Brincar de Viver (por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Tem gente que ensina falando. Tem gente que ensina escrevendo livros, dando aulas, fazendo discursos. E tem gente que ensina vivendo. Ana Cristina é dessas.

Esses dias, acompanhei duas aventuras de Ana que me deram vontade de escrever esta crônica. A primeira foi sua estreia no jogo de câmbio, lá na praia do Cabo Branco, em João Pessoa. A segunda, sua pilotagem numa bicicleta motorizada, pelas ruas da cidade.

Duas experiências diferentes, mas com uma coisa em comum: a alegria de quem não perdeu a vontade de experimentar a vida.

Aos 64 anos, Ana continua curiosa, destemida e cheia de disposição para aprender. E foi vendo essa mulher viver que entendi por que ela merece uma crônica no Bode com Farinha. Não apenas pelo que faz, mas pelo tanto que me ensina.

Tudo começou quando fui convidado por Ricardo Silva, jogador do time Cabo Branco, para um treino de câmbio, por volta das quatro da tarde, na praia do Cabo Branco. Disse que iria, e Ana logo se escalou para ir comigo. Afinal, Ana não perde uma oportunidade de se meter numa novidade.

Chegando lá, fez o que sabe fazer muito bem: foi conversando, sorrindo, fazendo amizade. Ana tem esse dom. Não precisa de muito tempo para se enturmar. Quando a gente percebe, já está todo mundo conversando com ela.

Núbia, atleta do time Cabo Branco, foi de uma gentileza danada. Colocou meu nome e o de Ana na relação dos próximos jogadores. No câmbio, as equipes têm oito jogadores. Ana entrou logo no primeiro jogo, e eu fiquei para o seguinte.

De fora, fiquei fotografando, filmando e registrando os acontecimentos. E foi aí que vi uma coisa bonita demais.

Ana nunca tinha jogado câmbio na vida. Não sabia direito as regras nem tinha experiência com aquela brincadeira. Mas ninguém exigiu que ela aprendesse tudo primeiro para só depois lhe dar uma oportunidade.

Ela entrou no jogo.

E aquelas oito pessoas que já estavam ali pareciam ter se tornado um pouco Ana Cristina também.

Ensinavam as regras no calor da partida, orientavam, incentivavam. Quando ela segurava uma bola, era uma festa. Quando conseguia devolvê-la, outra alegria. Quando errava, tinha sempre alguém para ajudar e animar.

Ana não estava sozinha. Fazia parte do time.

E sabem o que aconteceu? Ela se empolgou tanto que até discutiu com o juiz, pedindo o VAR.

Pronto. Ana sendo Ana. Kkkkk.

Aos 64 anos, parecia uma moleca descobrindo uma brincadeira nova. Corria, tentava, ria, vibrava. E eu, ali de fora, ficava extasiado com aquela alegria de menina. Não era só por acertar uma bola. Era a felicidade de estar ali, aprendendo, participando, sendo acolhida.

(Ana com a bola)

Fiquei pensando: qual outro esporte recebe assim uma pessoa que nunca jogou? Qual outro ambiente permite que alguém chegue sem saber, entre na brincadeira e aprenda junto com os demais, sem se sentir deslocado?

Porque, convenhamos, em muitos lugares acontece justamente o contrário. Primeiro, a pessoa precisa provar que sabe. Depois, mostrar que é competente. Só então ganha espaço. E, se errar, ainda corre o risco de passar vergonha.

No câmbio, naquele treino que presenciei, foi diferente. Ana chegou sem saber, mas isso não impediu ninguém de lhe dar lugar. O pessoal ensinou, incentivou e vibrou com ela. Não precisou esperar que Ana virasse uma boa jogadora para gostar de tê-la no time.

Que coisa bonita!

O câmbio me pareceu muito mais do que um jogo de bola. É uma brincadeira coletiva, com regras, movimentos, estratégias, erros e acertos. Mas o que mais me encantou não foi a técnica. Foi o jeito de brincar junto.

A bola passa de mão em mão, e com ela vão também o incentivo, a confiança, a convivência e a amizade.

Fiquei tão impactado que comecei a pesquisar mais sobre o jogo e a preparar uma cartilha sobre o câmbio. Queria explicar as regras, claro, mas também registrar aquilo que me parece ser uma das maiores riquezas dessa prática: a capacidade de integrar pessoas, criar laços e fazer com que cada um se sinta parte de alguma coisa.

Tomara que o câmbio nunca perca esse jeito de ser. Que não deixe a competição engolir a brincadeira. Que não vire uma disputa de egos, músculos e performances. Porque, quando isso acontece, a gente corre o risco de esquecer o prazer de simplesmente estar junto.

Às vezes, a melhor jogada de uma partida é ver alguém que nunca jogou conseguir segurar a bola e ouvir todo mundo comemorar.

Foi isso que vi com Ana.

E foi bonito demais.

No dia seguinte, veio outra aventura.

Fomos buscar uma bicicleta elétrica que eu havia comprado e que estava sendo montada. Minha ideia era colocá-la no carro e voltar para casa com ela. Um plano simples, sem grandes emoções.

Mas eu estava lidando com Ana Cristina.

Voltar dentro do carro não lhe pareceu interessante. Ela quis pilotar a bicicleta motorizada.

E lá foi ela!

Capacete na cabeça, sorriso no rosto e aquela disposição de quem está estreando uma novidade. Percorreu cerca de seis quilômetros, a aproximadamente 30 quilômetros por hora, enquanto eu seguia atrás, dirigindo o carro.

De vez em quando, olhava para ela e ria sozinho. Não por achar graça da aventura, mas porque era impossível não me contagiar com aquela felicidade.

Ana parecia uma criança chegando a um parque de diversões. Sentia o vento, descobria o caminho e aproveitava cada minuto daquela pequena conquista. A bicicleta era motorizada, mas a alegria era toda dela.

E eu fiquei pensando nessa capacidade de se permitir. De não olhar para a idade como se ela fosse uma placa de proibido. De não achar que certas experiências já passaram do prazo de validade.

Ana não estava tentando provar nada a ninguém. Estava simplesmente vivendo.


Quando chegamos ao Bar da Buchada, no bairro do Altiplano, em João Pessoa, ela fez questão de anunciar a chegada com uma salva de buzinas. Buzinou, chamou a atenção de todo mundo e chegou ao restaurante como quem acabava de conquistar um pedaço novo do mundo.

O pessoal olhou, admirado: "É a Ana?"

Era ela mesma!

A dona do Bar da Buchada, aquela mulher que compra, cozinha, vende, paga fornecedores e resolve os problemas de uma rotina pesada, tinha acabado de chegar pilotando sua motinha, toda faceira, feliz da vida.

E eu ali, acompanhando tudo, pensando em quanta gente passa os dias trabalhando, resolvendo problemas e cumprindo obrigações até esquecer que também tem direito a brincar.

Porque a vida de Ana não é feita só de passeios e gargalhadas. Há muito trabalho naquela mulher. O restaurante exige presença, energia e responsabilidade. Ela compra, cozinha, vende, paga as contas e resolve o que aparece. É atacante, zagueira, goleira e artilheira do próprio negócio. Chuta, cabeceia, agarra e ainda faz o gol.

Mas, no meio de tanta obrigação, encontra disposição para aprender um jogo novo, conhecer pessoas, pilotar uma bicicleta e se alegrar com coisas que muita gente consideraria pequenas.

Pequenas para quem olha de fora. Enormes para quem ainda sabe se encantar.

No câmbio, Ana entrou sem saber jogar e encontrou gente disposta a ensiná-la. Na bicicleta, resolveu experimentar algo novo e descobriu mais um caminho para percorrer. Nas duas situações, teve a coragem de começar.

E talvez seja isso que mais me ensine.

A gente passa tanto tempo tentando parecer competente, seguro, preparado, que acaba perdendo a coragem de ser iniciante. Queremos chegar sabendo, evitar erros, não dar vexame. E, nessa preocupação toda, deixamos de viver um bocado de coisa boa.

Ana não. Ana vai.

Se tem uma brincadeira, ela experimenta. Se tem gente, ela conversa. Se aparece uma novidade, ela se interessa. E, quando a alegria chega, não faz questão de escondê-la.

Aquela fotografia dela na bicicleta, olhando para trás e botando a língua de fora, diz muita coisa. É o retrato de quem não tem vergonha de ser feliz. De quem ainda guarda espaço para a molecagem, mesmo carregando nas costas as responsabilidades de uma vida adulta.

Gosto de pensar que aquela língua de fora é quase uma resposta ao mundo, que vive dizendo como devemos envelhecer, o que já não combina com a nossa idade e quais brincadeiras deveríamos abandonar.

Ana parece responder com o próprio sorriso:

Ainda estou aqui. Ainda quero conhecer. Ainda quero aprender. Ainda quero brincar.

E isso me faz pensar na sociedade em que estamos vivendo. Tanta preocupação em produzir, competir, vencer e mostrar resultados. Tanta gente cercada de pessoas, mas se sentindo sozinha. Tanta gente com vontade de participar, mas com medo de não ser boa o bastante.

Por isso, aquele treino de câmbio me pareceu quase revolucionário. Um lugar em que ninguém precisa chegar pronto. Pode chegar como é, aprender com os outros, errar, acertar e descobrir que sua presença importa.

Ana me ajudou a enxergar isso.

Porque, no fim das contas, a bola é uma desculpa muito boa para juntar gente.

E a bicicleta me lembrou que nunca é tarde para sentir aquele friozinho bom de fazer alguma coisa pela primeira vez.

Hoje é quarta-feira. Estou voltando para Brasília.

Ana acordou às quatro e meia da manhã. Ia correr, mas resolveu ficar mais um bocadinho. Esse gesto, tão simples, veio comigo. No meio de uma vida que começa cedo e não dá trégua, ela escolheu ficar mais alguns minutos ao meu lado.

Às cinco e meia, já estava na Ceasa, fazendo as compras do Bar da Buchada. E, lá pelas quatro da tarde, ainda deverá estar no treino do Cabo Branco.

É assim essa mulher. Apatia e preguiça parecem palavras que não encontraram endereço nela. Ana tem sede de viver e fome de prazer. Prazer de experimentar, aprender, encontrar gente e descobrir o que ainda pode fazer pela primeira vez.

Estou voltando, mas levo comigo essas cenas: a mulher de capacete, a jogadora estreante, a dona de restaurante que madruga na Ceasa e a companheira que, com o dia inteiro pela frente, escolheu ficar mais um bocadinho comigo.

E você, minha gente, quando foi a última vez que saiu de casa para fazer alguma coisa pela primeira vez?

Não espere saber tudo para começar. Não espere sobrar tempo, desaparecer o medo ou chegar a idade certa. A vida não manda convite. É a gente que abre a porta. Procure um grupo de caminhada, um time de câmbio, uma aula de dança, uma roda de conversa. E, se chegar sem saber, melhor ainda: alguém vai ter o prazer de lhe ensinar.

E, se alguém lhe disser que certas brincadeiras já não são para a sua idade, lembre de Ana, com a língua de fora, o capacete na cabeça e aquele sorriso de quem acabou de aprontar mais uma.

O mundo já tem gente demais ensinando os outros a parar.

Que nunca nos falte coragem para começar, curiosidade para descobrir e esse jeito moleque de continuar ocupando a vida com alegria.


A bicicleta ficou para depois...

Uma vitória na Fórmula 1 da longevidade.

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Dedicado à Ilda, Ricardo, Núbia, Nadja, Rose e Jairo. Porque, com vocês, meu portal de pessoas de luz ficou ainda mais reluzente.

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Eram umas seis e quarenta e cinco da manhã quando o Tema da Vitória chegou aos meus ouvidos.

*Tan-tan-tan-tan, tan-tan-tan-tan...*

Vinha de longe, em metais. Aquela música das manhãs de domingo, Ayrton Senna cruzando a linha de chegada com a bandeira na mão e o Brasil inteiro acordando junto. Eu tinha um objetivo no bolso: buscar uma bicicleta elétrica. Queria ganhar velocidade pela orla.

Mas a música chamava. Curioso, segui o som. A vida desviou o volante. Ou melhor, desviou o ouvido.

Era a banda de música do Corpo de Bombeiros. E aqueles metais acordaram uma lembrança que eu tinha guardado num canto e esquecido por lá.

Um mês antes, numa corrida de aplicativo até a rodoviária, conheci Jairo Brilhante. Brilhante de nome e de gesto. Motorista e jogador do time do Carcará. No caminho, ele me contou a beleza do câmbio com o entusiasmo de quem fala de um amor. E me convidou para o campeonato do dia 8 de outubro. Dia do Nordestino. Não podia haver data mais certa. E o dia 8 era justamente aquele.

Fui chegando mais perto. Uns quatrocentos metros depois, parei diante de um portão. Era o Centro de Referência Municipal da Pessoa Idosa, o CRMPI, no bairro do Altiplano, em João Pessoa. A carona de um mês atrás tinha virado um portal.

Cheguei ao time Cabo Branco como um estranho. Sem saber onde pousar as mãos, com aquele frio na barriga de menino no primeiro dia de escola. Aos sessenta e poucos, a gente descobre que esse frio não envelhece. É a longelescência mostrando a cara: o mesmo medo de não ser aceito, a mesma vontade danada de fazer parte.

Aquele portão era mais uma estreia na minha vida. Mais uma primeira vez, numa idade em que muita gente acha que as primeiras vezes acabaram. Eu acredito, e a clínica me confirma todo dia, que o bom envelhecer mora aí: em continuar curioso, continuar estreando. Quem ainda tem estreias pela frente ainda tem futuro pela frente.

A velhice que se fecha diz: já vi de tudo. A longelescência responde: ainda não vi isso aqui.

Mas eles não me deixaram na beira. Abriram a roda como quem puxa mais uma cadeira para a mesa. Sem cerimônia, sem prova de admissão. Em poucos minutos, eu era visitante com crachá de casa.

No Jogo de Câmbio, a bola passa de mão em mão. Um recebe, caminha, entrega. O outro acolhe e devolve. É preciso olhar o companheiro, esperar a hora, confiar. Ninguém joga sozinho. Aquilo era bem mais do que esporte. Era um jeito de tirar a pessoa idosa do sofá e colocá-la no meio do mundo, onde tem gente, riso, suor e conversa.

Ilda joga no Cabo Branco. Ricardo, o marido dela, também. Foi Ilda quem resumiu tudo numa frase: o câmbio é socialização, é interação, é sair de casa e continuar participando da vida.

Havia uma provocação escondida na fala dela. A sociedade costuma reservar para a mulher idosa um papel só, o de cuidar dos netos. Ilda, de bola na mão, recusa esse destino estreito. Cuidar pode ser um dos papéis, nunca o único. Ela é atleta, companheira de equipe, esposa, amiga. Mulher que escolhe estar no mundo.

No banco de reservas, Ilda tinha a companhia da amiga Núbia. E, ambas tornaram-se as minhas professoras das regras do jogo. Já a Nadja, atleta do time, gente boa que só ela, entre um jogo e outro me foi contando pedaços da sua história. Está de malas prontas para a Inglaterra, vai visitar um filho. E já é bisavó, contou toda orgulhosa, com um corpinho que mal cabe nos 60+. Se existe fonte da juventude, ela bebeu de canudinho.

Em pouco tempo, eu já não sabia se estava aprendendo um esporte ou ganhando amigas.

Antes de ir embora, paguei uma rodada de dindin para o time do Carcará e para o Cabo Branco. Sacolé, geladinho, chope de fruta lá no Pará. Cada canto do Brasil chama de um jeito, mas o gosto da gratidão é o mesmo. Foi meu jeito de devolver um pouco da alegria que me deram. Ou, para ser honesto, comprei meu lugar no time do Cabo Branco com dindin. E saiu barato.

Depois veio o maracatu.

As mulheres do Grupo Baila Comigo, todas 60+, entraram na roda e o chão mudou de humor. As saias se abriam feito flor de mandacaru depois da primeira chuva. Cada giro trazia uma história. Cada passo parecia dizer: nós estamos aqui. 


O Maracatu carrega isso no sangue. Resistência, ancestralidade, batuque de comunidade. Uma alegria que não pede licença para existir.

Elas não dançavam tentando esconder a idade.

Dançavam com a idade inteira.

Com os anos vividos, as perdas, as alegrias, as marcas do tempo, tudo virando movimento.

Por trás de cada giro havia uma mão que ninguém via. A de Rosilene, a Rose, coreógrafa do Baila Comigo.

O semblante dela reluzia. Rose não apenas assistia às suas dançarinas. Dançava com os olhos junto delas, contando os tempos em silêncio, sorrindo a cada saia que se abria no compasso certo.

E essa luz tem raiz funda. Mestrado e doutorado em ciências da saúde. Uma vida dedicada à pessoa idosa desde 1990. Mas não foi o currículo que me pegou. Foi o jeito. Rose ama o que faz, e amor de verdade não cabe no papel. Aparece no rosto.

Mal termina de montar uma dança como a do maracatu, já está com a próxima rodando na cabeça. Trabalho assim deixa de ser emprego e vira chamado. E chamado, a gente sabe, não se aposenta.

No jogo, a bola dança. No maracatu, o corpo joga. Uma saia que gira encontra outra saia, um passe só existe se alguém recebe. Ninguém faz a festa sozinho.


A ciência já confirmou o que eles vivem sem precisar ler pesquisa nenhuma: vínculo é remédio.

Todos ali poderiam ter escolhido assistir à vida da janela.

Escolheram jogá-la.

Dançá-la.

Vivê-la no coletivo.

E aí entendi o nome do time de Jairo. O carcará, que João do Vale cantou para o Brasil inteiro ouvir, é ave do sertão. Resiste à seca, enxerga longe, não se deixa dominar. Voa pesado de coragem e leve de céu.

Resistência, visão, força e leveza no viver. Era isso que eu via na quadra e na roda de maracatu. Os jogadores do câmbio e as dançarinas do Baila Comigo são, todos eles, carcarás. E a Revolução Grisalha tem esse jeito de carcará. Não grita. Passa a bola, roda a saia, ocupa a praça, aprende passo novo. E vai transformando tempo vivido em presença e idade em potência.

O caminho de volta

Voltei  pra casa sem a bicicleta. Mas com um sol-risão estampado no rosto.

E não senti falta dela.

Eu tinha saído para buscar velocidade e encontrei gente que acelera de outro jeito.

Jairo, que me abriu a porta.

Ilda e Ricardo, com a bola de um casal que sabe se amar, ao compartilharem o câmbio da vida a dois.

Núbia, que me ensinou as regras no banco de reservas.

Nadja, bisavó de corpo de menina, com a mala pronta para a Inglaterra.

Rose, com seu brilho de quem já sonha a próxima dança.


O time Cabo Branco e as mulheres do Baila Comigo.

Todos na pista da Fórmula 1 da longevidade.

Não disputavam contra o tempo. Aceleraram na direção do encontro. E a cada volta deixavam para trás os adversários de verdade: a solidão, o isolamento, o vazio de sentido.

*Tan-tan-tan-tan, tan-tan-tan-tan...*

A banda já tinha ido embora, mas o Tema da Vitória seguia tocando, agora dentro de mim. E, desta vez, quem cruzava a linha de chegada não era Senna. Eram os carcarás grisalhos que jogavam. As mulheres que dançavam. Gente que saiu de casa e descobriu que o mundo ainda tem lugar para ela.

E eu, que cheguei estranho, cruzei a linha junto. Entrei em casa com o coração cheio, cheio, cheio. Daquele jeito do salmo, em que o cálice transborda.

A bicicleta ficou para depois. A vitória, não.

Porque a longevidade pode até ser uma corrida. Mas o pódio de verdade não é de quem chega primeiro. É de quem não corre sozinho.

Ricardim 

Ricardo de Faria Barros, Psicólogo, escritor e especialista em longevidade feliz e plena de sentido




Uma cartolina, 3 amigos, e cem metros ( por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

Têm coisas que a gente vive e, na hora, não consegue escrever. Precisa deixar a cena assentar por dentro, feito poeira de estrada depois que o carro passa, até entender o que ela mexeu na gente.

Foi assim com essa corrida.

Eu já tinha estado do outro lado duas vezes, na torcida.

A primeira foi pela Marciele. Fizemos uma faixa aqui em Brasília e levamos na bagagem até Porto Alegre. Quando nos juntamos às filhas, irmãs, cunhados, sobrinhas e à mãe dela, viramos o time da torcida da Marci. Foi uma animação só! Gente gritando, pulando, balançando faixa como quem balança bandeira em final de campeonato.

Mas eu nunca soube, de verdade, o que ela sentiu ao nos ver ali, na linha de chegada, vibrando por ela.

Depois veio o Peu, o Pedro Henrique, que chegou a Brasília para uma prova de triatlo. E lá estávamos nós: eu, meus filhos, noras, genro, netos e a love dele. Todo mundo de camisa personalizada, a torcida oficial do Peu, gritando a plenos pulmões:

Vai, Peu!

E, de novo, fiquei sem saber o que passou pela cabeça dele ao ver aquela turma inteira ali, torcendo pela sua conquista.

Dessa vez foi comigo.

E fui pego de surpresa.

Eu estava terminando a prova de 5 km, pernas pesadas, respiração curta, o coração batendo no ouvido e aquela vontade de que tudo acabasse logo.

Faltavam cem metros.

Cem metros!

Quem corre sabe: nessa altura, cem metros não são cem metros. São uma ladeira que ninguém vê. O relógio anda devagar, a linha de chegada parece se afastar a cada passo, e o corpo começa a negociar com a gente, pedindo trégua.

Foi quando comecei a escutar uma gritaria.

Primeiro reconheci as vozes.

Era a Ana.

Era a Ionara.

Era o Dedé.

Os três ali, juntos, fazendo festa. Gritando. Gritando meu nome.

Eu ainda não tinha visto nada, mas já sabia que alguma coisa estava acontecendo. Olhei para a frente e, no meio da multidão, uma cartolina se mexia. Uma cartolina branca, dançando no ar, feito lenço de despedida ao contrário. Lenço de chegada.

Fui chegando mais perto.

E li:

PARABÉNS, RICARDO, VOCÊ CONSEGUIU.

Rapaz...

Aquilo me pegou.

Porque eu ainda não tinha conseguido. Ainda faltavam uns bons passos. Mas eles já estavam comemorando. Já tinham escrito, com letra de mão, uma chegada que ainda não tinha acontecido.

E foi aí que meu coração, cansado e esperto, fez a tradução por conta própria. O que os olhos leram como "Parabéns", a alma ouviu assim:

Vai, Ricardo!

A linha de chegada está logo ali.

Não desista.

Acredite.

Tem mais fôlego aí guardado.

E tinha. Eu, que já não tinha fôlego nenhum, de repente achei outro, escondido em algum bolso da alma que eu nem sabia que existia.

Foi uma coisa tão boa, tão inesperada, que fiquei abestado. Comecei a dar uns passinhos de dança, correndo. Kkkkk. Eu, com 62 anos, dançando nos últimos metros de uma prova de 5 km!

O povo em volta devia estar pensando:

"Que diabo aconteceu com esse homem?"

Eu não saberia explicar.

Eu só estava feliz. Muito feliz.

Porque ali entendi, talvez pela primeira vez, o que é ter uma torcida esperando pela gente.

Há um estudo curioso da psicologia que sempre me encantou. Pesquisadores levaram pessoas ao pé de uma ladeira e pediram que estimassem a inclinação. Quem estava acompanhado de um amigo via a subida menos íngreme do que quem estava sozinho. E quanto mais antiga a amizade, mais suave parecia o morro. A ladeira era a mesma. O que mudava era quem estava do lado.

Pois foi isso. A Ana, a Ionara e o Dedé não estavam só assistindo à corrida. Estavam fazendo parte dela. Estavam, de algum modo, correndo aqueles últimos metros comigo.

Não podiam tirar meu cansaço.

Não podiam completar os cem metros que faltavam.

Mas fizeram algo que só quem ama sabe fazer: acreditaram antes de mim. Me parabenizaram por uma coisa que eu ainda estava fazendo. Olharam para o homem cansado nos 4.900 metros e enxergaram o homem que ia cruzar a linha.

Tem gente que só aplaude depois que a gente chega. Esses aplaudiram antes. E o aplauso antecipado virou empurrão.

A Carta aos Hebreus diz que a fé é a certeza das coisas que se esperam. Nunca tinha visto essa frase escrita numa cartolina. Mas estava lá, com outras palavras: "Parabéns, Ricardo, você conseguiu." Era fé em forma de pincel atômico.

E, sem precisar explicar nada, aquela cartolina também dizia:

"Eu estou vendo você."

"Eu estou aqui."

"Eu estou feliz por você."

"Eu já sei que você vai chegar."

Não era sobre fazer um tempo bonito. Nem sobre correr mais rápido que ninguém.

Era só sobre chegar.

E sobre três pessoas que resolveram parar um pedaço da própria vida para estar na minha chegada, e acreditar nela antes que ela acontecesse.

Já se passaram três dias e ainda carrego essa sensação comigo. Ainda vejo a cartolina balançando lá longe. Ainda escuto a voz deles, como quem escuta de novo uma música boa que não sai da cabeça.

E agora entendo o que não conseguia compreender quando estava do outro lado, segurando faixa, vestindo camisa, torcendo pela Marci e pelo Peu. Sei o que é ouvir uma voz conhecida quando o corpo já quer parar. Sei o que é descobrir que umas palavras escritas à mão numa cartolina foram feitas para você.

É uma coisa simples.

Mas não é pequena.

É afeto em movimento. Amor que vira presença.

A psicóloga Shelly Gable estudou algo parecido. Ela descobriu que os laços que mais se fortalecem não são apenas os que nos amparam na dor, mas os que celebram com a gente quando algo dá certo. Vibrar de verdade com a alegria do outro é cimento de relação. São Paulo já tinha dito isso muito antes, do jeito dele, na Carta aos Romanos: alegrai-vos com os que se alegram.

A torcida não corre no nosso lugar. Não tira o nosso cansaço. Não completa os quilômetros por nós. Mas nos lembra, quando o fôlego falta, que não estamos sozinhos. E, às vezes, nos lembra de um fôlego que a gente nem sabia que tinha.

E isso não vale só para corrida. Vale para a vida.

Fiquei pensando em como a gente anda precisando disso. Entrar na torcida das coisas importantes de quem amamos. Fazer mais cartazes. Escrever palavras que empurram para a frente. Estar presente e se fazer presente. Apoiar, animar, reconhecer, valorizar.

Porque nossa época ficou crítica demais. Desaprendemos a olhar o esforço, o processo, o caminho. Tem tempo de sobra para apontar o que faltou e pouquíssimo para enxergar o que foi feito. Tem gente sobrando para dizer quanto ainda falta e gente faltando para olhar o caminho percorrido e dizer:

"Eu vi você chegar até aqui."

Falta tempo para se alegrar com quem está alegre. Falta coragem para dar parabéns antes da hora, só porque a gente acredita. Falta tempo para gritar:

"Vai, Peu!"

"Vai, Marci!"

"Vai, Ricardo!"

"A gente confia em você."

E uma palavra dessas faz mais diferença do que se imagina. Porque o contrário também é verdade: uma palavra pesada pode inibir um crescimento. Pode fazer alguém desistir. Pode convencer uma pessoa de que ela não é capaz.

Então, antes de julgar, talvez seja melhor pegar uma cartolina e escrever:

Parabéns.

Você conseguiu.

Mesmo que a pessoa ainda esteja no meio do caminho. Porque, às vezes, é justamente isso que a faz chegar.

Tem muita gente fazendo os seus próprios 5 km na vida. Gente que já está nos 4.900 metros, sem fôlego, cansada, pensando em parar. Gente enfrentando um diagnóstico, um luto, um recomeço depois da aposentadoria, uma solidão que ninguém vê. E essa gente não precisa de alguém dizendo que podia ter corrido melhor.

Precisa de alguém na beira da estrada.

Com uma cartolina na mão.

Acreditando antes dela.

Ah, tem mais uma coisa.

Eu guardei o cartaz. O "PARABÉNS, RICARDO, VOCÊ CONSEGUIU" ficará sempre comigo.

E toda vez que eu desanimar nas outras corridas do existir, vou olhar para ele. Vou lembrar da Ana, da Ionara e do Dedé. Vou lembrar daqueles 4.900 metros. Vou lembrar que já estive cansado e continuei. Que eles estavam lá. Que acreditaram antes de mim.

E vou fazer de novo a minha tradução:

Vai, Ricardo! A linha de chegada está logo ali. Não desista. Acredite. Tem mais fôlego aí guardado.

Talvez eu até dance correndo de novo. Kkkkk.

Porque aquele cartaz deixou de ser coisa de corrida. Virou lembrança de afeto, de amor, de presença. Virou um pedaço daquele dia que posso levar para os outros dias.

A mesma Carta aos Hebreus fala de corrermos com perseverança a carreira que nos está proposta, cercados por uma nuvem de testemunhas. Naquela manhã, a minha nuvem tinha três rostos, uma cartolina e algumas palavras.

Talvez seja isso que o amor faz: vira combustível quando o nosso está acabando.

A Ana.

A Ionara.

O Dedé.

E aquele "Parabéns, Ricardo, você conseguiu".

Que eu li como "Vai, Ricardo!".

E eu fui.

E vou continuar indo.

E você, pra quem faria uma cartolina hoje?

Doçura, sabor de Miraculina (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Voltei de Juazeirinho com uma bagagem duplicada. Numa delas, o mel de abelha, escuro e espesso, comprado numa feirinha qualquer. Na outra, invisível aos olhos da alfândega do coração, o mel que se bebe em forma de convívio.


Estive com tio Edmundo e tia Carminha. E se existe uma palavra pra explicar tia Carminha, é essa: doçura. Palavra rara, difícil de encontrar em estado puro, mas que nela mora inteira. Os Barros são assim. Carlos, Barrão, Luís, Flávio, todos com essa marca por baixo da pele. Homens do sertão, criados naquele código antigo que ensina a esconder sentimento como quem esconde dinheiro debaixo do colchão, e ainda assim carregando doçura à mostra. Carlos cultiva flores. Isso, sozinho, já é uma pequena revolução silenciosa contra o script masculino que a gente mamou no peito.


Fico pensando que doçura só se entende de verdade pelos seus opostos. Tem gente ácida, que sabe tudo de tudo e usa esse saber como faca. Tem gente amarga, que não deu conta de digerir as perdas da vida e foi ficando refém do próprio rancor, regando ele feito planta de estimação. E tem gente salgada, que só de chegar perto já sobe a pressão da roda, agressiva, agitada, ou fechada feito porta emperrada. Ácido, amargo, salgado. Nenhum se degusta fácil. A gente faz careta.


Só que existe também a Salve Rainha. E ali, na primeira estrofe, alguém escreveu doçura pra falar da Mãe de Jesus. Não escolheu bondade, não escolheu pureza, escolheu doçura. Acho que quem escreveu aquilo já tinha provado, na pele, o que é conviver com alguém assim. Ou talvez fosse ele mesmo essa doçura, e só estivesse descrevendo o que conhecia por dentro. Fico pensando que seria bonito de sobrar isso num epitáfio. Aqui jaz uma pessoa cuja vida foi uma doçura.


Porque doçura tem paladar variado. Tem doçura tipo bondade, tipo delicadeza, tipo mansidão. Tem a que vem em forma de carinho, de empatia, de doação inteira sem cobrança de troco. O porteiro do meu prédio é uma dessas. Seu Francisco. Ele tem prazer no bom dia que dá. Prazer em servir. Sempre arranja um minuto pra um dedo de prosa, e traz o sorriso estampado, não no rosto, no peito. Seu Francisco tem o dom de uma fruta chamada miraculina. Poucos conhecem. Ela tem a propriedade de, segundos depois de mastigada, criar uma espécie de véu no paladar que transforma o ácido em doce. O limão mais azedo vira quase sobremesa.


Acho que é assim a doçura das pessoas. Ela não neutraliza o mundo áspero, ela muda a forma como a gente experimenta esse mundo por um instante. Diminui a acidez do encontro. Desidrata um pouco o excesso de sal de vidas penduradas no varal feito carne de sol, endurecidas de tanto sol e vento. É pouco, e é tudo.


Doçura é item raro na dispensa da humanidade. Quem tem uma por perto devia saber que tem, ali ao lado, uma dádiva.


A Esteira dos Apressados ( por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Passei uns bons minutos rodando o aeroporto de Brasília atrás do portão 37.

A placa prometia portões de 1 a 36. O meu era o 37. Ninguém avisou o que vinha depois do 36. Fui, voltei, perguntei, desconfiei do mapa, desconfiei de mim. Eu mesmo era um deles: passo largo, olho nas placas, cara de atrasado.

Até que achei o dito cujo. Ele mora na boca de uma esteira rolante.

E foi assim que ganhei, sem querer, o melhor lugar da casa. Sentado no portão 37, vejo passar rumo aos portões 38 a 45 todo mundo que ainda não chegou. Um voyeur perfeito do apuro alheio. O piso é tão polido que devolve as pessoas de cabeça para baixo. A pressa, aqui, tem até reflexo.

Tem quem caminhe.

Tem quem corra.

Tem quem entre na esteira rolante e se deixe levar.

E tem quem entre na esteira e continue caminhando.

Esse último grupo me intriga. Da minha cadeira, resolvo fazer uma conta de curioso: de cada dez que entram, quantos seguem andando?

A esteira foi inventada, imagino eu, para a gente descansar enquanto avança. Uma pequena gentileza da vida. Você sobe, fica quieto e deixa a máquina fazer a parte dela.

Mas os apressados se apossaram dela.

Vejo um homem calcular a distância, esperar a brecha e se enfiar na frente de um casal que ia tranquilo. Talvez ganhe vinte segundos.

Vinte segundos!

E briga por eles como se fossem vinte anos.

Ninguém ali tem cara de quem perdeu o voo. Tem cara de quem perdeu a calma.

Até a esteira ganhou regra de trânsito. Os lentos à direita, os apressados pela esquerda. Kkk. Criamos faixa de ultrapassagem para aquilo que foi feito para nos fazer descansar.

Aí o riso passa e a pergunta fica. Pressa de chegar a quê? Ou será que é de alguma coisa que a gente foge?

Porque quem para, escuta. E o silêncio, coitado, fala. Às vezes pergunta o que a gente não está a fim de responder. Para que tudo isso? O que sobra quando a agenda esvazia? Viktor Frankl deu nome a esse desconforto: vazio existencial. Reparou que ele aparece justamente quando a atividade cessa. No domingo à tarde, nas férias, na aposentadoria. Chamou de neurose dominical.

Muita pressa é anestesia com cara de produtividade.

Estamos vivendo como quem ouve áudio em velocidade 1,5. A voz fica mais rápida, as imagens passam ligeiro, a gente termina logo. Terminar o quê, mesmo?

É a vida na rotação 45 dos velhos discos de vinil.

Talvez ela estivesse pedindo 33.

E isso vai aparecendo em quase tudo. A criança ainda usa fralda e já pensamos em quando vai aprender a usar o vaso. Mal engatinha e já queremos que ande. Começou a andar, queremos que fale. Começou a falar, queremos que leia.

Essa mania de pular etapas.

E o mais duro é que, enquanto empurramos os filhos para a próxima fase, perdemos a fase em que eles estão.

O menino está ali, aos sete anos, com uma novidade para contar. Tem um dente mole, um desenho, uma pergunta sobre a lua. E o pai, presente de corpo, está longe. Responde "hum hum" sem tirar os olhos da tela. A mãe, com a cabeça na reunião de amanhã, diz "já vou, filho", e o já vou vira semana.

A criança não reclama da ausência. Aprende. Aprende que precisa disputar atenção com um aparelho e que, às vezes, perde.

Os pais correm para garantir um futuro aos filhos, e a infância vai passando ao lado, na esteira rolante do corre. Ansiosos, conectados a tudo, menos ao presente das crianças. Só que infância não tem replay. Um dia, o menino que puxava a barra da camisa para mostrar uma coisa vira o adolescente que já não mostra mais. E o pai, que tanto quis chegar, descobre que perdeu o começo do filme.

Mas cuscuz não se apressa. Tem que sentir a massa pegando liga entre os dedos. Tem coisa que só fica pronta quando a gente passa a mão, espera, mistura, erra um pouco e dá tempo ao tempo. A infância dos filhos é do mesmo jeito. A Psicologia Positiva chama isso de saborear: a capacidade de se demorar no que é bom, para o bom render mais.

Só que nós queremos o cuscuz pronto sem sujar os dedos.

Logo a escola. Logo a faculdade. Logo o emprego. Logo o dinheiro. Logo a promoção. Logo a aposentadoria.

A Psicologia tem até um nome para isso: esteira hedônica. A gente conquista, se acostuma e já está correndo atrás da próxima conquista. O nome é esteira mesmo. Acho que a vida gosta de ironia.

Aí a aposentadoria chega. E tem gente que se aposenta do trabalho e não se aposenta da pressa. Passou tanto tempo correndo para chegar que desaprendeu a apreciar o caminho. Quer o destino enquanto ainda está no caminho. E o caminho, coitado, vai ficando sem graça.

Talvez por isso o nada a fazer incomode tanto.

Uma tarde sem compromisso. Um café tomado devagar. Uma conversa que não precisa chegar a lugar nenhum.

Até descansar virou tarefa. A pessoa deita para descansar e já pensa no que vai fazer depois. Vai à praia e olha o relógio. Senta na varanda e pega o celular. Entra na esteira e começa a caminhar. Como se ficar parado fosse fracasso.

A 120 por hora a gente só enxerga a estrada. O resto vira borrão. A mulher que vende tapioca na beira do caminho, o menino empinando pipa no terreno baldio, o velho na calçada com cadeira e prosa, tudo passa como mancha. A beleza do cotidiano não se deixa descobrir em alta velocidade. Ela pede passo curto, olho demorado e ouvido aberto.

O geógrafo Milton Santos falava dos homens lentos, aqueles que, por andarem devagar, enxergam o território que os rápidos só atravessam. Talvez a pressa nos faça donos de muitas distâncias e estranhos em todos os lugares.

Por isso a gente precisa, de vez em quando, desconectar. Desligar o que apita, guardar o celular no bolso, largar o relógio. Desconectar, aqui, é reencontro. Com a rua onde a gente mora, a sombra da mangueira, a voz de quem está ao lado.

A vida boa costuma morar na esquina de casa. Só que ninguém a encontra a 120.

Lembro de Marta, na casa de Betânia, tão ocupada com o serviço que não sentou para conversar. Jesus não criticou o serviço dela. Notou a agitação. E disse que Maria, sentada, tinha escolhido a melhor parte.

Continuo minha contagem, da cadeira do 37. De dez em dez. O resultado se repete. Gente caminhando apressada numa esteira que já caminha por ela.

Até que vejo uns adolescentes, de uns treze anos, brincando de ir e voltar.

Entram na esteira. Andam contra o movimento. Voltam. Correm um pouco. Param. Riem.

Os pais observam de longe, encantados.

Esses pais pararam. Estão ali, inteiros, vendo os filhos brincarem. Presença é isso: parar para ver.

Aqueles meninos já devem ter percorrido um quilômetro. E não chegaram a lugar nenhum.

Talvez seja justamente essa a graça.

Ainda não aprenderam as regras dos apressados. Não sabem que esteira serve para chegar. Para eles, ainda é brinquedo. Ainda é descoberta. Movimento sem obrigação de destino.

Fico torcendo por eles. Kkk.

Brincar é uma pequena desobediência à nossa mania de transformar tudo em desempenho.

E penso nos meus longelescentes. Gente com décadas de estrada que, se deixar, volta a ter treze anos: curiosa, meio sem jeito, querendo experimentar. Ir e voltar. Correr um pouco. Parar. Rir. A maturidade de quem já chegou a muitos lugares, com a coragem de quem ainda brinca no caminho.

Talvez a vida esteja tentando nos dizer uma coisa simples.

Nem todo movimento precisa de pressa.

Nem todo caminho precisa ser encurtado.

Nem todo silêncio precisa ser preenchido.

Nem todo momento precisa servir para alguma coisa.

Às vezes, a vida já está nos levando. E a gente, feito besta, continua caminhando.

Talvez seja hora de baixar a rotação. Voltar aos 33. Entrar na esteira e, por alguns minutos, deixar que a vida faça o que sabe fazer.

Levar a gente.

Sem pressa.

As bolas que não conseguimos pegar (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Alerta: Esta crônica não é sobre Vozinha. É sobre uma vozinha que fica falando em nossas cabeças. E que precisamos calar sua força: A de que já passamos do ponto, a de que já deu, a de querer sumir, ou dormir e acordar tempo depois...  Leia abaixo:
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Domingo, 13 de setembro, o goleiro Vozinha falhou. Colo-Colo e Deportes Concepción empatavam em 1 a 1, jogo válido pelo Campeonato Chileno. Veio a cobrança de escanteio, a bola subiu, e passou entre suas mãos. Foi um lance de dois segundos. Mas desses que ficam morando na cabeça de quem errou por horas, dias, às vezes anos.

Vozinha jogou por Cabo Verde numa Copa do Mundo. Fez defesas de tirar o fôlego. Foi aplaudido, carregado nos ombros da torcida, viveu seus momentos de grandeza dentro daquele campo. E, na mesma semana, teve seu nome anunciado entre os candidatos ao prêmio de melhor goleiro do mundo da temporada.

Domingo, a bola passou entre suas mãos. E pronto. As manchetes só falaram da falha.

É curioso como a vida faz isso com a gente. Passamos anos agarrando bolas difíceis, construindo uma história bonita, e basta uma escapar para começarmos a acreditar que somos aquela falha e mais nada.

Não somos.

Vozinha não é o gol que tomou no domingo. Assim como ninguém é o cargo que perdeu, o casamento que acabou, o negócio que não deu certo, o dinheiro que não juntou, a saúde que começou a reclamar, o amigo que foi embora, o sonho que não aconteceu.

Uma partida ruim não apaga as partidas bonitas que a gente já jogou.

E talvez isso pese mais quando envelhecemos.

Tem gente que passou décadas ocupando lugares importantes. Foi chefe, diretora, presidente, professor, autoridade. Gente acostumada a ser procurada, consultada, chamada pelo nome.

Um dia o cargo termina. E, sem avisar, parte dos telefonemas termina junto.

O convite diminui. O nome aparece menos. A mesa muda de lugar. Outros chegam.

E surge a pergunta que dói de verdade: e agora, quem sou eu?

Essa, acho, é uma das grandes partidas da longevidade. Descobrir que não somos só aquilo que fizemos. Não somos o cargo que ocupamos, nem a quantidade de gente que ainda nos procura, nem os aplausos que recebemos, nem a fotografia do nosso melhor momento. E, principalmente, não somos o erro que cometemos ontem.

Não podemos ficar reféns das narrativas negativas que construímos sobre nós, sobre os outros, sobre a própria vida. Mesmo quando elas são verdadeiras.

Sim, perdemos pessoas. Sim, alguns sonhos não vieram. Sim, erramos. Sim, tivemos derrotas. Sim, há coisas que a gente faria diferente.

Mas uma vida não cabe nas bolas que escaparam das nossas mãos.

Porque quando ficamos presos demais ao que deu errado, cada perda vira prova contra nós mesmos. E os pensamentos vão chegando, um atrás do outro: eu devia ter... se eu tivesse... por que comigo? Agora já é tarde. Eu não sou mais o que fui.

São como bolas que não conseguimos pegar. Continuam vindo, e a gente insiste em tentar agarrá-las de novo, mesmo sabendo que já passaram.

E aí mora o perigo. As bolas que já passaram não precisam continuar jogando contra nós.

Viktor Frankl, que sobreviveu ao que há de mais desumano num campo de concentração, dizia uma coisa simples e definitiva: não escolhemos o que a vida nos tira, mas escolhemos o sentido que damos ao que sobrou. Pensamento intrusivo, narrativa de fracasso, quando ganham espaço demais, drenam justamente esse sentido. Drenam a motivação, a esperança, a força para entrar em novas partidas.

Por isso, acolher nossas perdas não é negar o que aconteceu. É olhar para aquilo sem transformar o acontecimento numa sentença sobre quem somos.

Eu falhei, mas não sou um fracasso.
Eu perdi, mas não sou um perdedor.
Uma relação terminou, mas minha capacidade de amar não terminou.
Um cargo acabou, mas minha história não acabou.
Uma oportunidade passou, outras partidas ainda podem começar.

E isso vale também para o que a gente nunca teve.

Nem todo mundo tem dinheiro pra fazer um cruzeiro. Nem todo mundo tem um amor pra chamar de seu. Nem todo mundo tem saúde pra passar o dia sem reclamar de nada. Nem todo mundo tem filho presente, muitos amigos, gente que lembra, gente que valoriza, lugar reservado na mesa da vida.

E está tudo bem. Isso faz parte do pacote de estar vivo.

Neste mês em que tanto se fala em prevenção do suicídio, talvez seja hora de falar mais sobre isso também. Sobre as perdas. Sobre os danos. Sobre os gols que tomamos. Sobre o filho que não veio, o amor que não ficou, a amizade que se perdeu, o dinheiro que não deu, s saúde que não é mais a mesma, a aposentadoria que não era bem aquilo que a gente sonhou, a solidão que aparece mesmo com gente em volta.

Hoje, eu não pretendia caminhar no Parque da Cidade, aqui em Brasília. Mas alguma coisa me tirou de dentro de casa, câmera na mão, atrás das flores do cerrado que insistem em florescer por ali. E foi assim que encontrei o senhor Chico. Nome fictício, um senhor de 87 anos.

Ele estava tendo um dia mais cansado de viver. Era segunda-feira, 14 de setembro, um dia depois do lance do Vozinha. E ali estava o senhor Chico, contabilizando as próprias bolas que não conseguiu pegar no jogo da vida, do mesmo jeito que as manchetes contabilizavam a falha do goleiro. Olhava pra dentro de si como quem olha pra um estádio vazio, achando que o jogo da vida dele já estava mesmo na hora de acabar.

Eu poderia ter seguido em frente, fotografado minhas flores e ido embora. Fiquei.

E fui percebendo que aquele homem olhava pro próprio estádio só enxergando as arquibancadas vazias. Contava o que tinha perdido. O que não deu certo. Quem já tinha ido embora. As coisas que gostaria de ter feito e não fez. As bolas que não agarrou. Era como se assistisse só à fita dos gols que levou, nunca à das defesas que fez, nem aos jogos que ainda podia jogar.

Então conversamos sobre o presente. Sobre o cerrado florido em volta. Sobre o sol batendo no rosto. Sobre a chance de ainda encontrar alguma coisa boa no dia que estava acontecendo.

Ele foi sossegando o coração. Não porque os problemas somem. Mas porque, por alguns instantes, ele conseguiu olhar pra própria história por outra janela. E, se me permitem uma palavra de fé, foi como se ali, entre as flores do cerrado, alguém tivesse rezado sem saber que estava rezando: só o presente, só aquele instante de sol no rosto, já bastava para segurar mais um dia.

Trouxe até o Vozinha pra conversar com ele. E compartilhar também seu sentimento do jogo do Colo-Colo e ambos se ajudarem.

                 Obs: A foto, e o nome do senhor com quem me encontrei, estão alterados. 

Talvez seja isso que precisamos aprender. A vida não armou contra nós. Ela simplesmente acontece. Dá passes bonitos. Erra alguns. Toma outros. Às vezes nos coloca no alto, às vezes nos chama pra recomeçar mais embaixo.

E não precisamos transformar cada perda numa sentença contra nós mesmos, porque muitos dos nossos acusadores, juízes e avaliadores moram dentro da própria cabeça. São nossas cobranças, nossos preconceitos contra a velhice, nossa comparação com quem fomos, nossa dificuldade de aceitar que o corpo mudou, o mundo mudou, as pessoas mudaram e nós também.

Não podemos ficar presos à ideia de que nossa melhor parte ficou pra trás. Não somos só aquilo que fomos. Somos também aquilo que ainda está acontecendo.

Envelhecer é, entre tantas coisas, aprender a fazer as pazes com as bolas que passaram entre nossas mãos. Algumas agarramos, outras não. Algumas partidas vencemos, outras perdemos. Algumas pessoas ficaram, outras foram embora. Alguns sonhos aconteceram, outros não.

E está tudo bem.

Vozinha levou um gol. Mas fez belíssimas defesas também. E nós também fizemos as nossas.

Não podemos deixar que uma falha recente reescreva uma vida inteira. Nem que aquilo que perdemos nos impeça de enxergar aquilo que ainda temos.

A vida muda. Os papéis mudam. Os corpos mudam. Os relacionamentos mudam. Os lugares que ocupamos mudam. Quem está no alto precisa de humildade, porque a mesma escada que levou pra cima continua ali, esperando a hora de descer.

Tudo é provisório. O poder, a fama, a saúde, o dinheiro, os aplausos, tudo. E essa sensação de que o que temos hoje vai durar pra sempre é a maior cilada que existe.

Por isso: quando estiver por cima, seja humilde. Quando estiver por baixo, saiba que não vai ficar ali pra sempre. E quando a bola escapar das suas mãos, respire. Olhe pro campo. Não fique eternamente olhando pro lugar onde ela caiu.

A partida continua. Enquanto houver campo, ainda existe bola. Enquanto houver vida, ainda existe jogo.

Todo mundo têm problemas, e pode levar "frangos" no jogo da vida. E ninguém precisa deixar de jogar por causa disso. Nem ficar cobiçando ter as vidas editadas das redes sociais. Os gols que tomei também fazem parte de minha história. E está tudo bem! Inclusive em nem sempre se sentir bem.


P.S. Sim, marquei tomar sol com Seu Francisco amanhã. No mesmo local que o encontrei. Vou levar uma cadeirinha. 

Sextou, vamos jogar frescobol? ( Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Tenho pensado numa certa pessoa. Daquelas que não sabem mais falar com ninguém sem cortar.

É como se estivesse em guerra permanente com o mundo.

A conversa com ela parece uma partida de tênis de mesa. Você joga a bola e ela rebate. Só que não rebate para você conseguir devolver. Rebate para derrubar. Para colocar a bola num lugar impossível de alcançar. Para ganhar o ponto.

No frescobol é diferente.

A gente joga a bola para o outro conseguir devolver. Quanto melhor eu rebater, maior a chance de você continuar no jogo. Preciso prestar atenção em você. Na sua força. No seu jeito de jogar. Na distância. Preciso querer que a brincadeira continue.

Talvez seja assim que eu gostaria de entender o diálogo entre duas pessoas.

A bola é a interação. A palavra vai e volta. Uma pessoa fala, a outra recebe. A outra responde e a primeira recebe de volta.

Mas existem pessoas que desaprenderam o frescobol relacional.

Estão sempre certas. Têm uma verdade inabalável sobre tudo e sobre todos. Sabem como os outros deveriam viver, pensar, educar os filhos, cuidar dos netos, trabalhar, amar, gastar dinheiro, frequentar igreja, cuidar da saúde.

No tempo em que trabalhei no banco, convivi com gente assim. Perto delas o diálogo virava monólogo. Não aceitavam o contraditório. Não aceitavam pensamento divergente.

Ficavam numa postura agressiva, querendo mudar o outro. Alguma coisa nelas se incomodava com o diferente.

E partiam para o ataque. Querendo subjugar. Oprimir. Dominar o outro pela força dos argumentos.

E criticam. Criticam demais.

São capazes de cometer sincericídios com a tranquilidade de quem toma sorvete, languidamente, sentado num banco de praça.

Falam tudo que pensam. Na hora que pensam. Do jeito que pensam. E ainda acreditam que estão apenas sendo sinceras.

A palavra vira uma lâmina. Às vezes vem embrulhada num conselho. Às vezes vem acompanhada de uma preocupação. Às vezes vem com aquele velho "estou falando para o seu bem". Mas chega no outro como uma pancada. Como uma acusação. Como um julgamento. Como uma condenação.

E há palavras que arruínam a autoestima de uma pessoa.

O mais curioso é que quem falou pode esquecer cinco minutos depois. Vai tomar café. Vai dormir. Vai cuidar da própria vida. Só que quem ouviu pode carregar aquela frase durante anos.

Essa é uma das coisas que mais me impressionam nas relações humanas. Uma pessoa pode esquecer em minutos aquilo que disse como arma. A outra pode lembrar durante anos aquilo que recebeu como facada.

E quando isso acontece muitas vezes, a pessoa vai se afastando aos poucos, sem alarde.

O filho liga menos. O neto fica menos tempo. A nora pensa antes de falar. O genro muda de assunto. O amigo começa a aparecer menos.

E ninguém quer conversar sobre o motivo. Porque conversa difícil ninguém gosta de ter. Então todo mundo vai se afastando um pouquinho. Até que um dia aquela pessoa se pergunta por que está tão sozinha.

O tempo de vida dá mais leituras, mais estradas andadas, mais aquele "esse filme eu já vi" solto na ponta da língua.

Mas isso não é passaporte pra ninguém virar semideus. Não dá o direito de sentar num trono e sair distribuindo crítica ácida pra tudo e todos, como quem se acha superior.

A idade não nos dá o direito de dizer tudo que vem à cabeça.

Não é porque envelhecemos que ganhamos licença para ofender. Não é porque vivemos mais que sabemos mais sobre a vida dos outros. Não é porque temos experiência que precisamos dar opinião sobre tudo.

Isso não é sabedoria. Pode ser apenas uma velhice chata. Amarga. Rabugenta e espinhenta. Daquelas em que ninguém quer ficar muito perto porque sabe que, numa conversa de meia hora, alguma coisa vai sair machucada.

E isso acontece até quando a pessoa precisa de cuidados. Vai ao médico e briga. Vai ao hospital e reclama. Trata mal quem está trabalhando. Acha que está num hotel e que todos estão ali para servi-la. Esquece que do outro lado existe uma pessoa. Uma pessoa que também tem seus problemas, seu cansaço, suas dores e suas limitações.

Falta humildade. Falta respeito. Falta compaixão. Falta empatia. Falta um pouco de chá de semancol.

Se tem uma coisa de que eu me afasto, numa roda de amigos longevos, é esse tipo de 60+ que tem lição pronta pra tudo na vida. Que sabe tudo. Que não aceita outro ângulo de olhar. Que não conversa, discute, como se estivesse numa assembleia sindical.

Aí eu calo. E me afasto.

Não quero essa energia pro meu viver. Gente prepotente demais. Vaidosa demais. Arrogante demais. E sabida demais.

Deus me livre de ficar assim.

Eu quero ser um velhinho que as pessoas gostem de ter por perto. Quero que tenham vontade de chegar. De sentar. De conversar. De tomar um café comigo. Quero ter boa prosa. Quero rir. Quero ouvir histórias. Quero aprender coisas que ainda não sei.

E quero aprender uma coisa que considero cada vez mais importante: mesmo quando eu estiver certo, talvez não seja preciso dizer. Pode não ser a hora. Pode não ser o lugar. Pode não ser necessário.

E talvez essa seja uma das maiores sabedorias que podemos aprender com o tempo. Saber que nem toda verdade precisa sair da nossa boca.

Meu pai era assim.

Ele era do reino das delicadezas. Das gentilezas. Da mansidão. Era bom de coração e tinha uma paciência bonita com as desconformidades das relações. Não precisava ganhar todas as conversas. Não precisava corrigir todo mundo. Não precisava mostrar que sabia mais.

Eu queria ser como ele. Será que é pedir muito?

Também queria que me ajudassem. Se um dia perceberem que estou ficando amargo, chato, arrogante, cheio de uma verdade sobre tudo e incapaz de conviver com as verdades dos outros, me digam. Quero que me digam. Mesmo que eu não goste de ouvir. Quero ser ajudado a mudar de rota.

Porque talvez muita gente vá ficando assim simplesmente porque ninguém nunca parou para dizer. E ninguém diz. A família evita. Os amigos deixam para lá. Os filhos preferem não comprar briga. E a pessoa vai ficando cada vez mais convencida de que o problema está sempre nos outros.

Eu não quero ser catequista de ninguém. Não quero ser fiscal de crenças, atitudes, escolhas ou jeito de viver. Não quero passar a velhice tentando ensinar os outros a viverem dentro dos meus enquadramentos.

Cansei dessa disputa de egos. Dessa necessidade de provar que eu sou o mais certo e o outro é o mais errado.

Quero jogar frescobol relacional. Quero uma conversa em que a bola volte. Quero conseguir discordar sem transformar a discordância numa briga. Quero ouvir alguém pensando diferente de mim e ter curiosidade para entender como aquela pessoa chegou até ali. Quero aceitar que alguém pode fazer uma escolha que eu jamais faria. Pode pensar de um jeito que não cabe na minha cabeça. Pode enxergar a vida por outra janela. E está tudo bem.

Não preciso concordar para respeitar. Não preciso convencer para conviver. Não preciso ganhar para continuar jogando.

Talvez seja esse o tempo que quero para minha velhice. Um tempo de acolhimento. De paz. De boa prosa. De aprender com o diferente. De rir das minhas próprias certezas. De reconhecer que algumas coisas que eu achava tão importantes ontem hoje já não têm tanta importância assim.

Quero chegar lá mais leve. Sem carregar uma mala cheia de verdades sobre os outros. Quero carregar mais delicadezas. Mais paciência. Mais curiosidade. Mais vontade de estar junto.

E quando a bola vier até mim, quero me lembrar do frescobol. Não quero rebater para derrubar. Quero devolver para que o outro consiga continuar jogando comigo.

A sineta dos três toques (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Ontem eu tinha uma programação. Iria visitar meu filho Rodrigo. Fui até a casa dele, mas Rodrigo não estava. A visita não aconteceu.

Voltei para casa e, na minha cabeça, já tinha reprogramado. Tudo bem. Hoje seria a segunda tentativa.

Até que apareceu no Instagram um convite para um show naquela noite. David Coelho, Tudo Vira MPB, no Teatro dos Bancários.

Olhei. Pensei por alguns segundos.

Por que não?

E comprei o ingresso.

Foi assim, meio sem cerimônia, que uma visita frustrada ao meu filho me levou, pela primeira vez, a um teatro que também é parte da minha própria história.

Eu poderia ter mantido a programação original e ido de novo à casa do Rodrigo. Mas alguma coisa em mim está em obra. E dessa vez apareceu uma possibilidade que era só minha.

Um show. Uma cadeira. Uma noite. Eu. Sozinho.

Venci o cansaço do pós-treino. Tomei banho e vim. Venci o trânsito do fim de tarde. E aqui estou.

No Teatro dos Bancários. Minha primeira vez aqui.

E isso tem uma graça especial. Fui bancário por muitos anos. Me aposentei em dezembro de 2016. A vida foi me levando para outros trabalhos, outras histórias, outros territórios. E esse teatro, que também era meu por direito, foi ficando guardado para um amanhã possível.

Hoje eu entrei. Sozinho. E estou adorando a experiência.

Já está pago. E muito bem pago.

Olho para o palco, a luz sobre ele, as cadeiras, o movimento de gente chegando, o burburinho dos meus vizinhos. Tudo me chama a atenção.

Parece que em minha vida eu sempre estive no palco. Palestrando. Gerenciando. Dando aulas. Sendo pai, esposo, filho. Resolvendo, explicando, cuidando, conduzindo.

Hoje não. Hoje eu posso apenas sentar na plateia. Não preciso fazer nada. Só curtir um show.

E tem uma coisa engraçada: quando comprei o ingresso, nem prestei atenção em quem era o cantor. Só depois, já aqui, fui olhar direito. David Coelho. Tudo Vira MPB.

Não fiz planejamento. Não procurei companhia. Não esperei alguém dizer vamos. Vi uma possibilidade e pensei: por que não? E fui.

Antes, eu provavelmente ficaria olhando para os casais, as famílias, os enamorados. Talvez procurasse, sem perceber, aquilo que eu tinha e aquilo que me faltava. Compararia. Mediria. Inventaria histórias para mim a partir da vida dos outros.

Hoje não. Hoje eu olho para o palco. Estou ansioso pelo espetáculo, sem tempo nem vontade de me comparar com meus vizinhos de plateia.

Cada um vive sua noite. Eu estou vivendo a minha. E isso me basta.

Pela primeira vez, talvez, não estou sentado numa plateia olhando para a vida dos outros. Estou sentado na minha própria vida.

E tem outra coisa que percebo esta noite: não quero que Ana fique narrando a vida dela para mim online, enquanto eu narro a minha para ela. Não quero ficar de sobreaviso, esperando mensagem, foto, notícia, reação. Não quero transformar esta noite num namoro à distância, cada um mandando boletim do próprio espetáculo.

Ela está no show dela. Eu estou no meu. E está tudo bem.

Não preciso saber a cada instante o que ela está fazendo. Também não preciso contar a cada instante o que estou fazendo.

Aqui, sou só mais um sujeito na plateia. Um cara que comprou seu ingresso, veio até o teatro e quer assistir a um belo show. Sem prontidão. Sem aquela sensação de que preciso estar disponível caso alguma coisa aconteça.

Hoje não estou esperando Ana voltar pra conversa. Ela pode viver a noite dela. Eu, a minha. Não é distância, não é frieza, não é desinteresse. É cada um podendo estar inteiro onde está.

Na Paraíba, em João Pessoa, Ana está, neste exato momento, no show do Peninha. Ela está lá. Eu estou aqui. E está tudo bem.

Passo o olho pela plateia e encontro outra pessoa sozinha, no meio de umas duzentas que estão por aqui. Pronto. Já não sou o único. Rsrs.

E percebo uma coisa simples, mas que para mim tem tamanho enorme: não existe placa na porta dizendo que só entra acompanhado. Não existe regra dizendo que uma pessoa sozinha precisa explicar por que está sozinha.

Esse medo de ser notado, de virar comentário, de que alguém vá reparar, é muito mais meu do que do mundo. Uma crença. Uma lente velha.

Hoje tirei os óculos do medo e coloquei os olhos da curiosidade.

Escuto a primeira sineta. Faltam dez minutos.

Meu Deus, há quanto tempo eu não ia a um teatro. Muito tempo. E que bom reencontrar esse som. Nem lembrava que sentia falta dele.

As pessoas se ajeitam, a conversa diminui, existe uma expectativa no ar. Daqui a pouco as luzes baixam e o palco, que até agora esperava, começa a acontecer.

Talvez seja isso que esteja acontecendo comigo esta noite. Não estou apenas descobrindo um teatro. Estou reencontrando coisas pequenas que a vida foi deixando pelo caminho: uma sineta, uma cadeira de plateia, o burburinho antes do espetáculo, a luz sobre o palco, a música que ainda não começou.

E eu aqui. Sozinho. Muito bem acompanhado de mim.

Talvez eu esteja aprendendo a sair da toca. E sair da toca nem sempre significa correr para algum lugar. Às vezes é só atravessar uma porta.

Hoje atravessei a porta de um teatro que sempre esteve perto de mim. E descobri que ainda existem muitos lugares da minha própria cidade que eu nunca habitei. Parques, museus, cinemas, feiras, igrejas, shows, exposições, ruas, praças. Lugares onde ainda posso chegar sozinho ou acompanhado. Lugares onde posso simplesmente estar.

Talvez eu tenha passado tempo demais na plataforma de embarque, olhando para a próxima viagem, o próximo encontro, o próximo lugar. Mas existe uma cidade inteira acontecendo enquanto eu espero. E eu não quero mais esperar a vida começar em outro lugar.

Preciso desarrumar as malas. Descobrir o território daqui. Apropriar-me dos espaços. Neles também habitar.

O palco está iluminado. A sineta já tocou. A plateia se ajeita. E agora toca a campainha dos três toques.

Hora de parar de teclar. As luzes se apagam. Vai começar o espetáculo.

De repente não existe mais mensagem para responder, foto para mandar, notícia para acompanhar. Só o palco, a música prestes a começar, e eu, sentado aqui, inteiro na minha noite.

O tema da noite era o amor. Cada canção, um jeito diferente de amar. O que chega. O que dói. O que dura. O que se vai. Uma voz suave, um violão que sabia a hora de correr e a hora de esperar. Um passeio por todos os ritmos do amor.

Do meu lado, um senhor de uns setenta e poucos anos não estava ali para ver o show. Estava ali para contar a própria vida. Trouxera uma moça, uns quarenta e cinco. Antes de as luzes se apagarem, já tinha puxado um álbum de fotos e ficava mostrando, uma por uma, para ela. Não sei que relação os unia. Não estavam de mãos dadas.

A cada canção que tocava alguma lembrança nele, ele parava, respirava fundo e começava a discorrer, em voz grave, sobre o que aquele acorde tinha a ver com a sua história.

Ela olhava para a frente. Visivelmente sem jeito. Um olhar que dizia vamos assistir ao show, sem nunca dizer isso em voz alta. Não respondia enquanto ele cantava por dentro a própria vida. Só esperava.

A voz grave dele ia e vinha, intercalada por minutos exatos de silêncio, como se ele soubesse até onde podia invadir a canção antes de se calar de novo. Mas ele precisava falar. Alguma coisa naquelas letras estava batendo forte demais para ficar guardada.

Na minha frente, um casal que antes eram duas torres virou uma coisa só. Cabeças deitadas, uma sobre a outra, um amálgama tranquilo, sem pressa, sem palavra nenhuma.

Em um momento, o cantor perguntou quem ali já tinha sofrido de amor. Só uma mão se ergueu. Muita exposição para nós, de Brasília, assumirmos. Rsrs. Lá na minha Paraíba teria sido mão erguida em bloco. Aqui somos mais comedidos. Ele insistiu, tentou provocar de novo, e mais uma mãozinha tímida se levantou. Sua provocação não deu o mote que ele esperava. Ninguém quis assumir, em praça pública, o que todo mundo ali já tinha vivido. Inclusive eu. Ter um dia sofrido por amor. Quem nunca?

O cantor é dos bons. Canal no YouTube com milhões de seguidores, músicas próprias, um jeito de cantar que enche uma casa. E encheu. Teatro lotado, plateia atenta, quase reverente, todo mundo mergulhado no mesmo rio, cada um com sua própria correnteza por dentro.

Exceto a voz grave do meu lado.

Mas ele precisava falar.

E eu, sozinho na minha cadeira, olhando aquele senhor que não conseguia calar a própria história, aquele casal que virou um só, aquela moça constrangida entre o show e o silêncio que devia guardar, penso que cada um ali carregava um jeito diferente de amar ou de precisar ser ouvido. Ninguém igual a ninguém. E eu, no meio disso tudo, sem ninguém do meu lado, também carregando o meu.

Na penumbra do encantamento dos sons, começo a balançar sozinho. Primeiro quase sem perceber. Depois mais solto. Dançando sentado nessa cadeira. Meu corpo acompanha a música antes que eu consiga pensar sobre ela.

E eu sorrio. Sozinho. Sem medo de parecer estranho. Sem medo de ser visto. Sem medo do amanhã.

Talvez a felicidade também seja feita desses pequenos momentos em que a gente deixa de se vigiar.

A música toca. Eu balanço. A cadeira é minha pista de dança. O palco é meu horizonte.

Ana está no show dela. Eu estou no meu. E por alguns minutos não existe nada para resolver, nada para explicar, nada para esperar.

Só música. Só presença. Só esta noite.

E uma sensação boa, muito boa, de que ainda há tanta coisa para viver.

Sem medo do amanhã. E, principalmente, sem medo de ser feliz.


16 Mandamentos de Como Ser um Sogro ou uma Sogra Legal (por Ricardo de Faria Barros, sogro e psicólogo)


Um pequeno código de conduta para futuros sogros e sogras — e também para aqueles que já ocupam esse lugar

Ninguém prepara a gente para criar os filhos.

Não existe manual de instrução.

Vamos aprendendo enquanto eles crescem. Erramos, acertamos, improvisamos, fazemos o melhor que conseguimos com o conhecimento, os valores e o mundo que temos naquele momento.

Depois eles crescem.

Apaixonam-se.

Casam.

E começam a construir uma família que já não é exatamente a nossa.

E talvez aí comece uma das tarefas mais difíceis da maternidade e da paternidade.

Desmamar do adulto, do filho que cresceu 

Porque existe um cordão umbilical que não aparece em exame nenhum.

É feito de lembranças, preocupação, medo, saudade, hábito e apego.

Ainda enxergamos aquele homem como o menino que precisava da nossa mão.

Ainda enxergamos aquela mulher como a menina que corria pela casa.

E, quando percebemos, estamos querendo continuar cuidando deles como se ainda tivessem dez anos.

“Você está muito magro.”

“Você engordou.”

“Essa roupa não está boa.”

“Seu marido precisa tratar você melhor.”

“Sua mulher está diferente.”

“Vocês estão se afastando dos ensinamentos que receberam.”

“Eu não faria isso.”

“Esse investimento é uma loucura.”

“Vocês estão educando os filhos errado.”

“Essa casa ficaria muito melhor se vocês fizessem assim.”

E vamos entrando.

Entrando.

Entrando.

Quase sempre chamando isso de amor.

Mas nem todo cuidado é amor.

Às vezes é apego.

Às vezes é medo. É terapia ocupacional de se ocupar com a vida dos filhos.

Às vezes é dificuldade de aceitar que o filho cresceu.

E existe ainda outro complicador.

A aposentadoria.

Quando o trabalho acaba, algumas pessoas ganham tempo.

E esse tempo pode ser maravilhoso.

Pode ser usado para viajar, ler, cultivar plantas, fazer amigos, dançar, estudar, cuidar da saúde, escrever, cozinhar, aprender coisas novas.

Mas pode acontecer uma coisa perigosa.

O tempo que ficou vazio começa a ser preenchido pela vida dos filhos.

Aí o investimento deles vira assunto.

A reforma vira assunto.

A educação dos netos vira assunto.

As escolhas do casal viram assunto.

As brigas viram assunto.

As burradas viram assunto.

Os fracassos viram assunto.

E, de repente, quem não sabe muito bem o que fazer com as próprias horas começa a trabalhar em tempo integral na administração da vida dos filhos.

Sem salário. 

Sem crachá.

E sem ter sido contratado.

Tudo em nome do amor.

Por isso, talvez esteja na hora de estabelecermos um código.

Não um código para controlar os filhos.

Um código para controlar a nós mesmos.

1. Não somos fiscais da vida dos nossos filhos

Não somos fiscais do dress code.

Nem da fé.

Nem da opção política.

Nem dos amigos.

Nem do lazer.

Nem da cultura.

Nem dos hobbies.

Nem do corpo.

Nem dos cabelos.

Nem da orientação sexual.

Nem da profissão.

Nem dos investimentos.

Nem da decoração.

Nem da cor do piso da reforma.

E, principalmente, não somos fiscais do casamento deles.

Se não gostamos da roupa, respiramos.

Se não gostamos da decoração, respiramos.

Se não concordamos com a escolha, respiramos.

Nem toda coisa que nos incomoda precisa ser corrigida por nós.


2. Seu genro ou sua nora não precisa ser uma cópia sua

Seu genro ou sua nora não precisa torcer pelo seu time de futebol, frequentar sua igreja, votar no seu candidato, gostar das suas músicas, ter os mesmos hobbies ou curtir as mesmas coisas que você para ser aceito.

Pode pensar diferente.

Pode acreditar diferente.

Pode se divertir de outra maneira.

Pode ter outros amigos.

Pode enxergar a vida por outro ângulo.

Não é preciso concordar para respeitar.

Seu genro ou sua nora não entrou na família para se transformar numa cópia sua.

É a pessoa que seu filho escolheu para dividir a vida.

E respeitar essa escolha é também respeitar o próprio filho.

Aceitar não significa concordar com tudo.

Significa reconhecer que o outro tem direito de ser diferente sem precisar pagar por isso com rejeição, ironia, crítica ou tentativa permanente de convencimento.

Não precisamos gostar de tudo nele. Precisamos aprender a gostar dele.


3. O genro e a nora não estão fazendo estágio para entrar na família

Eles não precisam passar por uma banca examinadora.

Não precisam provar que são bons o suficiente.

Não precisam se vestir como gostaríamos.

Pensar como pensamos.

Ter a nossa fé.

Gostar das nossas músicas.

Seguir nossos costumes.

Eles precisam apenas ser respeitados.

E, quando possível, acolhidos.

Nosso genro ou nossa nora não veio para ser nosso segundo filho.

Muito menos para receber uma nova educação.

Veio para amar nosso filho.

E isso já deveria ser motivo suficiente para começarmos a construir uma relação de respeito.


4. Antes de dar uma opinião, pergunte a si mesmo: “Fui chamado?”

Essa pergunta pode evitar muita confusão.

Se perguntaram, fale.

Se pediram ajuda, ajude.

Se pediram conselho, aconselhe.

Mas, se ninguém perguntou, talvez seja melhor guardar a opinião no bolso.

Experiência não dá direito de mandar.

Idade não transforma opinião em verdade.

E ser pai ou mãe não significa continuar tendo a palavra final.

Às vezes, o melhor conselho é aquele que não demos.

5. Não transforme preferência em regra

Uma mãe pode gostar de vestido.

Isso não significa que a nora precise usar vestido.

Um pai pode acreditar que determinado investimento é melhor.

Isso não significa que o filho tenha que investir daquela maneira.

Uma família pode ter determinada fé.

Isso não significa que o casal precise reproduzi-la.

“Eu faria diferente” é uma frase legítima.

“Você tem que fazer diferente” já é outra coisa.

Temos direito às nossas preferências.

Eles têm direito às deles.

E uma família saudável não precisa ser formada por pessoas que gostam das mesmas coisas.

Precisa ser formada por pessoas que sabem respeitar suas diferenças.

6. Cuidado com os comentários sobre o corpo

“Você está muito magro.”

“Você engordou.”

“Está acabada.”

“Está muito velha para usar isso.”

“Essa roupa mostra demais.”

São frases que podem parecer pequenas para quem fala.

Mas o corpo é uma das áreas mais vulneráveis de qualquer pessoa.

E sogro e sogra não precisam transformar o almoço de família em consultório de avaliação corporal.

Se a pessoa não pediu sua opinião sobre o corpo, guarde-a.

Há coisas que simplesmente não precisam ser ditas. Vale também para a orientação sexual de nossos filhos.

Uma roupa pode sair de moda.

Um corpo pode mudar.

Mas uma palavra cruel pode permanecer na memória por muitos anos.

7. Não use “eu só quero o seu bem” como autorização para invadir

É possível querer muito bem a alguém e ainda assim ultrapassar seus limites.

Amor não dá licença para invasão.

Cuidado não dá procuração para administrar a vida alheia.

E dizer “eu sou assim mesmo” não apaga o efeito daquilo que dissemos.

Quem fala conhece a própria intenção.

Quem escuta sente o impacto.

Uma frase que dura cinco segundos na nossa boca pode ficar anos na memória de outra pessoa.

Antes de falar, talvez valha perguntar:

Isso vai ajudar ou apenas vai machucar?


8. Não entre nas brigas do casal

Essa talvez seja uma das regras mais importantes.

O filho liga chorando.

Conta uma discussão.

Fala mal da mulher.

A filha liga.

Conta uma briga.

Fala mal do marido.

E o pai ou a mãe imediatamente toma partido.

“Você está certo.”

“Ela está errada.”

“Eu nunca gostei dele.”

“Eu avisei.”

Parece proteção.

Mas pode ser uma armadilha.

Porque a briga passa.

O casal se reconcilia.

E nós continuamos com a opinião que construímos sobre aquele genro ou aquela nora.

Às vezes, o casal consegue resolver uma crise em dois dias.

Mas o sogro ou a sogra que entrou no meio pode levar anos para reconstruir a relação.

O casal precisa ter o direito de brigar e fazer as pazes sem carregar a família inteira para dentro da discussão.

Se houver violência, abuso ou uma situação grave, é claro que silêncio não é proteção.

Mas, nas dificuldades comuns de uma relação, talvez seja melhor oferecer escuta do que julgamento.


9. Não coloque nossos filhos contra seus companheiros

Quando criticamos constantemente o marido ou a mulher de um filho, colocamos nosso próprio filho diante de uma escolha impossível.

“Ou você fica do nosso lado ou fica do lado dele.”

Isso é cruel.

Ele não deveria precisar escolher.

O ideal é que possa amar o pai e a mãe e também amar sua mulher.

Que possa amar a família de origem sem precisar abandonar a família que construiu.

Amor não deveria exigir torcida organizada.


10. Não somos coaches da educação dos nossos netos

Não existe manual de instrução para criar nossos filhos.

Nós fomos aprendendo enquanto eles cresciam.

Erramos.

Acertamos.

Improvisamos.

Fizemos o que podíamos com o conhecimento, os recursos e o mundo que tínhamos naquela época.

E agora eles estão criando os filhos deles.

Só que o mundo mudou.

O que funcionou na nossa época talvez não funcione na época deles. E está tudo bem.

Eles também vão aprender.

Vão observar outros pais e mães que vivem situações semelhantes.

Vão trocar experiências.

Vão conversar com amigos.

Vão pesquisar.

Vão errar.

Vão acertar.

Vão descobrir seus próprios caminhos.

Às vezes, vão aprender até por osmose, simplesmente convivendo com outras famílias e percebendo o que funciona e o que não funciona.

Nós podemos ajudar quando formos chamados.

Podemos contar uma experiência.

Podemos dizer como fizemos.

Podemos oferecer uma mão quando houver necessidade.

Mas existe uma diferença enorme entre compartilhar experiência e assumir o volante.

Sogro e sogra não são coaches da educação dos netos.

Não precisamos corrigir cada escolha.

Não precisamos comparar.

“Na minha época era assim.”

“Eu criei vocês desse jeito.”

“Se fosse meu filho, eu faria diferente.”

Pode ser que fizéssemos mesmo.

Mas nossos filhos não receberam a missão de repetir a nossa vida.

Eles receberam a missão de construir a deles.

E os netos também precisam ter pais que possam descobrir, com liberdade e responsabilidade, que tipo de pai e mãe querem ser.

Nosso lugar pode ser maravilhoso.

Ser colo. Ser apoio. Ser presença. Ser aquele porto onde se pode chegar sem medo de receber uma bronca.

Porque ajudar é bonito.

Interferir em tudo é cansativo.

E existe uma diferença entre oferecer uma lanterna para iluminar um caminho e querer escolher o caminho por eles.

Os filhos são deles. Os netos são deles.

E nós?

Nós podemos ser aquela presença boa que chega para somar.

Sem disputar.

Sem competir.

Sem dar aula.

Sem transformar cada almoço de família em uma reunião pedagógica.

Afinal, nossos filhos também precisam aprender a ser pais.

E talvez uma das maiores provas de que fizemos um bom trabalho seja justamente esta:

conseguir confiar neles quando já não somos nós que estamos segurando suas mãos.


11. Não use o tempo livre para ocupar a vida dos outros

Essa talvez seja especialmente importante depois da aposentadoria.

Se o nosso trabalho terminou, não significa que nosso novo trabalho seja acompanhar a vida dos filhos.

Arrume uma atividade.

Viaje.

Faça amigos.

Aprenda alguma coisa.

Cuide do jardim.

Dance.

Leia.

Namore.

Escreva.

Fotografe.

Ore.

Faça qualquer coisa que faça seu coração trabalhar.

Mas não transforme a vida dos filhos em emprego de tempo integral.

Eles já têm uma vida para administrar. Nós também precisamos ter uma.


12. Deixe os filhos cometerem suas próprias burradas

Eles vão errar.

Vão perder dinheiro.

Vão fazer escolhas ruins.

Vão trocar de emprego.

Vão terminar relacionamentos.

Vão começar outros.

Vão comprar coisas que não deveriam.

Vão educar os filhos de maneiras que talvez discordemos.

E isso faz parte da vida.

Uma das coisas mais difíceis para um pai é assistir ao filho cometer um erro que ele poderia evitar.

Mas nem todo erro precisa ser evitado por nós.

Às vezes, o filho precisa viver a consequência para aprender.

Não podemos viver a vida deles por procuração.

Podemos ensinar o vento.

Podemos mostrar onde estão as pedras.

Podemos oferecer uma lanterna.

Mas o caminho precisa ser deles.


13. Peça desculpas de verdade

Sogros erram.

Sogras erram.

Pais erram.

Mães erram.

Quando errar, não diga apenas:

“Você sabe que eu sou assim.”

Diga:

“Eu errei.”

“Eu não deveria ter falado isso.”

“Entendo que machuquei você.”

“Vou tentar não repetir.”

Desculpa verdadeira não é uma borracha para apagar a consequência.

É uma decisão de mudar o comportamento.

E, às vezes, um pedido de desculpas sincero faz mais pela aproximação de uma família do que anos de justificativas.

14. E os filhos também precisam aprender a colocar limites

Isso não é tarefa somente dos sogros.

Um filho precisa conseguir dizer à própria mãe:

“Mãe, eu te amo, mas isso é assunto nosso.”

Uma filha precisa conseguir dizer ao pai:

“Pai, agradeço a preocupação, mas essa decisão é nossa.”

E isso não deveria destruir uma família.

Pelo contrário.

Limites bem colocados podem salvar relações.

Talvez nós, filhos, também precisemos parar de passar pano.

Porque às vezes deixamos nossos pais fazerem coisas que machucam nossos companheiros simplesmente porque estamos acostumados.

Chamamos de “jeito dela”.

“Ele é assim mesmo.”

“Não liga.”

Mas quem está chegando à família não tem obrigação de carregar aquilo que nós aprendemos a suportar.

Amar nossos pais também pode significar ajudá-los a perceber quando estão ultrapassando uma fronteira.

15. Lembre-se de que seu genro ou sua nora pode se tornar a pessoa que estará ao lado do seu filho quando você não estiver.

Essa é uma ideia que merece silêncio.

Um dia nós envelheceremos mais.

Talvez precisemos de ajuda.

Talvez nossos filhos estejam longe.

Talvez quem esteja ao lado deles seja justamente aquela pessoa que um dia criticamos por causa da roupa, do jeito de falar, da profissão, da fé ou das escolhas.

Vale a pena cultivar essa relação.

Não por interesse.

Por amor.

Porque ninguém sabe quem estará segurando a mão de quem quando a vida apertar.

16. Mude de lugar

Quando o filho é pequeno, seguramos sua mão.

Quando cresce, caminhamos ao lado.

Quando se casa, talvez seja hora de caminhar alguns passos atrás.

Não porque deixamos de ser importantes.

Mas porque uma nova família nasceu.

Nosso lugar mudou.

Ainda podemos ser colo.

Abrigo.

Conselho.

Torcida.

Presença.

Mas precisamos deixar de ser comando.

Porque amar um filho adulto talvez seja justamente conseguir dizer:

“Eu não faria assim. Mas a vida é sua.”

E depois sorrir.

E continuar amando.

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Talvez ser um sogro ou uma sogra legal seja, no fundo, aprender uma arte muito difícil.

Amar sem apertar.

Estar perto sem sufocar.

Ajudar sem comandar.

Aconselhar sem impor.

Discordar sem humilhar.

Proteger sem controlar.

E deixar o casal construir sua própria história, inclusive com seus erros, suas diferenças, suas reconciliações e suas escolhas.

Porque nossos filhos não precisam que voemos por eles.

Precisam que a gente lhes dê céu.

Talvez a gente se esqueça de que também fomos filhotes um dia.

Também tivemos medo.

Também olhamos para o mundo sem saber se nossas asas dariam conta.

E alguém precisou acreditar que daria.

Imagine um filhote de passarinho na beirada do ninho.

Ele olha para baixo.

Abre as asas.

Fecha.

Olha novamente.

Talvez recue.

Até que chega o momento em que precisa tentar.

E é justamente aí que o amor dos pais precisa mudar de forma.

Eles não podem voar pelo filhote.

Não podem segurá-lo no ar.

Não podem abrir as asas por ele.

Podem apenas permanecer por perto.

Talvez até com o coração apertado.

Mas confiando.

Porque um dia aquele pequeno pássaro precisa descobrir que tem asas próprias.

E vai descobrir.

Talvez caia um pouco.

Talvez bata as asas desajeitado.

Talvez pouse num galho baixo.

Mas, aos poucos, encontrará seu vento.

Seu rumo.

Seu céu.

Assim também aconteceu conosco.

Em algum momento da nossa vida, precisamos sair do ninho.

Precisamos experimentar caminhos que nossos pais talvez não conhecessem.

Precisamos fazer escolhas que eles jamais fariam.

Precisamos descobrir que havia céus que eles nem sequer imaginavam.

E é justamente por isso que precisamos ter cuidado para não enrolar nossas próprias asas nas asas dos nossos filhos.

Porque, se fizermos isso, eles poderão até permanecer perto.

Mas talvez nunca aprendam a voar sozinhos.

Podem se tornar dependentes da nossa presença.

Carentes da nossa aprovação.

Inseguros sem a nossa opinião.

E isso pode dificultar a autonomia que a vida deles exige.

Filhos não nasceram para repetir o nosso modelo mental.

Nasceram para encontrar seus próprios caminhos.

Podem chegar a lugares onde nunca chegamos.

Podem descobrir possibilidades que nunca imaginamos.

Podem construir famílias diferentes da nossa.

Podem amar de um jeito diferente.

Podem viver uma vida que nós sequer saberíamos sonhar.

E isso não significa que falhamos.

Talvez signifique justamente que acertamos.

Porque criar filhos não deveria ser construir cópias de nós.

Deveria ser preparar pessoas para um mundo que nem conhecemos.

Por isso, quando chegar a hora, talvez o melhor que possamos fazer seja respirar fundo, olhar para o filhote na beirada do ninho e dizer, mesmo sem palavras:

“Vai.”

“Eu sei que você consegue.”

“Eu confio nas suas asas.”

E deixar que ele descubra o próprio vento.

Porque amar também é isso.

É abrir a mão sem abrir mão do amor.

É deixar o ninho continuar sendo casa, mas não prisão.

É continuar sendo porto, mas não torre de controle.

É oferecer abrigo, mas não gaiola.

E compreender, finalmente, que o maior presente que podemos dar aos nossos filhos não é mantê-los sempre perto.

É ajudá-los a descobrir que conseguem voar.

Com suas próprias asas.

Para os seus próprios céus.

E, quem sabe, um dia, quando olharmos para eles voando longe, possamos sorrir.

Porque foi exatamente assim que, um dia, nós também aprendemos a voar.

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