Era para ser um final de tarde bacana. Daqueles simples, bons e merecidos. Eu havia passado parte do dia com dois filhos, dois netos e meu genro no Eixão do Lazer, em Brasília. Havia riso daqui, conversa dali, menino correndo, bicicleta cruzando a paisagem, gente devolvendo humanidade à cidade. Tudo seguia num compasso bom: leve, familiar, humano.
No fim da tarde, quando o céu de Brasília começa a mudar de azul para vermelho ouro, pedi um lanchinho vindo do meu lar, para mim e para JG. Um gesto pequeno, desses que combinam com o cansaço bom de um dia vivido ao ar livre, em família. Era para ser só isso. Uma pausa. Um agrado. Um fechamento manso para um feriado bonito.
Mas foi ali que a tarde entortou.
Quando o jovem veio trazer o pedido, em vez de apenas me entregar o lanche, resolveu me perguntar se eu estava sabendo do absurdo da nova lei da misoginia. Achei curioso o modo como ele trouxe o assunto: não como quem quer entender, mas como quem já chega com a conclusão pronta e só precisa de alguém que balance a cabeça em concordância.
Fiz-me de bobo e perguntei qual era o tal absurdo.
Foi então que ele começou a despejar sua fala, inflado por uma certeza emprestada. Disse que agora não se poderia mais dizer nada contra mulher, que um simples flerte poderia dar prisão, que até um esbarrão seria motivo de cadeia. Tentei argumentar com calma. Pedi que ele buscasse a fonte, o texto, a letra da proposta, e não se deixasse conduzir por vídeos feitos para acender medo e ressentimento. Mas ele me mostrou um vídeo de ativista desses de tela pequena e estrago grande, no qual a pessoa lia trechos recortados e, em seguida, servia sua própria interpretação como se fosse verdade revelada.
Eu disse que aquilo era uma distorção. Uma fake embalada em indignação. Que a ideia não era criminalizar flerte, nem transformar qualquer esbarrão em caso de polícia. Que o propósito era proteger mulheres contra ameaças, discriminações, desprezo, aversão e preconceito extremo. Em suma, tentar conter uma cultura de violência que muitas vezes começa no rebaixamento, na piada, no desprezo, e depois escala para coisas piores.
Mas aí ele soltou a pérola, com a segurança rasa dos simplórios: mulher é mais frágil mesmo e homem é mais forte.
Naquele instante, entendi que não adiantava prosseguir. Porque já não se tratava de esclarecer. Quando alguém chega a esse ponto, já não está debatendo; está apenas defendendo um pequeno território interno, murado por preconceitos, slogans e vídeos engolidos sem mastigar. Fiquei pensando de que fortaleza ele falava. Da biológica? Da emocional? Da sociológica? Da cultural? Da histórica? Da força de quem grita mais? Da força de quem bate? Ou da força de quem atravessa séculos sendo diminuída, silenciada, ameaçada e, ainda assim, segue vivendo, criando, trabalhando, sustentando, resistindo e recomeçando?
Há homens que confundem força com volume de voz. Confundem poder com interrupção. Confundem privilégio com mérito. Confundem o hábito de mandar com alguma superioridade natural. E quando uma lei, ou um projeto de lei, tenta proteger as mulheres contra a humilhação e o ódio, sentem-se ofendidos, como se a dignidade alheia lhes roubasse alguma liberdade sagrada.
Mas o que mais me espantou nem foi apenas o teor da fala dele. Foi pensar que um jovem, num dia de feriado, entre uma entrega e outra, em vez de alimentar a cabeça com algo que o alargasse por dentro, estava se deixando sequestrar por vídeos de extrema direita, desses que não informam, apenas inflamam. Em vez de um curso, um documentário, uma minissérie bem feita, uma boa música, não. Estava ali, abastecendo-se de recortes raivosos, versões tortas e certezas de segunda mão. E talvez esteja aí uma das tragédias discretas do nosso tempo: tanta gente com um celular na mão e tão pouca vontade de usá-lo para crescer.
A pobreza mais perigosa nem sempre é a do bolso. Às vezes é a da imaginação, da leitura de mundo e da incapacidade de desconfiar da mentira que chega mastigada pela tela.
O pior é que aquilo não parecia ser um caso isolado. Pedi para ver melhor o vídeo. Havia milhares de seguidores. Muitos comentários favoráveis. Gente repetindo absurdos com a desenvoltura de quem já perdeu o pudor de pensar mal. E foi aí que meus neurônios, que até então descansavam numa rede invisível de sossego, se levantaram todos de uma vez, alarmados. A tarde seguia bonita do lado de fora. O Eixão continuava cheio de vida, rodas, passos, conversa, família, infância, cidade ocupada. Mas dentro de mim alguma coisa havia mudado. A paisagem externa seguiu a mesma. A interna escureceu um pouco.
Fiquei matutando como será o relacionamento daquele rapaz com as mulheres de sua vida. Com a mãe, com uma irmã, com uma namorada, com uma chefe, com uma colega de trabalho, com uma filha, se um dia a tiver. Porque esse tipo de pensamento não nasce para ficar apenas numa conversa qualquer de fim de tarde. Ele costuma vazar para o cotidiano. Vai para o jeito de olhar, de interromper, de diminuir, de duvidar, de achar natural ocupar mais espaço do que o outro. Vai para a piada, para a impaciência, para a superioridade mal disfarçada, para o desprezo embalado como opinião.
E isso, claro, não para nas mulheres.
A mesma cabeça que se fecha à dignidade feminina pode também se fechar ao negro, ao indígena, ao cadeirante, ao nordestino, ao obeso, ao pobre, ao diferente. Todo preconceito, no fundo, é irmão do outro. Muda apenas a roupa da vítima. O que falta ali é alteridade. É a capacidade de reconhecer no outro não uma ameaça, mas uma possibilidade de alargamento humano. É a disposição de se deixar tocar por vidas que não têm a sua cara, o seu corpo, o seu sotaque, a sua história, o seu invólucro. E quem não desenvolve isso empobrece por dentro. Deixa de se enriquecer justamente naquilo que a convivência humana tem de mais bonito: a chance de ser atravessado por outras culturas, outras dores, outras formas de existir.
Talvez estejamos mesmo flertando com uma nova idade das trevas. Não aquela da falta de informação, mas a da recusa da informação. Não a da ausência de conhecimento, mas a da vitória da versão sobre o fato. Um tempo em que o vídeo gritado derrota a leitura serena. Em que o recorte vale mais do que o contexto. Em que a mentira bem editada chega antes da verdade ainda de chinelos. Um tempo em que muita gente não quer compreender a realidade. Quer apenas domesticá-la até que ela caiba no tamanho de seus medos, de seus rancores e de suas velhas hierarquias.
Saí daquela conversa com o lanche na mão e uma tristeza funda na cabeça.
Era para ser apenas mais um fim de tarde bonito em família, no Eixão do Lazer, em Brasília, no dia em que ela completava 66 anos. O céu já tinha trocado o azul pelo vermelho ouro, como só essa cidade sabe fazer, e eu queria guardar daquela tarde apenas o calor bom dos meus, a presença dos meus, a bênção simples de estar ali. Mas bastou um diálogo curto para eu sentir o peso de uma pergunta maior. O que está acontecendo com a nossa capacidade de ler, de pensar, de ponderar, de conviver, de respeitar? Em que esquina foi que tanta gente decidiu trocar o estudo pelo slogan, a empatia pelo espantalho, a complexidade do mundo por uma caricatura raivosa dele?
Era para ser só um lanche no fim da tarde.
Mas veio junto um retrato do tempo.
E o retrato, confesso, saiu bem mais feio do que eu gostaria.
Bode com Farinha - Psicologias do Cotidiano
O lanche, a tela e o escurecimento da tarde
Toc, toc, toc... tem gente? Tem alguém em casa? (Por Ricardo de Faria Barros)
Era uma vez um tempo em que as pessoas conversavam mais do que deslizavam o dedo na tela. Um tempo em que uma mensagem era uma ponte, não um corredor de passagem apressada.
Era uma vez um tempo em que as pessoas se visitavam sem avisar, sem pedir licença, sem marcar na agenda. Chegavam com um “ô de casa” e um sorriso aberto, e já iam entrando como quem sabe que ali há lugar. Não havia protocolo, havia afeto. A casa do outro era extensão da própria vida.
Era uma vez um tempo em que as cadeiras iam para a calçada no fim da tarde. O vento corria leve, as conversas iam e vinham, e ninguém tinha pressa de voltar para dentro. Falava-se da vida, das novidades, das dores e das alegrias. E, sem perceber, as pessoas se curavam umas nas outras.
Era uma vez um tempo em que a gente saía apenas para dar uma voltinha. Sem destino, sem pressa, só para ver a vida acontecendo lá fora. Para além dos porões de apartamentos, havia ruas, rostos, encontros, acenos. Havia mundo pulsando, e a gente fazia parte dele.
Era uma vez um tempo em que havia um interesse genuíno pelo mundo do outro. A gente perguntava e queria ouvir a resposta. Admirava conquistas simples, celebrava pequenos passos, se emocionava junto. Não era sobre performance, era sobre presença. Não era sobre aparecer, era sobre pertencer.
Era uma vez um tempo em que tínhamos vontade de sair com os amigos, não apenas no tal do "sextou". A gente combinava coisas no meio da semana, depois do expediente. Um cinema, uma conversa, uma cerveja sem pressa. Frequentávamos as AABBs em qualquer dia, sem cerimônia. Havia vida ali, havia riso, havia encontro. Hoje, muitas estão esvaziadas, como se o tempo tivesse levado embora não só as pessoas, mas a vontade de estar junto, deixando lembranças guardadas como em uma cristaleira vazia.
Você também só está lendo as mensagens e já passando para outra coisa, sem tempo para uma interação mínima?
Lembrei de mamãe. Durante muito tempo, ela respondia a todas as interações no grupo da família. Era como se dissesse, em cada resposta, “eu estou aqui”. Mas, nos últimos anos, algo mudou de forma silenciosa. Agora ela passa longos minutos deslizando o dedo na tela do Instagram. Ri sozinha. Às vezes comenta em voz alta, como quem ainda conversa com o mundo. Mas não escreve mais. Não responde mais. Nem com as amigas.
Fica ali, entre um vídeo e outro. Entre uma rolagem e outra. Presa naquele fluxo infinito que não pede resposta, não exige presença, não constrói ponte. Só passa.
Sou do tempo do Orkut. Tenho saudade daquele tempo em que as pessoas paravam um pouco mais. Hoje parece que tudo foi desenhado para que a gente não pare. Nem pense. Nem se coloque. Os da área chamam de engajamento, mas, curiosamente, nunca estivemos tão desengajados uns com os outros.
Você pode estar dizendo que é falta de tempo. Que a vida está corrida. Mas me diga com sinceridade: pra quantas mensagens você realmente respondeu hoje? Ou só leu, avançou, deslizou e seguiu?
Começo a acreditar que vivemos uma epidemia silenciosa de solidão digital. Não é a falta de gente, mas a fluidez das relações, onde os laços se desfazem com a mesma facilidade com que se formam.
Li o desabafo de um 70+. Ele entrou num curso de fotografia, todo animado. Postou no grupo da família, mais de 30 pessoas. Contou da primeira aula, compartilhou a primeira foto. Era sábado, meio-dia. Até seis da tarde, silêncio. Nenhuma resposta. Nenhum olhar de volta.
Ele começou a duvidar. Será que o grupo está funcionando? Ou será que fui eu que caí? Mais tarde, um neto mandou um meme de futebol. Em minutos, seis interações. E ali, no meio daquele barulho leve, ele se sentiu ainda mais só. Invisível.
Estamos numa espécie de babel digital. Todo mundo falando. Pouquíssimos ouvindo. É todo mundo com o rosto iluminado pelas telas e a alma apagada pelas ausências. E os músculos definhando pela falta de percepção do lado de lá — da vida real que ocorre para além dos vídeos editados e acelerados, dos memes, das correntes e assemelhados. Viramos uma geração de emudecidos. Recebemos mensagens, mas não devolvemos presença. O que o outro posta cai no vazio, como um pano de guardar confetes de carnaval, esquecido até o próximo ano.
Ontem, cheguei de viagem depois de dirigir 2.200 quilômetros. Só parei para dormir seis horas. Cheguei cansado. Muito cansado. Mas, ainda assim, com vontade de estar junto. Fiz uma foto. Montei uma arte com carinho (esta que ilustra este texto), um convite com o aviso: "Vovô táxi já está na praça novamente. Aproveitem!". Nela, meu sorriso aberto convidava à interação, enquanto um carrinho de "Vovô Táxi" com crianças felizes acenava. Um gesto simples. Um "estou aqui".
Postei no grupo de filhos, noras e netos. Somos em 10, comigo. Sabe qual foi o retorno? Um único. Justamente de um filho que ainda não tem filhos. Foi ele quem validou minha presença, quem viu o pai por trás da imagem.
E veja, nosso relacionamento é bom. Não há conflito. Há ausência de gesto. Fiquei ali, com minha alegria de avô, imaginando buscar os netos no colégio, oferecendo meu coração aberto. E o silêncio respondeu. A imagem está lá. Eu também.
E então pensei: meus filhos devem estar muito ocupados. Um dia depois, continuava sem repercutir o Vovô Táxi. É que eles têm a vida deles. A agitação do cotidiano. E com certeza se esqueceram do quanto seria importante para mim uma simples interação naquela foto. Algo breve. Eles não fazem por mal.
Mas aí me perguntei: e eu? Quantas vezes eu também deixei de responder alguém que me amava? Quantas vezes eu vi uma mensagem, pensei "depois respondo", e o depois nunca chegou?
Não é falta de amor. É falta de presença. E a falta de presença não é um defeito de caráter de ninguém: é um sintoma do tempo.
Agora mesmo, enquanto escrevia este texto, lembrei de algo. Depois de um dia corrido, com uma agenda de coisas a fazer após 10 dias fora, lembrei que não retornei o telefonema de mamãe. Ela ligou no salão. Eu digitei: "estou no salão, depois ligo". Sabe por que não atendi? A navalha estava perto. Rsrs. E o depois... já era. A ansiedade de resolver mil coisas — e até de escrever este texto — me desconectou da minha própria agenda. Da minha própria mãe.
Eu faço exatamente o que critiquei. Não por mal. Porque estou anestesiado igual. Intoxicado pelo século XXI, com suas insanas realidades e seu jeito de ser. Eu faço, tu fazes, eles fazem... Nós todos estamos assim. Deixando para um dia depois, numa possibilidade vaga de diálogo e interação.
Era uma vez um tempo em que não se matava — nem se morria — por causa de governantes. Em que não se brigava por visões extremas de nada. Em que se convivia mais facilmente em sociedade. Sem ser boicotado. Sem ser bloqueado. O outro era melhor aceito e incluso, do jeito que ele era.
Eu também já bloqueei. Também já deixei de falar com alguém por causa de uma discordância. Também já preferi o silêncio ao desconforto de ouvir quem pensa diferente. Não por mal. Por medo. Por cansaço. Porque é mais fácil apertar um botão do que sustentar um olhar.
Por isso, antes de ir, deixo cinco pequenos gestos para não transformar ninguém num chão de giz que foi apagado:
1. Responda enquanto sente: Não deixe para depois. O depois costuma virar nunca.
2. Valorize o simples: Uma foto, um relato, uma conquista pequena. É ali que mora a vida de verdade.
3. Use a tecnologia como ponte, não como esconderijo: Se recebeu, devolva. Nem que seja com um emoji, mas devolva.
4. Dê nome às pessoas: Chame, marque, reconheça. Ninguém gosta de ser genérico no mundo de alguém.
5. Pratique o cuidado invisível: Às vezes, uma resposta sua é o que impede alguém de se sentir esquecido.
Porque, no fundo, o que sustenta uma vida longa e com sentido não é só saúde. É vínculo.
Agora encerro, preciso ligar para minha mãe!
E vínculo não se lê. Se responde.
Puxe sua cadeira, e seja presença!
Domingo de manhã, eu "despachava" sozinho na Diretoria. O copo vagando por pensamentos e caramiolas quando notei uma movimentação diferente. Mamãe costuma ficar ali, perto da porta da cozinha, na área da toalha rosa. De lá, ela participava das "decisões" da Diretoria, um lugar sombreado por Bougainvilles, no fundo do quintal, que virou nossa área de lazer.
Hoje ela fez diferente e veio até mim, mesmo por um terreno irregular. Há 3 anos fez operação num joelho, tem hérnia de disco, e andar é difícil pra ela.
Três meses se passaram de duas cirurgias pesadas e invasivas. Uma extração de mama e, em seguida, um procedimento de emergência para a contenção de uma hemorragia perigosa. Qualquer pessoa comum estaria prostrada em um quarto escuro, pensando na mama retirada, no câncer, e seus fantasmas, e reclamando da vida. Sua recuperação tem sido exemplar e inspiradora, porque não é fácil o que ela passou. Mulher orante, ela acolheu e seguiu a vida possível. Muitas vezes a dor e o desgaste encolhem as pessoas. A gente vê isso o tempo todo nos relatos de quem chega querendo entender as próprias perdas. O envelhecimento também tem esse poder de isolamento. Muitos decidem construir muros ao redor do próprio sofrimento e viram ilhas inatingíveis. Minha mãe decidiu construir uma ponte de pedras irregulares, e caminhar. Puxou a cadeira de plástico e se fez presente de corpo inteiro. Sem melodrama nenhum. Sentou e pronto. Puxou algum assunto, recebeu telefonema de meu irmão, e ancorou, a nós dois, na realidade do presente.
Esperamos grandes gestos de amor, declarações cinematográficas, atitudes que mudem o eixo da Terra, quando o afeto verdadeiro pode ser uma caminhada difícil, por pedras irregulares, para se fazer presença, e não deixar um filho sozinho, numa manhã de domingo.
A Diretoria definitivamente não estava vazia. Fiquei olhando de soslaio para ela. O tecido da roupa desenhando os ombros curvos, as mãos descansando sobre o colo, a expressão de normalidade de quem acabou de atravessar um deserto particular.
O domingo floresceu e nós ficamos ali, parceiros de Diretoria, exercitando a arte renascer, apesar dos pesares, e com o que se tem para hoje. E está tudo bem.
O artesanato do olhar
Papai, se estivesse entre nós, teria hoje 89 anos. Partiu em 2021. Mas há pessoas que, mesmo depois da partida, continuam nos ensinando. Não mais com a voz, nem com a presença física, mas com aquilo que deixaram plantado no jeito da gente ver o mundo. Meu pai foi uma dessas pessoas. Sem discurso, sem teoria, sem qualquer pretensão, ele me ensinou uma das lições mais profundas da minha vida: a arte de olhar.
Na juventude, eu era muito diferente dele. Aos 21 anos, jovem bancário, meu olhar era duro, exigente, treinado para a falta. Eu entrava nos lugares para perceber o que não estava bom. O que precisava melhorar. O que não funcionava. Fazia isso com situações, ambientes e, principalmente, com pessoas. Eu cometia sincericídios por minuto. Tinha pouca paciência com quem pensava diferente. Era arrogante, meio metido a besta. E, para piorar, ainda me achava alguma coisa a mais só por ser do Banco do Brasil.
Muito disso vinha das leituras, das amizades, da formação que eu vivia à época, marcada por uma visão crítica do mundo, das estruturas, dos processos e das pessoas, que eu muitas vezes colocava na conta de alienadas. Eu me achava lúcido. Hoje vejo que muitas vezes eu só era duro demais.
Foi convivendo com papai, já num tempo em que eu me tornara homem às pressas, depois de ter sido pai aos 20 anos, que fui aprendendo outra forma de estar na vida. Adultizado com carbureto, fui sendo lapidado por ele. Papai não tinha vida fácil. Vivia se equilibrando no cheque especial, adiando reformas, convivendo com apertos e limitações. Mas havia nele uma sabedoria mansa. Ele sabia festar com o que tinha. Sabia transformar o pouco em acontecimento.
Nunca esqueci nossos sábados no sítio Samambaia, perto de Jenipapo, uns 12 quilômetros de casa. A parada em Jenipapo era sagrada. Um talho de mortadela, uma dose de brejeira, uma conversa boa com o dono da venda. Depois mais uns quilômetros de estrada e chegávamos.
O morador começava a contar tudo o que tinha dado errado na semana. A linha do telhado caiu. Vamos arrumar. A laranjeira morreu pela seca. Vamos arrumar. O poço não deu água. Vamos arrumar. Roubaram as galinhas. Vamos arrumar. Para papai, quase tudo era passível de conserto. E o que não fosse, ele não brigava. Ele atravessava.
Depois de ver tudo, ele entrava na cozinha como quem entra na casa de um irmão. Ria com a dona da casa, levantava a tampa da panela e, mesmo com o feijão ainda só na água e sal, se servia como se fosse o melhor prato do mundo. Ela protestava, dizendo que ainda não tinha temperado. Ele não ligava. Comia com gosto. Com gratidão. Estava inteiro ali.
Sem perceber, eu fui aprendendo. Papai não arengava com a vida. Ele respondia a ela.
Esses sábados foram mudando meu olhar. Fui entendendo que o olhar não é neutro. Ele constrói ou destrói. Amplia ou reduz. Cria possibilidades ou fecha caminhos. Meu pai, sem nunca usar esse nome, era um artesão do olhar.
Anos depois, volto à minha cidade natal. Entro no restaurante Bananal, onde eu ia aos domingos com a família comer picado de bode. Hoje ele não fica mais na estrada, tem filial na cidade. E quem me atende é um dos filhos do dono, um dos galegos. Ele me reconhece. A gente se abraça, conversa, puxa histórias antigas.
Em certo momento, ele me diz: continuo trabalhando meu olhar.
Levei um instante. Depois entendi.
Em algum ponto da vida, depois de aprender com papai, passei também a falar disso para pessoas próximas. E aquele galego, que já era mais do que um garçom, era um amigo, me contou o quanto isso mudou a vida dele. O quanto esse jeito de olhar o ajudou, inclusive, a atravessar o luto pelo irmão mais velho.
Ali caiu a ficha de vez. Esse jeito de olhar pode ser ensinado. Não como fuga da realidade, nem como ingenuidade. Mas como escolha. Como cultivo. Como treino. E nós, que já andamos mais pela vida, podemos ajudar as novas gerações a aprender isso também. Podemos ensiná-las a serem artesãos do olhar.
Papai também me ensinou outra coisa. É preciso ser firme. Reivindicar mudanças. Protestar contra o que oprime. Enfrentar o medo e a injustiça. Mas ele fazia isso com o jeito do amor, do humor, do prazer. Havia firmeza, mas não havia dureza. Quando ele dizia que algo não estava bom, ele convidava ao conserto. Seduzia pela calma. Convencia pela bondade. Corrigia com mansidão.
Outro dia li uma crônica de Hayton sobre um homem que distribui seu melhor bom dia ao caminhar. Fiquei pensando que isso também é artesanato. Distribuir um bom dia verdadeiro é uma forma de melhorar o mundo sem fazer barulho.
Hoje, se eu tivesse de resumir o que aprendi com papai, diria assim. Entre nos lugares procurando o bom, o belo e o virtuoso. Acolha o melhor que as pessoas têm, porque o resto todo mundo já carrega demais. E esteja inteiro diante das dádivas da vida. Reconheça e agradeça. Seja um feijão na água e sal. Seja um talho de mortadela. Seja até o chorinho que vem sem cobrança, só por generosidade.
Papai partiu em 2021. Mas ainda hoje, quando a vida me chega com seus telhados caídos, suas laranjeiras secas, seus poços vazios e suas galinhas roubadas, eu quase escuto sua voz.
Vamos arrumar.
E quando consigo olhar alguém com mais ternura, mais gratidão e menos pressa de julgar, sei que ele continua vivo em mim.
Porque, no fim das contas, o que um pai deixa não é só lembrança. É um jeito de olhar que continua iluminando a vida da gente.
Abrir e Fechar o Mar Vermelho que Habita em Nós (por Ricardo de Faria Barros)
Por volta das 14h30 do domingo de Páscoa, quando o restaurante ainda fervia de gente e o salão seguia cheio, mas a cozinha já tinha vencido a maior parte da guerra dos pratos principais, algo raro aconteceu.
O ar ainda era quente. Pesado de gordura, vapor e pressa.
O corpo já pedia descanso.
Mas, de repente, seis mulheres pararam.
Ali, no meio do chão branco, ainda úmido de trabalho, elas se juntaram.
Aventais escuros. Mãos marcadas. Cabelos presos.
Rostos vivos.
E então levantaram, quase como quem ergue um pequeno troféu da vida, caixinhas amarelas com três bombons dentro.
Não era encenação.
Era celebração.
Sorriram com a boca inteira. Com os olhos. Com o corpo todo.
Algumas se inclinaram pra frente. Outras ergueram mais alto, como quem quer impedir que o instante escape.
Era alegria sem filtro.
Daquelas que não passam por discurso. Nem por ensaio.
Cada caixa custou quinze reais.
Quinze reais.
Mas ali, naquele instante, aquilo não tinha nada a ver com preço.
Era reconhecimento.
Era alguém dizendo, sem palavras:
eu vejo vocês.
E isso, para quem passa o dia inteiro alimentando gente que nunca vai saber seu nome, é quase um milagre.
Muitas daquelas caixas não seriam abertas ali.
Iriam para casa.
Seriam entregues nas mãos de filhos, de companheiros, de gente querida.
Porque a alegria, quando chega na vida de quem vive na luta, precisa ser repartida para fazer sentido completo.
Naquele pedaço de cozinha, entre o calor e o cansaço, aconteceu uma pequena ressurreição.
Um mar se abriu.
Mas nem sempre é assim.
Na noite anterior, na vigília pascal na igreja do Rosário, vi o contrário.
A igreja estava cheia.
Gente por todos os lados. Fé, expectativa, movimento.
Faltava espaço.
Cadeiras improvisadas. Organização tentando dar conta.
E, no meio disso tudo, uma senhora de cabelos completamente brancos, sentada.
Pouco depois, foi convidada a sair.
Com educação.
Com regra.
Com justificativa.
Não era da família dos batizados.
Ela não discutiu.
Apenas se levantou.
Tentou um lugar no banco de trás.
Cinco pessoas.
Um gesto leve pedindo espaço.
Um não seco.
Ninguém se moveu.
Nem um centímetro.
Ela encolheu os ombros.
Baixou o olhar.
E começou a caminhar para o fundo da igreja carregando algo invisível, mas pesado:
a sensação de não caber.
Até que alguém viu.
Um outro banco chamou.
Cinco pessoas se apertaram.
Ombros se tocaram.
O sexto lugar apareceu.
Ela sentou.
E ali, silenciosamente, outro mar se abriu.
Passei o restante da missa olhando aquilo tudo como quem aprende.
O banco da regra ficou com espaços vazios a noite inteira.
O banco da recusa manteve o conforto intacto.
E o banco do acolhimento fez o único gesto que realmente importa:
diminuiu um pouco de si para caber o outro.
O que isso tem a ver com inteligência emocional e autogestão?
Tudo.
Porque empatia não mora no discurso.
Ela mora no movimento.
Mora no instante em que você escolhe enxergar, mesmo cansado.
Mora em abrir espaço, mesmo quando a regra diz para não abrir.
Toda vez que você faz isso consigo mesmo –
quando reconhece seu próprio cansaço em vez de ignorá-lo,
quando se aperta para caber uma alegria pequena,
quando não se afoga no próprio ritmo ensaiado –
um mar se abre.
E a vida, por alguns instantes, deixa de afogar.
O resto é gestão.
E gestão sem esse mar é só açúcar e rito ensaiado.


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