EPITÁFIO IV - Aos meus netos (Ricardo de Faria Barros, seu avô, psicólogo e amante da vida e do viver)


Das pequenas coisas que fizeram minha vida imensa

Se vocês chegaram até aqui, talvez já tenham percebido uma coisa.

O avô de vocês nunca precisou de muito para ser feliz.

Nunca fui rico.

Nunca fui famoso.

Nunca tive uma vida perfeita.

Mas tive uma vida cheia.

Cheia de gente.

Cheia de histórias.

Cheia de curiosidade.

Cheia de pequenos encantamentos.

Talvez o maior segredo da felicidade seja exatamente esse.

Aprender a encontrar grandeza nas coisas pequenas.

Sempre gostei de "festar" a vida.

Não apenas as grandes conquistas.

Gostava de festar uma manhã de domingo.

Uma feira livre.

Um café passado na hora.

Uma apresentação de rua.

Um sanfoneiro tocando numa praça.

Um restaurante simples.

Uma conversa comprida.

Uma viagem de carro sem pressa.

Um pôr do sol.

Uma lua cheia.

Uma chuva chegando.

Um almoço em família.

Uma fotografia.

Descobri cedo que felicidade não mora apenas nos grandes acontecimentos.

Ela mora principalmente no cotidiano.

Nunca fui da madrugada.

Depois da uma da manhã meu corpo já queria descansar.

Sempre gostei mais do nascer do sol do que do fim da festa.

Acho que Deus conversa melhor conosco quando o mundo ainda está acordando.

Gostava de andar descalço.

Gostava de rede.

Gostava do cheiro de terra molhada.

Gostava do barulho das ondas quebrando na praia.

Gostava do silêncio do sertão.

Gostava das flores.

Sempre achei que uma flor aberta é uma forma delicada de Deus dizer que continua cuidando do mundo.

Também gostava de jardinagem.

Plantar uma árvore sempre me pareceu um ato de esperança.

Quem planta uma árvore acredita no amanhã.

Gostava de construir pomares.

Talvez porque uma árvore nunca coma os próprios frutos.

Ela sempre produz para quem vier depois.

Que bonito seria se as pessoas fossem um pouco mais parecidas com as árvores.

Sempre gostei mais de feira livre do que de shopping.

Na feira tudo parece conversar.

As frutas.

Os cheiros.

Os vendedores.

Os fregueses.

Os sotaques.

Os temperos.

Fiz grandes amizades com feirantes.

Também com garçons.

Nunca gostei de tratar quem serve como invisível.

Sempre procurei saber o nome das pessoas.

Perguntar como estavam.

Agradecer.

Acho que ninguém deveria passar pela vida sem ser percebido.

Talvez porque eu mesmo sempre tenha desejado ser visto.

Gostava de fotografar.

Vocês certamente encontrarão centenas de fotografias feitas por mim.

E lembrarão de uma frase que repetia em quase todas as reuniões de família.

"Agora a última... A histórica."

Hoje sorrio ao pensar nisso.

Todas acabaram sendo históricas.

Porque nunca mais nos reunimos exatamente daquele jeito.

Colecionei discos de vinil.

CDs.

Fitas cassete.

Livros. Selos.

Fotografias.

Mas, olhando para trás, percebo que minha verdadeira coleção sempre foi de pessoas.

As pessoas são o melhor acervo que alguém pode construir.

Também gostava de cozinhar.

Inventava receitas.

Misturava ingredientes.

Seus pais chamavam essas experiências de "gorbachos".

Nem sempre tinham boa aparência.

Mas quase sempre faziam a família rir.

Aprendi que cozinhar também é uma forma de dizer "eu gosto de vocês".

Sempre gostei de aprender.

Nunca deixei de estudar.

Nunca achei que já sabia o suficiente.

Aprendi informática quando quase ninguém tinha computador.

Fiz especializações.

Mestrado.

Escrevi livros.

Mas continuo acreditando que a melhor universidade continua sendo a vida.

Também aprendi uma coisa importante.

Nunca comparem a vida de vocês com a de ninguém.

Cada pessoa carrega batalhas invisíveis.

Sejam gentis.

Vocês nunca saberão completamente o peso que o outro está carregando.

Outra coisa que me ajudou muito foi procurar diariamente três experiências.

Uma coisa bela.

Uma coisa boa.

Uma coisa virtuosa.

À noite eu voltava ao meu dia e recordava essas três pequenas descobertas.

Isso mudou meu jeito de enxergar a existência.

Passei a perceber flores onde antes via apenas espinhos.

Passei a agradecer mais.

Reclamar menos.

Se algum dia vocês estiverem vivendo um tempo difícil, experimentem fazer esse exercício.

Tenho quase certeza de que algo bonito acontecerá dentro de vocês.

Quero também falar um pouco da família que construí.

Ela é uma das maiores alegrias da minha vida.

Cada filho recebeu um dom muito especial.

Tiago, meu filho mais velho, e Carol, minha querida nora, carregam uma capacidade rara de acolher.

A casa deles sempre parece maior por dentro do que por fora.

Eles têm o dom de fazer amigos.

De incluir.

De fazer as pessoas se sentirem pertencentes.

Acho isso uma virtude enorme.

Priscila, minha filha, e Hugo, meu genro, me ensinaram outra força.

A perseverança.

Nunca os vi desistirem facilmente.

Sempre procuram melhorar.

Estudar.

Crescer.

Encontrar novos caminhos.

São pessoas que seguem caminhando mesmo quando a estrada parece difícil.

Rodrigo, meu filho, e Andreza, minha nora, receberam um talento diferente.

São arquitetos de soluções.

Quando surge um problema, não ficam lamentando. E isso eles fazem conosco também, pois são 

nossos resolvedores de problemas. Para eles, tudo pode ter uma saída.

Gosto muito dessa característica.

O mundo precisa de pessoas assim.

Pessoas que constroem pontes em vez de aumentar os muros.

E meu caçula, João Gabriel...

Ah...

João sempre me ensinou uma paz que eu ainda estava aprendendo.

Ele tem o dom da simplicidade.

Está bem em qualquer lugar.

Não precisa de luxo.

Não precisa de grandes espetáculos.

Carrega dentro dele uma serenidade que admiro profundamente.

Espero que nunca perca isso.

Meus netos também são presentes de Deus.

Cada um deles já nasceu trazendo uma pequena marca.

Dudu chegou espalhando peraltices.

É impossível pensar nele sem sorrir.

Sofia nasceu líder.

Existe nela uma força vital que naturalmente conduz as pessoas.

Laís, a nossa Lalá, trouxe a delicadeza.

Sua meiguice tem o poder de acalmar ambientes.

E Lucas herdou uma das características de que mais me orgulho.

A curiosidade. O gosto em aprender. 

Que ele nunca deixe de fazer perguntas.

Foram elas, as perguntas, que me levaram tão longe.

Talvez vocês estejam percebendo que gosto de olhar para aquilo que cada pessoa tem de melhor.

Aprendi isso com o bisavô Evandy.

Meu pai nunca entrava num lugar procurando defeitos.

Procurava primeiro aquilo que merecia admiração.

Levei essa filosofia para toda a minha vida.

Não porque o mundo seja perfeito.

Mas porque aquilo que alimentamos dentro de nós cresce.

Sempre preferi alimentar a esperança.

Também quero lhes dizer uma última coisa.

Não esperem uma vida sem dores.

Ela não existe.

Mas existe uma vida cheia de sentido.

Sempre que sofri, procurei transformar aquela dor em alguma coisa útil.

Um texto.

Uma palestra.

Um projeto.

Um abraço.

Uma oração.

Uma nova amizade.

Foi assim que consegui seguir em frente.

Se eu pudesse deixar apenas uma herança para vocês, não seria dinheiro.

Seria um jeito de viver.

Olhem mais para as flores do que para os espinhos.

Façam amigos.

Aprendam coisas novas.

Leiam bons livros.

Viajem.

Plantem árvores.

Fotografem quem vocês amam.

Abracem demoradamente.

Perdoem antes que seja tarde.

Digam "eu te amo" enquanto a pessoa ainda pode ouvir.

E nunca deixem que a curiosidade morra.

Porque foi ela que manteve vivo o menino Ricardinho dentro do velho Ricardim.

Se um dia sentirem saudade de mim, não precisam ir ao cemitério.

Vão a uma feira livre.

Sentem-se num banco de praça.

Tomem um café.

Olhem um pôr do sol.

Conversem com um garçom.

Plantem uma muda de ipê.

Escutem uma sanfona.

Ou simplesmente reúnam a família para uma fotografia.

Quando alguém disser que aquela será "a última...

A histórica."

Sorriam.

Provavelmente eu estarei sorrindo junto com vocês.

EPITÁFIO III - Aos meus netos (Ricardo de Faria Barros, seu avô, psicólogo e amante da vida e do viver)


Se vocês chegaram até este capítulo, já sabem que minha vida nunca foi uma linha reta.

Ela foi feita de curvas.

De encontros.

De despedidas.

De lágrimas.

De recomeços.

De algumas vitórias.

E de muitos aprendizados.

Durante muitos anos achei que viver era conquistar.

Conquistar um cargo.

Construir uma casa.

Publicar um livro.

Ter estabilidade financeira.

Encontrar um grande amor.

Ser reconhecido.

Hoje penso diferente.

Hoje acredito que viver é muito mais aprender.

A vida foi, aos poucos, tirando de mim aquilo que eu imaginava ser indispensável.

Tirou casas.

Mudou cidades.

Mudou trabalhos.

Mudou amores.

Mudou projetos.

Mudou certezas.

E, curiosamente, quanto mais ela tirava, mais eu descobria aquilo que nunca poderia ser levado.

Minha curiosidade.

Minha fé.

Minha capacidade de recomeçar.

Meu gosto pelas pessoas.

Meu encantamento pelas pequenas coisas.

Foi aí que comecei a entender o verdadeiro significado da longevidade.

Envelhecer nunca foi meu objetivo.

Meu objetivo sempre foi continuar vivo por dentro.

Foi dessa inquietação que nasceu um dos projetos mais bonitos da minha vida.

A Longelescência.

Muita gente fala apenas sobre envelhecimento.

Eu preferi falar sobre possibilidades.

Sempre acreditei que a idade pode acrescentar.

Pode amadurecer.

Pode ampliar.

Pode libertar.

Nunca gostei quando diziam que determinada coisa "não era mais para a minha idade".

Quem decidiu isso?

Quem escreveu essa regra?

Aos sessenta anos comecei a correr.

Depois voltei a estudar.

Entrei numa pós-graduação em Saúde do Idoso.

Continuei escrevendo.

Continuei dando palestras.

Continuei fazendo planos.

Descobri que o calendário não pode mandar na curiosidade.

Criem esse hábito.

Nunca parem de aprender.

Nunca.

Mesmo quando acharem que já sabem bastante.

Aliás, desconfiem justamente desse momento.

Foi estudando que descobri uma das práticas que mais transformaram minha vida.

Passei a procurar diariamente três coisas.

Uma coisa bela.

Uma coisa boa.

Uma coisa virtuosa.

À noite, antes de dormir, recordava essas três experiências.

No começo parecia um exercício simples.

Depois percebi que ele estava mudando meu olhar.

O mundo continuava tendo violência.

Problemas.

Injustiças.

Mas eu deixei de enxergar apenas os espinhos.

Passei a perceber também as flores.

Não porque elas fossem maioria.

Mas porque eu havia treinado meus olhos para encontrá-las.

Se algum dia vocês estiverem vivendo um período difícil, experimentem fazer isso durante trinta dias.

Tenho quase certeza de que não mudarão o mundo.

Mas mudarão a forma como o mundo habita vocês.

Também aprendi outra coisa.

Nunca deixem que a solidão se transforme em moradora da casa.

Ela pode visitar.

Todos nós ficaremos sós em alguns momentos.

Eu também fiquei.

Muitas vezes.

Mas sempre procurei responder ao vazio com movimento.

Escrevia.

Lia.

Plantava.

Fotografava.

Dirigia.

Ia à missa.

Estudava.

Telefonava para alguém.

Fazia uma feira.

Tomava um café.

Assistia a uma apresentação de rua.

A vida nunca me pareceu pequena.

Sempre havia alguma coisa esperando para ser descoberta.

Outra característica minha era gostar de "festar" a vida.

Não precisava existir motivo.

Eu festejava uma feira livre.

Uma conversa.

Uma música.

Um pôr do sol.

Um almoço simples.

Um café.

Uma caminhada.

Uma fotografia em família.

Aprendi que felicidade raramente faz barulho.

Ela costuma morar nas coisas pequenas.

Também nunca fui de guardar dinheiro apenas para mim.

Sempre que podia ajudava alguém.

Chamava isso de meu dízimo.

Às vezes ajudava um amigo.

Outras vezes alguém que eu nem conhecia pessoalmente.

Como o Major Drive, que acompanho pela internet e ajudei a comprar cerâmicas para o quarto da filha.

Outras vezes fazia uma feira para minha mãe.

Ou mandava uma ajuda inesperada.

Descobri que dinheiro também pode ser abraço.

Nunca fui rico.

Mas sempre tentei ser generoso.

Gostava de olhar o lado bom das pessoas.

Isso aprendi com meu pai.

Nunca entrava num lugar procurando defeitos.

Entrava procurando aquilo que merecia admiração.

Levei esse hábito para tudo.

Para os relacionamentos.

Para o trabalho.

Para as cidades.

Para os restaurantes.

Para as pessoas.

Talvez por isso eu tenha conseguido fazer amigos em tantos lugares diferentes.

Outra coisa que quero lhes contar.

Nunca fui inteligente.

Fui estudioso.

Persistente.

Insistente.

Quando não entendia uma coisa, estudava outra vez.

Depois outra.

Até aprender.

Não tenham vergonha de não saber.

Tenham vergonha apenas de desistir de aprender.

Ao longo da vida publiquei livros.

Escrevi centenas de textos.

Gravei vídeos.

Criei cursos.

Mentorias.

Palestras.

Mas nada disso foi mais importante do que as pessoas que encontrei pelo caminho.

Se algum legado eu gostaria de deixar, não é uma biblioteca.

É um jeito de olhar para a vida.

Um jeito curioso.

Gentil.

Esperançoso.

Também amei.

Amei muitas vezes.

Cada mulher que amei em minha vida deixou um aprendizado. E todas tornaram parte de quem eu 

sou: Diene, Joane, Cristina, Carol, Ieda, Girlane, Ramona, Ana Cristina. E, para elas, meus netos e

bisnetos, eu só tenho uma palavra: gratidão!

Nunca gostei de colecionar romances. Não fui um avô mulherengo. Eu gostava mesmo era de construir
mundos compartilhados.

Aprendia a gostar da cidade delas.

Da família delas.

Dos amigos delas.

Da cultura e estilod e vida delas. 

Quando um relacionamento terminava, eu não perdia apenas uma pessoa.

Perdia um universo.

Hoje entendo isso.

E também entendo outra coisa.

É possível recomeçar.

Mais de uma vez.

Se algum dia vocês sofrerem por amor, não fechem o coração.

Ele nasceu para criar novos vínculos.

Não para guardar ressentimentos.

Hoje, já mais velho, encontrei paz.

Descobri que o melhor amor não é o que acelera o coração.

É o que o acalma.

É aquele ao lado do qual o cérebro deixa de galopar para o futuro e para o passado.

E aprende a morar no agora.

Se um dia encontrarem alguém assim...

Cuidem desse encontro.

Vocês também já sabem que gosto de uma frase.

Então deixo algumas para caminharem com vocês.

Nunca deixem a rotina envelhecer antes de vocês.

Continuem estreando.

Sempre que a vida ferir vocês, procurem responder criando alguma coisa.

Olhem primeiro para o que existe de bom.

As mágoas envelhecem mais depressa do que as pessoas.

Aprendam coisas novas.

Abracem mais.

Perdoem antes.

Façam fotografias.

Plantem árvores.

Digam "eu te amo".

Andem descalços de vez em quando.

Tomem banho de chuva, se puderem.

Olhem a lua cheia.

Agradeçam mais.

Reclamem menos.

E nunca parem de fazer perguntas.

Porque foi a curiosidade que manteve o menino Ricardinho vivo dentro do velho Ricardim.

Se um dia vocês quiserem me encontrar, não procurem apenas nos meus livros.

Nem nas fotografias.

Nem nos vídeos.

Nem neste texto.

Procurem-me quando uma criança rir perto de vocês.

Quando um passarinho cantar.

Quando um pôr do sol colorir o céu.

Quando uma flor nascer onde ninguém esperava.

Quando uma estrada convidar para seguir adiante.

Ou quando vocês decidirem começar alguma coisa que muita gente dizia que já não era para a idade de vocês.

Estarei em todos esses lugares.

Porque, no fundo, foi ali que vivi.

E, se eu pudesse resumir toda a minha existência numa única frase, escolheria esta:

Não colecionei sucessos. Colecionei estreias.

Vivam.

Amem.

Aprendam.

Sirvam.

Recomecem.

E quando a vida parecer difícil demais, lembrem-se de uma coisa que o avô de vocês descobriu depois de muitos anos:

Deus nunca desperdiça uma dor quando encontra um coração disposto a transformá-la em amor.





EPITÁFIO II - Aos meus netos (Ricardo de Faria Barros, seu avô, psicólogo e amante da vida e do viver)


Se no primeiro capítulo contei quem eu era, agora quero contar como a vida foi me transformando.
Hoje, olhando para trás, percebo que minha história foi marcada por rupturas.
Não gosto dessa palavra. Ela parece dura demais.

Mas talvez seja a que melhor descreva o que vivi.

Houve momentos em que um ciclo terminou tão de repente que parecia impossível acreditar que outro pudesse começar.

Na época eu enxergava apenas a perda.

Hoje consigo enxergar também o nascimento.

Aprendi que quase toda ruptura é também um parto.

Alguma coisa termina para que outra possa nascer.

A primeira grande ruptura aconteceu quando eu tinha quinze anos.

Naquela época eu queria ser padre.

Não era uma vontade passageira.

Era um sonho verdadeiro.

Passei a frequentar o seminário menor.

Nos finais de semana seguíamos para a Comunidade São Sebastião, no bairro do Alto Branco, em Campina Grande.

Ali aprendi muito mais do que doutrina.

Aprendi a ouvir as pessoas.

Aprendi a visitar famílias.

Aprendi a preparar catequese.

Aprendi a comentar o Evangelho.

Aprendi que a fé pode ser simples.

Eu era feliz.

Achava que aquele seria meu caminho.

Mas Deus também fala através dos afetos.

E um dia conheci Diene.

Ela participava do JORENAC, um dos grupos de jovens que eu frequentava.

Foi meu primeiro grande amor.

Com ela descobri um mundo completamente novo.

Descobri a beleza feminina.

A delicadeza.

O carinho.

A alegria de caminhar ao lado de alguém.

A intensidade daquele amor fez ruir o sonho do sacerdócio.

Saí do seminário.

Sem grandes planejamentos.

Sem muita reflexão.

Saí porque meu coração apontava outra direção.

Hoje não vejo aquilo como um erro.

Vejo como uma escolha.

Foi ali que compreendi que viver também significa renunciar.

Cada "sim" que damos também contém um "não".

Nunca mais voltei a vestir a batina.

Mas nunca deixei a fé.

Ela apenas mudou de roupa.

Pouco tempo depois também terminei o namoro com Diene.

Até hoje não sei explicar direito.

Na época achei que tinha deixado de amá-la.

Anos depois percebi que eu era apenas um rapaz muito jovem tentando entender os próprios sentimentos.

Não guardo culpa.

Guardo gratidão.

Diene foi a mulher que me apresentou ao amor.

Sempre que penso nela lembro da leveza da juventude.

Algumas pessoas passam por nossa vida apenas para inaugurar sentimentos.

Ela fez isso comigo.

Depois veio Joane.

Com ela aconteceu outra ruptura gigantesca.

Eu tinha apenas dezenove anos.

Vivíamos um namoro cheio de sonhos quando recebemos uma notícia inesperada.

Ela estava grávida.

Meu filho Tiago estava chegando.

Naquele instante deixei de ser apenas um jovem.

Nasceram, ao mesmo tempo, um pai e um marido.

Num dia eu estava dando aulas de religião e frequentando a universidade.

No outro pesquisava preço de fraldas, aprendia a administrar um orçamento apertado e montava minha primeira casa com a ajuda generosa dos meus pais.

A juventude ficou para trás.

A vida adulta chegou sem pedir licença.

Aprendi cedo que a responsabilidade também amadurece as pessoas.

Em julho de 1986 aconteceu outra mudança importante.

Entrei para o Banco do Brasil.

Vocês já sabem que tudo começou por causa de uma bicicleta.

Mas o que talvez não saibam é que aquele concurso mudaria completamente o rumo da minha história.

Poucos meses depois fui transferido para Poções, no interior da Bahia.

Foi minha primeira grande viagem para longe de casa.

Mais de mil e quinhentos quilômetros separavam Campina Grande da pequena cidade onde eu iria trabalhar.

Ali deixei outra parte de mim.

Meus pais.

Meus irmãos.

Minha cidade.

Os amigos.

As referências.

Tudo.

Levei apenas minha pequena família e uma enorme vontade de acertar.

Poções me recebeu de braços abertos.

Aprendi a amar aquela cidade.

Fiz amigos que guardo até hoje.

Participei da comunidade.

Voltei a servir na igreja.

Começava novamente a criar raízes.

Mas seis meses depois outra ruptura bateu à porta.

Joane voltou para Campina Grande com Tiago para passar o Natal.

E decidiu não retornar.

Não houve briga.

Não houve escândalo.

Apenas a decisão de permanecer.

Eu fiquei sozinho.

Foi a primeira vez que senti o peso verdadeiro da palavra solidão.

Era dezembro de 1986.

Uma cidade pequena.

Todo mundo sabia da minha história.

Pensei que seria rejeitado.

Aconteceu exatamente o contrário.

Poções me acolheu.

Nunca esquecerei o carinho daquele povo.

Às vezes uma cidade inteira pode abraçar alguém.

Meses depois consegui transferência para Remígio, na Paraíba.

Outra despedida.

Outra mudança.

Outra parte de mim ficando para trás.

A vida começava a me ensinar que pessoas e lugares podem morar dentro da gente mesmo quando deixamos de morar neles.

Os anos passaram.

Vieram outros filhos.

Rodrigo e Priscila. Minha família crescia.

Meu trabalho também.

Mas as rupturas continuavam me acompanhando.

Em 1997 participei de um congresso no Rio de Janeiro.

Foi ali que conheci Cristina.

Voltei apaixonado.

Hoje olho para trás e vejo o quanto a paixão pode nos tornar impulsivos.

Ela nos faz acreditar que todos os riscos valem a pena.

Alguns realmente valem.

Outros cobram um preço muito alto.

A paixão por Cristina me levou a uma das decisões mais difíceis da minha vida.

Em 1999 deixei Campina Grande.

Deixei meus pais.

Deixei meus três filhos pequenos.

Deixei amigos.

Deixei uma cidade onde eu era feliz.

Fui para Brasília.

Mais uma vez guiado pelo amor.

Nunca gostei de fazer mudanças olhando para trás.

Sempre carreguei comigo a esperança de que o futuro compensaria as perdas.

Brasília representou um recomeço.

Uma nova casa.

Um novo trabalho.

Uma nova família.

Mais tarde nasceu João Gabriel.

Meu quarto filho. Fruto desse amor por Cristina. 

E, quando ele chegou ao mundo antes da hora e precisou lutar pela vida numa UTI Neonatal, nasceu também outra parte importante de mim.

Enquanto ele lutava para respirar, eu lutava para compreender aquele momento.

Escrevi.

Sem imaginar que daquele texto nasceria o Bode com Farinha.

Meu blog.

O lugar onde passei a transformar dores em palavras.

Ali descobri uma coisa que me acompanharia para sempre.

Sempre que a vida me feria, eu respondia criando alguma coisa.

Esse talvez tenha sido o maior aprendizado daqueles anos.

Percebi que a vida não nos pergunta se queremos mudar.

Ela simplesmente muda.

E cabe a nós decidir se faremos dessas mudanças um motivo para endurecer o coração ou uma oportunidade para ampliar a alma.

Eu escolhi ampliar a alma.

Nem sempre consegui.

Mas nunca deixei de tentar.

EPITÁFIO I - Aos meus netos (Ricardo de Faria Barros, seu avô, psicólogo e amante da vida e do viver)


"Não escrevi estas páginas para que vocês admirem a minha vida. Escrevi para que descubram que a de vocês também pode ser extraordinária."
 
Quem foi o homem chamado Ricardinho
Se vocês estão lendo estas páginas, provavelmente eu já fui embora.
Talvez vocês tenham encontrado este livro numa estante. Talvez dentro de uma caixa antiga, junto com fotografias amareladas, alguns discos de vinil, cartas, cadernos ou objetos que decidiram guardar porque lembravam o avô de vocês.
Espero que não tenham sentido tristeza ao encontrá-lo.
Prefiro que sintam curiosidade.

A curiosidade sempre foi uma das minhas maiores companheiras.
Aliás, acho que ela foi quem me manteve jovem durante toda a vida.
Quero que vocês conheçam o homem que fui.
Não apenas o avô que fazia fotografias e dizia que "a última era a histórica".

Não apenas o escritor.
Nem o psicólogo.
Nem o bancário.
Quero que conheçam o menino.

Porque acredito que existe um menino dentro de todo velho.
O meu nunca foi embora.
Continuou fazendo perguntas até o último dia.

Meu nome é Ricardo de Faria Barros.
Mas pouca gente me chamava assim.
Na infância era Ricardinho.
Depois virei Ricardim.

Sempre gostei mais desses apelidos.
Tinham cheiro de casa.
Cheiro de família.
Cheiro de afeto.
Nasci em Campina Grande, na Paraíba.
Mas costumo dizer que, na verdade, nasci em duas paisagens.
O sertão.
E o mar.
Meu pai, Evandy, nasceu em Juazeirinho, sertão da Paraíba.
Minha mãe, Denise, nasceu em Serra Negra do Norte, sertão do Rio Grande do Norte.
São os bisavós paternos de vocês.
Os pais de minha mãe migraram para João Pessoa.
Então, a minha infância era dividida entre dois mundos completamente diferentes.
Nas férias de junho eu seguia para o sertão.
Nas férias de janeiro eu corria para a praia.

Foi assim que cresci.
Metade poeira.
Metade maresia.
Sou sertão e mar.
Do sertão herdei a resistência.
A simplicidade.
A capacidade de repartir.
A força de continuar mesmo quando quase nada parecia possível.
Do mar herdei a contemplação.
O gosto pelos pores do sol.
O som das ondas.

A sensação de que Deus gosta de conversar olhando para o horizonte.
Talvez por isso eu nunca tenha conseguido escolher entre um e outro.
Eles moram juntos dentro de mim.
Meus pais nunca tiveram grandes riquezas. Eram trabalhadores do SENAI.
Mas me deixaram uma herança que vale mais do que qualquer patrimônio.
Meu pai tinha um hábito curioso.
Quando entrava em qualquer lugar, procurava primeiro o que havia de bom.
Nunca começava reclamando.
Nunca fazia da crítica um modo de existir.
Ele enxergava beleza onde muita gente só via defeitos.
Sem perceber, aprendi a fazer igual.

Acho que foi isso que me tornou um homem otimista.

Não um otimista ingênuo.
Mas alguém que acredita que quase tudo pode ser visto por mais de uma janela.
Mamãe tinha o hábito de ler, de se atualizar, de ter curiosidade pela vida e de cultivar uma fé muito
bonita. Ela dizia que rezva um mistério para mim, porque eu era o filho mais sofrido. Segundo ela.
Acho que por conta dos descaminhos amorosos.
Aprendi com meu pai a abrir as janelas, aquelas por onde entravam mais luz.
Com minha mãe, que não existe impossível, quando se é esforçado e orante.
Levei isso para o trabalho.
Para os relacionamentos.
Para a educação dos filhos.
Para os textos.
Para a política.
Para a fé.
Para a velhice.
Quando alguma coisa dava errado, eu perguntava:

— O que ainda ficou de bom aqui?

Ou me ajoelhava, sileciosamente, eu apenas acolhia o momento, dizendo pra mim mesmo, amanhã será melhor e isso também passará.

Essa pergunta me salvou muitas vezes.

Minha mãe me ensinou outra coisa.

A ternura.
Ela sempre cuidou das pessoas.
Mesmo quando o corpo já não ajudava.
Anos depois a vida me deu o privilégio de cuidar dela também.
Descobri que existe um momento em que os filhos devolvem aos pais um pouco do amor que receberam.
E isso não pesa.
Pelo contrário. É um privilégio. 
É uma forma bonita de agradecer.
Desde pequeno fui um menino curioso.
Gostava de desmontar brinquedos.

Gostava de perguntar.
Gostava de descobrir como as coisas funcionavam.
Nunca fui considerado um gênio.
Nem me considero inteligente.
Acho que fui, acima de tudo, estudioso.
Persistente.
Se não aprendia na primeira vez, tentava de novo.
Depois outra.
Mais outra.
Até entender.
Essa talvez tenha sido minha maior qualidade.

Nunca tive vergonha de não saber.
Sempre tive vergonha de desistir antes de aprender.
Na adolescência descobri outra paixão.
A informática.
Hoje isso parece comum.
Mas quando eu tinha dezessete anos quase ninguém tinha computador.
Mesmo assim aprendi a programar num CP-500 da Prológica.
Escrevia programas em BASIC.
Achava fascinante conversar com uma máquina por meio de comandos.
Mal imaginava que décadas depois conversaria com pessoas do mundo inteiro pela internet.
Sempre gostei da tecnologia.
Mas nunca por causa da tecnologia.
Gostava porque ela aproximava pessoas.
Era uma ponte.
Nunca um fim.
Também gostava de colecionar.
Colecionei selos.
Depois decalques de carros.
Mais tarde discos de vinil.
CDs.
Fitas cassete.
Livros.
Fotografias.
Histórias.
Talvez eu tenha sido um colecionador de memórias.

Espero que, quando encontrarem minha coleção de vinis, não tenham pressa em se desfazer dela.
Cada disco guarda um pedaço da minha juventude.
Cada capa tem cheiro de uma época.
Cada música me leva de volta para algum lugar onde fui feliz.
Outra paixão minha sempre foi fotografar.

Gostava de reunir a família.
Organizar todo mundo.
Esperar o melhor sorriso.
E quando todos achavam que a sessão tinha terminado, eu dizia:
— Agora a última...
A histórica!
Todo mundo ria.
Mas hoje percebo que todas eram históricas.
Porque fotografias congelam instantes que nunca mais voltarão.
Elas ajudam a memória.
Talvez por isso eu tenha fotografado tanto.
Na juventude sofri um grave acidente de moto.

Fiquei com uma certa amnésia.
Descobri que fotografar também era uma maneira de guardar aquilo que o tempo poderia apagar.

Nunca fui bom jogador de futebol.
Mas gostava de jogar.

Aprendi cedo que não precisamos ser excelentes para sentir alegria fazendo alguma coisa.

Também nadei.
Corri.
Andei muito de bicicleta.
Pratiquei corrida de rua já depois dos sessenta anos.

Joguei xadrez.
Criei cabras.
Galinhas.
Abelhas.
Cachorros.
Peixes ornamentais.
Fiz jardinagem.

Construí pomares.
Plantei árvores.
Construí duas casas para morar.
Curiosamente, não permaneci em nenhuma delas.
A vida acabou me levando para outros lugares.
Hoje penso que casas são construídas com tijolos.

Mas lar é construído com pessoas.
Sempre gostei mais de feira livre do que de shopping center.

Na feira tudo conversa.
As frutas.
Os cheiros.
Os sotaques.
Os vendedores.
Os fregueses.
Fiz grandes amizades com feirantes.
Com garçons.
Com cozinheiros.
Com gente simples.
Aprendi que sabedoria não mora apenas nas universidades.

Ela também mora atrás de uma banca de verduras.
Num balcão de padaria.
Na cozinha de um restaurante.
Na sombra de uma árvore.
Também gostava das coisas simples.
Dormir numa rede depois do almoço.
Andar descalço.
Olhar a lua cheia.
Ver o nascer do sol.
Esperar o pôr do sol.
Escutar o barulho das ondas quebrando na praia.
Observar um canário pousar na janela.
Parar para admirar uma flor.
Sempre achei que Deus gostava de falar baixinho.
E quase sempre escolhia a natureza para isso.
Nunca gostei de brigas.
Nem de intrigas.
Nem de conflitos.
Sempre achei que a vida já nos oferece dificuldades suficientes.

Não precisamos fabricar outras.
Também nunca fui radical.

Minha fé sempre esteve em Jesus Cristo.
Tenho um carinho enorme por Maria Santíssima e por Santa Teresinha.

Mas nunca gostei de fanatismos.
Nem religiosos.
Nem políticos.
Nem esportivos.
Nem culturais.
Sempre me senti mais confortável construindo pontes do que levantando muros.

Respeitei pessoas de diferentes crenças.
Diferentes culturas.
Diferentes orientações sexuais.
Diferentes formas de enxergar o mundo.
Nunca achei que alguém precisasse pensar igual a mim para merecer meu respeito.

Gostava de música.
De praticamente todos os estilos.

Gostava de filmes.
De viajar de carro.

Conheci todas as capitais brasileiras.
Amo profundamente este país.
Aprendi que o Brasil é muito maior do que as manchetes dos jornais.
O Brasil mora nas feiras.
Nas cozinhas.
Nos pescadores.
Nos sertanejos.
Nos caminhoneiros.
Nas rendeiras.
Nos garçons.
Nos agricultores.
Nas pessoas comuns.
Foram elas que mais me ensinaram.
Gostava de cozinhar.
Inventava receitas.
Misturava ingredientes.
Seus pais chamavam essas experiências culinárias de "gorbachos".
Eu ria.
Nem sempre ficavam bonitas.
Mas quase sempre ficavam saborosas.
Assim também foi minha vida.
Nem sempre perfeita.
Mas intensamente vivida.
E, se eu pudesse resumir quem fui ainda menino, diria apenas isto:
Nunca procurei uma vida perfeita.
Procurei uma vida curiosa.
Porque descobri muito cedo que quem continua curioso nunca envelhece por inteiro.

Era uma vez um São João em que meu pai voltou (por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Era uma vez um São João em que meu pai voltou.

Não, ele não voltou como nos filmes, nem houve qualquer fenômeno sobrenatural. Meu pai, Seu Evandy, partiu em 2021. Mas, naquela manhã de festa junina da escola de meus netos, por alguns minutos, ele esteve comigo novamente.

Cheguei cedo. Como toda família grande faz, tratei logo de juntar algumas mesas na área da alimentação. Teríamos um longo dia pela frente. Eram quatro netos e uma neta sobrinha, cada um em uma série diferente. Das dez e meia da manhã às três da tarde, haveria apresentações para todos eles.

Enquanto aguardava a chegada da turma, fiz uma escolha que, sem saber, mudaria o meu dia. Guardei o celular no bolso.

Não havia nada urgente acontecendo na tela.

Então fiz algo que andamos desaprendendo: comecei simplesmente a olhar.

Olhar as pessoas.

As conversas.

As crianças correndo.

As bandeirinhas colorindo a quadra.

A luz atravessando o ambiente.

Os abraços.

As esperas.

Os reencontros.

E as crianças chegando, uma a uma, prendadas para a festa. Cada uma mais bonita do que a outra. Nenhuma fantasia era igual. Havia vestidos de chita, fitas coloridas, chapéus de palha, remendos cuidadosamente costurados, botas, trancinhas e pinturas nas faces, onde balões, bandeirinhas e corações pareciam contar pequenas histórias. Fiquei ali apenas observando. Aquela explosão de cores amanteigava a alma. Talvez porque as cores também curem. E poucas festas sabem colorir a vida como um São João. Contemplar tanta beleza, tanta criatividade e tanta infância reunidas era, por si só, um presente.

Foi nesse passeio silencioso dos olhos que encontrei meu pai.

Ou melhor, encontrei alguém que poderia muito bem ser ele.

A mesma altura. Os cabelos totalmente brancos. O boné. A jaqueta. O jeito de caminhar. A postura. A forma tranquila de conversar. Até a facilidade de fazer amizades parecia ser a mesma.

Senti um arrepio bom.

Sabia perfeitamente que aquele senhor não era Seu Evandy. Mas minha imaginação, essa artesã das saudades, fez o restante do trabalho.

Passei a conversar com ele em silêncio.

"Papai... já fez amizade por aqui?"

Sorri sozinho.

Claro que ele já tinha feito.

Meu pai nunca chegava a lugar algum sem voltar com novos conhecidos. Parecia carregar uma conversa pronta no bolso e um sorriso disponível para qualquer pessoa.

Fiquei apenas contemplando aquela cena.

Na minha fantasia, dali a pouco ele se levantaria, olharia para mim e diria:

"Rico... tá na hora."

Era nossa senha.

A gente sairia dali e iria para o Libanus abrir uma cervejinha gelada, brindar à vida e conversar sobre tudo e sobre nada, como tantas vezes fizemos.

Por alguns minutos, vivi esse encontro inteiro.

E o mais bonito foi perceber que não doeu.

Foi bom.

Foi leve.

Foi uma dádiva.

Não senti a dor da ausência.

Senti a alegria da presença.

Depois, aquele senhor levantou-se e desapareceu entre as pessoas, certamente para assistir à apresentação de algum neto. Nunca mais o encontrei.

Mas meu pai permaneceu comigo o restante do dia.

Volta e meia eu olhava a fotografia que fiz de longe, não porque ela registrasse um desconhecido, mas porque ela guardava um encontro que só meu coração era capaz de reconhecer.

Aquele também foi um dia especial por outro motivo. Foi o primeiro São João em que meus quatro netos e minha neta sobrinha estudavam na mesma escola. Todo o clã de Seu Evandy e Dona Denise, que há tantos anos migrou para Brasília, estava reunido ali.

Talvez por isso eu tenha sentido sua presença com tanta força.

Naquele desconhecido, meu pai parecia representar todos os bisavós da nossa família.

E o fez exatamente como viveu: com simplicidade, gentileza, elegância e uma luz serena que iluminava qualquer encontro.

Naquela manhã compreendi algo sobre o tempo.

Costumamos imaginar que o ontem ficou para trás, que o amanhã ainda não chegou e que apenas o agora existe.

Mas talvez o tempo seja muito mais parecido com a maré.

Quando recua, traz lembranças, saudades e histórias.

É o ontem.

Quando avança, carrega sonhos, projetos e esperanças.

É o amanhã.

E há momentos em que ela parece repousar.

É o agora.

Só que o agora nunca está sozinho.

Ele acolhe o ontem e, ao mesmo tempo, prepara o amanhã.

Naquela manhã, meu pai era o ontem.

Meus netos eram o amanhã.

E eu estava exatamente entre os dois.

Naquele único instante, vivi as três dimensões do tempo ao mesmo tempo.

Percebi que o presente não é uma linha separando o passado do futuro.

O presente é uma ponte.

Foi nele que reencontrei meu pai.

Foi nele que vi meus netos construindo, sem perceber, as lembranças que um dia guardarão de mim.

Enquanto eu recordava meu pai, eles escreviam, sem saber, a história que contarão aos filhos e aos netos.

Somos filhos das lembranças que recebemos e ancestrais das lembranças que ainda deixaremos.

Também descobri outra coisa.

A maioria desses presentes só acontece quando desaceleramos.

Se eu estivesse mergulhado no celular, respondendo mensagens ou percorrendo as redes sociais, jamais teria percebido aquele senhor.

Não teria encontrado meu pai.

Não teria vivido aquele reencontro.

Na verdade, talvez eu nem tivesse percebido a beleza das crianças, das famílias, das conversas, das cores ou das pequenas cenas que transformaram aquela manhã numa obra de arte.

Observar a vida acontecendo é um exercício extraordinário.

É perceber as texturas, as cores, as luzes, os sons, os silêncios e as pequenas histórias que cada rosto carrega.

É imaginar conversas.

É acolher subjetividades.

É permitir que nossa empatia complete aquilo que os olhos apenas começam a enxergar.

Quando fazemos isso, nossa percepção deixa de ser fragmentada e passa a ser inteira.

É como montar, dentro de nós, um grande caleidoscópio de vivências.

Cada pessoa acrescenta uma cor.

Cada gesto desenha uma nova forma.

Cada encontro amplia nossa maneira de existir.

E, curiosamente, isso acalma.

É como se o cérebro respirasse mais devagar.

Como se a alma fosse reiniciada.

Como se a vida dissesse apenas:

"Fique."

Não custa nada.

Basta sentar num canto.

Olhar.

Escutar.

Sentir.

O resto vem por inteiro.

Foi somente quando cheguei em casa e revi a fotografia que percebi um detalhe que havia passado despercebido.

Meu pai estava exatamente diante de uma enorme placa onde se lia:

SAÍDA.

Sorri sozinho.

Meu primeiro pensamento foi simples.

"Ele já estava indo embora."

Mas continuei olhando.

E, de repente, meu coração contou outra história.

Ele não estava indo embora.

Estava abrindo o caminho.

Como fez durante toda a vida.

Foi assim quando me ensinou a caminhar.

Quando me mostrou que o trabalho dignifica.

Quando me ensinou, sem discursos, que vale mais a pena fazer amigos do que colecionar razões.

Quando me mostrou que a simplicidade é uma forma de grandeza.

Talvez aquela placa nunca tenha sido sobre a saída dele.

Talvez fosse sobre a minha.

A saída do luto.

A saída da ansiedade.

A saída dos dias em que acreditamos que não existe solução.

A saída dos momentos em que a vida parece estreita demais para continuarmos.

Há uma delicadeza ainda maior nessa fotografia.

Meu pai estava de costas para a placa.

Quem lia a palavra "SAÍDA" era eu.

Como se aquela mensagem não tivesse sido escrita para ele.

Mas para o filho que ficou.

Naquele instante, quase pude ouvi-lo dizendo:

"Rico... pode vir.

O caminho existe.

Eu só vim na frente para lhe mostrar por onde seguir."

Voltei para casa com muito mais do que a alegria de ver meus netos dançando.

Voltei com a certeza de que algumas pessoas nunca deixam de ser pai.

Nem quando partem.

Às vezes, elas apenas encontram uma forma diferente de continuar nos guiando.

Naquele São João, meu pai não voltou para o passado.

Veio apenas me lembrar que a presença é o lugar onde o amor vence o tempo.

E que sempre haverá uma saída para quem continua caminhando.

Mesmo quando, por alguns instantes, ela só pode ser vista pelos olhos do coração.

O BOIAR ESTÁ EM EXTINÇÃO - Ou como reaprender a estar inteiro num mundo distraído (Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Das doze estreias que vivi após os 60 anos, e que venho registrando com alegria, surpresa e certa dose de travessura, qual delas mais me marcou? A pergunta chegou simples. A resposta demorou um pouco mais.

Não foi a Carreta Furacão, com sua alegria escancarada e infantil, devolvendo-me por algumas horas ao menino que nunca foi embora. Não foi o Show da Monga, aquele encontro tardio com um dos maiores mistérios da infância. A mulher que virava gorila não era apenas uma atração de parque. Era a materialização dos medos que carregamos desde cedo: o medo da transformação, do desconhecido, do que pode emergir de dentro de nós quando as luzes se apagam. Não foi o patinete elétrico. Não foi a Banana Boat. Não foi o Garage Sale. Não foi a corrida de rua.

Foi boiar.

Simplesmente boiar no mar.

Encher os pulmões, fechar os olhos, entregar o peso à água e confiar.

Parece pouco. Mas para quem passou boa parte da vida acreditando que precisava controlar tudo para não afundar, foi quase uma revolução.

Existe uma lembrança guardada em algum lugar da minha alma. Janeiro. Praia do Bessa. João Pessoa. O céu azul sem economia. O sol nordestino queimando devagar. Minha mãe entrava no mar com aquele bronzeador cor de cenoura que as mulheres dos anos 70 usavam sem medo do futuro. Na beira da água, uma tia conversava enquanto o vento espalhava cheiro de maresia. Mamãe adorava boiar. Podia passar longos minutos entregue ao balanço das ondas, olhando o céu, sem pressa de voltar para a areia. E eu, menino, observava aquela cena com uma paz difícil de explicar. Quando mamãe boiava, eu tinha a sensação de que estava tudo bem no mundo. Como se as ondas, por alguns instantes, levassem embora todas as preocupações que eu ainda nem sabia que existiam.

Décadas se passaram. A vida trouxe suas alegrias, suas ausências, suas perdas e suas reconstruções. Vieram responsabilidades, filhos, boletos, despedidas, recomeços e os inevitáveis pesos da existência. Mas aquela imagem permaneceu. Não exatamente na memória, mas na pele. Porque as lembranças mais profundas não são as que fotografamos. São as que sentimos. São aquelas que o corpo guarda mesmo quando a mente esquece.

Recentemente, diante de um mar calmo, bonito, quase sem vento, resolvi atravessar uma fronteira invisível. O mar estava manso. Não havia perigo. Não havia desafio atlético. Não havia plateia. Mas havia uma barreira interna. A mesma que separa quem observa de quem se entrega.

Então enchi os pulmões, inclinei o corpo, fechei os olhos e confiei.

E o mar me segurou.

Naquele instante aconteceu algo difícil de explicar. O tempo desacelerou. Os pensamentos diminuíram o volume. O corpo ficou leve. A alma também. Por alguns minutos não precisei resolver nada, provar nada, produzir nada ou ser útil para ninguém. Apenas estive. E talvez essa seja uma das experiências mais raras dos nossos dias.

Porque boiar está em extinção.

Não como habilidade física.

Como disposição humana.

Vivemos numa época em que a atenção virou mercadoria. Empresas disputam nossos olhos, nossos ouvidos, nossos segundos e nossa capacidade de permanecer. Nunca estivemos tão conectados. E talvez nunca tenhamos estado tão dispersos.

Muita gente já não consegue ler cinco páginas de um livro sem olhar o celular. Não consegue assistir a um filme inteiro sem verificar mensagens. Não consegue caminhar sem fotografar a caminhada. Não consegue jantar sem registrar o prato. Não consegue ouvir alguém sem interromper a conversa para espiar uma tela.

Criamos uma nova ansiedade coletiva. O medo permanente de perder alguma coisa. Uma notícia. Uma postagem. Uma mensagem. Uma novidade. Como se a vida estivesse sempre acontecendo em outro lugar. E, tentando acompanhar tudo, acabamos não vivendo nada por inteiro.

O cérebro, acostumado aos disparos rápidos de dopamina das notificações, dos vídeos curtos e dos algoritmos infinitos, passa a rejeitar aquilo que exige permanência. A contemplação fica difícil. O silêncio incomoda. A espera irrita. A lentidão parece defeito. Talvez estejamos construindo uma espécie de TDAH Digital coletivo. Não um diagnóstico médico. Mas um modo de existir. Um jeito apressado de atravessar os dias. Um estado permanente de distração.

E é por isso que boiar se tornou terapêutico.

Enquanto se boia, não existe Instagram. Não existe WhatsApp. Não existe feed. Não existe reunião. Não existe planilha. Não existe notícia urgente. Não existe ontem. Não existe amanhã. Existe apenas a respiração. Existe apenas o balanço das ondas. Existe apenas o céu. Existe apenas o corpo sendo sustentado pela água.

Mas existe algo mais.

Existe o canto distante de uma gaivota. Existe o brilho do sol dançando sobre a superfície do mar. Existe o vento tocando o rosto sem pedir licença. Existe a temperatura da água abraçando a pele. Existe o rumor das ondas indo e vindo como uma oração antiga. Existe aquele raro instante em que não estamos consumindo a vida. Estamos apenas vivendo.

Boiar exige algo que o mundo moderno desaprendeu a oferecer: presença.

Quem boia não pode ficar olhando notificações. Quem boia não pode ficar pensando em dez coisas ao mesmo tempo. Quem boia não pode viver no futuro. Quem boia não pode morar no passado. Quem boia precisa estar exatamente onde está.

E talvez seja essa a grande lição.

Boiar deveria ser ensinado nas academias da alma. Nas terapias do ser. Nas escolas. Nas empresas. Nos programas de qualidade de vida. Nos cursos de longevidade. Não como técnica de sobrevivência marítima, mas como exercício de humanidade.

Da mesma forma que aprendemos a meditar, talvez devêssemos aprender a boiar.

Porque boiar ensina confiança. Ensina entrega. Ensina humildade. Ensina presença. Ensina a abandonar, por alguns minutos, a ilusão de que controlamos tudo. Boiar é uma técnica de desconectar o cérebro do ontem e do amanhã para reaprender a habitar o agora.

Frankl talvez dissesse que boiar é uma abertura ao sentido. Você não está construindo nada. Não está produzindo nada. Não está conquistando nada. Está apenas existindo. E, curiosamente, é nesse simples existir que algo profundo acontece. Uma reconciliação silenciosa com a própria vida.

Talvez seja por isso que a imagem da minha mãe continua tão viva. Ela não estava dando uma aula. Não estava fazendo um discurso. Não estava ensinando uma teoria. Estava apenas boiando. Mas, sem saber, ensinava ao filho uma das lições mais importantes que alguém pode aprender: a confiança não é fraqueza. É coragem. Coragem de se entregar. Coragem de descansar. Coragem de não controlar. Coragem de acreditar que nem tudo depende das nossas mãos.

Das doze estreias que vivi depois dos 60 anos, essa foi a que mais me marcou. Não pela adrenalina. Não pela novidade. Não pelo desafio. Mas porque naquele flutuar havia uma herança sendo recebida. Uma conversa com o tempo. Uma criança de João Pessoa finalmente entrando no mesmo mar onde sua mãe boiava e descobrindo que o mar continua segurando, que os pulmões continuam funcionando, que a vida continua convidando e que confiar ainda vale a pena.

Aliás, estou indo para a Paraíba este mês. E confesso: não vejo a hora de entrar novamente no mar. Não para nadar. Não para me exercitar. Não para chegar a algum lugar. Apenas para boiar mais algumas vezes. Treinar o boiar. Aprimorar essa arte tão simples e tão esquecida.

Porque, num mundo onde todos correm, talvez boiar seja uma das formas mais bonitas de permanecer humano.

Quando você vir alguém boiando no mar, não estranhe. Incentive.

Talvez aquela pessoa não esteja apenas descansando o corpo. Talvez esteja cuidando da alma.

E, se puder, ensine aos seus amigos, filhos, netos e familiares a arte de boiar. A arte de se desconectar. A arte de não fazer nada por alguns minutos além de respirar, confiar e estar presente.

Os efeitos costumam ser quase imediatos.

Boiar desacelera pensamentos apressados.

Boiar amansa preocupações.

Boiar afrouxa músculos tensos.

Boiar dissolve, ainda que por instantes, a tirania das urgências.

Boiar cura mentes galopantes, corpos endurecidos e almas afundadas em si mesmas.

Num mundo que nos ensina a correr, produzir, responder, competir e acumular, boiar nos ensina outra coisa.

Nos ensina a permanecer.

Nos ensina a confiar.

Nos ensina a simplesmente estar.

E talvez seja justamente disso que mais estejamos precisando.

Talvez a décima terceira estreia ainda nem tenha nome. Mas ela chegará, como chegam as marés. E talvez também comece com algo simples, quase invisível. Um gesto pequeno por fora, gigante por dentro.

Porque, no fim das contas, envelhecer bem talvez seja isso: não perder a capacidade de estrear, não perder a capacidade de se encantar e, sobretudo, não perder a coragem de boiar.

Num mundo onde quase todo mundo desaprendeu a estar inteiro.

Continue estreando na vida e no viver (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Há pessoas que envelhecem porque os anos passam.
E há pessoas que envelhecem porque param de estrear.
São coisas diferentes.
Conheço gente de 40 anos que já desistiu de experimentar novidades.
E conheço pessoas de 80 que continuam inaugurando capítulos inteiros da própria existência.
Talvez uma das maiores armadilhas da aposentadoria seja acreditar que a fase das primeiras vezes terminou.
Que já aprendemos o que havia para aprender.
Que já sonhamos o que havia para sonhar.
Que já amamos o que havia para amar.
Mas a vida costuma ser generosa com quem continua dizendo "sim" ao novo.
Outro dia vivi uma dessas estreias.
Aos 61 anos, participei da minha primeira corrida de rua.
Não era sobre os cinco quilômetros.
Nunca foi.
Os cinco quilômetros eram apenas o endereço.
O destino era outro.
Era descobrir que ainda sou capaz de aprender.
Era perceber que ainda posso me reinventar.
Era voltar a confiar no corpo.
Era descobrir que a idade não determina os limites da alma.
Era continuar estreando a vida.
A corrida tornou-se a nona experiência de uma lista muito especial que comecei a construir.
Uma lista chamada:
As 100 coisas que ainda estrearei, pós 60+.
Gosto dessa ideia.
Aliás, deixo aqui um convite afetuoso.
Compre um caderninho.
Pode ser simples.
Na capa, escreva:
As 100 coisas que ainda estrearei, pós 60+
E vá preenchendo suas páginas devagar.
Não com obrigações.
Não com cobranças.
Mas com possibilidades.
Com sonhos.
Com curiosidades.
Com vontades antigas.
Com pequenas ousadias.
Com tudo aquilo que ainda faz nascer borboletas no estômago.
Porque felicidade não nasce apenas do que já conquistamos.
Ela também nasce do que ainda desejamos viver.
Dos projetos que nos chamam para frente.
Dos convites que fazemos ao futuro.
Dos capítulos que ainda não foram escritos.
Há pesquisas mostrando que pessoas que cultivam objetivos, curiosidade, aprendizado contínuo e senso de propósito tendem a apresentar mais bem-estar, vitalidade e satisfação com a vida.
Talvez porque o cérebro adore novidades.
Talvez porque o coração também.
Ou talvez porque a esperança precise de algum lugar para pousar.
Quando deixamos de estrear, os dias começam a se parecer demais uns com os outros.
Mas quando mantemos espaço para novas experiências, a vida ganha novamente cheiro de aventura.
E não estou falando de aventuras radicais.
Estou falando da coragem simples de continuar aprendendo.

De continuar tentando.
De continuar começando.
De continuar se permitindo.
Lembro-me então de uma das mais belas canções de Flávio Leandro: Mudança.
Nela, o poeta conta que acordou com vontade de cuidar de si.
De arrumar as gavetas.
De colocar tinta na caneta do coração.
De escrever para si mesmo um poderoso "eu me amo".
Que imagem bonita para quem envelhece.
Porque envelhecer bem talvez seja exatamente isso.
Voltar a cuidar das gavetas da alma.
Retirar o que perdeu o sentido.
Organizar afetos.
Revisar crenças.
Jogar fora alguns pesos desnecessários.
E abrir espaço para novos sonhos.
A música nos lembra ainda que, quando mudamos por dentro, algo também começa a mudar ao nosso redor.
Quando mudamos nosso olhar, mudamos a paisagem.
Quando mudamos nossos hábitos, mudamos nosso destino.
Quando mudamos nossas perguntas, mudamos as respostas que a vida nos oferece.
E talvez esteja aí uma das maiores lições da maturidade.
Passamos boa parte da vida tentando mudar o mundo.
Mas, com o tempo, descobrimos que muitas das mudanças mais importantes começam dentro de nós.
A canção termina com um verso simples e profundo:
"O que não muda nesse mundo é somente a mudança."
E talvez seja exatamente por isso que precisamos continuar estreando.
Continuar aprendendo.
Continuar experimentando.
Continuar sonhando.
Continuar começando.
A aposentadoria não precisa ser o encerramento da história.
Pode ser o início do capítulo mais livre dela.
A fase em que já não precisamos provar tanta coisa aos outros e podemos finalmente experimentar mais coisas para nós mesmos.
Por isso, deixo uma pergunta:
Qual será a próxima estreia da sua vida?
Qual será a próxima página do seu caderninho?
Qual será a próxima coisa que ainda fará até os 100 anos?
Talvez ela não esteja tão distante.
Talvez esteja apenas esperando a coragem do primeiro passo.
Porque existe uma juventude que não mora nos músculos.

Não mora na pele.
Não mora na certidão de nascimento.
Ela mora na capacidade de continuar se encantando.
Na coragem de continuar aprendendo.
Na disposição de continuar dizendo sim ao novo.
Talvez a verdadeira velhice não comece quando os cabelos embranquecem.
Talvez ela comece quando paramos de estrear.
E enquanto houver uma primeira vez esperando na próxima curva, haverá também um pedaço de juventude caminhando dentro de nós.
A minha nona estreia foi uma corrida de rua.
A décima ainda não sei qual será.
E talvez seja justamente isso que torna a vida tão bonita.
O fato de ainda existirem páginas em branco esperando para serem preenchidas.
Porque viver não é apenas acumular anos.
É continuar colecionando estreias.
E quem coleciona estreias nunca envelhece por completo.
Apenas muda.
Como o vento.
Como a vida.
Como nós.

Ps. Seguem as minhas estreias até agora.

As 12 Estreias que Mais Me Surpreenderam Após os 60+
Quando olho para esta lista, percebo que ela não fala apenas sobre coisas que fiz.
Ela fala sobre coisas que eu jamais imaginei que faria.
Cada uma delas derrubou uma pequena cerca invisível.
Daquelas que a idade, os hábitos, os medos ou a acomodação vão construindo sem que a gente perceba.
O mais curioso é que, em quase todas elas, a maior surpresa não foi a experiência em si.
A maior surpresa fui eu. Foi descobrir que ainda existiam territórios desconhecidos dentro de mim.

1. Visitar o Show da Monga
Surpreendi-me ao perceber que ainda existia um menino curioso morando aqui dentro.

2. Aprender uma coreografia
Surpreendi-me ao descobrir que rir de mim mesmo pode ser libertador.

3. Participar de um Garage Sale
Surpreendi-me encontrando prazer em garimpar histórias escondidas em objetos simples.

4. Andar de patinete elétrico
Surpreendi-me sentindo novamente aquela sensação de vento no rosto dos tempos de juventude.

5. Pedalar uma bike triciclo na orla de João Pessoa
Surpreendi-me brincando sem me preocupar com a opinião de ninguém.

6. Curtir uma praia com dunas no Rio São Francisco
Surpreendi-me ao encontrar beleza onde jamais imaginei procurar.

7. Andar na Carreta Furacão
Surpreendi-me permitindo que a criança interior assumisse o comando da viagem.

8. Andar de Banana Boat
Surpreendi-me aceitando sair da zona de conforto e me divertir com isso.

9. Boiar no mar
Surpreendi-me aprendendo que confiar também é uma forma de sabedoria.

10. Assistir a um show de Heavy Metal
Surpreendi-me gostando de algo que, durante décadas, imaginei não ser para mim.

11. Tomar banho na ducha do Parque da Cidade
Surpreendi-me encontrando felicidade em algo tão simples e tão gratuito.

12. Participar da minha primeira corrida de rua
Surpreendi-me descobrindo que o corpo ainda é capaz de aprender novos caminhos e que a alma continua gostando de desafios.

Se existe algo que essas doze experiências me ensinaram, é que a aposentadoria não precisa ser uma estação de chegada. Ela pode ser uma estação de partidas. Depois dos 60, percebi que ainda sou capaz de sentir frio na barriga. Ainda sou capaz de aprender. Ainda sou capaz de mudar de ideia. Ainda sou capaz de me reinventar. E talvez seja exatamente isso que me deixou mais feliz.

Não foi a Monga. Não foi a Banana Boat. Não foi o Heavy Metal. Não foi a corrida.

Foi descobrir que eu ainda consigo me surpreender comigo mesmo.
E talvez seja esse um dos segredos da felicidade na longelescência:  Nunca parar de colecionar experiências que nos façam dizer: "Rapaz... eu não imaginava que ainda faria isso."
Porque enquanto continuarmos nos surpreendendo, continuaremos crescendo.
E enquanto continuarmos crescendo, continuaremos vivos. Muito vivos.

Nunca foi pelos 5KM, foi para continuar estreando na vida! (Por Ricardo de Faria Barros, psi)


Fazia tempo que eu não sentia isso.

Aquele friozinho na barriga. Aquela inquietação leve, tal qual o vento Aracati quando muda de direção e avisa que algo está para acontecer. Um misto curioso de expectativa, adrenalina, esperança e dúvida. Algo entre o “vai dar certo” e o “será?”.

Hoje é noite de véspera.

A roupa está separada. O número preso ao peito. Os tênis aguardam ao lado da cama. Brasília amanhecerá fria, abraçada por uma frente fria dessas que convidam a ficar mais alguns minutos debaixo do cobertor. Mas amanhã não.

Amanhã é dia de estrear.

E, aos 61 anos, descubro que ainda gosto de estrear coisas.

Já arrumei roupa para ir trabalhar. Para ir estudar. Para namorar. Para viajar. Para dar palestras. Para tantas jornadas importantes da vida. Mas hoje arrumo roupa para ir correr.

E isso me fez pensar sobre as primeiras vezes.

O primeiro contracheque.

A primeira vez que saí de casa para construir minha própria história.

A espera do primeiro filho.

As primeiras não são apenas acontecimentos. São portais. Travessias. Lugares onde uma versão antiga de nós se despede enquanto outra começa a nascer.

Talvez uma das vantagens da maturidade seja justamente reconhecer essas passagens.

Quando somos jovens, muitas primeiras vezes acontecem sem que percebamos.

Hoje não.

Hoje quero estar completamente presente.

Quero sentir o frio na barriga.

Quero perceber a expectativa.

Quero prestar atenção na conversa acelerada da mente.

Quero guardar o amanhecer.

Quero ouvir o coração.

Porque sei de uma coisa: isso também passará.

A ansiedade passará.

A expectativa passará.

O frio da manhã passará.

A corrida passará.

E justamente por isso merece ser vivida com atenção.

Amanhã, dia 31 de maio, às sete horas da manhã, Brasília ainda estará despertando. A largada acontecerá diante da Catedral de Brasília.

E confesso que gosto desse detalhe.

Há algo de simbólico em iniciar uma travessia aos pés de um dos monumentos mais bonitos da cidade que escolhi para viver há tantos anos.

Enquanto o sol tenta romper a manhã fria do Planalto Central, centenas de pessoas estarão reunidas ali, cada uma carregando suas próprias histórias, seus desafios, seus sonhos e suas razões para correr.

E eu estarei entre elas.

Não para competir.

Não para provar nada.

Mas para viver plenamente aquele instante.

Porque a vida acontece no agora.

E quantas vezes, nesta sociedade tão acelerada, ansiosa e digital, deixamos o presente escapar por entre os dedos?

Estamos pensando na próxima tarefa, na próxima mensagem, no próximo compromisso, na próxima preocupação.

E perdemos o que está acontecendo diante de nós.

O sorriso.

O abraço.

O amanhecer.

O friozinho na barriga.

A primeira vez.

E a vida não devolve esses momentos.

Na vida não existe replay.

Não existe botão de voltar.

Não existe como viver novamente, com a mesma intensidade e o mesmo significado, aquilo que não foi verdadeiramente vivido quando aconteceu.

Por isso quero estar inteiro amanhã.

Presente.

Atento.

Grato.

Saboreando cada passo, cada conversa, cada batida do coração e cada metro percorrido.

Porque algumas memórias não são construídas depois.

Elas são construídas durante.

Como quem prepara uma compota emocional positiva para degustar no futuro.

Há alguns meses eu não imaginava estar aqui.

Vieram os treinos.

Vieram os dias bons.

Vieram as cólicas.

Vieram as dores.

Vieram os dias em que caminhei mais do que corri.

Vieram as manhãs em que a preguiça tentou vencer.

Mas veio também a persistência.

Um treino de cada vez.

Um passo de cada vez.

Até entender que os cinco quilômetros nunca foram realmente o objetivo.

Os cinco quilômetros eram apenas o endereço.

O destino sempre foi outro.

Era voltar a acreditar no corpo.

Era cuidar melhor da saúde.

Era descobrir que ainda era possível construir novos projetos depois dos 60.

Era continuar estreando na vida.

Mas descobri hoje que existe mais uma beleza escondida nesta história.

Amanhã não estarei sozinho na largada.

Quando meus filhos souberam da prova, decidiram correr também.

Tiago.

Rodrigo.

João Gabriel.

E minha nora Carol.

De repente, aquilo que começou como um desafio individual virou uma experiência compartilhada.

E há algo profundamente bonito nisso.

Porque amanhã não correremos apenas lado a lado.

Correremos atravessando gerações.

Um pai.

Dois filhos adultos.

Um filho adolescente.

Uma nora.

Cada um com seu ritmo.

Cada um com sua história.

Cada um com seus próprios desafios.

E talvez esteja aí uma das maiores vitórias desta prova.

João Gabriel viverá sua primeira corrida de rua.

Eu viverei a minha.

E os demais estarão ali, transformando a experiência em algo maior do que uma simples prova.

Algo que poderá virar memória.

Daquelas que a vida guarda com carinho.

Então, nesta noite de véspera, enquanto a cidade desacelera e o dia se recolhe, percebo que nunca foi pelos cinco quilômetros.

Nunca foi.

Foi pela vida.

Foi pela possibilidade de continuar me surpreendendo.

Foi pela coragem de não permitir que a idade me convencesse de que todas as estreias importantes já haviam acontecido.

Foi por continuar dizendo sim ao novo.

Talvez por isso o coração esteja tão inquieto.

Porque há coisas do amanhã que começam a acontecer hoje.

A largada será amanhã.

Mas a emoção já começou.

A corrida será amanhã.

Mas a expectativa já corre dentro de mim.

O encontro será amanhã.

Mas a alegria já chegou.

E quando isso acontece, o tempo parece desafiar os relógios.

O amanhã invade o hoje.

E o hoje se enche de futuro.

Talvez seja por isso que certas vésperas sejam tão especiais.

Porque nelas o tempo deixa de ser apenas uma sequência de horas.

Deixa de ser número.

Deixa de ser calendário.

Deixa de ser ponteiro.

E passa a ser sentimento.

Afinal, existem experiências que acontecem antes de acontecer.

E existem alegrias que chegam antes da chegada.

Talvez seja exatamente isso que eu esteja vivendo nesta noite.

Existe um frio que paralisa.

Mas existe também o frio das boas notícias que ainda não chegaram.

O frio dos sonhos que estão prestes a acontecer.

O frio das primeiras vezes.

Esse frisson manso do bem, do bom e do virtuoso.

Essa inquietação bonita que visita o coração quando algo pelo qual lutamos, esperamos e nos preparamos está finalmente prestes a acontecer.

E talvez seja isso que eu esteja sentindo agora.

Enquanto a cidade dorme.

Enquanto espero o raiar do dia.

Porque amanhã haverá uma largada.

Mas esta noite também merece ser vivida.

Merece ser sentida.

Merece ser guardada.

Afinal, um dia ela também será lembrança.

E quando esse dia chegar, quero recordar não apenas a corrida.

Quero recordar a véspera.

O frio na barriga.

A expectativa.

A gratidão.

E a certeza de que, aos 61 anos, eu ainda era capaz de estrear a vida.

Porque enquanto houver uma primeira vez me esperando na próxima curva, haverá também um pedaço de juventude correndo dentro de mim.

E amanhã, por alguns quilômetros, ela correrá ao lado dos meus filhos.

E isso, por si só, já vale a corrida inteira.


Ps. Abaixo, o registro dos treinos.


As Bandeirinhas que Tremulam no Varal da Alma (por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

 

Era começo da tarde de uma sexta feira qualquer dessas que Brasília inventa para misturar céu azul, vento seco e coração ansioso. Eu estava dentro do carro, estacionado na rua em frente à ANABB, me preparando para entrar no auditório onde, dali a pouco, falaria sobre a arte de florescer no deserto. Florescer no asfalto. Florescer, apesar dos pesares.

Confesso que fiquei ali alguns minutos olhando para o volante, pensando no que poderia dizer àquelas pessoas.

Que sementes eu conseguiria lançar?

Será que me escutariam de verdade?
Será que estariam apenas esperando a palestra terminar para voltar à correria do dia?
Será que alguma palavra minha conseguiria tocar uma tristeza escondida, uma solidão silenciosa, uma esperança quase desistindo dentro de alguém?

No banco de trás do carro estavam as bandeirinhas de São João que eu havia levado para a dinâmica da palestra. Pequenas. Coloridas. Simples. Dessas que muita gente acha apenas decoração de festa junina.

Mas eu não via ali apenas papel de seda.

Eu via símbolos.

Via presença.
Via afeto.
Via pertencimento.

Enquanto respirava fundo antes de entrar, lembrei das bandeirolas tibetanas penduradas nos cumes gelados da Cordilheira do Himalaia. Símbolos de paz e compaixão. Diz a tradição que os mantras nelas inscritos purificam o ar e espalham bênçãos de saúde, prosperidade e harmonia para todos os seres. Como se saudassem os aracatis, os bons ventos da existência, soprando esperança sobre os caminhos humanos.

Conta-se também que quem sobe os montes costuma deixar ali um tecido trazido de longe, preso aos varais do alto da montanha, como celebração da travessia vencida. Uma espécie de testemunho silencioso de que foi possível chegar até ali.

E aqueles lenços tremulando ao vento acabam servindo de estímulo para outros caminhantes que, ainda muito distantes, olham para o alto e enxergam as bandeirinhas dançando contra o céu.

Como quem diz:

“Falta pouco.
Você consegue.
Caminhe só mais um bocadinho.
O alto da montanha já está lhe esperando.”


E pensei:

No fundo, nossas bandeirinhas de São João também fazem isso.

Abrem espaço para o “festar” em nossas jornadas tão exaustivas.
Anunciam a fartura das comidas de milho.
Anunciam as danças, os folguedos juninos e os reencontros em volta da família e amigos.
Anunciam o congraçamento humano.
Anunciam que ninguém nasceu para viver isolado no próprio escuro.

Elas tremulam saudando a vida.
Anunciam que alguém importa.
Que alguém foi amado.
Que alguém deixou perfume na travessia do nosso existir.

Peguei o pacote de bandeirinhas, desci do carro e entrei no auditório.

A palestra começou.

E, aos poucos, aquela metáfora foi criando asas.

Falei para eles que a saúde mental não é um prédio de concreto armado, frio e inabalável. Saúde mental é mais parecida com um varal ao vento. Flexível. Vivo. Sensível. Sustentado por fios invisíveis de afeto.

Disse que nossas bandeirinhas emocionais são as pessoas pelas quais vale a pena continuar caminhando.
Aquelas que nos apoiam.
Que torcem por nós.
Que sentem nossa falta.
Que nos reconhecem.
Que nos acolhem.
Que seguram uma ponta da vida quando nossos braços cansam.

Falei que ninguém floresce sozinho no deserto.

Nem no sertão.
Nem no asfalto.
Nem dentro da própria alma.

E então entreguei as bandeirinhas.

Pedi que cada pessoa escrevesse nelas, quando chegassem em casa, nomes de pessoas especiais em seu viver.
Nomes de quem faz o coração continuar acreditando.
Nomes de quem ainda colore o céu da existência mesmo em tempos difíceis.

Foi bonito de ver.

Homens e mulheres segurando aquelas pequenas bandeiras coloridas como quem segura um pedaço delicado da própria alma.
Alguns sorrindo.
Outros emocionados.
Alguns silenciosos, talvez porque há tempos ninguém lhes perguntava quem ainda habitava o território afetivo de seus corações.

No final, cada um levou sua bandeirinha para casa.

Não apenas um pedaço de papel.
Mas um lembrete.

Um lembrete de que saúde mental também depende dos nomes que tremulam no varal afetivo da nossa existência.

Saí dali feliz.
Muito feliz.

Porque percebi que, às vezes, uma palestra não muda o mundo inteiro.

Mas pode ajudar alguém a não desistir do próprio mundo.

E isso já é milagre suficiente para uma sexta feira qualquer.

Talvez esteja aí uma bonita tarefa para a nossa longevidade.

Em vez de apenas contar remédios, exames, boletos, perdas e dores, quem sabe possamos voltar a contar afetos.

Quem sabe ainda dê tempo de criar um varal dentro da alma.

Um varal de gratidões.
De presenças.
De nomes que sustentam nosso coração nos dias de ventania.

Pegue também suas bandeirinhas.

Faça delas um pequeno ritual de humanidade.

Escreva nomes.
Reconheça pessoas.
Agradeça existências.
Reate laços.
Perdoe distâncias.
Diga que ama enquanto ainda há tempo de ouvir resposta.

Tal qual as bandeirolas tibetanas balançando nos cumes das montanhas, e as bandeirinhas de São João colorindo nossas ruas, talvez nossa saúde emocional também dependa dessa capacidade de deixar o amor tremular ao vento.

Porque envelhecer bem não é apenas acumular anos.

É continuar tendo por quem balançar bandeiras dentro do peito.

É ainda conseguir celebrar a chegada de alguém.
Sentir saudade.
Cuidar.
Reconhecer.
Abraçar.
Ser abrigo.
Ser lembrança boa na memória de alguém.

Há gente envelhecendo cercada de coisas e vazia de vínculos.

E há gente simples, sentada numa cadeira de balanço, carregando uma verdadeira quermesse afetiva dentro do coração.

No final das contas, talvez felicidade seja isso:

Ter um céu interior cheio de bandeirinhas tremulando.

E saber que, em algum lugar da vida, também existe uma delas dançando ao vento com o seu nome escrito nela.


A Pizza que o iFood Nunca Entrega



Era sábado à noite no lar do Major.

Ou melhor, no lar de Márcio, motorista de aplicativo pelas ruas de João Pessoa, contador de histórias improvisadas do cotidiano, desses que ligam a câmera do celular e deixam a vida acontecer ao vivo, sem roteiro, sem maquiagem e sem filtro de felicidade artificial.

Logo cedo, durante uma das transmissões de suas corridas, ele anunciou para seus mais de cinco mil inscritos que naquela noite haveria pizza caseira.

E foi aí que começou a aventura.

Durante as corridas, entre um passageiro e outro, o Major encontrou tempo para passar no mercado e comprar os ingredientes que Waleska “achava” que precisava. E digo “achava” porque ela mesma admitia, aos risos, que não fazia a menor ideia de como preparar uma pizza.

E talvez fosse justamente isso que deixasse tudo mais bonito.

A ousadia culinária também pode ser uma forma de amor.

Ela pensou numa lista básica. Um molho aqui. Um queijo ali. Um orégano talvez. Farinha. Fermento. Coisas assim. E o Major foi comprando aos poucos, no intervalo das corridas, como quem junta peças de uma esperança simples.

Já perto das sete da noite, ele soltou uma frase que me ganhou de vez:

“Vou fazer mais umas corridas antes de ir pra casa, pra ajudar nos custos da pizza.”

Aquilo me atravessou.

Enquanto muita gente romantiza sucesso sem esforço, ali estava um homem comum dizendo, sem discurso bonito, que ia trabalhar mais um pouco para garantir uma noite especial pra família.

Mais uns corres.
Mais umas corridas.
Mais um bocadinho de suor pra transformar farinha em memória afetiva.

E assim foi.

Por volta das oito da noite começou a saga da pizza.

Waleska estava feliz. Major também. Correndo pela casa estava Kayanne, a filha do casal, junto de suas amigas Ruthe e Melissa, chamada de Mel, carinhosamente. Cinco pessoas naquela pequena epopeia culinária. E ainda tinha Mike, o cachorro da família, observando tudo com aquele olhar de cão que parece entender mais da vida do que muito filósofo.

E havia ainda quase oitenta pessoas acompanhando tudo ao vivo pela internet. Entre elas, eu.

Na neuropsicologia descobriu-se que os neurônios espelho fazem com que sintamos, dentro da gente, experiências que vemos acontecer nos outros. Quando nos conectamos emocionalmente com uma cena, o cérebro reproduz parte daquelas sensações como se estivéssemos ali.

Talvez seja por isso que tanta gente ficou presa naquela live simples de uma família tentando fazer pizza.

Mas deixemos a psicologia um pouco de lado.

Porque naquela noite o que importava era o cheiro da cozinha.

Waleska pedia ajuda aos inscritos. Um dizia pra colocar orégano. Outro sugeria manjericão. Alguém ensinava a untar a forma com azeite. Outro dizia que a massa precisava descansar.

Ela consultava o YouTube como quem pede conselho a vizinhos de uma vila antiga.

O Major preparava recheios e perguntava o tempo inteiro:

“No que posso ajudar?”

Kayanne colocava a mesa.
Ajudava na louça.
As amigas ajudavam na alegria.

E aos poucos a massa foi tomando forma. Aberta na mão mesmo. Sem perfeição. Sem estética gourmet. Sem borda vulcão. Mas cheia de risadas.

Você pode me perguntar:

“Não seria mais fácil pedir no iFood?”

Claro que seria.

Talvez até mais barato.

Mas não teria a experiência que viveram naquela noite.

Não teria emoção.
Não teria afeto.
Não teria comunhão.

Não teria o calor humano da cozinha, esse fogo ancestral que reúne pessoas desde que nossos antepassados descobriram que cozinhar juntos também era uma forma de amar.

Não teria as trocas.
As brincadeiras.
As pequenas confusões.
A felicidade simples de construir alguma coisa com as próprias mãos.

A pizza comprada chegaria pronta.
Mas não carregaria o sabor das mãos deles sovando a massa, ajeitando recheios, tentando acertar juntos.

Quando a primeira forma saiu do forno houve praticamente um clamor nacional na live.

Todo mundo vibrou.

Waleska servia pedaços generosos pras meninas. Kayanne e suas melhores amigas, Melissa e Ruth, atletas de vôlei do IE Colégio e Curso, comiam sorrindo, naquela fome bonita que só adolescência e felicidade conseguem produzir.

Kayanne estuda com bolsa integral conquistada pelo esforço no esporte. E aquilo também dizia muito sobre aquela família.

Nada ali parecia luxo.
Mas havia dignidade, acolhimento e orgulho.

O Major afogava as fatias em ketchup. Ele ama ketchup. Waleska ria sem caber dentro da própria felicidade.

Porque deu certo.

Deu trabalho.
Mas o triunfo final era infinitamente maior do que simplesmente apertar um botão num aplicativo.

Naquela cozinha havia PERMA puro, como ensina Martin Seligman na Psicologia Positiva.

Emoções positivas.
Engajamento.
Relacionamentos.
Sentido.
Realização.

Tudo servido junto, numa forma de pizza.



Depois da comilança, as meninas foram ouvir música no quarto de Kayanne. O Major deitou no sofá abraçado com Waleska. Mike observava tudo satisfeito, sem entender exatamente por quê.

E nós, do outro lado da tela, tivemos uma aula silenciosa sobre o que um dia foram as famílias.

Quando ainda existiam cozinhas cheias de gente.

Quando as pessoas faziam coisas juntas não porque precisavam economizar, mas porque queriam pertencer umas às outras.

Sem cada um trancado em seu próprio mundo.
Sem o celular sequestrando todos os silêncios.
Sem a pressa moderna de comer correndo e voltar para as solidões individuais.

Na noite da pizza do Major vimos que ainda é possível dar novos significados à vida.

Criar compotas afetivas.
Fabricar lembranças.
Construir memórias que um dia servirão de abrigo emocional.

Daqui a trinta anos, talvez Kayanne repita essa cena em seu próprio lar. Porque viveu isso. Porque sentiu isso.

E certas coisas não se aprendem nos livros.

Precisam ser experimentadas.

Depois, as meninas voltaram do quarto trazendo um jogo de tabuleiro: Banco Imobiliário.

Aí a noite lacrou de vez.

Lembrei imediatamente da casa de meus pais. Das noites de pizza. Dos jogos de WAR, Banco Imobiliário, baralho espalhado sobre a mesa, risadas atravessando madrugada.

Então a cena final parecia pintura.

O casal junto no sofá.
A filha e as amigas jogando na mesa.
A louça lavada.
A casa em paz.
A vida acontecendo devagar.

E percebi outra coisa bonita.

Há casas que afastam os amigos dos filhos.

Casas feitas para não bagunçar.
Para não gastar.
Para não sair da estética perfeita da decoração.

Mas as amigas de Kayanne se espremiam felizes naquele espaço pequeno sem ligar pra luxo, tamanho de quarto ou ar-condicionado.

Porque elas só queriam estar ali.

Com a melhor amiga.
Dentro daquela energia de acolhimento.

E Major e Waleska têm esse dom raro.

São uma espécie de útero afetivo.

Útero de esperança, simplicidade e gratidão.

E talvez tenha sido essa a maior lição daquela noite.

A pizza era só a desculpa.

Porque, no fundo, o que o Major nos mostrou é que quase todo sonho da vida começa assim: com alguns ingredientes simples, um pouco de coragem e mais uns “corres” quando a gente acha que já trabalhou demais.

Todos nós temos nossa própria pizza.

Às vezes ela vem na forma de um curso que queremos pagar.
De uma viagem.
De um quarto melhor pros filhos.
De um almoço especial em família.
De uma prestação apertada.
De um projeto.
De uma esperança que ainda não desistimos de viver.

E quase sempre haverá um momento em que precisaremos fazer “mais umas corridas”.

Mais um esforço.
Mais uma entrega.
Mais um turno.
Mais um bocadinho de persistência.

Foi isso que Márcio, o Major, ensinou naquela noite sem perceber.

Que dignidade também mora no esforço amoroso.

Que trabalhar pra construir momentos é diferente de trabalhar apenas pra sobreviver.

Que vale a pena cansar um pouco mais quando o resultado final é afeto quente servido na mesa.

E enquanto muita gente anda comprando tudo pronto, terceirizando emoções e vivendo relações cada vez mais frias, o Major e Waleska seguem fazendo algo revolucionário sem discursos complicados:

Eles estão construindo memórias.

Agora é domingo pela manhã.

E provavelmente o Major já está novamente nas ruas de João Pessoa, dirigindo seu carro, pegando passageiros, fazendo seus corres, garantindo as próximas noites de cozinha.

Quem sabe venha a noite do pudim.
Quem sabe da panqueca.
Quem sabe do bolo improvisado.
Quem sabe apenas do café com conversa.

Não importa.

Porque o prato nunca foi o principal.

O principal sempre foi o amor servido junto.

E nisso o Major ensina muito.

Ensina que uma família não se harmoniza apenas em discursos bonitos, mas nas pequenas construções coletivas do cotidiano.

Na pia compartilhada.
Na mesa posta.
Na massa sovada juntos.
Na risada no meio do caos.
Na parceria entre marido e mulher.
No acolhimento dos amigos dos filhos.
Na capacidade de transformar uma cozinha simples num território de pertencimento.

Talvez seja disso que o mundo esteja mais precisando.

Menos perfeição.
Mais presença.

Menos pressa.
Mais comunhão.

Menos vidas prontas entregues em embalagens.
Mais pizzas imperfeitas feitas com as próprias mãos.

Se quiser viver aqueles bons momentos, clique abaixo:
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