Sextou, vamos jogar frescobol? ( Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Tenho pensado numa certa pessoa. Daquelas que não sabem mais falar com ninguém sem cortar.

É como se estivesse em guerra permanente com o mundo.

A conversa com ela parece uma partida de tênis de mesa. Você joga a bola e ela rebate. Só que não rebate para você conseguir devolver. Rebate para derrubar. Para colocar a bola num lugar impossível de alcançar. Para ganhar o ponto.

No frescobol é diferente.

A gente joga a bola para o outro conseguir devolver. Quanto melhor eu rebater, maior a chance de você continuar no jogo. Preciso prestar atenção em você. Na sua força. No seu jeito de jogar. Na distância. Preciso querer que a brincadeira continue.

Talvez seja assim que eu gostaria de entender o diálogo entre duas pessoas.

A bola é a interação. A palavra vai e volta. Uma pessoa fala, a outra recebe. A outra responde e a primeira recebe de volta.

Mas existem pessoas que desaprenderam o frescobol relacional.

Estão sempre certas. Têm uma verdade inabalável sobre tudo e sobre todos. Sabem como os outros deveriam viver, pensar, educar os filhos, cuidar dos netos, trabalhar, amar, gastar dinheiro, frequentar igreja, cuidar da saúde.

No tempo em que trabalhei no banco, convivi com gente assim. Perto delas o diálogo virava monólogo. Não aceitavam o contraditório. Não aceitavam pensamento divergente.

Ficavam numa postura agressiva, querendo mudar o outro. Alguma coisa nelas se incomodava com o diferente.

E partiam para o ataque. Querendo subjugar. Oprimir. Dominar o outro pela força dos argumentos.

E criticam. Criticam demais.

São capazes de cometer sincericídios com a tranquilidade de quem toma sorvete, languidamente, sentado num banco de praça.

Falam tudo que pensam. Na hora que pensam. Do jeito que pensam. E ainda acreditam que estão apenas sendo sinceras.

A palavra vira uma lâmina. Às vezes vem embrulhada num conselho. Às vezes vem acompanhada de uma preocupação. Às vezes vem com aquele velho "estou falando para o seu bem". Mas chega no outro como uma pancada. Como uma acusação. Como um julgamento. Como uma condenação.

E há palavras que arruínam a autoestima de uma pessoa.

O mais curioso é que quem falou pode esquecer cinco minutos depois. Vai tomar café. Vai dormir. Vai cuidar da própria vida. Só que quem ouviu pode carregar aquela frase durante anos.

Essa é uma das coisas que mais me impressionam nas relações humanas. Uma pessoa pode esquecer em minutos aquilo que disse como arma. A outra pode lembrar durante anos aquilo que recebeu como facada.

E quando isso acontece muitas vezes, a pessoa vai se afastando aos poucos, sem alarde.

O filho liga menos. O neto fica menos tempo. A nora pensa antes de falar. O genro muda de assunto. O amigo começa a aparecer menos.

E ninguém quer conversar sobre o motivo. Porque conversa difícil ninguém gosta de ter. Então todo mundo vai se afastando um pouquinho. Até que um dia aquela pessoa se pergunta por que está tão sozinha.

O tempo de vida dá mais leituras, mais estradas andadas, mais aquele "esse filme eu já vi" solto na ponta da língua.

Mas isso não é passaporte pra ninguém virar semideus. Não dá o direito de sentar num trono e sair distribuindo crítica ácida pra tudo e todos, como quem se acha superior.

A idade não nos dá o direito de dizer tudo que vem à cabeça.

Não é porque envelhecemos que ganhamos licença para ofender. Não é porque vivemos mais que sabemos mais sobre a vida dos outros. Não é porque temos experiência que precisamos dar opinião sobre tudo.

Isso não é sabedoria. Pode ser apenas uma velhice chata. Amarga. Rabugenta e espinhenta. Daquelas em que ninguém quer ficar muito perto porque sabe que, numa conversa de meia hora, alguma coisa vai sair machucada.

E isso acontece até quando a pessoa precisa de cuidados. Vai ao médico e briga. Vai ao hospital e reclama. Trata mal quem está trabalhando. Acha que está num hotel e que todos estão ali para servi-la. Esquece que do outro lado existe uma pessoa. Uma pessoa que também tem seus problemas, seu cansaço, suas dores e suas limitações.

Falta humildade. Falta respeito. Falta compaixão. Falta empatia. Falta um pouco de chá de semancol.

Se tem uma coisa de que eu me afasto, numa roda de amigos longevos, é esse tipo de 60+ que tem lição pronta pra tudo na vida. Que sabe tudo. Que não aceita outro ângulo de olhar. Que não conversa, discute, como se estivesse numa assembleia sindical.

Aí eu calo. E me afasto.

Não quero essa energia pro meu viver. Gente prepotente demais. Vaidosa demais. Arrogante demais. E sabida demais.

Deus me livre de ficar assim.

Eu quero ser um velhinho que as pessoas gostem de ter por perto. Quero que tenham vontade de chegar. De sentar. De conversar. De tomar um café comigo. Quero ter boa prosa. Quero rir. Quero ouvir histórias. Quero aprender coisas que ainda não sei.

E quero aprender uma coisa que considero cada vez mais importante: mesmo quando eu estiver certo, talvez não seja preciso dizer. Pode não ser a hora. Pode não ser o lugar. Pode não ser necessário.

E talvez essa seja uma das maiores sabedorias que podemos aprender com o tempo. Saber que nem toda verdade precisa sair da nossa boca.

Meu pai era assim.

Ele era do reino das delicadezas. Das gentilezas. Da mansidão. Era bom de coração e tinha uma paciência bonita com as desconformidades das relações. Não precisava ganhar todas as conversas. Não precisava corrigir todo mundo. Não precisava mostrar que sabia mais.

Eu queria ser como ele. Será que é pedir muito?

Também queria que me ajudassem. Se um dia perceberem que estou ficando amargo, chato, arrogante, cheio de uma verdade sobre tudo e incapaz de conviver com as verdades dos outros, me digam. Quero que me digam. Mesmo que eu não goste de ouvir. Quero ser ajudado a mudar de rota.

Porque talvez muita gente vá ficando assim simplesmente porque ninguém nunca parou para dizer. E ninguém diz. A família evita. Os amigos deixam para lá. Os filhos preferem não comprar briga. E a pessoa vai ficando cada vez mais convencida de que o problema está sempre nos outros.

Eu não quero ser catequista de ninguém. Não quero ser fiscal de crenças, atitudes, escolhas ou jeito de viver. Não quero passar a velhice tentando ensinar os outros a viverem dentro dos meus enquadramentos.

Cansei dessa disputa de egos. Dessa necessidade de provar que eu sou o mais certo e o outro é o mais errado.

Quero jogar frescobol relacional. Quero uma conversa em que a bola volte. Quero conseguir discordar sem transformar a discordância numa briga. Quero ouvir alguém pensando diferente de mim e ter curiosidade para entender como aquela pessoa chegou até ali. Quero aceitar que alguém pode fazer uma escolha que eu jamais faria. Pode pensar de um jeito que não cabe na minha cabeça. Pode enxergar a vida por outra janela. E está tudo bem.

Não preciso concordar para respeitar. Não preciso convencer para conviver. Não preciso ganhar para continuar jogando.

Talvez seja esse o tempo que quero para minha velhice. Um tempo de acolhimento. De paz. De boa prosa. De aprender com o diferente. De rir das minhas próprias certezas. De reconhecer que algumas coisas que eu achava tão importantes ontem hoje já não têm tanta importância assim.

Quero chegar lá mais leve. Sem carregar uma mala cheia de verdades sobre os outros. Quero carregar mais delicadezas. Mais paciência. Mais curiosidade. Mais vontade de estar junto.

E quando a bola vier até mim, quero me lembrar do frescobol. Não quero rebater para derrubar. Quero devolver para que o outro consiga continuar jogando comigo.

A sineta dos três toques (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Ontem eu tinha uma programação. Iria visitar meu filho Rodrigo. Fui até a casa dele, mas Rodrigo não estava. A visita não aconteceu.

Voltei para casa e, na minha cabeça, já tinha reprogramado. Tudo bem. Hoje seria a segunda tentativa.

Até que apareceu no Instagram um convite para um show naquela noite. David Coelho, Tudo Vira MPB, no Teatro dos Bancários.

Olhei. Pensei por alguns segundos.

Por que não?

E comprei o ingresso.

Foi assim, meio sem cerimônia, que uma visita frustrada ao meu filho me levou, pela primeira vez, a um teatro que também é parte da minha própria história.

Eu poderia ter mantido a programação original e ido de novo à casa do Rodrigo. Mas alguma coisa em mim está em obra. E dessa vez apareceu uma possibilidade que era só minha.

Um show. Uma cadeira. Uma noite. Eu. Sozinho.

Venci o cansaço do pós-treino. Tomei banho e vim. Venci o trânsito do fim de tarde. E aqui estou.

No Teatro dos Bancários. Minha primeira vez aqui.

E isso tem uma graça especial. Fui bancário por muitos anos. Me aposentei em dezembro de 2016. A vida foi me levando para outros trabalhos, outras histórias, outros territórios. E esse teatro, que também era meu por direito, foi ficando guardado para um amanhã possível.

Hoje eu entrei. Sozinho. E estou adorando a experiência.

Já está pago. E muito bem pago.

Olho para o palco, a luz sobre ele, as cadeiras, o movimento de gente chegando, o burburinho dos meus vizinhos. Tudo me chama a atenção.

Parece que em minha vida eu sempre estive no palco. Palestrando. Gerenciando. Dando aulas. Sendo pai, esposo, filho. Resolvendo, explicando, cuidando, conduzindo.

Hoje não. Hoje eu posso apenas sentar na plateia. Não preciso fazer nada. Só curtir um show.

E tem uma coisa engraçada: quando comprei o ingresso, nem prestei atenção em quem era o cantor. Só depois, já aqui, fui olhar direito. David Coelho. Tudo Vira MPB.

Não fiz planejamento. Não procurei companhia. Não esperei alguém dizer vamos. Vi uma possibilidade e pensei: por que não? E fui.

Antes, eu provavelmente ficaria olhando para os casais, as famílias, os enamorados. Talvez procurasse, sem perceber, aquilo que eu tinha e aquilo que me faltava. Compararia. Mediria. Inventaria histórias para mim a partir da vida dos outros.

Hoje não. Hoje eu olho para o palco. Estou ansioso pelo espetáculo, sem tempo nem vontade de me comparar com meus vizinhos de plateia.

Cada um vive sua noite. Eu estou vivendo a minha. E isso me basta.

Pela primeira vez, talvez, não estou sentado numa plateia olhando para a vida dos outros. Estou sentado na minha própria vida.

E tem outra coisa que percebo esta noite: não quero que Ana fique narrando a vida dela para mim online, enquanto eu narro a minha para ela. Não quero ficar de sobreaviso, esperando mensagem, foto, notícia, reação. Não quero transformar esta noite num namoro à distância, cada um mandando boletim do próprio espetáculo.

Ela está no show dela. Eu estou no meu. E está tudo bem.

Não preciso saber a cada instante o que ela está fazendo. Também não preciso contar a cada instante o que estou fazendo.

Aqui, sou só mais um sujeito na plateia. Um cara que comprou seu ingresso, veio até o teatro e quer assistir a um belo show. Sem prontidão. Sem aquela sensação de que preciso estar disponível caso alguma coisa aconteça.

Hoje não estou esperando Ana voltar pra conversa. Ela pode viver a noite dela. Eu, a minha. Não é distância, não é frieza, não é desinteresse. É cada um podendo estar inteiro onde está.

Na Paraíba, em João Pessoa, Ana está, neste exato momento, no show do Peninha. Ela está lá. Eu estou aqui. E está tudo bem.

Passo o olho pela plateia e encontro outra pessoa sozinha, no meio de umas duzentas que estão por aqui. Pronto. Já não sou o único. Rsrs.

E percebo uma coisa simples, mas que para mim tem tamanho enorme: não existe placa na porta dizendo que só entra acompanhado. Não existe regra dizendo que uma pessoa sozinha precisa explicar por que está sozinha.

Esse medo de ser notado, de virar comentário, de que alguém vá reparar, é muito mais meu do que do mundo. Uma crença. Uma lente velha.

Hoje tirei os óculos do medo e coloquei os olhos da curiosidade.

Escuto a primeira sineta. Faltam dez minutos.

Meu Deus, há quanto tempo eu não ia a um teatro. Muito tempo. E que bom reencontrar esse som. Nem lembrava que sentia falta dele.

As pessoas se ajeitam, a conversa diminui, existe uma expectativa no ar. Daqui a pouco as luzes baixam e o palco, que até agora esperava, começa a acontecer.

Talvez seja isso que esteja acontecendo comigo esta noite. Não estou apenas descobrindo um teatro. Estou reencontrando coisas pequenas que a vida foi deixando pelo caminho: uma sineta, uma cadeira de plateia, o burburinho antes do espetáculo, a luz sobre o palco, a música que ainda não começou.

E eu aqui. Sozinho. Muito bem acompanhado de mim.

Talvez eu esteja aprendendo a sair da toca. E sair da toca nem sempre significa correr para algum lugar. Às vezes é só atravessar uma porta.

Hoje atravessei a porta de um teatro que sempre esteve perto de mim. E descobri que ainda existem muitos lugares da minha própria cidade que eu nunca habitei. Parques, museus, cinemas, feiras, igrejas, shows, exposições, ruas, praças. Lugares onde ainda posso chegar sozinho ou acompanhado. Lugares onde posso simplesmente estar.

Talvez eu tenha passado tempo demais na plataforma de embarque, olhando para a próxima viagem, o próximo encontro, o próximo lugar. Mas existe uma cidade inteira acontecendo enquanto eu espero. E eu não quero mais esperar a vida começar em outro lugar.

Preciso desarrumar as malas. Descobrir o território daqui. Apropriar-me dos espaços. Neles também habitar.

O palco está iluminado. A sineta já tocou. A plateia se ajeita. E agora toca a campainha dos três toques.

Hora de parar de teclar. As luzes se apagam. Vai começar o espetáculo.

De repente não existe mais mensagem para responder, foto para mandar, notícia para acompanhar. Só o palco, a música prestes a começar, e eu, sentado aqui, inteiro na minha noite.

O tema da noite era o amor. Cada canção, um jeito diferente de amar. O que chega. O que dói. O que dura. O que se vai. Uma voz suave, um violão que sabia a hora de correr e a hora de esperar. Um passeio por todos os ritmos do amor.

Do meu lado, um senhor de uns setenta e poucos anos não estava ali para ver o show. Estava ali para contar a própria vida. Trouxera uma moça, uns quarenta e cinco. Antes de as luzes se apagarem, já tinha puxado um álbum de fotos e ficava mostrando, uma por uma, para ela. Não sei que relação os unia. Não estavam de mãos dadas.

A cada canção que tocava alguma lembrança nele, ele parava, respirava fundo e começava a discorrer, em voz grave, sobre o que aquele acorde tinha a ver com a sua história.

Ela olhava para a frente. Visivelmente sem jeito. Um olhar que dizia vamos assistir ao show, sem nunca dizer isso em voz alta. Não respondia enquanto ele cantava por dentro a própria vida. Só esperava.

A voz grave dele ia e vinha, intercalada por minutos exatos de silêncio, como se ele soubesse até onde podia invadir a canção antes de se calar de novo. Mas ele precisava falar. Alguma coisa naquelas letras estava batendo forte demais para ficar guardada.

Na minha frente, um casal que antes eram duas torres virou uma coisa só. Cabeças deitadas, uma sobre a outra, um amálgama tranquilo, sem pressa, sem palavra nenhuma.

Em um momento, o cantor perguntou quem ali já tinha sofrido de amor. Só uma mão se ergueu. Muita exposição para nós, de Brasília, assumirmos. Rsrs. Lá na minha Paraíba teria sido mão erguida em bloco. Aqui somos mais comedidos. Ele insistiu, tentou provocar de novo, e mais uma mãozinha tímida se levantou. Sua provocação não deu o mote que ele esperava. Ninguém quis assumir, em praça pública, o que todo mundo ali já tinha vivido. Inclusive eu. Ter um dia sofrido por amor. Quem nunca?

O cantor é dos bons. Canal no YouTube com milhões de seguidores, músicas próprias, um jeito de cantar que enche uma casa. E encheu. Teatro lotado, plateia atenta, quase reverente, todo mundo mergulhado no mesmo rio, cada um com sua própria correnteza por dentro.

Exceto a voz grave do meu lado.

Mas ele precisava falar.

E eu, sozinho na minha cadeira, olhando aquele senhor que não conseguia calar a própria história, aquele casal que virou um só, aquela moça constrangida entre o show e o silêncio que devia guardar, penso que cada um ali carregava um jeito diferente de amar ou de precisar ser ouvido. Ninguém igual a ninguém. E eu, no meio disso tudo, sem ninguém do meu lado, também carregando o meu.

Na penumbra do encantamento dos sons, começo a balançar sozinho. Primeiro quase sem perceber. Depois mais solto. Dançando sentado nessa cadeira. Meu corpo acompanha a música antes que eu consiga pensar sobre ela.

E eu sorrio. Sozinho. Sem medo de parecer estranho. Sem medo de ser visto. Sem medo do amanhã.

Talvez a felicidade também seja feita desses pequenos momentos em que a gente deixa de se vigiar.

A música toca. Eu balanço. A cadeira é minha pista de dança. O palco é meu horizonte.

Ana está no show dela. Eu estou no meu. E por alguns minutos não existe nada para resolver, nada para explicar, nada para esperar.

Só música. Só presença. Só esta noite.

E uma sensação boa, muito boa, de que ainda há tanta coisa para viver.

Sem medo do amanhã. E, principalmente, sem medo de ser feliz.


16 Mandamentos de Como Ser um Sogro ou uma Sogra Legal (por Ricardo de Faria Barros, sogro e psicólogo)


Um pequeno código de conduta para futuros sogros e sogras — e também para aqueles que já ocupam esse lugar

Ninguém prepara a gente para criar os filhos.

Não existe manual de instrução.

Vamos aprendendo enquanto eles crescem. Erramos, acertamos, improvisamos, fazemos o melhor que conseguimos com o conhecimento, os valores e o mundo que temos naquele momento.

Depois eles crescem.

Apaixonam-se.

Casam.

E começam a construir uma família que já não é exatamente a nossa.

E talvez aí comece uma das tarefas mais difíceis da maternidade e da paternidade.

Desmamar do adulto, do filho que cresceu 

Porque existe um cordão umbilical que não aparece em exame nenhum.

É feito de lembranças, preocupação, medo, saudade, hábito e apego.

Ainda enxergamos aquele homem como o menino que precisava da nossa mão.

Ainda enxergamos aquela mulher como a menina que corria pela casa.

E, quando percebemos, estamos querendo continuar cuidando deles como se ainda tivessem dez anos.

“Você está muito magro.”

“Você engordou.”

“Essa roupa não está boa.”

“Seu marido precisa tratar você melhor.”

“Sua mulher está diferente.”

“Vocês estão se afastando dos ensinamentos que receberam.”

“Eu não faria isso.”

“Esse investimento é uma loucura.”

“Vocês estão educando os filhos errado.”

“Essa casa ficaria muito melhor se vocês fizessem assim.”

E vamos entrando.

Entrando.

Entrando.

Quase sempre chamando isso de amor.

Mas nem todo cuidado é amor.

Às vezes é apego.

Às vezes é medo. É terapia ocupacional de se ocupar com a vida dos filhos.

Às vezes é dificuldade de aceitar que o filho cresceu.

E existe ainda outro complicador.

A aposentadoria.

Quando o trabalho acaba, algumas pessoas ganham tempo.

E esse tempo pode ser maravilhoso.

Pode ser usado para viajar, ler, cultivar plantas, fazer amigos, dançar, estudar, cuidar da saúde, escrever, cozinhar, aprender coisas novas.

Mas pode acontecer uma coisa perigosa.

O tempo que ficou vazio começa a ser preenchido pela vida dos filhos.

Aí o investimento deles vira assunto.

A reforma vira assunto.

A educação dos netos vira assunto.

As escolhas do casal viram assunto.

As brigas viram assunto.

As burradas viram assunto.

Os fracassos viram assunto.

E, de repente, quem não sabe muito bem o que fazer com as próprias horas começa a trabalhar em tempo integral na administração da vida dos filhos.

Sem salário. 

Sem crachá.

E sem ter sido contratado.

Tudo em nome do amor.

Por isso, talvez esteja na hora de estabelecermos um código.

Não um código para controlar os filhos.

Um código para controlar a nós mesmos.

1. Não somos fiscais da vida dos nossos filhos

Não somos fiscais do dress code.

Nem da fé.

Nem da opção política.

Nem dos amigos.

Nem do lazer.

Nem da cultura.

Nem dos hobbies.

Nem do corpo.

Nem dos cabelos.

Nem da orientação sexual.

Nem da profissão.

Nem dos investimentos.

Nem da decoração.

Nem da cor do piso da reforma.

E, principalmente, não somos fiscais do casamento deles.

Se não gostamos da roupa, respiramos.

Se não gostamos da decoração, respiramos.

Se não concordamos com a escolha, respiramos.

Nem toda coisa que nos incomoda precisa ser corrigida por nós.


2. Seu genro ou sua nora não precisa ser uma cópia sua

Seu genro ou sua nora não precisa torcer pelo seu time de futebol, frequentar sua igreja, votar no seu candidato, gostar das suas músicas, ter os mesmos hobbies ou curtir as mesmas coisas que você para ser aceito.

Pode pensar diferente.

Pode acreditar diferente.

Pode se divertir de outra maneira.

Pode ter outros amigos.

Pode enxergar a vida por outro ângulo.

Não é preciso concordar para respeitar.

Seu genro ou sua nora não entrou na família para se transformar numa cópia sua.

É a pessoa que seu filho escolheu para dividir a vida.

E respeitar essa escolha é também respeitar o próprio filho.

Aceitar não significa concordar com tudo.

Significa reconhecer que o outro tem direito de ser diferente sem precisar pagar por isso com rejeição, ironia, crítica ou tentativa permanente de convencimento.

Não precisamos gostar de tudo nele. Precisamos aprender a gostar dele.


3. O genro e a nora não estão fazendo estágio para entrar na família

Eles não precisam passar por uma banca examinadora.

Não precisam provar que são bons o suficiente.

Não precisam se vestir como gostaríamos.

Pensar como pensamos.

Ter a nossa fé.

Gostar das nossas músicas.

Seguir nossos costumes.

Eles precisam apenas ser respeitados.

E, quando possível, acolhidos.

Nosso genro ou nossa nora não veio para ser nosso segundo filho.

Muito menos para receber uma nova educação.

Veio para amar nosso filho.

E isso já deveria ser motivo suficiente para começarmos a construir uma relação de respeito.


4. Antes de dar uma opinião, pergunte a si mesmo: “Fui chamado?”

Essa pergunta pode evitar muita confusão.

Se perguntaram, fale.

Se pediram ajuda, ajude.

Se pediram conselho, aconselhe.

Mas, se ninguém perguntou, talvez seja melhor guardar a opinião no bolso.

Experiência não dá direito de mandar.

Idade não transforma opinião em verdade.

E ser pai ou mãe não significa continuar tendo a palavra final.

Às vezes, o melhor conselho é aquele que não demos.

5. Não transforme preferência em regra

Uma mãe pode gostar de vestido.

Isso não significa que a nora precise usar vestido.

Um pai pode acreditar que determinado investimento é melhor.

Isso não significa que o filho tenha que investir daquela maneira.

Uma família pode ter determinada fé.

Isso não significa que o casal precise reproduzi-la.

“Eu faria diferente” é uma frase legítima.

“Você tem que fazer diferente” já é outra coisa.

Temos direito às nossas preferências.

Eles têm direito às deles.

E uma família saudável não precisa ser formada por pessoas que gostam das mesmas coisas.

Precisa ser formada por pessoas que sabem respeitar suas diferenças.

6. Cuidado com os comentários sobre o corpo

“Você está muito magro.”

“Você engordou.”

“Está acabada.”

“Está muito velha para usar isso.”

“Essa roupa mostra demais.”

São frases que podem parecer pequenas para quem fala.

Mas o corpo é uma das áreas mais vulneráveis de qualquer pessoa.

E sogro e sogra não precisam transformar o almoço de família em consultório de avaliação corporal.

Se a pessoa não pediu sua opinião sobre o corpo, guarde-a.

Há coisas que simplesmente não precisam ser ditas. Vale também para a orientação sexual de nossos filhos.

Uma roupa pode sair de moda.

Um corpo pode mudar.

Mas uma palavra cruel pode permanecer na memória por muitos anos.

7. Não use “eu só quero o seu bem” como autorização para invadir

É possível querer muito bem a alguém e ainda assim ultrapassar seus limites.

Amor não dá licença para invasão.

Cuidado não dá procuração para administrar a vida alheia.

E dizer “eu sou assim mesmo” não apaga o efeito daquilo que dissemos.

Quem fala conhece a própria intenção.

Quem escuta sente o impacto.

Uma frase que dura cinco segundos na nossa boca pode ficar anos na memória de outra pessoa.

Antes de falar, talvez valha perguntar:

Isso vai ajudar ou apenas vai machucar?


8. Não entre nas brigas do casal

Essa talvez seja uma das regras mais importantes.

O filho liga chorando.

Conta uma discussão.

Fala mal da mulher.

A filha liga.

Conta uma briga.

Fala mal do marido.

E o pai ou a mãe imediatamente toma partido.

“Você está certo.”

“Ela está errada.”

“Eu nunca gostei dele.”

“Eu avisei.”

Parece proteção.

Mas pode ser uma armadilha.

Porque a briga passa.

O casal se reconcilia.

E nós continuamos com a opinião que construímos sobre aquele genro ou aquela nora.

Às vezes, o casal consegue resolver uma crise em dois dias.

Mas o sogro ou a sogra que entrou no meio pode levar anos para reconstruir a relação.

O casal precisa ter o direito de brigar e fazer as pazes sem carregar a família inteira para dentro da discussão.

Se houver violência, abuso ou uma situação grave, é claro que silêncio não é proteção.

Mas, nas dificuldades comuns de uma relação, talvez seja melhor oferecer escuta do que julgamento.


9. Não coloque nossos filhos contra seus companheiros

Quando criticamos constantemente o marido ou a mulher de um filho, colocamos nosso próprio filho diante de uma escolha impossível.

“Ou você fica do nosso lado ou fica do lado dele.”

Isso é cruel.

Ele não deveria precisar escolher.

O ideal é que possa amar o pai e a mãe e também amar sua mulher.

Que possa amar a família de origem sem precisar abandonar a família que construiu.

Amor não deveria exigir torcida organizada.


10. Não somos coaches da educação dos nossos netos

Não existe manual de instrução para criar nossos filhos.

Nós fomos aprendendo enquanto eles cresciam.

Erramos.

Acertamos.

Improvisamos.

Fizemos o que podíamos com o conhecimento, os recursos e o mundo que tínhamos naquela época.

E agora eles estão criando os filhos deles.

Só que o mundo mudou.

O que funcionou na nossa época talvez não funcione na época deles. E está tudo bem.

Eles também vão aprender.

Vão observar outros pais e mães que vivem situações semelhantes.

Vão trocar experiências.

Vão conversar com amigos.

Vão pesquisar.

Vão errar.

Vão acertar.

Vão descobrir seus próprios caminhos.

Às vezes, vão aprender até por osmose, simplesmente convivendo com outras famílias e percebendo o que funciona e o que não funciona.

Nós podemos ajudar quando formos chamados.

Podemos contar uma experiência.

Podemos dizer como fizemos.

Podemos oferecer uma mão quando houver necessidade.

Mas existe uma diferença enorme entre compartilhar experiência e assumir o volante.

Sogro e sogra não são coaches da educação dos netos.

Não precisamos corrigir cada escolha.

Não precisamos comparar.

“Na minha época era assim.”

“Eu criei vocês desse jeito.”

“Se fosse meu filho, eu faria diferente.”

Pode ser que fizéssemos mesmo.

Mas nossos filhos não receberam a missão de repetir a nossa vida.

Eles receberam a missão de construir a deles.

E os netos também precisam ter pais que possam descobrir, com liberdade e responsabilidade, que tipo de pai e mãe querem ser.

Nosso lugar pode ser maravilhoso.

Ser colo. Ser apoio. Ser presença. Ser aquele porto onde se pode chegar sem medo de receber uma bronca.

Porque ajudar é bonito.

Interferir em tudo é cansativo.

E existe uma diferença entre oferecer uma lanterna para iluminar um caminho e querer escolher o caminho por eles.

Os filhos são deles. Os netos são deles.

E nós?

Nós podemos ser aquela presença boa que chega para somar.

Sem disputar.

Sem competir.

Sem dar aula.

Sem transformar cada almoço de família em uma reunião pedagógica.

Afinal, nossos filhos também precisam aprender a ser pais.

E talvez uma das maiores provas de que fizemos um bom trabalho seja justamente esta:

conseguir confiar neles quando já não somos nós que estamos segurando suas mãos.


11. Não use o tempo livre para ocupar a vida dos outros

Essa talvez seja especialmente importante depois da aposentadoria.

Se o nosso trabalho terminou, não significa que nosso novo trabalho seja acompanhar a vida dos filhos.

Arrume uma atividade.

Viaje.

Faça amigos.

Aprenda alguma coisa.

Cuide do jardim.

Dance.

Leia.

Namore.

Escreva.

Fotografe.

Ore.

Faça qualquer coisa que faça seu coração trabalhar.

Mas não transforme a vida dos filhos em emprego de tempo integral.

Eles já têm uma vida para administrar. Nós também precisamos ter uma.


12. Deixe os filhos cometerem suas próprias burradas

Eles vão errar.

Vão perder dinheiro.

Vão fazer escolhas ruins.

Vão trocar de emprego.

Vão terminar relacionamentos.

Vão começar outros.

Vão comprar coisas que não deveriam.

Vão educar os filhos de maneiras que talvez discordemos.

E isso faz parte da vida.

Uma das coisas mais difíceis para um pai é assistir ao filho cometer um erro que ele poderia evitar.

Mas nem todo erro precisa ser evitado por nós.

Às vezes, o filho precisa viver a consequência para aprender.

Não podemos viver a vida deles por procuração.

Podemos ensinar o vento.

Podemos mostrar onde estão as pedras.

Podemos oferecer uma lanterna.

Mas o caminho precisa ser deles.


13. Peça desculpas de verdade

Sogros erram.

Sogras erram.

Pais erram.

Mães erram.

Quando errar, não diga apenas:

“Você sabe que eu sou assim.”

Diga:

“Eu errei.”

“Eu não deveria ter falado isso.”

“Entendo que machuquei você.”

“Vou tentar não repetir.”

Desculpa verdadeira não é uma borracha para apagar a consequência.

É uma decisão de mudar o comportamento.

E, às vezes, um pedido de desculpas sincero faz mais pela aproximação de uma família do que anos de justificativas.

14. E os filhos também precisam aprender a colocar limites

Isso não é tarefa somente dos sogros.

Um filho precisa conseguir dizer à própria mãe:

“Mãe, eu te amo, mas isso é assunto nosso.”

Uma filha precisa conseguir dizer ao pai:

“Pai, agradeço a preocupação, mas essa decisão é nossa.”

E isso não deveria destruir uma família.

Pelo contrário.

Limites bem colocados podem salvar relações.

Talvez nós, filhos, também precisemos parar de passar pano.

Porque às vezes deixamos nossos pais fazerem coisas que machucam nossos companheiros simplesmente porque estamos acostumados.

Chamamos de “jeito dela”.

“Ele é assim mesmo.”

“Não liga.”

Mas quem está chegando à família não tem obrigação de carregar aquilo que nós aprendemos a suportar.

Amar nossos pais também pode significar ajudá-los a perceber quando estão ultrapassando uma fronteira.

15. Lembre-se de que seu genro ou sua nora pode se tornar a pessoa que estará ao lado do seu filho quando você não estiver.

Essa é uma ideia que merece silêncio.

Um dia nós envelheceremos mais.

Talvez precisemos de ajuda.

Talvez nossos filhos estejam longe.

Talvez quem esteja ao lado deles seja justamente aquela pessoa que um dia criticamos por causa da roupa, do jeito de falar, da profissão, da fé ou das escolhas.

Vale a pena cultivar essa relação.

Não por interesse.

Por amor.

Porque ninguém sabe quem estará segurando a mão de quem quando a vida apertar.

16. Mude de lugar

Quando o filho é pequeno, seguramos sua mão.

Quando cresce, caminhamos ao lado.

Quando se casa, talvez seja hora de caminhar alguns passos atrás.

Não porque deixamos de ser importantes.

Mas porque uma nova família nasceu.

Nosso lugar mudou.

Ainda podemos ser colo.

Abrigo.

Conselho.

Torcida.

Presença.

Mas precisamos deixar de ser comando.

Porque amar um filho adulto talvez seja justamente conseguir dizer:

“Eu não faria assim. Mas a vida é sua.”

E depois sorrir.

E continuar amando.

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Talvez ser um sogro ou uma sogra legal seja, no fundo, aprender uma arte muito difícil.

Amar sem apertar.

Estar perto sem sufocar.

Ajudar sem comandar.

Aconselhar sem impor.

Discordar sem humilhar.

Proteger sem controlar.

E deixar o casal construir sua própria história, inclusive com seus erros, suas diferenças, suas reconciliações e suas escolhas.

Porque nossos filhos não precisam que voemos por eles.

Precisam que a gente lhes dê céu.

Talvez a gente se esqueça de que também fomos filhotes um dia.

Também tivemos medo.

Também olhamos para o mundo sem saber se nossas asas dariam conta.

E alguém precisou acreditar que daria.

Imagine um filhote de passarinho na beirada do ninho.

Ele olha para baixo.

Abre as asas.

Fecha.

Olha novamente.

Talvez recue.

Até que chega o momento em que precisa tentar.

E é justamente aí que o amor dos pais precisa mudar de forma.

Eles não podem voar pelo filhote.

Não podem segurá-lo no ar.

Não podem abrir as asas por ele.

Podem apenas permanecer por perto.

Talvez até com o coração apertado.

Mas confiando.

Porque um dia aquele pequeno pássaro precisa descobrir que tem asas próprias.

E vai descobrir.

Talvez caia um pouco.

Talvez bata as asas desajeitado.

Talvez pouse num galho baixo.

Mas, aos poucos, encontrará seu vento.

Seu rumo.

Seu céu.

Assim também aconteceu conosco.

Em algum momento da nossa vida, precisamos sair do ninho.

Precisamos experimentar caminhos que nossos pais talvez não conhecessem.

Precisamos fazer escolhas que eles jamais fariam.

Precisamos descobrir que havia céus que eles nem sequer imaginavam.

E é justamente por isso que precisamos ter cuidado para não enrolar nossas próprias asas nas asas dos nossos filhos.

Porque, se fizermos isso, eles poderão até permanecer perto.

Mas talvez nunca aprendam a voar sozinhos.

Podem se tornar dependentes da nossa presença.

Carentes da nossa aprovação.

Inseguros sem a nossa opinião.

E isso pode dificultar a autonomia que a vida deles exige.

Filhos não nasceram para repetir o nosso modelo mental.

Nasceram para encontrar seus próprios caminhos.

Podem chegar a lugares onde nunca chegamos.

Podem descobrir possibilidades que nunca imaginamos.

Podem construir famílias diferentes da nossa.

Podem amar de um jeito diferente.

Podem viver uma vida que nós sequer saberíamos sonhar.

E isso não significa que falhamos.

Talvez signifique justamente que acertamos.

Porque criar filhos não deveria ser construir cópias de nós.

Deveria ser preparar pessoas para um mundo que nem conhecemos.

Por isso, quando chegar a hora, talvez o melhor que possamos fazer seja respirar fundo, olhar para o filhote na beirada do ninho e dizer, mesmo sem palavras:

“Vai.”

“Eu sei que você consegue.”

“Eu confio nas suas asas.”

E deixar que ele descubra o próprio vento.

Porque amar também é isso.

É abrir a mão sem abrir mão do amor.

É deixar o ninho continuar sendo casa, mas não prisão.

É continuar sendo porto, mas não torre de controle.

É oferecer abrigo, mas não gaiola.

E compreender, finalmente, que o maior presente que podemos dar aos nossos filhos não é mantê-los sempre perto.

É ajudá-los a descobrir que conseguem voar.

Com suas próprias asas.

Para os seus próprios céus.

E, quem sabe, um dia, quando olharmos para eles voando longe, possamos sorrir.

Porque foi exatamente assim que, um dia, nós também aprendemos a voar.

O Molho do Amor de Dona Moça (por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

 


Trinta e três anos. É o número que se espelha. De um lado, o pai que eu fui. Do outro, o homem que eu sou. E no meio,  descobrindo gente.

E, voltei em Barra de Cunhaú, no Rio Grande do Norte.

Da última vez, meus filhos ainda eram pequenos. Tiago tinha 8 anos, Priscila, 6, Rodrigo, apenas 4. Eu tinha 28. Foram dias de férias, daqueles que a gente guarda sem saber que está guardando. Hoje eles têm 41, 39 e 37 anos, e eu tenho 61. O tempo passou ligeiro, como passa quando a gente está ocupado demais vivendo.

Para quem não conhece, Barra de Cunhaú fica entre João Pessoa e Natal. Uma dessas joias do litoral nordestino que parecem desenhadas com calma. E teve uma coisa que me pegou de jeito: a chegada. Ao passar pelo portal de entrada da praia, a paisagem era quase a mesma de trinta e três anos atrás. Eu não consegui simplesmente olhar. Senti. Foi como se aquele caminho tivesse aberto uma gaveta antiga dentro de mim.

Ali acontece o encontro do rio Curimataú com o mar. Cinco quilômetros adiante pela orla, outro encontro bonito, o do rio Catu com o mar, onde passei numa balsa rústica a caminho das falésias de Pipa. Cunhaú fica assim, entre duas barras de rio. Talvez seja isso que lhe dê parte do encanto. Água doce chegando ao mar, mangue, areia, vento, coqueiros, falésias, uma vila de pescadores onde a vida ainda conversa de perto com a natureza. É também terra de gente que acorda cedo nas fazendas de camarão e tira da simplicidade o sustento e a dignidade.

O nome carrega uma história bonita. Cunhaú vem do tupi, "água de mulher", "lugar onde as moças bebem água". Canguaretama, o município, remete ao peixe canguá.

Mas Cunhaú guarda também uma memória mais dolorosa. Em 1645, sob domínio holandês, aconteceu ali um dos episódios mais trágicos da história colonial brasileira. No dia 16 de julho, enquanto os moradores se reuniam para a missa na Igreja de Nossa Senhora das Candeias, o padre André de Soveral conduzia a eucaristia. Logo após a elevação do Corpo e Sangue de Cristo, fecharam as portas e começou o massacre ordenado por Jacob Rabbi. Dezenas de mortos.

É estranho pensar nisso estando ali. A mesma areia que hoje recebe famílias, crianças, pescadores, turistas e gente atrás de um pouco de paz foi testemunha de uma das páginas mais tristes da nossa história. Talvez seja isso que mais me fascina nas viagens. A gente pensa que está apenas conhecendo um lugar. Mas, quando olha com atenção, descobre que está pisando sobre muitas histórias.

Foi nesse cenário, entre lembranças antigas e descobertas novas, que chegamos à Pousada Ventoria, do Guilherme. O nome já diz quase tudo. Ventoria. Vento com cantoria. E era exatamente assim que a gente se sentia ali, o vento entrando por todo canto, mexendo nas folhas, balançando as redes, trazendo o cheiro do mar, cantando alguma coisa que a gente não precisava entender. Talvez porque, naquele momento, depois de tantos anos, eu também estivesse escutando outra cantoria. A da memória. A dos filhos pequenos correndo pela praia. A do pai que eu era. A do homem que sou hoje. E aquela paisagem, sem saber de nada disso, estava ali, esperando trinta e três anos para me devolver um pedaço de mim.

 O convite do Dedé

Foi no café da manhã que o passeio ganhou outro rumo. Dedé, nosso companheiro de viagem, fez o convite: vamos comer um espetinho de lagosta em Dona Moça, na beira mar do Sagi.

Minha primeira reação foi pensar na maré subir, e o carro não conseguir voltar. Aquele lugar só se alcança pela praia, de carro 4x4, e logo imaginei a maré subindo, a gente ficando ilhado, a caminhonete atolando. Eu também ainda tinha coisas para rever daquela Cunhaú de trinta e três anos atrás. Mas resolvi fazer uma coisa que sempre faço: relevar. Me deixar guiar pelo Dedé.

Ainda bem.

Atravessamos de balsa o rio Curimataú, saindo de Cunhaú para a outra margem. Vieram as estradas de areia, as fazendas de coqueiros, a belíssima Baía Formosa. Seguimos até Sagi e descemos para a faixa de areia. Dali, cerca de três quilômetros pela beira mar, rumo ao encontro do rio Guaju com o oceano. Só se chega de 4x4, e talvez seja por isso que o lugar mantenha aquele gosto de descoberta. A cada trecho, uma pequena aventura. Cursos d'água, areia mais firme, a brisa entrando pela janela, aquela sensação boa de estar indo para algum lugar que ainda não conhecíamos.

Quando chegamos, entendi que o passeio não tinha sido apenas para comer um espetinho. Eu tinha chegado a um pedaço de paraíso. Dunas, mangue, rios de águas limpas e mornas se encontrando com o mar. Uma paisagem tão bonita que, por instantes, a gente fica sem saber se olha para a água, para a areia ou para o céu.

Mas ainda faltava conhecer a parte mais bonita daquele lugar. Dona Moça. E sua história.

Era segunda-feira de baixa temporada, quase ninguém por ali, os bugues e quadriciclos ainda não tinham tomado conta. Às 11h30, praticamente todas as mesas vazias. O paraíso era nosso. Dona Moça e o marido tinham tempo. E eu adoro uma história.

A história de Dona Moça

Ela começou contando que trabalhou como doméstica, numa casa cuja patroa morava em Natal. Um dia, sem muita explicação, a mulher mudou de planos e simplesmente a demitiu. Dona Moça ficou desempregada.

Depois, conseguiu trabalho nos viveiros de camarão. Até que veio outra tragédia, essa não provocada pela violência humana, como séculos antes em Cunhaú, mas pela natureza: em 2011, no início da primeira grande epidemia da síndrome da mancha branca, a doença dizimou a produção dos criatórios de camarão da região. Muita gente da vila dependia daqueles viveiros, e o desemprego se espalhou.

Dona Moça precisava de outro caminho. Começou a fazer dindins, sacolés, geladinhos, cada lugar chama de um jeito, e ia vender na foz do Guaju, apostando que os turistas de Natal e João Pessoa que passavam por ali gostariam de uma fruta bem geladinha.

Foi naquele mesmo ano de 2011 que apareceu Arthur. Ele tinha a loja Mundo 4x4 e organizava passeios de aventura, levando grupos pelas trilhas e praias da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Anos depois fundaria a Alfa Confraternização, em 2017, mas naquele dia era só um sujeito que parou, provou o dindim de Dona Moça e gostou. Fez uma provocação: ela não ia crescer na vida vendendo só dindim. Aquele lugar tinha potencial para muito mais, petiscos, bebidas, mesas, gente parando para comer.

Preciso parar um pouco em Arthur, porque o que ele fez ali foi quase um absurdo. Jipeiro e bugueiro sempre levam cooler. Água, refrigerante, cerveja, isso resolve. Comida é outra história. Difícil de preparar antes de sair pra trilha, difícil de manusear no meio do caminho, difícil de manter quente sem virar risco de contaminação debaixo daquele sol. Arthur enxergou ali um buraco que ninguém tinha enxergado, e podia ter ficado só nisso, um homem de negócios encontrando uma lacuna de mercado. Mas não foi egoísta. Não quis o lucro sozinho. Olhou para aquela mulher vendendo dindim numa foz de rio sem infraestrutura nenhuma e viu mais que uma oportunidade. Viu uma pessoa séria. O que Arthur enxergou em Dona Moça, afinal, além de alguém que podia florescer? Não sei dizer ao certo. Só sei que ele olhou com os olhos do Molho do Amor. E só esses olhos, temperados, lambuzados de Molho do Amor, veem futuro onde os outros só enxergam fim. Veem possibilidade onde os outros só enxergam dificuldade. Veem cura onde os outros só enxergam doença. Veem solução onde os outros só enxergam problema. Veem beleza onde os outros só enxergam feiura. Veem o que sobra onde os outros só enxergam o que falta.

E então Arthur deu a cartada. Disse que precisava de 150 espetos de camarão, embalados em papel alumínio, três em cada porção. No sábado seguinte chegaria com um grupo de jipeiros e compraria tudo. Não deixou dinheiro. Não fez pedido formal. Não assinou nada. Só acreditou nela.

Dona Moça ficou desconfiada. Contou ao marido, que achou que era golpe. Contou a outras pessoas, que também acharam que era golpe. Mas havia alguma coisa dentro dela dizendo que aquela talvez fosse a sua hora. Já tinha sido doméstica. Já tinha trabalhado com carteira assinada. Já tinha vendido dindim na praia. Talvez, agora fosse a vez de ser dona de uma barraca.

Foi até uma amiga, que tem um ponto de re camarão, e comprou a mercadoria, no fiado, pela confiança também.  Levou para casa uns dez quilos de camarões grandes, sem pagar um centavo, e começou a preparar os 150 espetinhos.

No sábado, bem cedinho, colocou os camarões na brasa, três a três, foi embalando tudo, carregou numa carroça de mão a churrasqueira, o carvão, a mercadoria, e partiu para o Guaju.

Só que o tempo passou. Onze horas. Ninguém. Onze e meia. Nada. E Dona Moça começou a pensar no camarão que precisava pagar. No dinheiro que não tinha. Na sua palavra, que era talvez o único patrimônio que possuía.

Até que apareceu o primeiro carro. Ela nem reconheceu Arthur. Ele só disse que quando os turistas chegassem, ela oferecesse um saquinho para cada pessoa, por conta dele.

E ela começou. Chegava um carro, ela dava bom dia, oferecia três espetinhos. Os turistas não entendiam, queriam pagar, ela dizia que era oferta da casa. Três carros se sucederam. Depois, quase ao meio dia, um comboio de uns dez veículos. De um deles desceu Arthur. Quando viu Dona Moça ali, com os 150 espetinhos que ele tinha encomendado, acreditando nele quando mais ninguém acreditava, os dois se abraçaram. Ela chorou. Ele também. Os camarões foram distribuídos entre os jipeiros.

Arthur disse que mandaria mesas, cadeiras, sombreiros, e voltaria no fim de semana seguinte com outro grupo, dessa vez ficando mais tempo.

Dona Moça voltou para casa. Pagou a feirante que tinha confiado nela. Comprou bebidas, mantimentos, mais camarões. E começou ali a vida de Dona Moça.

Esqueci de perguntar uma coisa. Por que Dona Moça? Mas isso já é outra história.

## O molho que ninguém consegue copiar

Com o tempo, ela foi aumentando o cardápio. Vieram o espetinho de lagosta, o espetinho de robalo, o ceviche de polvo, tantas outras invenções. E veio o Molho do Amor, esse ela não entrega a receita nem sob ameaça. Já apareceu até na televisão, no programa da Ana Maria Braga. Mas, depois de ouvir sua história, comecei a desconfiar que talvez eu tenha descoberto a receita. Não a dos ingredientes. A outra. A que não cabe em panela.

Dona Moça continua sorrindo, inventando coisas, criando caminhos. Até um buguezinho antigo conseguiu comprar, com a ajuda dos próprios clientes. O marido é a parte calma da relação, ela é a agitada, fica nas mesas, conversa, recebe, inventa. Ele fica na churrasqueira. E assim os dois vão tocando a vida.

Quando achei que já tinha conhecido uma parte do paraíso na geografia daquele lugar, descobri que o paraíso também pode morar em duas pessoas.

 O amor faz a volta

E ainda havia uma surpresa. Na conversa de despedida, ela contou que, quando a Mundo 4x4 encerrou, em 2016, e Arthur precisou repensar o próprio negócio, ela também lhe deu uma força. Faz dez anos agora. Mandou para ele a primeira leva de camarões, peixes e outros produtos, ajudando-o a olhar para outros tipos de negócio, até fundar, em 2017, a empresa de festas e confraternizações em João Pessoa, a Alfa Confraternizações (@alfaconfraternizacoes, para quem quiser conhecer).

Olha só que coisa bonita. Arthur ajudou Dona Moça a acreditar que podia crescer. Anos depois, Dona Moça ajudou Arthur a recomeçar. Um deu a mão ao outro. Talvez seja aí que esteja o verdadeiro Molho do Amor. Não é camarão, não é lagosta, não é segredo de cozinha. É doação. É quando alguém rompe a ordem do cada um por si e resolve se aproximar do outro. É quando uma pessoa acredita na capacidade de outra antes mesmo que ela própria consiga acreditar. É quando se constrói uma ponte onde antes havia apenas distância.

Arthur fez isso com Dona Moça. Dona Moça fez isso com Arthur. E continuou fazendo com os outros barraqueiros que foram chegando depois, ajudando, ensinando, compartilhando o que sabia. Talvez seja essa a receita que ela não revela. Ou talvez revele, só que não com palavras. Ela revela vivendo.

O Molho do Amor é isso. É quando a gente deixa de perguntar o que o outro pode fazer por nós e começa a pensar no que podemos fazer por ele. Naquele pedaço de litoral entre o rio Guaju e o mar, com a brisa batendo no rosto, descobri que alguns paraísos não estão no mapa. Estão nas pessoas que encontramos pelo caminho.

Talvez tenha sido por isso que eu precisava voltar a Cunhaú depois de trinta e três anos. Não só para reencontrar a praia onde um dia estive com meus três filhos pequenos. Não só para reconhecer o portal, o rio, o mar, aquelas paisagens que o tempo quase não conseguiu mudar. Eu precisava voltar para descobrir que o lugar que eu procurava já não estava exatamente onde eu tinha deixado. A Cunhaú de trinta e três anos atrás estava guardada na minha memória. A de hoje estava diante dos meus olhos. E entre uma e outra havia uma coisa que o tempo não conseguiu levar: a capacidade de se emocionar com a vida.

Naquele dia reencontrei o menino que fui com meus filhos. Conheci histórias de gente que nunca tinha visto. Atravessei rios, passei por praias, comi lagosta, ri, me emocionei. E aprendi, com Dona Moça e Arthur, que às vezes a vida muda de direção quando alguém resolve confiar na gente. E que, muitas vezes, depois de receber essa confiança, o mais bonito que podemos fazer é passá-la adiante.

Talvez seja esse o verdadeiro sabor de uma viagem. A gente sai de casa pensando que vai conhecer lugares. E volta descobrindo pessoas. No fim das contas, são elas que fazem o lugar permanecer dentro da gente.

Abaixo, o Arthur, aquele que acreditou primeiro!


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Obs:  O nome da famosa Barraca de Dona Moça (ou Dona Mocinha), localizada na divisa entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, na praia de Sagi, deve-se simplesmente ao apelido carinhoso da sua fundadora, uma moradora local extremamente gentil que abriu o espaço em 2005.  Embora o nome oficial e mais conhecido pelos turistas seja "Dona Moça", na região e entre os visitantes frequentes ela também é carinhosamente chamada e indicada como Dona Mocinha


A Síndrome do Ninho Vazio de Si Mesmo (SNVSM), por Ricardo de Faria Barros, psicólogo


Era uma vez um homem que passou quarenta anos chegando cedo no escritório. Tinha uma cadeira que era só dele, uma caneca com o nome estampado, e gente que esperava por suas decisões. Quando se aposentou, ganhou um relógio de ouro, um abraço coletivo e uma porta que se fechou para trás dele sem fazer muito barulho.

Na primeira segunda-feira, ele acordou às seis da manhã, tomou banho, vestiu a camisa social e só então percebeu que não tinha para onde ir. Foi até a cozinha. Ficou olhando para a cafeteira. E pela primeira vez em décadas, ouviu o silêncio da própria casa. A aposentadoria, para muita gente, começa assim. Não com uma festa. Com uma pergunta que ninguém ensinou a gente a fazer: e agora, o que eu faço comigo? Durante boa parte da vida, nossa casa não é exatamente nossa. Ela fica espalhada pelo mundo.

Uma parte está no trabalho, onde temos um crachá, uma função, pessoas esperando. Outra parte está na família, onde somos pai, mãe, avô, avó, filho, irmão. Outra mora nos amigos, na igreja, nos clubes, nos compromissos, nos encontros de domingo. E há quem construa praticamente toda a sua identidade dentro de uma relação amorosa. A pessoa vira companhia. Vira rotina. Vira espelho. Às vezes vira até endereço emocional. E então chega a aposentadoria. O crachá desaparece. Os filhos já têm suas próprias casas. Os netos têm seus mundos. Os amigos trabalham, viajam, adoecem, mudam de cidade. Alguns casamentos continuam, mas já não têm aquela intensidade de antes. Outros terminam depois de décadas.

E a casa fica mais silenciosa. É aí que a solidão bate à porta.

Mas talvez exista uma pergunta melhor do que "quem vai preencher esse vazio?" Talvez seja: que casa eu construí para mim mesmo? Porque existe uma casa que ninguém pode construir por nós. A casa interior. Durante muito tempo, muita gente vive como se fosse hóspede da própria existência. Precisa que alguém diga que é importante. Precisa ser lembrada. Precisa ser chamada. Precisa ter alguém esperando. Precisa de uma mensagem no celular. Precisa de um convite. Precisa de um grupo. Precisa de uma função. Precisa de alguém dizendo: você faz falta. E quando isso diminui, aparece uma sensação estranha. Como se a pessoa tivesse perdido o endereço.

É aqui que pertencimento e dependência podem se confundir. Pertencer é maravilhoso. Depender de alguém para sentir que existe é outra coisa. A longevidade nos convida a aprender essa diferença. Todo mundo conhece o ninho vazio dos pais quando os filhos crescem. Mas existe outro ninho vazio, menos comentado. Foi o que me trouxe Francisco. Ele chegou ao consultório com uma expressão que eu já conheço de longa data. Aquela de quem olha para dentro e não encontra mais ninguém. Não porque estivesse sozinho no mundo.

Tinha filhos, netos, amigos, uma igreja que frequentava há anos. Mas quando se sentava no sofá da sala, depois do almoço de domingo, sentia que o apartamento era grande demais para quem morava ali. Francisco passou quarenta e cinco anos sendo o provedor. Levantava cedo, trabalhava até tarde, chegava em casa com presentes, pagava escola, consertava o que quebrava, ouvia problemas, dava conselhos, abraçava, sustentava.

Era o centro de gravidade da família. E gostava disso. Gostava de ser necessário. De ser o primeiro a quem ligavam quando algo dava errado. De ser o porto seguro. Quando se aposentou, achou que finalmente teria tempo para descansar. E descansou. Por uns dois meses. Depois começou a perceber que as ligações diminuíram. Os filhos resolveram sozinhos. Os netos cresceram e têm vida própria. A esposa encontrou hobbies, amigas, uma rotina que não depende tanto dele.

E Francisco ficou ali, no meio da sala, com as mãos vazias e um coração cheio de lugar que não sabia mais para quem era. Ele me disse uma frase que eu guardo: "Doutor, eu cuidei da casa de todo mundo. Só não construí a minha." Foi aí que eu botei nome na coisa.

Chamei de Síndrome do Ninho Vazio de Si Mesmo. A SNVSM. Soa meio estranho no começo, eu sei. Mas tem uma certa graça de dizer. E nomear o que dói já é um primeiro passo para não ter mais medo dele. A SNVSM não é doença. É sinal de que a pessoa viveu para os outros com tanta generosidade que esqueceu de deixar uma luz acesa para si. E agora, quando a noite chega, a casa está escura. Não é uma tragédia. É um convite.

Talvez seja a primeira oportunidade real de conhecer quem mora ali. Construir a própria casa não significa fechar as portas. Isso é muito importante. Não significa virar uma pessoa isolada. Não significa abandonar os amigos, deixar de frequentar a igreja, parar de sair, deixar de namorar, deixar de viajar. Muito menos significa dizer: agora sou suficiente para mim e não preciso de ninguém. Não é isso. Nós somos seres de convivência. 

Precisamos de gente.
Precisamos de abraço.
Precisamos de conversa.
Precisamos de amor.
Precisamos de troca.
Precisamos de comunidade.


Mas existe uma diferença enorme entre precisar de pessoas para viver melhor e precisar de pessoas para conseguir existir. A casa interior não elimina as visitas. Ela apenas permite que você receba visitas sem precisar entregar a elas as chaves da casa inteira.

Eu gosto de imaginar essa construção como uma casa de verdade. Ela precisa de alicerces. Precisa de paredes. Mas também precisa de jardim. Porque uma casa sem jardim pode ser segura, mas fica triste.

O jardim são os pequenos prazeres que você cultiva. Uma música. Um livro. Uma caminhada. Uma fotografia. Uma planta na janela. Uma receita que só você sabe fazer. Um café demorado na manhã de terça. Um cachorro que te espera na porta. Uma viagem sem compromisso. Uma conversa que não precisa ser produtiva. Uma missa que você vai porque quer. Uma oração baixinho antes de dormir. Um banho de mar. Uma rede no quintal.

Um pôr do sol que você parou para ver. Uma corrida. Uma crônica. Um projeto que ninguém obrigou você a fazer. Coisas aparentemente pequenas que dizem: eu gosto de estar aqui. A varanda é o lugar da contemplação. É onde você não precisa produzir. Não precisa entregar. Não precisa provar. Pode simplesmente olhar. O mundo passando. A chuva. O vento. A lua. Uma rua. Um jardim. Uma tarde. A própria vida.

Talvez a aposentadoria nos ofereça algo que o trabalho raramente oferece: tempo para olhar. Só que olhar pode ser maravilhoso ou assustador. Se não construímos uma casa interior, o tempo livre pode virar um enorme retrovisor. E ficamos olhando para trás. Para o casamento que acabou. Para a promoção que não veio. Para o filho que se afastou. Para o dinheiro que perdemos. Para o amigo que morreu.

Para o amor que não deu certo. Para a oportunidade que deixamos passar. Para o que deveríamos ter dito. Para o que não deveríamos ter feito. O retrovisor pode ensinar. Mas ninguém consegue dirigir a vida olhando somente para ele. Essa talvez seja a parte mais bonita. Não existe inauguração definitiva.

A construção continua. Depois dos sessenta, talvez você descubra que ainda há cômodos que nunca visitou. Um talento. Um desejo. Uma curiosidade. Uma amizade que ainda pode nascer. Uma forma nova de amar. Um projeto. Uma coragem. Uma espiritualidade. Uma parte de você que ficou escondida atrás das obrigações. Não tenha pressa. Essa casa não é dessas que uma construtora promete entregar em seis meses.

É quase uma obrinha de igreja. Devagarinho. Com o dinheiro que deu naquele mês. Com o material que foi possível comprar. Hoje se levanta uma parede. Amanhã se conserta uma janela. Depois aparece um jardim. Mais adiante você percebe que precisava de uma varanda. E assim a vida vai ficando habitável. Os alicerces são feitos de pertencimento. Mas existe uma diferença. O pertencimento que você procura agora não precisa vir de fora.

Você pode aprender a dizer: eu pertenço à minha própria vida. Não porque alguém escolheu você. Não porque seus filhos precisam de você. Não porque seu companheiro está ao seu lado. Não porque alguém mandou uma mensagem. Não porque alguém reconheceu seu trabalho. Não porque alguém bateu palmas.

Você pertence porque existe. Acordou hoje? Então a obra continua. Ainda há tijolos. Ainda há espaço. Ainda há jardim para plantar. Ainda há parede para pintar. Ainda há janela para abrir. Depois de uma vida inteira construindo coisas para os outros, chega uma hora em que precisamos perguntar: e o que eu construí para mim? Não apenas patrimônio. Não apenas dinheiro. Não apenas uma casa física. Mas uma vida que seja gostosa de habitar.

Uma vida onde exista silêncio sem abandono. Liberdade sem vazio. Solidão sem desespero. Companhia sem dependência. Amor sem perda de identidade. Espiritualidade sem fuga. Memória sem prisão. Passado sem retrovisor permanente.

E futuro sem precisar saber exatamente como ele será. Talvez o desafio não seja encontrar alguém para preencher sua casa. Talvez seja tornar sua casa tão viva que você tenha prazer em voltar para ela. E, quando alguém chegar, você não diga: finalmente alguém para me completar.

Mas: que bom que você chegou. Tem café na cozinha. O jardim está bonito. Sente aqui comigo. Essa é outra maneira de amar. Outra maneira de envelhecer.

Outra maneira de pertencer.

Talvez a grande odisseia da longevidade seja justamente essa: voltar para casa. Não a casa onde moramos. A casa que somos. E passar o resto da vida aprendendo, devagarinho, a gostar de morar nela. Mas tem um remédio que eu gosto de receitar para quem sente a casa muito quieta. Não vem em comprimido. Não precisa de receituário.

Chamo de Territocilina. É a junção de território com penicilina. Funciona assim: a solidão é uma espécie de infecção que cresce quando a gente fica muito tempo trancado dentro de si.

A Territocilina é sair de casa e desbravar o bairro. É conhecer o nome do padeiro. É descobrir que a praça da esquina tem uma árvore que floresce em setembro. É trocar duas palavras com o porteiro do prédio vizinho. É sentar no banco da praça e deixar que o sol te encontre. É fazer do território um lugar que te reconhece. Porque tem gente que mora numa cidade há trinta anos e não sabe o nome da rua do lado. Tem gente que passa todo dia pela padaria e nunca perguntou como vai a família do padeiro.

A Territocilina é justamente isso. É criar afinidade com o chão que a gente pisa. É deixar que o lugar nos adote, devagarinho, como quem planta uma muda e espera ela pegar. E sabe do que mais?

A Territocilina e a SNVSM não se bicam. Pelo contrário.


 

Uma ajuda a outra. Quando você constrói a casa interior, ganha coragem para sair. E quando sai e conhece o território, volta para casa com histórias novas para contar para si mesmo. Então, se você está lendo isso e sente que a casa ficou grande demais, que o silêncio pesa, que o sofá parece mais vazio do que deveria, não se assuste.

Pode ser só a SNVSM dizendo olá. E a resposta pode estar do lado de fora da porta. Num passeio. Num bom dia. Num banco de praça esperando ser ocupado. A vida ainda tem lugar para você. No seu interior. E no seu território. Vai com calma. Mas vai.


Mande Flores para o Delegado (por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Um homem de setenta e poucos anos amanheceu sem vontade nenhuma de mandar flores para o delegado. Entendedores entenderão. Ele me contou de uma discussão boba com a parceira. Daquelas que, contadas depois, parecem pequenas demais para justificar o estrago. 

Mas, enquanto acontecem, crescem. Ocupam a sala, atravessam o corredor, entram no quarto e dormem entre duas pessoas que, até pouco antes, estavam bem. Ele acordou com gosto de guarda-chuva na boca, e foi assim que me contou.

Os dois viviam agora uma espécie de sentença. A punição do silêncio a dois, talvez uma das mais cruéis para quem se ama. Porque não é simplesmente ficar sem falar. É ficar conversando sozinho por dentro. Cada um reconstrói a cena, escolhe suas provas, interpreta o silêncio do outro e vai aumentando a distância sem saber se o outro também sofre do lado de lá.

Setenta e poucos anos, e ainda assim o coração doendo como o de um menino. Isso me tocou. Porque tem gente que acha que numa certa idade a gente já devia estar imune a essas coisas. Não está. E ainda bem que não está.

Ele me perguntou se seria boa ideia mandar flores dali a alguns dias. Não como quem compra perdão numa floricultura. Não como quem diz "eu estava errado em tudo". Muito menos como quem se humilha para ser aceito de volta. Pensava nas flores como quem coloca uma coisa bonita no meio de uma ponte quebrada e diz, sem precisar dizer muito: ainda existe uma ponte aqui.

Achei bonita a pergunta.

Porque depois de uma briga existe uma tentação enorme de ir buscar o chicote. A pessoa começa a se perguntar por que fez aquilo, por que não respondeu de outro jeito, por que deixou a emoção tomar o volante. E quanto mais pensa, mais se castiga. Como se sofrer bastante pudesse voltar no tempo e desfazer o que já aconteceu.

Não desfaz.

E é aqui que um erro costuma abrir a porta para outro erro, maior que o primeiro. O primeiro pode ter sido só uma palavra atravessada. O segundo é transformar essa palavra numa sentença sobre quem somos. O terceiro é concluir que, por termos feito algo ruim, somos gente ruim. E assim uma discussão de uma noite vira condenação de semanas.

Talvez seja aí que mora uma das armadilhas mais silenciosas da vida. Confundir responsabilidade com autopunição.

Responsabilidade olha para o que fizemos e diz: nisso eu poderia ter feito melhor. Autopunição olha para a mesma cena e diz: eu nunca aprendo, eu estrago tudo, eu não presto para viver uma relação. Uma coisa abre caminho. A outra tranca todas as portas por dentro.

Isso vale para muito mais do que uma discussão entre namorados, ou entre dois que se escolheram tarde na vida. Vale para a ruptura de que ainda nos arrependemos, a promoção que não veio, a ausência na vida de um filho ou de um amigo, o esquecimento que virou inesquecível, o eu te amo que chegou tarde, o investimento que virou prejuízo, a decisão tomada com o que sabíamos naquele momento e que hoje, no retrovisor, parece um disparate.

Nada disso precisa virar nosso nome.

São marcas de quem esteve em campo, jogando o jogo de verdade, e continua em campo. Quem viveu, escolheu, amou, arriscou, errou e também acertou carrega algumas cicatrizes. E cicatriz não é sentença. É prova de que a pele fechou.

Sabe do que isso me lembra. Daquelas cerâmicas antigas que a tradição japonesa ensinou a reparar de um jeito que ninguém esquece, o kintsugi. A peça quebra, cai, se estilhaça no chão. E quando volta inteira, volta com as rachaduras preenchidas a ouro, bem à mostra, sem disfarce nenhum. 

Ninguém esconde a fratura debaixo de um verniz igualzinho ao original. O ouro entra exatamente onde doeu, e é isso que faz a peça ficar mais preciosa do que era antes de quebrar. Não apesar da rachadura. Por causa dela.

Talvez a gente, quando envelhece direito, vá aprendendo a fazer isso com a própria vida. Não é esconder as rachaduras debaixo do tapete, fingindo que aquele casamento, aquela demissão, aquela palavra dita na hora errada nunca aconteceram. É preencher cada rachadura com alguma coisa que valha ouro. Um aprendizado. 

Um perdão dado ou recebido. Uma fé que segurou a barra quando mais nada segurava. A teimosia bonita de continuar sendo, estreando, acontecendo, apesar dos pesares. Cicatriz virada em ouro não é cicatriz escondida. É cicatriz assumida.

Amadurecer, talvez, seja aprender a olhar para essas marcas sem transformar nenhuma delas em identidade. E isso não tem data de validade. Não é tarefa de uma certa fase da vida, é trabalho de todas elas.

Eu errei não quer dizer eu sou um erro.

Eu perdi não quer dizer eu sou um fracasso.

Eu fui rejeitado não quer dizer que sou indigno de amor.

Eu fiz uma escolha ruim não quer dizer que toda escolha minha será ruim.

E, sobretudo, uma relação atravessou uma tempestade não quer dizer, necessariamente, que ela terminou. Nem aos vinte, nem aos setenta.

Tem uma culpa específica que ocorre com certa frequência na longevidade, e que gostaria de nomear aqui. É a culpa que aparece quando a pessoa começa a fazer a revisão da própria vida, coisa que a idade convida a fazer, quase obriga. 

Ela olha para trás com mais tempo livre e mais silêncio do que nunca teve, e o passado inteiro fica ali, exposto, como quarto revirado. E é nesse momento que o "e se" entra pela porta dos fundos.

E se eu tivesse ficado no primeiro casamento?

E se eu tivesse feito aquele investimento?

E se eu tivesse dito a verdade naquela hora?

E se eu tivesse pedido perdão antes de ser tarde demais?

O e se é uma prisão sem grades visíveis. Ele não machuca como um soco, machuca como gotejar. Fica ali, pingando, dia após dia, e a pessoa nem percebe que parou de viver o hoje porque está ocupada demais reescrevendo um ontem que não pode ser reescrito. É uma culpa que não corrige nada e ainda cobra juros. Imobiliza. Tira o movimento de quem já tem, muitas vezes, um corpo pedindo justamente o contrário, pedindo para se mexer, para sair de casa, para recomeçar alguma coisa.

E aqui mora uma diferença enorme entre revisar a vida e julgar a vida. Revisar é olhar para trás e colher sentido, mesmo nas partes doloridas, entender o que aquilo ensinou, o que aquilo custou, o que aquilo formou em mim. Julgar é sentar num tribunal interno e ficar repetindo a mesma sentença todos os dias, como se o veredito de ontem precisasse ser lido de novo hoje, e amanhã, e depois de amanhã. A revisão liberta. O julgamento açoita.

Ninguém chega aos setenta, aos oitenta, sem alguns e se guardados na gaveta. Isso não é fracasso, é apenas o preço de ter vivido bastante. Mas guardar não é o mesmo que abrir a gaveta toda tarde para se cortar de novo nos mesmos cacos. Cacos, aliás, também podem virar kintsugi. Só precisam de ouro, não de mais corte.

Aprendi, na clínica e na vida, que entre o que nos aconteceu e o que fazemos com aquilo existe sempre um respiro. Pequeno às vezes, quase invisível, mas nosso. É nesse respiro que a gente escolhe se vai virar prisioneiro do próprio erro ou autor da própria resposta a ele. 

Ninguém escolhe o que já foi. Mas todo mundo escolhe o que aquilo vai significar dali para frente, em qualquer idade que esteja.

Algumas coisas precisam de tempo. Algumas conversas só acontecem depois que a temperatura baixa. Alguns pedidos de desculpa precisam ser feitos sem uma única justificativa junto. Algumas flores podem ser entregues sem discurso, só como gesto de delicadeza. E algumas portas, mesmo depois da tempestade, seguem entreabertas.

Mas existe uma sabedoria importante em tudo isso. Não dá para obrigar o outro a atravessar a ponte com a gente. Dá para construir o nosso lado dela. E esperar.

O homem que me contou essa história ainda não sabia se mandaria as flores. Talvez mandasse. Talvez esperasse mais um pouco. Talvez descobrisse outro jeito de reabrir o diálogo.

Eu só disse uma coisa a ele.

Não use as flores para apagar o erro. Use-as, se for o caso, para lembrar que existe uma pessoa do outro lado. E, se não vier resposta, não transforme o silêncio dela em chicote para as próprias costas. Porque errar já dói bastante. A gente não precisa transformar o coração em tribunal, em nenhuma idade.

Cinco dicas para quem também está com o coração revirado:

1. Não decida nada em definitivo durante a tempestade. 

O coração molhado enxerga tudo maior do que é, com setenta anos ou com vinte. Espere a chuva diminuir antes de decidir o destino de uma relação.

2. Separe o que você fez de quem você é.

Você pode ter errado sem ser um erro. Pode ter sido imaturo sem ser incapaz de amadurecer, mesmo depois de décadas de vida.

3. Se errou, repare. Não se castigue.

Peça desculpas quando for a hora. Mude o comportamento quando puder. Mas não troque arrependimento por penitência.

4. Não fique dirigindo de olho fixo no retrovisor.

Olhe para trás para aprender, não para continuar morando lá. Tem estrada ainda pela frente, mesmo quando parece que não tem.

5. Faça uma pequena coisa bonita enquanto a vida se reorganiza.

Um café demorado. Uma caminhada. Uma conversa. Uma flor. Um neto no colo. Uma oração baixinho antes de dormir. Não espere o coração ficar inteiro para continuar vivendo.

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Sim, e respondendo à sua pergunta: acho que deve mandar as flores para o delegado. Mesmo sem muita vontade.

Porque flores têm o poder de sarar, redimir, poetizar e eternizar a vida e seus momentos.

Mande flores para aquela mágoa encardida.

Mande flores para aquele perdão que ainda precisa ser dado a você mesmo.

Mande flores para aquela culpa que insiste em te aterrorizar, madrugadas adentro. 

Mande flores para aquela decisão que não tomou e que ainda mora no "e se". 

Flores abrem portais de possibilidade e de renovação. Ressignificam nossa vida. Amanteigam a alma.

Mande flores. Mesmo sem muita vontade. Porque flores são pontes para um outro amanhã possível.




Tome Territocilina! (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Depois de certa idade, a gente começa a conhecer remédio pelo nome.

Um amigo me mandou uma mensagem perguntando se eu conhecia um novo remédio para a memória, à base de mel. Na hora do almoço, outro amigo, setentão, me revelou, entusiasmado, os superpoderes do magnésio.

É assim. Tem remédio pra memória, pra acidez, pro coração, pra alergia. Tem vitamina pra isso, suplemento pra aquilo. Depois dos 60, uma conversa sobre remédio pode começar antes mesmo do bom-dia.

Mas ultimamente tenho tomado e prescrito um medicamento diferente.

A Territocilina.

Não adianta procurar na farmácia. Fui eu que inventei. E, segundo pesquisas realizadas por mim mesmo e por alguns usuários muito satisfeitos, a Territocilina melhora o humor, a atenção, a disposição e até certas emoções positivas que estavam encardidas por falta de uso.

Seu princípio ativo é muito simples: presença humana.

A Territocilina é fabricada quando você vai à feira e faz amizade com o verdureiro. Quando entra na padaria e, além do café e de dois pãezinhos de queijo, toma um dedo de prosa. Quando conversa com o porteiro, com o vizinho, com o barbeiro, com o garçom que já sabe o que você vai pedir.

Ou quando alguém percebe sua ausência e pergunta:

“Você não veio ontem. Aconteceu alguma coisa?”

Pronto. A dose foi aplicada.

Porque, com o passar dos anos, a gente descobre que não cria vínculos apenas com pessoas. Cria vínculos com lugares.

A praça. A igreja. A feira. O clube. A padaria. O parque. O mercado. O botequim da esquina.

São territórios de afeto. Lugares onde, de tanto chegar, conversar, rir e ser reconhecido, vamos deixando um pedaço de nós.


Talvez seja por isso que, quando uma pessoa muda de cidade, não sente falta apenas dos parentes e dos amigos. Sente falta da esquina. Do cheiro da rua. Do café de sempre. Do banco da praça. Do sujeito que vendia frutas. Do porteiro que dizia bom-dia. De gente que talvez nunca tenha entrado em nossa casa, mas entrou em nossa vida.

Esses lugares são verdadeiras farmácias de Territocilina.

E talvez este remédio esteja se tornando cada vez mais necessário porque combate uma das grandes infecções do século 21: a solidão.

Uma infecção curiosa. Ela não se pega no contato. Muitas vezes, pega-se justamente na falta dele.

E o mais engraçado é que a ciência séria, não a minha, anda dizendo a mesma coisa há tempos: vínculo social protege o coração, protege a memória, protege até o sistema imunológico. A diferença é que a pesquisa deles sai em artigo. A minha sai em prosa.

Mas a Territocilina tem outro efeito, descoberto recentemente em nossos laboratórios. Ela é um remédio um pouco rebelde. Talvez até subversivo. Porque combate a privatização da vida e dos espaços públicos.

A gente foi trazendo tudo para dentro de casa. A comida chega em casa. A compra chega em casa. O filme chega em casa. O banco está no celular. O supermercado está no aplicativo. A conversa está na tela. O trabalho entrou pela sala. O mundo inteiro parece caber na palma da mão.

E, quase sem perceber, fomos deixando a cidade para os carros, para os muros, para as cancelas, para os estacionamentos, para os lugares onde é preciso pagar para permanecer. As praças esvaziam. Os clubes perdem gente. As calçadas perdem cadeiras. A rua deixa de ser lugar de convivência e vira apenas lugar de passagem.

Por isso tomar Territocilina é também um pequeno ato de rebeldia. Ocupar a cidade é dizer: eu ainda estou aqui, essa cidade também é minha.


É sentar num banco de praça sem precisar comprar nada. É caminhar no parque. É ir à feira. É conversar depois da missa. É voltar ao clube. É entrar numa biblioteca. É assistir a uma apresentação na praça. É ir à quermesse. É sentar num botequim. Ou simplesmente puxar uma cadeira para a calçada.

Talvez envelhecer bem tenha também um pouco disso: continuar deixando pegadas no mundo.

O problema é que a Territocilina não chega por delivery. Não adianta pedir pelo aplicativo. Também não dá para comprar três caixas e guardar na farmacinha do banheiro. Ela é metabolizada do lado de fora. É preciso algum movimento. É preciso abrir a porta. É preciso se colocar no caminho da vida.

E isso me lembra uma imagem bonita do Vale do Jaguaribe, no Ceará. No final da tarde, depois do calor de lascar, as pessoas colocam cadeiras na frente de casa para esperar o Aracati soprar sertão adentro. Aracati é uma palavra de origem tupi associada aos bons ventos, aos bons tempos, o vento que vem do litoral e avança terra adentro trazendo um pouco de frescor depois de um dia quente.

Mas o Aracati tem uma exigência. É preciso estar lá para recebê-lo. Quem fica dentro de casa perde a lufada.

Talvez a Territocilina seja justamente isso. Um Aracati psicológico. Um vento de bons tempos que sopra quando a gente se coloca novamente no caminho dele. Precisa abrir a porta. Precisa puxar a cadeira pra calçada. Porque há ventos que não entram pela janela. É a gente que precisa sair para encontrá-los.

E existe ainda um efeito colateral muito interessante em quem toma Territocilina com frequência: a pessoa tende a ficar um pouco menos arrogante diante da vida. Menos rabugenta. Menos reclamona. Mais aberta às diferenças.

Porque, quando saímos de casa, encontramos histórias. Encontramos gente que perdeu e recomeçou. Gente que sofreu e continua sorrindo. Gente que está travando batalhas que ninguém conhece. E ouvir essas histórias vai colocando nossos próprios problemas no tamanho deles.

E existe um vírus que a Territocilina previne com eficácia impressionante: a Síndrome de Intolerância à Gente, o SIG. Os sintomas são fáceis de reconhecer: desculpa inventada pra não sair de casa, fixação mórbida pelo sofá ou pela rede, e apatia pra responder a qualquer tipo de interação, inclusive virtual. Em estágio avançado, o SIG evolui pra uma fobia social bem convincente, e a pessoa passa a preferir qualquer tela a qualquer rosto. A boa notícia é que o SIG tem cura simples. Uma dose regular de presença humana já resolve.

Mas meus laboratórios receberam uma reclamação importante:

“E quem não pode sair de casa?”

Pensando nesses casos, acaba de ser desenvolvida a Territocilina Alfa. Mesma substância ativa. Outra forma de aplicação.

Para quem não pode caminhar pelas ruas, uma voltinha de carro pelo bairro, mesmo sem descer, já pode ser uma dose. Abra um pouco a janela. Veja o movimento. Reconheça uma árvore, uma praça, uma igreja, uma esquina antiga. Veja o mundo acontecendo.

E existe outra possibilidade. Se você não pode ir até o território, traga um pouco do território até você. Convide dois ou três amigos. Faça um café. Jogue um carteado. Reze junto. Leia alguma coisa bonita. Conte histórias. Converse sem pressa.

E a bula recomenda não exagerar na organização. Não precisa toalha bonita. Não precisa mesa posta. Não precisa casa impecável. Café e gente já resolvem boa parte da fórmula.

Porque Territocilina Alfa não significa assistir aos outros viverem pela tela. Significa continuar pertencendo ao mundo.

Pode chegar um tempo em que nosso corpo não consiga alcançar certos lugares. Mas os lugares ainda podem chegar até nós. As pessoas podem chegar. As histórias podem chegar. O riso pode chegar. O afeto pode chegar. O mundo pode chegar.

Territocilina e Territocilina Alfa possuem exatamente o mesmo princípio ativo: gente. Gente que olha. Gente que escuta. Gente que conversa. Gente que pergunta. Gente que percebe nossa ausência. Gente que faz a gente sentir que ainda pertence a algum lugar.

Aqui em casa, eu já tenho minhas três doses diárias. E não abro mão de nenhuma.

A primeira é o café com pão de queijo na lanchonete do Denis, sempre puxando conversa.

A segunda é passar na portaria e trocar um bom-dia com o Francisco.

A terceira é a caminhada no fim da tarde, no parque do bosque, vendo a vida se movimentando debaixo daquele vermelho que só o pôr do sol de Brasília sabe pintar.

Então fica a receita.

Enquanto puder, saia. Circule. Ocupe a cidade. Volte à praça. Volte ao clube. Vá à feira. Converse com desconhecidos. Puxe sua cadeira para a calçada.

E, quando as pernas já não permitirem, que alguém puxe a cadeira para perto de você.

Porque o Aracati continua soprando. Os bons ventos continuam passando. A cidade continua lá fora, esperando ser ocupada.

A farmácia está aberta. A receita não vence.

E a Territocilina é tarja verde, liberada para todas as idades, recomendada para uso sem moderação.

Hoje, antes de dormir, eu vou perguntar pra mim mesmo se tomei minha dose. Você já tomou a sua?

Ricardo de Faria Barros, Psicólogo


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