Das pequenas coisas que fizeram minha vida imensa
Se vocês chegaram até aqui, talvez já tenham percebido uma coisa.
O avô de vocês nunca precisou de muito para ser feliz.
Nunca fui rico.
Nunca fui famoso.
Nunca tive uma vida perfeita.
Mas tive uma vida cheia.
Cheia de gente.
Cheia de histórias.
Cheia de curiosidade.
Cheia de pequenos encantamentos.
Talvez o maior segredo da felicidade seja exatamente esse.
Aprender a encontrar grandeza nas coisas pequenas.
Sempre gostei de "festar" a vida.
Não apenas as grandes conquistas.
Gostava de festar uma manhã de domingo.
Uma feira livre.
Um café passado na hora.
Uma apresentação de rua.
Um sanfoneiro tocando numa praça.
Um restaurante simples.
Uma conversa comprida.
Uma viagem de carro sem pressa.
Um pôr do sol.
Uma lua cheia.
Uma chuva chegando.
Um almoço em família.
Uma fotografia.
Descobri cedo que felicidade não mora apenas nos grandes acontecimentos.
Ela mora principalmente no cotidiano.
Nunca fui da madrugada.
Depois da uma da manhã meu corpo já queria descansar.
Sempre gostei mais do nascer do sol do que do fim da festa.
Acho que Deus conversa melhor conosco quando o mundo ainda está acordando.
Gostava de andar descalço.
Gostava de rede.
Gostava do cheiro de terra molhada.
Gostava do barulho das ondas quebrando na praia.
Gostava do silêncio do sertão.
Gostava das flores.
Sempre achei que uma flor aberta é uma forma delicada de Deus dizer que continua cuidando do mundo.
Também gostava de jardinagem.
Plantar uma árvore sempre me pareceu um ato de esperança.
Quem planta uma árvore acredita no amanhã.
Gostava de construir pomares.
Talvez porque uma árvore nunca coma os próprios frutos.
Ela sempre produz para quem vier depois.
Que bonito seria se as pessoas fossem um pouco mais parecidas com as árvores.
Sempre gostei mais de feira livre do que de shopping.
Na feira tudo parece conversar.
As frutas.
Os cheiros.
Os vendedores.
Os fregueses.
Os sotaques.
Os temperos.
Fiz grandes amizades com feirantes.
Também com garçons.
Nunca gostei de tratar quem serve como invisível.
Sempre procurei saber o nome das pessoas.
Perguntar como estavam.
Agradecer.
Acho que ninguém deveria passar pela vida sem ser percebido.
Talvez porque eu mesmo sempre tenha desejado ser visto.
Gostava de fotografar.
Vocês certamente encontrarão centenas de fotografias feitas por mim.
E lembrarão de uma frase que repetia em quase todas as reuniões de família.
"Agora a última... A histórica."
Hoje sorrio ao pensar nisso.
Todas acabaram sendo históricas.
Porque nunca mais nos reunimos exatamente daquele jeito.
Colecionei discos de vinil.
CDs.
Fitas cassete.
Livros. Selos.
Fotografias.
Mas, olhando para trás, percebo que minha verdadeira coleção sempre foi de pessoas.
As pessoas são o melhor acervo que alguém pode construir.
Também gostava de cozinhar.
Inventava receitas.
Misturava ingredientes.
Seus pais chamavam essas experiências de "gorbachos".
Nem sempre tinham boa aparência.
Mas quase sempre faziam a família rir.
Aprendi que cozinhar também é uma forma de dizer "eu gosto de vocês".
Sempre gostei de aprender.
Nunca deixei de estudar.
Nunca achei que já sabia o suficiente.
Aprendi informática quando quase ninguém tinha computador.
Fiz especializações.
Mestrado.
Escrevi livros.
Mas continuo acreditando que a melhor universidade continua sendo a vida.
Também aprendi uma coisa importante.
Nunca comparem a vida de vocês com a de ninguém.
Cada pessoa carrega batalhas invisíveis.
Sejam gentis.
Vocês nunca saberão completamente o peso que o outro está carregando.
Outra coisa que me ajudou muito foi procurar diariamente três experiências.
Uma coisa bela.
Uma coisa boa.
Uma coisa virtuosa.
À noite eu voltava ao meu dia e recordava essas três pequenas descobertas.
Isso mudou meu jeito de enxergar a existência.
Passei a perceber flores onde antes via apenas espinhos.
Passei a agradecer mais.
Reclamar menos.
Se algum dia vocês estiverem vivendo um tempo difícil, experimentem fazer esse exercício.
Tenho quase certeza de que algo bonito acontecerá dentro de vocês.
Quero também falar um pouco da família que construí.
Ela é uma das maiores alegrias da minha vida.
Cada filho recebeu um dom muito especial.
Tiago, meu filho mais velho, e Carol, minha querida nora, carregam uma capacidade rara de acolher.
A casa deles sempre parece maior por dentro do que por fora.
Eles têm o dom de fazer amigos.
De incluir.
De fazer as pessoas se sentirem pertencentes.
Acho isso uma virtude enorme.
Priscila, minha filha, e Hugo, meu genro, me ensinaram outra força.
A perseverança.
Nunca os vi desistirem facilmente.
Sempre procuram melhorar.
Estudar.
Crescer.
Encontrar novos caminhos.
São pessoas que seguem caminhando mesmo quando a estrada parece difícil.
Rodrigo, meu filho, e Andreza, minha nora, receberam um talento diferente.
São arquitetos de soluções.
Quando surge um problema, não ficam lamentando. E isso eles fazem conosco também, pois são
Gosto muito dessa característica.
O mundo precisa de pessoas assim.
Pessoas que constroem pontes em vez de aumentar os muros.
E meu caçula, João Gabriel...
Ah...
João sempre me ensinou uma paz que eu ainda estava aprendendo.
Ele tem o dom da simplicidade.
Está bem em qualquer lugar.
Não precisa de luxo.
Não precisa de grandes espetáculos.
Carrega dentro dele uma serenidade que admiro profundamente.
Espero que nunca perca isso.
Meus netos também são presentes de Deus.
Cada um deles já nasceu trazendo uma pequena marca.
Dudu chegou espalhando peraltices.
É impossível pensar nele sem sorrir.
Sofia nasceu líder.
Existe nela uma força vital que naturalmente conduz as pessoas.
Laís, a nossa Lalá, trouxe a delicadeza.
Sua meiguice tem o poder de acalmar ambientes.
E Lucas herdou uma das características de que mais me orgulho.
A curiosidade. O gosto em aprender.
Que ele nunca deixe de fazer perguntas.
Foram elas, as perguntas, que me levaram tão longe.
Talvez vocês estejam percebendo que gosto de olhar para aquilo que cada pessoa tem de melhor.
Aprendi isso com o bisavô Evandy.
Meu pai nunca entrava num lugar procurando defeitos.
Procurava primeiro aquilo que merecia admiração.
Levei essa filosofia para toda a minha vida.
Não porque o mundo seja perfeito.
Mas porque aquilo que alimentamos dentro de nós cresce.
Sempre preferi alimentar a esperança.
Também quero lhes dizer uma última coisa.
Não esperem uma vida sem dores.
Ela não existe.
Mas existe uma vida cheia de sentido.
Sempre que sofri, procurei transformar aquela dor em alguma coisa útil.
Um texto.
Uma palestra.
Um projeto.
Um abraço.
Uma oração.
Uma nova amizade.
Foi assim que consegui seguir em frente.
Se eu pudesse deixar apenas uma herança para vocês, não seria dinheiro.
Seria um jeito de viver.
Olhem mais para as flores do que para os espinhos.
Façam amigos.
Aprendam coisas novas.
Leiam bons livros.
Viajem.
Plantem árvores.
Fotografem quem vocês amam.
Abracem demoradamente.
Perdoem antes que seja tarde.
Digam "eu te amo" enquanto a pessoa ainda pode ouvir.
E nunca deixem que a curiosidade morra.
Porque foi ela que manteve vivo o menino Ricardinho dentro do velho Ricardim.
Se um dia sentirem saudade de mim, não precisam ir ao cemitério.
Vão a uma feira livre.
Sentem-se num banco de praça.
Tomem um café.
Olhem um pôr do sol.
Conversem com um garçom.
Plantem uma muda de ipê.
Escutem uma sanfona.
Ou simplesmente reúnam a família para uma fotografia.
Quando alguém disser que aquela será "a última...
A histórica."
Sorriam.
Provavelmente eu estarei sorrindo junto com vocês.


















