A época dos emudecidos (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

Acordei hoje com uma saudade sem endereço certo. Ficou rondando a casa a manhã inteira, feito cheiro de café coado que já não existe mais na cozinha.

Era o tempo do Orkut.

Tinha um tópico chamado Receitas Fáceis. Não era meu, mas eu me inscrevi nele e participava ativamente. Simples assim, sem frescura no nome. E ali dentro a gente trocava muito mais do que ingredientes. Trocava tardes, risadas e aquele tipo de atenção que hoje parece artigo de luxo. Ali rolava de tudo, até noite de São João teve, com direito a quadrilha improvisada e animação que atravessava a madrugada.

Foi lá que conheci a arquiteta Aurora Takiochi, de São Paulo. Um dia contei a ela sobre um terreno e um sonho de casa. Ela nunca havia pisado no meu quintal. Não me conhecia de nada. Mas pegou aquela ideia solta que eu lhe dei, ainda torta, cheia de lacunas, e me devolveu, com uma solidariedade que eu nem havia pedido, um croqui.

Era um desenho de casa nascido de conversa, não de planta baixa.

Depois foi meu pai quem traduziu aquele papel em parede, telhado e vida morada. Isso hoje soa quase como milagre. Naquela época, era apenas uma terça-feira.

Conheci também a Angela, de Aracaju. Com ela e mais uma trupe de gente que só existia ali dentro da tela, eu tocava, à distância, um boteco chamado Mói de Liso. Cada um entrava com seu pedido de música para um garçom de bigode, que existia apenas na nossa imaginação coletiva e, por isso mesmo, era mais real do que muito garçom de carne e osso que já me serviu cerveja.

A gente ria como ri quem está sentado ao redor de uma mesa. Só que a mesa era um fórum de internet discada.

Não sei precisar quando o silêncio entrou.

Foi devagar, como toda enchente que primeiro molha apenas o pé da porta.

Hoje entro em grupos e comunidades de WhatsApp. Entro até na do sangue do meu sangue, na da minha própria família, e vejo o mesmo fenômeno: gente lendo, ninguém respondendo. Um bom-dia com balãozinho. Uma imagem de flor dentro de uma moldura dourada. E depois, o vazio.

Como se todo mundo tivesse combinado, sem combinar, de emudecer.

E não é falta de gente na roda. É excesso.

São tantas as portas abertas ao mesmo tempo, como X, Facebook, Youtube, Instagram, TikTok e o próprio Zap, que a gente vai rolando de uma para outra sem pousar em nenhuma. Lê e não interage. Não fala. Não se coloca. Apenas olha.

Depois volta para sua arquibancada particular, de onde fica assistindo a tela rolar a tela, infinitamente, feito quem compra ingresso para o jogo e passa o tempo inteiro de costas para o campo. Tal qual o time da Argentina fez, na comemoração da Copa. 

Confesso que sinto falta.

Sinto mesmo, e não tenho vergonha de dizer.

Gosto de um papo. De uma prosa que empaca, volta, ri de si mesma e depois continua. Sinto falta daquele ambiente de conversa que o Orkut tinha e que ninguém, nem o Facebook com toda a sua força, conseguiu repetir.

Virei órfão de uma coisa que nem tem nome direito.

Órfão do diálogo. Órfão da boa prosa. Órfão da certeza de que, do outro lado da tela, existe alguém com a vida pulsando, e não apenas um perfil.

E essa falta aperta mais porque, aos 61, moro sozinho.

Tenho minhas plantas para regar de manhã e ainda não decidi entre um aquário ou um cachorro para dividir a casa. Nesse silêncio de morar só, um bom-dia de verdade, com resposta e continuação, pesa diferente. Faz falta de um jeito que talvez ninguém que more acompanhado consiga perceber por inteiro.

O que será que aconteceu com o diálogo? O que aconteceu com a gente?

Acho que a tela, com tantos estímulos disputando um segundo da nossa atenção, drenou uma bateria que a gente nem sabia que existia: a bateria social. E então não sobra energia nem para uma interação breve. Um ok. Um joinha. Umas palmas de emoji.

E para por aí. Parece que gastar mais do que isso vai deixar a bateria no vermelho.

Eu costumo postar texto, vídeo, foto, coisa bonita que encontro pelo meio do caminho. E já me acostumei com o silêncio que vem depois. Não digo que gosto. Digo que me acostumei, o que é bem diferente de fazer as pazes com a situação.

Porque reparei numa coisa curiosa: para a treta, o povo sai correndo da arquibancada. Para discutir política, gol anulado, fofoca de quem fez o quê, aí nasce debate longo, cheio de gente querendo provar quem está certo.

O silêncio, ao que parece, não é uma regra geral. É seletivo.  Mas eu prefiro desafinar essa partitura de silêncio. Continuo postando. Continuo buscando interação. Continuo oferecendo o que acho bom, belo e virtuoso, porque não quero me tornar mais um emudecido diante daquilo que ainda merece ser dito.

Desconfio de uma coisa nesses tempos tão vorazes e velozes: o maior tesouro de hoje já não é dinheiro nem fama.

É doar e receber TAC, essa combinação de Tempo, Atenção e Carinho.

Quem investe tempo numa relação, quem presta atenção de verdade no que o outro precisa e espera, quem ainda tem carinho de sobra para oferecer sem a pressa de passar para o próximo estímulo da tela... essa pessoa virou raridade.

E quem recebe um TAC desses sabe: comeu manjar dos deuses.

Ser doador de TAC é remar contra a maré de telas. É o gesto pequeno de quem não quer virar mais um emudecido nessa epidemia de solidão que mora em casa cheia, rua lotada, tela acesa.


Ontem mandei pro grupo da família uma cópia do meu livro novo, "O Menino que Aprendeu a Olhar" Somos dezoito ali dentro. Postei ontem às 14h40. Hoje de manhã, nove e meia, contei de novo: um único retorno. Não vou chamar isso de sofrência, nem de carência, nem de drama. É só constatação. E constatação triste é a pior de todas, porque não pede colo: pede só que a gente admita o que está vendo.

Mas eu convivi com o outro jeito de partilhar vidas e histórias. De interagir, estando verdadeiramente presente e inteiro. 

Sei que aquele momento, intenso de interação, sob a égide do Orkut, existiu. Tenho até pendurado na parede da memória, um croqui de casa desenhado por quem nunca viu meu rosto. E ainda guardo o gosto da música pedida a um garçom de mentirinha que fazia aquele boteco parecer de verdade.

Aquilo era interação de corpo inteiro, mesmo sem corpo algum ali.

A gente demorava. E era bom demorar.

Não escrevo isso por saudosismo bobo, como quem só sabe olhar para o espelho retrovisor. Escrevo porque desconfio que a gente perdeu o jeito de ficar, não o jeito de se conectar.

Conexão a gente tem de sobra. O sinal chega em toda parte.

Ficar é que ninguém mais fica.

Às vezes penso se essa geração inteira de telas vai sentir, um dia, a mesma falta que sinto hoje. A falta de um tópico chamado qualquer coisa, onde gente desconhecida virava gente da vida.

Se você foi do Orkut, sabe do que estou falando. Se não foi, deixo apenas uma pergunta, sem cobrança de resposta, o que já seria uma ironia digna do assunto:

O que será que drenou tanto a nossa vontade de conversar, a ponto de um joinha parecer energia suficiente para sustentar uma conexão verdadeira?


Estar Murcho Não te Define (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

 


Era uma vez um vaso de cactos, largado no canto mais castigado do sítio.

Sol de rachar a manhã inteira. Terra empoeirada, quase pó. Nenhuma mão por perto havia meses. Só o orvalho, esse visitante discreto que chega antes de todo mundo acordar e vai embora antes que alguém agradeça. Foi ele quem segurou aquele vaso vivo. Só ele.

Eu me lembro do dia em que fui buscar. O cacto não tinha uma flor sequer. Tinha espinho, tinha aquela cor meio parda de quem economiza até a cor. Mas tinha raiz. E raiz, quando ainda segura o chão, é a última promessa que uma planta faz a si mesma.

Trouxe pra casa. Coloquei num canto de luz mais generosa, mais lenta. Comecei a regar sem pressa, sem exigir nada em troca. Uma planta em modo sobrevivência não floresce por decreto. Ela precisa primeiro parar de se defender.

Levou tempo. Um mês só de silêncio verde. Depois um broto, pequeno, quase envergonhado de aparecer, na ponta de um dos braços mais castigados. Hoje ele já deu flor mais de uma vez. E não é uma flor qualquer. Esse tipo de cacto guarda a beleza pra abrir de uma vez só, grande, quase indecente de tão bonita, como se quisesse compensar todo o tempo que passou fechada em espinho e resistência. Abre de manhã, dura pouco, fecha à tarde. E ainda assim vale o dia inteiro de espera.

Hoje ele mora na janela da cozinha, entre a tela de proteção e o coqueiro que balança lá fora, do lado de fora do vidro. Divide o parapeito com as coisas comuns de qualquer casa, o amaciante, o sabão, a rotina. Tem braço ainda cor de terra seca, os mais velhos, os que aguentaram o pior do sítio. E tem ponta nova, vermelho-esverdeada, empurrando na direção da luz que entra de manhã. As duas coisas convivendo no mesmo vaso. O que já sofreu e o que já recomeçou.

Fico pensando em quanta gente vive exatamente assim. No modo sobrevivência. Se garantindo com o orvalho que sobra, porque a seiva grande, a do afeto que circula por dentro e não deixa secar, essa parou de vir há muito tempo. Florescer, pra essas pessoas, soa quase um exagero. Uma frase bonita de quem nunca ficou exposto ao sol inclemente.

Cartola viveu isso. Antes de ser o Cartola que a gente canta, foi um homem largado, feito aquele vaso no canto do sítio. Zica o encontrou assim. E não olhou pro estado em que ele estava. Olhou pro que ainda podia florescer ali dentro. Recolheu, cuidou, deu tempo. E o Brasil inteiro colheu o samba que nasceu depois.

Tenho outro cacto, uma Stapelia, num vaso diferente, hoje também esturricado pela vida. Caule seco, sem viço, quase pedindo desculpa por estar ali. Mas eu já conhecia essa planta de antes. Já tinha visto ela florir, com meus próprios olhos, não é suposição nem esperança cega. Uma estrela de cinco pontas, cor violeta, com aquela textura enrugada de veludo velho, se abrindo bem no meio da terra e da areia grossa do vaso. Uma flor assim, em formato de estrela, é coisa rara. Singular, dessas que param os olhos e ainda sobem direto pro peito, elevando o coração de quem tem a sorte de ver. Não esqueci. E é justamente por já ter visto que eu confio. Confio que ele vai voltar a florir, mesmo agora que não mostra nada além de espinho e secura.

Porque a raiz guarda memória. Guarda o que já foi capaz de fazer, mesmo quando o caule por fora não mostra sinal nenhum. Quem já floresceu uma vez carrega essa prova dentro de si, escondida, à espera de água e tempo. Não é ilusão nem promessa vazia, é lembrança viva. E confiar em alguém que está seco agora, mas que um dia já deu flor, é isso: acreditar na raiz que se lembra, mesmo quando os olhos só veem o que secou por fora.

Deus também deve ser assim com a gente. Já nos viu florescer antes de nós mesmos duvidarmos que fôssemos capazes. Conhece o que cada raiz nossa ainda guarda, mesmo quando por fora só aparece espinho e poeira. Não precisa de prova nova. Já viu a flor uma vez, e isso basta pra continuar acreditando.

Outro dia peguei a foto da flor, aquela estrela violeta, e aproximei do caule murcho do próprio cacto. Não sei explicar direito por que fiz isso. Talvez pra que ele visse, à sua maneira de planta, o que já tinha sido capaz. Talvez só pra eu mesmo lembrar. Fiquei ali, segurando o celular perto do espinho seco, como quem mostra um retrato antigo pra alguém que esqueceu o próprio rosto. Estar murcho agora não define ninguém. Não define planta, não define gente. É só uma fase. Uma etapa de vida, dessas que passam, se a gente tiver paciência de esperar a próxima.


Talvez seja essa a tarefa mais silenciosa que existe. Reconhecer, debaixo da poeira e do espinho, que ainda há raiz. Que a pessoa seca na sua frente não é o fim da planta, é só o inverno dela. E que antes de cobrar flor, alguém precisa oferecer água, sombra, paciência. Só depois disso a flor vem, e vem sozinha, sem que ninguém precise puxar pela haste.

Todos nós, um dia, já florescemos. Cada um tem a sua estrela de cinco pontas guardada em algum canto da memória, mesmo que hoje o espelho mostre só espinho e secura. Ir buscar essa lembrança, com calma, sem pressa, é o que reacende a força de continuar. Não porque o passado volta, mas porque ele prova que a raiz sabe florir. E quem já sabe florir, um dia, encontra de novo o seu lugar no jardim da vida.

De vez em quando olho pra ele enquanto escrevo e esqueço o assunto do parágrafo. Tudo bem. A vida também interrompe assim, sem pedir licença. Acho que cuidar de gente seja isso: trazer o vaso pra dentro de casa antes que o sol acabe de secar o que ainda podia florescer. odos nós carregamos uma "estrela violeta" guardada em algum canto da alma. O papel do cuidado — seja o autocuidado ou o apoio de quem nos ama — é trazer o "vaso para dentro" antes que o sol queime as últimas possibilidades. Reconhecer que a secura atual é apenas um hiato nos permite aguardar o retorno da seiva com a dignidade de quem conhece seus próprios ciclos.

No final, cuidar de gente é como cuidar de cactos: é acreditar na raiz que se lembra, mesmo quando os olhos só veem o que secou por fora.
Qual é a "estrela violeta" que sua raiz ainda guarda e que você esqueceu de regar hoje?

SENTI TUA FALTA ONTEM! (Por Ricardo de Faria Barros)


Em quarenta e oito horas, o amor me apareceu quatro vezes. Não veio com flores, nem com trilha de cinema, nem com cena ensaiada pra feed. Veio disfarçado de notícia, de pesquisa, de inteligência artificial e de fila de supermercado.

A primeira notícia: cresce o número de pessoas com mais de sessenta que preferem morar sozinhas. Não querem mais dividir teto, armário, banheiro, controle remoto, cama. Dizem que não têm paciência com mania alheia ou que não querem abrir mão do próprio compasso. O horário de dormir, o volume da TV, o tempero da comida, o lado da cama, o valor sagrado do silêncio. A vida vai endurecendo a gente. Passamos anos ajeitando a casa por dentro e por fora. Quando alguém chega, qualquer mudança parece reforma grande, daquelas que levantam poeira. O amor vai sendo empurrado pro fim de semana. Um jantar, uma viagem rápida, um carinho, e cada um de volta pra sua fortaleza. Sua escova, suas plantas, seus controles. Não é que essas pessoas sejam amargas ou incapazes de amar. É que o custo de ajustar a própria rotina a outra pessoa, depois de tantos anos de autonomia, parece maior que o benefício. E quem somos nós pra julgar? Cada um sabe o peso que carrega e o preço que está disposto a pagar por um pouco de paz.

A segunda notícia: os apps de relacionamento estão perdendo usuários e dinheiro. Cansaram de deslizar o dedo como quem escolhe manga na feira. Na tela, tudo é bonito. Conversa afiada, foto bem iluminada, filtro na medida. Mas aí chega segunda-feira, a maquiagem derrete, o bom-dia demora, ninguém quer abrir mão do treino ou do cochilo pra caber o outro. A versão digital perde o viço no primeiro café da manhã. Não porque o outro seja ruim. É que ninguém é feito só de sábado à noite. Todo mundo tem uma segunda-feira cinzenta guardada no peito. E o que a gente faz com ela? Esconde, disfarça, posta um stories sorrindo. Mas na hora de encontrar alguém de verdade, a segunda-feira aparece. O cansaço aparece. A preguiça de explicar de novo a própria história aparece. E aí a gente desiste. Melhor ficar em casa com o cachorro e uma série nova. Menos trabalho, menos risco, menos exposição. Mas também menos chance de descobrir que o outro tem uma segunda-feira parecida com a sua.

A terceira veio da China. Plataformas de IA receberam ordem pra descontinuar namoros virtuais. Teve gente chorando a perda de avatares porque eles eram mais carinhosos, pacientes, atentos do que qualquer ser de carne e osso. E dá pra entender. Uma namorada de pixel não acorda de mau humor, não esquece o que você contou, não boceja no meio da sua história, não pede espaço no guarda-roupa. Ela massageia o ego, valida suas certezas, nunca aponta suas incoerências. É o parceiro perfeito porque nunca pede nada em troca. Mas isso não é encontro. É eco. É a própria voz da gente rebatendo na parede e voltando mais bonita. E a gente se apaixona pela própria sombra. O problema é que a sombra não esquenta a cama nos dias frios. Não faz pipoca quando você chega arrasado. Não segura sua mão no enterro da sua avó. A sombra é linda, mas não tem braço pra abraçar.

O amor de verdade tem atrito. Tem silêncio incômodo, dia morno, dia frio. Tem a mania que irrita, o atraso que chateia, a palavra dita sem pensar e a vontade de bater a porta. Mas também tem a conchinha no frio, a pipoca dividida no sofá, a mão que aperta a sua na caminhada, o alívio de ver "avisar quando chegar". Alguém que lembra da sua consulta, do seu medo de infância, daquela história boba que você contou meses atrás. E ainda tem casal que topa a desarrumação. Vi muitos. Longevos. Que aprenderam a sujar as mãos um no outro. Não porque o amor seja fácil ou perfeito. Mas porque descobriram que a solidão organizada pesa mais que o caos compartilhado. Eles sabem que o outro vai deixar a toalha molhada em cima da cama, vai roncar, vai esquecer o aniversário. Mas também sabem que vão ter alguém pra contar o sonho estranho da madrugada, alguém que ri das mesmas piadas bobas, alguém que entende o silêncio sem precisar explicar. E isso, pra eles, vale a pena. Não todo dia, mas na maioria deles.

A quarta cena foi no supermercado. Eu passava as compras quando a operadora de caixa viu a colega chegando pra assumir a esteira ao lado. Parou o que fazia, olhou fundo nos olhos dela e disse: "Senti sua falta ontem." A colega abriu um sorriso imenso, quase de criança. Talvez fizesse tempo que ninguém notava sua ausência. E ali, entre o bip do código e o barulho das sacolas, estava a chave de tudo. Não era uma declaração de amor. Não era um pedido de casamento. Era só uma frase dita de verdade, sem roteiro, sem interesse. Era alguém dizendo que percebeu que a outra não estava. E que isso fez diferença.

No fundo, a gente quer ser visto. Quer que alguém note que não estávamos lá. Que pergunte como foi o dia e fique pra ouvir a resposta. A gente quer caber na memória afetuosa de alguém. Não precisa ser todo dia. Mas de vez em quando, faz falta. E a falta percebida é o maior dos afetos, porque significa que a gente existe fora de si mesmo.

Vivemos o império do "eu". Meu tempo, minha rotina, meu espaço. O outro até pode entrar, desde que não mude nada de lugar. É como dois ouriços tentando se abraçar sem baixar os espinhos. Ou dois espelhos esperando que o outro reflita a imagem que eles mesmos querem ver. Mas namorar, viver a dois, exige uma pequena desarrumação. É puxar uma cadeira a mais pra mesa, abrir uma gaveta no armário e na alma, aprender a gostar de um tempero novo, escutar uma música que você nunca colocaria sozinho. Não é se anular. Essa história de "cara-metade" sempre me pareceu conta errada. Pra dar certo, precisamos de duas pessoas inteiras, bem resolvidas com suas próprias solidões, mas que topam fazer uns ajustes pra vida a dois encontrar uma fresta.

Eu não quero namorada de pixel. Também não quero alguém só pra ilustrar sábado à noite. Pra isso, fico com meus vinis e minhas plantas, que não exigem nada e fazem companhia honesta. Quero o pacote completo. Quero alguém que se encante pelo meu mundo enquanto eu me encanto pelo dela. Quero conhecer seus sustos, seus amigos, suas histórias, seus sonhos mais absurdos. Quero ser testemunha do seu crescimento e quero que ela vibre com minhas pequenas estreias. Não quero alguém que concorde com tudo. Quero alguém que, sabendo dos espinhos, arrisque o abraço.

Vida a dois não é utopia, é projeto e escolha. E ainda têm quem ouse tirá-lo do papel, ou da tela. Mas é preciso "sujar as mãos". Sentir a falta da falta. A tua falta de ontem.

A camisa na máquina (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

 


Hoje botei a camisa da seleção pra lavar.

Amarela, meio emboladinha, dormindo no chão da máquina ao lado da camisa do treino de ontem, os 5km que corri sem pressa de chegar, só de chegar. Duas camisas, um mesmo tambor. Uma revela o que não deu certo. A outra revela o que vem dando certo, dia após dia, sem manchete. Uma é o ontem que já passou. A outra é hoje, e amanhã de novo, se Deus quiser.

Fiquei olhando a água girar em volta das duas, misturando o suor de quem corre com a poeira de quem torce, e pensei: são as duas faces da mesma entrega. Só bota roupa suja pra lavar quem se sujou primeiro. Quem se lambuzou de paixão, torceu, se doou, apostou o peito numa camisa, ou suou correndo cedo, sozinho, sem plateia. Quem não se envolveu não tem o que lavar depois. Fica limpo por fora e vazio por dentro, e vazio não suja, mas também não vive.

Vi Lucas, Laís, Sofia e Dudu chorando na saída do Brasil dessa Copa de 2026. Netos entre dois e sete anos, cada um chorando do seu jeito, um alto, outro baixinho, um perguntando por quê, outro só sentindo sem precisar entender. Rosto molhado, soluço que criança não sabe segurar, e não devia aprender a segurar tão cedo. E me vi adulto, engolindo o mesmo choro só que mais calado, mais educado, como se idade desse o direito de não sentir. Não dá. A dor do "quase deu" não escolhe idade. Criança chora alto, sem vergonha, ensina sem querer. Devia ter mais avô aprendendo com neto nessa vida, e menos neto sendo calado por avô que já esqueceu como se chora direito.

Teve frustração encardida na manga da seleção, o "quase deu", o gol que não saiu. Doeu, porque só dói quem se entregou. Mas teve também a camisa suada na corrida, prova de que nem tudo precisa dar errado pra merecer ser lavado e guardado de novo. Tem decepção que se lava e se guarda na gaveta da memória, feito roupa de festa que não se usa toda hora mas também não se joga fora. E tem conquista miúda, do dia a dia, que também suja a roupa, só que de um jeito bom, do jeito que a terra suja a mão de quem planta.

Decepção não se lava direto. Primeiro decanta, feito água suja que precisa assentar antes de escoar. É o tempo do silêncio, de regar por dentro com lágrima, seja de neto de dois anos ou de avô de sessenta e um. Quem pula essa parte carrega mágoa encardida a vida inteira e chama isso de resiliência. Não é. Resiliência de verdade tem processo, tem etapa, tem gente que respeita o próprio tempo de decantar em vez de se cobrar pra já estar bem.

Frankl escreveu isso em condição que ninguém deveria conhecer: entre o que acontece com a gente e o que a gente faz com aquilo existe uma brecha, um espaço, e nesse espaço mora a única liberdade que realmente nos pertence. Lavar a roupa suja é isso, é usar essa brecha. É decidir que a dor não vai virar resposta automática, vai virar matéria decantada, depois esfregada, depois posta no sol até secar de verdade.

Chamo de longelescência essa dupla figura que mora dentro de quem envelhece direito: o adolescente que ainda quer aprender coisa nova, que tem medo mas participa assim mesmo, que precisa de gente ao redor pra se constituir gente, do jeito que Lucas, Laís, Sofia e Dudu ainda estão se constituindo agora. E o idoso que rompeu com aquele roteiro velho de ficar em casa esperando a morte chegar, de se aposentar também da vida, não só do trabalho. As duas figuras precisam da mesma coisa pra continuar existindo: roupa limpa. Mágoa guardada trava o adolescente antes mesmo de ele crescer, e trava o idoso antes mesmo de ele se permitir a segunda metade da vida que ainda tem pela frente.

As lavandeiras do passado usavam as beiras dos rios pra lavar roupa. Estendiam nos lajedos, deixavam a água correndo coar o sabão, ou recolhiam tudo em bacia pra secar no varal do terreiro. E aquele lavar não era solitário. Era coletivo, era roda, era corpo a corpo. Enquanto batiam a roupa na pedra, torciam, esfregavam uma a roupa da outra, elas conversavam. Cantavam. Rezavam. Contavam a vida umas às outras sem cerimônia, sem hora marcada, sem cobrar diploma de terapeuta. A beira do rio era divã, era grupo de apoio, era confessionário improvisado debaixo de árvore. A água lavava tecido, mas a conversa lavava alma. Hoje cada um lava sozinho, máquina fechada, fone de ouvido, ninguém do lado pra ouvir o que pesa. Perdemos rio, ganhamos silêncio. Por isso escrevo. Este texto é minha beira de rio.

Recolher a roupa suja não é o fim de nada. É o começo de novo, disfarçado de tarefa doméstica. Cada peça que a gente separa pra lavar é uma decisão de recomeçar, ainda que pequena, ainda que ninguém veja. A vida é feita desses recomeços miúdos, quase invisíveis, um cesto de roupa de cada vez. 

E se a roupa já decantou, mas falta coragem?

Tem gente que já fez a parte difícil, chorou, ficou quieto, deixou a água suja assentar, e mesmo assim continua parado, olhando pro cesto sem coragem de ligar a máquina. Fica remoendo a mancha, revisitando a dor como quem cutuca ferida só pra ver se ainda dói. Fica preso no papel de vítima. Isso também tem nome, e tem jeito. Deixo aqui alguns gestos pequenos, mais lúdicos do que solenes, pra quem está nessa apatia.

Escolha uma peça só, não o cesto inteiro. Ninguém lava a vida de uma vez. Escolha a mágoa mais leve, a mais fácil, e comece por ela. Sucesso pequeno destrava coragem grande.

Dê nome à mancha antes de lavar. Escreva numa folha o que ela representa, sem se policiar, sem caprichar na letra. Depois rasgue, ou queime com segurança, ou simplesmente amasse e jogue no lixo. O gesto físico avisa o corpo que aquilo mudou de lugar.

Marque um horário de lavar, do jeito que se marca hora de missa. Apatia adora o "depois eu vejo". Coragem gosta de compromisso marcado no calendário, mesmo que seja só com você mesmo.

Mexa o corpo antes de mexer na mágoa. Uma caminhada, um treino de cinco quilômetros, uma dança boba na sala. Corpo que se move destrava sentimento que travou.

Ache sua beira de rio. Um amigo, um filho, um neto que já entenda, alguém que escute sem pressa de resolver. Mágoa contada em voz alta perde metade do peso, porque deixa de ser só sua, vira também cuidado de quem ouve.

Faça uma oração curta, sem cobrança de resultado. Só um "Senhor, ajuda eu a lavar isso" já é começo de coragem, porque reconhece que sozinho a gente nem sempre dá conta.

E se mesmo assim a coragem não vier hoje, tudo bem. Bote a roupa suja de volta no cesto, sem culpa, e tente de novo amanhã. Coragem também tem processo, também decanta.

Amanhã calço o tênis de novo. Ponho a camisa amarela no armário, esperando 2030, junto com Lucas, Laís, Sofia e Dudu, já maiores, já torcendo do jeito deles. E entre um recomeço e outro, vou aprendendo que renascer não é virar outra pessoa. É lavar o que precisa ser lavado e seguir sendo eu, só que mais leve.



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