Era uma vez um tempo em que as pessoas conversavam mais do que deslizavam o dedo na tela. Um tempo em que uma mensagem era uma ponte, não um corredor de passagem apressada.
Era uma vez um tempo em que as pessoas se visitavam sem avisar, sem pedir licença, sem marcar na agenda. Chegavam com um “ô de casa” e um sorriso aberto, e já iam entrando como quem sabe que ali há lugar. Não havia protocolo, havia afeto. A casa do outro era extensão da própria vida.
Era uma vez um tempo em que as cadeiras iam para a calçada no fim da tarde. O vento corria leve, as conversas iam e vinham, e ninguém tinha pressa de voltar para dentro. Falava-se da vida, das novidades, das dores e das alegrias. E, sem perceber, as pessoas se curavam umas nas outras.
Era uma vez um tempo em que a gente saía apenas para dar uma voltinha. Sem destino, sem pressa, só para ver a vida acontecendo lá fora. Para além dos porões de apartamentos, havia ruas, rostos, encontros, acenos. Havia mundo pulsando, e a gente fazia parte dele.
Era uma vez um tempo em que havia um interesse genuíno pelo mundo do outro. A gente perguntava e queria ouvir a resposta. Admirava conquistas simples, celebrava pequenos passos, se emocionava junto. Não era sobre performance, era sobre presença. Não era sobre aparecer, era sobre pertencer.
Era uma vez um tempo em que tínhamos vontade de sair com os amigos, não apenas no tal do "sextou". A gente combinava coisas no meio da semana, depois do expediente. Um cinema, uma conversa, uma cerveja sem pressa. Frequentávamos as AABBs em qualquer dia, sem cerimônia. Havia vida ali, havia riso, havia encontro. Hoje, muitas estão esvaziadas, como se o tempo tivesse levado embora não só as pessoas, mas a vontade de estar junto, deixando lembranças guardadas como em uma cristaleira vazia.
Você também só está lendo as mensagens e já passando para outra coisa, sem tempo para uma interação mínima?
Lembrei de mamãe. Durante muito tempo, ela respondia a todas as interações no grupo da família. Era como se dissesse, em cada resposta, “eu estou aqui”. Mas, nos últimos anos, algo mudou de forma silenciosa. Agora ela passa longos minutos deslizando o dedo na tela do Instagram. Ri sozinha. Às vezes comenta em voz alta, como quem ainda conversa com o mundo. Mas não escreve mais. Não responde mais. Nem com as amigas.
Fica ali, entre um vídeo e outro. Entre uma rolagem e outra. Presa naquele fluxo infinito que não pede resposta, não exige presença, não constrói ponte. Só passa.
Sou do tempo do Orkut. Tenho saudade daquele tempo em que as pessoas paravam um pouco mais. Hoje parece que tudo foi desenhado para que a gente não pare. Nem pense. Nem se coloque. Os da área chamam de engajamento, mas, curiosamente, nunca estivemos tão desengajados uns com os outros.
Você pode estar dizendo que é falta de tempo. Que a vida está corrida. Mas me diga com sinceridade: pra quantas mensagens você realmente respondeu hoje? Ou só leu, avançou, deslizou e seguiu?
Começo a acreditar que vivemos uma epidemia silenciosa de solidão digital. Não é a falta de gente, mas a fluidez das relações, onde os laços se desfazem com a mesma facilidade com que se formam.
Li o desabafo de um 70+. Ele entrou num curso de fotografia, todo animado. Postou no grupo da família, mais de 30 pessoas. Contou da primeira aula, compartilhou a primeira foto. Era sábado, meio-dia. Até seis da tarde, silêncio. Nenhuma resposta. Nenhum olhar de volta.
Ele começou a duvidar. Será que o grupo está funcionando? Ou será que fui eu que caí? Mais tarde, um neto mandou um meme de futebol. Em minutos, seis interações. E ali, no meio daquele barulho leve, ele se sentiu ainda mais só. Invisível.
Estamos numa espécie de babel digital. Todo mundo falando. Pouquíssimos ouvindo. É todo mundo com o rosto iluminado pelas telas e a alma apagada pelas ausências. E os músculos definhando pela falta de percepção do lado de lá — da vida real que ocorre para além dos vídeos editados e acelerados, dos memes, das correntes e assemelhados. Viramos uma geração de emudecidos. Recebemos mensagens, mas não devolvemos presença. O que o outro posta cai no vazio, como um pano de guardar confetes de carnaval, esquecido até o próximo ano.
Ontem, cheguei de viagem depois de dirigir 2.200 quilômetros. Só parei para dormir seis horas. Cheguei cansado. Muito cansado. Mas, ainda assim, com vontade de estar junto. Fiz uma foto. Montei uma arte com carinho (esta que ilustra este texto), um convite com o aviso: "Vovô táxi já está na praça novamente. Aproveitem!". Nela, meu sorriso aberto convidava à interação, enquanto um carrinho de "Vovô Táxi" com crianças felizes acenava. Um gesto simples. Um "estou aqui".
Postei no grupo de filhos, noras e netos. Somos em 10, comigo. Sabe qual foi o retorno? Um único. Justamente de um filho que ainda não tem filhos. Foi ele quem validou minha presença, quem viu o pai por trás da imagem.
E veja, nosso relacionamento é bom. Não há conflito. Há ausência de gesto. Fiquei ali, com minha alegria de avô, imaginando buscar os netos no colégio, oferecendo meu coração aberto. E o silêncio respondeu. A imagem está lá. Eu também.
E então pensei: meus filhos devem estar muito ocupados. Um dia depois, continuava sem repercutir o Vovô Táxi. É que eles têm a vida deles. A agitação do cotidiano. E com certeza se esqueceram do quanto seria importante para mim uma simples interação naquela foto. Algo breve. Eles não fazem por mal.
Mas aí me perguntei: e eu? Quantas vezes eu também deixei de responder alguém que me amava? Quantas vezes eu vi uma mensagem, pensei "depois respondo", e o depois nunca chegou?
Não é falta de amor. É falta de presença. E a falta de presença não é um defeito de caráter de ninguém: é um sintoma do tempo.
Agora mesmo, enquanto escrevia este texto, lembrei de algo. Depois de um dia corrido, com uma agenda de coisas a fazer após 10 dias fora, lembrei que não retornei o telefonema de mamãe. Ela ligou no salão. Eu digitei: "estou no salão, depois ligo". Sabe por que não atendi? A navalha estava perto. Rsrs. E o depois... já era. A ansiedade de resolver mil coisas — e até de escrever este texto — me desconectou da minha própria agenda. Da minha própria mãe.
Eu faço exatamente o que critiquei. Não por mal. Porque estou anestesiado igual. Intoxicado pelo século XXI, com suas insanas realidades e seu jeito de ser. Eu faço, tu fazes, eles fazem... Nós todos estamos assim. Deixando para um dia depois, numa possibilidade vaga de diálogo e interação.
Era uma vez um tempo em que não se matava — nem se morria — por causa de governantes. Em que não se brigava por visões extremas de nada. Em que se convivia mais facilmente em sociedade. Sem ser boicotado. Sem ser bloqueado. O outro era melhor aceito e incluso, do jeito que ele era.
Eu também já bloqueei. Também já deixei de falar com alguém por causa de uma discordância. Também já preferi o silêncio ao desconforto de ouvir quem pensa diferente. Não por mal. Por medo. Por cansaço. Porque é mais fácil apertar um botão do que sustentar um olhar.
Por isso, antes de ir, deixo cinco pequenos gestos para não transformar ninguém num chão de giz que foi apagado:
1. Responda enquanto sente: Não deixe para depois. O depois costuma virar nunca.
2. Valorize o simples: Uma foto, um relato, uma conquista pequena. É ali que mora a vida de verdade.
3. Use a tecnologia como ponte, não como esconderijo: Se recebeu, devolva. Nem que seja com um emoji, mas devolva.
4. Dê nome às pessoas: Chame, marque, reconheça. Ninguém gosta de ser genérico no mundo de alguém.
5. Pratique o cuidado invisível: Às vezes, uma resposta sua é o que impede alguém de se sentir esquecido.
Porque, no fundo, o que sustenta uma vida longa e com sentido não é só saúde. É vínculo.
Agora encerro, preciso ligar para minha mãe!
E vínculo não se lê. Se responde.

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