Os Cinco Capitais para uma Aposentadoria Mais Plena de Sentido. (Por Ricardo de Faria Barros *)



Os Cinco Capitais para uma Aposentadoria Plena de Sentido. (Por Ricardo de Faria Barros *)

Capital Biológico

1. O exame periódico agora é por tua conta. Não relaxe nele. Doenças silenciosas avançam com a idade, e, se forem descobertas a tempo, as chances aumentam em muito de serem tratadas com eficácia. Sim, antes que me esqueça, vacine-se!

2. Alimentos mais saudáveis são muito importantes para esta etapa da vida. Fuja das gorduras, açucares, carboidratos, álcool e fumo. 

3. Encontre teu próprio ritmo de atividades físicas. Movimente-se diariamente.

4. A expectativa de vida tem crescido anualmente, então prepare-se para os cem anos, e mantenha a mente ativa. 

5. Tome muito sol cedinho. E reaprenda a brincar, sonhar, contemplar e amar. 

Capital Econômico-Financeiro

6. Não saia distribuindo pela família tudo que recebeu nos acertos da aposentadoria e FGTS. Fuja desta tentação de querer socorrer a todos. Lembre-se que precisará desta renda pelos próximos 50 anos. Inclusive para custear tua autonomia na velhice e demandas de saúde.

7. Não use suas reservas financeiras para amealhar migalhas de afeto e de atenção. E, você não é responsável pelos gastos de seus filhos, ou parentes, e nem pelas aventuras financeiras nas quais eles se metem. Estabeleça limites.

8. Não compre nada antes de um ano de aposentado. Se dê um sabático financeiro. Você terá uma febre, um júbilo, que poderá induzir péssimas aquisições, tipo comprar uma chácara ou uma lancha. Sem ter vocação para isto.

9. Muitos aposentados voltam a trabalhar. E isto não é nenhum demérito. Mas, não fique triste se as oportunidades não aparecerem logo. Então vá fazendo cursos de empreendedorismo ou de novos ofícios. O Sebrae, Senai e o Sesc têm vários. Cuidado em querer torrar o dinheiro em novos negócios, sem fazer um bom plano de mercado antes. E sem emocionalismo. Nada de querer voltar a tocar o negócio de teu pai. Só faça isto se for economicamente viável.

10. Ajuste o teu estilo de vida a uma renda que será 20% menor após aposentado. Não saia torrando os cartões de crédito e a poupança em viagens pelo mundo, investimentos duvidosos, ou no consumo desenfreado. Isto pode ser uma fuga de si mesmo, algo para compensar tua angustia. 

Capital Social

11. Participe da vida cultural de tua cidade. Muitas coisas "de grátis' acontecem nela. E a cultura é um grande continente a ser conquistado com a aposentadoria.

12. Afilie-se a grupos, de qualquer objetivo e origem deles: religiosos, voluntários, esportivos, culturais... Volto a dizer, envolva-se e participe de tudo, até da quermesse da igreja. 

13. Exercite a capacidade de  fazer novas amizades. Tem muita gente legal que ainda não conhece e que poderá lhe proporcionar bons momentos juntos. 

14. Não se isole. Evite a morte social, há vida para além da empresa que se aposenta. Promova encontros com a família e amigos, mesmo que nem todos possam participar. Reaprenda  a festar a vida e a celebrar tudo, inclusive o nada. Sim, volte a namorar caso tenha relacionamento estável com alguém, pois que o mundo do trabalho limitou muito as noites de vinho, vela e volúpia. E, caso não tenha relacionamento afetivo, sempre é tempo de arrumar uma boa tampa pra tua panela. 

15. Uma das boas formas de encontrar pessoas é descobrir onde elas se juntam. Pode ser a turma do pedal, do teatro, do futebol, da pescaria, da caminhada, da dança, do baralho, do grupo de oração, do estudo de línguas, ou outros. Pessoas amigas são o oxigênio da aposentadoria. Lembre-se sempre disso. 

Capital Humano

16. Continue aprendendo algo. Não perca a curiosidade pela vida, pelas descobertas, por novas experiências. Não é tarde para tocar aquele projeto acadêmico que adiou ao entrar na empresa. E, muitos cursos podem ser feitos a distância.

17. Encontre algo que lhe dê prazer para ocupar o tempo com significado: jardinagem, hobbies, artesanato. Cursos de gastronomia, artesanato, fotografia, vinhos e cervejas, também são prazerosas ocupações do tempo.  

18. Crie valor com o que sabe, viveu e aprendeu. Quem sabe assumir outra profissão. Ou abrir um blog para contar suas histórias. Ou ensinar na academia e ensino médio. Ou criar cursos e ofertá-los no mercado. Muito conhecimento há em você para ficar estacionado.

19. Crie objetivos de autodesenvolvimento, inclusive em espaços que promovam o autoconhecimento. Tais como fazer cursos de yoga, mindfulness, tai-chi-chuam, arteterapia e capoeira.

20. Não deixe que ninguém diminua seus sonhos em adquirir e aplicar novas atitudes, habilidades e conhecimentos. Há preconceito contra gente de cabelo grisalho que continua ativa, não ligue para isto. E, se quiser, aprenda até a surfar. A juventude é uma conquista do avançar da idade. Pense nisso! 

Capital Espiritual-Existencial

21. Compre uma agenda. E vá colocando nela coisas bacanas que fará todos os dias. Tipo, visitarei um amigo, conhecerei melhor meu bairro, irei na academia, escreverei  uma crônica. Nesta agenda, escreva com as tintas da esperança, do otimismo, da resiliência e da gratidão.

22. Alguém precisa de tua liderança. Não deixe de ser líder ao se aposentar. Continue inspirando pessoas. Continue transformando situações, ambientes e pessoas, e para o melhor.

23. Escreva um diário com as cem coisas que irá realizar como aposentado. Este diário é flexível. Você poderá repensar alguns itens, e substituí-los por outros. Mas, faça seu plano de vida para este momento.

24. Cuidado com as emoções negativas que podem tornar tua aposentadoria um inferno. São elas,  as mágoas de estimação, a negatividade extrema, a rabugice rancorosa, a falta de perdão e gratidão, e o saudosismo mórbido.

25. Cuide do tempo como um recurso maravilhoso que recebe todos os dias. Haverá tempo do não fazer nada. Tempo do fazer algo. Tempo de ficar consigo mesmo, silencioso. Tempo de se aventurar em algo novo. Tempo de ler. Tempo de descobrir novos prazeres. Não deixe que a ausência do tempo, antes ocupado com a produtividade laboral, te enlouquecer. Pessoas ficam agoniadas, após as férias da aposentadoria, porque acham que o tempo livre precisa ser ocupado. Como se ainda estivessem trabalhando. Chegam a ficar com culpa. Esqueça isto. Pinte o tempo de teus dias com coisas legais pra fazer diariamente. Que não precisam ser difíceis, caras ou que exijam grande esforço. 

26. Tenha paciência com a família e com seu cônjuge (caso tenha). Principalmente se eles não se aposentaram ainda. Não queira suprir teu vazio com a presença deles. Isto pode sufocá-los. E é preciso respeitar também a agenda de vida deles, com a sua própria dinâmica de vida. Não atrapalhe o casamento de teus filhos.

27. Entenda que a fila anda. Desapegue-se de muita coisa. E não vá ao antigo local de trabalho para rever amigos, nem para matar o tempo. Será normal não ser convidado para alguns happy-hours e não foi por mal. Ou não ser lembrado no aniversário.

28. Quando tiver que resolver algo, na empresa em que se aposentou, trate bem todo mundo. Tenha respeito e cortesia por quem está na linha de frente.

29. Uma vez por mês escreva uma carta de gratidão, relembrando pessoas importantes na tua trajetória de vida, ou fatos marcantes, pelos quais sente e na carta expressa gratidão.  

30. Cultive a espiritualidade. Se professar algum credo religioso participe dele com mais frequência. A oração é um bálsamo na vida. Mas, existem também outras formas de  espiritualidade: a poesia, a música, as pinturas, ou colecionar pôr do sol, lua cheia, abraços encantados, empatias engajadas, flores e pássaros da cidade. Encontre maneiras de se conectar a algo maior do que a si mesmo. 

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1, O autor é aposentado do BB, escritor, psicólogo, mestre em gestão social e trabalho, especialista em gestão de pessoas e em psicologia positiva.  Ele publica conteúdos no seu blog e canal do youtube em:  http://www.bodecomfarinha.blogspot.com.br  e http://www.youtube.com/user/mrricardim
2. Para comprar o livro impresso, sobre aposentadoria, e que é a capa deste texto, entre na loja virtual do site do autor em: https://www.animodh.com.br/online-store

Contemplar pode. Mas, não avance o sinal! (Por Ricardo de Faria Barros)




Quem deu o direito a algumas pessoas de se acharem superiores às outras por conta da cor da pele, da opção sexual, do sotaque, da cultura em que nasceu, ou do gênero?
Acho tão pobre uma pessoa que desqualifica negros, nordestinos, mulheres, gays, ou que acha que o local em que vive é superior aos demais, colocando-os todos na conta de inferiores e ruins. Que tipo de influência sobre a vida e o viver move-se dentro deste ser humano?
Pessoas arrogantes, aprendizes de autoritários, pequenos tiranos que devem tem um profundo vazio interior. Um dia, quando estiverem num leito de um hospital, sendo cuidadas justamente por quem despreza, será que estas pessoas terão uma iluminação interior, e crescerão? Não sei. Quando começou esta pandemia eu disse em vários eventos de que participei de que haveria uma lente sobre o bom e sobre o mal. Que não acreditava que a humanidade teria uma segunda chance de se redimir do que vem se tornando. E que os ruins continuariam ruins, e os bons, idem. Essas pessoas sempre existiram, mas não tinha palanques digitais para se projetarem, com toda carga de ódio, intolerância e antipatia ao que ela tem como diferente. Hoje, estão soltos e ativos. E sem pudor algum. Quem os critica recebe a alcunha de estarem com mimimi, de serem os chatos, e de não saberem "brincar". Então, é necessário que eduquemos nossos mais próximos noutros valores, para que este povo do mal não continue a reproduzir tanta violência atitudinal.
Também se faz necessário que falemos sobre o assunto. Que mostremos nossa indignação e que estas pessoas comecem a responder juridicamente pelos atos, "brincadeiras", ou toda uma merda mental que produzem e disseminam sem piedade.

O que dá direito a alguém a achar que uma mulher que toma um chope sozinha é sua presa, para investidas nada classudas? Chegando ao ponto de incomodá-la?

O que dá direito a alguém a achar que pode "pegar" uma mulher, dá uma encoxada nela, porque avalia a roupa que ela usa como "chamativa"? Por que na estética do corpo feminino a mulher não tem a liberdade de vestir o que bem quer, sem ficar sendo assediadas por pessoas que acham que "se ela se veste assim é porque quer dá..."? O que pensa um gestor que usa o poder do cargo para se lançar sobre as que trabalham na empresa dele? O que pensa um homem ao ver um decote, um lance de pernas, uma traseira torneada feminina? Ele acha que pode avançar o sinal, que tem direito? Será que o fato de mostrar as pernas, os peitos, ou o que venha a ser, é um indicativo de "pode chegar que a casa é sua...?" Escrevo este texto puto de raiva. Isto não era mais pra ocorrer em pleno Século XXI. Não era pra existir pessoas que discriminam negros, gays, nordestinos, mulheres... Mas, elas existem e aos montes. E, são nem sempre são pessoas sem formação e conhecimento, ou chamados ignorantes funcionais. Muitas destas pessoas são letradas e defensoras da moral e dos bons costumes. E até possuem trabalhos bem legais na sociedade. Só que não valem nada. São podres e pobres. Tenho 4 filhos, uma moça e três rapazes. Dois netos, uma bebezinha e um bebê. Cabe a mim educá-los, e com veemência, para que não reproduzam este germe do mal que tá solto por aí.

Lembro quando o meu pequeno JG, de onze anos, nascido em Brasília, falou que achava estranho o sotaque paraibano. Ele falou na inocência, sem maldade, numa recente ida nossa à Paraíba, meu estado natal. Na mesma hora eu perguntei o que era estranho? E que para nós, paraibanos, também seria estranho o sotaque brasiliense. E que os sotaques são o dna musical da língua de um povo que habita determinada região. Expliquei para ele que até nos EUA, dependendo do estado natal, a pronuncia, as expressões idiomáticas, e a ênfase das palavras em inglês mudam. E que isto não os tornam menos americanos que os outros. Ele abriu um sorriso e entendeu. Então, prometi-lhe levar ao Ceará, em 2022, para ele ter a oportunidade de se deliciar com um povo que fala cantando. Percebem como podemos educar para a convivência?

E isto vale para todas as questões para as quais o mundo cria preconceitos: índios, mulheres, pobres, negros, asiáticos, gays... É preciso que façamos a nossa parte, e que, como sociedade, exijamos respeito às pessoas, e responsabilização criminal de quem assim não o faz.

Não podemos deixar que o mundo volte à idade das trevas!

Pronto, desabafei.

Carta para Laís - Hakuna Matata (Do vovô Ricardo de Faria Barros)


Acordei cedinho e agitado. Pois que era um dia de domingo, mas não um domingo qualquer, daqueles que já são muito bons.
Este era o Domingo! Aquele que ficaria na história.
Uma manhã de domingo na qual eu estaria saindo de iria de casa para te conhecer, querida Laís, minha neta amada.
Neste dia, tu estavas com três dias de nascida.
Fazendo a barba já imaginava tua carinha, e como iria reagir ao vovô.
Sabe Laís, vovô parecia adolescente apaixonado. Caprichei no banho, barba e perfume. Escolhi roupa que gosto. E, saí com bastante tempo, a ponto de poder mandar lavar o carro.
Vovô não podia chegar pra te ver com o carro sujo.
Olhei no relógio e ainda tinha muito tempo de sair em busca de tua árvore, pelos arredores de Brasília.
Mas, não se preocupe, eu não atrasei o combinado com Rodrigo e Andreza de chegar 10h30.
Vovô costuma chegar na hora, e até antes um pouco. Vovô não se atrasa!
Então, sempre conte comigo para levá-la em compromissos com hora marcada. Nunca vai atrasar.
Em busca da tua mudinha, escutava Hakuna Matata e um sentimento de júbilo invadiu meu ser.
Como a muito não sentia neste 2020-2021 tão diferente que a Humanidade vivencia.
A letra desta música é uma grande lição pra tua vida, amada neta.
Um dia, ao ler esta crônica escute e veja que bela, a tradução do refrão diz assim:
“HaKuna Matata, HaKuna Matata, HaKuna Matata...
Os seus problemas você deve esquecer
Isso é viver, é aprender...”

Sim, preciosa Laís, os problemas também farão parte do pacote de tua vida.
Quem ne sempre será um peito gostoso pra mamar.
Mas, se ficar remoendo apenas neles não viverá.
Tu terá que encontrar um jeito de colocá-los numa gaveta, para que eles não saiam contaminando toda em tua vida, inclusive as áreas não-problemáticas.
É isto que a canção nos ensina, e isto é um aprendizado para o resto da vida.
Então, Hakuna Matata pra ti!
Parei na loja de plantas e achei o que queria, um belo Bambu da Felicidade, num vaso arrodeado de pedrinhas brancas e com uma suculenta cactácea de amiguinha dele.
Os Bambus e as Suculentas são boas fontes de inspiração pra tua vida. Mire-se neles. Os bambus são pura serenidade e resiliência. Pois que são resistentes, flexíveis, centenários. Deles se extraem mil possibilidades.
As suculentas são pura fecundidade e vitalidade, independente das condições que lhes são impostas. Em suas mais de 1000 espécies, elas adoram o sol, o vento e pouca água.
E aguentam cuidadores menos capacitados para plantas. E, as cactáceas lembram a terra de teus pais e avós, a Paraíba.
Agarrado no vaso, acesso a portaria de teu prédio, e digo ao porteiro, e todo orgulhoso: - “estou vindo visitar minha neta.”
Foi a primeira vez que te apresentei a terceiros, a “minha neta”.
De tão imponente que estava, o porteiro nem interfonou para teus papais, abrindo logo a porta.
Cheguei no teu quarto e tu estava linda. Acordada e com uma roupinha amarela, com uns bichinhos nela impressos.
Rodrigo coloco-lhe nos meus braços e uma sensação de êxtase me invadiu.
Tão pequenininha tu era. Tão frágil. E ao mesmo tempo, forte ao reclamar a hora de mamar.
Numa linguagem que erroneamente dizem ser choro. Não é choro. Vovô sabe.
É uma forma de diálogo conosco.
Te ninei mais um pouco, enquanto tua mamãe preparava teu lanchinho da manhã.
Saciada, tu dormiste novamente, parecendo uma anjinha.
Despedi-me de meu filho e nora. E voltei para casa, sem tocar os pés no chão.
Chegando em casa, vejo uma foto que minha filha postou, de teu primo Lucas, agora com um ano e dois meses.
Ele fazia pose na fita métrica, impressa na parede para ter suas medidas registrada.
E, como cresceu. Um dia desses ele estava do teu tamanho.
Agora é um rapazinho, que até ajudar os pais a desmontar a árvore de natal já sabe.
Assim será contigo, minha neta. Tu, assim como meu neto amado Lucas, também crescerá em sabedoria e graça.
Mas, também em ousadia e firmeza para ser uma menina diferente.
Daquelas que jogam futebol, que possam brincar de subir em árvore e que usem azul, verde, ou rosa, e que quiser.
Não é fácil ser mulher. A pressão para você será maior. Infelizmente.
Pressão para casar, para ter filhos. Para “se comportar como mocinha”.
E para exercer um papel que desempenha uma sobrecarga feminina cruel e injusta.
Subverta tudo isto, minha neta. Faça parte da revolução feminina e não aceite papéis historicamente e culturalmente ultrapassados.
Teu primo te ajudará neste crescer em protagonismo e autonomia. Seja muito amiga dele. Irmãos, primos, cachorros e gatos são bênçãos!
Sabe minha neta, nesta boquinha da tarde, ainda estou com o coração marejado de tua presença.
Acesso as fotos que junto tiramos, centenas de vezes.
Como se fosse possível, nosso domingo ficou melhor ainda, é que a enfermeira Mônica Calazans, tornou-se a primeira pessoa a ser vacinada contra o Coronavírus no Brasil.
Fiquei muito feliz e aliviado, com a chegada desta vacina. Um dia tu saberás sobre isto nos livros de história.
Agora vovô e vovó vão poder ir pra rua, e te levar pra passear bem muito, de mãos dadas com o teu primo, e meu outro neto, o Lucas.
E olha que gostamos de “ruar” a vida! Ahh, se gostamos!!!
É que aprendemos a praticar o Hakuna Matata.
Aprenda também, e isto fará toda a diferença na tua vida, amada Laís.

E assim se passaram nove meses... (Por Ricardo de Faria Barros)


Recentemente, apliquei uma enquete nas redes sociais pedindo para que as pessoas revelassem o que estão sentindo, após 9 meses de Pandemia, expressando este sentimento em cinco palavras.

Dentre as 660 palavras coletadas, doze delas estão mais presentes nas narrativas expressas nesta enquete, inclusive em seus sinônimos.

Abaixo, a listagem das doze palavras mais citadas que expressam um sentir coletivo, ordenadas por frequência de citação:

1. Esperança

2. Solidão

3. Saudades

4. Cansaço

5. Medo

6. Ansiedade

7. Família

8. Resiliência

9. Gratidão

10. Empatia

11. Saúde

12. Tristeza

Confesso-lhes que não esperava que a Esperança estivesse no topo das narrativas. E foi uma grata surpresa. E isto é muito bom para dar ânimo e condições melhores de enfrentamento das situações estressantes que a Pandemia tem feito. Precisamos de algo a ancorar nas estrelas do amanhã. Movendo-nos no hoje em função disto, que é o que a esperança provoca em nosso ser.

Precisamos de uma data no futuro para algo fazer, algo realizar, algo sonhar, algo acontecer, algo decidir, algo cuidar, algo nascer, e por que não dizer, algo morrer (no sentido de nos livrarmos daquilo que nos faz mal).

A esperança é esta espécie de GPS interior que motiva e mobiliza nossa existência. Então, fiquei muito feliz em ver que ela foi a palavra mais citada. Pois que é muito bom saber que a esperança está no centro de nossa orientação de sentido, neste momento tão difícil pelo qual a humanidade passa.

Uma outra revelação da enquete é a coabitação de sentimentos numa mesma narrativa. É como se em nós estivesse manifestando-se sentimentos que podem até ser contraditórios, mas que fazem parte de nossa melhor essência, nossa parte luz e sombra, outono e primavera.

Percebe-se bem isto ao analisar a natureza das doze palavras mais citadas.

É como se para com cada uma das palavras-sombra, estivesse uma palavra-luz.

Como se em nós carregássemos a morte e a vida. A doença e a cura. Tente reagrupar as doze palavras nesta perspectiva de luz e sombra, agrupando-as em pares. Abaixo meu exercício:

Para momentos de cansaço (4), evoco a resiliência (8).

Para instantes de saudades (3), evoco as lembranças da família (7).

Para situações de medo (5), lanço mão da esperança (1).

Para aqueles dias de tristeza (12), movo-me pela gratidão (9).

Para dias de solidão (2), desenvolvo a empatia (10).

Para crises de ansiedade (6), cuido da saúde (11).

Você que está me lendo também pode ser uma palavra de luz para o outro com o qual convive. Ele pode estar ansioso, amedrontado, cansado, se sentido só e triste. E pode encontrar em você a paz, a confiança, a força, a presença amiga e a felicidade pelo simples fato de existir, sendo grato em tudo e por tudo.

Esta enquete revela também, como um de seus achados, boas posturas diante deste temendo estresse pós-traumático pelo qual a sociedade passa, talvez único na História, pelo tamanho, intensidade e profundidade de seus danos.

Valorização da Família – A família também pode ser um espaço de encontro e de geração de apoio e afetos quentinhos positivos. Nossas famílias e lares foram ressignificados, e em toda a sua complexa teia de sentimentos e relacionamentos. Passamos a sentir falta deles, dos nossos amados, e a falta revelou a preciosidade do que temos e nem sempre estávamos dando o devido valor. Nunca filhos conversaram tanto com seus pais como nesta Pandemia, mesmo que pelos canais digitais.

Cultivar a Empatia – É o colocar-se pelas lentes do outro, procurando captar o mundo pela sua própria perspectiva. Compreender suas necessidades, expectativas e visão de mundo.

A Pandemia nos aproximou de pessoas que sempre estiveram ali, mas que nem sempre eram percebidas em suas necessidades. De vizinhos que não podem se expor em compras nos mercados, ao pessoal da portaria dos prédios, aos anjos profissionais da saúde. Nos fez mais próximos a atuantes a quem perdeu renda, a quem perdeu entes queridos. Nos tornamos Nós! E, aprender a ser Nós, é algo que ajuda a enfrentar situações delicadas.

Sentir e Expressar a Gratidão – A gratidão é um potente imunizante emocional. Quando conseguimos senti-la e expressá-la a vida deixa de ser apenas um local de pelejas e aflições, para transformar-se em espaço de agradecimento, acolhimento e doação. Quando sentimos gratidão por algo, ou alguém, deslocamos nosso “Narciso” da cena e damos espaço para o outros e as situações serem reconhecidas e valorizadas. Como dádivas, oportunidades e bênçãos que a cada instante nos ocorre e que nem sempre as percebemos.

Esperançar a Vida – Que palavra mágica, mística e macia é a Esperança. Ela nos torna combatentes, do bom combate. Nos dar ânimo e vigor, faz-nos caminhar mais um passo, viver mais um dia, e acreditar na luta, mesmo que todos ao nosso redor já tenha desistido.

Promover Resiliência – A pessoa resiliente acolhe, adapta-se, aprende, supera e segue, diante das situações que lhes tiram o sossego. Talvez seja a postura que mais esteja sendo exigida nos nove meses de Pandemia e isolamento social. Desde para os que perderam emprego, ou renda, aos que perderam parentes. Desde aos que estão isolados em casa, ou assoberbados com uma sobrecarga imensa, em grande parte feminina, pelo acúmulo de papéis no lar. Ou até os que enfrentam as sequelas da doença, ou tratam os doentes. A resiliência é aquela vozinha que diz, muitas das vezes, que quando eu não puder mudar uma situação, ainda assim eu poderei mudar a mesmo, diante dela.


Cuidar da Saúde - Gosto muito da definição de saúde da OMS que a coloca como um estado de bem-estar nas dimensões biológica, social e psicológica do Ser Humano. E não simplesmente como uma ausência de doenças. Todos estamos vendo o quanto tem sido necessário cuidar da saúde mental. Encontrar paliativos emocionais para melhor atravessar estes tempos tão duros. Pois, afinal como diz a canção, “tudo é uma questão de manter
a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.” Nossos amigos, grupos e familiares são remédios. Nosso alimentar e exercitar, são remédios. Nossos propósitos de vida, emoções e pensamentos positivos, são remédios. Nossa espiritualidade, seja em que dimensão você a proclame, também pode ser remédio.

Então pessoal, neste turbilhão de emoções que estão vindo à tona, potencializadas pelas do Natal e Ano-Novo, é bom caprichar na dosagem destas seis posturas, ou atitudes perante a vida, muito expressas pelos respondentes da enquete: Esperança; Família; Gratidão; Empatia; Resiliência e Saúde.

Prevenção ao Riscos à Saúde Mental na Pandemia

     


           Já ouviu falar da doença 43.2?  Pera que te explico. 
           No Catálogo Internacional das Doenças (CID), a 43.2 diz respeito aos Transtornos de Adaptação que podem causar dificuldades de adaptação às novas realidades e situações que a pessoa passa a enfrentar, que gera uma sobrecarga emocional e podem afetar a própria saúde mental. Mesmo sendo longa, vale a pena conferir a definição da 43.2, do próprio CID:

        (CID-10) 43.2 Transtornos de Adaptação: Estado de sofrimento e de perturbação emocional subjetivos, que entravam usualmente o funcionamento e o desempenho sociais. Ocorrendo no curso de um período de adaptação a uma mudança existencial importante ou a um acontecimento estressante. O fator de “stress” pode afetar a integridade do ambiente social do sujeito (luto, experiências de separação...) ou seu sistema global de suporte social e de valor social (imigração, estado de refugiado...); ou ainda representado por uma etapa da vida ou por uma crise do desenvolvimento (escolarização, nascimento de um filho, derrota em atingir um objetivo pessoal importante, aposentadoria...). A predisposição e a vulnerabilidade individuais desempenham um papel importante na ocorrência e na sintomatologia de um transtorno de adaptação; admite-se, contudo, que o transtorno não teria ocorrido na ausência do fator de “stress” considerado. As manifestações, variáveis, compreendem: humor depressivo, ansiedade, inquietude (ou uma combinação dos precedentes), sentimento de incapacidade de enfrentar, fazer projetos ou a continuar na situação atual, assim como certa alteração do funcionamento cotidiano. Estes transtornos podem consistir de uma reação depressiva, ou de uma outra perturbação das emoções e das condutas, de curta ou longa duração.   Fonte: http://www2.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f40_f48.htm   (Grifos meus)

       Vocês devem estar se perguntando onde quero chegar com a apresentação da 43.2. 

    Bem, eu e um grupo enorme de profissionais da saúde, do mundo todo, inclusive da OMS, acreditamos que a reboque do Covid-19 vem chegando uma epidemia de Doenças Mentais. 

    E, assim como na Covid-19, temos os grupos de risco em termos de saúde mental, e que estão mais expostos: que são as pessoas que estão passando episódios de luto (morte, fortes mudanças na rotina da vida, doença, separação,crise econômica, ou desemprego)  ou que convivem diariamente com as fortes expectativas, demandas e desafios no trabalho: tais como os profissionais da saúde, da assistência social, da educação, da segurança pública,  e os funcionários de Instituições Governamentais que atuam na linha de frente do atendimento ao público.  

     Em termos destes trabalhadores, acima relatados, o Transtorno de Adaptação 43.2 pode evoluir para o que chamamos de Síndrome de Burnout. Que é caracterizada por uma sensação de exaustão emocional, despersonalização e sentimento de baixa realização profissional, com sintomas como irritabilidade, apatia, rigidez emocional, esgotamento e estresse agudo: frente ao trabalho, em seus componentes interpessoais, de sentido, satisfação e de desempenho. 

    Então, o que tenho percebido é que em maior ou menor grau este tal de "Novo Normal" não poupará ninguém de mudanças importantes no sentido existencial, ou de vivenciar acontecimentos estressantes.

    Quem não passou por alguma mudança importante nestes meses de enfrentamento da Pandemia?

    Seja na educação dos filhos, seja na forma como o trabalho passou a ser feito, seja na dinâmica dos relacionamentos presenciais, seja no aperto da renda familiar, seja na relação a dois, seja nos projetos para com o futuro, ou na sensação de incerteza perante o amanhã.  Ninguém está 100% livre de se expor aos gatilhos da 43.2.

    Então, precisamos urgentemente que todas as Instituições Humanas, sejam as de natureza familiar, social, política, governamental, laboral e religiosa se irmanem em medidas preventivas ao adoecimento mental e promotoras do bem-estar emocional subjetivo.

    Estas medidas são as Vacinas contra a 43.2.

    Citarei algumas delas que podem ser ministradas pelas Instituições acima relatadas:

1.  Abrir espaços para a fala. Para que as pessoas elaborem suas narrativas de estranhamento, sofrer, medo e angústia.  Processando-as de forma mais saudável. Isto pode ser feito de forma lúdica, vivencial, a distancia e com criatividade.  É preciso se manifestar sobre o que nos ocorre. Pintar, escrever, desenhar, representar... é preciso que os sentimentos sejam colocados pra fora.  Sabe aquela pessoa próxima de ti? Se achegue nela. Ela pode tá com muita coisa guardada, frente a este momento que vive, e que não tem coragem de colocar pra fora. Ou que acha que se o fizer será tida como fraca. Diga pra esta pessoa que é normal não se sentir bem todos os dias. Que é normal está se sentindo estranha ao que vem enfrentando. E que ela não está sozinha. Ofereça apoio, e se coloque diante dela com compaixão, sem julgamentos e críticas. E nunca compare tua fortaleza de enfrentar situações similares com a dela. NUNCA!  As pessoas podem reagir de forma diferente aos mesmos estímulos e situações. Então, não queira usar a si mesmo(a) como exemplo de superação. Isto só a fará se sentir mais deslocada ainda. Apenas acolha a fala dela, se interesse pela narrativa, busque compreender as razões do que ela sente, pensa e fala, pelos olhos e mundo dela, e não pelos teus.    

2. Fomentar Resiliências.  A resiliência é a capacidade de se adaptar, aprender e crescer com as situações de tensão, mantendo o desempenho em níveis aceitáveis, dado a realidade difícil pela qual se passa. E isto pode ser ensinado. Quando as pessoas evocam situações passadas para as quais foi corajoso e as superou, ela está trazendo à memória quem ela pode ser, em relação ao que se vive no presente. Quando tomamos a consciência do porque nos afetamos tanto com determinadas situações, para as quais nada que façamos poderá mudá-las, aprendemos a mudar a nós mesmos(as) diante delas. E não mais ficar numa posição de enfrentamento desgastante, que drena nossa energia emocional. Entramos no "modo acolher" que não significa concordar. 

3. Perceber-se Dentro de um Todo Maior - Quando estamos em momentos estressantes tendemos a personalizá-lo. Como se aquilo fosse só conosco que ocorrer. E passamos a nos culpar, ou agredir nossa autoestima com aquele fato que nos causou um mal estar. Quando nos vemos dentro do coletivo, de um coletivo que também enfrenta as mesmas situações, passamos a relativizar as ondas de tensão, colocando-as em perspectivas para com um todo maior. Por exemplo, pensar que não foi só você que ficou desempregado. E que não foi pessoal. Ajuda no processo de sobrevivência a esta dura realidade.

4. Buscar Alternativas Paliativas de Bem-Estar - É preciso proteger a ferida emocional com uma espécie de band-aid, para que não infecione. E quais são estes band-aids que podemos ativar? A fé é um deles, a oração e contemplação, caso seja religioso. Mas, existem outros, encontrar o sentido nos pequenos prazeres que se proporciona, tais como ler, ouvir uma canção, buscar apoio com um (a) amigo(a) querido (a), fazer algum trabalho manual, criar rituais de bem-estar, ajudar alguém, jardinar, escrever, meditar, fazer yoga, fazer uma lista de gratidão diária, caminhar, e "colecionar entardeceres e canto de pássaros"...  É preciso que tenhamos estes espaços band-aid para que a ferida emocional, ocasionada por algo de ruim que passamos, ou estamos passando, não se alastre. E, alguns destes band-aids você vai aplicar em si mesmo sem querer. Sem ânimo. Não se sentirá motivado para reagir. Se sentirá sem gás. Mas, te digo, faça como quem tem que tomar aquele remédio diário. Faça mesmo sem estar querendo fazer. Engane teu cérebro que entrou no modo reptiliano. Um pequeno gesto band-aid, que introduza na tua rotina diária, mesmos endo feito com esforço hercúleo, poderá causar um excelente resultado no fortalecimento de teus recursos pessoais de enfrentamento dos eventos da 43.2. 

5.  "Esperançar" o Viver -  Marque algo na agenda de 2021 pra realizar. Tenha pequenas metas diárias para atingir. Fixe objetivos de mudança. Mova-se com a força da esperança. A esperança não é de esperar. A esperança é de esperançar. De acreditar que a vida é muito maior e melhor do que um conjunto de experiências negativas a que fomos sujeitos. É acreditar num outro amanha possível. Não deixe que o quarteto do mal: o Reclamão, o Rabugento, Pessimista e Desanimado passe a orientar - tal qual um GPS, o teu olhar sobre a vida e as tuas vivências cotidianas. Ajude a fomentar uma cultura de esperança, encontrando e evitando consumir aquilo que em ti provoca uma onda de emoções negativas.  Cuidado, elas podem ser toxicas e viciantes. Então, encontre e ensine às pessoas que lhes são próximas, os fatores a que estão expostas que roubam a esperança. Talvez você tenham que se afastar de algumas pessoas, que só lhe diminuem. Talvez tenha que consumir um outro tipo de informações. Ou até dar um tempo em determinados grupos cujo discurso é eivado de negatividade. É preciso proteger as razões de nossa esperança. Que são equilibristas e frágeis. 

São estas cinco recomendações as que faço para comigo mesmo e que têm funcionado. E que quis compartilhar para com vocês.   

Pois que é preciso desenvolver um "couro grosso" para diminuir nossa vulnerabilidade, ao sermos expostos à uma realidade com tantos fatores estressores. E precisamos urgentemente ensinar isto em todas as organizações humanas do trabalho, da família e sociedade.

Converse com as pessoas mais próximas sobre como elas estão se colocando neste momento, talvez você possa ajudá-las a refletir sobre o momento delas,  como se fortalecer, utilizando algum dos cinco passos acima. 

Vamos lá gente, ninguém solta a mão de ninguém!


2020 – O Ano em que Voltamos para Casa! (Ricardo de Faria Barros)


Numa manhã de segunda, planejo abrir uma caixa de restos de mudanças que fui fazendo ao longo da vida. Ela esteve sempre ali, bem guardada no fundo do depósito, mas eu não tinha tempo para vê-la.
Nem tampouco para conferir o que guardei por tanto tempo dentro dela. e se ainda necessitava daquilo.
Agora, neste ano de 2020, tempo é coisa que não falta.
Eu poderia falar do ano de 2020 sobre muitos aspectos. E, com certeza, você também. Não há um ser humano, dos bilhões que somos, que não tenha sido atingido de alguma forma pelas coisas que ocorreram em 2020.
Mas, seu eu pudesse fazer um destaque, como que escrevendo para meus netos: Lucas e Laís, um ainda bebê de 9 meses, e a outra ainda morando na barriga da minha nora, eu diria que 2020 foi o ano que voltamos pra casa. Lucas e Laís, acreditem em vovô,  2020 foi o ano em que voltamos pra casa!

Para mim, este será um dos legados que o enfrentamento desta pandemia deixou para a humanidade. O retorno ao lar.
E, seja de que forma você dê o nome a isto que chamamos de lar, e como ele em teu viver esteja estruturado.
Voltamos pra casa!
Tente imaginar como era a vida antes de 2020, em relação ao teu lar.
Nossas casas tinham virado um ponto de passagem, nunca uma linha de chegada.
Um lugar para descansar, banhar, dormir, limpar e se alimentar, e não um lugar para se estar.
Muitos saiam pra trabalhar 5 horas da manhã, de uma segunda, e só voltavam para casa no sábado, ou final da sexta. Falo um voltar efetivo. E não um dormir - morto de cansado, pra ir trabalhar novamente.  
E, ao nela chegarem, eram tantas coisas para providenciar, para arrumar, para preparar para mais uma semana que se iniciaria, que a casa não era percebida como lugar de se estar.
Era lugar de passagem, de lida, de recuperação das energias para uma nova semana que chegava - logo ali no domingo à noite, que vinha mais rápido que notícia ruim.
Em maior ou menor grau, todos passamos por uma redescoberta de nossas casas.
Agora é nela que trabalhamos, que ensinamos as tarefas para as crianças, que encontramos formas de nos divertir e de interagir com a comunidade local.
Descobrimos seus cantinhos não mais olhados. Descobrimos suas possibilidades. Passamos a gostar até dos outros sons que passamos a ouvir, dentro delas, fruto do silêncio externo que se fez.
Se no começo ficávamos inquietos, ansiosos, querendo ir para a rua. Se no começo parecia que nossa relação com a casa estava como a de duas pessoas que moram juntas, mas são solitárias.
Agora se faz uma relação de enamoramento. Queremos cuidar dela. Investir um pouco pra melhorar aquele cômodo. Trazer umas plantas, que agora tenho tempo para regá-las.
Ver como melhoro a conexão da internet, sem gastar muito. Fazer aquele prato que vi a receita no youtube.
Criar opções para a criançada se divertir, transformando espaços - antes impensados, em verdadeiros playgrounds para a molecada brincar.
Sim, a casa devolveu o brincar. O querer preencher os relacionamentos, dos que habitam naquele mesmo espaço, com coisas legais para se fazer juntos.
Jogos de tabuleiro, ver uma live. Se conectar com os amigos e fazer um sarau cultural pela rede.
Eu aprendi a fazer cuscuz, nestes tempos em casa. Também passei a criar um cachorro, que comigo vai descobrindo muitos lugares deste apartamento de 60m2 que eu ainda não conhecia.
Tipo, embaixo da cama. rsrs
Com esforço, tirei a caixa do armário da área de serviço. Pela nota fiscal, afixada no papelão, era algo de 2015. A Nota Fiscal revelava ser algo de material de escritório, num valor R$ 120,00.
O que seria? E porque deixei fechada por cinco anos, e até me acompanhando em três mudanças, desde então.
Sabem o que tinha dentro?
Umas 100 capinhas plásticas de DVD. Lembrei que meus DVDs estavam com as capas em frangalhos, e queria dar uma geral neles.
E fui adiando, adiando, adiando e agora não faz mais sentido. Já não tenho mais a imensa coleção que tinha de DVDs, que fui doando ao longo destes anos, até por falta de uso.
E hoje, já não compro mais DVDs, uma vez que muitas coisas deles estão na nuvem, na web.
Então, nesta segunda, pergunto-me para que me servirão estas caixinhas?
Portanto, ativei o modo Desapego, e "Bela Ciao" para elas!
E sobrou mais espaço na estante da área de serviço.

Com este retorno ao lar, não só descobrimos nossas caixas que já não nos servem mais.
Descobrimos o que realmente nos importa.
Descobrimos que não precisamos de muitas das coisas que achávamos que sem elas não seríamos felizes.
Descobrimos que podemos fazer do lar um local de se ficar, de crescer, de prazer... E não apenas sendo um dormitório e um carregador de bateria vital, que ele vinha se tornando.
Descobrimos que brincar é bom. Que as crianças pedem presença. Que o outro importa.
Descobrimos muitas coisas pela falta que elas nos fazem. Por exemplo, de como foi bom aquele passeio que fizemos com a família ou com amigos.
Descobrimos que coisas que adiamos para depois, ou que não a vivemos intensamente, agora se tornaram mais difíceis de ocorre.
Descobrimos que todo viver vale a pena, desde que a alma não seja pequena. 
Descobrimos um monte de possibilidades de aprender coisas novas, e de mudança de nosso estilo de vida.
Descobrimos estratégias para aquecer corações da pessoa amada, da família, filhos e amigos.
Descobrimos que ficar em casa pode ser bom.
Descobrimos os vizinhos.
Descobrimos que estar sozinho, não é estar solitário.
Descobrimos a presença da ausência, de tantas coisas, antes despercebidas, ou não valorizadas, que agora os assombram, em sua negação de se fazer presente.
Descobrimos que a vida é um sopro. Portanto, aprendemos que não se tem certeza de nada. Que o amanhã é uma previsão de riscos.

Sendo assim, e por não sabermos quando algo do tipo ocorrerá novamente, mais nunca vamos deixar de fazer aquele último passeio, ao chegarmos no quarto do hotel cansados.
É tomar um belo banho, trocar a muda de roupa, e se permitir a um novo passeio, pois que ainda dará tempo de curtir outras coisas do local em que estivermos. 

Descobrimos que aquela visita que adiamos, agora dói... Descobrimos a presença da falta.
E do quanto fomos deixando para um depois qualquer, para um dia à frente, coisas que podíamos ter feito, no momento em que as vivíamos.
Mas, que não as fizemos por nos achar imorríveis, eternos demais para ter que viver o presente.
E, com um pé no passado, e outro no futuro, quem consegue viver as maravilhas e possibilidades do presente?
2020, o ano que voltamos pra casa e nela nos refizemos como humanidade. O ano que fomos forçados a parar, a diminuir o ritmo, a encontrar a paz e o prazer, dentro de nós mesmos, só pelo fato de existir.
2020, o ano em que a humanidade se irmana um único pedido de Natal, a vacina!
E, quando toda a humanidade se enlaça num único desejo, parece que o mundo se torna menor. Parece que nos vendo pertencendo a este mesmo propósito.
E, neste dia será uma festa tão linda. Com tantos reencontros, abraços apertados, e o enxugar das mil lágrimas, pelo luto dos que partiriam.
Mas, não abandonaremos mais nossas casas. Nosso lar, pedaço de nós mesmos em cada um de seus recantos, nunca mais será deixado de lado.
Ele terá sido para nós o ninho que nos ajudou a enfrentar este turbilhão de sentimentos e situações.

É live, pode parar! (Autor Ricardo de Faria Barros)


Ontem tive o prazer de ver meu primeiro show da série: O Grande Encontro.
Nunca consegui ver pessoalmente este show.
Mas, ontem tive a satisfação de pelo menos vê-los, em sua versão digital, numa live.
Preparei a pipoca e uma Stella geladinha, arrumei o som da TV.
Chamei a namorada pra ver, ela lá e eu cá, isolados como se deve.
E ficamos no frisson danado de bom, esperando o começo. Contando os segundos.
E aí ouvimos aquele sininho que toca nos teatros.
Aquele que diz que o show irá começar em breve.
E eles entraram no palco e estava feita a festa.
Nos primeiros dez minutos, eu já estava extasiado com tanta beleza, na forma de canções que marcaram minha vida. Cujas letras dizem muito das coisas em que acredito.
No Brasil, naquele momento, eu me sentia conectado com milhares de pessoas que também acompanhavam o histórico, e inédito, show; seja pela TV, seja pelo youtube.
Após duas horas e meia de show, "voltamos enamorados para casa", deixando aquele teatro muito ricos de emoções compartilhadas, a cada canção que ouvíamos.
E, por que não dizer, mais curados. A arte nos cura.
No caminho ela me perguntou do que mais gostei, e falei que foi da parada aos 11 minutos.
Veja a parada de que falo neste texto aqui: https://youtu.be/__wGzZu6HuU?t=650
Foi algo tão bonito que gostaria de compartilhar com vocês o que disse pra ela, justificando meu gostar.

Aos 11 minutos, o trio Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Alceu Valença, cantava a bela canção Sabiá.
E, quando Geraldinho passou a bola para Alceu, ele travou.
Durante alguns segundos ele ficou sem reação. A voz não saia de sua boca.
Aí ele reagiu e falou assim:

"É live... É live!
Volta!
Ei, para aí! É live...
Para aí.
Vamos voltar...bora!
Vamos voltar!"

Elba Ramalho fez uma expressão de quem estava sem entender nada.
Geraldo Azevedo, fez cara de que não gostou.
Mas, Alceu insistia em repetir, dizendo quase numa súplica:

- É Live!

E, eles entenderam a riqueza do momento, repetiram a música, e Alceu entrou na sua vez sem mais travar, e dando um show de interpretação.

É live!!!

A vida é live. A vida não cabe numa planilha de excel. Nem numa apresentação de power-point.

Viver é live.

Quantas das vezes também precisamos parar algo. Voltar ao início e recomeçar?
Nos permitir retomar a vida e não seguir o erro, com aquela sensação de que poderíamos ter feito melhor, caso tivéssemos desistido de insistir na canção errada.
Mesmo que para isto, tivéssemos que voltar uns passos atrás.
É live.
Alceu suplicava aos seus pares para retornar a canção.
Querendo dizer que podiam se cobrar menos, ser menos formais, menos inflexíveis, e que o improviso e coisas que não saem legais, nas lives são mais aceitas.
Quanto ensinamento Alceu nos deu.
Ele poderia ter deixado seguir. E convivido por um bom tempo com aquela sensação de frustração, de desgosto para consigo mesmo, e até culpa por não ter pedido uma segunda chance para fazer direito a sua parte na melodia.
Alceu nos ensinou muito.
Pedir uma segunda chance, para fazer novamente algo que não deu correto não é sinal de fraqueza.
É de coragem! Coragem em ser verdadeiro, em querer apresentar o seu melhor Eu, a sua melhor versão.
Exige humildade, exige autoestima, exige a esperança equilibrista. Aquela que diz que da próxima vez as coisas poderão ser melhores, e que vai passar.
Uauuuu!!! É live.
Viver é live. Podemos nos cobrar menos. Podemos aprender com os erros. Podemos recomeçar um novo esboço de nós mesmos.
Ei, pode parar? É live!
Você não precisa continuar fazendo algo, só para agradar alguém. O show pode parar.
Ou, desafinar no coro dos contentes.
Viver é live.
E não tem manual. O que funcionou pra um, pode não funcionar pra você.
Mas, cobre teu espaço no acontecer. E não tenha vergonha, nem receio, em se colocar pedindo pra retomar sua parte em algo, que teu próprio desempenho produziu um mau resultado.
E, quando voltar, vá com gosto. Sem ficar se lembrando que vai falhar novamente.
Abra teu ser à nova experiência. E sem ficar olhando-se pelo retrovisor, e com medo de errar.
E, caso as pessoas queiram negar-lhe o direito ao recomeço, insista com elas.
Sem medo, pois o medo nos apequena ao mundo dos outros.
E, de tanta pequenez vamos deixando de ser nós mesmos, ao nos moldar ao que os outros pensam, querem e esperam de nosso existir.

Recomece relacionamentos em cuja entrada em cena, tu tenha causado tristeza, ou sofrimento, em pessoas amigas.

Recomece aquele desafio no trabalho, que ao tentar atingi-lo não conseguiu.

Recomece sonhos que foram ficando esquecidos, nas gavetas de teu ser.

Recomece crenças limitantes, daquelas que sopravam em teu ouvido de que jamais amaria novamente, ou de que não seria capaz de conseguir algo.

Recomece a criança curiosa, alegre, aventureira e amiga que já foi um dia.

Recomece a cultura de perdão, paz e respeito que já teve.

Recomece a autoestima e amor próprio que já teve.

Recomece de pessoas que te diminuíram e te fizeram sofrer.

Recomece dos lutos que te levaram junto.

A vida é uma live, na qual se pode recomeçar, e a cada manhã, e em cada instante.
Agora, sem errar mais naquela parte. Pelo menos naquela parte!
E, caso esteja no palco com alguém que errou o tom.
Aprenda o segundo ensinamento, aos onze minutos deste show.
Dê a esta pessoa a chance de fazer novamente, de se recriar e de tentar mais uma vez. A estimule e apoie neste reinventar-se.
Não a coloque na profecia realizadora, tão comuns em nossos julgamentos, de que "daquela mata não sairá coelho".

Afinal, na live da vida, pessoas podem nos surpreender. Coelhos não!

Está difícil, contudo é o que temos para hoje! (Autor Ricardo de Faria Barros)


Recebo o matinal telefonema de meu pai, que mora em Campina Grande-PB, distante 2.500 de Brasília-DF, onde moramos, os seus filhos.
Entre a costumeira conversa sobre o clima, ele solta uma frase, quase sem querer:
"Tem muitos dias que não saio de casa nem pra pisar na calçada da rua, está difícil isto, e só cresce, parece que não acaba nunca!
Mas, logo ele se apruma na conversa e diz assim: "mas, não estou reclamando não, você me conhece... ".
Acho que papai fala por boa parte da Humanidade. Realmente, está difícil.
Compreender o que está causando este sentimento de angústia é importante para ativar os recursos internos para lidar com eles, no que chamo de ligar o "Modo Sobrevivência".
Esta doença trouxe pelo menos cinco interrupções e dez consequências disto, nos cursos da vida e do viver.
As interrupções que destaco, longe de querer exauri-las, ou esgotá-las, são:

1. No ciclo natural da vida e morte. Inclusive em seus processos de luto;
2. Na intricada, diversificada, energética e complexa rede de relacionamentos humanos (presenciais);
3. Na dinâmica de funcionamento das famílias, escolas e trabalhos;
4. Na vivência de eventos de lazer, sociais, culturais, esportivos e religiosos;
5. E nos projetos concebidos para ocorrer neste período e nos próximos meses.

Sim papai, está difícil mesmo. Este vírus não só invadiu as células biológicas, mas se alastrou em todas as áreas da vida, provocando nelas, como as acima citadas, paradas não previstas, desgastantes e anormais.

Estas cinco paradas, ou interrupções, cobram uma conta emocional, econômica e social muito salgada, que se traduzem em dez impactos. Com certeza, você deve estar passando por algum deles.

1. Impactos na Socialização Urbana - O outro com o qual eu cruzo é uma ameaça viral, até que prove em contrário. Ninguém se sentirá à vontade, interagindo com pessoas que não sabemos se elas poderão nos contaminar. Mesmo nas rebeldes visitas familiares, ainda assim esta sensação de meio que fica sombreando o momento.

2. Impactos nos Planos e Visão de Futuro. Que é a característica do Ser Humano de sempre ter uma data à frente para alcançar algo, ou para agendar coisas a fazer no amanhã. Por exemplo, quem poderá de bom juízo programar um encontro da família, no final do ano, enquanto não sair uma vacina?

3. Impacto nos Projetos Pessoais - Que vão desde a reforma de um imóvel, até a programação das férias, ou uma viagem há muito tempo cobiçada.

4. Impacto na Relação com os Idosos - Qual filho não sente medo em transmitir esta doença para seus pais? Se os idosos já enfrentavam o vírus da solidão, a situação agora - da solidão, agrava-se mais ainda.

5. Impactos nos Ritos de Passagem - O Ser Humano é fecundo em criar seus Ritos de Passagem, e eles viram marcos históricos e celebrativos. É um chá de bebê; um batizado, uma formatura, um casamento, uma data festiva comunitária. A falta destes Ritos provocam uma sensação de vazio. É o que sente aquela jovem mãe que ao voltar da maternidade, não pode receber os amigos e familiares para o "Cachimbo".

6. Impactos no Envelhecimento Ativo - Uma revolução grisalha estava em curso. Os idosos estavam redescobrindo a vida, após os 60. E muitos deles voltando a estudar, trabalhar, viajar, namorar e viver mais uns bons 30, 40 anos de vida. Isto tudo entrou no modo Pause, até que venha uma vacina.

7. Impactos Psicológicos - A humanidade está sofrendo de um estresse traumático, e pós-traumático, com o enfrentamento desta doença. Seja pelo luto dos amigos, seja pelo desemprego e perda de renda, seja pelo medo de adoecer. Não se pode, nem se deve, conviver muto tempo num ambiente incerto, inseguro, imprevisto e sem garantias. Isto causa ansiedade e drena a saúde emocional. Precisamos apoiar nossa existência em bases sólidas. E, esta doença nos colocou numa situação de muita fragilidade.

8. Impactos na Organização da Vida  - Desde que nos entendemos por gente organizamos nossos ciclos da vida em períodos, horários e rotinas. E, isto de uma certa maneira foi meio que bagunçado. E, tem muita gente perdendo a noite pelo dia, e vice-versa. É como se perdêssemos o referencial das horas que nos habituamos a seguir, inclusive com o tempo do transito, e vivemos um "jet-lag" emocional.

9. Impactos na Economia e Trabalho  - Diferente de outras crises que a economia passou, agora vive-se a crise do Não-Mercado. O Mercado está albergado, amedrontado e de mal-humor. E isto causa uma profunda recessão, com reflexos na competitividade das empresas e na manutenção dos níveis de emprego.

10. Impactos nos Relacionamentos -  O logo tempo de isolamento tanto solidificou relações que já eram boas, como agudizou as relações que estavam tensas. A casa não foi planejada para tanta gente morando junta e por tanto tempo. E isto causa polos de tensão quase que permanente.  

Então pessoal, papai fala acertadamente que está difícil! E ele não está deprimido. Nem eu. Nem você.
Só estamos desgastados por tantas interrupções que houve em nossa vida e seus consequentes impactos.

Queria deixar umas dicas com vocês, as mesmas que falo para papai. Mas, não esperem as fórmulas fáceis.
Reconheço que não está sendo fácil, e que está sendo difícil.
E, em minha vida fui impactado por várias das situações acima descritas. Então,sei de onde estou falando.
Creio que a consciência crítica nos ajuda a pelo menos entender o mundo em que vivemos. E, este entendimento ajuda-nos a sair da confusão mental, da alienação, negação ou revolta.

Não adianta dourar a pílula. Tenho visto mofados e cínicos conselhos para quem está sofrendo que beiram uma violência para com estas pessoas.
A consciência do porquê estamos tristes, sofrendo e ansiosos já é um excelente antídoto à apatia.
Sabendo o que ocorre conosco, e o porquê ocorre, podemos ativar o Modo Sobrevivência de que falei no inicio deste texto.
Neste modo, procuramos resistir um dia de cada vez. Neste modo, acreditamos que vai passar, e nos apegamos a esta crença com força.
Neste modo, fazemos pequenas intervenções na rotina de nossos dias, para que de forma paliativa possamos proteger nossa saúde emocional.

Tal qual botamos um band-aid num ferimento. Pode não curar a ferida, mas reduz as chaces de uma infecção. É isto a que me proponho quando oriento pessoas que se sentem em crise neste momento: - encontre os teus band-aids. Que passam por perguntas tais como:

Que personagem interno está sabotando em você a energia emocional: Será o crítico? Será o ingrato? Será o perfeccionista? Será a vítima? Será o rabugento?
O que é importante manter, descartar, adiar, esquecer, ou renunciar, neste momento em que vive?
O que pode fazer para achar um bocadinho de paz e prazer no teu existir?

No Modo Sobrevivência ativamos as gambiarras existenciais para conseguir reduzir os danos e riscos a que estamos expostos. É neste modo que a criatividade é muito fecunda.  Você e eu precisamos encontrar as formas de subverter o tédio e a tristeza pela privação de mutias coisas que tivemos. E isto se faz com autenticidade e uma certa "malandragem" na forma como se leva a ´serio, ou encara a vida.

Por exemplo, eu deixei de caminhar, pelo perigo que estava tendo em cruzar com muitos sem máscaras. Então descobri que o corredor do apartamento toma um belo sol pela manhã, então botei uma cadeira nele, tiro a camisa, e tomo o cafezinho matinal ali. Naquela área comum do prédio. Fico na porta da cozinha, sentado numa cadeira de acampamento, sentindo-me na praia, pouco me lixando pra quem por ventura por ele passe. 
A saudade aperta? Que tal escrever cartas?
A casa está pequena? Que tal navegar em cidades, parques e museus virtuais?
O dia se arrasta?  Que tal aprender algo pela internet?

Cada um sabe dos band-aids que funcionam. Mas, repito, o principal neste momento é se entender dentro de muita coisa que lhe foi tirada, e da falta que estas coisas estão causando em teu viver.

Por último, falo uma coisa pra papai que considero das mais importantes. Marque algo na agenda para fazer num amanhã possível e realista.  Seja uma celebração, daquelas dos Ritos de Passagem anteriormente descrita, uma viagem, ou iniciar um projeto pessoal a muto adiado.
Force teu cérebro a agendar algo para o amanhã, isto ajuda em muito a diminuir a sensação de falta de controle e ação sobre o carrossel do destino. Eu irei no São João de Campina Grande-PB, em junho de 2021. Ah se vou!

Está difícil sim, e não sei quando vai passar. Só sei que vai. Mas, não me pergunte quando.
Também não sei se para todos vai passar. Para muitos, estes dias deixarão sequelas.
E precisamos ter compaixão e empatia para com eles. E, o coração e mente em reverenciosa contrição. Pois que este momento pede também um pouco mais de silêncio, contemplação.
Pede empatia para com outras pessoas que não estão dando conta.
Pede coragem, a coragem dos sobreviventes, aquela que nos diz que é preciso resistir - um dia de cada vez!   E que se não "esperançarmos" a vida, ela irá murchar rapidamente. 

Amorável Manhã (Por Ricardo de Faria Barros)

Sob o sol dos cobogós, trago minha alma para tomar banho, nestas manhãs iluminadas de isolamento. Confesso que este será um dos bons legados, destes dias tão cinzentos, nos quais me vejo perdido em em pensamentos de quando é que isto tudo que aí está vai cessar...
E é um legado que só a parada de tudo, em hibernação social, fez se mostrar.
E, nas manhãs tenho feito esta aprazível rotina.
O tempo está ajudando: céu aberto Anil-Brasília e temperatura pelos 20 graus.
E aí, um bom café, uma música de qualidade, uma cadeira de acampamento, uma revista Vida Simples, e está feito o acampamento no corredor do apartamento, estrategicamente montado à frente da entrada da cozinha.
Ali, tomo meu banho de sol e vejo as brincantes de maritacas que se escondem nos reticulados das parede de concreto, sem se mostrarem para mim, mas flagradas em suas sombras gritantes.
E uma lufada de luz amorável invade meu ser.
O poeta Manoel de Barros definiu este termo dizendo que ele é próprio das andorinhas, dado que o urubus são carniceiros.
Então, estas manhãs tem sido amoráveis. Manhãs andorinhas.
É preciso cultivar um jeito de viver amorável, no qual a cada tempo, gourmetizado vivido, gera nascentes de sentido, travestidas em mil possibilidades de presença.

Folheio matérias ao léu, e paro as vista na esquina de uma folha, na qual vejo a fotografia de um osso. Trata-se de um fêmur pré-histórico.
O que ele teria de tão importante? Matuto minhas caramiolas.
Descobri que aquele osso humano tinha uns 50 mil anos, desde sua última caminhada (*).
E o que chamou minha atenção ao ler a matéria foi a descoberta, da Antropóloga Margaret Mead (+1978), sobre aquele singelo pedaço de osso.
Numa análise mais apurada, os cientistas descobriram que aquele fêmur tinha um talho no seu meio, preenchido com tecido ósseo mais jovem, produzido como fruto da colagem das duas partes que se quebraram.
Nenhuma espécie que tenha ossos, para suportar sua caminhada, como os caprinos, bovinos ou prosaicas galinhas, terão seus ossos restaurados, após quebrados, em iniciativas de assistência à saúde promovidas pela sua própria espécie.
Estes animais estarão condenados a mancarem, a morrerem por inanição, ou até a se infecionarem pelo corte ali produzido.
Mas, ali, 50 mil anos atrás, algo ocorria diferente com a espécie humana. E, aquele fóssil restaurado comprovava isto.
Alguém providenciou um cuidado para aquele ser humano.
Alguém o alimentou, tracionou a perna para juntas as partes seccionadas.
E colocou talas fixando os ossos, as amarrando com tiras de cipó.
Por meses, aquele ser humano foi alimentado, deram-lhe água, protegeram-lhe das ameaças do frio, das feras.
E até retardaram sua marcha, migrante pelas estações do ano, para dele cuidar.

O sol vai se erguendo, agora o sol bate em meu coração e cabeça. Sinto sua presença.
O telefone toca e é papai, para nossas matutinas conversas a 2.500 km de distância um do outro.
Ele pergunta como estou, o que estou fazendo, e digo-lhe que estou sob os sol dos cobogós.
Ele sorri, e me diz que também está bem. E que vai tocando a vida no isolamento, deliciando-se com a vida de alguns youtubers de caminhoneiros que achou.
Depois, quem me aciona é meu filho mais velho. Ele diz que virá buscar o meu carro para botar um equipamento que comprei, e depois devolverá com aquilo lá resolvido.
Ufa!
Desligo e vejo que tem mensagem da namorada, querendo saber do Rodrigo, de quantas andas o mal estar que ele começou a sentir de uns dias pra cá.
Aproveito, e pergunto sobre uma dor que ela andava sentindo nos pés, se o exame de ácido úrico já saíra.
Mando mensagem pra Rodrigo e digo que estou na área, para o que ele venha a necessitar.
Se há uma característica universal da Humanidade é o cuidar. Desde aquele fêmur, até os diálogos cuidadosos deste adolescer da manhã.
Esta é a nossa essência, cuidar uns dos outros.
Podemos até termos nos afastado disso, nestes dias cinzentos que vivemos. Mas, o cuidar faz parte de nossa narrativa social.

Veja por exemplo quantos profissionais de saúde estão de desdobrando, dando em trabalho muito mais do que são contratados, e recebendo muito menos do que merecem, só para não deixarem pessoas sem assistência.

Veja os professores que tiveram que se desdobrarem, país afora, para não deixarem seus alunos sem aulas. Improvisando até varais de atividades, impressas em velhos mimógrafos a álcool, criando uma nova metodologia de ensino a distancia: o varal ensinante.

Veja quantas pessoas estão doando recursos financeiros, em vaquinhas virtuais, ou doando seu próprio tempo, para melhorarem a vida dos mais sofridos, ou levarem um pouco de sol para almas congeladas.

Somos Homo-Cuidadores. Não deixamos ninguém para trás. E, se necessário for, atrasaremos nossa marcha até o fêmur calcificar novamente.

Aqui e acolá aparece alguém que nega esta essência. Sim, eu sei. Pessoas más que asfixiam a outra com a perna, que tratam os tidos por diferentes deles com escarnio, violência e injustiça.
Sim, eu sei...
Eles também existem. Noutras tribos, também há 50 mil anos atrás, algum de seu morador poderá também ter tido um fêmur quebrado. E, nela, a cultura sobrejacente não era a do cuidado, era a de sacrificar o inválido, ou deixá-lo à própria míngua.
Mas, na evolução da Humanidade, são as tribos de cuidadores que predominam. São eles quem socorrem os feridos, apoiam os cansados, estimulam os sem ânimo e fortalecem, com presença, os carentes de esperança.

O cuidar é o primeiro tratado ético-moral e civilizatório de nossa espécie.
É uma habilidade afetiva e sócio-emocional, derivada da empatia. Da consciência que o outro importa e que toda a vida humana é preciosa. E merece ser vivida em plenos direitos e dignidade.

A empatia pode ser ensinada pelo exemplo.
A mãe que cuida das tarefas, alimentação e higiene dos filhos, enquanto também trabalha em casa.
Está ensinando empatia aos pequenos.
O (a) parceiro(a) afetivo(a) que cuida desta mãe, contribuindo com a saúde mental dela, ao assumir parte das tarefas domésticas, também está dando aula prática da disciplina Empatia.
A empatia se aprende e se ensina na escola da vida. E nela, que desde pequenos vamos sendo cuidados e cuidando, uns dos outros, e até de nossos animais de estimação e plantas.
E, isto é contagiante, Famílias andorinhas-cuidadoras, formam desde pequenos os futuros cuidadores. São famílias amoráveis, como diz o poeta.
Lá em casa, por exemplo, nunca um pedinte saia de mãos vazias. Mamãe sempre arrumava algo no fogão, na dispensa, nos armários de roupa, para dividir para com eles.
E, com ela aprendemos.

Mas, pra aprender o verbo do cuidar tem que antes conjugar o do interessar-se.
Sem se interessar o outros nunca se fará presente ao nosso viver, e vamos condená-lo ao pior dos ódios, o da indiferença.
Você tem alguém em teu viver que conjuga bem este verbo? O do interessar-se?
Eu tenho. E, quando ela o conjuga, como num ato contínuo, dele brotam duas manifestações amoráveis: a empatia e o cuidar.
Se interessar, ter empatia e cuidar, parecem ser palavras de uma mesma frase que diz assim: A Humanidade pode dá certo, sim!
Mas, precisamos fazer um enorme esforço coletivo para que a espécie de cuidadores não entre em extinção.
E, isto depende da minha e da tua resposta às várias situações da vida que reivindiquem interesse, empatia e cuidado.
Guardo as tralhas na cozinha, o sol já levantou.
Escuto vozes no corredor. Abro a porta e vejo que por ele vem correndo, uma criança em seu velocípede, e um avô-zorro em seu encalço.
Estão em amorável comunhão do existir. Acho na dispensa um pirulito. Pego com guardanapo e chamo o pequeno para presentear-lhe com aquela guloseima.
Ele pega e sai todo feliz, pedalando e abrindo o doce, com seu avô correndo atrás.
Abro um sorrisão com a cena
Sim a humanidade tem jeito. E aquele avô está ensinando ao neto - ciclista de velocípede, a arte do cuidar.

Nove Semanas de Gestação de um Mundo Novo Pós Covid-19 (Autor Ricardo de Faria Barros)

Vem chegando devagarinho a hora do Angelus, e tudo vai se silenciando neste encontro do dia com a noite.
E, mais um domingo se finda, e com este já são nove deles, e em completo isolamento social.
Do alto de meus quase 56, e do grupo dos hipertensos, não é bom vacilar.
Então, faço as coisas direitinho. Fico em casa, uso máscaras, lavo as mãos e evito fazer visitas e sair.
Aqui em casa, coloquei um nome em cada cômodo. A sala virou a praça. A cozinha a feira-livre. O banheiro a cachoeira. O quarto de dormir o drive-in. O quarto de hóspedes a Biblioteca Nacional.
Tenho alguns pesares, neste processo de distanciamento.
De não ver meu amor, embora morando na mesma cidade. Ambos em isolamento e conscientes.
Embora, ela tenha vindo hoje no estacionamento, namorar a distancia, mas se vendo, e ainda ganhei uma suculenta feijoada para o almoço, passada com cuidado pelo vidro do carro, exalando álcool de sua sacola.
Novos tempos.
Lamento pelos casais enamorados que vivem em distanciamento nestes dias. Não. Não é fácil.
Parece que a sofrência aumenta mais ainda, principalmente quando se mora na mesma cidade.
Também gostaria de estar mais presente, fisicamente falando, para ver meu netinho crescendo, e me maravilhando com suas primeiras descobertas.
Ele agora está com 6 meses. Então, dois terços da vida dele se passaram com os seus avós em isolamento social.
E isto não é bom.
Mas, quando a sofrência vem chegando eu faço brincantes ousadias para que ela não venha a reinar.
Se deixar ela te domina.
Eu saio para cuidar das plantas, um de meus melhores passatempos. Algumas delas habitam o corredor de cobogós, que o transformei num jardim Inda agorinha minhas violetas me deram boa-noite.
Você também anda escutando coisas? Tenho tido bons papos com o fogão, que é de quente nas argumentações. E com a geladeira também, mas ela é mais fria. Com a máquina de lavar roupa não é bom. Lavar roupa emocionais no distanciamento ninguém merece.
Tenho enraizado sentimentos nestes dias. Não é angústia, nem tristeza, é um momento de rica conexão espiritual, talvez único em minha vida. Ou, em nossas vidas.
E, no silêncio de mim mesmo, vou me reconstituindo e me fortalecendo.
Já tenho uma rotina de atividades que preenchem meu dia. Uma rotina que me mantém produtivo e com a cabeça ocupada. Ando até cansado. Leio, estudo, pesquiso, preparo as refeições, dou uma geral no apartamento, rego as plantas, boto água dos beija-flores, vejo séries com meu amor, e, quando a coisa tá ficando feia arrumo o apartamento, depois posto algo nas redes. Sou dos que pensam assim: posto, logo existo!
Também navego nos canais que assinei no youtube, verdadeiras preciosidades que me distraem muito. Canais de pessoas simples que ligam a câmera e gravam os seus cotidianos. Gente sem maquiagem, gente verdadeira e muito resiliente.
Até acho que ando mais produtivo do que antes. Nestes dois meses, já consegui elaborar e ministrar cinco lives-palestras.
- A Esperança Equilibrista e o Capital Psicológico Positivo (INTELETTO)
- Cuidados com a Saúde Mental no Home-Office (CNMP, FUNCEF e ADASA)
- Dicas de Bem-Estar no Isolamento (PRIMED)
- O Mundo Pós-Covid 19, o Novo Normal (FUNPRESP-JUD)
- A Curadoria do Conhecimento - Novas Possibilidades para Gestão dos Saberes (INTELETTO)

Também, neste parto de Lua Cheia (9 semanas), soube que o meu artigo de TCC, de uma pós que fazia em Psicologia Positiva, que já estava pronto, e aprovado pelo orientador, foi negado a sua publicação pela Coordenação do Curso.
Ocorreu a falta de um documento prévio à realização de uma pesquisa, o que acabou comprometendo toda a aquela produção intelectual.

Ou seja, como diz a canção, começar de novo, e vai valer a pena...
Aprendi coisas novas. Agora sei transmitir uma Live, diretamente para as redes sociais, usando um bom aplicativo gerenciador da mesma, no meu caso, o OBS Studio.
Tento não olhar para o que perdi, com o advento desta doença. Contratos já fechados com a minha empresa, para 2020, a Ânimo Desenvolvimento Humano. Posso dizer que o prejuízo foi igual ao meu faturamento de 2019, e com isto acabei adiando o sonho de voltar a ter uma edícula pra chamar de minha, e sair do aluguel. Tive que absorver o prejuízo, e adiar o projeto de construção da mesma. “Tem nada não. Amanhã pode acontecer tudo, ou simplesmente nada.”, como diz a canção.

Mas, tem gente muito pior Gente esperando respiradores, vagas em UTI, gente enterrando os seus e chorando a ausência deles. Gente sem renda, e empresários sem crédito – vendo seus negócios a muito tempo estabelecidos irem à bancarrota.
Então, como tenho a aposentadoria, e mesmo tendo prejuízos enormes em minha empresa, ainda estou o lucro. Agora é ter esperança e paciência, e não desanimar. Mas, que o baque foi grande, isto foi!

Acho que todos ganhamos uma lente com esta doença. E, onde colocarmos esta lente ela amplia. Amplia tudo: emoções, sentimentos, pensamentos, sofrências e atitudes.
Por isso temos que ter muito cuidado. Os tempos atuais são amplificadores e aceleradores de futuros. E, passos mal dados no agora, vão ecoar muito forte no amanhã.
Então, é preciso caminhar com consciência, segurança, e sem acelerar o ritmo, para não forçar a barra emocional, um passo por dia já tá bom.
Tenho visto muitos meus pais, diariamente nos falamos. Antigamente, olha como falo, antigamente (rsrs), era uma vez por semana - e aos domingos.
Agora nos telefonamos diariamente, e temos feito lives com a família, filhos, neto, noras, genro, irmãos, sobrinho e cunhados.
Ontem, fizemos um jogo de perguntas e respostas, um Quem Quer Ser um Milionário improvisado, tendo o filhote JG como aquele que fazia as perguntas. Criamos regras na hora e foi legal. Nos divertimos muito, e minha cunhada ganhou a pergunta do milhão. Amanhã eu compro um no mercado para ela.
Não quero projetar em mim, nestes dias que parecem uma eternidade, os SEs. Se eu tivesse ido na Europa, Se eu tivesse curtido mais as férias de dezembro e janeiro. Se eu e ela estivéssemos juntos agora, numa casinha de campo.
Estes SEs são doentios e nos amarram ao ontem, e nos causam mal.
Também não quero um conjunto de QUANDOs pra chama de meu. Quando passar vou fazer isto, aquilo, ou isto.
Quero não.
Até porquê, um monte de coisas que programei pra fazer num quando qualquer deram em água. Quando um dia tivesse tempo... Tempo agora é o que não falta e, por exemplo, as fotos digitais que planejei organizá-las, só o fiz com as de 2014. Tinha todo tempo do mundo, mas não tinha mais tesão pra fazer aquilo lá.
Assim como o espanar e limpar os discos de vinil. Só fiz de uns 10, dos mil que tenho.
Paciência. Acho que a gente não pode se cobrar muito neste isolamento. E tem que ir levando como rende, se descobrindo naquilo que tá fazendo sentido e dando prazer ao momento.
Ando com ressaca institucional das notícias políticas de meu Brasil.
Chego até a ter inveja de outros países, muito mais coesos e focados no enfrentamento da Pandemia, em todas as suas áreas que demandam atenção.
Isto aqui virou uma guerrilha de narrativas, na qual quem perde é quem sofre.
A Air-Freyer apita, minha carne de sol está pronta. Deu vontade de tirá-la do freezer e fazer agora. Ficou muito boa. Ufa!! Menos despesas com IFood.
Nestes dois meses recebi ligações de pessoas querendo saber como eu estava. De Se. Valdecir, dos garçons do Libanus: Rangel e Bahia, de minha antiga diarista, a Marta. E fiquei muito feliz.
E vamos vivendo assim, cuidando da cabeça. Levando a alma pra balançar na rede do existir.
Saber que o amanhã pode ser incerto, com muitos riscos nos planejamentos e marcações na agenda. Ok.
Saber o dia que estaremos comemorando termos sido vacinados, nem o melhor futurólogo pode prever. OK
Saber o que fazer de produtivo, e significativo, com o tempo do agora, isto está sob o meu controle e o teu. E poderemos fazer.
Mas, tente. Faça alguma coisa, não se entregue a apatia e desânimo. Quando eu sair de casa a Terra terá recebido uma nova versão, após ter sido formatada. Penso que terei que atualizar a minha para poder navegar neste novo contexto social e econômico que viveremos.

Baixe a Nova Versão da Terra
Faça a barba. Troque este pijama de dias.
Dê aulas fictícias.
Converse com suas plantas.
Crie um blog com as histórias da família.
Arrume a casa.
Faça cartas pra vizinhos, parentes, amigos, diga que eles são importantes pra ti.
Mande flores para as redes sociais, tão cheias de ódio.
Deixe de comer só miojo.
Pare de lamentar o que perdeu, o que sofreu, o que não deu.
Experimente aprender pratos novos.
Não pegue no pé dos meninos, por não se engajarem tanto na educação a distancia. Tudo bem se eles não tirarem as melhores notas, eles também estão sem saber bem o que está ocorrendo com tudo e todos.
Tenha paciência com teu cônjuge com quem divide a toca. Este momento amplifica o que já sentia antes. Então, conte até 1000. Ou, corra para um colo. Dependendo da natureza do que circula em teu coração.
Deixe fluir o amor. Qualquer que seja a expressão dele em teu viver. O amor mantém a chama da vida acesa.
Ligue pra seus pais idosos. Faça que com que eles se sintam importantes pra você.
Quem sabe não é a hora de lavar aquela mágoa encardida e oferecer perdão.
Tenha calma com as calorias a mais.
Contudo, que tal uma malhadinha aí dentro de casa, ou saindo protegido(a) pra caminhar.
Leve-se para tomar sol.
Beba menos. Ou pare.
Tome mais sorvete e menos sopa.
Corte seu próprio cabelo.
Aprenda a fazer pequenos reparos em casa. Tem no youtube como.
Escute uma boa live.
Acompanhe alguma delas online e ajude alguém fotografando o QR-Code. Vai se sentir melhor.
E, repito, atualize-se na Nova Versão da Terra.

Afinal:
“ Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo. Não adianta fugir. Nem mentir pra si mesmo.
Agora, há tanta vida lá fora.
E aqui dentro. Sempre!”

Não Normalize o Luto (Por Ricardo de Faria Barros)

Em dois dias, 2000 pessoas morreram de Covid-19 no Brasil. 
E isto não pode ser normalizado. 
Não! 
Por caridade, isto não pode ser normalizado, nem é coisa banal.
No mínimo, faça um minuto de silêncio, uma prece. 
Faça algo.
Escreva um post solidário.
Silencie.
Cubra-se de cinzas, acenda umas velas.
Respeite o luto do outro que sofre.
Só não diga que é normal. 
Estas pessoas ainda teriam bons anos pela frente. 
Não, isto não é normal.
Pessoas que morreram em filas de espera.
Não, isto não é normal.
Pessoas que morreram sem receber ventiladores. 
Não, isto não é normal.
Também não me venha com piedosas intenções. 
Dizer que foi o melhor pra elas. 
O melhor sempre é viver.
Nem tampouco me diga que Deus as quis levar. 
Deus não trabalha com fast-food de mortalidade. 
Isto é especialidade dos Homens, não é coisa de Deus.
Enterrei muitos portadores do vírus da Aids, de 94 a 98, e nunca aquilo foi normal. 
Ou escolha do destino deles.
Nunca! 
Morriam por não haver uma vacina, ou medicamento eficaz, ou leitos de hospital para tratar as infecções oportunistas. 
E nunca deixamos nenhum militante do GAV dizer que era normal.
O que vivemos hoje é uma catástrofe. 
E estas mortes se espraiam em todos os setores sociais. 
Com pequenos comerciantes, morrendo, sem acesso ao crédito. Com trabalhadores, morrendo, numa fila de auxílio emergencial. Com profissionais de saúde, morrendo, no front do enfrentamento. Com caixas de Bancos Públicos desdobrando-se para atender filas quilométricas, além de expostos.
Não, não podemos normalizar a morte, a dor, a luta de tantos por seus direitos à assistência.
Vivemos um polvo-tragédia, que se manifesta em mil tentáculos de medo, impotência, sofrimento e luto.
E, em nenhum deles, repito, em nenhum deles, pode habitar a normalização.
Nego-me, com veemência, a considerar esta besta fera como normal.
Nego-me a dizer que morreriam de um jeito ou de outro. Afinal, quem não?
Nego, como a bandeira de meu Estado, a fingir que nada ocorre, ou continuar com a vida normal.
Nego a fazer de conta que tudo vai bem, deitado em berço esplêndido.
Nego botar uma fantasia, entorpecendo e alienando a consciência, para fugir do real.
Nego não chorar.
Eu choro, eu sofro, porque o instante existe. E a minha alma não é pequena.
Quando eu não mais me assombrar, não mais me indignar, não mais apertar o coração ao ver tanto sofrimento, eu me tornarei tudo aquilo que mais me revira as tripas, alguém cuja a presença no mundo não coopera em torná-lo melhor.
Nem que seja chorando as mil lágrimas, nesta noite de pesadelo brasileira que não quer findar.
Quanto à esperança de dias melhores, eu tenho e de montão. 
Mas, cada coisa em seu lugar. 
E o momento é de chorar.

Ass. Ricardo de Faria Barros

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