Gestão das Emoções


Tomei café apressado, precisava chegar antes da palestra Gestão das Emoções e Relacionamento Interpessoal, que conduziria pela manhã no Ministério do Meio Ambiente. 

E, nessas ocasiões, só relaxo quando chego ao local e checo que tudo está ok.

No evento, iria compartilhar um dos achados mais impactantes da psicologia positiva, em suas pesquisas de campo: “Nosso estado de ânimo (emoções e pensamentos) produz realidades, para que nela habitemos. E, de tão acostumados a elas, pela repetição, elas viram hábitos, não mais questionados.”.

Várias pesquisas têm demostrado isso. O poder do que sempre fazemos, das nossas experiências anteriores, na modelagem da realidade. 

Por exemplo, um experimento em psicologia social testou se o tempo de resistência de ratinhos de laboratório, levados à exaustão ao nadarem num balde meio cheio água,  tinha alguma diferença, caso a área de nado fosse bem maior.

Então,  repetiram a experiência trocando o balde por uma piscina infantil, igualmente meio cheia. E descobriram algo impressionante, o tempo limite à exaustão dobra. Na piscina, os ratinhos continuam nadando por uma hora. O que leva eles a tentarem algo mais?

No primeiro caso, o hábito de nadar e chegar até a borda do balde, para escalá-la era rapidamente, era logo frustrado e posto em dúvida, pela proximidade das margens. 
Então, eles desistiram mais rápido de continuarem tentando, dado que os limites pareciam intransponíveis.

No segundo caso, até eles alcançarem a próxima margem, já tinham esquecido da frustração anterior, e passavam mais tempo tentando. 

Esse mesmo experimento foi feito com humanos, simulando situações de ausência de oxigênio, x tamanho da sala.  Obtendo o mesmo resultado. Quanto mais apertada a sala, mais pessoas entravam em pânico achando que o ar não daria para todos, e acionavam o botão para saírem do experimento. Os testes com o ar restante, revelava que eles ainda tinham oxigênio por um bom tempo, mas a opressão do lugar fizera com que eles desistissem, mais rápido.

Fiz essa viagem para você entender o que aconteceu comigo, ao me preparar para ir palestrar.

Olhei para fora de casa e vi aquele carro preto, estacionado com a "bunda" tapando minha garagem.

Esse fato já ocorreu por duas vezes, nesse mês, pois eu tenho uma boa sombra na calçada que a metade dela cobre o acesso à minha garagem. Aí, esse mês dois visitantes do vizinho de frente de minha casa, pegaram a boa sombra, deixando os fundos do carro bem rente à minha saída.

Olhe para aquele carro, o da foto desse texto. Foi isso que vi.

Voltei para cozinha puto de raiva, movido pela força do hábito negativo. E, comentei em voz alta: "vou comprar dois cones do Detran para sinalizar minha garagem, um absurdo".

Papai para me acalmar pediu a chave do carro e minha bolsa, para ir adiantando as coisas para mim.

Aí, enguli o café e percebi que papai estava lá fora, no abençoado do carro.

Pensei, será que papai foi tirar satisfações?

E, fui me aproximando, até que vi a mala aberta, e ele colocando minhas sacolas.

Uauu, eu o meu carro.  Eu fiquei tão constrangido que tirei essa foto na hora.

Era meu carro, que troco louco. Acontece que eu cheguei no dia anterior muito cansado, e não queria tirar meu carro logo cedo, para que a Cris fosse deixar com o carro dela o JG no colégio.

Então deixei na calçada mesmo.

Entendem o que aconteceu com meu cérebro?  Volto para um dos conceitos da palestra:

“Nosso estado de ânimo (emoções e pensamentos) produz realidades, para que nela habitemos. E, de tão acostumados a elas, pela repetição, elas viram hábitos, não mais questionados.”

A realidade que criei, pelas experiências passadas, foi que era o carro do amigo do vizinho que mais uma vez tapava minha garagem. E, ao criar essa realidade, eu apaguei a de meu próprio carro na mente.

A realidade que os ratinhos do balde criam é que não há saída, então pra que nadar mais?

A realidade que os homens que estão presos num elevador, num experimento que simula a falta de oxigênio é que não haverá ar para todos. E desistem de ali continuarem, mesmo existindo muito oxigênio ainda.   Nota, nos testes com humanos foi descartado o pânico por claustrofobia.

Por isso é tão importante uma atitude diária e contínua de gestão sobre nossas emoções, sempre começando pela capacidade de "pensar sobre o pensado".

Ao pensarmos sobre o que estamos pensando, conseguimos ativar o cérebro lógico-racional.
Ao querer pensar sobre o que estamos pensando, de forma intencional, ativamos o cérebro límbico, o perceptivo-emocional.

Ambos, o Límbico e o NeoCortex, consegue nos tirar do cérebro reptiliano, ancestral, o de sobrevivência cujos comandos ecoam em nossos DNA, desde as cavernas, dizendo-nos assim: "Se algo der errado, ataque, defenda-se, ou fuja, não pense muito, portanto seja rápido."

Ao pensar sobre o pensado, deixamos de ser autômatos de nosso existir. Desligamos o piloto automático e assumimos a gestão de nossos pensamentos, comportamentos e atitudes.

E, nos abrimos para criticar nossas próprias verdades limitantes.

Tal qual aquela fronteira do balde dos ratinhos, essas quase crenças limitantes nos dão um lugar seguro para habitar, para não sair dele, ou mudar.

São do tipo:  "Sou assim mesmo. Não dou certo com....  Tudo de ruim acontece comigo.  Eu nunca conseguirei fazer aquilo..."

E por aí vai.  Essas crenças criam a realidade que se apresentará a nós, do jeitinho que pedimos que ela viesse.

Se acreditamos que não há saída, desistiremos logo após a largada.

Então uma das coisas mais importantes para o crescer como ser humano, é o questionamento de nossas pseudo-verdades limitantes, que nos colocam dentro do balde de água, tal qual ratinhos.

Ou que fazem-nos teclar o atacar, defender ou fugir, sem qualquer mais juízo de razão, ou seja, sem avaliar se a situação mudou, se os atores mudaram, se a própria pessoa mudou.

Ao não fazê-lo, atuamos no piloto automático, no hábito, e perdemos chances maravilhosas de nos repreender, ao dizer: "Dessa vez, eu estou errado". A isso chamo de gestão das emoções, e é decisão puramente racional.

E como é bom essa autoconsciência para o autodesenvolvimento do ser humano.

Troque de Lentes


Muitas das vezes o problema não está no borrão de uma árvore que vemos , como o da foto.

A árvore não está sem foco, ou distorcida. Trata-se apenas da falta de ajuste das lentes perceptivas, com as quais a olhamos.

Assim é como vamos processando a realidade. A sabedoria consiste em expandir o foco, captando mais elementos positivos, do que negativos,  no enquadramento de nosso viver. Não negando a luta, as dificuldades, os tempos difíceis. Contudo, aprendendo a educar as emoções, e de forma lógica, indo buscar outros elementos - mais bacanas, e na mesma realidade. Isso é arte. A arte do bem viver.  Nosso cérebro é muito melhor do que o Google. 

Se você pesquisar no Google a expressão: "Locais bons de pescaria", logo verá um monte de anúncios no seu email, Facebook, e em vários sites que entrar. Em todos haverá ofertas de varas de pescar, promoções de pousadas e até de barcos.

Nosso cérebro mais instintivo age assim, como o Google, ele identifica o que estamos pensando e vai buscar na realidade elementos que confirmem essa percepção seletiva, fechando o foco sobre eles. É como quem passa o dia procurando razões para ser infeliz. Vai encontrar, e muitas. Então qual o segredo?

É pensar sobre o pensado, fazendo a,anatomia de nossos pensamentos, colocando-os numa perspectiva maior, menos limitada por condicionantes culturais, pessoais ou até da influência dos outros. Expandir a consciência colocando na "função pesquisa" de nosso cérebro também coisas boas, belas e de valor que pensamos sobre nós mesmos, os outros e a realidade. E algo de fantástico começará a ocorrer.

Coisas legais vão aparecer do nada. Seus e meus problemas não diminuirão, longe disso, só ficaremos mais renovados:  ou para conviver com eles, ou para transformá-los, ou para transformar a nós mesmos, diante deles. Afinal, aprendi a duras penas que vida pede mais respostas, e menos justificativas.

Cartas ao JG - Após pisar na bola, aprenda a restaurar relacionamentos. (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, de quase 8 anos)


Sabe filho amado, o mais importante quando você pisar na bola será saber se reposicionar após o erro. Aprender com ele, e ter a coragem de restaurar pontes, pedir desculpas, aplainar arestas e recomeçar.
A cena que vou lhe contar, de tua infância, a um mês de fazer 8 anos, tem a ver com o primeiro parágrafo desse texto.
Você não lembrará dessa cena que vou contar-lhe, mas foi tão linda que vou me lembrar dela para sempre, para que jamais venha a esquecê-la.
A noite era de festa em nosso lar. Um grupo de amigos da igreja de tua mãe, a Metodista do Jardim Botânico, estava fazendo em nossa casa o que chamam de Discipulado – O Evangelho no Lar.
Gosto deles, mas teu pai é Católico e tem um profundo amor por Maria, aquela que o evangelho nos diz que a devemos chamar-lhe de a “Bem-Aventurada”.
Mas, siga teu caminho na fé. Siga tua verdade, e o que mais aqueça teu coração.
Nunca tive esse tipo de dogmatismo de alguns cristãos, que mais parecem torcedores fanáticos de seus times de futebol, ao defenderem suas agremiações com unhas e dentes.
Aliás, o melhor amor a Deus tu expressarás no teu próximo, e não em bancos de igreja. Embora, neles tu fortaleça o sentido de uma fé comunitária.
Mas, nossa conversa não é sobre fé.
Recebi os irmãos com meu churrasquinho de gato. Dois dias antes deixei eles marinando em sal, cebola, alho, vinagre de maçã e tomate. O cheiro dos espetos estava tão bom que dava até vontade de comer puro, sem fogo mesmo.
Papai sabe receber. Receber amigos em nosso lar é bênção. Então, filho amado, nunca seja mesquinho ou pequeno ao receber. Receba com um oceano de amor.
Após as rezas, foi a hora de servir os espetinhos que já estavam crocantes. Entre um canto e outro fui fazendo o fogo, e colocando-os para irem assando. De modo que estivessem quase ao ponto quando terminasse o estudo bíblico.
E a festa estava muito boa, todos felizes e comendo. Até que algumas crianças desceram do 1. Andar, onde estavam contigo jogando vídeo-game, e disseram em voz alta que você tinha jogado algo na tela da televisão e o vidro dela rachou.
Fez-se silêncio.
Todos esperavam nossa reação. Você apareceu chorando. Sua mãe deu-lhe uma severa reprimenda, e eu dei uns cocorotes, mandando você ficar de castigo no quarto.
Lá se foi uma TV novinha e de muitas polegadas.
Após uma hora, meu coração apertou e me lembrei do texto que fora lido, o do joio e o trigo. Que devem crescer juntos, pois na colheia o trigo superará o joio em altura, e ficará mais fácil de colher. Não repcisando arrancar o joio. Joio não cresce, trigo cresce.
O trigo é a graça, o perdão, a misericórdia e o amor. E o trigo se manifesta em mil tons.
Então, qual testemunho estava dando?
Sem falar com tua mãe, subi ao teu quarto para resgatá-lo do castigo.
A porta estava fechada de chave.
Chamei-lhe e você disse que estava terminando uma carta para nós.
Meu coração ficou mais aflito ainda. Que carta? Pensei...
Uns eternos cinco minutos se passaram e você abriu a porta.
Caindo no choro, dizia soluçado que estava feliz por ter ganho o jogo e jogou um boneco na tela da TV, esquecendo-se que o boneco era duro. Que não era de pano. E que naquela alegria destruiu a TV.
E entregou-me a carta.
Aí, quem chorou fui eu, ao perceber a grandeza do que acabara de escrever.
Você pegou duas folhas de papel ofício, e nelas treinou para a prova da quarta-feira, de matemática, treinou subtração, e treinou a numeração até 100.
No final dos exercícios que fizera, durante o castigo, escreveu:
“Foi feito para vocês a quem amo muito!!!! ”
E assinou: “João Gabriel”
Botei você nos braços e descemos para a festa, libertando-o do castigo e restaurando a paz em nosso lar, pela força do amor.
Todos ficaram muito felizes ao lhe ver novamente.
Agora, nos divertimos vendo TV na tela rachada. Damos boas risadas, pois se o gol for no lado esquerdo, nem sempre veremos a bola entrando.
Não tem problema, temos ainda uns 80% de tela para ver, e já está excelente.
O som está bom e com 80% de visão já dá para se ver muito!
Filho amado, eu não sabia que estava escrevendo aquela carta quando subi para te buscar. Te buscaria de todo jeito.
Mas, confesso-lhe, foi a carta mais bonita que recebi em vida.
Você tomou seu destino nas mãos e alterou a escrita no infinito.
Você trouxe para o presente a atitude de reconsiderar posições, de perdoar, de recomeçar.
Você poderia ter ficado chorando ou ter ido dormir, com a cabeça e orelha ainda quente, pelo meus cocorotes e puxão de orelha.
Mas não!
Você foi grande!
Você tomou uma atitude. Saiu da posição de vítima das circunstâncias, saiu da posição de “só comigo, eu faço tudo errado” e foi fazer os exercícios de matemática, pois sabia que era uma excelente forma de nos alegrar. E ainda fechou com o “abre alas emocional”: “eu amo muito”.
Quem resiste a um “eu te amo!”. Quem?
Só quem ama e me lê entende, o quanto não há pisada de bola que resista quando aquele a quem amamos, e não me perguntem o porquê de amá-lo, posto que é mistério, chega até nós e nos diz: “Pai me perdoe, eu não queria quebrar a TV, eu joguei o boneco a TV de feliz por ter ganho o jogo, mas só depois percebi que o boneco não era de pelúcia”. E fecha com uma cartinha de amor.
Quem resiste ao amor? Quando também se ama...
Filho meu, nunca esqueça do que fez para restaurar as pontes do diálogo, do amor e da paz.
Imagino-lhe no quarto, chorando, fazendo as contas, copiando a numeração, escrevendo igualzinho, em duas páginas, a declaração e amor. Uma para mim e outra para tua mãe. Na da tua mãe, as contas de subtração. Na minha , os numerais até 100.
Quanta coragem, quanta ousadia de não renunciar ao luto da dor do que acabara de fazer, de não se prostrar a tremenda culpa que sentia.
Obrigado filho meu, a carta é para ti, a lição é para mim e para todos que me leem.
No lugar de ficar chorando o leite derramado, você foi lá e fez algo com o que sobrou!

Na vida, aprenda a fazer risoto. (Por Ricardo de Faria Barros)


Você já fez ou viu alguém fazer um risoto? Tenho a felicidade de ter um filho “risoteiro”, o Rodrigo Barros, esse prato em suas mãos transforma-se num manjar, daqueles de rapar o tacho.
De tanto vê-lo fazer, fui aprendendo que o segredo do risoto é o caldo.
Você deve estar me perguntando, como assim?
É pessoal, o caldo no risoto é a alma do negócio.
Imagine que você pretenda fazer um risoto de camarão. Primeiro deve cozinhar os camarões, reservando o caldo, após seu preparo.
Então, com o caldo aquecido, você vai regulando o cozimento e o ponto do arroz, sem perder o sabor do camarão.
Se precisar de mais cozimento, para o arroz ficar ao dente, coloque caldo. Se a massa grudou num bolo grudento, com sintomas de brutalidade, de dureza, acresça o caldo para a ela voltar a ficar pastosa.
É uma arte, a colocação do caldo. Se colocar demais, fica tudo empapado e perder a elegância do prato. Se colocar de menos, ou não cozinha, ou esturrica tudo.
Se teve a coragem de me acompanhar até aqui, nesse texto, deve estar se perguntando e onde entram as emoções positivas nesse tal de risoto?
Nossos pensamentos operam como quem faz um risoto.
Os pensamentos negativos farejam problemas, atiçam nosso fogo da sobrevivência, dão ordens do tipo: ataque, se defenda ou fuja.
Eles nos ensinam sobre medos, riscos, desconfiança, perigos, ameaças e coisas do tipo.
Sua estrutura cerebral, o cérebro reptiliano, é ancestral, um sistema neurofuncional alicerçado nas profundezas de nosso cérebro, em áreas mais profundas do que as da emoções e razão: respectivamente o cérebro límbico e o Neocórtex .
Dito isso, voltemos para o risoto. O fogo que aquece a chapa é o cérebro reptiliano, o chef dos instintos de sobrevivência, ele é o pensamento instintivo com suas ordens: ataque, fuja, defenda-se!
Mas, uma vida regida só por ele seria muito infeliz. Ele é o fogo que nos alerta e nos faz sentir temores, alguns bem importantes, mas só ele não torna uma vida plena, um risoto bom.
Precisa-se do recheio. E quem nos dá o recheio de nosso risoto existencial é o Neocórtex. Com suas estruturas de lógica e razão. É Ele quem meio que coloca o arroz e o recheio de que será feito o risoto.
Por fim, entra o poderoso cérebro límbico, o caldo. É ele quem dá sabor à liga pastosa do risoto, entenda a metáfora. É ele quem fornece as emoções.
E, quanto melhor o caldo, mais positivas são essas emoções. Tem caldos ácidos, envelhecidos, que passaram do ponto, que estragam a comida, são as emoções negativas. Um bom risoto se faz com um caldo de emoções positivas.
Vou contar uma cena de meu dia para você perceber o risoto se formando. E as escolhas que tive que fazer para não deixar a massa ficar dura demais, ou mole demais, ao usar as emoções positivas com arte.
Fui pegar o carro da Cris na concessionária. Fazia um mês que esperávamos que chegasse o modelo escolhido. Hoje era tarde de festa. Com direito à foto dentro do carro e a emoção de sentir aquele cheirinho de carro novo, no mundo do consumo, um perfume inigualável.
Aí, na hora que ela entregou o carro dela, o antigo, como parte do pagamento, faltava um documento, e a transação não pode ser concluída, ficando para semana que vem.
Vamos lá agora ver o risoto do pensamento em ação.
No primeiro momento entra o fogo. Ele é instintivo. Esbravejei, disse que era um absurdo, que houvera uma falha gritante de comunicação. Ameacei até denuncia ao Procon.
Como aprendi a duras penas que não se faz risoto só com chama, deixei o cérebro Neocórtex agir. E a lógica e razão começaram a me fazer perguntas do tipo Socráticas: Eu poderia mudar a situação? Não. Tinha tempo hábil de conseguir a documentação faltante? Não.
A concessionária poderia receber o carro da Cris com documentação em falta e liberar o novo? Não. Ela poderia por ela mesma pegar a documentação? Não. No caso de transferência de estado o próprio cliente tem que ir no Detran. Minha braveza ajudaria em algo? Não.
A mocinha que atendeu estava arrependida de não ter dado a informação correta? Muito.
Ela poderia ser prejudicada no emprego. Sim. Eu posso ter me confundido nas orientações iniciais que ela me deu sobre transferência de veículo? Sim.
Ao fazer todas essas perguntas o risoto agora tem recheio.
Mas, ainda não é suficiente. Precisa do caldo da emoção positiva.
Aí ele entra.
Acalmando o coração. Tendo misericórdia com a vendedora. Dizendo para nós mesmos, o que serão mais alguns dias para quem já esperou trinta?
Por que tirar a paz de um final de semana com algo sobre o qual não temos o controle de mudar?
Por que estragar a noite, na qual receberemos amigos em casa? Por essa frustração e aborrecimento que passamos?
Eu até posso ver o caldo amolecendo a massa, o coração, diminuindo a intensidade do efeito do fogo sobre os grãos.
Esse caldo, o das emoções positivas é mágico, misterioso, transformador!
Mas, usá-lo é escolha. Nem demais, para não perdemos o senso de realidade, de luta, de saber se defender, atacar ou fugir, quando necessário, nem de menos, para irmos ficando totalmente movidos por pensamentos negativos que quando descem pelo rio de nossa vida, transformam o mais belo dos jardins em terra arrasada.
Viver bem é a arte de colocar o caldo no riso de nosso coração, e um caldo bacana, de emoções positivas do tipo: misericórdia, perdão, paz, bondade, mansidão, doação, empatia e amor. Esse caldo tem sabor e sustança!
Têm outros no mercado, mas só vão aumentar o aperreio e tirarão de uma vez sabor do prato de seu viver: são a vingança; a inveja; o ódio; os ressentimentos; as mágoas, a ingratidão e a indiferença ao amor. Todos também habitam o cérebro límbico, são emoções, só que elas destroem o valor das coisas, das relações e das novas possibilidades.
Então, caro amigo, quando a chapa de seu risoto estiver perdendo o controle emocional, de tanto calor que está botando nos acontecimentos, quem sabe não é hora de botar um pouco de caldo, dos bons e de sabor, para relativizar as coisas que lhe aconteceram, para olhá-las de outra perspectiva, para aprender a ter menos razões e justificativas para se sentir vítima e infeliz.
Assim como o segredo de um bom risoto é o caldo. O da vida boa, e pela qual se vale a pena viver, também. Mas, é outro tipo de caldo, é o o caldo bom e de sustança das emoções positivas.

No mundo do trabalho, aprenda a negociar bolos de café. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Considero o intervalo do coffee-break, em eventos de treinamento, um espaço muito rico para compartilhar experiências, comentar sobre o aprendizado, fazer benchmark, ou até de energização para novas atividades que virão.
Recentemente, participei de um bastante incomum. É que ao chegar perto da mesa de guloseimas, ali estava perfilado um Chef.
O Chef que descobri chamar-se José, ao perceber que os participantes  rejeitavam  um bolo, com cara de ser uma bomba de calorias de chocolate, intervia sorrindo: "Moça, não é de chocolate, é de café. Uma delícia."
De tanto ouvi-lo fazendo aquela declaração, e vendo que os participantes não se atreviam a pegar um único pedaço, tive dó do José e rompi com uma de minhas esquisitices sagradas: a de não comer doces.
De soslaio, o José acompanhava meu degustar do bolo, e soltou um: "E aí, está bom?".
Disse-lhe em voz alta que era o melhor bolo de café que já tinha comido.
Encostei no José e descobri que ele migrou com os pais, vindo do Ceará. E que aprendeu a cozinhar com a mãe. Que o bolo é uma especiaria que só eles sabem fazer, e que é o outro chef, um holandês, que faz, e que ele o ajuda.
A especiaria dele é o wrap, uma espécie de massa de pão bem fininha com recheios.
Mas, quanta generosidade no José, ele não fez propagando do wrap. E sim do bolo de café de seu amigo, o Holandês.
Perguntei para ele se fazia parte do contrato ele ficar ali perto, nos ajudando a decidir sobre as guloseimas. Ele me falou que não. Que gosta de explicar como faz as guloseimas, sempre que alguém lhe pergunta.
Hoje em dia está muito comum um termo em inglês chamado UX, que se trata de considerar a "Experiência do Usuário", no desenvolvimento de produtos, bens e serviços.

E é isso que o José está fazendo, e em campo. Está vendo como seus produtos são aceitos, e ao lado do cliente, agregando valor ao seu produto, pela educação que nos proporciona ao dizer como ele é feito, e nos seduzindo com a frase: "está uma delícia".

Precisamos voltar a ser como o José no mundo do trabalho.

A valorizar o produto ou serviço que negociamos, e a facilitar o entendimento de sua importância, seu benefício para o cliente, e aprender a destacar o que ele tem de melhor, nos torna profissionais diferenciados, em qualquer ramos de atividade.
José aprendeu um jeito de fazer a diferença. Agora ele é um curador de guloseimas, que uma a uma, destaca o valor delas.
Tal qual os curadores de obras de arte fazem, nas suas belas exposições.
O mundo do trabalho tem cada vez mais profissionais no piloto automático, que não enxergam mais a riqueza dos frutos de seu trabalho, e que não sabem, ou desaprendem a vendê-lo.

Perdem o sentido do trabalho, perdem-se a si mesmo, deixam de renovar o primeiro amor, e passam a acumular diariamente razões para serem infelizes.
Esquecem que podem fazer diferente, podem inovar, podem colocar seu DNA, deixar seu legado naquele processo, sistema, produto ou serviço que tocam.
Vão vivendo uma vida modorrenta no mundo do trabalho, sem mais anunciar os "bolos de café" que estão na sua prateleira.

José não.  José sabe o valor do seu trabalho, para o outro, e mesmo que o outro não o valorize, ele não se cansa em assim fazê-lo, José encontrou seu jeito de fazer a diferença, mesmo que seja anunciando que o bolo que não era de chocolate, e sim de café, está uma delícia. O que José ensina aos profissionais, de qualquer mercado e negócio?

a. Conheça toda a carteira de produtos e serviços que comercializa. (José conhecia para além do que faz bem, o Wrap. Conhecia com detalhes o produto de uma outra área, digamos assim, que na hora da venda passou a ser a área dele também, numa única empresa (Balcão de coffee-break, entende a metáfora?)  Quantos de nós queimamos os produtos de outras áreas, de nossa mesma Instituição, sem criar entre eles sinergias negociais.

b. Considere a experiência do cliente. Coloque-se como ele, com empatia, para entender as lentes pelas quais eles operam na realidade. Facilitando o entendimento dos sinais de compra, ou não-compra, para alterar com rapidez o posicionamento estratégico. (No caso, ele não esperou que a plaqueta na base do bolo cumprisse a missão de informar que era de café, e ele mesmo passou a informar e valorizar o que estava exposto)

c. Vá além do papel institucional esperado. Entregue mais do que o combinado. Supere. Exceda. José foi além, agregou valor e sentido ao seu trabalho. Muitos outros responsáveis por coffee-breaks corporativos, mundo afora, apenas acompanham sua colocação, consumo e retirada, e não fazem como José. Não ficam ali ao lado, babando suas crias, ajudando a vendê-las, até porque já estão pagas. José não. José queria que tudo fosse consumido, pois sabia que tudo estava "uma delícia". Ele foi muito além do que se esperava dele.

Conheça seus bolos de café, e aprenda a negociá-los. Afinal, podem tornar mais deliciosa a vida de quem os consome.

O autor é professor do IBMEC, proprietário da Ânimo – Desenvolvimento Humano (www.animodh.com.br); Autor dos livros: Sobre a Vida e o Viver, e, Apanhadores de Possibilidades nos Campos do Infinito; Psicólogo (UEPB), Mestre em Gestão Social e Trabalho (UNB), Especialista em Gestão de Pessoas (USP) e membro da Associação Internacional de Psicologia Positiva. E Life-Coach (SLAC). 

Obs: Na foto, o José. 
Divulgação autorizada. 

Pessoas Araucária (Autor Ricardo de Faria Barros)


Desembarquei em Curitiba, e segui de carro por 380KM, Paraná adentro, no sentido de Guarapuava-PR. Na qual situa-se o Centro de Formação da Companhia Paranaense de Energia (Copel), em Faxinal do Céu, local em que ministraria uma palestra.
No volante, o Erthal botou em emissora FM de bacana, daquelas que tocam o fino da música estrangeira de balada ou academia, achando que eu gostaria delas.
Assim que peguei intimidade, pedi-lhe que sintonizasse em rádios com cheiro de povo, para irmos degustando do que nelas passam, inclusive das músicas de sofrência.
Erthal então propôs botar nas emissoras de Rádio AM. Dei uma risada e disse-lhe que essa é uma de minhas esquisitices, adoro escutar emissoras AMs.
Aí morremos de rir com uma ouvinte que ligou para saber que unguento ou remédio deveria passar para curar um “ olho de peixe” que há meses hamita seu pé.
Ficamos curiosos para saber o que seria aquilo, mas não tinha conexão com internet, então fomos tentando adivinhar.

Após certo trecho da estrada, começam a aparecer as imponentes Araucárias, como que a dizer-nos: “Bem-vindo ao Paraná! ”.

As Araucárias são as senhoras da floresta, há pelo menos 200 milhões de anos estão na Terra, e tem nome científico Araucária angustifólia.
Seu formato é único no mundo das plantas, não só de sua espécie das Coníferas.
Seus galhos crescem uns dez metros, quase na horizontal, desafiando a força da gravidade, para só então, dobrarem suas “mãos” para o alto. E, crescendo na vertical, eles vão respeitando-se, uns aos outros, ficando afastados por até um metro de distância, para que haja espaço e luz para todos.
Uma árvore sábia que tem muito a nos ensinar.
Considero a Árvore da Gratidão e da Celebração da Vida. Suas mãos que se elevam como em prece, são como as mãos de quem se sente grato. E seu formato de cálice, nos convida a um brinde à vida.
Seus quase dez metros de evolução horizontal, de seus galhos, permitem que ela experencie muita luz, forneça muita sobra e apoio, e que acolha tudo o presente de seu existir, o mais longe que seus braços podem tocar. Seus galhos horizontais, que misteriosamente desafiam a natureza da força gravitacional, nos ensinam a expandir as fronteiras do pensamento para podermos ver, para além de vidas estreitas e pequenas, para sermos grandes, abertos, acolhedores, ver o que pode estar ali todo dia, e não é mais visto, nem mais valorizado.

Suas tenras folhas que se erguem, da ponta desses galhos, nos ensinam a nos conectar com o mundo espiritual, que só quem compreende que a vida é uma dádiva entenderá. As Araucárias têm as duas atitudes que acompanham a gratidão. Sentem gratidão, ao projetarem seus galhos horizontalmente, e expressão gratidão, ao erguerem-se em forma de cálice, de mãos que se abrem num gesto de agradecimento, convidando-nos a brindar a vida.

Infelizmente, precisamo de mais atitudes pessoas-araucárias na humanidade, pois estamos ficando ingratos demais, e humanos de menos.
E não seriam realmente atitudes de quem expressa a gratidão: aquela de quem brinda a vida, e ao mesmo tempo, ergue as mãos agradecido?
Erthal notou minha admiração pela Araucárias e o tema gratidão passou a concorrer com o locutor da rádio AM no prestar atenção dele ao que eu falava.

Ele ficou tão impressionado, que reduzia a marcha, sempre que percebia que eu abria o vidro do carro para fotografá-las, era o jeito de ele expressar amor. Ao final e cada foto, eu expressava gratidão a ele por ter reduzindo um pouco a marcha.
Um dos trabalhos mais fantásticos que li sobre gratidão é do Robert A. Emmons, no livro chamado: “Agradeça e Seja Feliz”.
Emmons, pode ser considerado um dos maiores pesquisadores sobre o efeito da gratidão em nosso tecido emocional e social.
E nos faz vários alertas.
Estamos desaprendendo a ser gratos, desde a educação familiar até o mundo do trabalho, por um culto à autossuficiência, narcisismo e egoísmo, que nos torna arrogantes ao que de bom, belo e virtuoso acontece em nossas vidas, valorizando isso como dádiva. Achamos que temos direito a tudo, e não mais consideramos as pessoas que abriram portas em nosso viver, que facilitaram nossa vida. Afinal, temos direito!
Emmons é contundente quando nos diz que pior ainda do que não sentir gratidão por nada ou ninguém, é perder a capacidade de expressá-la.

“Talvez ainda pior que a falta de gratidão seja a incapacidade de expressá-la. As expressões de gratidão são reconhecimentos de que você depende dos outros para o seu bem-estar e, portanto, não é autossuficiente. Dado essa realidade, indivíduos narcisistas consideram as expressões de gratidão extremamente desagradáveis e as evitam. Ele diz assim: “Não devo nada a ninguém”."

Um obstáculo ao expressar da gratidão, citado por esse autor, é esperar reciprocidade à gratidão fornecida. E ir reduzindo as emissões dessa emoção, nivelando-se ao meio inóspito de receber gratidão em que convive.
Ele destaca que o inverso da gratidão não é a ingratidão. É a não gratidão.
Vejamos o que quer dizer.
A Expressão da Gratidão pode configurar em três dimensões práticas:
- Reconhecer o benefício;
- Admitir tê-lo recebido;
- Retribuir o favor.

Já a Não-Gratidão se dá em três níveis:
- Não reconhecer o benefício;
- Não admitir tê-lo recebido.
- Não retribuir o favor.

Ela atua como uma espécie de não-percepção do valor do que nos ocorre; como a indiferença, omissão ou esquecimento, ela nos cega ao que nos ocorre de bom, que se não fosse pelo o outro, ou pela própria dinâmica de nossa vida e realidade, não seria possível nos acontecer.

Já a ingratidão é algo do reino da emoção negativa, é uma forma de punição, “quando a pessoa é ingrata reage com hostilidade ou ressentimento, ou tenta deliberadamente depreciar a dádiva do doador.”

Emmons nos fala de três formas que a ingratidão se manifesta, nos seus mais variados estilos:

- Encontrar falha no benefício recebido;
- Pôr em dúvida o motivo do benfeitor;
- Pagar o bem com o mal.

A geração da pós-modernidade está perdendo essa capacidade de sentir e expressar gratidão. Pela autossuficiência, arrogância, e um estilo predominantemente individualista/narcisista de ser que nos diz que nós somos pequenos deuses, e que temos direito e merecemos tudo.

Olho para uma bela Araucária e ela adivinha o que estou pensando.
Em me deliciar com seu pinhão. Erthal captou minha boca salivante e encosta na estrada para comprarmos pinhões cozidos.
No carro, Erthal oferece um jornal para que eu coma ali mesmo, colocando os pinhões no colo, sobre ele. Ele nota meu receio, de melar tudo e solta um:

- “Sr Ricardo, só presta comer quente, não se importe se sujar o carro, depois eu limpo.”
Gratidão a ti, Erthal!
Quis comprar uns cinco quilos, para trazer para cozinhá-los em Brasília.
Erthal me disse que tentaria em Faxinal do Céu conseguir pinhões mais novos, da safra de agora.
No café da manhã, antes da palestra, Erthal chega todo animado. Ele estava exultante. Conseguiu com o vigilante da portaria, meus cinco quilos de pinhão.
Ele me diz que será o melhor que eu comerei. Pois, será "debulhado da pinha" nessa manhã da palestra, ou seja, comerei um pinhão recém-parido.

Ficou emocionado com o gesto dele, e agradeço-lhe efusivamente.
Chego no auditório meia hora antes, para repassar os slides e combinar alguns efeitos especiais com o Claudemir, técnico da mesa de som.

Eis que cai um raio em cima do gerador, e derruba a energia. Claudemir olha para mim e solta um: “E agora? ”.  Minha cabeça explode, pensando em possibilidades sem os slides e o som. 

No breu do auditório, os participantes vão chegando, algo em torno de 150. Acomodam-se nas cadeiras, ansiosos.  Não entro em pânico. Mas queria.
Os organizadores aflitos acionam a emergência para manutenção da rede de alta-tensão, eles estão noutra cidade, e chegarão em 40 minutos.
Sei o que representa um atraso numa programação de um evento, com tudo encadeado milimetricamente.
Dez minutos antes da hora prevista para o início das atividades, com o auditório às escuras ainda, os participantes começam a cantar. Uma paz enorme invade o recinto.

Todos se emocionam. Uso a palavra e digo-lhes que com luz ou sem luz faremos a palestra, afinal, que melhor luz do que a que eles emitiam naquele momento?

Os organizadores me agradecem, emocionados, e abrem o evento às escuras mesmo.

Uma hora depois, pouco tempo antes do intervalo do coffe-break, as luzes chegam. Decidi não ir lanchar, para reordenar a apresentação.
Uma participante nota que trabalho, enquanto eles comem, e me traz uma quentinha. Gratidão.
Começo a segunda parte da palestra, agora com luz, e vi sentado nos fundos do auditório o Erthal, assistindo à minha fala. Emociono-me. Ele não precisava estar ali. Poderia estar descansando, afinal trata-se de uma longa viagem de retorno, e ele ainda está cansado da do dia anterior, ao dirigir sob intensa chuva. Então, o reconheço publicamente, pela atenção e cuidado para comigo. Todos batem palmas para ele.
Volto para casa fotografando Araucárias. Erthal, agora aponta-lhes para mim.
Para aprender a ser grato e a expressar gratidão tem que saber abrir bem os braços, tem que acolher, tem que prestar atenção ao que lhe ocorre e a quem facilita a vida e o caminhar, e em todos os dias, desde as mais simples das coisas.
Coisinhas cotidianas tão bacanas que acabamos deixando de notá-las. Como o bom dia alegre que recebo da Cida, nossa mensalista.  
Ou cuidado que a Carmem Quintiliano tem com meus escritos, corrigindo-os após a publicação inicial, e mandando-os novamente  para mim, detalhadamente apurados para o bom português.

Ou, babar de gratidão com a minha mais amorosa e catarina-paraibana de minhas leitoras, a Imêi.
Ela recebe pelo meu blog tudo que escrevo, pois é assinante dele, e sempre me devolve parágrafos e mais parágrafos com comentários do que o meu texto falou à vida dela.
Imêi é minha Brisa Aracati.

Expressar e sentir gratidão reduz os níveis dos hormônios do estresse e ansiedade: cortisol e adrenalina, e potencializa a produção dos hormônios do quarteto do bem-estar emocional: serotonina, dopamina, ocitocina e endorfinas.
Ou seja, torna a percepção de nossa vida melhor, expande e constrói novas possibilidades relacionais e, por que não dizer, do próprio negócio que tocamos.
Ser grato faz bem ao tecido coletivo da humanidade e a nós mesmos.
Mas, existe uma atitude que é um pré-requisito a sentir e expressar gratidão, chama-se humildade.
Sem ela, nunca valorizaremos de fato o que nos ocorre e quem gravita ao nosso redor.

Peço a Cida para cozinhar uns pinhões. Após os 40 minutos de pressão, Cida me diz que abriu a panela e os pinhões estão duros ainda. Dou uma gargalhada e mostro a ela que eles estão cozidos por dentro, estão bons.
E que por fora não amolecem mesmo.
Descasco uns para ela, que os come pela primeira vez e estala a língua de feliz.
Ela me agradeça. Me diz que estava com vontade de provar, mas com vergonha de pedir.

Finalizo esse texto com uma pratica de meditação budista chamada de Naikan, que é muito útil para desenvolver o verbo da gratidão. Sim amigos e amigas, gratidão é verbo, pede ação.
A Naikan pede que façamos a nós mesmos três perguntas, em qualquer momento ao longo do dia. Valem ouro em pó, experimente.

O que recebi de _____________
O que dei para ______________
O que preciso reconstruir por alguma ação má que fiz, que alterou a natureza das coisas e pessoas?

Por fim, caso consiga fazer essas práticas acima por uma semana, proponho-lhe uma prática da psicologia positiva que gravita em torno do tema, mas que só pessoas-araucárias conseguirão fazer.
E, se meu leu até aqui você é uma delas, uma pessoa-araucária.

Escreva e entregue pessoalmente uma carta de gratidão para alguém.
A carta não pode ser enviada pelos Correios, E-mail ou WhatsApp.
Tem que ser entregue pessoalmente, ou lida pelo telefone ou Skype.
A carta deve ter um mínimo de 300 palavras, dizendo o que a pessoa lhe fez, o quanto aquilo foi importante na tua vida.
Então, marque uma visita para a pessoa, sem dizer o motivo. Na visita, leia a carta.
Caso a pessoa more longe, só nesse caso, faça por videoconferência, ou chamada de voz no celular.
Por fim, deixo-vos novamente com Emmons:

“Quanto mais a pessoa é grata, menos fica deprimida. Os pesquisadores revelaram que a gratidão promove a lembrança de experiências positivas, aumentando a elaboração de informações positivas. O que isso significa? Significa que, quando somos gratos, tendemos mais a notar aspectos positivos em nossa vida e que isso aumenta a formação (ou codificação) dessas experiências na memória. Sendo evocada em momentos difíceis, pois essas lembranças funcionarão como uma blindagem emocional positiva, favorável ao enfrentamento dos desafios cotidianos. A gratidão ajuda o indivíduo a voltar sua atenção para as bênçãos que tem, e não para as coisas que não têm, isso reduz a possibilidade de ser acometido por depressões leves, que podem evoluir.

Cartas ao JG – Expresse Amor (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel - JG, quase 8 anos)


Sabe filho, após a costumeira feira do domingo, cheguei em casa e desci para o pomar, com uma caneca de cappuccino. Precisava revisar uma palestra que darei, responder e-mails, preparar-me para um curso que farei, atualizar as sessões da clínica psicológica e de coaching, e escrever um texto para o IBMEC, sobre posturas que causam anemia ao crescimento profissional.
Ao descer, dirigi-me ao canil para soltar os cachorros. Notei que Duquesa se esforçou para chegar perto de mim.
Vi que algo estava estranho com ela.
Não senti seus pulos de alegria, sua costumeira babação, suas maluquices, e senti a tristeza em seu olhar.
Aflito, fiz carinho nela, botei água e comida, mas foi inútil.
Balu, meu cachorro labrador, ficou perto dela, montando guarda.
Comoveu-me a lambida que deu nela.
Mesmo doente, ela ainda se vira para mim, como que a pedir um dengo.
E fico aflito.
Ela deve ter comido algo que ofendeu. Caçadora que é, deve ter pego um animal peçonhento ou um rato. Vou esperar o dia de hoje. Caso não melhore, amanhã levarei no veterinário.
Seu olhar tão doce e triste é de arrebentar meu coração.
E nada mais é prioritário para mim. Aquela palestra que iria revisar. Aquele resto de material de dinâmica. Aquele texto que produziria. Aquela planta que iria adubar.
Tudo fica para depois quando aquela que amamos adoece.
Tudo.
Quando quem amamos sofre, o tempo e as prioridades se enlaçam em outras perspectivas e dimensões de sentido.
Nada mais é urgente ou importante, quando aquele que amamos aparenta estar adoecido.
Essa é a força do amor. Ele subverte razões, altera objetivos, molda o presente para além do antes planejado.
Olho para os olhos negros dela e é como se conversássemos.
Darei remédio para alergia e fígado. E o resto de meu cappuccino.
Não precisamos perder ninguém, por doença, para demostrar amor.
A pior coisa do mundo são os olhos opacos da indiferença, que nos levam a não mais valorizar as pessoas amadas, só porque elas estão ali pertinho, disponíveis, e como diz a canção: “fáceis demais”.
Os afagos dela que chegavam a me aborrecer, hoje fazem uma falta tremenda. A gula dela, roubando a comida de Balu, enquanto ela ainda se alimenta da dela, hoje me fazem uma falta danada. Não precisei ralhar com ela.
As corridas delas pelo gramado, hoje vazias estão.
De igual, só nossa encarada face a face, quase como quem brinca de ver quem pisca primeiro.
Sabe filho, nunca deixe de dizer à quem ama o quanto essa pessoa é importante em teu viver.
Não deixe seu amor criar mofo, fungos, cupim ou ficar envelhecido.
Dê o seu melhor em admiração, cuidado e ternura.
Dê seu melhor cappuccino, para os amados.
A rotina do dia a dia, as preocupações, e até a mesmice do cotidiano podem levá-lo ao piloto automático do amor.
E isso é horrível.
Então, amado filho, nunca deixe de ser criança ao amar. Sem medo de ser bobo, de ser puro, de se permitir, de abraçar, fungar, ninar, beijar, dengar...
E, não só para o amor a dois. Falo de toda forma de amar.
Toda forma de amar vale a pena, como diz a poesia. Amor entre amigos, amor entre pessoas que partilham a mesma causa.
Hoje na feira livre tive duas revelações, que seriam um prenuncio do que escrevo para ti.
Dona Valmira, a matriarca da pastelaria La Deyse, o meu escritório da feira de São Sebastião, quase morre de um acidente de trânsito. Escapou por pouco da batida, que seria em cheio e em alta velocidade. Ela contou-me com olhos marejados. Aí lembrei-me que não tenho foto recente dela, e a fraguei fazendo minha tapioca.
Sr. Darcy, o de barba na foto, teve um rompimento de um vaso no esôfago, e quase parte dessa para melhor, num intenso sangramento que teve.
Somos amigos, e já fui inclusive no sitio dele. Ele ia sair de meu viver sem eu dizer-lhe o quanto ele é legal.
Ela também.
E o quanto Valmira, Darcy, Maria e Francisco são importantes para mim, nas manhãs de feira livre, a cada domingo.
Não deixe de dizer às pessoas, com palavras e gestos, o quanto elas são importantes em teu viver.
Cultive a gratidão, expresse a gratidão.
Não permita ficar adormecer teu amor, não embruteça teu coração. E, nem faça disso um comércio. Só dando se receber. Tu é quem perderá nessa negociação.
Acredite!

Cartas ao JG - Os cinco pilares do bem-estar (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do JG de quase 8 anos).


Sabe filho, têm noites especiais, e a de sábado foi uma delas.
Você aprendeu a ler as legendas dos filmes.
Não gosto de filmes dublados, e você ontem acompanhou comigo um filme, pela primeira vez.
Um daqueles bem legais, no qual uma fisioterapeuta trata um atleta para a volta às quadras de basquete, um famoso jogador da NBA. Você curtiu, gosta de esportes.
E, em alguns momentos, durante o filme, fez cafuné em minha cabeça. 

Depois, antes de dormir, brincou de se esconder comigo. E não lhe achei. Você vibrou, pois perdi. 1 a 0 para tu. Adoro perder para quem amo.
Tu se escondeu num dos cômodos do guarda-roupa. E me pegou direitinho.

Depois, antes de dormirmos, você veio na minha rede e trouxe um de seus amiguinhos para dormir comigo, o “Tobi”, seu cachorro de pelúcia.
E me senti tão amado por ti!

Dormi abraçado com o Tobi, e viajei para bem longe, para um lugar na minha infância no qual eu tinha meu Tobi, que se chamava Preto, um amigo-cão de estimação que era quase gente.
Sabe filho, nessa carta queria te falar para nunca perder essas três coisas que fez ontem: a capacidade de dar afeto, a de brincar e a de doar algo de melhor que tem para o outro. 

Expressos no cafuné, no brincar de se esconder, e no teu Tobi de pelúcia.
Essa é a formula do bem viver. Nunca esqueça. Cultive sempre em ti um ser de ternura, o brincar e doar de teu melhor ao outro.

Andamos pedindo da vida muitas respostas, e não damos para ela, a vida, as respostas. Um perdão pode ser uma resposta. Um gesto de doação, pode ser outra. Uma bondade, sem segundas intenções. Um agradecimento sincero. Um coração que encontra tempo e oportunidades de expressar a gratidão. Tudo isso são respostas. 

Todo mundo anda cheio de direitos, de razões, só querendo receber, só querendo para si o melhor, mesmo que a custas de estratégias nada éticas.
E a infelicidade campeia solta. Somos vítimas de nosso próprio estilo de vida, da dita sociedade pós-moderna.
Imagine filho, que essa semana saiu num dos Jornais daqui que o Distrito Federal já é recordista em prescrição de remédios para ansiedade e controle de estados de humor.
E as doenças mentais já são as que mais afastam no mundo do trabalho, segundo a OMS.
Atacamos as consequências, e fingimos não ver as causas.
As pessoas estão individualistas demais. Estão insensíveis demais. Estão agressivas demais. E o efeito se dá saúde mental.
Então, filho amado, nesses três gestos teus estão o segredo do bem-estar emocional, e da prevenção ao adoecimento psíquico. Cultive-os nos mais diversos formatos, estilos e intensidade.

No primeiro, o do cafuné, estão as emoções positivas e os relacionamentos significativos.
Emoções positivas e relacionamentos significativos estão contidos em quem se propõe a acarinhar alguém. Ninguém faz cafuné no outro pensado em vingança, ódio, mágoa e desamor. Pelo contrário, quem faz um carinho no outro pensa o bem para ele, pensa amor, pensa paz, pensa bondade, pensa gratidão, potentes emoções positivas.

No segundo, o do brincar de se esconder, estão dois outros pilares do bem-estar emocional: o engajamento e a realização. Você se engajou em algo, em se esconder. E após constatar que eu não lhe encontrei, viveu o saboroso momento da realização. Engajar-se com algo, que quando estamos fazendo perdemos a noção de tempo e espaço, de tão bacana que é, que fundimos o cérebro emocional com o cognitivo, num enlace perfeito. A isso chamamos estado de flow, ou de engajamento. E a realização você viveu, na vibração com os resultados que alcançou. No seu trabalho você pode viver estados de engajamento, de flow. No lazer ou Hobbies, e até na produção acadêmica ou cultural. O flow é o estado do ser que mais ativa as endorfinas e ocitocinas – hormônios do prazer.

Por último, na doação de teu amigo de pelúcia para dormir comigo, tu viveu o pilar do sentido, ou propósito. Houve uma intencionalidade, você queria me proporcionar algo não tangível, de uma dimensão subjetiva, algo do campo da visão, do estado mais puro de doação de si mesmo, que fazemos quando somos orientados por um propósito maior de viver. Você tinha um propósito, proporcionar companhia para mim, na noite que dormi na rede, e você espertamente tomou meu lugar na cama de casal. Era como se quisesse que o Tobe me fizesse companhia.

Que lindo!

Então grave bem: Emoções Positivas, Relacionamentos Significativos, Engajamento, Realização e Sentido são as cinco dimensões do florescimento, nome que nós chamamos o estado de bem-estar psicológico. E, se tiver uma delas bem ativa, ela se encarrega de nutrir as outras. Não é legal isso?
Continue assim, em tudo que fizer, e mesmo que esteja enfrentando situações difíceis, e até triste, assim agindo a tristeza não criará raízes no teu coração. Ela passará, você passarinho.

Numa trilha, um manifesto à vida. (Autor Ricardo de Faria Barros)


Não era um sábado qualquer.
Afinal, iríamos sair para conhecer um lugar diferente, para nos reabastecer com a poética da natureza.
Os meninos, Tiago, Priscila e Rodrigo estavam em alegre efervescência.
Quem deu a ideia do passeio foi a Poliana.
Ela tinha ido com seu namorado, o Polion, fazendo por lá uma trilha de jeep.
Mas, segundo ela, qualquer carro passaria pelos caminhos por onde foi.
E que valeria muito a pena.
Nossa ONG estava com o emocional aos farrapos. Tínhamos perdidos vários companheiros naquele mês, vítimas do HIV/Aids.
Precisávamos daquela aventura.
Partimos de Campina Grande-PB, em comboio, e seguimos pela BR 104, no prumo de Caruaru-PE.
Após passarmos pela cidade de Queimadas-PB, e bem próximo ao distrito de Barra de Santana, saímos na pista asfaltada e nos embrenhamos pelo sertão catingueiro.
Eu sorria à tôa. Agora seria com muita emoção!
Eu amo a Caatinga! Leia com dois “As”, por favor. rsrs
Aquelas árvores me falam, e até sinto o aroma das flores de Jurema.
A trilha se esgueirava tortuosa. Aqui e acolá, precisávamos parar para abrir restos de porteiras, que a pobreza do lugar não permitia concertá-las.
Chegamos numa casa, no final da trilha.
Descemos, cumprimentamos os moradores. Pedimos licença para adentrar nas terras deles e ver os Cayons do Rio Paraíba.
Liberamos uns sacos de bolacha para a filharada dos nativos que corria solta, e partimos agora a pé.
Os meus filhos seguiam à frente, como desbravadores.
Poliana estava feliz da vida, havíamos conseguido chegar no local por ela indicado.
À medida em que nos aproximávamos do abismo, formado pelos paredões rochosos, um silêncio respeitoso ia tomando conta de todos.
Descobrimos uma trilha que descia pelo precipício, daquelas bem íngremes, de fortes emoções, e fomos lentamente descendo por ela.
Ansiosos para nos refrescarmos no filete de água que ainda escorria do Rio Paraíba, a uns 300 metros abaixo de nós.
A descida foi boa. Mas, alguns de nós ficaram pensativos... “e a subida?”
O local era estonteante. Daqueles de cinema. Com grutas formadas pela erosão da água sobre as rochas, com lajedos em forma de piscinas, com o rio mansinho e convidativo nos chamando ao seu regaço.
Descobrimos que estávamos nas ruínas da represa de Curimatã, uma obra iniciada pelo exército na década nos anos 70 e nunca terminada, não sabemos porquê.
Par aonde olhávamos era beleza pra todo lado que saltava á nossa frente.
Flores diferentes, cactos ousados, pássaros que ali vinham para beber.
E um uivo do vento que passava sobre o cayon emoldurava tudo com uma trilha musical que falava-nos de eternidade.
O som do Eterno que habita em nós reverberou, em cada coração ali presente, e agrademos aquele momento mágico, com tanta comunhão entre nós e a mãe Terra.
As noivas ainda não descobriram aquele local, mas que ali daria um casamento lindo daria!
Desde então adotei aquele lugar como meu, meu infinito particular.
Tem uns 20 anos que lá não vou.
Mas, já coloquei na pauta. Não posso partir dessa para a melhor sem antes ter voltado em Curimatã.
É impressionante a força da água sobre as rochas. Que mesmo correndo em filetes minguados, ainda assim, conseguem esculpir nelas sua presença.
Quem esculpiu em mim e em você a presença dele(a)?
Quem foi essa água que nos moldou, que amansou nossas arestas, que nos tornou mais redondos, menos pontiagudos?
Menos lanças agressivas, menos quinas que machucam pernas?
Quem foi? Quem é?
Volto-me para o rio e quase escuto o diálogo das rochas com as águas. Ora uma cede, ora a outra, e dessa comunhão nasce a esperança de que elas vão atravessar as maiores dificuldades.
Às vezes, Via um filetinho rompendo a barreira de uma rocha, e por ali escorrendo a vida.
E ficava impressionado com a força daquele resistir.
Encontramos lugar para estender as tolhas e pikniquear.
Era uma espécie de gruta, que nos fazia sentir como os Homens das Cavernas.
Dali, naquele ninho, nos confortamos mutuamente. Um ou outro chorou, lembrando os falecidos que naquele local não puderam chegar.
Mas, foi choro breve.
A hora era de se alegrar, e em profunda interação com a vida, recuperar a esperança.
Pelas 16hrs, despedimo-nos do local, preparando-nos para a subida.
Agora sim, agora é que seria o teste final.
Um a um íamos nos ajudando. Não tínhamos pressa.
Só avançávamos mais um metro, quando todos estavam em segurança.
Metro a metro, fomos subindo, não temendo mais o amanhã.
Nossos olhos viram a paz.
Chegando no topo, olhamos para aquele oceano de imensidão azul, num contraste de céu de fim de tarde no Nordeste, com o azul da águas refletidos nas rochas, qual espelho.
Aquele Oceano Azul nos restaurou a força em nós mesmos, e no valor do outro a nos segurar pelas mãos.
Sim, tenho e tive muitas águas de vida que moldam o melhor de mim em meu ser.
Que não se cansam de lapidar minha pedra bruta.
Que esculpem minhas imperfeições, que aplainam meus desatinos, que me orientam e estimulam.
Abençoadas águas. Misteriosas águas.
Voltamos para casa cantando o Ói-Êpo, nossa canção da resistência.
Abraçados, despedi-me de meus afilhados: Maio, Reginaldo, Poli, Lana, Maria, Moisés, Fabrício, Paizinha, Nalva e Josi.
Entrei em casa, não me sentia exausto, embora estivesse.
Sentia-me como quem tocara nas vestes de Deus. Como quem se aninhara nos travesseiros dos anjinhos.
 Olhei para meus filhos e senti que eles também entenderam algo precioso para a vida.
A vida acontece é no caminho dos pés, enquanto eles se dirigem para as águas.
A vida se renova no subir de pedras íngremes, quando passamos a dar valor àquela mão que nos guia, àquela mão que cuida de nós, àquela mão que nos sustenta e apoia nossa subida.
A vida se perpetua, em cada traço de nós que com delicadeza deixamos esculpidos no outro, ou que com singela amorosidade, deixamos que ele talhe em nosso coração.

Farinha de Andiroba, de Manaquiri-AM do Renan (Autor Ricardo de Faria Barros)

Aproximava-se o horário de atender a um de meus clientes e o whats apita, com mensagem nova, e é justamente a dele.
Imagino que não conseguirá chegar a tempo. Coisas do tipo.
A mensagem era enigmática: “Acesse seu email e leia minha mensagem, antes de nossa consulta!”
Estremeci...
O que será que aconteceu? Pensei comigo...

Abri o email dele, relaxei, soltei um sorriso lua cheia, e me deliciei com uma crônica que fez para mim.
É que incentivo meus pacientes (“clientes”) a escreverem narrativas positivas de suas vidas e trazerem para as sessões.
E essa fez-me encher os olhos, desde o primeiro parágrafo:

“Nas minhas viagens procuro reservar um tempinho para conhecer algumas pessoas que possam me ensinar um pouco sobre a realidade local. São conversas informais, normalmente são momentos extremamente divertidos e, por vezes, inusitados. Mas, sempre são aprendizagens maravilhosas. Meu aprendizado foi na feira livre de Manaquiri-AM”

Quem começa um texto assim, promete quem vem coisa boa. E ele continua:

“Às 6h em ponto, a feira é aberta, já com todos os produtos expostos e todos os produtores devidamente identificados com seus coletes verdes (o que rendeu o apelido de periquitos). A participação da população não deixa a desejar e, já nas primeiras horas, a procura por alguns itens é grande, fazendo-os esgotar rapidamente. Foi o aconteceu comigo. Esgotou-se a melhor farinha de puba da comunidade de Andiroba, a do Renan.”

Ele me conta que o mercado do produtor só tem 4 meses. Antes dele, os atravessadores dominavam o comércio de farinha, sujeitando os Renans da vida à exploração ao comprarem por preços irrisórios o fruto de seu trabalho.
Agora não. A prefeitura investiu na capacitação dos produtores, preparou um ginásio para receber a feira, e forneceu até a gasolina para que os mesmos subissem por longas horas as estradas de rio e pudessem chegar com suas mercadorias à “cidade grande”.
Me diz que não conseguiu comprar a farinha do Renan.
"Acabou logo".
E que ficou com sentimentos contraditórios: frustração e felicidade. “Frustração por não encontrar a farinha e felicidade por saber que, se há pouco tempo atrás aquele monte de produtores não tinha para quem vender sua produção, a iniciativa da prefeitura estava trazendo ganhos concretos para eles.”

Aí a mística se fez. Quando ele estava vindo embora para Brasília, sem a farinha do Renan, eis que ele aparece no hotel e o presenteia com 12 litros de farinha. E, ao entregar-lhe a farinha não deixou que ele pagasse: “
Leve minha farinha para Brasília. Diga que é a Farinha de Andiroba”, do Manaquiri-AM! A melhor farinha que eles vão comer! E, que um dia venham aqui conhecer a nossa feira do produtor.”
Eu estava ainda muito emocionado, quando meu cliente adentra a sala, com um pacote.
E me presenteia com a farinha do Renan, a do distrito de Andiroba, do Manaquiri-AM.
Aí, um filete de lágrimas escorreu e nos abraçamos. Nós sabemos o que aquela farinha representa. Aliás, todos que já sobrevivemos a situações difíceis saberemos.
Hoje, nessa noite chuvosa, comi mais um pouco dessa farinha e me senti tão bem.
Não é qualquer farinha.
É a farinha de quem saiu das mãos da opressão e que agora consegue um pouco de luz, no seu lugar ao sol da Nação Brasileira, tão desigual.
Não é qualquer farinha, é a farinha comercializada num espaço de líderes na gestão pública que reinventaram um modelo de negócios, possibilitando uma maior inclusão social, com geração e emprego e renda, contrapondo-se aos tubarões do capital.
Aqueles mesmos que financiam tantos políticos para manterem-se no poder.
É farinha revolucionária de um Brasil que pode dá certo.
Ela tem gosto da esperança!
Renan, não te conheço mas queria te dizer que está deliciosa. Que combinou bem com o peixe.
Sua perseverança, em não desistir de procurar suas melhoras, em romper com um modelo de escravidão e acreditar na força do coletivo, nos inspira. Nem todos subiram o rio para o mercado do produtor. Acomodaram-se a ganhar pouco, “mas na porta de casa”.
Você não. Você teve a ambição de ser mais, de procurar seu espaço, e o pagamento justo pelos frutos de seu trabalho. Você e seus amigos da Feira do Produtor nos motivam. A todos nós que porventura um dia nos sintamos vendidos, comprados, amordaçados, na mão de quem nos domina, seja economicamente, seja emocionalmente.

Precisamos subir nossos rios também, em busca de outros potenciais adormecidos, sempre que nos sentirmos pequenos diante de tanta dominação a que somos sujeitos, indo até a “ Feira do Produtor”, na qual com outros também peregrinos, poderemos nos juntar e nos sentirmos mais valorizados, reconhecidos e apreciados.
Não é qualquer farinha, é a farinha de quem com ela renasceu para a vida!
Sim, nós podemos também sair das garras de quem nos faz mal, humilha e nos desvaloriza!
Subamos os rios de nosso viver!
A gasolina não é a prefeitura quem pagará, quem pagará será nossa coragem, amor, determinação, disciplina, objetivos, sonhos, otimismo, esperança e valores!
Eita combustíveis potentes!

Esvaziando Armários (Autor r Ricardo de Faria Barros)





































































Você já teve naqueles dias em que pensa em tirar tudo do guarda-roupa, da dispensa, do quarto de tranqueiras, estante, ou algo similar,  e se motiva a arrumá-los?
Na nossa vida interior também é assim. Precisamos desses dias de arrumação de nossas coisas internas, que foram se amontoando. 
Colocar no lixo as mágoas, ódios, invejas e ressentimentos que guardamos... já deu! Não é hora de levá-los mais conosco!  Ou aquele sapato da culpa que jã não lhe cabe mais.
E até as coisas que já não lhes servem mais, modelos fora de época, pequenos ou grandes, do tipo de quem fica sempre se justificando para os outros, implorando ser reconhecido, ou suplicando por migalhas de afeto! 
Aproveite para lavar, ou lustrar, as coisas boas que estavam esquecidas, e que um dia já te fez feliz. Dê a elas novos significados.  Valorize-as novamente, para que não fique esquecidas nos escuros mofados da indiferença.  
Veja aquele vestido ou terno de baile, e se sinta novamente tão linda e belo, agradecendo por tudo que passou e continuou na batalha. 
Areje os cômodos interiores de teu existir, abrindo espaço para cultivar neles a tua auto-estima. 
E, faça novo leiaute nas emoções que guardará, na hora de arrumá-las novamente, privilegiando as de foco positivo.  
Então, caro amigo e amiga, aproveite esse dia de arrumação para crescer como pessoa. 

Assim como na foto, portas se abrirão para uma nova caminhada, só com esse revisitar em teu coração.  Acredite, e periodicamente encare essa jornada da alma, em busca de si mesmo!

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