Páscoa: As passagens do impossível

 


Porque longe é um lugar que não existe, para um coração em Páscoa!

Páscoa é passagem.
Passagem de um lugar para outro.
De um estado para outro.
De uma dor para uma promessa.

São as páscoas do cotidiano.

A passagem do desemprego para o emprego. Da vida profissional corrida para o descanso merecido da aposentadoria. Dos dias de leito de hospital para a alta — aquela porta que se abre como uma aurora. Da vida de solteiro para a de casado. Dos bancos escolares para a colação de grau. Dos dias longos da gravidez para o primeiro choro de uma vida nova no mundo.

Cada uma dessas travessias é uma Páscoa. Libertadora. Cheia de promessas. Carregada de esperança de que o mundo pode ser diferente — e melhor — do outro lado.

São as passagens do impossível.

Porque longe é um lugar que não existe para um coração em Páscoa.

Em 1996, há 30 anos, vivi uma das páscoas mais bonitas da minha vida.
E ela não aconteceu numa igreja.
Nem numa mesa cheia.
Nem cercada de chocolates.

Ela aconteceu numa rodoviária.

Era quase meia-noite na rodoviária de João Pessoa.
Eu esperava meus filhos, que vinham no último ônibus que saía de Campina Grande. Aquele que a gente chamava de ônibus do padeiro.

Eu sempre gostei desses horários em que o mundo parece mais quieto. A gente consegue ver melhor a vida acontecendo.

Foi quando ela chegou.

Uma mulher.
Três filhos.
Vinda do alto sertão da Paraíba, de Cajazeiras.

Na cabeça, uma caixa de papelão.
Numa mão, um resto de mala.
Na outra, o filho menor.

Ela foi até o guichê da Itapemirim. Estava fechado.

E ali, naquele chão duro, onde não havia bancos, ela começou a fazer uma coisa que eu nunca esqueci.

Da caixa, tirou pedaços de papelão.
Dobrou com cuidado.
Forrou o chão.

Sentou.
Puxou os filhos para perto.
Acomodou todos no seu colo, como pôde.

Depois abriu um saco.
De dentro, tirou o que parecia ser biscoitos.
E repartiu entre eles.

E então fez um gesto que me desarmou por dentro.

Tirou um pente da mala.

E começou a pentear o cabelo das duas meninas.
Depois do menino.

Com uma delicadeza que não se aprende em lugar nenhum.
Só se aprende vivendo e amando.

Fiquei ali, por quase duas horas, olhando aquela cena.

Meus filhos iam chegar por volta de uma da manhã.
Os dela já estavam dormindo.

E ela continuava acordada.

Alisando os cabelos deles.
Cuidando.
Velando.

Naquela madrugada eu me fiz algumas perguntas.

Quanto valia aquela passagem?
Para onde aquela mulher estava indo?
Que tipo de libertação ela buscava?

Seria da seca?
Do desemprego?
Da fome?
Ou da solidão de ser mãe e carregar tudo sozinha?

Foi ali que eu entendi uma coisa que nunca mais saiu de mim.

As páscoas não estão só nos livros ou nas igrejas.
Elas estão na vida.

A Páscoa dos judeus foi a libertação da escravidão.
A travessia de um mar que parecia impossível.

A Páscoa dos cristãos é a Ressurreição de Jesus Cristo.
A vida vencendo a morte.

Mas existem também as páscoas do dia a dia.

Um coração em Páscoa é um coração que ainda acredita que pode atravessar.

Que algo bom pode acontecer.
Que a vida pode virar.

Depois de uma noite difícil.
Depois de uma doença.
Depois de uma prova.
Depois de um tempo de aperto.

A vida é cheia de passagens.

A gente está sempre indo de um lugar para outro.
Da noite para o dia.
Da dor para o alívio.
Do medo para a coragem.

E às vezes parece que o mar está fechado na nossa frente.

Mas, de algum jeito, ele se abre.

E a gente passa.

Páscoa é isso.

Não importa a religião.
Ou mesmo se a pessoa não tem religião.

É acreditar que o que está difícil hoje não é o final da história.

Como diz aquele ditado simples, mas cheio de sabedoria
um dia a tapioca vira.

E vira mesmo.

Um dia alguém cuida da gente.
Um dia alguém chega e diz vem comigo.

Um dia alguém oferece um pouco de carinho no meio do cansaço.

Pode ser um pente.
Um biscoito.
Um pedaço de papelão no chão frio da vida.

Pode ser uma palavra.
Um gesto.
Uma presença.


E então me pergunto.

O que, neste domingo, será Páscoa em nossa vida?
O que, em nós, pedirá Ressurreição?

Sim. Ressurreição com R maiúsculo.
Porque não é qualquer recomeço.
É aquele que nos devolve à vida.

O que será motivo de esperança?
O que vai nos mover a atravessar nossos mares difíceis?
O que vai nos ajudar a sair da desesperança e do desânimo?

O que vai nos levar ao nosso melhor?

Que seja a vida.
Que seja o vento.
Que sejam as velas abertas de um coração que ainda acredita.

Vida, vento, velas, levem-me daqui.
Levem-me a um lugar que me faça acordar com vontade de viver.

Resistir.
Insistir.

E, quem sabe, amolecer esse coração quando ele endurece.

Porque talvez seja isso a Páscoa.

Um coração que, mesmo depois de tudo,
ainda escolhe amar.

E mais do que viver a Páscoa…

A gente pode ser Páscoa.

Pode ser cuidado na vida de alguém.
Pode ser acolhimento.
Pode ser esperança.

Pode ser aquele pequeno gesto
que muda a noite de alguém.

Feliz Páscoa.

Que nunca nos falte coragem de caminhar mais um pouco.
Mesmo quando parece difícil.

Porque, no fundo,
a vida sempre encontra um jeito de recomeçar.

Janelas para a Vida


Fui tomar um café com o senhor Valdecir (84) num domingo desses, logo depois de passar pela feira de São Sebastião, aqui no Distrito Federal. Cheguei à casa dele e encontrei um cenário curioso: a casa estava em estado de festa.

Não havia bolo, nem velas, nem data comemorativa. A celebração era outra. Era uma festa de marreta, talhadeira, poeira e esperança. O barulho seco do ferro contra a parede ecoava pela rua, misturado às conversas, aos palpites, ao entra e sai dos filhos, ao alvoroço bom de quando uma casa volta a respirar.

O filho, Welington, havia chamado um amigo de longa data para ajudar na obra. Um daqueles homens que dividem a vida entre o altar e a massa corrida, entre a palavra de Deus e o ofício de pedreiro. E os dois tinham uma missão muito especial naquela tarde: abrir um buraco no muro da frente da casa — aquele que olha direto para a calçada e para a rua.

O motivo era simples, mas vital.

O senhor Valdecir precisava voltar a ver a rua.


Tudo começou por causa de um acidente doméstico. Durante muitos anos, a casa teve um portão vazado, daqueles de grade antiga, por onde se podia acompanhar o movimento da calçada — os vizinhos indo e vindo, o menino da bicicleta, a mulher que passa com sacola de feira, o cachorro que escolhe sempre a mesma sombra.

O mundo em sua miudeza sagrada.

Só que o portão já estava velho, enferrujado, pesado demais para os trilhos cansados. E, num dia infeliz, a gravidade cobrou sua conta da pior forma: o portão caiu inteiro por cima do senhor Valdecir.

Isso foi há uns quatro meses.

Aos 84 anos, ele sofreu uma fratura na bacia. Vieram então os dias duros de internação, as dores agudas, a cama, a limitação dos movimentos. A paciência posta à prova. O corpo pedindo tempo. A alma pedindo coragem.

Para evitar que o acidente se repetisse, os cinco filhos que moram ali pela região — Edite, Edvânia, Welington, Maria de Lourdes e Edson — se organizaram numa dessas forças-tarefa familiares que ainda salvam o mundo em silêncio. Fizeram uma vaquinha, juntaram as economias e encomendaram um portão novo.

Moderno, de metalon, leve para correr no trilho e extremamente seguro.

Resolveram o problema da segurança.

Mas, como tantas vezes acontece na vida, ao resolver uma coisa, criaram outra sem perceber.

A chapa lisa do portão fechou tudo. Do chão ao teto. E, de repente, o senhor Valdecir ficou sem vista. Sumiu a rua. Sumiu o céu entre os postes. Sumiu o entra e sai dos carros. Sumiu o vaivém da vizinhança.

Sumiu aquele cinema cotidiano que alimenta tanta gente.


Ele tinha o hábito quase sagrado de puxar uma cadeira para a parte da frente da casa nas tardes quentes e ficar ali, de frente para o muro, olhando o bairro respirar pelos vãos do portão antigo. Não era curiosidade vazia. Era vínculo. Era pertencimento.

Mas era também outra coisa, que a gente só percebe quando para e pensa bem.

Pelos vãos daquele portão de grade, as pessoas que passavam na calçada também o viam. Viam o senhor Valdecir sentado ali, naquele seu lugar de sempre, do lado de dentro do lote. E paravam um instante, acenavam, sorriam.

Bom dia, seu Valdecir.

Boa tarde, seu Valdecir.

E ele respondia. Com a mão levantada, com a voz, com o sorriso de quem é esperado no próprio território.

Parece pouca coisa. Mas não é.


Para quem vive a longevidade em solidão — e são muitos, muito mais do que a gente imagina —, essa saudação simples de um vizinho que passa na calçada, de um rosto conhecido do bairro, é uma das formas mais concretas de pertencimento que existem. É o mundo dizendo: eu te vejo. Você está aqui. Você conta.

O portão novo de metalon resolveu o problema da segurança. Mas calou essa conversa silenciosa entre o senhor Valdecir e a rua. Fechou não apenas a vista — fechou o reconhecimento.

E aí a gente entende que a janela não é só para quem olha para fora.

É também para quem precisa ser visto de dentro.


Incomodado com aquilo, sugeriu chamar o serralheiro para abrir um vão na chapa nova. O profissional não gostou da ideia — disse que danificaria o trabalho inteiro e ficaria feio.

Então fizeram o que tantas famílias brasileiras fazem diante dos impasses: olharam para o lado e inventaram uma solução.

Se o portão não podia ser aberto, o muro podia.


E lá estavam Welington e o amigo, golpeando a alvenaria do muro da frente com talhadeira e marreta. A cada pedaço de reboco que caía no chão formando uma pequena pilha de entulho, aumentava no rosto do senhor Valdecir uma alegria quase infantil.

Ele parecia uma criança esperando o sorvete.

O vão foi surgindo aos poucos. Primeiro uma fresta de claridade. Depois um retângulo torto. Depois um pedaço nítido de mundo.

Quando a poeira começou a baixar, a cena apareceu como revelação: Welington surgiu na abertura recém-feita do muro, apoiando os braços na borda ainda áspera de cimento, com o rosto voltado para dentro, para o senhor Valdecir. O rosto e a barba estavam salpicados de poeira branca, mas o sorriso era largo — desses que misturam cansaço com satisfação, trabalho com amor.

Atrás dele, emoldurados pela abertura, apareciam o céu azul, o teto de um carro vermelho estacionado na rua e o verde meio rebelde do mato do outro lado da calçada.

O bairro voltava a existir.

O senhor Valdecir olhou para aquele retângulo de mundo como quem recebe de volta uma parte de si. E disse, com um alívio quase solene, que agora poderia sentar perto da porta aberta e ficar apenas vendo a vida passar pelo vão novo do muro. Os carros cruzando. As árvores balançando. As pessoas com seus mistérios portáteis.

E, quem sabe, voltar a ouvir:

Boa tarde, seu Valdecir.


Aquela satisfação miúda dele me fez pensar com mais calma no peso real das coisas que a gente banaliza na correria diária.

Nós precisamos de janelas.

Quem inventou a janela conhecia profundamente a natureza humana. Antes dela, a lógica era a da caverna — do fechamento total, da parede sólida erguida contra o frio, as feras e, principalmente, a violência dos próprios seres humanos.

Abrir um buraco intencional na parede foi um gesto de coragem civilizatória.

Foi aceitar trocar uma parte da segurança pela possibilidade de contato com o mundo.

Janela é isso: uma ponte entre o dentro e o fora. Uma negociação silenciosa entre proteção e presença.

Talvez por isso as janelas fiquem ainda mais bonitas quando têm jardineiras de flores. Pequenas caixas apoiadas no peitoril, com gerânios, onze-horas, avencas — cores que se derramam para dentro e para fora ao mesmo tempo. Uma janela com flores parece dizer ao mundo: aqui dentro mora alguém que ainda cultiva beleza.


Você chega a um quarto de hotel que nunca viu antes. Ainda nem abriu a mala. Mas quase automaticamente caminha até a janela, afasta a cortina, abre o vidro e olha para fora.

Quer saber o que existe ali.

Quer ver a rua, a paisagem, o movimento das pessoas.

Algo em nós pede essa abertura desde sempre. Porque o ser humano não nasceu para viver apenas entre paredes. Nasceu para ter frestas de mundo — e, sem elas, por mais segura que seja a casa, algo começa a minguar por dentro.

O senhor Valdecir sabia disso com o corpo todo.


Por isso, quando falo em longevidade que vale a pena, não falo apenas de anos acumulados. Falo de janelas mantidas abertas. Falo da capacidade de ainda se espantar com o verde rebelde do mato, com o teto vermelho de um carro desconhecido, com o sorriso empoeirado do filho que abriu um buraco no muro só para que o pai voltasse a ver o céu.

E voltasse a ser saudado.

Envelhecer bem é, entre outras coisas, resistir ao fechamento. É não deixar que o medo — da queda, da dor, da perda — tape os vãos por onde a vida entra. É ter a sabedoria de pedir a marreta quando necessário.


Cultivar uma janela dentro de si é algo quase mágico. É permitir que a realidade entre sem os filtros do medo ou do endurecimento. É deixar que a vida atravesse nossa experiência com curiosidade, com presença, com espanto.

Uma pessoa que mantém uma janela interior continua capaz de perceber o milagre cotidiano das coisas simples: o vento que passa, o riso de alguém na rua, a árvore que balança, o cheiro do café, a cor do céu mudando no fim da tarde.

Por isso, abra as janelas do seu viver.

Deixe entrar a brisa e a luz.

Deixe que esse descortinar de infinitos te cure, te abrace, te ilumine e te acolha.

Porque a vida, quando encontra uma janela aberta, costuma entrar devagarinho; trazendo junto o vento, a esperança e a silenciosa beleza do agora.


A Placa, as Cadeiras e a Exclusão dos Longevos (Ricardo de Faria Barros)

 

Há coisas que a gente só aprende quando o próprio corpo começa a fazer perguntas que o mundo não quer responder. Aprende quando o garçom demora um pouco mais para olhar na sua direção. Quando o cardápio digital exige uma destreza de dedos que os anos foram levando embora, em silêncio, como quem não quer incomodar. Quando você pergunta sobre os ingredientes de um prato e sente, na expressão do atendente, uma impaciência pequena — involuntária, talvez, mas real. Involuntária não a torna menos verdadeira.

Venho me envolvo com o tema da longevidade desde 1996, quando comecei a trabalhar junto aos aposentados das empresas de telefonia brasileiras, facilitando programas de preparação para aposentadoria. Desde então aprendi que envelhecer, no Brasil, é ainda um ato de resistência. Que a sociedade nos prepara para produzir, não para durar. Que os espaços, as cidades, os cardápios, os balcões de atendimento — tudo foi desenhado para quem tem pressa. E quem aprendeu que o tempo tem outra textura, vai ficando para trás.

Hoje trabalho no Projeto 70+ da ANABB — Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil — levando esse tema para quem precisa de interlocutores sérios, afetivos e bem fundamentados. Mas foi fora de qualquer projeto, num fim de tarde de João Pessoa, que a maior sacada me visitou.

Fui percebendo as coisas aos poucos. Não numa grande revelação — foi uma acumulação de apercebimentos. Percebi que os jovens chamavam o garçom com uma facilidade que eu já não tinha. Percebi que os banheiros ficavam sempre longe demais, numa lógica arquitetônica que simplesmente não me considerava. Percebi que eu ia deixando de ser um cliente e me tornando uma presença tolerada — alguém de quem se espera que não faça muitas perguntas, que não demore, que não ocupe cadeira de mais.

E fui entendendo, no fundo, que havia ambientes que me diziam sem palavras uma coisa muito clara: “Era melhor você ter ficado em casa. Aqui não é para você.”

Não estou falando de filas com atendimento prioritário. Não estou falando de rampas e elevadores — que já deveriam ser lei e não bondade. Estou falando do cotidiano miúdo, do café da padaria da esquina, do ônibus às sete da manhã, da informação que some num cardápio que só existe em QR code, do acesso ao metrô que vira labirinto. Estou falando de quando a vida inteira se organiza ao redor de quem tem pressa, e esquece quem aprendeu, com o tempo, a não ter.

O Longevo Doador de Cadeiras


Saindo em bares e restaurantes de Brasília, descobri um personagem que eu mesmo estava me tornando — sem ter pedido o papel, sem ter assinado nenhum contrato. Eu era o velho doador de cadeiras.

A cena era sempre a mesma. Eu chegava, me sentava numa mesa de quatro cadeiras, pedia o que queria, ficava. E aos poucos — um garçom aqui, um cliente ali — as cadeiras iam sumindo. Puxavam sem pedir. Às vezes com um aceno rápido, às vezes sem nenhum. Como se as cadeiras ao redor de mim fossem terra de ninguém. Como se o fato de eu estar sozinho significasse que eu estaria sozinho para sempre, que nenhuma pessoa seria capaz de se sentar à minha mesa ao longo daquela tarde, que a sociabilidade era um território dos outros — e eu já havia entregado meu passaporte.

Ficava num formato estranho de solidão exposta. Uma mesa com uma cadeira. Um homem sem a moldura que faz sentido ao redor de uma pessoa. E sentia os olhares — não hostis, mas curiosos, levemente desconfortáveis — de quem passava e via aquela cena estranha: um homem mais velho, sozinho, numa mesa esvaziada, que não estava olhando o celular.

Porque tem isso também: eu não olhava o celular. E isso, aparentemente, é suspeito. No mundo onde todo adulto solitário precisa de uma tela para justificar sua presença, o longevo que senta, olha ao redor, observa, pensa — esse vira uma anomalia. Um ponto fora da curva. Quem é aquele velho ali? O que ele quer? Por que não está olhando para baixo como todo mundo?

Aqueles olhares me ensinaram mais do que qualquer livro sobre longevidade. Me ensinaram que o problema não era eu não ter telefone na mão. Era eu não ter — aos olhos daqueles lugares — o direito de simplesmente existir em público, no meu tempo, no meu ritmo, disponível para o encontro que pudesse chegar.

O Bar da Buchada

A sacada nasceu num bar. O Bar da Buchada, no bairro do Altiplano, aqui em João Pessoa, na Paraíba. Um daqueles lugares que parecem ter sido feitos por acidente e terminaram certos: uns quinhentos metros quadrados ao ar livre, mesas embaixo de árvores frondosas, um ruído de conversa e gelo que é, por si só, uma forma de afeto. Um lugar que te recebe.

Mas havia uma placa na entrada. Pequena, clara, definitiva: proibida a entrada de animais.

Eu a via funcionar toda vez. Via pessoas chegarem, lerem, e darem meia volta. Grupos inteiros que precisavam se reorganizar porque alguém havia trazido seu cachorro. E aquela placa — justa, talvez, dentro de uma certa lógica — foi me incomodando por outra razão. Não pelo que dizia, mas pelo que representava: a ideia de que uma regra, por si só, vale mais do que a pessoa que está diante dela.

A Intervenção

Um dia, chegou um grupo grande. Camisetas iguais — uma academia recém-inaugurada no bairro, dava para ver pelo logo. Gente animada, barulhenta do jeito bom, ocupando uma das maiores mesas ao ar livre. Pouco depois, um casal entrou. Também com a camiseta. Traziam nos braços um cachorrinho pequeno, daqueles que cabem no colo e ficam por lá.

Leram a placa. Deram meia volta.

Os outros viram, acenaram, chamaram. O casal apontou para a placa com um gesto que dizia tudo: não vamos discutir, cumprimos as regras. E iam embora assim, deixando para trás uma mesa que os esperava e um grupo que os queria.

Me levantei.

Tenho uma relação boa com Ana, a dona do lugar. Usei disso. Propus um arranjo: o cachorro poderia entrar, desde que ficasse com eles, sem circular pelo salão. Se chegasse um animal maior, focinheira. Era simples, razoável, humano.

Ana concordou. O casal voltou. E eu — não sei bem por quê, talvez por instinto de quem gosta de gestar encontros — fui até a cozinha, peguei um vasilhame com água e levei à mesa. Para o cachorro. Uma coisa pequena. Uma coisa que dizia: você foi esperado aqui.

O Que Mudou — e o Que Nasceu

Desde aquele dia, Ana tirou a placa. Passou a ir pessoalmente saudar as mesas que chegam com seus bichinhos. Oferece água. Pede, com afeto, que os animais não fiquem soltos. Não mudou a regra. Mudou a forma. E a forma, quando é feita de empatia, muda tudo. Agora aquele local virou pet friendly.

Foi então que o pensamento pousou, com aquela leveza de coisa que parece óbvia depois que chega: e se um longevo chegasse assim? Com a sua pequena necessidade, com o seu cansaço, com a sua história de setenta, oitenta anos carregada nos ombros — e fosse recebido com a mesma atenção que Ana passou a dar ao cãozinho desconhecido?  E se tivéssemos o “aged friendly”?

E se houvesse um lugar onde o dono da casa viesse à sua mesa, apresentasse o espaço, trouxesse uma água fresquinha antes de você pedir? Onde houvesse uma campainha discreta — para que você não precisasse disputar a atenção de um garçom com as vozes mais jovens das mesas vizinhas? Onde ninguém retirasse as cadeiras que sobram à sua volta, te deixando numa mesa de cadeira única, num formato de solidão muito explícita?

E se esse lugar soubesse seu nome? Soubesse o que você gosta? Se antecipasse aos seus desejos com a naturalidade de quem te conhece — como se conhece quem frequenta a cozinha da avó?

O Pudim de Dona Denise

Pensei na minha mãe, Denise. Oitenta e sete anos, disposição a mil, e uma história de vida que merecia ser ouvida em cada mesa que ela senta. Imagine Dona Denise olhando para um cardápio — impresso, por favor, porque digital ela não consegue mais ler, e ninguém teve a gentileza de perguntar — e vendo um pudim de sobremesa por vinte reais.

Dona Denise, minha mãe 87 anos

Vinte reais que, para ela, são uma pequena deliberação. Uma hesitação. Uma conversa interna sobre se vale, se deve, se pode. Não porque não tenha como pagar — mas porque a gente aprende, com os anos, a não desperdiçar, a ponderar, a ser comedida.

E se, naquele lugar, o garçom chegasse e dissesse: “A senhora tem cinco por cento de desconto na sua comanda, Dona Denise, porque a senhora tem mais de oitenta anos — e isso aqui é uma razão de celebração.” Não é uma esmola. Não é uma benevolência envergonhada. É um gesto que diz: chegar aqui, com oitenta e sete anos, é um ato de coragem e alegria, e nós reconhecemos isso.

Um real. Um real e alguns centavos no pudim de Dona Denise. Uma coisa quase nada — e ao mesmo tempo tudo, porque o gesto não vale pelo dinheiro. Vale pelo que diz sobre quem você é aos olhos do lugar.

Ambientes com banheiros acessíveis e limpos, perto. Cadeiras confortáveis e ergonômicas. Corrimões. Cardápios impressos com letra legível. Uma campainha discreta em cada mesa. Um desconto para quem tem oitenta anos ou mais. Funcionários treinados em escuta ativa. Uma cultura de afeto para combater a solidão estrutural — essa solidão invisível que vai se instalando quando o mundo para de fazer espaço para você.

Um lugar capaz de denunciar maus-tratos, de perceber quando um longevo chega com marcas que não são do tempo. Um lugar que não olha para o idoso como um fardo tolerável, mas como alguém que viveu muito, sabe muito, e merece — no mínimo — a mesma atenção que se dá a um cliente qualquer.

Uma placa diferente da que eu via no bar do Altiplano. Não uma proibição — um convite. Uma placa que diga:

“Ei. Saia de casa. Aqui você receberá atenção, afeto e cuidado.
 Aqui você vai se sentir como na cozinha da vovó.”

     

Não precisamos reinventar a humanidade. Ela já existe — estava ali, na atitude de Ana com um cãozinho que quase ficou do lado de fora. Precisamos reconhecê-la, nomeá-la, certificá-la. Dar a ela uma placa, um símbolo, uma identidade.

Precisamos criar, em cada cidade, em cada bairro, em cada esquina com uma boa cadeira e uma geladeira gelada, o ambiente que diz ao longevo o que ele mais precisa ouvir: você ainda é esperado. Você ainda pertence aqui. O mundo ainda tem lugar para você.

Tudo começou com uma placa proibindo cães.

E com a certeza de que o contrário de excluir não é apenas incluir — é acolher.

Os Sons do Parquinho (por Ricardo de Faria Barros)


Hoje ganhei um presente raro numa cidade grande: silêncio.

Da janela do meu quarto observo o parquinho do prédio. Aquele chão de areia e brinquedos de ferro foi adotado por uma creche da vizinhança. Lá embaixo a infância acontece em correrias, gritinhos e risadas soltas. Mas o que mais me chama atenção nem são as crianças.

É o silêncio.

Quem vive em quadra residencial sabe como isso é raro. Sempre fica alguém em casa. E quem fica pode ligar rádio, televisão, arrastar móveis, usar furadeira, deixar o cachorro latir ou simplesmente permitir que a vida escorra em ruídos.

Mas hoje não.

Hoje fui presenteado com um oceano de sem som.

Um silêncio tão generoso que eu conseguia escutar o rangido das correntes do balanço. Os risos das crianças não rasgavam a tarde. Apenas boiavam sobre ela. Até as folhas da palmeira pareciam farfalhar mais baixo, como se também soubessem que havia ali uma delicadeza acontecendo.

A professora lá embaixo fazia um revezamento com os três balanços, garantindo a cada criança sua vez de tocar o infinito com os pés. Depois vieram as trocas, tão próprias da infância e também da vida.

O balanço foi deixado pelo escorrego.
O escorrego, pelos docinhos.
Os docinhos, pela ameaça de chuva.

E a própria ameaça de chuva acabou abandonada por um vento de sol radiante, um “SolRiso”, desses que empurram nuvens carregadas para outro rumo.

Fiquei apoiado no batente da janela apenas olhando.

E pensando.

Quem serão aquelas crianças quando chegarem aos sessenta e um anos, idade que tenho hoje? Quantos boletos pagarão, quantos projetos tentarão realizar, quantos amores vão amorar, quantas dores também vão dorar?

Talvez uma das lições mais bonitas daquela tarde tenha sido essa.

Quase nada permanece muito tempo no centro do nosso desejo.

O balanço cede lugar ao escorrego.
O escorrego cede lugar aos docinhos.
Os docinhos cedem lugar ao susto da chuva.
A chuva cede lugar ao sol.

E assim a vida segue, numa coreografia silenciosa de substituições.

Quando fui fechar a janela vi a placa que ganhei do meu irmão. Nela está escrito: “Meu fi, meu fi, um dia a tapioca vira”.

E vira.

Talvez amadurecer seja aprender a observar melhor as cotidianidades. Notar aquilo que antes passava despercebido. Trazer o pensamento de volta ao presente. Mirar os sentidos no agora.

Porque a vida não acontece apenas nos grandes acontecimentos, nas conquistas, nos cargos, nas metas e nas urgências.

Ela também acontece num parquinho visto da janela.

Num recreio interrompido por uma nuvem.

Num vento que devolve o azul ao céu.

Em pequenas cenas que colorem as retinas da alma e amanteigam as emoções.

No fim das contas, a chuva nem veio.

O sol reapareceu.
A porta se abriu.

Era JG, de dezesseis anos, chegando do colégio.

Uns começando a jornada no balanço do parque.
Outros já perto da faculdade.

E eu, cada vez mais inclinado a observar ventos, sons, luares e pores do sol.

Talvez uma das maiores pobrezas do nosso tempo seja esta: andamos tão corridos e tão ocupados que estamos desaprendendo a escutar a delicadeza.

A delicadeza continua acontecendo.

Somos nós que andamos apressados demais para percebê-la.

Ricardo de Faria Barros
Psicólogo | Especialista em longevidade, sentido da vida e bem-estar emocional.

Três gestoras que trouxeram ventos às minhas velas no Banco do Brasil


Em 1986, ano que entrei no BB, ele cheirava a papel carbono, café requentado nas copas das agências e tinha a sonoridade de máquinas registradoras e carimbos-tanque. Nos corredores, camisas sociais em tons sóbrios, gravatas alinhadas, paletós escuros, sapatos bem engraxados. Pouca risada interna. Muita compostura. O formalismo era espesso, quase militar. As hierarquias eram nítidas. A seriedade parecia fazer parte do uniforme invisível de todos.

Foi nesse ambiente que entrei no Banco do Brasil, exatamente no momento em que se anunciava a perda da chamada conta movimento, aquela espécie de funding federal que sustentava, entre outras frentes, o crédito rural brasileiro. Para quem viveu aquilo por dentro, sabe: não era uma notícia qualquer. Era como se uma engrenagem central da velha máquina institucional tivesse sido retirada de repente, obrigando o banco a reaprender a existir. O Banco do Brasil atravessava ali uma de suas grandes metamorfoses. Precisava rever modelos de negócio, práticas de gestão e até sua própria identidade institucional.

Havia insegurança no ar. Uma espécie de névoa pairando sobre mesas, pastas, corredores e conversas. Foi nesse clima que cheguei à agência Poções. Minha recepção veio em forma de espanto, quase como uma pergunta atravessada: “Mas o que foi que tu fez, rapaz, na Paraíba, largando o Banorte e vindo pro Banco do Brasil num momento desses?”

A pergunta fazia sentido. Eu havia deixado um banco privado onde trabalhava como compensador. Durante o dia, cursava Engenharia Civil na Universidade Federal da Paraíba. Tinha uma rotina puxada, mas organizada. Somando o cargo de compensador-chefe com o adicional noturno, meu salário era praticamente o dobro do inicial oferecido pelo Banco do Brasil. Ainda assim, decidi mudar. Ao entrar no BB, passei a ganhar menos, em condições mais difíceis, e ainda migrei quase 1.800 quilômetros para longe da minha cidade natal. Não era exatamente uma decisão lógica.

Alguns anos depois, já na Paraíba, em Campina Grande, comecei outra travessia pessoal. Em 1991, fui fazer Psicologia. E essa decisão nasceu de uma discussão que tive numa reunião de agentes de pastoral na Paróquia do Rosário. Mas essa é outra história, dessas que pedem mais tempo, outra ambiência e uma crônica à parte.

O Banco do Brasil daquela época era, essencialmente, uma instituição masculina. No cotidiano das agências, poucas mulheres ocupavam os espaços de trabalho e quase nenhuma chegava aos cargos de liderança. A liderança tinha quase sempre o mesmo rosto: masculino, formal, hierárquico. Talvez por isso, quando uma mulher surgia em posição de comando, a cena quebrasse a paisagem. Interrompia o automático das expectativas.


Graça Machado: A vanguarda que dá rosto à solução

A primeira dessas forças foi Graça Machado. Minha admiração por ela começou antes mesmo da convivência direta. Eu atuava como polo externo de vendas do Ourocard, visitando comerciantes na praça de Campina Grande para vender afiliação. Naquele tempo, poucos sabiam direito o que era aquilo, e a resistência era enorme. Foi nessas andanças que comecei a ouvir falar de Graça. Seu nome surgia na boca dos comerciantes sempre acompanhado de respeito. Falavam de sua capacidade de ouvir, resolver e encontrar saídas. Falavam de alguém que não empurrava dificuldades com a barriga, nem se escondia atrás do balcão. Minha admiração começou assim, pela boca dos clientes, antes mesmo da convivência. Graça me ensinou pelo exemplo sobre a importância vital do bom atendimento.

Na agência Rua João Pessoa, nos idos de 1990, Graça me marcou profundamente por sua forma de liderar. Para ela, excelência no atendimento não era slogan; era prática, compromisso diário e quase uma vocação. Por seus clientes, ela movia montanhas. Mas Graça Machado era muito mais do que uma gerente resolutiva; ela estava, na verdade, décadas à frente de seu tempo.

Enquanto o sistema bancário ainda operava de forma mecânica, ela já aplicava intuitivamente os fundamentos do que viria a ser o Programa Nacional de Qualidade e Excelência. Graça possuía uma visão integral e sistêmica da cadeia produtiva do cliente que era rara de se ver. Ela não olhava apenas para o crédito isolado, mas compreendia as necessidades reais de ponta a ponta, antecipando gargalos e criando soluções que iam além do balcão.

Sua gestão era um exercício precoce de inteligência estratégica e empatia radical. Num modelo ainda tão rígido e patriarcal, ela abriu caminho a fórceps, exercendo autoridade sem perder a elegância ou endurecer a alma. Foi a primeira mulher do Banco do Brasil nomeada gerente geral de agência na Paraíba e, depois, a terceira superintendente adjunta. Sua trajetória é a prova viva de que a qualidade de atendimento e a visão sistêmica do negócio são, antes de tudo, manifestações de respeito humano e vanguarda administrativa.

Graça dava rosto às soluções.

Maria Paula Aranha: A alma que me fez debutar na DG

Outra líder que deixou marca funda em minha travessia foi Maria Paula Aranha. Anos depois, fui parar numa diretoria do banco em Brasília. O clima ali era outro: ar-condicionado mais frio, carpetes espessos, telefones silenciosos, baias divisórias, café pão e e leite passando para o lanche. E eu, já psicólogo e observando tudo, e aflito. Passei na seleção de analista júnior, justamente na Controladoria. Que eu mal sabia que liderava uma revolução contábil no BB, da forma de precificar e avaliar os resultados dos negócios. Parecia o começo de uma piada corporativa. Foi então que surgiu Paulinha.

Paulinha foi minha madrinha naquela primeira valsa da diretoria. Quando deixei a carreira de agências, foi ela quem me ajudou a debutar naquele ambiente. Ela tinha o dom raro de traduzir o "controladrês" para uma linguagem humana. Naquele tempo, ela implantava um modelo de contabilidade gerencial, uma tarefa hercúlea, mas nunca se deixava sequestrar pela urgência. Parava nas mesas, perguntava da vida, demonstrava interesse sincero. Envolvia-se para além do crachá. Para Paulinha, gente não cabia numa planilha de Excel; pessoas vinham com suas subjetividades, desejos e medos. E, curiosamente, ela era também uma das maiores mestras que já vi no próprio Excel. Quando Paulinha gargalhava, o que era comum, todo mundo se curava, seja de que mal estivesse sofrendo. Seu jeito brincalhão, desobstruía safenas corporativas, de corações mais duros, entupidos pelos complexos números do mercado bancário.  

Paulinha dava alma aos números.

Eliane Mattioli: As asas para a utopia ativa

Mais adiante, cruzou meu caminho Eliane Mattioli. Ela era um "trovão bom" em forma de gente. Mattioli deu asas à minha primeira carreira gerencial, como Gerente de Projeto Nível I do DRS (Desenvolvimento Regional Sustentável). Sempre a vi como uma acendedora de lampiões, riscando luz no escuro antes que a noite tomasse conta de tudo.

Ela acreditou, antes de muita gente, que o Banco do Brasil poderia ser promotor de transformação social. Pegava textos utópicos e documentos densos e os convertia em algo prático, didático, quase um feijão com arroz bem feito para associações de moradores distantes. Viajamos o Brasil capacitando gestores. Nunca a vi rabugenta ou descrente. Mattioli tinha uma esperança ativa: não diminuía o tamanho do sonho para caber na preguiça do sistema; ela puxava o futuro para mais perto. Ela tinha o dom de nos fazer acreditar em impossíveis, e em articular, numa causa comum, parceiros tidos como inimigos, ou impensáveis de sentarem-se à mesa, para uma concertação social. 

Mattioli dava vida às utopias.


O Vento nas Velas e a Longelescência

Quando olho para trás e estendo esse pequeno varal de memórias profissionais, percebo que essas três mulheres foram minhas primeiras lições sobre o que viria a ser o cerne da minha própria jornada. Sem saber, elas já exercitavam o que passei a chamar de longelescência: aquela capacidade rara de equilibrar o peso da experiência institucional com o frescor da audácia juvenil. Aprendi com:

Graça Machado:  Que a liderança não permite que o processo esconda o ser humano. Ela ensina que, por trás de cada "problema", existe uma biografia. Ela dá rosto e significado às necessidades humana e soluções.

Maria Paula Aranha:
 Que a liderança que dados pedem temperatura afetiva, para não serem inertes. Ela transforma a planilha em partitura. Ela dá vida e emoção a projetos e desafios.

Eliane Mattioli:
  Que a liderança que não se deixa cegar pelo realismo cínico. Ela mantém o fogo aceso para que o futuro não seja apenas uma repetição do presente. Ela dá luz e magia ao impossível, ao "não pode, não dá".

Elas provavam que a alma não precisa envelhecer junto com o tempo de serviço; que a verdadeira longevidade profissional não se mede pelo tempo que ficamos no cargo, mas pela intensidade do vento que deixamos nas velas de quem vem com a gente. Como quem acende lampiões em noite escura, elas me ensinaram que liderança de verdade serve para iluminar travessias, renovar paisagens e ajudar a empurrar o mundo para um lugar mais justo. Exemplos de lideranças. 

Domingo de Carnaval com Gosto de Chá de Galinha

 


Têm domingos que a vida resolve te presentear. Não com fogos de artifício nem com grandes epifania;  mas com pastel de vento, ipê amarelo e uma história de galinhas que faz chorar de ternura.

Comecei o dia com uma frustração digna de nota: a barraca do bode com inhame tinha ido para a praia. Carnaval é carnaval, e até o bode merece férias. Fiquei ali, babando em frente ao portão fechado, como alguém que chega na festa e descobre que a festa foi embora. Mas a vida tem esses desvios que, às vezes, são mais ricos que o destino original.

Foi o desvio que me levou ao Seu Nino.

Seis garrafinhas pet multicoloridas na frente de uma pastelaria não são exatamente um convite sofisticado. Mas algo me disse: entra. E entrei. O suco de manga já foi uma declaração de amor. Mas o pastel — meu Deus, o pastel. Daqueles que se come a massa inteira sem precisar de recheio, porque a massa já é o milagre. O famoso pastel de vento, que não precisa de nada por dentro porque por fora já é completo. Como certas pessoas.

Seu Nino faz a própria massa. Não economiza em manteiga. Abre ali, na frente dos clientes, como quem não tem segredo a esconder — só amor a mostrar. Aprendeu com a mãe, que também tem ponto na Feira da Prata. E tem mais oito parentes com seus pontos espalhados por aquele território de cheiros e histórias. Uma família que fincou raízes num lugar e dele fez reino. Há quanto tempo o Brasil é feito dessa gente que a gente não vê nas manchetes?

Levei um pastel de queijo do coalho pra mamãe. Ela adorou. Claro que adorou.

Depois me lancei em direção a Puxinanã, porque sempre amei esse nome. Tem cidades que parecem ter sido batizadas por poetas em dia de inspiração. O caminho foi presente: ipês amarelos florescendo às beiradas da estrada como se a natureza tivesse decidido decorar o salão antes dos convidados chegarem. O clima meio chuvoso, daquele jeito que só quem nasceu no Nordeste sabe apreciar como bênção — como água no deserto, como notícia boa, como cheiro de terra molhada que a infância guarda dentro da gente.

Voltei. Ajeitei o almoço de mamãe. E me dirigi ao Ô Bar da Fava, a menos de dois quilômetros de casa, para comer uma faça com bode — porque domingo sem bode, no meu vocabulário afetivo, é texto sem ponto final.

Enquanto esperava o arroz de leite com bode, o Instagram me trouxe uma história que aqueceu a alma inteira.

Uma senhora de Hidrolândia, em Goiás, perdeu mais de quarenta galinhas na véspera de Ano Novo. Morreram de infarto — literalmente — perseguidas por cães. Não eram só galinhas. Eram galinhas com nome. Daquelas que a gente cria e que viram família sem cerimônia, sem contrato, sem que ninguém perceba a hora exata em que o bicho deixou de ser animal e virou afeto com penas.

Ela ficou inconsolável. Como se perde alguém.

Os amigos souberam. E, sem ela saber, organizaram um Chá de Galinhas.

No último final de semana, mais de quinze carros foram estacionando na frente da casa dela. Cada pessoa desceu carregando pelo menos um galináceo vivo — galos, galinhas, patos, assemelhados — todos com vida, todos com destino certo. Ela olhou pela janela e achou que alguém tinha morrido. Porque quando muita gente chega ao mesmo tempo, a primeira hipótese do coração é a má notícia.

Mas era o contrário. Era a vida chegando de braços abertos e de galo na mão.

Ela não se conteve. Chorou. Não acreditava.

Fiquei ali, comendo minha faça, olhando para a tela do celular com os olhos marejados, e pensei: quanta gente boa existe nesse mundo que a gente não vê.

Quem organizou o Chá de Galinhas. Quem doou. Quem foi levar. Quem abriu o galinheiro de casa e disse leva, ela precisa mais. Uma corrente de solidariedade que não dá ibope, não vira manchete, não tem hashtag viral — mas que recompõe o que foi perdido e ainda acrescenta juros de humanidade.

Sei que muita gente anda desencantada. E entendo. O noticiário às vezes parece uma curadoria do pior de nós. Mas o pior de nós não é a totalidade de nós.

Ainda existe o Seu Nino que não economiza em manteiga e ensina o filho com a mesma mão que aprendeu da mãe. Ainda existe o ipê amarelo que floresce sem pedir permissão na beira da estrada de Puxinanã. Ainda existe o cheiro de chuva no Nordeste como benção antiga. Ainda existe a senhora de Hidrolândia que chora de alegria abraçada a uma galinha desconhecida que virou símbolo de que não estava sozinha.

E ainda existe domingo de carnaval em que a barraca do bode fecha, e a vida te desvia para um pastel de vento que dissolve na boca — e te lembra que os melhores momentos quase sempre chegam pelo atalho que a gente não planejou.

Bel Marques, Ainda Estamos Aqui


O mundo aqui em Campina Grande é um cobertor molhado. Chuva fina, daquelas que canta no telhado como um sussurro de segredo, e o silêncio da tarde — pesado, mas calmo. Minha mãe, recobrando-se de uma cirurgia, dormita no sofá, e eu, de olho na janela, sinto o tempo deslizar devagar, quase triste. Até que o celular vibra, e é uma chamda de vídeo. 

Na tela, um caos colorido. Rodrigo e Andrezza, suados, sorridentes, com os olhos brilhando como se tivessem roubado um pedaço do sol de Salvador. O fundo é um mar de gente, um *vumbora* de cores, e a voz de Bell Marques ecoando: *“Que calor é esse?!”* Eles estão no bloco Vumbora, na Barra-Ondina, no sábado 14.
"Tá vendo, meu velho? Ainda estamos", grita Rodrigo, apertando o celular com uma mão, enquanto Andrezza, com o abadá roxo do bloco, acena com um "estamos vivos" que nem precisa de palavras. Na pequena janela do vídeo, minha cara — o sorriso de quem vê a vida fora do quarto — contrasta com a explosão da avenida. É como se o universo tivesse dividido a tela: um lado, a chuva de Campina; o outro, o fogo do Carnaval.  

Quem olha de fora, talvez diga: “Mas, cara, o início do ano é um caos! Dívidas, escola nova pro Laís, o Eduardo com dois anos… Eles tavam loucos?”. Talvez. Mas Rodrigo e Andrezza, há mais de dez anos, têm um ritual: ir pro Carnaval de Salvador. E em 2026, nada os pararia.  

A história é assim: contas apertadas, boletos da escola, a pressão de “serem pais de verdade” — como se isso significasse só trabalho e seriedade. Só que, no fundo, eles sabiam: se não forem, a vida vira um filme sem cor. Então, planejaram o impossível. Voo de madrugada, um dia só no bloco, e bate e volta: sem hotel, sem descanso. 

“É barril, meu irmão!”, escuto ao longe. A gente chicleteia a vida, ajusta as velas e vem!  

E é isso: *chicletear*. Não é só dançar, é segurar a vida com as duas mãos, mesmo quando ela escorrega.  

Naquela videochamada, o que mais me chamou? O olhar deles. Não era cansaço. Era triunfo. Enquanto eu, aqui, via a chuva cair, eles saboreavam cada segundo. O suor, o barulho, o “100% você” do Bell Marques — tudo virava combustível.  

É isso que a gente esquece: viver não é só sobreviver. A psicologia chama de savoring (saborear), mas, pra gente, é fazer do hoje um presente. Rodrigo, naquela multidão, não pensava no trabalho da segunda-feira. Andrezza, com o abadá colado no suor, não se punia por “deixar os filhos em casa”. Eles estavam ali. Só ali.  E sabe o que mais? Isso é resistência. Num mundo que quer que a gente viva desconexões, e maratonas de boletos, que sempre chegam, eles foram para o meio da rua e disseram: “Ainda estamos aqui”.  

E é verdade. Quanto mais a gente cuida da própria alegria, mais a gente ensina a família a viver. Porque, se os pais virarem fantasmas de somente de responsabilidades, os filhos aprendem que a vida é cinza. Mas, se os pais "chicletearem", mesmo com dificuldade, eles deixam um legado: “Nossa família não desiste”.  

Porque, no fundo, o Carnaval não é só folia. É resistência cultural. É dizer: “Apesar do mundo, eu vou dançar”.  

Hoje, naquela tarde cinzenta, eu entendi algo: a vida não espera a gente ficar pronto para ser feliz. Rodrigo e Andrezza não esperaram “melhorar as contas” pra ir pro bloco. Eles foram, mesmo com medo, mesmo com fadiga.  

E sabe o que isso traz? Energia. Cada acorde do Bell Marques, cada abraço na multidão, vai ser combustível para 2026. Porque, quando a gente saboreia, a alegria não some. Ela vira força.  

Agora, a chuva aqui em Campina Grande não parece mais triste. Pelo contrário: é até sonora, como um convite para dançar. Enquanto minha mãe dormita, penso naquela imagem: Rodrigo, com o abadá roxo, sorrindo pra câmera, e Andreza acomapanhando juntinho, gritando: Ainda estamos aqui!".  

A lição é simples: não deixe a vida virar um filme de quarto. Vá pro que faz seu coração acelerar. Mesmo que seja um bate e volta. Mesmo que chova.  

Porque, no fim, a gente não se lembra do que comprou. A gente se lembra do que viveu.  

E, como diz o Bell Marques: “Que calor é esse?”.  

É o calor de saber que, mesmo na lama, a gente ainda dança.  

Porque a vida é curta pra ser vivida só de boletos.

P.S.: A foto da videochamada? Guardo ela na memória. É a prova de que, mesmo na chuva, a gente pode ter um sol dentro do peito. E, se um dia você se sentir cansado, lembre-se: “Ainda estamos aqui”.  

A Traira, as Ovas e o Tufo de Cabelo Branco

 


Sábado tem cheiro diferente.

Não sei se é o ar, se é a luz que cai diferente sobre as coisas, ou se é só o coração que abre mais cedo. Mas sábado — especialmente sábado com feira — é um dia que já acorda com personalidade.

Saí cedinho. Campina Grande ainda estava sonolenta, mas o Mercado Central já fervia, do jeito que só lugar vivo ferve: aquele calor humano que não tem ar-condicionado que imite. Entrei pela rua das flores e fiz o que qualquer alma sensível faz — parei. Só parei. Deixei o perfume chegar antes de mim. Há um instante na vida que a beleza pede licença antes de entrar, e a rua das flores é assim: ela não grita, ela sussurra, e quem tem ouvido fino escuta.

Depois das flores, as lojas de mangaio. Couro. Barro. Corda. Madeira. E aquela categoria filosófica que só a feira nordestina sabe criar: o "pra que isso?". Um objeto de função misteriosa, de origem duvidosa, de preço irresistível. A feira é o único lugar do mundo onde você compra coisas que não sabia que precisava e vai embora convencido de que salvou o orçamento doméstico.

Mas eu tinha missão. Missão séria.

Traira.

Não qualquer peixe — traira. O peixe do Tio Naldo. Aquele que a Tia Cleó, com suas mãos de fada e seus segredos de cozinha que ninguém anota porque se souberem demais param de depender dela, faz de um jeito que não existe explicação científica. Só existe a fé de quem prova.

Desembarquei na rua dos peixes. Ali a feira abandona qualquer pretensão de delicadeza e vai direto ao ponto: cheiro forte, gelo, escamas voando, e feirantes que vendem peixe como se estivessem vendendo a última oportunidade da sua vida. "É hoje, moço! Só hoje!" — como se o universo inteiro dependesse dessa decisão, agora, aqui, nessa banca.

Achei as trairas. Duas. Um quilo e meio cada — que é, para quem entende, um peso de respeito numa traira. Gordas, lustrosas, com aquela cara atravessada que o peixe tem, mas que a gente aprende a amar porque o sabor perdoa tudo. Missão cumprida.

Mas aí estava o tambaqui.

Enorme. Descomunal. O tipo de peixe que você olha e pensa: esse aí viveu. Esse aí nadou muito antes de chegar aqui. Fiquei olhando pra ele como quem olha para uma obra de arte que não vai poder comprar, mas precisa apreciar.

Dei uma volta pelo mercado. Passei no centro de eventos — porque feira boa tem cultura junto, não adianta — comprei caju, pano de chão dos grandes (os de vergonha, aqueles que você dobra três vezes e ainda cobre o quintal), amendoim e abacate pra mamãe. E então comecei o que eu chamo de brincar de me perder.

Há uma arte nisso. Escolher um destino conhecido e chegar até ele por um caminho que você nunca tomou antes. Campina Grande foi crescendo, virando cidade grande, e eu fui ficando com meus caminhos habituais, minhas rotas de sempre, como quem mora numa casa grande mas dorme sempre no mesmo quarto. Dobrei esquinas que não conhecia. Encontrei ruas com nomes que ninguém lembra por quê. Feirinhas de bairro que são miniaturas da feira grande, com o mesmo espírito, a mesma alma, só que em escala de calçada. Bodegas sortidas com aquela organização que só faz sentido pra quem montou. Gente — e isso me encheu de uma alegria que não sei nomear — gente que ainda bota cadeira na calçada pra ver a vida passar.

Cadeira na calçada. Que invenção mais brasileira, mais nordestina, mais humana. A televisão chegou, o celular chegou, o streaming chegou. E tem gente que ainda prefere a calçada. Que ainda escolhe a vida ao vivo, sem legenda, sem pausa, sem pular pro próximo episódio.

Pelas oito da manhã, tentei adivinhar se tinha acertado a rua do Tio Naldo.

Doblei a esquina.

E de longe — lá estava ele.

Um tufo de cabelo branco. Algodão puro. Um senhor sentado na calçada como se tivesse sentado ali desde sempre, como se a calçada tivesse sido feita pra ele, com o bastão na mão e aquela postura de quem não precisa mais provar nada pra ninguém. Tio Naldo.

Ele me viu. Abriu um sorriso que foi da calçada até o telhado. Chamou a Cleó. Avaliou a mercadoria com seriedade de especialista — levantou, olhou, aprovou. E aí, como quem revela um segredo de Estado, disse que eu tinha comprado a ova do peixe também, e que ova de traira no leite de coco fica uma coisa que não existe na literatura gastronômica mas deveria.

Fiquei ali parado na calçada, com o peixe na mão e quarenta anos de saudades, desde que um dia me mudei para aquele território, quando tinha 21 anos. 


A casa do Tio Naldo fazia divisa com a da Vovó pelos fundos. E a da Vovó era colada na nossa. Então a gente vivia numa espécie de república afetiva acessada pelos quintais, como se as paredes fossem só sugestão. Saía de casa, filava um petisco na cozinha da Vovó — que sempre tinha algo no fogo, porque Vovó acreditava que cozinha vazia é sinal de alguma coisa muito errada no mundo — chamava o Tio e formávamos o trio. Sentados na cozinha dela, ouvindo ela se alegrar com a gente ali.

Tio Naldo achava que eu não batia bem da cabeça. Dizia, rindo, que eu era agitado. Hoje eu sei que era. Mas naquela época, há quarenta anos, não tinha TDAH — era só "jeito de ser do menino". E no fundo era um jeito doce de me acolher, porque agitado ou não, eu era dele também.

Tinha dias que convocávamos a Vovó e invadíamos a cozinha da Tia Cleó. Que sempre tinha algo bacana. Cleó tem mãos de fada, já disse — mas mãos de fada com especialidade em pescados e carnes de molho, o que é uma bênção particular numa família de gente que come direito.

Pelas onze horas era meio-dia. E chegava meu pai.

Aí o time estava completo. Um pai, um tio, uma tia, uma avó e muitas prosas. Era um tempo em que os boletos estavam nos vencendo — e quem não viveu isso que não jogue a primeira pedra — mas que naquele momento a gente conseguia botar os boletos de lado e sentar junto. Fortalecia, sabe? As pelejas que um tinha vencido alimentavam a coragem do outro pra vencer as suas.

Chegava o Marcelo, filho do Tio Naldo. Chegavam os meus, trazidos pela Joane — o Tiago, a Priscila, e o Rodrigo ainda na barriga da mãe. E acontecia aquele milagre que só casa de pobre conhece: brotavam lugares. Cadeiras de não sei onde, pratos que multiplicavam, espaço que se expandia. Casa de pobre é igual a fusquinha — cabe todo mundo e ainda sobra lugar pra quem chegar depois.

A Vovó então começava a contar as vezes que tinha acordado de noite pra tangir os gatos, que queriam pegar os pintinhos das galinhas que tinham acabado de ser mães também. E do quanto o galo dela estava bonito. Eu contava as aventuras do Sítio Samambaia — que a gente tocava com meu pai aqui pertinho —, da criação de abelhas que foi invadida por calangos, do dia que cacei umas rãs na beira de um charco e fiz a Joane tratar, sem contar que eram rãs, deixando ela imaginar que eram pássaros.

Ela só descobriu na hora que foi servir.

Me jurou de morte. Com toda razão. E com todo nojo.

O Tio Naldo ria desse jeito dele, de quem acha graça mas não quer perder a seriedade.


Daqui a uma hora volto pra lá.

Vou me sentar à mesa deles e me deixar acontecer. Vou olhar pro meu tio, que lembra tanto meu pai — os gestos, o sorriso, aquela forma de receber as pessoas que é quase uma oração. Vou comer traira com ovas no leite de coco, caju e amendoim. Vou ouvir histórias que já sei de cor mas que toda vez parecem novas, porque história boa é assim: envelhece bem, como vinho bom.

Uma pessoa tem que ter histórias pra contar. Mas pra isso precisa ter prestado atenção.

E prestar atenção é uma arte. Um exercício espiritual, quase. Num mundo que vive o amanhã da ansiedade ou o ontem das frustrações, parar no presente — no presente divino, que é o único lugar onde a vida de fato acontece — exige uma decisão que parece simples mas não é.

Mas quando você presta atenção, você vê. Você vê o tufo de cabelo branco do Tio Naldo de longe e já sabe que chegou em casa. Você sente o cheiro das flores antes de vê-las. Você ouve a senhora anunciando a galinha caipira e entende que ali está alguém que também tem uma história. Você olha pra um tambaqui enorme e pensa: esse aí viveu.

A luz da manhã descongelava as esperanças tardias da cidade. Eu andava pelas ruas novas que não sabia que existiam na minha própria cidade, e pensava: quantas coisas a gente não conhece do que é seu? Quantas ruas estão esperando que a gente dobte uma esquina diferente?

Aquele território onde eu cresci — eu, o Tio Naldo e a Vovó nas casas quase geminadas, acessadas pelos quintais como se tivéssemos combinado isso desde sempre — era um tesouro de afetos.

Todo dia a gente dizia, sem dizer, aquilo que talvez seja a coisa mais bonita que um ser humano pode dizer pro outro:

Ainda estou aqui.

Pode entrar.

A casa é sua.


E a traira? Estava ótima.
As ovas no leite de coco, então, não têm palavras.
Mas isso — isso você terá que acreditar em mim.





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