade biológica, e este arcabouço teórico abriu janelas de entendimento em meu ser. Que compartilho com vocês.

Somos "programados" e destinados ao amor. E não é somente o amor entre amantes. Ou seja, o amor de romance, de enamorados. Como a autora fala, é o amor em todas as suas matizes e manifestações. Um padre não tem esposa, mas ama seu sacerdócio, sua comunidade pastoral. Uma pessoa viúva, ama seus filhos, netos. Uma pessoa que não têm relacionamento estável, um amado para chamar de seu, pode muito bem estar em paz, para consigo mesma, e feliz, ao criar laços amorosos com amigos e filhos (caso descasada).

Então, a tampa e a panela falam de relações bacanas entre pessoas. Relações que nos causam bem-estar, que fazem o tempo passar sem percebermos, que nos conectam ao outro, intensamente, de forma emocional.

Olho para minha panela de barro e sua tampa. Aparentemente tão frágeis, mas que num conjunto formam uma parceria exitosa. E convido-lhes a refletir comigo, sobre o amor.

Modelagem - O amor da Tampa e da Panela, precisou ser moldado. Creio que o amor também precisa ser moldado. E, não há uma panela igual a outra, e não há um amor igual ao outro. Pois que são estados da arte, do artesão do tempo, que amassa o barro do coração e vai dando-lhe forma. O barro, na mão do oleiro, é esperança de um outro amanhã possível. Eu e você, vendo o oleiro trabalhar, não vemos a tampa e a panela. Ele vê. Ele vê o que ninguém vê. Ele sabe, para além da razão, que algo legal sairá de seu trabalho. Eu vejo um monte de barro sendo amassado. Ele vê o infinito do amor, vindo logo ali dobrando a esquina, e já cozinhando uma moqueca capixaba. Ele saca que algo ocorrerá, de bom, mesmo antes do ocorrido. Para ele, aquele barro dará liga boa. E não é assim com o amor? Quantas das vezes conhecemos uma pessoa, por breves instantes, e algo ocorre dentro de nós. E já não seremos mais os mesmos, a partir daquele instante. Em nosso corpo hormônios são produzidos, antevendo que dali sairá uma tampa e uma panela, e das boas. Alguns chamam isto de amor à primeira vista. Eu, chamo de um instante mágico, do olhar do oleiro sobre aquele barro. Então, o amor pede construção, nunca acabada, pede investimento emocional em juntos amassar o barro. O melhor molde é o perdão.

Temperança - Uma boa panela de barro precisa ser curtida. Precisa ser cozida, em fogo lento, e colocada para esfriar. Depois, antes de seu primeiro uso, precisa ser untada com óleo e colocada em fogo baixo, para criar resiliência. As melhores panelas passam por este processo, e duram uma vida toda. Então, os relacionamentos amorosos precisam passar pelo fogo. Precisam de renúncia, transparência e verdade. Precisam ser provados, testados e submetidos a tensões. Relacionar-se é criar um espaço para mediar prazeres e sofreres. Um espaço no qual não há vencidos, nem vencedores, mas que se constrói pela comunicação não-violenta, pela empatia e pela compaixão. E isto se faz no tempo, no dia a dia, no cotidiano. Não se cria temperança da noite para o dia. A temperança do amor se faz ao longo da história de vida, de cada uma das pessoas que se unem na tampa e na panela. Seja no romance a dois, o amor de Eros. Seja com amigos e família, o amor de Ágape. Não se fortifica a panela e a tampa sem perdão, sem respeito, sem confiança. Então, o amor precisa suportar as batidas da vida, em seu lombo, e no lugar de ficar mais frágil, ficar é mais forte ainda. A melhor temperança é a verdade.

Encaixe – Uma boa tampa, encaixa sem pressionar, na panela. Uma boa panela, encaixa sem pressionar, na tampa. Quem encaixa em quem? A tampa, ou a panela? Ambos...
Tem gente que acha que este encaixe tem que ser perfeito, sem deixar sair nenhum ar da panela, quando ela vai ao fogo. Sinto dizer, nem na panela de pressão isto ocorre. Se não tiver uma folga, uma abertura, se a tampa for presa na panela, hermeticamente falando, ou a panela na tampa, aquilo lá vai explodir. Quando cozinhamos uma feijoada, é preciso que o vapor do cozimento escape, não totalmente, mas que escape um pouco. Creio que o amor também tem desse tipo de encaixe. Precisa de válvulas de escape, nas tensões diárias que ocorrem naturalmente nos relacionamentos. Precisa de espaços de individualidade, nos quais cada um tenha seus próprios motivadores, que funcionam como “respiros” e que arejam a relação. O amor pede este encaixe de minha panela de barro, que não aprisiona, que não domina, que não tem o outro como “coisa sua” e o manipula. O amor odeia Narcisos. Pessoas narcisistas tendem a querer que o outro se pregue nela, como se fossem fechados nelas mesmas, parte delas. Isto é uma fantasia de poder, terrível para quem já a viveu. Pois que sufoca o amor. E isto causa muito sofrimento. Causa uma co-dependência de modo que uma das pessoas, da relação, não sabe mais viver sem o outro, ou os outros, e isto tira dela mesma a vida. A pior forma de encaixe fixo, sem abertura, sem liberdade, é o ciúme doentio. Então, o amor precisa de liberdade, de autonomia, de individualidades a dois. Não deve ser panela e tampa de cara metade. Mas, panela e tampa de caras inteiras. O melhor encaixe é a empatia.


Então, quem tiver sua tampa e panela, cuide bem dela. Sua amada, seu amado. Seus filhos, netos. Seus amigos. Seus grupos sociais. Seus animais de estimação. Tudo aquilo em que deposita o mistério, a mágica, a tesão de amar e ser feliz!  
Felicidade tal aquela de quem acha uma Flor do Mar (*), para temperar sua moqueca, feita com uma boa panela e tampa.  

(*) Flor do Mar, ou Orvalho do Mar, era como a flor do Alecrin era chamada na Idade Média. Por seus poderes terapêuticos, gastronômicos e aromatizantes. Que cura, alimenta e perfuma, como um bom amor deve ser. 

Partilhar, gesto revolucionário, em tempos tão mesquinhos. (Por Ricardo de Faria Barros)

Acordei cedinho para botar o feijão no fogo.

Certifiquei-me de não ter nenhuma cadeira próxima do balcão da cozinha, para que meu cachorro não queira colaborar no prato. rsrs

Hoje, Dona Rose vem aqui em casa, minha Santa diarista, então é dia de cozinhar para o pessoal do lava jato.

Eles gostam de meu feijão gordo, com carne e ovos.

O pessoal do lava-jato do Antônio está sendo uma das melhores coisas que já me ocorreu, em 2022.

São pessoas batalhadoras, que sabem agradecer o pouco que possuem, pessoas de paz, bondade e cheios da luz de Deus. Quantas das vezes já me sentei com eles, à mesa de café, e saí dali com o coração aquecido.

Sim pessoal, o Antônio teve uma ideia, há muitos anos, de colocar uma mesa de café ao lado de sua Kombi Lava Jato, e nela vão ficando os clientes, amigos e eles próprios. Sempre que o momento permite, que há um vale, eles ali se sentam e proseiam, entre um copo de água, um café, um bolo, ou suco. Antônio e Janete formam um belo casal (Eles estão sentados e juntos numa das fotos), já o Jader, o de camisa mais clara e que está de pé, é uma figura ímpar. Ele fica sempre atento aos que por ali passam. E para eles oferece uma água, um café, ou um pedaço de pão com manteiga, seja a uma profissional de limpeza pública, um morador de rua, ou um motorista de caminhão de entrega. Jáder não deixa ninguém sair dali sem beliscar algo. O Zezinho, este de sorriso farto, que está sentado, é um eletricista dos bons, e gosta de bode.

Zezinho podia ter como sobrenome Conversa Gostosa. Outro dia ele me contou do seu fornecedor de bode, que vem lá das terras de sua parentada, no Piauí. E não é qualquer bode, é bode de sol, uma iguaria.

Se você já foi em Teresina, no acesso ao aeroporto têm vários sendo vendidos à margem da estrada. Então, fiquei animado com a possibilidade de comer algo que sempre desejei, ao voltar de um curso que ministrei por lá, e nunca tinha parado pra comprar, e encomendei 1/4 de bode de sol. Já tinha até me esquecido do fato, dado o tempo que fazia, quando entre um tempero e outro, do feijão, piscou uma mensagem no meu celular.

- "Corra, venha buscar teu bode que ele está sendo muito disputado".

Oxente, deixei Dona Rose pastoreando a panela de pressão e fui lá no lava jato. Há tempos que eu encomendei do Zezinho um quarto de bode de sol. Nem acreditei que chegou.

E, houve até foto da entrega da iguaria, gerando uma felicidade em todos - daquelas de crianças brincantes.

Morri de rir com o Zezinho contando que aquele meu pedaço de bode de sol, quase provoca uma guerra na família dele.

Pois, o cunhado dele ficou de olho no meu bode. Contudo, Zezinho fincou o pé, e não deixou que ele ficasse com ele.

Voltei pra casa sorridente, e com o coração aquecido, e pedi pra Dona Rose documentar a foto do bode, agora aberto do saco. Enorme e belo. A panela do feijão começa a apitar e a cozinha fica incensada com cheiro bom, de comida feita na hora.

Lembro que adquiri esta rotina, de semanalmente fazer um feijão para enriquecer o almoço daquela turminha amada.

Aprendi este lance de cozinhar para alguém, com o Hayton Jurema - colega aposentado que tem um blog maravilhoso e que recomendo que leiam os textos de lá (https://www.blogdohayton.com/). Num de seus textos, eu fiquei sabendo que a sua mãe, Dona Eudócia Jurema, 83 anos, 10 filhos, 22 netos e 24 bisnetos, paraibana e residente em Maceió, quando faz o almoço pra ela, sempre coloca mais arroz na panela, mais carne e água no feijão, e convida os porteiros do prédio para partilharem de sua comida. Ela cozinha pra ela, e pra eles. Todos os dias.  (Na foto, Dona Eudócia está entre o Hayton e sua esposa, a Magdala) 

Partilhar, talvez seja a mais revolucionária experiência humana, em meio a uma sociedade tão não-empática, gananciosa e individualista na qual vivemos.

Recentemente, do nada, o Antônio trouxe para mim, pois soube que eu adoro cachaça, um litro de uma temperada no abacaxi, que o irmão dele faz, lá pras bandas de Cocal, no Piauí. Esta será tomada nos finais de semana, aos poucos, lembrando-me agradecido deste gesto de partilha para comigo.

Desligo a panela, escorro a água, para amassar o feijão e engrossar o caldo, e abro um sorrisão, daqui a pouco será festa, quando por lá eu chegar. E, hoje acertei no sal, atendendo a um pedido do Zezinho que quase morreu de pressão alta, ao comer o último feijão que levei e que tava salgado.

Tenho percebido que minha vida ficou mais alegre, a cada manhã, e que não tomo mais café sozinho. E que vou me interessar pelas histórias de vida deles e aprender muito.

Então, em meu coração, há só gratidão por ter conhecido mais pessoas-luz e que fazem a diferença no meu dia. Ontem, me flagrei comprando coisinhas pra ir tomar café com eles. E foi uma festa. Na ocasião, passou o Emanuel, da Pizza César, que também frequenta o point, e deixou uma pizza divina. Antes de sair, chegou o Marcos, médico acupunturista, e acabei ficando mais um bocadinho. O Marcos atende a Janete, esposa do Antônio, e sem cobrar nada. Mais um gesto revolucionário de partilha. Então é isso. Têm lugares que os anjos de Deus resolvem fazer morada, descansando de tantos corações amargos pelos quais precisam interceder. Ali, naquele local, eles se fazem presente e conosco se divertem. não há conversas sobre mágoas, sobre ressentimentos ou coisas ruins. A conversa gira em torno do lado bom da vida, que pode ser o forro da casa do Antônio que foi colocado... Ou, a alegria de finalmente o Zezinho regularizar o carro dele. Ou o Jáder, falando alto, chamando transeuntes pra boiar conosco, e sendo repreendido para não gritar, ao que todos caem na risada.

São dessas coisas que também é feita uma vida boa.

Obs: O point do Antônio fica na entrequadra da 205-204 na ASA Sul, Brasília, perto da rotatória que dá acesso à Rua dos Restaurantes. Passa por lá, quando estiver por Brasília. Tem sempre uma água geladinha, uma sombra, um café e uma prosa gostosa para te acolher. Sim, e teu carro, se for lavar, sairá como novo de lá. Teu carro e teu ser.

A presença da ausência... sobre um coração enlutado. (Por Ricardo de Faria Barros)

 


A mensagem do BB, com algo entrando em minha conta, fez um plim-plim no celular. Qual a minha surpresa, dessa vez não era de débito e sim de crédito.

Era papai mandando um dinheirinho pra mim.

Um tanto atônito, fiquei com o olhar fixo naquela tela por uns instantes, me sentindo perdido, longe, saudoso e lacrimejante, tentando entender o que ocorrera, dado que papai falecera em outubro-2021.

Então, lembrei que mamãe estava indo ao BB, sacar as cotas partes da conta corrente e poupança de papai, como resultado do inventário, e que aquele lançamento deveria ser o meu quinhão.

Mas, confesso-lhes que fiquei incomodado. Achava que o valor viria da conta de mamãe, sacado por ela na boca do caixa, e depositado por ela – como inventariante, para os filhos herdeiros, cada um com seus 16,66%.

Quisera o bom Deus que a última comunicação de papai, no mundo terreno, quisera ser assim, ele mandando um dinheirinho para mim, e aparecendo o seu nome em meu extrato bancário.

Outro dia escrevi um texto sobre uma criancinha que ao ser levada para a escola, abraça a sua mãe e diz assim: “Eu queria ir com você para o trabalho”.

Naquele texto eu disse que também tenho meus Querias. Querias impossíveis, mas legítimos de tê-los.

O meu era mais um tempo com meu pai.

Quem já perdeu alguém que ama sabe que não adianta as convencionais fórmulas de consolo:

- “Foi melhor para ele”.

- “Ele está no Céu”.

- “Deus deu, Deus colheu...”

- “Ele cumpriu sua jornada...”

Escutamos, com compaixão, todo mundo que nos consola com estas frases. Que não são ditas por mal.

Mas, quem sofre com o luto da perda de uma pessoa amada, apenas sofre.

Nada consola. Nada apaga. Nada substitui.

A saudade dela aparece ao longo do dia, em cenas variadas. Seja em coisas do cotidiano que gostaríamos de trocar uma ideia com ela; seja nas lembranças dos bons momentos vividos juntos.

Então, parei de lutar contra o luto de meu pai.

Agora o acolho. Deixo ele vim, converso com a dor, fantasio situações, e ele vai ficando quietinho no fundo de minha alma.

Papai virou uma presença ausente. Está por perto e não mais me faz sofrer. Aceito que ele se foi, e aguento o tranco de quando ele me vem à cabeça, e me causa um buraco no coração. Daqueles de tirar o aroma, as cores e os sons do ambiente, e que nada faz sentido naquela hora.

Assim é o luto de um amor.

Perdemos. Pronto, acabou. Não adianta ficar com metáforas, do tipo: “ele continuará vivo...”.

Continua não!

Tá certo que sempre que lembramos de algo, trazemos-lhe ao coração.

Mas, é bem diferente de amanhã eu acender o fogo da churrasqueira e não ter papai por perto, escalando-se para fazer o serviço que ele amava: botar fogo no carvão.

Amanhã estarei só, acendendo o fogo. Ele estará presente, sim, em pensamento. Mas, não me venham com consolos banais que isto substitui. Substitui nada!

Nem consola.

Apenas se manifesta e pronto. E eu vou acolher a saudade, a presença dele, mesmo na ausência. Talvez chore um pouquinho, escondido do João Gabriel (12 anos).

Às vezes me pego tendo raiva ou culpa, e também passei a acolher estes sentimentos. Raiva de não ter ido mais vezes ficar com ele, em Campina Grande, 2.500 km de Brasília.

Culpa de não ter dito a ele mais vezes que o amava, e o quanto ele era importante para mim.

Então, agora não brigo mais comigo. Apenas digo pra mim mesmo: é verdade! Tu poderia ter se esforçado e ter ido mais vezes, e também poderia ter dito que sentia muito amor por ele.

Só digo, é verdade!

Não luto mais contra a dor da saudade, e as culpas e raivas dela derivadas. Apenas acolho.

Perder um ente querido é como perder uma parte de nosso corpo. Que mesmo sem ela está mais presente, na mente a sentimos como que estivesse. Pessoas que já amputaram membros relatam isto.

É mais ou menos, guardadas as analogias e proporções, como se sente um coração enlutado.

Então, pare de lutar contra a dor da ausência. Pare de se agoniar com aquele amor que perdeu. Que se foi.

Apenas o acolha como parte de tua humanidade, de tua essência.

A pergunta não é: por que comigo? E sim: por que não comigo?

Paro de escrever um pouco e aceso meu extrato, para ver novamente seu nome na minha conta, para senti-lo por perto neste Sextou.

Aceito que estou carente dele, e o escuto dizendo que se fosse o contrário eu estaria dizendo para ele reagir.

Para botar uma roupa de sextou e dar uma voltinha de carro. Para achar algo pra entreter a mente, deixando de fixar os tempos dos dias na falta que o outro faz.

E papai está certo.

É preciso distrair o verbo do sofrer, achando coisas para se entreter e retomar a vida. É preciso seguir a jangada da vida, com velas bem abertas, aproveitando os ventos de cada amanhã, aqueles que nos projetam aos infinitos de nós mesmos.

Mas, não é preciso seguir só.

Vem comigo papai. Fica aí na minha jangada, sendo essa presença amiga e amorosa, incentivando-me em cada conquista. E apoiando-me a cada derrota.

Tua presença, na ausência, é mais presente do que a de muitos por aqui viventes.

Então, eu aceito, acolho, permito-me e renasço – num outro esboço possível, agora sem mais você!



Onde Mora o Teu Queria? (Por Ricardo de Faria Barros)




O dia amanhecera esfuziante, numa peleja do sol com as brumas, daquela que nos atrai para a cama, para contemplá-la languidamente.  E ver quem vai ganhar esta disputa, a luz, ou o resto de noite embaçada e molhada.

Mas, o Toddy, o meu Shitzu, sempre me lembra que é preciso levá-lo fazer as necessidades lá fora, e que já estou atrasado.

Então, sigo meu roteiro com ele.

Neste trajeto, sempre passo por uma escola infantil, e adoro escutar a algazarra das crianças ali chegando. Algumas, até acenam para o Toddy, que desconfiado como é, só olha pra mim sem saber como reagir àquele carinho por trás das grades.

Contudo, hoje, algo ocorreu diferente.

Não sei se foi o horário que saí, já um pouco mais tarde, beirando as 8h, mas uma cena marcou.

Uma criança vinha abraçada com a sua mamãe, em direção à portaria da escola, e falava chorando, e em voz alta, dizendo assim:

“Eu queria ir para o trabalho com você...”

A mãe nem responde, passa por mim e o Toddy, com a face tomada pela emoção. E o jovenzinho, de uns 4 anos, repete a frase, com conjugação e ênfases perfeitas, mesmo entrecortada por soluços:

“Eu queria ir para o trabalho com você...”

Aquele jovenzinho passou metade da existência dele vendo a mamãe trabalhar em casa. Com certeza, ela deve ter voltado para o trabalho presencial. E, não está sendo fácil para ele a readaptação, assim como também para quem cria animais, que se acostumaram com seus donos em casa, por dois anos.

Aquela criança tocou-me profundamente.

No seu lamento, ela sabe que não é possível, porque não usou o verbo no Presente: “Eu quero!”, fazendo uma birrenta cena.

Ela usou o pretérito imperfeito, do indicativo, e não o presente.

E, não era birra. Era uma súplica, um desejo profundo, um querer. Que a tadinha sabia que precisaria adiar, até a volta da sua mamãe para lhe pegar.

Quem tem um querer não morre jamais. Um querer nos mantém acesos. Nos coloca em rumo de algo, algo que queremos: “eu queria ir para o trabalho com você”.

E, nos ensina a adiar satisfações. Nem tudo que queremos é para agora, mas isto não invalida o querer. Nem o desqualifica. Nos impõe limites, para entender que não podemos tudo que queremos.

Quem tem um querer, tem um porquê viver.

Quem tem um querer, de algo bom que ocorreu, ou que quer que ocorra, tem o prazer na pauta, tem o sentido do desejo bem potente. E isto nos mobiliza, estimula e nos faz correr atrás, ou valorizar as coisas boas.

Aquele menininho tinha uma boa experiência da mamãe no trabalho, e queria ela novamente, que significava ela por perto dele. E como é bom isto.

Gostaria de ter abraçado aquela criança. Um abraço solidário, de quem também tem um monte de Querias.

Eu queria mais um tempo com meu pai.

Eu queria que minha cidade natal fosse mais perto.

Eu queria poder voltar à infância de meus filhos, e ter feito mais registros deles.

Jovenzinho, obrigado por me lembrar de meus Querias.

Pois, quem tem um monte de “Querias”, aprende a defender os “Eu Quero”.

E, é nos EU QUERO que vida acontece.

Nos Eu Quero, estão as coisas pelas quais lutamos, defendemos e nos esforçamos para que ocorram, mudem, e se façam presentes em nosso viver. Está a força!

Cultive sementes dos campos do Eu Quero.

E acolha as do Reino do Eu Queria. Entendendo que nem tudo que queremos é possível, mas que mesmo assim, não somos proibidos de querê-las.

No querer, habita a energia que transforma vidas, situações e ambientes, movendo o carrossel do destino.

O que você se abraça com tua mãe, ou pai, e diz que queria e que não é possível que aconteça?

Que tal acolher este sentimento de perda, de frustração? Que remodelar esta expectativa? Que tal lidar melhor com a frustração de satisfações desejadas?

Num "Eu Queria" habita o limite, a certeza que não podemos tudo, embora digamos o que era que queríamos. Talvez umas das sabedorias da vida seja a de transformar, pela nossa ação consciente, alguns Eu Queria, em Eu Quero. E alguns Eu Quero, em Eu Queria. Acolher e aguentar o tranco de desejos impossíveis. E correr atrás dos sonhos, para além das intenções. Se mexendo com foco, disciplina e esforço para que venham a ocorrer.

E onde mora o teu querer possível, consciente e libertador?

Aquele querer que te faz único, que te leva a perseguir desafios, metas, objetivos ainda tem lugar em teu ser, ou está desistindo dele?

Lembre-se que são eles, os quereres, os motores que fazem girar, para outro lado, além da apatia e inércia, o carrossel do destino.

Toddy queria passear mais um pouco, mas terá que adiar este querer, afinal eu precisava produzir este texto.

Sangramentos na Saúde Mental


Recentemente, promovi uma enquete para aferir, de doze situações problemas, que drenam a energia emocional quais mais estão pesando na vida das pessoas.

Fazendo um ponto de corte em 50% delas, ou seja, verificando as seis mais votadas, algumas coisas chamam a atenção.

Ansiedade: A primeira delas, é a questão da ansiedade para com os riscos do amanhã. Creio que isto se deve ao que esta Pandemia tem deixado de sequelas em nossa percepção de futuro. Ninguém está em seu melhor normal, e fica sempre girando em nossa cabeça uma ameaça invisível que quando vamos achando que acabou, começa tudo novamente. E, com isto, não temos como construir planos para o amanhã. Nem um prosaico carnaval, ou Semana Santa, escapam desta insegurança. É como se ao começarmos a fazer projetos, chegará uma nova sigla grega pra nos agoniar: Delta... Ômicron... qual será a próxima. Também paira em nossas mentes, além das ameaças biológicas, existem as do meio ambiente. Como a  destruição dos recursos naturais. Além disto, a Humanidade tornou-se mais agressiva e muito intolerante. Acompanhe os jornais, de qualquer parte do mundo, e veja a barbárie se manifestando em cenas de insensibilidade social, e isto apavora. É como se estivéssemos sós, na multidão. E que algo de ruim estivesse escondido, na próxima esquina, preste a nos atacar. Então, estamos todos mais ansiosos com o futuro. E isto consome muita energia emocional.

Finanças: A preocupação com as contas aparece como a segunda mais votada. Quem tem mais de 40 lembra do que era o Brasil da inflação galopante e teme muito que aquilo lá volte. E, independentemente da idade, todos sentem no bolso que a inflação voltou: combustíveis, carne, taxas de juros nas alturas e preços de tudo acompanhando. Então, meio que todo mundo tá com a corda no pescoço. E quem tem financiamentos, ou empréstimos atrelados à indexação da inflação tá penando. Aliado a isto, houve uma sensível redução da oferta de novos postos de trabalho e redução no poder aquisitivo. Então, quem diz que dinheiro não traz felicidade, não leu a pesquisa que afirma isto direito. E não é bem isto que aquela célebre pesquisa descobriu. O dinheiro, quando não mais supre as necessidades de uma vida digna e com qualidade, pode ser uma fonte de insatisfação e infelicidade sim. E muito!

Insatisfação Laboral: Não acredito que tenha sido o trabalho que mudou, dos anos 80 pra cá. Acredito que quem mudou fomos nós. Que passamos a não mais idolatrar o trabalho, e a querer um significado maior daquelas horas que a ele dedicamos. Então, não se trata só do aumento da pressão por metas, equipes menores e prazos mais curtos. Isto estressa e consome o juízo. Mas, creio que no fundo o que mudou mesmo foi a nossa percepção sobre as horas ao trabalho dedicadas, e o quanto elas precisam de propósito. Antigamente a pessoa dizia que o trabalho era um fardo, e ficava carregando aquele fardo a vida toda, resignada. Hoje, temos a compreensão que de não se pode fazer isto com a própria vida: ao adiar para um dia no futuro, a felicidade. Então, creio que a insatisfação laboral tem muita relação com este novo ser humano que está nascendo, que não mais quer adiar uma promessa de felicidade futura.

Conflitos Laborais: Confesso que não esperava que este vetor de infelicidade estivesse tão bem pontuado. E isto me chama muito à atenção. E são conflitos tanto na relação da liderança, com os liderados. Como, entre os próprios liderados. Não que eu seja inocente para achar que estes conflitos não existiam. O que me marcou foi a posição de destaque deste nível de sofrimento. O que nos leva a refletir se o ambiente de trabalho não está reproduzindo um modelo de sociedade, menos inclusivo, menos tolerante e muito mais agressivo do que dantes. Imagine a sofrência que é trabalhar 8 horas do dia ao lado de pessoas mal resolvidas, emocionalmente falando, e com uma chefia com pouca inteligência emocional. É o inferno aqui na Terra. E, isto causa muitos riscos à saúde mental. Fica o alerta para nossas áreas de desenvolvimento de pessoas continuarem os investimentos em treinamentos com esta finalidade.

Dores de Brasil: Este indicador entrou no final de uma sondagem qualitativa que fiz, antes de produzir os doze itens da enquete. Este foi mais um que muito me chamou a atenção, a sua posição na enquete. Não estamos felizes com este Brasil que está aí. E, nem vou pontuar as causas-raiz desta infelicidade, pois que as mesmas compõem um verdadeiro caleidoscópio de diferentes matizes. Contudo, creio que os extremismos políticos, num Fla x Flu que nunca acaba, tira a paciência de todo mundo. Não há um projeto de nação coletivo. E, quem pense um pouquinho, para além das bolhas ideológicas onde habita, perceberá que este país está muito longe de se tornar uma Nação. E está carente de transformação social nos vários projetos de Estado, em qualquer que seja a Nação: moradia, trabalho, educação, saúde, economia, mobilidade e segurança pública.

Desgastes Amorosos: Como manter uma relação a dois saudável, sem deixar que ela seja impactada pelos 5 fatores acima descritos? Não é fácil. Creio que a Pandemia também teve sua dose de contribuição, nos desgastes das relações amorosas afetivas. E não sou dos que romantizam a vida a dois. Há períodos de esfriamento, há períodos de silêncio e rupturas. Mas, talvez o que esteja saltando os olhos é o fruto de dois anos de Pandemia na vida a dois, como as tensões derivadas de tudo relacionado com esta doença. Também houve alterações nas dinâmicas dos lares, com aumento da disputas de espaços, interesses e negociações de conflitos derivados de toda uma vida que precisou ser adaptada. Além do que as pessoas fizeram contato com suas emoções mais profundas, pelo contato frequente com o luto e o medo, e isto faz com que não se aceite – como antes se aceitava, algumas vivências a dois, esperando que o tempo as resolva por si mesmo. Não há tempo!

E,  talvez tenha sido este o principal legado que os dias quarentênicos deixaram em nós. A percepção da finitude do tempo. 

Esta enquete pode ser repetida, de forma mais científica, com a segregação dos resultados por região, sexo, idade, renda e outros dados. Mas, não foi nosso objetivo. A ideia era obter uma foto geral, da influência de doze narrativas de sofrimento - verbalizadas no contexto das reflexões proferidas pelos participantes das mais de 20 turmas do Curso Gestão das Emoções e Saúde Mental, por mim conduzidas, tanto na gestão pública como na privada. 

Tal qual uma colcha de retalhos, podemos dizer que os itens mais votados, abaixo listados, e que drenam a saúde mental,  revelam preocupações relevantes e profundamente humanas:

  • Para com o amanhã;
  • Para com o custeio (R$) do presente;
  • Para com os Sentidos do Trabalho;
  • Para com o ambiente relacional profissional
  • Para com o Brasil;
  • Para com a vida a dois.

Como a maior parte destas situações-vampiros emocionais são estruturais, com pouca transformação no curto prazo, ou pouca área de responsabilização pessoal, para sua eficaz resolução, o que a enquete sugere é que precisamos, todas e todos, fortalecer nosso autocuidado emocional. Criando resiliências, melhorando nossas capacidades e recursos pessoais internos - para acolhimento do que não se pode mudar, e coragem para o que depender de nós transformar. É preciso que cada um busque seus paliativos emocionais, coisas para relaxar a mente, para se desligar um pouco deste mundo de ocorrências difíceis, buscando momentos de paz, em meio às guerras. Existem bons paliativos: atividades físicas, meditação, práticas da espiritualidade, dedicar-se às causas sociais, engajar-se em coisinhas que quando faz sente prazer e paz, consumir muita cultura, e cultivar um monte de bons amigos. Estes itens, não excludentes de outros que tenha, são cada vez mais imprescindíveis ao cuidado com a saúde mental e bem-estar emocional positivo. 

Uma Mala Sem Alça, é Apenas uma Mala Sem Alça, E Não TE Dominará! ( Ricardo de Faria Barros)


Pegamos um vôo saindo de João Pessoa para Brasília, daqueles que partem cedinho, e estávamos mortos de cansados, mas um cansaço dos bons, de muitos dias de sol e praia, além do aconchego da família e amigos.
Depois de dirigir uns 100 KM até o aeroporto, tudo que eu queria era um soninho reparador, naquele início de manhã de uma segunda ensolarada na Paraíba.
Mas, atrás de minha cadeira vinha uma criança, de uns 5 anos, e bem inquieta. Daquelas que a mãe se esforça para ela ficar mais calma e todas as iniciativas se revelam infrutíferas.
Eles viajavam sós, mãe e filho.
Lembrei das viagens com os meus 4 filhos, e como muitas das vezes não temos controle sobre as situações que ocorrem e precisamos de muita calma.
Pois bem, o menino a cada 15 minutos esticava as pernas e batia no encosto de minha poltrona, bem na hora em que eu já deixava me embalar pelo ruído branco (*) que vem dos sons do motor do avião.
Depois da terceira tentativa de dormir, desisti e fui deletar fotos em excesso que tirei e que ocupavam significativa memória do celular.
Chegando em Brasília, ao pegar as malas despachadas, percebo que a alça de uma delas se fora. Já era, escafedeu-se!
Pensei comigo, estou tão cansado, e esta mala de mão custou-me pouquinho, que nem vale a pena entrar nas morosidades burocráticas para tentar resgatar algum valor para o seu conserto.
Abro o apartamento e uma sensação boa, de retornar ao lar, me invade. Mas, eis que quando adentro no meu quarto percebo que o ar-condicionado estava ligado. Pensei comigo, eita!!! E fui checar o controle remoto, percebi que a função Timer ficou ativada. Ou seja, ele ligava sozinho.
Restabelecido do aborrecimento, que irá pesar na conta de energia, e comprometer mais ainda o saldo bancário pós-férias, quem já tirou férias sabe o do que falo, atendo o telefone.
É a neta do Sr. Valdecir dizendo que o meu cachorro voltou do banho e já está pronto pra ser entregue, na sua casa.
Eita, mas não seria só amanhã, na terça, que eu iria pegá-lo? Acessei as comunicações e vi que coloquei o dia da segunda, como o dia de pegar. Eu tinha errado. Então, tomei de um restinho de energia que ainda tinha e dirigi mais 50km para ir buscar o Toddy.
No retorno, abro a caixa de correspondências e vejo que tem uma dos Correios, informando que fui taxado numa mercadoria que importei, e que se não pagar o imposto ela será retida.
Aí, já foi demais para um dia só.
Abri a geladeira, peguei uma feijoada que estava no freezer, junto com uma cerveja estupidamente gelada.
Botei no youtube uma música que gosto muito chamada Conselho, e finalmente me senti chegando em casa;
Na cabeça, as emoções negativas, de um monte de dissabores, minavam dias de felicidade. Ficando remoendo em minha mente.
Aí, intervi com a técnica de modulação cerebral.
É quando você, de forma consciente e intencional, dá uma dura em si mesmo, ressignificando os desprazeres e aborrecimentos que passou.
E comigo funciona assim.

Identifico o que está ruminando no meu cérebro, causando uma azia emocional e infeccionando áreas boas.

Tomo um gole de cerveja, me delicio com a feijoada, bem apurada em dez dias de freezer, e volto às cenas, reelaborando-as.

- O menininho do avião. Ao me deixar acordado, ele me fez fazer algo que esqueço e que enche a memória do celular, apagar fotos em duplicidade. Além disso, minha atitude empática, de não reclamar com a mãe, acabou por ser para ela um lugar de paz. Ela iria ficar mais nervosa ainda com o seu filho. E com um vôo cansativo para crianças, que já estão agoniadas com a máscara. Sim, também me proporcionou poder deitar o JG no meu colo, já que ele estava na cadeira do meio. E eu na janela. 
Ter estado acordado, deu-me uma chance de melhor cuidar dele.

- A alça da mala. Bem, era nessa malinha de mão, que eu a despachei, que estava meu notebook com centenas de aulas nele. E que uma delas já daria no dia seguinte. Então, poderia ter sido pior, poderia ter sido extraviada. Ou ter acontecido na outra mala, a do JG, que é metido a estilosa e bem, mais bem mesmo, mais cara.

- O Ar Condicionado. Poderia estar numa temperatura mais baixa, e estava programado para 25 graus. Ou seja, usou menos o compressor e gastou menos energia. E, todos sabemos que aparelhos que ficam ligados por muito tempo podem causar incêndios, o que não ocorreu.

- O Cachorro. Bem, ter ido buscar o Toddy, mesmo cansado, me deu fartas doses de afeto canino, e ainda me fez prosear um pouco com meu terapeuta, Sr. Valdecir, energizando-me para o curso que daria no dia seguinte. Sem falar, que antecipar a ida me fez ter uma agenda mais livre, na manhã do outro dia, para fazer os preparativos para uma tarde de aula. Eu sempre mexo nas aulas, horas antes delas começarem.

- A Cobrança do Imposto de Importação - Bem, pelo menos foram só 15 reais. E se tratava de um Drone que a fabricante estava repondo para mim, após constatar que o que houvera mandando antes, tinha vindo com defeito de fábrica. O imposto poderia ter sido bem maior, pois um Drone deste tipo custa uns 500 dólares. E, o fato de ter pago a tempo, a fatura que veio para minha correspondência, faltando 5 dias para ele ser retido (por falta de pagamento), já fez com que o mesmo esteja vindo para Brasília, tenha sido despachado.

Tomo mais um gole de cerveja, abro um sorrisão, e agradeço a Deus ter uma feijoada amorosa me esperando, além daquela geladinha. Agradeço a Deus ainda poder ficar com o JG mais um dia, pois a mãe autorizou que ele só fosse na boca da noite da terça.

Fecho os olhos e volto para praia, para os passeios, para as reuniões com amigos e família,  para um dia de lancha, para o prato com Osso-Buco que fiz, para o Esperanto e o Restaurante do Contêiner Bar, em Forte Velho, para o nascer do sol, para o nascer da lua, para a Laís... para tantas coisas que encheram meu coração de ânimo!

Funciona sempre, esta técnica de intervenção nas ondas negativas ruminantes, não!
Mas, posso te garantir, que pelo menos em 60% das vezes ela funciona, e muito bem.
E, diga-se de passagem que no cotidiano diário, intervir com 60% de êxito nas coisas que nos fazem ficar remoendo, e sofrendo por terem ocorrido, já nos fará um bem danado de bom.

Ser mais feliz é uma escolha, intencional, consciente e possível. E que se faz com a leitura por outras perspectivas, mais otimistas e até lúdicas, do que nos ocorre a cada minuto. 
Se eu não posso mudar determinadas situações que me causaram aperreio, ainda assim eu posso mudar a mim mesmo, pela forma que me deixo abater por elas.


Nota: (*) Ruído Branco - O ruído branco, na verdade, é um som que emite frequências na mesma potência. Isso quer dizer que não há variação de intensidade ou altos e baixos. Ele é contínuo e cria uma espécie de barreira sonora para abafar sons vindos de fora. 

Faça-se Sombra!


Acordei cedinho para ver o primeiro nascer do sol de 2022. Ver o sol nascer, o sol se pôr e a lua cheia são, para mim, terapias naturais, tônicos para almas.
Dei sorte de terem poucas nuvens na barra do horizonte e assim pude vê-lo erguendo-se da noitada no Japão, é já todo majestoso.
Focando mais ao centro, após um bom tempo de contemplação, acho que vi um coração sorrindo, chamando-me para o belo café da manhã que Dona Celina com tanto amor nos prepara.
Refeito da alma e do corpo, com o coração aquecido pelos efeitos do pão e da beleza, saí pelas 7h para minha caminhada de praia.
Na caminhada de ida, dos primeiros 2km, encontrei uma família divertindo-se com uma bebezinha, fazendo piscininha de praia pra ela.
Sempre achei esta cena tocante. Acho que quem constrói piscininhas na areia de praia, para refrescar os seus amados, revelam parte do que a humanidade tem de melhor.
No retorno, para os 2km da volta, decidi me aproximar delas e perguntar a idade da bebezinha.
Ela tem 10 meses e se chama Valentina.
E uma cena, desde que eu deles me aproximava, encheu meu coração de ternura e paz. Era a cena do cuidar, brincar e amar. 
A família eram três pessoas: a mãe da Valentina, a Valentina e a sua vovó (Gisele).
A mãe estava dentro da piscina, brincando com a sua cria.
E a vovô ficava tomando sol em pé, de modo que fizesse sombra pra Valentina.
Perguntei se aquela pose era proposital, incrédulo frente a sensibilidade da cena.
Ela falou que sim. Que sempre que eles estão na praia, bem cedinho, ela fica protegendo a Valentina do sol, enquanto bronzeia as costas. Depois que a Valentina volta para casa, pelas 8 horas, ela cuida de bronzear a outra metade do corpo.
Elas são de São Luís e estão passando uns dias numa pousada perto da beira-mar aqui em João Pessoa, na praia do Bessa.
Despedi-me delas e voltei para casa, para fazer as pequenas tarefas do dia.
No caminho, desejei aquela sombra da Vó da Valentina. O sol queimava minha careca, e chegava com força.
E me veio à mente a importância do que a mãe e a vó da Valentina estavam fazendo e o quanto aquilo ali nos ensina.
Elas não tinham guarda-sol, cadeira de praia, nem piscina inflável.
Mas, com o que tinham elas se faziam presentes na maravilha viagem da vida e do viver.
Com as mãos, cava-se uma piscina que vira a melhor do mundo.
Com morrinhos de areia, feitos nas bordas da piscina, constroem-se torres de um castelo imaginário.
E a Valentina vai se entretendo com a sua mamãe a contar-lhe sobre princesas e duendes que no Castelo da Valentina habitavam.
Mãe e filha conectadas pela palavra, pela imaginação, pela fantasia do brincar, sem nenhum recurso tecnológico para mediar esta relação.
Avó, totalmente engajada em vigiar a sombra, para que de sua projeção o máximo de conforto tivesse sua neta.

Como estes gestos nos falam do amor.

Na avó da Valentina, o amor do servir, do cuidar, do proteger. Aquele amor gostoso que nos mobiliza a fazer algo pelos outros. A dar de nós mesmos, para melhorar a jornada deles.
Que coisa mais linda de meu Deus, é poder ficar à sombra da Vó da Valentina.

Tu já fizeste sombra para alguém? Já diminuiu a exposição de uma pessoa aos riscos do viver?
Têm muitas pessoas precisando de nossa sombra, para que consigam resistir ao sol inclemente de suas vidas.

Essa sombra pode ser uma palavra amiga, uma visita, uma ajuda fraterna. Pode ser a solidariedade perante momentos difíceis que ela vive. Ser sombra é ser cuidados para com o outro. É estar permeável e atento às suas necessidades e com empatia fazer o que se pode para ajudá-lo.

Cuidar é amar.

Já a mãe da Valentina mostrou uma coisa muito bacana para nós. O valor de estar presente, de se interessar, de se conectar com a outra pessoa.
Ali eram só elas. Mãe e filha, inteiramente envolvidas na construção da piscina e dos Castelos de Areia.
A mãe da Valentina interessou-se pela filha. Estava 100% presente ao mundo lúdico de sua bebê, e envolveu-se com plenitude á aquele momento.

Se interessar é amar.

A piscina e castelo de areia de praia nos ensinam sobre o se interessar pelo mundo do outro.
Interessar-se pelo mundo do outro também é uma das expressões do amor.
Precisamos de muitas mães e avós Valentinianas nesta humanidade, capenga de afeto, empatia e tão individualista.
Precisamos fazer nossa parte para dar de nossa sombra ao próximo.
E para com ele nos conectarmos, despertando interesse e empatia para com a sua jornada.
Sempre que estiver se sentindo sozinho, desamparado e meio que perplexo diante da vida, saiba que ainda assim poderá ser sombra para muitas pessoas que de ti necessitam.
E, com tuas mãos criar uma ponte de amorosidade e interesse para com elas, construindo com este relacionamento afetuoso um novo amanhã possível.

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Notas após postagem:

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Dias depois desta postagem, a vovó da Valentina fez um comentário no meu blog. Quando eu me apresentei para elas , eu falei que escrevia umas coisinhas e disse o nome do Blog. Mas, como ninguém em leva lápis e papel pra praia, e achei que nunca mais teria contato com a vovó, a mãe e a Valentina.  Bode com Farinha. Mas, qual não foi minha surpresa ao chegar das férias e ler isto aqui abaixo. 

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Ricardo, Quão belas e inspiradoras são suas palavras nesta tocante crônica, onde você com sua imensa sensibilidade e amor pela família, pois só quem vive o amor familiar e a natureza, para deixar fluir tamanha doçura de palavras amorosas e sonhadoras. Ratifico suas palavras, onde dizes que podemos a cada dia a cada gesto sermos útil ao próximo, seja ele familiar ou não. Suas palavras emocionaram toda família. Eu como avó de valentina, a bebêzinha de sua crônica.senti-me honrada com sua delicadeza das palavras. Muito obrigada, que você nunca perca sua sensibilidade no olhar para o outro, no gesto amigo, no seu bom dia com sorriso. Assim também se ilumina o dia de alguém que talvez não tenha recebido um bom dia ainda. Gisele Maria Rabelo Pronk, vó de Valentina.

Saudade, é arrumar o quarto de quem partiu!



Quando terminei a aula a distancia, pelo meio dia, escutei um barulho vindo do quarto de papai e para lá me conduzi.
Vi que minha irmã, mãe, filha e a Guia "derrubaram" o guarda-roupa de papai no chão e estavam selecionando e classificando os seus pertences para doação. 
Montanhas de camisas sociais que ele nunca usou. Papai gostava mesmo era de uma camisa do BB que dei pra ele, e que tinha a expressão ECOA (Equipes de Comunicação e Autodesenvolvimento). 
Calças bonitas, que ainda tinha cheiro de carro zero, pois que ele se afeiçoava com bermudas mais confortáveis. 
Um monte de celulares que ao longo da  vida fomos dando para ele. E que os guardava com carinho, mas sem usá-los. Ele gostava mesmo era de um bem velhinho. Daqueles que se o ladrão roubar de nós, vamos levar um cascudo, porque é muito antigo e não tem câmera, nem outros recursos mais sofisticados. 
Papai era da face, e não do Face.
No maleiro, ele guardava seus tesouros. Era lugar sagrado, só ele mexia.
Em cada um deles, há papai.
Todos as lembranças de nossas conquistas ali estavam guardadas, tal qual relíquias. Aquela caneca da formatura do Rodrigo. Aquelas fotos dos netos. Ou a aquela primeira agenda que Tiago recebeu de onde trabalha, na CEF.
As caixinhas de ferramentas estavam todas lá. Daquelas que damos nos dias dos pais. Estojos multivariados, com um infinidades de chavinhas. Todas ali, guardadas qual joias raras. 
Ferramentas, montadas naqueles estojos, é a cara de papai.
Sapatos quase nenhum. 
Todos se perguntavam onde estavam. E sorríamos, um sorrir de saudades e elevo na alma, pois sabíamos que ele os doava. 
Papai era das sandálias havaianas. Não era homem de guardar sapatos. 
Mais ao fundo do baú, muitos convites pra nossos bons momentos: batizados, formaturas, casamentos.
Que tesouro! Confesso-lhes que muitos de nós não tem mais aquelas memórias, por ele guardadas com tanto esmero.
Meu tesouro foi o relógio de pulso de papai, tão ele. 
Minha irmã pergunta de uma bela mala de ferramentas, daquelas estilosas. Ele a ganhou no dia dos pais, deste ano. Lembro-me dele, ainda consciente, abraçado com ela e saboreando cada uma das mais de cem peças que ali continha. 
E por vários dias. 
A levarei para o meu filho, o Resolvedor de Problemas, o Rodrigo. Ferramentas combinam com ele.  
Aos poucos, as meninas foram organizando as doações, de modo que todos puderam ficar com algo que lembrasse papai. Ou, que ainda tivesse muita serventia.
Até um notebook achamos, e que vai ficar com a Guia. Para ajudar nas tarefas de seu sobrinho, e nas postagens das vitórias da Raposa (Campinense). Time que ela tanto gosta. 
Acho que papai deu boas risadas lá do céu, vendo nossos comentários com as coisas que ele se apegou e guardou em lugar nobre de seu guarda-roupa. Ou, as que nunca usou, por não combinarem com seu etilo de vida, como as rupas sociais e seus adereços.
Aos poucos, uma sensação de vazio foi nos tomando. Como se agora fosse verdade mesmo.
Afinal, quem teria coragem de mexer em suas coisas antes?
Carreguei o carro com três malas e me dirigi pra casa de Tio Naldo.
Ali chegando, nos abraçamos e choramos mais uma vez.
Tio Naldo olhava para cada item com ternura, sem cobiça. Coube a ele receber boa parte das roupas novas.
Mais o que ele gostou mesmo foram dos DVDs e CDs de papai. Guardados numa caixa de papelão.
Verdadeiras relíquias musicais. 
Acho que conheci um pouco mais de meu pai pelo que ele guardou. 
Arrumar o quarto do amado que partiu é entrar no templo da saudade, e ali fazer seus ritos de fechamento de ciclos.
É preciso e necessário passar por este momento. 
Enquanto digito este texto, pelas seis da manhã, escuto mamãe me chamar. Ela tem exames médicos cedinho, quer que eu a leve na clínica. Sendo isto, para ela, mais uma prova de que a vida continua, aos que por aqui pelejam.
No trajeto, ela me mostra a aliança de papai, que dará para minha irmã. Uma aliança com sessenta anos de história.
Na volta da sala dos exames, mamãe me conta que quase não dormiu ontem, embalada por lágrimas.
Respiro fundo e digo que é direito dela, chorar. Para que ela não apresse o rio do sofrer. Ele tem seu próprio fluir e tempo.
Ligo o carro, para voltarmos, e percebo que estacionei ao lado de Craibeira - toda vestida de amarelo, que nos saúda. É uma árvore irmã gêmea do ipê que talvez esteja nos dizendo que após a arrumação do quarto físico, agora chega o tempo de começar a arrumar o quarto interior. Que ficou todo desmantelado. Uma arrumação geral, peça à peça, emocionalmente falando. E, dia à dia.
Sem temer se conectar com a saudade e as boas lembranças, além de espantar esvoaçantes culpas, que vez por outros teimam em querer pousar nos galhos do coração.

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