Domingo de Carnaval com Gosto de Chá de Galinha

 


Têm domingos que a vida resolve te presentear. Não com fogos de artifício nem com grandes epifania;  mas com pastel de vento, ipê amarelo e uma história de galinhas que faz chorar de ternura.

Comecei o dia com uma frustração digna de nota: a barraca do bode com inhame tinha ido para a praia. Carnaval é carnaval, e até o bode merece férias. Fiquei ali, babando em frente ao portão fechado, como alguém que chega na festa e descobre que a festa foi embora. Mas a vida tem esses desvios que, às vezes, são mais ricos que o destino original.

Foi o desvio que me levou ao Seu Nino.

Seis garrafinhas pet multicoloridas na frente de uma pastelaria não são exatamente um convite sofisticado. Mas algo me disse: entra. E entrei. O suco de manga já foi uma declaração de amor. Mas o pastel — meu Deus, o pastel. Daqueles que se come a massa inteira sem precisar de recheio, porque a massa já é o milagre. O famoso pastel de vento, que não precisa de nada por dentro porque por fora já é completo. Como certas pessoas.

Seu Nino faz a própria massa. Não economiza em manteiga. Abre ali, na frente dos clientes, como quem não tem segredo a esconder — só amor a mostrar. Aprendeu com a mãe, que também tem ponto na Feira da Prata. E tem mais oito parentes com seus pontos espalhados por aquele território de cheiros e histórias. Uma família que fincou raízes num lugar e dele fez reino. Há quanto tempo o Brasil é feito dessa gente que a gente não vê nas manchetes?

Levei um pastel de queijo do coalho pra mamãe. Ela adorou. Claro que adorou.

Depois me lancei em direção a Puxinanã, porque sempre amei esse nome. Tem cidades que parecem ter sido batizadas por poetas em dia de inspiração. O caminho foi presente: ipês amarelos florescendo às beiradas da estrada como se a natureza tivesse decidido decorar o salão antes dos convidados chegarem. O clima meio chuvoso, daquele jeito que só quem nasceu no Nordeste sabe apreciar como bênção — como água no deserto, como notícia boa, como cheiro de terra molhada que a infância guarda dentro da gente.

Voltei. Ajeitei o almoço de mamãe. E me dirigi ao Ô Bar da Fava, a menos de dois quilômetros de casa, para comer uma faça com bode — porque domingo sem bode, no meu vocabulário afetivo, é texto sem ponto final.

Enquanto esperava o arroz de leite com bode, o Instagram me trouxe uma história que aqueceu a alma inteira.

Uma senhora de Hidrolândia, em Goiás, perdeu mais de quarenta galinhas na véspera de Ano Novo. Morreram de infarto — literalmente — perseguidas por cães. Não eram só galinhas. Eram galinhas com nome. Daquelas que a gente cria e que viram família sem cerimônia, sem contrato, sem que ninguém perceba a hora exata em que o bicho deixou de ser animal e virou afeto com penas.

Ela ficou inconsolável. Como se perde alguém.

Os amigos souberam. E, sem ela saber, organizaram um Chá de Galinhas.

No último final de semana, mais de quinze carros foram estacionando na frente da casa dela. Cada pessoa desceu carregando pelo menos um galináceo vivo — galos, galinhas, patos, assemelhados — todos com vida, todos com destino certo. Ela olhou pela janela e achou que alguém tinha morrido. Porque quando muita gente chega ao mesmo tempo, a primeira hipótese do coração é a má notícia.

Mas era o contrário. Era a vida chegando de braços abertos e de galo na mão.

Ela não se conteve. Chorou. Não acreditava.

Fiquei ali, comendo minha faça, olhando para a tela do celular com os olhos marejados, e pensei: quanta gente boa existe nesse mundo que a gente não vê.

Quem organizou o Chá de Galinhas. Quem doou. Quem foi levar. Quem abriu o galinheiro de casa e disse leva, ela precisa mais. Uma corrente de solidariedade que não dá ibope, não vira manchete, não tem hashtag viral — mas que recompõe o que foi perdido e ainda acrescenta juros de humanidade.

Sei que muita gente anda desencantada. E entendo. O noticiário às vezes parece uma curadoria do pior de nós. Mas o pior de nós não é a totalidade de nós.

Ainda existe o Seu Nino que não economiza em manteiga e ensina o filho com a mesma mão que aprendeu da mãe. Ainda existe o ipê amarelo que floresce sem pedir permissão na beira da estrada de Puxinanã. Ainda existe o cheiro de chuva no Nordeste como benção antiga. Ainda existe a senhora de Hidrolândia que chora de alegria abraçada a uma galinha desconhecida que virou símbolo de que não estava sozinha.

E ainda existe domingo de carnaval em que a barraca do bode fecha, e a vida te desvia para um pastel de vento que dissolve na boca — e te lembra que os melhores momentos quase sempre chegam pelo atalho que a gente não planejou.

Bel Marques, Ainda Estamos Aqui


O mundo aqui em Campina Grande é um cobertor molhado. Chuva fina, daquelas que canta no telhado como um sussurro de segredo, e o silêncio da tarde — pesado, mas calmo. Minha mãe, recobrando-se de uma cirurgia, dormita no sofá, e eu, de olho na janela, sinto o tempo deslizar devagar, quase triste. Até que o celular vibra, e é uma chamda de vídeo. 

Na tela, um caos colorido. Rodrigo e Andrezza, suados, sorridentes, com os olhos brilhando como se tivessem roubado um pedaço do sol de Salvador. O fundo é um mar de gente, um *vumbora* de cores, e a voz de Bell Marques ecoando: *“Que calor é esse?!”* Eles estão no bloco Vumbora, na Barra-Ondina, no sábado 14.
"Tá vendo, meu velho? Ainda estamos", grita Rodrigo, apertando o celular com uma mão, enquanto Andrezza, com o abadá roxo do bloco, acena com um "estamos vivos" que nem precisa de palavras. Na pequena janela do vídeo, minha cara — o sorriso de quem vê a vida fora do quarto — contrasta com a explosão da avenida. É como se o universo tivesse dividido a tela: um lado, a chuva de Campina; o outro, o fogo do Carnaval.  

Quem olha de fora, talvez diga: “Mas, cara, o início do ano é um caos! Dívidas, escola nova pro Laís, o Eduardo com dois anos… Eles tavam loucos?”. Talvez. Mas Rodrigo e Andrezza, há mais de dez anos, têm um ritual: ir pro Carnaval de Salvador. E em 2026, nada os pararia.  

A história é assim: contas apertadas, boletos da escola, a pressão de “serem pais de verdade” — como se isso significasse só trabalho e seriedade. Só que, no fundo, eles sabiam: se não forem, a vida vira um filme sem cor. Então, planejaram o impossível. Voo de madrugada, um dia só no bloco, e bate e volta: sem hotel, sem descanso. 

“É barril, meu irmão!”, escuto ao longe. A gente chicleteia a vida, ajusta as velas e vem!  

E é isso: *chicletear*. Não é só dançar, é segurar a vida com as duas mãos, mesmo quando ela escorrega.  

Naquela videochamada, o que mais me chamou? O olhar deles. Não era cansaço. Era triunfo. Enquanto eu, aqui, via a chuva cair, eles saboreavam cada segundo. O suor, o barulho, o “100% você” do Bell Marques — tudo virava combustível.  

É isso que a gente esquece: viver não é só sobreviver. A psicologia chama de savoring (saborear), mas, pra gente, é fazer do hoje um presente. Rodrigo, naquela multidão, não pensava no trabalho da segunda-feira. Andrezza, com o abadá colado no suor, não se punia por “deixar os filhos em casa”. Eles estavam ali. Só ali.  E sabe o que mais? Isso é resistência. Num mundo que quer que a gente viva desconexões, e maratonas de boletos, que sempre chegam, eles foram para o meio da rua e disseram: “Ainda estamos aqui”.  

E é verdade. Quanto mais a gente cuida da própria alegria, mais a gente ensina a família a viver. Porque, se os pais virarem fantasmas de somente de responsabilidades, os filhos aprendem que a vida é cinza. Mas, se os pais "chicletearem", mesmo com dificuldade, eles deixam um legado: “Nossa família não desiste”.  

Porque, no fundo, o Carnaval não é só folia. É resistência cultural. É dizer: “Apesar do mundo, eu vou dançar”.  

Hoje, naquela tarde cinzenta, eu entendi algo: a vida não espera a gente ficar pronto para ser feliz. Rodrigo e Andrezza não esperaram “melhorar as contas” pra ir pro bloco. Eles foram, mesmo com medo, mesmo com fadiga.  

E sabe o que isso traz? Energia. Cada acorde do Bell Marques, cada abraço na multidão, vai ser combustível para 2026. Porque, quando a gente saboreia, a alegria não some. Ela vira força.  

Agora, a chuva aqui em Campina Grande não parece mais triste. Pelo contrário: é até sonora, como um convite para dançar. Enquanto minha mãe dormita, penso naquela imagem: Rodrigo, com o abadá roxo, sorrindo pra câmera, e Andreza acomapanhando juntinho, gritando: Ainda estamos aqui!".  

A lição é simples: não deixe a vida virar um filme de quarto. Vá pro que faz seu coração acelerar. Mesmo que seja um bate e volta. Mesmo que chova.  

Porque, no fim, a gente não se lembra do que comprou. A gente se lembra do que viveu.  

E, como diz o Bell Marques: “Que calor é esse?”.  

É o calor de saber que, mesmo na lama, a gente ainda dança.  

Porque a vida é curta pra ser vivida só de boletos.

P.S.: A foto da videochamada? Guardo ela na memória. É a prova de que, mesmo na chuva, a gente pode ter um sol dentro do peito. E, se um dia você se sentir cansado, lembre-se: “Ainda estamos aqui”.  

A Traira, as Ovas e o Tufo de Cabelo Branco

 


Sábado tem cheiro diferente.

Não sei se é o ar, se é a luz que cai diferente sobre as coisas, ou se é só o coração que abre mais cedo. Mas sábado — especialmente sábado com feira — é um dia que já acorda com personalidade.

Saí cedinho. Campina Grande ainda estava sonolenta, mas o Mercado Central já fervia, do jeito que só lugar vivo ferve: aquele calor humano que não tem ar-condicionado que imite. Entrei pela rua das flores e fiz o que qualquer alma sensível faz — parei. Só parei. Deixei o perfume chegar antes de mim. Há um instante na vida que a beleza pede licença antes de entrar, e a rua das flores é assim: ela não grita, ela sussurra, e quem tem ouvido fino escuta.

Depois das flores, as lojas de mangaio. Couro. Barro. Corda. Madeira. E aquela categoria filosófica que só a feira nordestina sabe criar: o "pra que isso?". Um objeto de função misteriosa, de origem duvidosa, de preço irresistível. A feira é o único lugar do mundo onde você compra coisas que não sabia que precisava e vai embora convencido de que salvou o orçamento doméstico.

Mas eu tinha missão. Missão séria.

Traira.

Não qualquer peixe — traira. O peixe do Tio Naldo. Aquele que a Tia Cleó, com suas mãos de fada e seus segredos de cozinha que ninguém anota porque se souberem demais param de depender dela, faz de um jeito que não existe explicação científica. Só existe a fé de quem prova.

Desembarquei na rua dos peixes. Ali a feira abandona qualquer pretensão de delicadeza e vai direto ao ponto: cheiro forte, gelo, escamas voando, e feirantes que vendem peixe como se estivessem vendendo a última oportunidade da sua vida. "É hoje, moço! Só hoje!" — como se o universo inteiro dependesse dessa decisão, agora, aqui, nessa banca.

Achei as trairas. Duas. Um quilo e meio cada — que é, para quem entende, um peso de respeito numa traira. Gordas, lustrosas, com aquela cara atravessada que o peixe tem, mas que a gente aprende a amar porque o sabor perdoa tudo. Missão cumprida.

Mas aí estava o tambaqui.

Enorme. Descomunal. O tipo de peixe que você olha e pensa: esse aí viveu. Esse aí nadou muito antes de chegar aqui. Fiquei olhando pra ele como quem olha para uma obra de arte que não vai poder comprar, mas precisa apreciar.

Dei uma volta pelo mercado. Passei no centro de eventos — porque feira boa tem cultura junto, não adianta — comprei caju, pano de chão dos grandes (os de vergonha, aqueles que você dobra três vezes e ainda cobre o quintal), amendoim e abacate pra mamãe. E então comecei o que eu chamo de brincar de me perder.

Há uma arte nisso. Escolher um destino conhecido e chegar até ele por um caminho que você nunca tomou antes. Campina Grande foi crescendo, virando cidade grande, e eu fui ficando com meus caminhos habituais, minhas rotas de sempre, como quem mora numa casa grande mas dorme sempre no mesmo quarto. Dobrei esquinas que não conhecia. Encontrei ruas com nomes que ninguém lembra por quê. Feirinhas de bairro que são miniaturas da feira grande, com o mesmo espírito, a mesma alma, só que em escala de calçada. Bodegas sortidas com aquela organização que só faz sentido pra quem montou. Gente — e isso me encheu de uma alegria que não sei nomear — gente que ainda bota cadeira na calçada pra ver a vida passar.

Cadeira na calçada. Que invenção mais brasileira, mais nordestina, mais humana. A televisão chegou, o celular chegou, o streaming chegou. E tem gente que ainda prefere a calçada. Que ainda escolhe a vida ao vivo, sem legenda, sem pausa, sem pular pro próximo episódio.

Pelas oito da manhã, tentei adivinhar se tinha acertado a rua do Tio Naldo.

Doblei a esquina.

E de longe — lá estava ele.

Um tufo de cabelo branco. Algodão puro. Um senhor sentado na calçada como se tivesse sentado ali desde sempre, como se a calçada tivesse sido feita pra ele, com o bastão na mão e aquela postura de quem não precisa mais provar nada pra ninguém. Tio Naldo.

Ele me viu. Abriu um sorriso que foi da calçada até o telhado. Chamou a Cleó. Avaliou a mercadoria com seriedade de especialista — levantou, olhou, aprovou. E aí, como quem revela um segredo de Estado, disse que eu tinha comprado a ova do peixe também, e que ova de traira no leite de coco fica uma coisa que não existe na literatura gastronômica mas deveria.

Fiquei ali parado na calçada, com o peixe na mão e quarenta anos de saudades, desde que um dia me mudei para aquele território, quando tinha 21 anos. 


A casa do Tio Naldo fazia divisa com a da Vovó pelos fundos. E a da Vovó era colada na nossa. Então a gente vivia numa espécie de república afetiva acessada pelos quintais, como se as paredes fossem só sugestão. Saía de casa, filava um petisco na cozinha da Vovó — que sempre tinha algo no fogo, porque Vovó acreditava que cozinha vazia é sinal de alguma coisa muito errada no mundo — chamava o Tio e formávamos o trio. Sentados na cozinha dela, ouvindo ela se alegrar com a gente ali.

Tio Naldo achava que eu não batia bem da cabeça. Dizia, rindo, que eu era agitado. Hoje eu sei que era. Mas naquela época, há quarenta anos, não tinha TDAH — era só "jeito de ser do menino". E no fundo era um jeito doce de me acolher, porque agitado ou não, eu era dele também.

Tinha dias que convocávamos a Vovó e invadíamos a cozinha da Tia Cleó. Que sempre tinha algo bacana. Cleó tem mãos de fada, já disse — mas mãos de fada com especialidade em pescados e carnes de molho, o que é uma bênção particular numa família de gente que come direito.

Pelas onze horas era meio-dia. E chegava meu pai.

Aí o time estava completo. Um pai, um tio, uma tia, uma avó e muitas prosas. Era um tempo em que os boletos estavam nos vencendo — e quem não viveu isso que não jogue a primeira pedra — mas que naquele momento a gente conseguia botar os boletos de lado e sentar junto. Fortalecia, sabe? As pelejas que um tinha vencido alimentavam a coragem do outro pra vencer as suas.

Chegava o Marcelo, filho do Tio Naldo. Chegavam os meus, trazidos pela Joane — o Tiago, a Priscila, e o Rodrigo ainda na barriga da mãe. E acontecia aquele milagre que só casa de pobre conhece: brotavam lugares. Cadeiras de não sei onde, pratos que multiplicavam, espaço que se expandia. Casa de pobre é igual a fusquinha — cabe todo mundo e ainda sobra lugar pra quem chegar depois.

A Vovó então começava a contar as vezes que tinha acordado de noite pra tangir os gatos, que queriam pegar os pintinhos das galinhas que tinham acabado de ser mães também. E do quanto o galo dela estava bonito. Eu contava as aventuras do Sítio Samambaia — que a gente tocava com meu pai aqui pertinho —, da criação de abelhas que foi invadida por calangos, do dia que cacei umas rãs na beira de um charco e fiz a Joane tratar, sem contar que eram rãs, deixando ela imaginar que eram pássaros.

Ela só descobriu na hora que foi servir.

Me jurou de morte. Com toda razão. E com todo nojo.

O Tio Naldo ria desse jeito dele, de quem acha graça mas não quer perder a seriedade.


Daqui a uma hora volto pra lá.

Vou me sentar à mesa deles e me deixar acontecer. Vou olhar pro meu tio, que lembra tanto meu pai — os gestos, o sorriso, aquela forma de receber as pessoas que é quase uma oração. Vou comer traira com ovas no leite de coco, caju e amendoim. Vou ouvir histórias que já sei de cor mas que toda vez parecem novas, porque história boa é assim: envelhece bem, como vinho bom.

Uma pessoa tem que ter histórias pra contar. Mas pra isso precisa ter prestado atenção.

E prestar atenção é uma arte. Um exercício espiritual, quase. Num mundo que vive o amanhã da ansiedade ou o ontem das frustrações, parar no presente — no presente divino, que é o único lugar onde a vida de fato acontece — exige uma decisão que parece simples mas não é.

Mas quando você presta atenção, você vê. Você vê o tufo de cabelo branco do Tio Naldo de longe e já sabe que chegou em casa. Você sente o cheiro das flores antes de vê-las. Você ouve a senhora anunciando a galinha caipira e entende que ali está alguém que também tem uma história. Você olha pra um tambaqui enorme e pensa: esse aí viveu.

A luz da manhã descongelava as esperanças tardias da cidade. Eu andava pelas ruas novas que não sabia que existiam na minha própria cidade, e pensava: quantas coisas a gente não conhece do que é seu? Quantas ruas estão esperando que a gente dobte uma esquina diferente?

Aquele território onde eu cresci — eu, o Tio Naldo e a Vovó nas casas quase geminadas, acessadas pelos quintais como se tivéssemos combinado isso desde sempre — era um tesouro de afetos.

Todo dia a gente dizia, sem dizer, aquilo que talvez seja a coisa mais bonita que um ser humano pode dizer pro outro:

Ainda estou aqui.

Pode entrar.

A casa é sua.


E a traira? Estava ótima.
As ovas no leite de coco, então, não têm palavras.
Mas isso — isso você terá que acreditar em mim.





A Diretoria



A Diretoria

Tem um lugar, na casa de meus pais, em Campina Grande-PB, que guarda memórias ensombradas pela generosidade das bouganvílles.

A gente chamava aquele canto de Diretoria. Eu, meu pai e meu tio. Era sob as bouganvílles, que no Brasil não sabem ser discretas, que a gente resolvia o mundo, ou fingia que resolvia. Tinha petisco, tinha copo, tinha música baixa e história alta. Tinha riso que começa no peito e termina nos olhos.

A Diretoria não tinha pauta. Tinha presença.

Meu pai foi em 2021. Meu tio ficou, mas a coluna não deixa mais ele chegar até aqui com a mesma leveza de antes. Vim de Brasília passar dez dias com minha mãe, dona Denise, 87 anos, que se recupera de uma cirurgia com a delicadeza e a teimosia que só as matriarcas sabem ter. Tinha acabado de voltar da Feira da Prata, onde comprei seriguelas pra ela. E me sentei aqui, nessa cadeira, tomando um café que esfriou devagar, segurando uma fruta na mão como quem segura um pensamento que ainda não virou palavra.

A casa estava silenciosa. Mas a Diretoria ainda existe enquanto eu sentar aqui.


Aos 61 anos, a gente começa a perceber certas coisas que antes passavam despercebidas no corre da vida. Percebe, por exemplo, que o café esfria. Que ele esfria e a gente deixa esfriar, porque estava pensando em outra coisa, ou em ninguém, ou simplesmente existindo sem pressa, sem destino, sem a urgência que o mundo sempre cobrou da gente.

Isso antes me incomodava. Agora começo a entender que é um privilégio.

A vida toda somos tomados de barulhos. O barulho do trabalho, o dos filhos pequenos, o dos amores que chegam anunciando festa. A gente aprende a existir no meio do ruído, a se orientar por ele, a confundir movimento com direção. Passei a vida como Tarzan. De cipó em cipó, de amor em amor, de projeto em projeto, de cidade em cidade. No ar, a gente se sente livre, se sente vivo. O vento no rosto convence que está indo pra algum lugar. E enquanto tem o próximo cipó à vista, não tem medo.

Mas o Tarzan nunca aprende o cheiro da terra.

Quando os barulhos silenciam, o do trabalho que diminuiu, o dos filhos que cresceram, o dos amores que partiram, resta ouvir os sons do próprio ser. Sons antes abafados para acolher tantos outros. E é exatamente isso que esse cantinho oferece: a possibilidade de entrar no deserto.

O deserto assusta. Mas é o lugar dos cinco Rs: redenção, remição, restauração, ressignificação e reinvenção. Sempre foi assim, desde os profetas que precisavam do silêncio árido para ouvir o que importava.


Tem uma coisa estranha e bonita que acontece quando a gente chega nessa fase da vida sem muita gente ao lado. A gente começa a andar diferente. Não porque está triste, embora às vezes esteja. Mas porque o passo fica mais lento e mais atento. A gente para na calçada pra olhar uma flor que sempre esteve ali. Nota o cheiro da terra molhada depois da chuva. Sente o peso do próprio corpo na cadeira como se fosse a primeira vez, e pensa: eu ainda estou aqui. Que coisa extraordinária.

Fui à Feira da Prata de manhã. Sozinho, como tenho feito muita coisa ultimamente. Comprei seriguelas pra mamãe porque ela ama, e comprei também o simples prazer de caminhar entre as bancas, de ouvir o vendedor que grita o preço como se fosse uma cantiga, de sentir o cheiro de coentro e de manga no ar quente de Campina Grande. Ninguém me esperava em nenhum lugar. E nisso havia uma liberdade estranha, quase assustadora, quase deliciosa.

O longevo que caminha sem muita gente ao lado não é necessariamente um homem abandonado. Às vezes é um homem que está, pela primeira vez, completamente disponível para si mesmo. Que está aprendendo, na prática, o que os filósofos tentaram explicar em livros: que existir, simplesmente existir, já é suficiente.


As bouganvílles continuam escandalosas e belas, como se não soubessem de nada. A parede que as sustenta é a quadra do Colégio Pingo de Mel, e eu mal sabia o que estava por vir. E lá em cima, num galho que vira ninho, duas rolinhas constroem juntas o lugar onde vão colocar vida no mundo.

Fiquei olhando pra elas mais tempo do que devia.

E o café esfriou de vez.

Foi quando mamãe me chamou da cozinha.

Voltei dos meus pensamentos devagar, como quem sobe à superfície depois de um mergulho fundo. Ela queria me dizer uma coisa urgente e importante: que amava seriguela. Que iria comer sozinha o saco inteiro que eu tinha comprado. Peralta e faceira, com seus 87 anos e sua cirurgia ainda fresca, ela estava ali em seu melhor momento, plena, cobiçando as seriguelas com a alegria desavergonhada de uma criança que ganhou o que queria e não vai dividir com ninguém.



Eu sorri.

E percebi que o deserto tinha, ali, uma fruta doce no meio.

Fiquei pensando em dona Denise enquanto voltava pra cadeira. Em como ela chegou aos 87 com essa chama acesa. Em como a gente às vezes confunde longevidade com resignação, com espera, com o modo quieto de ir deixando a vida passar. E ela ali, com o pote de seriguela na frente, era a prova viva de que envelhecer bem é uma decisão que se toma todos os dias. É acordar e escolher a seriguela. É ligar o celular e fotografar a própria fartura. É ser peralta mesmo quando o corpo pede sossego.


É carnaval lá fora. O mundo está em bloco.

Eu estou no bloco do eu e eu. Apenas.

Não é solidão, ou não é só isso. É o forasteiro que voltou à própria cidade e não se reconhece mais nela, nem ela nele, desde que partiu em 1999. É o homem que saiu dos galhos, do voo de amor em amor, de compromisso em compromisso, de barulho em barulho, e descobriu que o infinito não estava lá em cima, estava aqui embaixo, no chão firme, na terra que guarda raiz.

Aprendi hoje que caminhar sem muita gente ao lado não é o fim de nada. É o começo de uma conversa que a gente adiou por décadas: a conversa consigo mesmo. Aquela em que a gente pergunta, de verdade, sem pressa e sem medo: quem sou eu, agora que não preciso mais ser o que os outros esperavam?

E a resposta não vem em palavras. Vem no café que esfria e a gente deixa esfriar. Vem na seriguela que a mãe come sozinha e feliz. Vem no passo lento pela feira, sem destino, sem pressa, com todos os sentidos acordados para o milagre ordinário de estar vivo numa manhã de carnaval em Campina Grande.

E hoje, nessa cadeira que meu pai também sentou, eu não quero mais tanto cipó. Quero botar o meu bloco na rua. Carregar sozinho o meu estandarte. Me levar pra ver a vida. Acompanhar na pipoca a multidão em seus abadás, com a leveza de quem encontrou, no meio do deserto, a melhor versão de si mesmo.

Não o herói. O esboço.

E o esboço, às vezes, é o mais honesto que a gente já foi.


Então o Pingo de Mel soltou sua orquestra de frevo.

O som veio pelo muro, tomou as bouganvílles, desceu pelo quintal e me encontrou na cadeira. Frevo de Olinda, do bom, daquele que não pede licença. Fechei os olhos e senti meu pai e meu tio ali, do lado, curtindo a orquestra como só eles sabiam curtir. Podia ver as crianças nos cordões, nas piruetas, vivendo um dia que vai ficar na memória de suas vidas. E na minha.

O carnaval não esperou que eu fosse até ele.

Ele veio até mim.

Então mamãe veio sentar na mesa que ela gosta, ao lado da porta da cozinha, de onde se vê o quintal e a Diretoria inteira. E ficou ali, cantarolando baixinho as músicas de frevo, lembrando dos antigos carnavais, com um sorriso que não precisava de explicação.

Ela que passou por duas cirurgias em janeiro, que ficou mais de oito dias na UTI depois de complicações, que chegou tão perto de um lugar de onde a gente não volta, estava ali, de preto, cantarolando frevo como se o corpo soubesse, antes da mente, que era hora de celebrar.

Fiquei olhando pra ela sem dizer nada.

Porque tem momentos em que a palavra seria pequena demais.

O carnaval entrou na vida dela também. Sem bloco, sem abadá, sem confete. Entrou pelo muro do Colégio Pingo de Mel, desceu pelo quintal, passou pelas bouganvílles e pousou mansinho no coração de uma mulher de 87 anos que decidiu, mais uma vez, ficar.

Obrigado, Pingo de Mel. Por trazer luz e paz nessa manhã de sexta-feira, véspera de carnaval, que eu não vou esquecer enquanto eu viver.

Há quem diga que eu dormi de touca. Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga. Que eu caí do galho e que não vi saída. Mas..., eu quero é botar meu bloco na rua.



Botar o bloco na rua: três lições sobre a solidão na longevidade

1. O deserto não é o inimigo, é o começo

A solidão que dói não é a que a gente escolhe. É aquela que chega quando os barulhos da vida param e a gente percebe que não sabe mais ficar consigo mesmo. Mas o deserto, quando atravessado com coragem, oferece o que a agitação nunca deu: o reencontro com a própria voz. Combater a solidão na longevidade começa por não fugir do silêncio, mas por aprender a habitá-lo sem terror. É no deserto que a gente descobre que ainda tem companhia: a própria presença, que ficou esperando pacientemente enquanto a vida corria lá fora.

2. Botar o bloco na rua é um ato de coragem, não de desespero

Quem viveu de cipó em cipó, de relação em relação, de grupo em grupo, estranha profundamente o momento em que precisa dar o primeiro passo sozinho. Mas existe uma diferença enorme entre esperar que o carnaval bata à sua porta e decidir ir ao encontro da festa com o próprio estandarte. Na longevidade, cultivar presença social exige iniciativa ativa: ligar, aparecer, propor, criar. Não porque a solidão é fraqueza, mas porque pertencer é uma necessidade humana que não se satisfaz passivamente. O bloco não vem sempre até a gente. Às vezes a gente precisa ir até ele, descalço e sorrindo, com um copo na mão.

3. A festa mais próxima pode estar no quintal

Quando procuramos conexão apenas nos grandes gestos, nas viagens, nos grupos numerosos, nos relacionamentos intensos, esquecemos que a vida acontece também no miúdo: numa mãe de 87 anos que rouba seriguelas com olhos brilhando, num ninho de rolinhas sobre a cabeça, num frevo que vem pelo muro sem avisar. Combater a solidão na longevidade é também treinar o olhar para o que está perto e vivo. A Diretoria não precisa de quórum para existir. Às vezes ela funciona com uma cadeira, um café, uma memória e a disposição de estar presente no momento que a vida oferece, seja ele qual for.

Ass. Ricardo de Faria Barros

Sim, antes que me esqueça, ainda estou vivo! (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Era uma tarde de terça feira e a paciente, vamos chamá-la de Clarice, sentou-se  na ponta da poltrona, quase pedindo desculpas por ocupar espaço físico no mundo. Ela ajeitou a saia e disse, com a voz embargada de quem engoliu muitas palavras não ditas durante anos, Doutor Ricardo, eu sinto que me tornei um móvel da casa. Sabe aquele aparador no corredor que todo mundo usa para jogar as chaves, mas ninguém nunca repara se está empoeirado ou se a madeira está lascada? Sou eu. Falo, bom dia, e o som bate nas paredes e volta. Tenho a impressão de que se eu desaparecesse hoje, só notariam quando faltasse o café na garrafa térmica. Eu existo, mas não vivo nos olhos dos outros.

Enquanto meu café esfria na xícara de porcelana, criando aquela película fina e triste na superfície, olho pela janela e penso na humanidade que corre lá fora. Estamos em 21 de janeiro de 2026 e a ironia bate à minha porta com a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Li hoje, num jornal digital, sobre a mais nova invenção para a nossa sociedade adoecida, um aplicativo que verifica se você ainda está respirando. É isso mesmo. A tecnologia agora serve de babá para a nossa solidão. Você instala, cadastra uns contatos e, todo dia, o software pergunta, E aí, tá vivo? Se você não responder em 48 horas, ele dispara o alarme para a família. Criamos um sistema automatizado para terceirizar a preocupação, um algoritmo que substitui o abraço, o telefonema, o cheiro de gente.

Essa notícia caiu no meu colo como um tijolo, justamente quando eu refletia sobre a invisibilidade que a Clarice descreveu. A vida moderna virou um grande saguão de aeroporto lotado onde ninguém se olha, cada um arrastando sua mala de ansiedades, com os olhos vidrados em telas luminosas, tropeçando na própria humanidade sem pedir licença. E é curioso notar como essa indiferença pode ser fatal, não apenas metaforicamente, mas literalmente.

Lembro-me de uma crônica antiga, que ecoa perfeitamente neste cenário gélido de 2026. Havia um encarregado de câmara fria, um homem simples, cuja jornada era marcada pelo frio industrial e pela repetição. Mas ele tinha um ritual sagrado, quase litúrgico. Ao final de cada turno, passava pela guarita e distribuía sua colcha de afetos em forma de palavras. Boa noite, fiquem na paz, bom plantão, dizia ele aos vigilantes. Era o único momento do dia em que ele deixava de ser uma função e voltava a ser um homem. Certa vez, o destino, esse roteirista que adora pregar peças, fez com que ele ficasse trancado acidentalmente dentro da câmara fria. O ar faltava, o frio queimava, e a hipotermia batia o ponto. Ele seria apenas mais um dado estatístico de acidente de trabalho se não fosse por um detalhe, o silêncio. Os vigilantes sentiram falta daquele boa noite. A ausência da gentileza foi o alarme. Eles não precisaram de um aplicativo de 2026 para notar que alguém faltava. A humanidade daquele homem o salvou porque ele se fez visível através do afeto.

Hoje, contudo, vivemos o inverso. Estamos trancados em nossas câmaras frias particulares, apartamentos de luxo ou quartos apertados, congelando emocionalmente enquanto o mundo lá fora ferve. Filhos não mandam mensagens para os pais porque estão ocupados demais protagonizando suas próprias vidas severinas, correndo atrás de ventos. Nos grupos de família ou amigos, lançamos uma mensagem como quem joga uma moeda num poço sem fundo. O vácuo. O silêncio absoluto. Nem um emoji, nem uma reação. A sensação é de que somos fantasmas gritando em uma sala à prova de som. A nossa esperança de conexão fica pendurada num varal de sentimentos que ninguém recolhe antes da chuva.

Eu mesmo, Ricardo, peregrina alma neste mundo estranho, sinto na pele essa invisibilidade. Há dois meses frequento uma igreja, sentando me religiosamente no segundo banco da frente, perto do altar, buscando o sagrado. E, no entanto, sou um forasteiro invisível. Nunca fui saudado. Os frequentadores antigos, que certamente notaram a presença deste corpo estranho, passam por mim como se eu fosse feito de vidro. Que planeta é este que estamos criando? Um lugar onde vizinhos dividem a parede, mas não dividem um bom dia? Onde precisamos de um aplicativo para garantir que não apodreceremos sozinhos em casa?

 


Precisamos ser subversivos. A verdadeira revolução hoje não é tecnológica, é humana. É preciso romper com esse narcisismo que nos coloca como o centro do universo e nos cega para o outro. A morte social não é apenas daquele que morre sozinho e é descoberto pelo cheiro dias depois. A morte social acontece agora, quando você lê isso e não se lembra da última vez que olhou nos olhos do porteiro, do colega de trabalho, ou da sua mãe. Precisamos sair das tocas, precisamos do oxigênio de pele humana, precisamos de rostos reais e não de interfaces digitais. Porque chegará o tempo, e talvez já tenha chegado, em que estaremos cercados por uma multidão e nos sentiremos os seres mais solitários da galáxia.

Enquanto escrevo, sinto uma pontada de angústia, mas também um chamado à responsabilidade. A Logoterapia nos ensina que o sentido da vida é encontrado no mundo, não dentro da nossa própria psique fechada. Ao nos tornarmos invisíveis para os outros, também perdemos a capacidade de ver o sentido da nossa própria existência. O homem da câmara fria sobreviveu porque transcendeu a si mesmo através de um simples cumprimento diário. Ele criou um laço. O aplicativo de estou vivo é a prova cabal de que falhamos como comunidade. Se precisamos de um software para lembrar que alguém existe, é porque já matamos essa pessoa socialmente muito antes do coração dela parar de bater. A cura para essa invisibilidade não está em mais notificações no celular, mas na coragem de ser inconvenientemente humano, de furar a bolha da indiferença com a agulha da presença.

O que aprendi. Primeiro, não baixe o aplicativo. Recuse se a ser monitorado por máquinas e comece a ser monitorado pelo afeto. Segundo, torne se um fiscal da vida alheia, mas no bom sentido. Envie hoje, agora, uma mensagem sem motivo para três pessoas que você não contata há tempos. Não pergunte se precisam de algo, apenas diga, lembrei de você e quis saber como está o seu mundo. Terceiro, pratique a cerimônia do porteiro. Cumprimente olhando nos olhos, pare por dez segundos, pergunte o nome se não souber. Quarto, no seu grupo de família ou amigos, seja aquele que responde, aquele que reage, aquele que valida a existência do outro. Não deixe ninguém no vácuo. E, por fim, se você frequenta uma igreja, um clube ou uma praça, procure o forasteiro. Aquele que se senta sozinho no segundo banco. Um simples olá pode ser a chave que abre a câmara fria onde ele está trancado.

 Veja a notícia aqui:

https://www.uol.com.br/universa/colunas/futuro-presente/2026/01/21/voce-ja-morreu-app-responde-e-prova-que-epidemia-de-solidao-virou-mercado.htm

Ricardo de Faria Barros, psicólogo da longevidade.

A Geometria do Vento e o Banquinho da Alma (Ricardo de Faria Barros, Psicólogo)



Era dois de janeiro de dois mil e vinte e seis. Eu estava na orla do Bessa, com a alma lavada de sal e as mãos entregues à arquitetura efêmera de uma piscina de areia para os pequenos. Enquanto levantava muros frágeis contra o avanço inevitável do mar, pensei que viver talvez seja exatamente isso: construir com cuidado absoluto, sabendo que tudo é provisório.


Meus olhos, por vezes exaustos da repetição de corpos em exibição e das queixas automáticas de uma humanidade que parece ter desaprendido o encanto, pousaram em uma cena que não pedia legenda, nem aplausos. Pedia apenas presença.


Se eu pudesse emoldurá-la, diria que o azul do céu de João Pessoa dialogava com uma sequência de guarda-sóis vermelhos ao fundo — como flores estendidas ao calor do verão. No centro dessa aquarela viva, um rapaz de camisa azul, da cor do mar profundo, estava ajoelhado. Não em oração, mas em ação inteira. A areia molhada devolvia sua imagem num reflexo límpido, como se o céu e o chão tivessem selado um acordo de silêncio.


O detalhe que costuma provocar o desvio do olhar ou aquela piedade ruidosa — que mais isola do que acolhe — era uma ausência. Faltava-lhe uma perna. Mas a vida, essa peregrina experiente, não trabalha com faltas; ela trabalha com rearranjos. Ele utilizava uma muleta adaptada e, para encontrar o eixo do mundo, apoiava o joelho em um banquinho simples de plástico. Sem drama. Sem heroísmo de vitrine. Apenas o recurso honesto para sustentar o seu estar no mundo.


Ali, naquele banquinho, residia uma lição silenciosa. Ele não desperdiçava energia combatendo o que era imutável. Usava o que tinha para dar suporte ao que lhe fazia sentido: ele empinava uma pipa. O pescoço inclinado para o alto, os olhos bebendo o azul, o corpo inteiro em conversa com o invisível. Não havia pressa, nem comparação, nem a tirania do desempenho. Havia entrega — daquelas em que o tempo afrouxa o nó e a vida passa a caber, inteira, dentro de um instante.


Ao lado dele, uma moça permanecia de pé. Não como cuidadora, nem como plateia vigilante. Ela estava ali como quem entende que presença não é controle, é confiança. Eles não estavam ali para "dar o exemplo". Estavam apenas se dando à vida. Ele oferecia sua disposição de brincar apesar dos limites; ela oferecia sua escolha de estar próxima sem invadir. Um oferecendo o corpo possível, o outro oferecendo o olhar atento.


Ela não o segurava, pois ele não precisava ser segurado. Mas também não se afastava. Seu sorriso não carregava pena, nem o orgulho de quem "suporta" uma carga. Era reconhecimento. E reconhecer o outro na sua integridade é uma das formas mais elevadas de amar. Amar, ali, não era consertar nada; era acompanhar o voo alheio, aceitando que, às vezes, é preciso sentar para tocar as nuvens.


Fiquei imaginando a cartografia dessa jornada. Quantas manhãs foram necessárias para que ele confiasse naquele banquinho? Quantas frustrações precisaram ser atravessadas até que o ato de sentar deixasse de ser derrota para virar estratégia? E quantas vezes ela conteve o impulso de "fazer por ele", aprendendo que o excesso de ajuda pode ser uma forma sutil de roubar a autonomia?


Pensei em meus pacientes. Em tantos que possuem o corpo intacto, mas a alma claudicante. Pensei em nós, essa humanidade ansiosa e barulhenta, econômica nos afetos e perdulária nas mágoas. Gente que corre maratonas sem sair do lugar, enquanto aquele rapaz, sentado, alcançava o horizonte.


Reparei, então, num detalhe final. Ao fundo, uma criança corria em direção ao mar. Corria com as duas pernas livres, rápidas, como quem ainda não conhece o medo. Naquele instante, algo se encaixou em mim: nem o jovem, nem a criança eram definidos pelo que tinham ou pelo que lhes faltava. Ambos eram definidos pelo mesmo verbo: Viver.


O banquinho foi a maior aula de psicologia que recebi naquele verão. Ele ensinava que o bem-estar não nasce da ausência de dificuldades, mas da capacidade de reorganizar os recursos internos. Que a resiliência não é endurecer, mas adaptar-se sem perder a ternura. A deficiência mais perigosa não era a física, mas a incapacidade de se encantar com o comum.


Aquele jovem não fez da sua dor uma identidade. Ele fez da limitação um pedestal. E ela, ao lado, não tentou clarear o céu por ele; apenas compartilhou a paisagem.


Obrigado, jovens desconhecidos. Vocês não quiseram aparecer, e exatamente por isso, permanecerão. A vida, às vezes, precisa sentar-se num banquinho para nos lembrar que o céu continua sendo um horizonte possível e que o verdadeiro voo acontece quando alguém nos olha sem pressa, sabendo que viver é uma construção, não uma competição.


Ricardo de Faria Barros Psicólogo e observador de vidas que ainda sabem se encantar.

Meus 13 Territórios do Afeto, no Bairro da Prata, em Campina Grande-PB


Caminhar por algumas ruas do Bairro da Prata, em Campina Grande-PB, não é um mero deslocamento físico; é uma peregrinação silenciosa pela cartografia da própria alma. Cada passo reivindica uma memória adormecida, como se o chão reconhecesse a pisada de meus pés muito antes de eu reconhecer o caminho. O cheiro do bairro   uma alquimia de asfalto quente, poeira ancestral e uma umidade teimosa que se agarra às paredes; percorre meu corpo como uma corrente elétrica suave, daquelas que não ferem, mas despertam. É um odor que não se descreve: ele invoca gente, convoca tempo, é a essência de casa.

Observo o meio-fio e vejo plantinhas insurgentes rompendo a crosta de concreto. Pequenas, frágeis, insubmissas. Ali, naquele exato ponto de ruptura, eu lançava meus barquinhos de papel, confeccionados às pressas com folhas de caderno, dobrados mais com esperança do que com técnica. Na alquimia da infância, as águas que desciam da ladeira da Antenor Navarro eram caudalosos rios de aventura. Não importava se carregavam segredos da cidade ou a pureza efêmera da chuva. A fantasia   essa força quase sagrada que nos redime da aridez do real   realizava seu milagre quotidiano: transmutava a matéria bruta em correnteza de sonhos. Hoje, aquelas plantas que brotam nas frestas me parecem oráculos. A vida, quando insiste, sempre traça sua passagem. A esperança, igualmente.

Mais adiante, o tempo parece ter feito uma pausa deliberada na bodega do Seu Tonheca. Ali, os relógios respiram em outra frequência. Davi, o filho mais novo, permanece um sentinela silencioso de uma era que se recusa a escoar. Seu olhar guarda uma fidelidade tácita ao passado, como se sustentasse um pacto: "Alguém precisa ficar para lembrar." A poeira dourada do crepúsculo pousa sobre o balcão, e todo o ambiente parece suspenso   um universo em pausa, tomando fôlego antes da próxima maré do tempo.

A subida em direção ao Hospital Santa Clara impõe um respeito quase litúrgico. É um monumento de paradoxos, onde a vida e a morte dançam a mesma valsa íntima, sem pedir licença. Suas paredes são argamassa de vozes: gemidos, orações murmuradas, promessas seladas em silêncio. Vejo, na memória, a luzinha rosa acesa, pequena e imensa, anunciando a chegada de Priscila   um farol de vida nova rompendo a escuridão. Mas sinto, no mesmo solo, o peso sereno onde papai descansou de suas fadigas. O mesmo espaço que acolhe o primeiro choro abriga o último suspiro. É um território sagrado, onde a fragilidade humana é recebida em lençóis brancos e por mãos que aprenderam, dia após dia, a honrar o que é finito.

No percurso, a sede do GAV se impõe à memória como um sobrado de luz em meio à noite. Fundado em 1994, aquele espaço foi minha escola prática de humanidade. Ali, a autotranscendência deixou de ser conceito para se tornar respiração. Revivo com clareza os rostos dos vinte voluntários: donas de casa, estudantes, desempregados   gente comum que, nas sextas-feiras à noite, transformava o medo da AIDS em abraço, em sopa quente, em escuta sem julgamento. Ali aprendemos, sem tratados, que a vida se expande quando se doa. Onde havia estigma, plantávamos presença. Onde havia desespero, insistíamos em esperança. O GAV não curava corpos, mas salvava sentidos   e isso, muitas vezes, é a cura mais radical.

A fome, biológica e afetiva, me conduz à Feira da Prata. O salão que procuro não se anuncia com placas, mas o cheiro do bode com cuscuz funciona como uma bússola infalível. Na banca que foi de Dona Socorro, o sabor da terra se oferece sem cerimônia. Por trinta reais, renovo o rosto no corte de cabelo; por quinze, garanto o rito do almoço. Penso na simplicidade abundante da minha cidade, tão distante da lógica inflacionada de Brasília. Aqui, o bode é iguaria nobre e o preço é um pacto de honra. Um aperto de mão sem papel, e um desconto pra um estranho, que sela confiança e fideliza as voltas.

Desço a Nilo Peçanha e o coração se contrai. Onde antes se erguia meu colégio   uma floresta encantada para nós, pequenos diante da grandiosidade das árvores   hoje se estende um vazio de ruínas. Desapareceram as construções, as sombras generosas, os bancos improvisados. Resta o silêncio de um terreno baldio. Mas fecho os olhos e ecoam nossas vozes infantis, correndo pelos corredores, rindo alto, acreditando que o mundo cabia, intacto, em uma tarde qualquer. Sinto um impulso quase físico de entrar, recolher um punhado daquela terra e guardá-lo no bolso. Não é sujeira. É relíquia. Testemunha silenciosa. Fragmento vivo do menino que fui.

A rua Dom Pedro II se desenrola diante de mim como um pergaminho da minha existência. Em seu curto quilômetro, ela condensa uma enciclopédia de vida. Foi ali que nasci. Ali que aprendi a nadar no Sesi, desafiando o medo da água com braçadas desengonçadas. Ali vivi o amor, o casamento, a construção de um lar com Joane e a chegada dos filhos. E ali também enfrentei a geografia do luto, o divórcio doze anos depois, quando a casa precisou aprender a pulsar em outro ritmo. Nessa mesma rua, a dor física me visitou com brutalidade, no acidente de moto que quase rompeu o fio da vida. O Hospital Francisco Brasileiro, testemunha daquele susto, ainda me observa de longe. E, logo adiante, a Igreja do Rosário: palco da minha fé em construção. Fui coroinha, sonhei ser padre, liderei jovens. Cada esquina dessa rua tem textura, tom, aroma e voz. E todas, sem exceção, ainda sussurram meu nome.



Ao chegar em casa, o ciclo se fecha com a ternura cotidiana de Dona Celina. O cheiro que me recebe não é apenas de comida: é de juventude condensada. É de tempo amorosamente estocado. Celina, nosso patrimônio afetivo imaterial, que por 40 anos teceu cuidados invisíveis na trama de nosso lar, preparou, como quem decifra almas sem perguntas, a tríade sagrada das gostosuras; pratos que marcaram minha juventude e que, juntos, narram mais da minha história do que qualquer crônica. A farofa de ovos, simples e reconfortante, bálsamo para dias difíceis. O cozido de carne com pirão, espesso e quente, alimento de sustância e presença, que segura o corpo e ancorava o coração. E, para a celebração, a pizza de liquidificador;  improviso generoso e festivo, símbolo dos dias em que a alegria não precisava de motivo para ser convidada. Celina fez os três. Num ato mudo que diz: "Eu me lembro de você inteiro." Entre um café e outro, ela me surpreende ao perguntar pelo meu livro novo. Diz que quer um exemplar. E, aquele pedido tão atencioso, simples, cotidiano e profundamente amoroso, validou toda a minha travessia. Seu interesse pela minha obra foi um abraço na alma, daqueles que não fazem ruído, mas sustentam; um reconhecimento que vale mais que qualquer láurea.

Aos 61 anos, como psicólogo e observador da alma humana, compreendo que somos, cada um de nós, um território vivo. Somos moldados pela geografia que habitamos e, ao mesmo tempo, a moldamos com a topografia de nossas histórias. Criamos conexões de sentido que transcendem o concreto e o asfalto. As ruas do Bairro da Prata não são apenas vias públicas: são artérias do meu próprio corpo, veias por onde corre o sangue da memória. Revisitar esses caminhos não é saudosismo estéril; é oxigenação existencial. A Logoterapia ensina que o passado é um celeiro inexpugnável: nada se perde, tudo se transforma em sentido vivido. Essas memórias nos humanizam, nos desaceleram, nos arrancam do piloto automático e nos sussurram que a vida é feita de encontros, sabores, dores atravessadas e vozes que, mesmo em ruínas, nunca cessam seu canto.

Convido você, leitor amigo, a empreender essa mesma peregrinação sagrada. Caminhe pelas ruas da sua infância. Pronúncia as esquinas da sua história. Que aromas elas guardam? Que perdas e amores ficaram gravados naquelas calçadas? Permita-se recolher a areia de suas próprias ruínas. Você descobrirá que, no grande mosaico da vida, cada fragmento de memória é um tijolo indispensável na construção do seu sentido de ser. Resgatar a geografia interior é, no fundo, um ato de reconciliação consigo mesmo   e a forma mais delicada de aprender a amar, com doçura e respeito, a pessoa que se tornou.

Ricardo de Faria Barros  


Psicólogo | Especialista em Psicologia Positiva e Logoterapia

 


A Madrugada em que o Curral Aqueceu o Mundo (Ricardo de Faria Barros)


Meu nome é Ricardo.

Sou o caseiro do curral numa pequena cidade da Cisjordânia. Minha lida começa às quatro da manhã, quando ainda é noite fechada. Cuido de seis vacas. Tiro o leite duas vezes ao dia, alimento, levo para o pasto, limpo o curral e faço queijo. Cada vaca produz quinze litros por dia. Consigo fazer nove queijos. Cinco ficam com o patrão. Quatro comigo. É com eles que sustento minha família.

Naquela madrugada eu fui trabalhar a contragosto.
Não queria ir. Minha filha Sofia, de dois anos, estava doente, chorando de dor no ouvido. Mas eu precisava dos quatro queijos. Era isso ou nada. Era isso ou faltar comida em casa.

Caminhei os dez quilômetros até a terra do senhor Enoque. Dezembro é o mês mais seco da região. Falta água, o pasto some, o corpo pesa mais. Quando cheguei, fui direto à cozinha preparar o café. Era quatro da manhã. Assim que o cheiro do café invadiu a casa, Enoque se levantou e veio me cumprimentar, com o rosto cansado.

Disse que dormira mal. Que perto da meia-noite alguém batera à sua porta pedindo abrigo. Eram retirantes. Um casal jovem. Disse que não abriu a casa. Que não conhecia aquelas pessoas. Que o quarto de casal estava fechado desde que sua esposa morrera. Preferiu dormir no outro quarto e apontou para o curral:
; Se quiserem se abrigar do frio, que durmam lá. Juntem as palhas de milho.

Disse ainda que a moça era muito jovem e carregava um barrigão.

Tomei o café às pressas e fui iniciar a ordenha. Mas algo me inquietava. Pensei na minha filha doente. No quanto a gente se sente órfão quando um filho sofre. Peguei uma garrafa de café, alguns restos de pão que trazia na bolsa e fui até o curral.

Quando entrei, vi uma cena que nunca mais saiu de mim.

O marido ninava a esposa nos braços, tentando protegê-la do frio. Um bebê dormia no cocho da vaca Estrela. E Estrela, que era vaca parida e costumava ficar brava quando alguém se aproximava de seu bezerro, estava mansa. Deitada ao lado do recém-nascido, como quem vigia. Como quem cuida.

Me aproximei devagar. Me apresentei. Servi o pão e o café. Eles agradeceram com olhos cansados e cheios de gratidão. Contaram que iam para a casa de parentes em Belém, mas a gravidez não esperou. Disseram que bateram em mais de vinte portas. Ninguém os acolheu. Um ameaçou soltar os cachorros. Outro chamou de vagabundos. Um terceiro os confundiu com ladrões.

Contei que minha menina estava doente, chorando de dor, e que mesmo assim eu tinha vindo trabalhar porque precisava do que ganho. Quando falei em queijo, os olhos deles brilharam. Lembrei que tinha queijo feito da véspera. Fui buscar. Parti dois talhos e entreguei ao casal.

O senhor Enoque observava tudo de longe, da janela. Não saiu. Dava ordens à distância, como quem teme se aproximar do que não entende.

O bebê acordou.
E então aconteceu algo que nunca vi.

A vaca Estrela se ajoelhou diante dele. Não era espreguiçar. Era ajoelhar. O bezerro fez o mesmo. As outras cinco vacas, que ainda estavam no pasto, vieram sozinhas, sem eu chamar, e formaram um círculo ao redor da mãe, do pai e do bebê. O calor dos corpos aqueceu o curral. O frio cedeu. Maria pôde abrir os panos e mostrar o menino.

Era um bebê tão belo que parecia que as vacas sorriam.

Tirei um pouco do colostro de Estrela e ofereci a Maria. Disse que fazia bem. Que tinha força. Ela pingou na boca do bebê, que lambia os beiços de gosto. Estrela parecia saber que aquele primeiro alimento também era dela. Depois, Maria encostou o menino ao peito para amamentar.

Chamei o marido para tomar café mais afastado, para deixá-la à vontade. O nome dele era José. Falava coisas difíceis de entender. Dizia que o filho não era dele, mas era. Que um Espírito tinha feito. Que ninguém podia saber, porque ninguém entenderia.

Mas eu entendi.

Depois de tanto peregrinar pela vida, aos meus sessenta e um anos, aprendi que nem tudo se explica com um mais um. Como explicar que do mesmo leite um queijo vinga e outro talha? Que da mesma vaca uma dá dez litros e outra não dá nem um? Como explicar o sol que acorda a vida e a lua que embala os sonhos? Como explicar a dor no coração quando um filho sofre, se não é no nosso corpo que dói?

Disse a José que acreditava nele. Que o Espírito seria sempre seu melhor companheiro, porque cuidava do seu filho. Ele sorriu aliviado, como quem finalmente pode respirar.

Maria me deu um pequeno saquinho com um unguento. Mandou passar no ouvido da minha filha. Mas eu não podia sair: tinha seis vacas para ordenhar. José se ofereceu para fazer isso por mim. Disse que era marceneiro, mas aprendera a tirar leite com um amigo. Confiei.

Corri para casa. Sofia chorava. Passei o unguento no ouvido dela. Na mesma hora, o choro cessou. Ela sorriu. Algo se acalmou no mundo. Meu filho Lucas, que insiste que será médico, trouxe uma papa de leite e farinha. Sofia comeu com vontade. Ficamos cheios de amor e esperança.

Então bateram à porta.

Três homens, montados em camelos, estrangeiros e diferentes de tudo que eu conhecia. Perguntaram se eu sabia de um bebê nascido pela região. Convidei-os a descer, tomar café, leite, comer queijo. Antes de irmos, deixaram presentes para meus filhos. Nunca tínhamos recebido presentes.

Uma boneca para Sofia.
Uma lamparina para Lucas.
Uma caixinha de música para Mateus.

Um deles estava ferido de tanto viajar. Passei o unguento. Ele voltou cantando, dizendo que as feridas tinham sarado.

Antes de retornar ao curral, decidi que não iria sozinho.

Disse aos meus filhos que aquele não era um dia comum. Que precisavam conhecer aquele casal, aquele bebê, aquele mistério vivo. Cada menino subiu em um camelo. Sofia veio comigo, sentada entre meus braços e o corpo quente de Baltazar, o dono do camelo ferido; agora curado.

Levei dois presentes.

Para Maria, um colar de fuxico que minha esposa fizera em noites silenciosas, costurando pano sobre pano como quem remenda o próprio cansaço. Um agradecimento simples pelo bebê que ela gerou e pariu em meio à rejeição do mundo.

Para José, levei um machadinho que ganhei de meu pai. Nunca usei. Guardei por anos sem saber por quê. Naquela manhã, soube. Seria útil ao marceneiro. Herança em mãos certas.

No curral, meus filhos ajudaram, brincaram, riram. As vacas deixaram. O bebê dormiu, acordou, sorriu. Sofia encostou a cabeça perto dele, como quem reconhece um igual. O dia passou sem pressa, como se o tempo tivesse aprendido outra medida.

E o senhor Enoque continuou na janela.

Não por falta de pernas, mas por excesso de pesos.
Pesos antigos.
Pesos não chorados.

Enoque não era mau. Era enlutado. E há lutos que, quando não são atravessados, apodrecem por dentro e viram amargura. O quarto fechado da esposa morta não guardava apenas a memória dela; guardava a vida que ele interrompeu junto. Desde então, passou a viver em trincheira, sempre em defesa, sempre desconfiado, sempre pronto para perder antes de tentar.

Acumulava terra, gado e silêncio.
Acumulava razão, medo e ressentimento.
Mas não acumulava vínculos.

Um coração fechado vai ficando pequeno.
Tudo vira ameaça.
Gente vira risco.
Pedido vira invasão.
Partilha vira prejuízo.

Enoque vivia de mal com o mundo porque, no fundo, estava em guerra com a vida. Uma guerra silenciosa contra qualquer possibilidade de recomeço. Ele via o outro sempre como alguém que poderia tirar algo; nunca como alguém que pudesse trazer sentido.

Enquanto o curral florescia em calor, cuidado e milagre, a casa permanecia fria, organizada, correta… e estéril. Onde não se partilha, nada floresce. Onde tudo se guarda, a alma endurece.

Ele viu tudo.
Mas não se permitiu.

E é assim com muitos de nós.

Vemos a dor do outro, mas seguimos da janela.
Vemos o sagrado acontecer na simplicidade, mas preferimos o isolamento.
Temos pão, teto e histórias; mas não abrimos.

Naquela madrugada, o mundo teve duas moradas:
uma casa fechada, segura e silenciosa;
e um curral improvisado, sujo de palha, mas cheio de vida, calor e esperança.

O Natal não entrou na casa de Enoque.
Passou pela janela.
E seguiu adiante.

Porque o Natal não força portas.
Ele nasce onde o coração se abre,
onde a dor não vira desculpa para a indiferença,
e onde alguém, mesmo cansado, mesmo pobre, mesmo ferido, ainda consegue repartir o pouco que tem;
permitindo que a vida floresça outra vez.

O Disjuntor da Vida: Uma Lição Sobre Luz e Perspectiva

 

O Calor que Fica Após a Chamada

Estou aqui, redeando, como dizemos no Nordeste. O balanço suave da rede embala o corpo, mas o que realmente me aquece é o sentimento que ficou no peito após desligar o telefone. Falei há pouco com minha mãe e, mesmo a centenas de quilômetros de distância, o eco da sua voz me traz um contentamento que preenche a tarde seca de Brasília, aquecendo mais do que o sol do planalto que se despede no horizonte. É nestes momentos simples, no sabor de uma conversa afetuosa, que encontramos a matéria-prima para as reflexões mais profundas sobre o viver. A nossa chamada de hoje, que começou com a narrativa de uma pequena crise doméstica, acabou me presenteando com uma metáfora luminosa sobre a vida.

O Blackout Anunciado: A Tempestade em Campina Grande

A ligação começou com a voz de minha mãe, aos 86 anos, prestes a completar 87 em agosto, soando resoluta, como sempre, mas com uma camada subjacente de preocupação que só um filho consegue decifrar. Ela, em Campina Grande; eu, em Brasília. Ela já foi logo avisando que estava usando os dados móveis, um sinal moderno e universal de que as coisas não iam bem. A preocupação materna, descobrimos com o tempo, é uma força da natureza que ignora completamente as leis da física e da distância.

Ela me pintou o cenário com detalhes. Dezesseis lâmpadas apagadas. Cômodos inteiros mergulhados na penumbra. O modem da internet, morto. Na casa, apenas a geladeira roncava baixinho, como a única sobrevivente de um desastre elétrico. "O que houve, mamãe?", perguntei. A história já estava pronta, lógica e assustadora. Um carro havia batido em um poste na rua na noite anterior. A companhia de energia fez o reparo, a luz voltou, mas apenas para a geladeira. A amiga já tinha dado o veredito: "Queimou tudo". Para minha mãe, a conclusão era óbvia e o caminho, penoso. Sua convicção era tão forte que ela já lamentava não ter nem lâmpadas reservas, pois, em sua mente, todas as dezesseis haviam queimado. Seu plano já estava traçado: mais tarde, iria à companhia elétrica se preparar para o processo burocrático, o desgaste, a luta.

Naquele momento, percebi como nossa mente, diante de um problema, tem uma tendência impressionante de construir o pior cenário possível. Ela nos arma para uma batalha complexa, nos veste com uma armadura pesada e, no processo, nos cega para as soluções que estão bem ao nosso lado.

A Simples Pergunta: E se for o Disjuntor?

Enquanto eu ouvia sua narrativa de guerra anunciada, uma lembrança clareou minha mente. Por estar fora do epicentro do estresse, minha perspectiva não estava contaminada pelo "aperreio" do momento. Lembrei-me de um detalhe da casa que meu pai construiu com tanto cuidado: ele havia instalado disjuntores específicos para cada área.

"Ô, mamãe", eu disse, com a calma que a distância me permitia. "Você já olhou o quadro de disjuntores? Aquele que fica atrás da porta?".

Do outro lado, um breve silêncio, seguido por um "Ah, eu sei onde é".

Cinco minutos se passaram entre o fim daquela chamada e o início da próxima. Um pequeno intervalo de tempo que, para mim, foi preenchido por uma imensa expectativa. Naquele silêncio, residia uma verdade universal: muitas vezes, a solução mais eficaz não é a mais complexa, mas sim aquela que nossa própria ansiedade nos impede de enxergar.

"A Minha Vida Iluminou": A Alegria da Luz Restabelecida

Quando o telefone tocou novamente, a voz era outra. A preocupação havia se dissolvido, dando lugar a uma alegria genuína, quase infantil, daquelas que só uma solução inesperadamente simples pode provocar. A mudança em seu tom era, por si só, uma lição.

E então, ela disse a frase que se tornou o coração desta crônica, a frase que eu guardei comigo na rede:

"Meu filho, deu certo. Era o disjuntor. Tem luz em todo canto. A minha vida iluminou."

Naquele momento, soube que ela não falava apenas das 16 lâmpadas. O "tem luz em todo canto" era a ponte perfeita entre o físico e o emocional. A luz que voltou não era só a da energia elétrica. Era a luz que dissipava a nuvem escura da preocupação. Era o "desanuviar" de um futuro imediato que parecia cheio de formulários, esperas e frustrações. A vida dela iluminou porque um problema que parecia um monstro se revelou ser apenas um interruptor desligado. E isso me fez pensar: quantas vezes, em nossas próprias vidas, o que nos falta é apenas encontrar o disjuntor certo?

A Metáfora do Disjuntor: Encontrando Nossas Próprias Soluções

Todos nós enfrentamos "blackouts". Momentos de desânimo, de estagnação profissional, de confusão nos relacionamentos, em que tudo parece perdido e a escuridão toma conta. E, assim como minha mãe, somos rápidos em encontrar a causa externa, o culpado irrefutável: "foi a batida que derrubou o poste".

Criamos justificativas lógicas que, embora pareçam fazer sentido, nos colocam em um papel de vítima e nos paralisam. Acreditamos que a solução está fora do nosso alcance, nas mãos de uma "companhia elétrica" qualquer. Quando estamos imersos no problema, nossa lógica fica enviesada. Ficamos, como se diz popularmente, "doidinhos", incapazes de ver o óbvio.

É por isso que precisamos de uma perspectiva externa. Precisamos de alguém que, olhando de fora, não contaminado pela nossa ansiedade, possa fazer a pergunta simples que não conseguimos formular. A psicologia positiva nos ensina sobre a importância crucial de uma rede de apoio. Um amigo, um familiar, um terapeuta... eles podem ser a pessoa que nos lembra de olhar atrás da porta, que nos aponta a localização do nosso próprio "disjuntor". Alguém que diz: "Que tal fazer assim?".

Conclusão: Cultivando a Luz e as Conexões

A lição que ficou daquela tarde, balançando na rede, é que a solução para muitos dos nossos apagões existenciais não reside em processos longos e complexos. Frequentemente, ela está em uma pequena mudança de hábito, em uma alteração de comportamento, em uma nova perspectiva. Está em um simples "religar" de uma área da nossa vida que, por algum curto-circuito interno, desligamos.

Como um estudioso da longevidade ativa e feliz, vejo nessa história um pilar fundamental do bem-estar: a necessidade de cultivar relacionamentos e de ter a humildade de compartilhar nossas vulnerabilidades. A verdadeira iluminação na jornada da vida vem tanto da nossa força interior quanto da luz que os outros, com seu amor e sua perspectiva, podem nos ajudar a reencontrar.

Por isso, deixo um convite a você que me lê: qual "disjuntor" em sua vida pode estar desligado neste momento? E, mais importante, a quem você poderia recorrer para ajudá-lo a encontrar o interruptor e fazer sua vida iluminar novamente?

Ricardo de Faria Barros

Um Tesouro de Cinquenta e Cinco Reais de Sr. Evandy



O passado não pede licença. Hoje, ele me encontrou no meio de uma tarefa mundana: arrumar o apartamento. Foi ali, entre livros e gavetas, que um simples pedaço de papel se recusou a ser apenas um objeto e exigiu ser uma memória.
Dentro de um livro antigo, repousava a folha. Ao tocá-la, senti a textura levemente gasta, a cor amarelada pelos anos. A surpresa inicial, a de encontrar algo fora de lugar, rapidamente se converteu em uma onda avassaladora de nostalgia. Ali, não havia apenas tinta, mas a caligrafia de uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Em cima, a letra organizada, cuidadosa e firme do meu pai, o seu Evandy!
Embaixo, alguns garranchos meus, a assinatura de um começo ainda incerto. Aquele contraste visual era a metáfora perfeita da nossa relação naquele momento específico, no longínquo ano de 2017: ele, a base sólida e a estrutura; eu, o aprendiz rabiscando os primeiros passos de uma nova jornada. Aquele papel não era um documento qualquer; era a primeira linha do livro-caixa da minha nova vida, escrita com a tinta do afeto.
2017: A Contabilidade do Afeto
O ano de 2017 foi um tempo de reencontros e recomeços. Meus pais haviam vindo de Campina Grande, na Paraíba, para passar uma temporada conosco em Brasília, onde o clã — filhos, netos e bisnetos — havia se estabelecido. A casa cheia tinha o som da família, do afeto que atravessa distâncias para se fazer presente. Para mim, era um período de profunda transição. Recém-aposentado, eu havia mergulhado de cabeça em um sonho: a "ânimo desenvolvimento humano", minha pequena empresa de treinamentos e palestras focada em saúde emocional.
Lembro-me perfeitamente da cena. Eu e meu pai sentados, lado a lado, para fazer o primeiro balanço financeiro da empresa. Ele não estava ali como um espectador curioso, mas como um sócio de alma, um participante genuinamente entusiasmado. Com uma dedicação que me comovia, ele anotava cada despesa que eu ditava, cada pequena receita que entrava — a sessão da Marina, o pagamento do Júnior, a consulta da Denisa, cada R$ 180 que representava um passo — como se o sucesso deles fosse o nosso.
O mais marcante era a sua completa ausência de julgamento. Em nenhum momento ele olhou para os números e disse: “Olha, isso não vai dar certo”. Ele nunca mencionou que o aluguel de R$ 2.000 consumia quase toda a receita ou que o risco era grande demais. Pelo contrário. A cada anotação, ele vibrava. Era um pai lindo, envolvente, que tomou para si aquele momento, curtindo cada detalhe como uma conquista pessoal. Ele transformou uma planilha de custos em um ato de amor.
A Riqueza Contida em um Pequeno Lucro
Depois de somar e subtrair, o resultado final apareceu, cristalino em sua simplicidade. A contabilidade daquele primeiro mês era um retrato fiel de um começo modesto, mas valente.
Categoria
Valor
Despesas Totais
R$ 2.645
Receitas Totais
R$ 2.700
Lucro Final
R$ 55
Cinquenta e cinco reais. Para o mundo corporativo, um número irrisório. Mas para meu pai, eu sei, aquele valor "era 1 milhão". Eu nunca vou me esquecer do semblante dele ao ver o resultado. Ele não via apenas o dinheiro; ele via o renascimento da carreira do filho. Ele enxergava um homem que, após 30 anos de trabalho formal, se recusava a aceitar o vazio da aposentadoria, o ócio sem propósito que ele tanto temia para mim. Para ele, aquele pequeno lucro era a prova material de que meu esforço estava florescendo.
Naquele rosto, havia um orgulho sereno, uma fé inabalável no meu potencial. Aquele olhar dizia tudo: o que importava não era a quantia, mas o movimento, a coragem de começar, a ocupação da mente e do coração. Foi naquele dia que entendi que o verdadeiro valor das nossas conquistas raramente está nos números, mas no esforço que investimos, na coragem que demonstramos e, acima de tudo, no apoio incondicional daqueles que amamos.

A Lição dos Pequenos Passos
A história daquele balanço de cinquenta e cinco reais é o antídoto perfeito para a ilusão do sucesso instantâneo. A internet está cheia de promessas, vendendo a ideia de que existe almoço grátis e que podemos chegar à janelinha do sucesso sem esforço. Esta memória nos lembra que toda grande jornada é construída passo a passo, com dedicação diária e paciência.
É como se preparar para uma corrida de 5 km. Ninguém começa correndo a distância inteira. O processo é gradual: "Corre 200 metros, caminha 100. Corre 400, caminha 100". É preciso celebrar cada pequena vitória, cada metro conquistado, pois são eles que nos fortalecem para o percurso completo.
Que essa memória sirva como um chamado. Seja você a figura de apoio na vida de alguém. Quando um amigo, um filho ou seu parceiro chegar com um projeto, por menor que pareça, ajude a esquematizar, a ver as possibilidades. Seja a pessoa que incentiva, que apoia, que estimula. O crescimento é orgânico. Meus poucos clientes daquela época foram falando para outros, o boca a boca começou a acontecer. Se eu tivesse desanimado com aquele resultado e fechado as portas, aí sim, nada teria acontecido. Desistir é a única forma de garantir que o futuro não chegue.
Gratidão: A Herança que Fica
Agora, seguro este pedaço de papel em minhas mãos. Ele não é mais uma simples folha, mas um tesouro. É a prova física do amor e da fé de um pai, um amuleto que me lembra de onde vim e da força que me impulsionou. É o legado de um homem que sabia que o maior incentivo que podemos oferecer a alguém é simplesmente acreditar.
Obrigado, papai, pela força.

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