Farinha de Andiroba, de Manaquiri-AM do Renan (Autor Ricardo de Faria Barros)

Aproximava-se o horário de atender a um de meus clientes e o whats apita, com mensagem nova, e é justamente a dele.
Imagino que não conseguirá chegar a tempo. Coisas do tipo.
A mensagem era enigmática: “Acesse seu email e leia minha mensagem, antes de nossa consulta!”
Estremeci...
O que será que aconteceu? Pensei comigo...

Abri o email dele, relaxei, soltei um sorriso lua cheia, e me deliciei com uma crônica que fez para mim.
É que incentivo meus pacientes (“clientes”) a escreverem narrativas positivas de suas vidas e trazerem para as sessões.
E essa fez-me encher os olhos, desde o primeiro parágrafo:

“Nas minhas viagens procuro reservar um tempinho para conhecer algumas pessoas que possam me ensinar um pouco sobre a realidade local. São conversas informais, normalmente são momentos extremamente divertidos e, por vezes, inusitados. Mas, sempre são aprendizagens maravilhosas. Meu aprendizado foi na feira livre de Manaquiri-AM”

Quem começa um texto assim, promete quem vem coisa boa. E ele continua:

“Às 6h em ponto, a feira é aberta, já com todos os produtos expostos e todos os produtores devidamente identificados com seus coletes verdes (o que rendeu o apelido de periquitos). A participação da população não deixa a desejar e, já nas primeiras horas, a procura por alguns itens é grande, fazendo-os esgotar rapidamente. Foi o aconteceu comigo. Esgotou-se a melhor farinha de puba da comunidade de Andiroba, a do Renan.”

Ele me conta que o mercado do produtor só tem 4 meses. Antes dele, os atravessadores dominavam o comércio de farinha, sujeitando os Renans da vida à exploração ao comprarem por preços irrisórios o fruto de seu trabalho.
Agora não. A prefeitura investiu na capacitação dos produtores, preparou um ginásio para receber a feira, e forneceu até a gasolina para que os mesmos subissem por longas horas as estradas de rio e pudessem chegar com suas mercadorias à “cidade grande”.
Me diz que não conseguiu comprar a farinha do Renan.
"Acabou logo".
E que ficou com sentimentos contraditórios: frustração e felicidade. “Frustração por não encontrar a farinha e felicidade por saber que, se há pouco tempo atrás aquele monte de produtores não tinha para quem vender sua produção, a iniciativa da prefeitura estava trazendo ganhos concretos para eles.”

Aí a mística se fez. Quando ele estava vindo embora para Brasília, sem a farinha do Renan, eis que ele aparece no hotel e o presenteia com 12 litros de farinha. E, ao entregar-lhe a farinha não deixou que ele pagasse: “
Leve minha farinha para Brasília. Diga que é a Farinha de Andiroba”, do Manaquiri-AM! A melhor farinha que eles vão comer! E, que um dia venham aqui conhecer a nossa feira do produtor.”
Eu estava ainda muito emocionado, quando meu cliente adentra a sala, com um pacote.
E me presenteia com a farinha do Renan, a do distrito de Andiroba, do Manaquiri-AM.
Aí, um filete de lágrimas escorreu e nos abraçamos. Nós sabemos o que aquela farinha representa. Aliás, todos que já sobrevivemos a situações difíceis saberemos.
Hoje, nessa noite chuvosa, comi mais um pouco dessa farinha e me senti tão bem.
Não é qualquer farinha.
É a farinha de quem saiu das mãos da opressão e que agora consegue um pouco de luz, no seu lugar ao sol da Nação Brasileira, tão desigual.
Não é qualquer farinha, é a farinha comercializada num espaço de líderes na gestão pública que reinventaram um modelo de negócios, possibilitando uma maior inclusão social, com geração e emprego e renda, contrapondo-se aos tubarões do capital.
Aqueles mesmos que financiam tantos políticos para manterem-se no poder.
É farinha revolucionária de um Brasil que pode dá certo.
Ela tem gosto da esperança!
Renan, não te conheço mas queria te dizer que está deliciosa. Que combinou bem com o peixe.
Sua perseverança, em não desistir de procurar suas melhoras, em romper com um modelo de escravidão e acreditar na força do coletivo, nos inspira. Nem todos subiram o rio para o mercado do produtor. Acomodaram-se a ganhar pouco, “mas na porta de casa”.
Você não. Você teve a ambição de ser mais, de procurar seu espaço, e o pagamento justo pelos frutos de seu trabalho. Você e seus amigos da Feira do Produtor nos motivam. A todos nós que porventura um dia nos sintamos vendidos, comprados, amordaçados, na mão de quem nos domina, seja economicamente, seja emocionalmente.

Precisamos subir nossos rios também, em busca de outros potenciais adormecidos, sempre que nos sentirmos pequenos diante de tanta dominação a que somos sujeitos, indo até a “ Feira do Produtor”, na qual com outros também peregrinos, poderemos nos juntar e nos sentirmos mais valorizados, reconhecidos e apreciados.
Não é qualquer farinha, é a farinha de quem com ela renasceu para a vida!
Sim, nós podemos também sair das garras de quem nos faz mal, humilha e nos desvaloriza!
Subamos os rios de nosso viver!
A gasolina não é a prefeitura quem pagará, quem pagará será nossa coragem, amor, determinação, disciplina, objetivos, sonhos, otimismo, esperança e valores!
Eita combustíveis potentes!

Esvaziando Armários (Autor r Ricardo de Faria Barros)





































































Você já teve naqueles dias em que pensa em tirar tudo do guarda-roupa, da dispensa, do quarto de tranqueiras, estante, ou algo similar,  e se motiva a arrumá-los?
Na nossa vida interior também é assim. Precisamos desses dias de arrumação de nossas coisas internas, que foram se amontoando. 
Colocar no lixo as mágoas, ódios, invejas e ressentimentos que guardamos... já deu! Não é hora de levá-los mais conosco!  Ou aquele sapato da culpa que jã não lhe cabe mais.
E até as coisas que já não lhes servem mais, modelos fora de época, pequenos ou grandes, do tipo de quem fica sempre se justificando para os outros, implorando ser reconhecido, ou suplicando por migalhas de afeto! 
Aproveite para lavar, ou lustrar, as coisas boas que estavam esquecidas, e que um dia já te fez feliz. Dê a elas novos significados.  Valorize-as novamente, para que não fique esquecidas nos escuros mofados da indiferença.  
Veja aquele vestido ou terno de baile, e se sinta novamente tão linda e belo, agradecendo por tudo que passou e continuou na batalha. 
Areje os cômodos interiores de teu existir, abrindo espaço para cultivar neles a tua auto-estima. 
E, faça novo leiaute nas emoções que guardará, na hora de arrumá-las novamente, privilegiando as de foco positivo.  
Então, caro amigo e amiga, aproveite esse dia de arrumação para crescer como pessoa. 

Assim como na foto, portas se abrirão para uma nova caminhada, só com esse revisitar em teu coração.  Acredite, e periodicamente encare essa jornada da alma, em busca de si mesmo!

Aviso aos Novos Empreendedores! (Por Ricardo de Faria Barros)


Recentemente, participei de um treinamento para me tornar certificado na prestação de serviços de personal coaching, apoiando meus clientes nas suas metas para com a vida. 
No último dia do curso, proporcionado pela SLAC, muitos compartilharam esperanças, ambições, ansiedades e até um certo frisson, para se lançarem nesse mercado, e logo faturarem salários cobiçados, daqueles de concursos público.
Eu entendi perfeitamente aquele movimento.
Pois, para alguns será uma oportunidade de abrir seu próprio negócio, outros de recolocação profissional, ou até de ser uma fonte complementar de renda.
Eu vibrava com a vibração deles.
Era contagiante o clima de: “Sim, nós podemos!”.
Revivi meus momentos de empreendedor, quando cheguei em Brasília em 1999, e estava ávido por montar meu consultório de psicologia.
Até comecei, lembro-me que foi numa sala que a Fran cedeu, lá onde funcionava a primeira escola do IBMEC, perto do Gilberto Salomão.
Engraçado que dez anos depois, daquele fatídico 1999, eu viria a ser um dos professores do IBMEC, num feliz reencontro.
Mas, caros amigos e amigas, eu me estrepei profissionalmente falando. Tinha um cliente, que mal dava para pagar a gasolina. Embora fiquei muito feliz quando recebi aquele dinheiro, ele tornou-se o único.
E saí do mercado de microempreendedor, frustrado e sem pique para ousar novos voos.
Aquilo incomodou-me bastante.
Nas revistas de psicologia, no PowerPoint, no relato de alguns colegas, tudo era tão fácil, o mercado era “comprador”, então o que eu estava fazendo de errado?
Vou contar-lhes.
Eu não sabia caminhar na maré baixa, e, enquanto se caminha, colher conchinhas, mariscos, e iscas para pescar.
Eu só estava preparado para a maré boa, aquela maré alta que possibilita elevar os barcos, fundeados na praia, por falta de condições de atravessarem os bancos de areia e arrebentações à sua frente.
Aquela minha ambição de alçar altos voos, influenciado pelo que eu lia, pelas vidas editadas, pelo relato de professores da clínica, e pelos textos que eu lia com as narrações de colegas psicólogos, cujo teor era repleto de vitórias e vencedores, estava me matando.
Aliás, me matou.
A enorme expectativa de resultados a curto prazo, somando-se com uma ambição desmedida e com a observação seletiva e distorcida da grama do vizinho, contribuíram com meu afastamento da clínica, só retomando agora.
Eu desisti, por não ter feito a coisa certa, por ter acreditado que seria fácil, por não ter pego as conchinhas na maré baixa, e com elas me saciado, na minha fome de um lugar ao sol.
A pressa em chegar no topo, quando se depara com a dureza da realidade, vai erodindo a esperança e tornando tudo mais difícil.
É na maré baixa que conseguimos criar capacidades para aproveitar a cheia, quando ela chegar.
É na maré baixa que conseguimos limpar os cascos de nosso barco interior. Tirando deles as cracas, mexilhões, lodo e todo tipo de sujeira que atravanca nosso deslizar, em busca do alvo.
É na maré baixa que damos valor ao pouco que ainda temos.
É na maré baixa que aprendemos a sobreviver, cuidando da chama da esperança, com zelo e atenção, para que ela não se apague. E, quando chegarem os tempos melhores, já termos desistidos de nós mesmos.
Ao lançar minha empresa no mercado, eu lembrei muito daqueles dias. E, não tenho mais essa ambição e ansiedade desmedidas.
Nada é fácil. E é literalmente de grão em grão.
Mas, tenho que estar capacitado para pegar a boa maré. Meu barco tem que estar lixado, limpo, pronto.
Tenho que ter um monte de conchinhas, que mostram por onde andei e o que já passei e ainda estou aqui, forte e firme!
Tenho que continuar me exercitando, não perder os tônus, para aproveitar melhor as oportunidades que virão.
Não acredite em topo de carreira fácil.
Um palestrante bom pode cobrar acima de RS 30.000,00 por palestra.
Mas, se você conseguir uma por R$ 2.000, agarre essa oportunidade.
E, se eles não puderem pagar, faça assim mesmo.
Você está sendo visto, e no dia em que eles poderem pagar, lembrar-se-ão de você.
Uma consulta com um psicólogo tarimbado pode se igualar ao preço de um pediatra.
Mas, se seu cliente só pode lhe pagar 1/4 disso, avalie a possibilidade de atendê-lo.
Você estará treinando, ajudando a uma pessoa e ainda tendo mais um para distribuir seus cartões, de coração penhoradamente agradecido.
Assim também é para o mercado de sessões de coaching.
O que mais vejo são depoimentos de coachs que estão comprando suas Ferraris. Entendeu?
Tipo aquelas igrejas da prosperidade, ou correntes de marketing de multinível.
Vá para qualquer sessão dessas empresas e os vídeos mostrarão os caras. Os top, os vencedores!
E você sai anestesiado, nas alturas, em êxtase. Quer ser como eles, o que é legítimo.
O problema é que esses vídeos são de vidas editadas.
Não mostra as marés baixas que eles enfrentaram.
Faça treinamentos de empreendedorismo. Ajuda.
Mas, uma coisa é o curso, outra o mundo real.
Neles, tudo parece tão fácil: São cases e mais cases. “é só fazer um plano de mercado”, “faça um plano de negócio”, “elabore o projeto de marketing”, “defina sua estratégia de posicionamento”, “divulgue-se nas mídias digitais”, etc. etc. etc...
E pronto, os negócios aparecerão, como o orvalho da manhã.
Se não apareceu é que tu é fraco mesmo.
Não acredite. Isso é mentira.
Mas, não pare só porquê não chegou naquela tela do PowerPoint ainda.
Não desista. Mas, aprenda a ir devagar e em frente, sempre.
Sem grandes ansiedades, modulando sua ambição à realidade do país, e não pense que o sucesso está na próxima esquina.
Não está! Só para alguns que geram matérias para revistas e programas televisivos, pode até estar. Mas, são poucos.
No geral, tem que ralar, ralar, ralar, ralar e muiiitooo!!!
E leva tempo.
Mas, não faça como fiz em 1999. Quando não ficava feliz em ter apenas um cliente na clínica. E parei.
Não pare.
Não desista de seus sonhos, pois, quase 20 anos depois, ficou bem mais difícil para mim.
Já pensou se eu tivesse me contentado com um cliente novo por mês? Hoje estaria abarrotado de clientes.
Mas não! Ouvi pessoas erradas, li material errado, deixei-me influencia pelas vozes da negatividade que me apontava o dedo em riste, mostrando os vitoriosos à minha frente.
Então, fica a dica: É na maré baixa, naquela que ninguém procura seu negócio, naquela que você está prestes a desistir, naquela que está quase quebrado, que você deverá limpar os cascos do barco de seu sonhar, e poetizar sua vida – cultivando a esperança, aquela que nos faz colher bela conchas, só visíveis porque a água baixou.

Não é por uma mesa e três cadeiras. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Chego para costumeiro café, no lar Seu Valdecir, e noto umas tralhas no chão da sala.
Pergunto-lhe se está fazendo mudança. Ele sorri, e me diz que emprestou uma mesa e três cadeiras à vizinha, do “lote de trás”.
E continua, “sempre tem alguém pior do que nós, e precisamos ajudar”.
Sr. Valdecir mora num puxadinho, de uns 20m2, sobrevivendo com um salário mínimo de aposentadoria, que após descontos com remédios, alimentação, luz e água, ele me diz assim: “e ainda consigo comprar umas carteiras de cigarro para o mês, meu único luxo”.
Comento que antes de parar na sua casinha, quando eu me dirigia para a feira, vi a sombra dele na parede amarela.
Ele sorri, e pergunta-me: “Como assim ?”
Pego uma vassoura que está encostada na parede, e o chamo para vir comigo. Mostro como eles estava fazendo, varrendo o terreiro da casa, e como o sol batia no seu corpo e projetava na parede a sombra, tal qual fazia no meu, no momento da demonstração, e que quando vinha dirigindo, avistei a parede e a sombra dele, trabalhando, logo cedo, pelas 7hrs da manhã de um domingo.
Aí ele me conta que após ter varrido “o terreiro”, expressão nordestina, ele foi aguar as plantinhas que adotou para si, que estão plantadas na calçada da frente da casa dele.
E me disse que o dia dele só começa após varrer a casa, aguar as plantas, e tomar um cafezinho na calçada, ao lado de umas touceiras de sempre-viva que plantou e que está a coisa mais linda do mundo, toda florida. Depois, pita o cigarro da manhã. Tem um para cada turno, tudo racionado para chegar até o final do mês.
Voltamos para a sala, tropeço nas tralhas, e ele continua.
“Você sabe o que é não ter uma mesa e três cadeiras par receber alguém num domingo? Na hora em que minha vizinha, da rua de trás, perguntou se eu podia emprestar a minha, não tive dúvidas, eu me arranjo pelo sofá, ela não, ela precisa de algo para apoiar as comidas e para dar conforto a quem vai na sua casa, talvez almoçar no dia de hoje, não sei, não perguntei, só emprestei a mesa e as três cadeiras”.
Uma mesa e três cadeiras, e a dignidade se fez naquele lar.
Uma mesa e três cadeiras, emprestadas por quem não tem nada, e que se solidarizando, bota suas próprias coisas no chão, para acudir que mais precisa.
Uma mesa e três cadeiras... Não amigos, você não está lendo errado, Sr. Valdecir não tem quatro cadeiras de mesa.
Só três. Quando ele comprou o conjunto, já usado, não havia a quarta cadeira. Não era um conjunto completo, mas era o que ele conseguiu pagar, com um desconto pela cadeira faltante.
Ele resolveu a situação com maestria, encostou a mesa na parede, isolando um dos lados dela. Pronto, agora com três cadeiras ela ficaria bonita e ninguém sentira a falta da outra.
É assim a vida do povo mais simples, que me ensina tanto. Eles vão encontrando seu jeito de ser feliz, de fazer suas engenhosidades, suas gambiarras, para conseguirem sobreviver numa sociedade cada vez mais excludente.
O café na casa de Sr Valdecir, todos os domingos por volta das 8h30min da manhã é onde faço minha terapia.
Ele é meu psicólogo da vida.
Sua história dá muitos livros, e em todos os capítulos ele esteve presente na vida de seus 7 filhos, ajudando-os como podia. Até se desfazendo de seus próprios bens materiais, “para dar sombra aos meus filhos”, como ele fala emocionado.
Disfarçando um fio de lágrima que insiste em querer descer de meu rosto, olho para cozinha e brinco com ele.
- Sr. Valdecir e aquele parede sem reboco atrás da geladeira, é pra esfriar o motor dela?
Ele sorri, um sorriso de criança, de pureza dos simples, e me diz que ali é o lugar de seu sonho.
- Como assim, Seu Valdecir?, pergunto-lhe.
Ele me diz que sonha em não ter que entrar no seu barraco pelo portão da casa da filha, que mora lá nos fundos. Ele quer entrar pela porta da frente, pela calçada, sem ter que incomodar ninguém. e, naquele lugar que não rebocou a parede, de seu barraco, atrás da geladeira, será colocada uma porta para acesso para à rua.
E que um dia a colocará, pois já tem até o portão de ferro, “ferros dos bons, pesado.”. Disse-me que periodicamente lava o portão, para não dar ferrugem.
E convida-me para ver seu tesouro, o portão de ferro, que está empilhado na parede dos fundos do barraco.
Seus olhos brilham, dizendo que foi o que sobrou de uma casinha que vendeu e deu aos filhos, o portão de ferro que ele mandou fazer, “com ferro dos bons”, e que ele o trouxe para seu barraco, pois não deu tempo de colocar na casinha que vendeu para ajudar os filhos.
Aquele portão não é mais um portão. É o portão!
Aquela parede sem reboco não é mais uma falha no projeto, não é mais “para resfriar geladeira”, é o local onde ele deposita a esperança.
Para o povo mais simples a esperança é assim, qual criança, alegra-se com pequenas coisas. Tipo fazer um curso de brigadista, ou de vigilante e ser chamado para uma vaga.
Ou, conseguir uma ficha para ser atendido no médico do SUS, daqui a três meses.
Ou, ter uma mesa e três cadeiras para melhor receber visitas.
Convidei seu Valdecir para irmos lá para a calçada, para que ele me explicasse o tal do buracão que queria fazer na parede, colocando nele um portão de acesso direto ao seu barraco.
Ele me deu uma aula, com olhos brilhandos.
Ao final, disse-lhe que podia começar a obra. Que iria fazer uma cotinha com meus amigos e arrecadar aqueles R$ 1.500,00 reais, necessários para a obra.
Ele parou o que fazia.
Procurou com mão trêmula a caixa de fósforos no bolso. Sentou-se num banquinho de toco de árvore. Acendeu um cigarro.
Olhou para mim e disse de forma emocionada, agradecida, serena e feliz: “Nós vamos construir nossa porta!".
"- Mas, só depois que eu terminar os exames que faço, num treco que tive no coração”.
Oxente Sr Valdecir, o Sr. está fazendo exames ainda, e não é melhor repousar, enquanto sai todos os exames e o clínico faz o diagnóstico do que teve?”
"Sr. Ricardo, se agente parar, a gente morre”
Olho para seu cigarro, sorvido como quem degusta um raro vinho português e não tenho coragem de repreendê-lo.
Deixa quieto, também acho que ele não vai morrer pelos três 3 cigarros que fuma ao longo do dia, e não posso tirar dele aquela satisfação que ainda lhe resta, de tantas que a vida foi lhe negando.
Mas, engana-se quem pensa que ele reclama de algo, ou se refere ao passado com mágoa ou negatividade.
Nada disso.
Ele se considera um vitorioso. “Afinal, Sr. Ricardo, tem gente pior do que eu, que nem três cadeiras e uma mesa tem!”
Nós, que lemos este texto, temos tanto mais que isso e ficamos procurando razões para ser infeliz!
Ou desistindo de viver, de valorizar o trabalho, de contabilizar as sobras e não o que lhe falta, esquecendo que temos ainda que varrer muitos terreiros e aguar muitas plantinhas.
Que temos que construir dia-a-dia o nosso sentido de viver. Se pararmos, à beira da estrada de nosso viver, morreremos! Como ele bem disse quanto ao varrer e aguar, mesmo doente.
E que não podemos ficar sem olhar para as paredes não rebocadas de nosso viver, que ali ficam como a nos dizer que precisamos continuar acreditando, crescendo, movendo o destino, para que nossos sonhos, de um dia por elas fazer um portal, não fiquem esmorecidos nas gavetas da acomodação, da vitimização e da falta de coragem em procurar nossas melhoras.
Mesmo que no momento a coragem e ação possível, diante de tanto que precisamos remar para chegar ao sonhado, seja apenas a de lavar do portão de ferro, para que ele não enferruje. Entende a metáfora?
.
Obrigado Sr. Valdecir obrigado por existir e nos ensinar tanto.

Ouvindo a Vida (Autor Ricardo de Faria Barros)


Após arrumar tudo, para um evento que seria no dia seguinte, resolvi caminhar pelo Centro Histórico da charmosa Pirenópolis-GO, era perto das 22hrs. E o local fervia.
Na rua do lazer, sou disputado pelos garçons que anunciam os quitutes dos estabelecimentos, que ali se acotovelam enfileirados.
Tem comida para todos os gostos e estilos.
Os restaurantes se espremem entre si, colocando mesas nas calçadas e na própria rua que é fechada, como que fazendo um calçadão de concorrido de boa comilança.
Consegui me esquivar de um garçon-anuncio-ambulante, mais à frente driblei outro. Eu queria mesmo era caminhar, sentir o cheiro e sabor de gente e voltar para a pousada.
“Não, obrigado eu já jantei, só estou caminhando e apreciando a cidade...”.
Era como ia me sarfando dos convites, com cardápios em punho.
Até que uma garçonete, uma jovenzinha de uns 20 anos, ao ouvir minha costumeira “saída pela esquerda”, sorriu para mim e me disse: “Então sente aqui nessa mesa na calçada, essa bem próxima de mim, só pelo prazer da companhia, e daqui aprecie a cidade. Não precisa pedir nada, nem comer nada...”
Uauuuu!!!
Não, caros amigos (as), não havia qualquer outra conotação nesse convite, antecipo-me em dizer-lhes.
Era apenas de uma generosidade encantadora, vindo de uma alma perfumada.
Sentei e fiquei observando-a com os demais transeuntes. Para todos, o mesmo sorriso, o mesmo convite para dali, daquela vista privilegiada, apreciarem à vida.
Logo ela conseguiu que mais uma mesa ao meu lado fosse ocupada.
E, naquela mesa tinha outra alma perfumada.
Perguntou-lhe o nome. “Me chamo Deia”.
Fiquei com vergonha, eu ainda não tinha perguntando o nome dela. Ansioso com as preocupações do evento, desconectei-me do que realmente importa: o outro.
Logo a Deia chegou com os quitutes, e tome mais perguntas para ela, sobre a região, sobre os atrativos, a Deia sorria. Sentia-se agora mais que uma garçonete, sentia-se uma guia turística.
Eu pegava carona nas dicas, pela proximidade das mesas. Era impossível não ouvir a Deia falando-lhes.
Perto das 24hrs, eles pedem a conta. Aí a Deia diz-lhes que vai agilizar a conta e rapidinho volta.
A Alma-perfumada-cliente pergunta:
“Mas, por que tu quer que a gente vá embora logo?”
Deia, ficou visivelmente nervosa e disse-lhe: “Não quero não!”
A cliente caiu na gargalhada, e disse que estava brincando, e que era uma forma de dizer que o atendimento dela estava tão bom que ficaria muito tempo ali, esperando a conta.
Nessa hora, meus olhos de psicólogo, sentiram os olhos da Deia chorarem mansinho, um choro bom, libertador.
A Deia agradeceu o elogio, e disse que era seu primeiro dia naquele restaurante. E que no dia seguinte, seria seu aniversário, e que aquilo que ouviu foi o melhor presente que recebeu.
A cliente-alma-perfumada disse-lhe que não podiam ir mais embora. Que ela reabrisse a conta e que trouxesse para mesa um espumante e 5 copos. Saquei logo, eles eram em quatro.
E fiquei na torcida, quase indo para mesa deles. Eu queria viver aquilo com eles, se era o que eu estava pensando.
Contive-me!
Enquanto a Deia dirigia-se ao bar, a “Alma-perfumada-cliente”, levanta-se da mesa e segue em direção à uma moça e rapaz que cantavam na área externa, animando mais de um restaurante do local.
Ela cochicha algo no ouvido da moça. A moça sorri, e faz um “legal” com o polegar.
A Deia chega com o champanhe. Todos na mesa se levantam, arrodeiam a Deia, não deixando ela voltar para o bar.
A Cliente-alma-perfumada, sai da roda e segue até os músicos. Pega o microfone e anuncia já passa da meia noite, e que “hoje é o aniversário da garçonete Deia”, pedindo que todos, inclusive os músicos, ajudem a tirar um parabéns.
E algo fenomenal ocorre. Aqueles cem metros de clientes barulhentos, e em seus próprios mundos, foram mobilizados por aquela alma-perfumada, e, foram tocados por aquele convite, param o que estão fazendo, erguem-se e cantam o parabéns para a Deia.
 Todos cantam, inclusive de restaurantes vizinhos, inclusive eu, que canto chorando de feliz.
O coral é de tanta empolgação e tão profundo, que mais parece canto de igreja, ou de hino de time de futebol.
A Deia corre para abraçar a Cliente-alma-perfumada, e elas voltam juntinhas do tablado musical, para a mesa que estavam os outros 3 amigos. Ao chegarem, eles colocam uma taça de espumante para a Deia, e fazem um brinde à vida dela.
O dono do restaurante se aproxima para ver o que ocorre. E a mesa faz um enorme elogio a forma como foram abordados e atendidos, pela Deia.
Ele acolhe o reconhecimento, e volta rapidamente para o seu lugar de gerente, sem fazer ideia do que ocorreu ali, e do talento que tem na equipe. Como muitos gestores não têm.
 A Deia se aproxima deles, e diz: “Hoje vocês fizeram a diferença na minha vida, eu lutei tanto para trabalhar aqui, tive que ralar demais, muito obrigado”.
Eu chamo a garçonete Deia, ela ainda está visivelmente emocionada, digo-lhe:
“Deia, hoje você fez a diferença no meu viver, muito obrigado, e parabéns.”
E peço-lhe a minha conta. Não sem antes soltar uma frase bem alta, quase gritada para ela: “Traz a conta bem devagarinho...”
A Cliente-Alma-Perfumada, ao ouvir-me, sorriu para mim, quase piscando o olho.
Um sorriso de cumplicidade.
Daqueles daqueles de oceano, de lua cheia, de borboletas azuis, de brisa aracatis, um sorriso de quem sabe fazer a diferença na vida das pessoas, por onde passa.
Uma trabalhadora que ama seu trabalho, depositando nele sua essência, seu melhor ser no mundo, seu toque de fazer o igual e sem brilho, quase rotina, de uma forma diferente, quase surpreendente.
Uma cliente que valoriza quem lhe serve, vendo esta pessoa em toda sua humanidade, para além do crachá, farda ou coisa que sirva para nos classificar.
E um reino encantado de possibilidades se fez, em um céu descortinou-se em nossas vidas.
Precisamos de mais Deias e mais Clientes-Almas-Perfumadas no mundo. Ah se precisamos!

As Dez Chaves para a Felicidade - III Chave: Direção


A carona (Por Ricardo de Faria Barros)


Saí cedo de casa, em direção à Ânimo, eu tinha um atendimento psicológico agendado para as 10hrs.
O dia estava lindo, com o céu de Brasília revelando-se em todo seu fulgor.
 Aí, agradeci a Deus o dom da vida e a Sua paz encheu meu ser.
No turbilhão de pensamentos, a agenda do dia passava qual um filme. Atendimento na clínica, data limite para envio de proposta de palestra, e aula à noite.
Dia intenso e bom.
E seria dia de primeira sessão na clínica, com paciente novo. Sempre fico com muita expectativa nos primeiros atendimentos da clínica.
Será que conseguirei ajudar? Será que saberei lidar com as situações a mim apresentadas, tendo uma palavra de bênção, uma orientação cabível, ou simplesmente um coração acolhedor e do tipo colo de mãe?
Na cancela do condomínio, percebo que se dirige ao ponto de ônibus uma jovem.
Que com dificuldade carrega uma pilha de livros.
Pergunto-lhe se aceita uma carona, até uma parada com maior disponibilidade de linhas, que passo por ela no trajeto para o trabalho.
Ela respondeu que sim. Notei um certo alívio.
Um silêncio respeitoso se fez no carro.
Botei uma música baixinha, e tentei quebrar o clima de ansiedade, talvez medo, comentando sobre o clima.
Comentários sobre o clima são os mais pobres num processo de comunicação, mas podem ajudar a quebrar o gelo. Caso não se fique apenas nele.
Notando um certo sotaque, perguntei-lhe se era de Brasília. Ela falou-me que é da Bahia, que chegou aqui há dois anos, e que está cumprindo à risca minha orientação: tirando peça a peça de sua mala, e guardando nas gavetas.
Fiquei atônito. De onde conhecia aquela jovem?
Minha amnésia estava me traindo novamente. Fiz cara de que entendia o que ela falava, e ela continuou:
“Estou desfazendo minhas malas emocionais”, como o senhor me ensinou, naquele dia em que me deu uma carona”.
Uauuu!
Lembrei-me. E já fazia uns 3 meses. Naquela carona, ela me disse que estava sofrendo muito a adaptação à Brasília, e que tinha muitas saudades de sua terrinha natal.
Que estava em casa de parentes e que veio para estudar para concursos, nos bons cursinhos daqui.
E foi nessa hora que a orientei a melhor lidar com o luto, da saudade da terra natal e amigos que por lá deixou, desfazendo as malas emocionais.
Já notou que têm horas em que deixamos essas malas feitas? Que estamos ali, mas não estamos, entende? Vivemos como se estivéssemos em iminente partida;
Ficamos num estado de provisoriedade, vivendo a vida numa espécie de modo “pause”, com forte expectativa e ansiedade de voltar a viver o que já fora, o que vivera.
Aí, isso agrava ainda mais o processo de adaptação, funcionando como uma âncora saudosa, que não nos deixar levantar velas e singrar para o desconhecido.
Ficamos amarrados às lembranças, valores culturais, ao nosso lugar que deixamos lá longe, e vamos revivendo isso diariamente, numa mórbida fixação que só nos fará sofrer.
Tem que desarrumar as malas emocionais. Desfazê-las dizendo: “eu vim para ficar, aqui agora é meu lugar.”
Três meses se passaram e ela ainda lembrava. Não temos ideia do impacto de nossa presença na vida dos outros. Para mim, foram só mais uns “conselhos”.
Para ela, fizeram a diferença, a ponto dela com tanta humildade e mansidão, revelar-me que está “tirando peça à peça da mala”, e se sentindo melhor, do ponto de vista emocional.
Deixei-lhe no ponto do ônibus, e tive vontade de beijar-lhe a testa, como faria com meus filhos.
Segui destino com o coração transbordante, surpreso e cheio de felicidade de ter podido ajudá-la.
Na Ânimo, recebo minha paciente nova. Pergunto-lhe como me descobriu, ela me diz que sua amiga já teve aula comigo, e que foi quem me indicou.
Uauu!!!
Mais uma revelação do que vamos deixando por aí, no coração dos outros.
À noite a aula transcorre num clima maravilhoso. Eles estão excitados e conduzem uma negociação entre um supermercado, um posto de gasolina e um hospital.
No retorno do intervalo, uma aluna se aproxima e me diz: “Professor, no dia em que você postou aquela crônica, aquela sobre a aula da sexta, eu estava tão triste... Tinha perdido um parente próximo. Mas, ao ler teu texto fiquei me sentindo melhor. Eu não poderia deixar de lhe dizer isso.”
Pessoal, não conto essas coisas para vaidade pessoal, ou para despertar invejas de todos os tipos.
Que seja tudo sempre para honra e glória de Jesus, é como penso.
O objetivo é que eu e você compreendamos o papel que temos nas vidas das pessoas com nossas palavras, gestos, comportamentos e ações.
Podemos ser sal, fermento, luz, bênção para aqueles que cruzam conosco pelo caminho.
Uma simples carona, de três meses atrás, gerou na jovem um momento rico, que ela dela e do que foi dito ainda se lembrava.
E por aí vai...
As pessoas podem deixar em nós marcos, ou marcas. Marcos de pontos de celebração. Marcos de orientação. Marcos de cuidado. Marcos de bondade. Marcos de solidariedade. Marcos de amorosidade.
Marcas de raiva. Marcas de egoísmo Marcas de inveja. Marcas de negatividade. Marcas de mágoas ressentidas. Marcas de opressão.
Nós também podemos deixar nas pessoas marcos, ou marcas.
Que sejam marcos.
A vida pede mais leveza. Os ares estão pesados. Não perca as oportunidades de exercitar os “deixamentos de marcos”.
Não perca a oportunidade de ser bênção.
De doar o tempo de um abraço, de doar o tempo de uma escuta, de doar um retorno de um email, de doar um post, de ser grande!
Atualmente, diante de tanta agressividade que circula, ser revolucionário é ser o portador de uma cultura de paz.
As pessoas estão cada vez mais sozinhas, sofridas e sem sentido na vida.
Precisamos continuar acreditando nos valores do Ser. E agindo tal qual pregamos.
Tenho uma boa notícia.
Você e eu não precisará mudar em nada sua agenda, ou gastar dinheiro, ou disponibilidade, para ser apoio, ser luz e fermento para o outro. Ser marco.
Você pode fazer isso nas suas interações cotidianas, transbordando e publicando amor em tudo que faz, e para com todos que se relaciona.
Não precisa entrar num monastério, numa ONG, ser padre ou pastor, para ser bom, manso, justo e misericordioso.
Isso pode se fazer na vida comum, no dia a dia.
 Isso se faz apenas com nosso acontecer no mundo. E que ele seja um acontecer bênção, para todos com os quais nós viermos a cruzar, pelas estradas da vida.
Não é hora de esmorecer tua liderança, tua chama.
Não é hora de botar para dormir teus valores mais nobres.
Talvez, nunca a Humanidade tenha precisado mais deles como agora.
Não podemos nos deixar embrutecer.
Não podemos nos deixar murchar o amor que já tivemos pela vida, pelo outro e por nós mesmos.
Não podemos, não devemos...
Tem muita energia ruim circulando, temos que ter cuidado para que ela não degrade nossas maiores fontes de capital psicológico, expressas em três frases:
- Amanhã será melhor.
- Isso também passa.
 - Terei coragem, lutarei, não me deixarei prostrar.
Um beijo no coração e na alma.

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