Quem nos toma a liberdade? (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Aviso aos Navegantes: Este texto não é sobre Xuxa, ou Jovino, é sobre o Idadismo no Mundo Longevo. 

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Hoje aconteceu uma coisa curiosa.

Descobri, pelo algoritmo fofoqueiro do Instagram, que a Xuxa estava estreando turnê de despedida. Vídeo atrás de vídeo. Gente rindo, debochando, medindo o corpo dela como quem mede terreno alheio. Fui ver a tal polêmica.

Vi uma mulher de 63 anos abrindo "O Último Voo da Nave", show de despedida da nave que a acompanhou por décadas, num estádio lotado em São Paulo. Vi gente que hoje está na casa dos 35, 40, 45 anos, cantando "Ilariê" com a mesma voz de criança que aprendeu aquilo há trinta anos. Gente que cresceu vendo aquela mulher e que, naquela noite, voltou a ser criança por duas horas.

Só isso.

No mesmo dia, outra notícia. Jovino Pereira Neto, 78 anos, aposentado, morador de Palhoça, em Santa Catarina, viúvo havia dois anos e cinco meses. Recebeu uma mensagem de Lineth Sousa, professora, pelo Facebook. Conversaram menos de um mês. Numa manhã de 15 de julho, entrou no carro sozinho e dirigiu mais de três mil quilômetros, sete dias de estrada, até um povoado chamado Cajazeiras, no Maranhão, para conhecê-la.

Bonita, a história. Mas tinha um detalhe que me incomodou mais do que tudo o que li sobre a Xuxa.

Ele saiu escondido. Não contou aos filhos. Não avisou aos netos. Disse depois, já instalado no Maranhão: "se eu tivesse falado do meu desejo, com certeza iam me proibir." Fugiu de casa aos 78 anos para viver um amor, como se amar fosse travessura de adolescente pega em falta.

E aí entendi que eu tinha ido atrás do assunto errado.

Não é sobre a roupa da Xuxa. Não é sobre o juízo que se faz do Jovino. É sobre o que essas duas histórias, juntas, denunciam: uma sociedade que sabe lidar muito bem com idoso doente, idoso quieto, idoso agradecido por ainda estar aqui. E não sabe o que fazer com idoso vivo.

Vivo de verdade. Que dança pra estádio lotado. Que namora. Que erra o passo. Que fica com vergonha, se declara, apanha um fora, tenta de novo, dirige sete dias atrás de um "amor à primeira vista", nas palavras dele mesmo.

Lá em casa, quando eu era menino em Campina Grande, os mais velhos tinham um lugar certo: a cadeira na varanda, o rosário na mão, o silêncio de quem já viveu tudo o que tinha para viver. Era um lugar de respeito. Mas também era, sem que ninguém percebesse, uma sentença.

A gente aprendeu, sem querer aprender, que existe idade para trabalhar, idade para criar filho e, depois de uma certa hora, idade para desaparecer de mansinho. E quando o idoso não desaparece, quando ele sobe no palco ou atravessa o país por amor, a sociedade estranha. Porque ele furou o roteiro que escreveram para ele sem perguntar se ele concordava. Esse idoso, ou idosa está desafinando no coro dos contentes. 

Chamo isso de longelescência: essa segunda adolescência que a longevidade trouxe. A mesma fome de aprender coisa nova, a mesma vontade de pertencer a um grupo, a mesma inquietação do corpo que muda e ainda quer dançar, e sim, também o mesmo medo de ser julgado por isso. Só que agora, em vez de mãe e pai vigiando o horário de chegar em casa, é o Brasil inteiro comentando embaixo do vídeo.

O senhor não fugiu porque estava errando. Fugiu porque tinha certeza do que ia ouvir se contasse.

E isso deveria nos envergonhar mais do que qualquer roupa curta.

Eu, que sou psicólogo e que aprendi com Frankl que a vida cobra sentido até o último dia, digo sem meias palavras: envelhecer não é sair de cena. É continuar escrevendo, só que com letra mais trêmula e mais corajosa. E quem tem fé, como eu tenho, sabe que a vida foi feita para ser vivida inteira, não guardada num armário de bom comportamento à espera do fim.  

Mas eu preciso dizer uma coisa a nós, os longevos. Porque essa história não se resolve só com indignação lida em silêncio.

Existe hoje uma ideologia dominante, e ela é mais educada do que o preconceito de antigamente, mais bem vestida, mais sorridente. Ela não grita "vá pra dentro de casa, velho". Ela diz "descanse, você já fez sua parte". Não diz "cale a boca". Diz "não se exponha assim, na sua idade". E o mais perigoso: ela nos aceita bem quando a gente coopera. Somos bem-vindos quando somos discretos. Bem-vindos quando ajudamos a criar neto sem reclamar. Bem-vindos quando abrimos a poupança pros filhos e fechamos a boca sobre nossos próprios planos. Bem-vindos quando somos fonte de recurso e não fonte de vontade própria.

Essa é a nova aposentadoria que nos oferecem. Não é a das contas em dia. É a aposentadoria do desejo.

Pois eu não aceito.

E convido você, que está lendo isso com seus 60, 70, 80 anos, a também não aceitar.

Não é hora de nos curvarmos. É hora de abrir caminho, e caminho aberto por longevo não se pede licença pra fazer, se faz andando, com bengala, com fôlego curto, do jeito que der, do jeito que o Jovino fez, sete dias de estrada, dormindo uma noite dentro do próprio carro, se perdendo no caminho e recebendo ajuda de um caminhoneiro desconhecido, porque a vontade de recomeçar era maior que o medo de errar. Se a sociedade quer nos empurrar de volta pros aposentos do silêncio, a resposta não é discutir educadamente na porta. É continuar vivendo tão alto que a porta perca a função.

Defender longevo é isso: é a Xuxa não pedir desculpas pelo corpo enquanto uma plateia de gente com 35, 40, 45 anos canta com ela como se o tempo não tivesse passado pra nenhum dos dois lados. É o Jovino não ter precisado fugir escondido. É cada um de nós recusando o papel de avô de estampa de calendário, aquele que só existe pra ser bonzinho e dar bênção. Nós temos direito a desejo, a erro, a recomeço, a ridículo até, porque ridículo também é coisa de gente viva.

Ninguém vai defender essa liberdade por nós. Isso a gente já devia ter aprendido faz tempo.

Talvez o maior trabalho da longevidade não seja inventar mais um remédio, nem prometer mais um ano de vida. Talvez seja simples assim: parar de deixar que roubem de nós a liberdade que ainda temos, e impedir que a roubem também dos que vêm depois.

A liberdade não tem validade.

E o verdadeiro sinal de velhice não são as rugas. É o dia em que a gente deixa que os outros decidam por nós como devemos viver, amar e dançar. É o dia em em que acreditarmos que não temos mais direito a novas estreias na vida!

Esse dia, eu me recuso a deixar chegar. Convido você a se recusar também.

O HOMEM DOS VALES - Um Manifesto em Defesa da Planície (por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Vivemos na civilização das montanhas.

Mandaram-nos subir.

Subir de cargo.

Subir de salário.

Subir de patrimônio.

Subir de seguidores.

Subir ao pódio.

Subir na vida.

Desde muito cedo aprendemos que o sucesso mora no alto.

E ninguém nos contou uma verdade simples:

Quase ninguém vive nas montanhas.

Os picos são magníficos.

Mas são inabitáveis.

Lá o ar é rarefeito.

A vegetação é escassa.

A água não permanece.

As pessoas apenas passam por eles.

Depois descem.

Porque a vida não acontece nos cumes.

A vida acontece nos vales.

É nos vales que os rios encontram seu caminho.

É nos vales que a terra se torna fértil.

É nos vales que as árvores criam raízes.

É nos vales que se constroem as casas.

É nos vales que as crianças brincam.

É nos vales que os velhos contam histórias.

É nos vales que o pão é repartido.

É nos vales que a vida insiste em florescer.

E existe uma verdade que quase nunca percebemos.

A montanha só é montanha porque existe um vale ao seu redor.

Sem o vale, não haveria cume.

Haveria apenas uma imensa planície.

O vale não é o contrário da montanha.

É aquilo que lhe dá forma.

É ele que desenha sua altura.

É ele que revela sua beleza.

Curiosamente, passamos a admirar a montanha e a desprezar justamente aquilo que a torna possível.

Fizemos o mesmo conosco.

Aprendemos a admirar apenas os momentos em que estamos no alto.

As vitórias.

Os títulos.

Os aplausos.

Os recordes.

Os cargos.

Os troféus.

Mas esquecemos que tudo isso nasce de uma vida comum.

Da mesa do café.

Da conversa com um amigo.

Do abraço na família.

Da caminhada sem destino.

Da corrida sem relógio.

Do beijo demorado.

Da oração silenciosa.

Do trabalho honesto.

Do descanso.

É no vale que criamos raízes para suportar as alturas.

Talvez seja por isso que tantas pessoas chegam ao topo e continuam vazias.

Subiram sem construir um vale onde a alma pudesse morar.

Lembro de um paciente, lá na clínica. Homem de mais de setenta anos, terno bem cortado, currículo do tamanho de uma vida inteira de trabalho. Sentou-se e disse que tinha conquistado tudo o que um dia quis, e não sentia mais nada. Fiquei muito tempo pensando naquela sessão. Ele tinha subido a vida inteira. Só que nunca tinha aprendido a morar em lugar nenhum.

Durante séculos aprendemos a temer os vales.

Talvez porque nos ensinaram apenas a expressão "vale de lágrimas".

E ele existe.

Existem vales de dor.

Vales de perdas.

Vales de despedidas.

Vales de pântanos.

Vales de vegetação tão fechada que mal conseguimos enxergar o próximo passo.

Vales de cachoeiras difíceis de transpor.

Vales habitados por animais peçonhentos, medos antigos e feras que carregamos dentro de nós.

Mas reduzir os vales às lágrimas é uma injustiça.

Há vales de paz.

Vales de mansidão.

Vales de descanso.

Há o vale no colo de uma mãe que embala seu filho.

Há vales feitos de abraços.

De mãos que afagam.

De ombros que acolhem.

De amigos que permanecem.

De silêncios que curam.

Os vales não são apenas lugares por onde passamos.

São lugares onde nos tornamos humanos.

Mais do que isso.

Os vales são caminhos.

Ligam montanhas.

Conduzem rios.

Recebem viajantes.

São embarques e desembarques nas estações da vida.

Quem atravessa um vale nunca permanece exatamente a mesma pessoa.

Hoje, porém, existe uma nova montanha.

Ela não é feita de pedra.

É feita de desempenho.

Vivemos na sociedade da performance.

Tudo precisa ser medido.

Tudo precisa melhorar.

Tudo precisa render.

Tudo precisa superar.

Tudo precisa aparecer.

Até aquilo que nasceu para ser prazer tornou-se competição.

Olhe para a corrida de rua.

Ela nasceu do movimento mais natural do ser humano.

Correr.

Correr porque o corpo pede.

Correr porque o vento faz bem.

Correr para conversar.

Correr para pensar.

Correr para ver o amanhecer.

Hoje muita gente corre olhando mais para o relógio do que para o horizonte.

O pace.

O VO₂.

A frequência cardíaca.

A planilha.

O RP.

A próxima medalha.

A próxima prova.

O próximo desafio.

Sem perceber, deixamos de correr.

Passamos a perseguir números.

A corrida deixa de ser um encontro com o corpo.

Transforma-se em julgamento do corpo.

O mesmo acontece na academia.

No ciclismo.

Na natação.

Nas trilhas.

Até caminhar parece exigir um aplicativo.

Até descansar virou meta.

Dormimos para produzir mais.

Meditamos para render melhor.

Lemos para performar.

Viajamos para postar.

Abraçamos para fotografar.

Estamos perdendo a capacidade de fazer alguma coisa apenas porque ela é boa de ser vivida.

A sociedade transformou experiências em performances.

O casamento virou performance.

A maternidade virou performance.

A paternidade virou performance.

A espiritualidade virou performance.

A felicidade virou performance.

E o amor...

O amor também virou montanha.

Também ali nos ensinaram a subir.

Transformaram a intimidade em desempenho.

O encontro em performance.

O afeto em resultado.

Parece que tudo precisa ser intenso, extraordinário, inesquecível, como se o amor também tivesse um pódio a conquistar.

E, sem perceber, fomos perdendo a linguagem do vale.

A linguagem dos olhares que permanecem.

Dos silêncios que aproximam.

Do beijo que não tem pressa.

Das mãos que se procuram sem ansiedade.

Da pele que encontra outra pele sem precisar provar nada.

Há o vale das entrecoxas de uma mulher, onde o amor encontra abrigo e, tantas vezes, a própria vida começa.

Da conversa depois.

Do riso compartilhado.

Do cuidado.

Da ternura.

Quando a montanha invade a intimidade, o outro deixa de ser companhia e passa a ser expectativa.

O encontro deixa de ser presença para virar avaliação.

Mas o amor nunca floresceu nos picos da performance.

Floresce nos vales da confiança.

Na liberdade de não precisar impressionar.

Na coragem de simplesmente estar.

Talvez a intimidade mais profunda não aconteça quando duas pessoas tentam alcançar o auge.

Talvez aconteça quando ambas descem das suas montanhas, abandonam as armaduras e caminham, de mãos dadas, pelo mesmo vale.

Porque o amor não é uma escalada.

É uma travessia.

E toda travessia precisa de companhia, não de vencedores.

Descobri isso também correndo.

Minha corrida começou a perder a graça no dia em que deixei de olhar as árvores para olhar o relógio.

O percurso continuava bonito.

O céu permanecia azul.

Os amigos ainda corriam ao meu lado.

O vento continuava tocando meu rosto.

Mas eu já não estava correndo.

Eu estava sendo medido.

E, pior...

Passei a medir a mim mesmo.

Talvez a montanha mais perigosa não seja aquela que escalamos.

Talvez seja a que carregamos dentro da cabeça.

Mesmo quando estamos no vale, continuamos olhando para o pico.

Nunca estamos onde os pés estão.

Sempre estamos onde o ego gostaria de chegar.

É por isso que escrevo este manifesto.

Não contra as montanhas.

Toda vida possui seus cumes.

Celebrar conquistas é bonito.

Realizar sonhos também.

O problema começa quando transformamos o pico em endereço.

Os cumes existem para ampliar nossa visão.

Os vales existem para sustentar nossa vida.

Se um dia eu subir ao pódio, agradecerei.

Tirarei uma fotografia.

Contemplarei a paisagem.

E descerei.

Porque não quero morar no topo.

Minha casa continuará sendo o vale.

Houve um tempo em que eu queria as montanhas.

Toda novidade.

Toda escalada.

Ficava agoniado só de pensar em ficar parado, sem subir nada.

Foi devagar que fui descobrindo a beleza do meu cantinho.

Do meu vale.

A paz de simplesmente habitar nele, sem deixar que a agitação da escalada ocupasse o tempo inteiro de viver.

Fui descobrindo a alegria nas coisas pequenas.

Um café com pão de queijo na lanchonete do Denis.

Uma feijoada com prosa lá no restaurante do Berg.

Um bom dia caloroso, logo cedinho, numa sintonia de assobios entre mim e o porteiro Francisco.

O prazer de arrumar a casa.

De escutar um vinil.

De regar as plantas.

De bater roupa e estender no varal.

De esperar o filho JG, toda quarta-feira.

De ver, da janela do meu quarto, as crianças brincando no parque da praça da esquina, em suas algazarras de infância.

O vale se entranhou no meu viver.

Tirou de mim a rotação alta, a ansiedade com tudo.

Devolveu a contemplação.

A meditação.

O silêncio fecundo dos meus dias.

É ali que mora a paz.

É ali que mora o suficiente.

É ali que mora a conversa demorada.

É ali que mora o abraço sem pressa.

É ali que mora a criança que brinca.

É ali que mora o velho que conta histórias.

É ali que mora a família reunida em volta da mesa.

É ali que mora o amigo que chega sem precisar avisar.

É ali que mora o rio.

É ali que mora Deus.

Talvez a maior ilusão do nosso tempo seja acreditar que a felicidade mora nos picos.

Os picos oferecem momentos.

Os vales oferecem existência.

Os picos emocionam.

Os vales sustentam.

Os picos são fotografias.

Os vales são morada.

Os picos podem ser conquistados.

Os vales precisam ser habitados.

Talvez a maior rebeldia do nosso tempo seja esta:

Ter coragem de viver uma vida suficientemente boa numa sociedade que nunca acha nada suficiente.

Não quero escalar um Everest por dia.

Quero caminhar pelos vales.

Quero conversar sem olhar o relógio.

Quero correr sem que o pace roube a poesia do caminho.

Quero trabalhar sem transformar minha profissão na medida do meu valor.

Quero amar sem transformar o amor numa prova.

Quero envelhecer sem competir com a juventude.

Quero descansar sem sentir culpa.

Quero contemplar sem achar que estou perdendo tempo.

Quero viver sem a obrigação de transformar cada experiência em desempenho.

Porque a vida não é um pódio.

É um vale.

E talvez a verdadeira sabedoria não seja aprender a subir cada vez mais.

Talvez seja aprender a descer.

Descer do orgulho.

Descer da vaidade.

Descer da comparação.

Descer da necessidade permanente de provar alguma coisa.

Descer até onde vivem as pessoas.

Até onde correm os rios.

Até onde a terra produz alimento.

Até onde o abraço encontra morada.

Até onde a esperança continua florescendo.

Porque, no fim, descobri uma verdade que a natureza sempre soube e nós insistimos em esquecer:

A água nunca corre para os picos. Ela sempre escolhe os vales. E é exatamente por isso que os vales nunca deixam de florescer.

Não existe montanha sem vale. Mas pode existir um vale pleno, fértil e feliz sem que ninguém precise conquistar montanha alguma.

Talvez o verdadeiro desenvolvimento humano não seja uma escalada sem fim.

Talvez seja reaprender a habitar os vales.

15 Anos Depois (por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

                           Foto de março de 2011

PARTE I

Durante muito tempo pensei que essa fosse uma história sobre Imposto de Renda.

Depois achei que fosse uma história sobre uma cardiopatia grave.

Hoje sei que estava enganado.

Ela sempre foi uma história sobre pessoas. Sobre encontros que a gente não marca, mas que chegam na hora certa. Sobre portas que se abriram exatamente quando outras pareciam fechadas para sempre. E sobre um coração que precisou ser salvo duas vezes. A primeira pela medicina. A segunda pela verdade.

Era março de 2011. Até então eu levava uma vida comum. Trabalhava, sonhava, fazia planos, sem imaginar que o próprio peito guarda surpresas. Nunca pensei que meu coração fosse resolver, do nada, tocar uma música diferente daquela para a qual tinha sido afinado.

Cheguei ao Hospital do Coração, o HCor, pra checar um pico de pressão que eu tinha sentido no trabalho. Meus próprios colaboradores repararam e avisaram o diretor. Ele me ligou na hora e mandou que eu fosse com urgência a uma emergência ver o que estava acontecendo. Meu coração batia a 150 por minuto. Minha pressão, 16 por 10.

Foi o Leonardo, um funcionário que estava perto de mim naquele dia, quem reparou no manômetro. Sou hipertenso, meço minha pressão todo dia, e ele estranhou quando olhou minhas anotações de um mês inteiro. O coração se mantendo entre 140 e 160 por minuto, dia após dia. Foi ele quem tocou o alarme.

Cheguei no HCor e contei isso tudo. Antes de eu terminar de falar, já saíam da enfermaria médicos, uma maca. Levei uma injeção de anticoagulante direto na barriga e subi na hora pra UTI. Ali veio o diagnóstico: fibrilação atrial. Eu estava em risco de trombose, de morte, a qualquer momento, pelo tempo que o coração vinha fibrilando sem que ninguém soubesse. Foram minhas próprias anotações, aquele diário que eu levava só pra controlar a pressão, que mostraram aos médicos há quanto tempo aquilo estava acontecendo.

Começou ali uma longa peregrinação pelos corredores dos hospitais.

De março a dezembro daquele ano foram oito internações. Todas em UTI. Cinco cardioversões elétricas. Três ablações por radiofrequência, a última delas nem estava planejada, foi um achado médico no meio do caminho.

Na revisão com o cardiologista, o problema continuava lá, esperando. E eu era internado de novo, pra mais um procedimento. Foi assim que o ano foi se passando.

Passei por cardioversões elétricas. Quem nunca viveu uma talvez pense que é só um choque. Não é. É uma entrega inteira. Você recebe anestesia, fecha os olhos e confia sua vida a uma equipe de gente que nem conhece direito. Depois acorda torcendo pra que o coração tenha voltado ao compasso.

Dei muito trabalho naquela UTI. Fiquei amigo de várias pessoas. Me despedi de outras. No pouco tempo entre a internação e a alta, geralmente cinco dias, tinha gente que vinha a partir.

Mas nunca tive medo da morte. Nem naquela madrugada.

Estava inquieto depois de uma anestesia geral. Sem perceber, tirei o curativo da jugular. Começou a jorrar sangue. Entrei em choque por perda de sangue. Foi um socorro às pressas, com tudo o que é apito de monitor gritando por ajuda.

Abri os olhos, sem força nenhuma, e cruzei o olhar com dois maqueiros. Estavam limpando o leito de um amigo meu que tinha acabado de partir, e se preparavam pra trazer outro paciente. Foi aquele encontro de olhares que trouxe os dois pra perto da poça de sangue que se formava embaixo de mim. Os apitos soavam pela ala inteira da UTI, que naquele momento estava toda em preces, de mãos dadas, porque tinham acabado de perder o amigo cujos lençóis eles trocavam. Foram eles que apertaram o botão de pânico. Foram eles que chamaram o socorro.

Por uma questão de minutos, não morri de sangramento na jugular. E seria algo estranho, se tivesse morrido assim. Não teria sido do coração. Teria sido de um esparadrapo que eu mesmo tirei, me mexendo demais, sob o efeito de uma anestesia geral.

Não foi.

Vieram as ablações. A primeira. Depois outra. Até chegar naquela que todo mundo acreditava ser definitiva: a terceira.

Uma cirurgia complexa. Os médicos calculavam umas três horas. Meu irmão ficou na sala de espera, torcendo apenas por uma notícia: que tinha dado tudo certo.

Lá dentro, a equipe seguia cada etapa com cuidado de quem sabe que está mexendo com o essencial. Depois de horas de trabalho, parecia que os focos das arritmias tinham sido eliminados. O cirurgião chefe, cardiologista renomado, já tinha passado o bastão pra sua equipe de assistentes. Era com eles a tarefa de retirar o cateter e fechar o curativo, o que já o liberava pra sala de recuperação da UTI. Os cateteres estavam sendo retirados.

Parecia que a batalha tinha acabado.

Meu coração resolveu contar outra história.

Foi uma enfermeira, daquelas que sempre operam com ele, quem notou algo estranho no monitor. Uma atividade elétrica que não devia estar ali. Foi ela quem chamou o cirurgião de volta. O coração voltava a fibrilar bem na hora em que todos achavam o problema resolvido. O fechamento parou. Os cateteres voltaram. Na prática, começou uma cirurgia dentro da própria cirurgia. O que devia durar três horas passou de seis.

E meu irmão, na sala de espera, sem notícia nenhuma. O relógio parecia zombar da angústia dele. Três horas. Quatro. Cinco. Seis. Cada funcionário que atravessava a porta acendia uma esperança e, logo depois, apagava.

Enquanto isso, lá dentro, os médicos insistiam em procurar o que ainda escapava. Até que encontraram: um foco ectópico raro, ligado ao Ligamento de Marshall. Uma estrutura pequena, quase esquecida, que tinha ficado calada a vida inteira.

Naquele momento ninguém podia imaginar que essa descoberta voltaria a importar quinze anos depois.

A cirurgia terminou. Acordei devagar na recuperação, tudo ainda parecendo sonho. Olhei pro lado. Vi uma mulher sorrindo pra mim. Demorei pra reconhecer aquele rosto. E, ainda tonto de anestesia, meu primeiro pensamento foi completamente absurdo: "Puxa, morri." Porque não fazia sentido nenhum aquela pessoa estar ali.

Era Robertinha.

Anos antes, quando ela tinha só dezesseis, entrou no Banco do Brasil como menor aprendiz. Fui eu quem lhe deu posse. Vi aquela menina começar a vida profissional. Ajudei no que pude. O contrato terminou, cada um seguiu seu caminho, e dez anos se passaram sem que a gente se visse. E foi justo ali, dez anos depois, que ela reapareceu, ao lado da minha cama, dentro do centro cirúrgico, como um anjo que ninguém tinha escalado pra aparecer.

A explicação veio depois. Robertinha tinha virado corretora de imóveis, e naquele dia estava vendendo uma casa justamente para o meu cirurgião. Numa conversa qualquer, ele comentou: "Hoje estou operando um paciente chamado Ricardo Barros." Ela perguntou na hora: "Ricardo de Faria Barros?" Ele confirmou. Ela disse: "Preciso vê-lo. Foi meu chefe, foi quem me ajudou muito quando comecei minha vida profissional."

O cirurgião deixou. E foi assim que, depois de seis horas de cirurgia cardíaca, acordei olhando pra uma antiga menor aprendiz do Banco do Brasil.

Depois do susto vieram as gargalhadas. Muitas. A tensão foi embora inteira, nem o médico segurou o riso. E, como a vida gosta de escrever cenas que ninguém inventaria, aconteceu mais uma: ali mesmo, na sala de recuperação, entre monitor e enfermeiro entrando e saindo, o cirurgião terminou de assinar a documentação da casa que estava comprando da própria Robertinha.

Até hoje acho que nenhum roteirista teria coragem de escrever uma cena dessas.

A vida teve.

Os anos passaram. Meu coração voltou ao ritmo. Voltei ao trabalho, aos projetos, a correr. Aquela fase parecia definitivamente fechada.

Eu acreditava mesmo que aquela história tinha ficado pra trás.

Não sabia que, quinze anos depois, ela voltaria inteira. E seria meu filho Rodrigo quem abriria a primeira porta dessa nova caminhada.

(continua na Parte II)


PARTE II

Quinze anos se passaram. Eu já nem pensava mais naquelas cirurgias. Meu coração estava estável. Eu corria, viajava, trabalhava. Era como se aquela batalha tivesse virado só uma lembrança distante.

Até que o telefone tocou.

Era Rodrigo, meu filho. Fez uma pergunta que parecia simples: "Pai, tu sabia que quem teve cardiopatia grave continua tendo direito à isenção do Imposto de Renda, mesmo estando bem?"

Respondi na hora: "Mas eu estou curado."

Ele não se conformou com minha descrença. Insistiu que eu tinha direito. Se colocou como ponte, disposto até a judicializar a questão se fosse preciso. Foi ele quem me deu ânimo pra recomeçar. E me disse a frase que mudou o rumo de tudo: "Pai, essa não é a pergunta."

Na mesma hora me mostrou a Súmula 627 do STJ. Foi ali que entendi: a lei não perguntava se eu ainda tinha sintoma, perguntava se eu tinha sido acometido por cardiopatia grave. Coisa bem diferente.

Rodrigo tinha aberto a primeira porta.

Escrevi ao cardiologista que me acompanhou durante toda a doença. Não queria privilégio, queria só que registrasse o que ele mesmo tinha tratado por anos. A secretária respondeu, depois respondeu de novo. Esperei dias, semanas. Entendi, sem palavra dura de ninguém, que aquele laudo não viria.

Fiquei triste. Não revoltado. Triste.

Continuei procurando. Pensei na CASSI. Conversei com uma amiga, que entendeu que eu estava atrás de influência. Doeu, não porque ela se recusou a ajudar, mas porque imaginou que eu quisesse um atalho. Nunca foi isso. Sempre quis só que a verdade fosse reconhecida.

Continuei andando. Passei pelo Banco do Brasil, perguntei, voltei, perguntei de novo. Parecia um corredor cheio de portas, mas nenhuma com placa.

Foi então que uma amiga comentou, quase sem perceber o tamanho daquilo, que conhecia um caso resolvido por um médico de uma pequena Unidade Básica de Saúde do interior da Paraíba. Lembrei de um amigo médico. Escrevi, perguntei se ele era médico do SUS. "Sou sim." Perguntei se atendia como clínico geral. "Exatamente."

Mais uma porta se abriu.

Levei tudo: prontuários, exames, internações, relatórios, centenas de páginas. Ele não assinou nada de cara. Primeiro leu. Leu tudo, dias, semanas, reconstruindo minha história clínica inteira, folha por folha.

Contei que me lembrava de um episódio marcante na terceira ablação, quando a cirurgia parecia terminar e surgiu aquela atividade ectópica que obrigou a equipe a recomeçar tudo. Falei do Ligamento de Marshall. Ele sorriu: "Também encontrei isso nos documentos."

Ali percebi uma coisa rara. Ele não estava só acreditando na minha memória, ele também tinha chegado sozinho às mesmas conclusões, só de ler os registros. Não estava escrevendo um laudo qualquer, so por ouvir dizer. Estava reconstruindo quinze anos da biografia do meu coração, quase como um legista documental. 

Enquanto isso, Rodrigo continuava inquieto, querendo que tudo fosse confirmado por um dos maiores especialistas do país. Conseguiu uma consulta com um cardiolgista famoso. Fui, levei tudo de novo. Ele ouviu, examinou, fez perguntas, e não escreveu nada. Pediu ressonância, novos exames, queria comparar imagens antigas com as recentes. Voltei uma segunda vez, uma terceira, uma quarta. Cada documento antigo levantava uma pergunta nova, e ele só ia escrever quando tivesse certeza plena.

Passei a admirá-lo profundamente. Competente, íntegro, sem pressa de concluir.

Descobri então uma informação decisiva: a Receita Federal exigia que o laudo viesse de um serviço oficial de saúde. Entendi que precisava caminhar pelas duas estradas ao mesmo tempo. A que Rodrigo tinha aberto continuava valendo, era uma segurança clínica enorme. Mas havia também uma exigência formal a cumprir. Nunca abandonei nenhum dos dois caminhos.

Depois de quatro consultas, o cardiologista renomado fechou sua avaliação e escreveu o laudo dele. Quando li aquele documento, uma paz enorme desceu sobre mim. O laudo do meu amigo já tinha sido protocolado, eu não precisava mais daquele papel pra nada prático. Mas o que me tocou foi outra coisa: dois médicos, de trajetórias completamente diferentes, trabalhando cada um por si, chegaram exatamente ao mesmo lugar. Um era chefe da Cardiologia de um dos hospitais mais renomados do Brasil. O outro, médico de uma pequena Unidade Básica de Saúde. Os dois enxergaram a mesma verdade.

Aquilo me ensinou que a competência não mora no tamanho do hospital. Mora na honestidade de quem examina um paciente.

O laudo do meu amigo foi aceito pela CASSI. Na entrega, mais uma pequena grande história: faltava a identificação funcional do médico, a funcionária podia ter devolvido tudo, preferiu esperar. Liguei na hora pra ele, descobrimos o número, escrevi ali mesmo, à mão. Ela recebeu os documentos.

A PREVI reconheceu meu direito e parou de descontar o Imposto de Renda. Achei que a caminhada tinha terminado ali.

Não tinha.

Retifiquei cinco declarações de Imposto de Renda. As cinco caíram na malha fina. Aprendi sozinho a usar o e-CAC, a protocolar documento, a fazer impugnação. Um dia, lendo uma das intimações, encontrei uma frase quase escondida: a Receita não dizia que eu não tinha direito, dizia só que faltava uma informação expressa, a data em que a cardiopatia grave tinha sido caracterizada.

Voltei ao meu amigo. Ele releu tudo e acrescentou uma linha só: "Cardiopatia grave caracterizada em 1º de março de 2011." Nada tinha mudado. Só ficou escrito, sem margem pra dúvida, o que toda a documentação já mostrava.

Escrevi pra Ouvidoria da Receita Federal. Não pedi privilégio, pedi só que meu processo fosse analisado. Algum tempo depois, ele voltou a andar.

Até que chegou o dia. Abri o processo, li cada linha devagar. Minha impugnação tinha sido acolhida. Os lançamentos, cancelados. Meu direito, reconhecido.

Fiquei uns minutos olhando pra tela. Não comemorei de imediato. Primeiro agradeci. Depois sorri.

Dias mais tarde percebi um detalhe curioso na decisão: o auditor identificava meu amigo como médico da capital. Ri sozinho. Resolvi não pedir correção. Achei justo deixá-lo promovido. Na minha história, ele saiu do interior direto pra capital.

Hoje vejo que nunca escrevi isso pra falar de isenção tributária. Escrevi pra agradecer.

Ao meu irmão, que aguentou seis horas de espera sem saber o que estava acontecendo do outro lado da porta.

À Robertinha, que apareceu como um anjo improvável bem na hora em que eu abria os olhos.

Ao meu filho Rodrigo, que não se conteve diante da minha descrença, insistiu, virou ponte e me deu o ânimo que faltava.

Ao cardiologia renomado, que meu filho conseguiu que me atendesse, cuja prudência confirmou o que a verdade já mostrava sozinha.

Ao meu amigo médico, que aceitou ler centenas de páginas pra reconstruir uma história que nem eu lembrava inteira.

À funcionária da CASSI, que preferiu resolver um problema em vez de criar outro.

E aos servidores da Receita Federal que, depois de olhar tudo com atenção, reconheceram administrativamente um direito que sempre existiu.

Aprendi, no fim de tudo, que persistência é isso: continuar caminhando pelo corredor até encontrar a porta certa, mesmo que leve quinze anos.

E talvez seja por isso que meu coração hoje bata tão ligeirinho. Não porque nunca mais tenha adoecido. Mas porque descobri que a medicina salva corações, a justiça reconhece direitos, e as pessoas, quando escolhem fazer o bem, devolvem esperança de um jeito que nenhum prontuário, nenhum processo e nenhuma sentença vão conseguir registrar pra sempre.

(continua na Parte III)


PARTE III: O coração das pessoas

Depois da decisão da Receita Federal, muita gente me perguntou quanto dinheiro eu tinha recuperado.

Pergunta natural. O valor existiu, e usei bem, ajudando gente que precisava ao meu redor. Mas nunca consegui responder essa pergunta só com um número. Porque o maior patrimônio que recuperei não coube em conta bancária nenhuma. Foi a minha própria história.

Por 15 anos aquele monte de papel, do prontuário do HCOR e do extrato de utilizações da CASSI, ficou dormindo numa gaveta. Centenas de folhas em exames, relatórios e laudos. Papel que parecia só papel.

Quando comecei essa caminhada, achei que precisava de um documento. Descobri que precisava reconstruir uma vida inteira.

Cada internação voltou. Cada cardioversão. Cada cirurgia, cada noite maldormida, cada medo que eu escondia até de mim mesmo. Até aquela terceira ablação, que todo mundo achava terminada, voltou com um tanto de detalhe que eu jurava ter perdido pra sempre.

Foi como voltar ao centro cirúrgico. Rever meu irmão esperando seis horas sem notícia. Reencontrar Robertinha sorrindo do lado da minha cama. Ouvir de novo o silêncio de quem nunca respondeu meu pedido. Sentir outra vez o alívio de topar com gente que decidiu ajudar.

Existe uma diferença grande entre lembrar e reconstruir. Lembrar é reter um fato. Reconstruir é dar sentido a ele. Comecei procurando um direito, terminei encontrando gratidão.

Descobri profissionais extraordinários em todo canto. Um médico de postinho de saúde pode ter o mesmo rigor científico de um chefe de Cardiologia dos hospitais mais respeitados do país, porque a grandeza de quem cuida não mora na placa da porta do consultório. Mora na honestidade de olhar pra quem está na sua frente.

Descobri também que a máquina pública, às vezes, funciona. Vi servidor que leu documento com atenção de verdade. Vi gente que preferiu resolver problema em vez de empurrar pra frente. Vi funcionário que entendeu que atrás de um número de processo existe uma vida.

Talvez por isso eu nunca tenha conseguido contar essa história como uma luta contra alguém. Ela sempre foi uma caminhada ao lado de muita gente.

Rodrigo me ensinou que uma pergunta certa, sustentada com insistência, pode virar uma vida do avesso. Meu irmão me ensinou o que é esperar por alguém quando só resta esperar. Robertinha me mostrou que o bem que a gente faz às vezes volta na hora que menos se espera. Meu amigo médico me ensinou que compromisso profissional começa na disposição de estudar antes de concluir. O cardiologista renomado confirmou que excelência anda de mãos dadas com prudência e humildade. A funcionária da CASSI mostrou que sensibilidade também é parte do serviço público. Os auditores da Receita Federal provaram que justiça administrativa começa numa leitura cuidadosa dos fatos.

Cada um pôs um tijolo na ponte que me trouxe até aqui. Nenhum resolveu tudo sozinho. Mas nenhum foi pequeno demais pra não fazer diferença.

Durante muito tempo achei que coragem era não sentir medo. Hoje penso diferente: coragem é continuar andando mesmo sem enxergar a próxima porta. Porque ela sempre aparece. Nem sempre onde a gente imagina, nem sempre do jeito que se espera. Mas aparece.

Hoje continuo correndo. Cada quilômetro tem um peso diferente do que tinha anos atrás. Não corro mais pra provar que venci a doença. Corro porque cada passo me lembra que a vida me deu uma segunda chance. E segunda chance não existe pra ser desperdiçada.

Escrevi essas páginas pra que meus filhos conheçam essa história inteira. Pra que meus netos saibam que direito vale a pena ser buscado, desde que seja buscado com honestidade. Pra que médico saiba o tanto que um laudo responsável pode mudar a vida de alguém. Pra que servidor público nunca esqueça que atrás de um número de processo existe um ser humano.

E, principalmente, pra agradecer.

Porque a gratidão tem um poder curioso: quando é dividida, ela continua trabalhando sozinha. Talvez alguém leia essas linhas e resolva responder um e-mail esquecido. Talvez um médico releia um prontuário com mais calma. Talvez um servidor leia mais uma folha antes de decidir. Talvez um filho faça ao pai a pergunta certa. Se isso acontecer, essa história já cumpriu seu papel.

Hoje, olhando pra trás, nenhuma porta se abriu por acaso. Todas se abriram porque havia gente do outro lado. Gente que decidiu ouvir. Ler. Esperar. Estudar. Confiar. Estender a mão. E isso fez toda a diferença.

Meu coração segue batendo ligeirinho. Não porque tenha esquecido o que viveu, mas porque aprendeu que a vida é bem maior que os dias difíceis que a gente atravessa. Ela é feita da gente que encontramos pelo caminho. Alguns ficam décadas. Outros passam em poucos minutos. Mas todos deixam marcas.

Se hoje me perguntassem qual foi o maior milagre dessa história, eu não diria que foi a cirurgia. Nem a decisão administrativa. Nem a restituição do imposto.

O maior milagre foi descobrir que Deus costuma agir através das pessoas. Às vezes na sabedoria de um médico. Às vezes na perseverança de um filho. Às vezes na paciência de um irmão. Às vezes no sorriso inesperado de uma antiga menor aprendiz. Às vezes na atenção silenciosa de um servidor público.

Foram elas que abriram as portas. Eu só tive fé suficiente pra continuar caminhando até cada uma.

E quando a última porta finalmente se abriu, entendi que o prêmio nunca esteve do outro lado do processo. Estava no caminho. Foi nele que redescobri a força da gratidão, o valor da verdade e a beleza de confiar nas pessoas.

Se essa história tocar o coração de alguém, já valeu a pena escrever.

E se um dia perguntarem quem venceu essa batalha, espero que a resposta não seja o meu nome.

Espero que digam só isto: venceu a verdade.


Um domingo de despedida (por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

Deixei o JG em casa hoje. Doze dias comigo. Acabaram as férias de julho, do jeito que sempre acabam: de repente, mesmo quando a gente sabia o dia certo no calendário.

Ele desceu do carro. Me abraçou. Não foi o abraço de praxe, aquele de quem já está de saída com a cabeça em outro lugar. Foi um abraço que parou o tempo por um segundo, dos que a gente sente atravessar a roupa e chegar no peito. Fiquei ali, com a mão ainda sentindo o calor das costas dele, pensando: isso é raro. Isso precisa ser guardado.

Voltei para o carro com o coração oco. Não de tristeza, ou não só. Oco como uma casa depois que a visita foi embora e o silêncio ainda carrega o cheiro de quem esteve lá.

E foi voltando por esse silêncio que Brasília resolveu me mostrar coisas.

Um chão inteiro coberto de pétalas de ipê vermelho, cobrindo a calçada como se alguém tivesse decidido, de madrugada, forrar o caminho de quem ia passar triste. O cerrado incendiando o céu naquele tom que só ele tem, entre o vermelho e o queimado, como brasa que ainda respira. E gente, muita gente, carregando toalha e cadeira de camping para o Eixo Monumental, só para ver o sol se deitar. Ninguém ali estava resolvendo nada. Estavam só presentes. Estavam só olhando.

Isso tudo é do mesmo reino. Eu chamo de DCIG: delicadeza, carinho, interesse, gentileza. É o nome que dei, faz tempo, para uma língua que aprendi a falar antes de aprender que ela tinha nome. Aprendi na casa da minha mãe, em Campina Grande, onde afeto não pedia licença para existir. E é estranho, porque passei décadas dentro do mundo bancário, competitivo, de ego afiado como faca de cozinha, e essa língua não morreu em mim. Nem dois casamentos que não vingaram conseguiram me tirar dela. Tem coisa que a gente não escolhe abandonar. Só escolhe continuar pagando o preço de sustentar.

E o preço existe, sim. Tem dia de indiferença, de silêncio do outro lado, de gente que não devolve o mesmo tanto que a gente oferece. Mas hoje não foi dia de cobrança. Foi dia de colheita.

Porque enquanto eu guardava aquele abraço do JG, meu celular vibrou. Era minha mãe, lá longe, a dois mil e duzentos quilômetros daqui. Eu tinha perguntado se ela queria que eu resolvesse uma pizza pra ela jantar. Ela respondeu: quero a minha do tipo marguerita, e a da Maria, uma doce. Está certo? Obrigada pelo seu amor.

Fiquei olhando pra aquela frase um tempo enorme para uma frase tão pequena. Minha mãe, sentindo fome a quilômetros de distância, lembrando ainda de pedir a pizza de outra pessoa antes de pensar só em si. Isso não se ensina em sala de aula nenhuma. Isso se herda. Sou sentimental. Trago isso desde os tempos de infância e já não tenho vontade de pedir desculpas por isso. Um mundo apressado sempre vai achar estranhas as pessoas que param para olhar um chão coberto de ipês, ou um pôr do sol.Eu não estou fora do meu tempo. Apenas continuo acreditando que a vida acontece nesses pequenos instantes. Num abraço, na flor de ipê, em casais enamorados vendo um belo sol.

Mais tarde, olhei pelas câmeras da casa dela. Vi minha mãe comendo a pizza sozinha, do alto dos seus 87 anos, numa mesa grande demais para um prato só. E aquilo me cortou o coração. Ver de longe, por câmera, é um jeito cruel de estar perto: a gente vê o prato, vê a cadeira vazia do outro lado, mas não pode encostar a mão. É presença sem tato. Machuca justamente porque cuida.

Mas me corrigi ali mesmo, olhando a tela. Aquela casa não é solidão, é a sede de seu lar, de nosso lar. O filme inteiro da vida dela tem as plantas que ela rega toda manhã, tem as amigas, tem a arrecadação que ela toca para os que precisam mais do que ela, tem os médicos de confiança que atende o telefone pelo nome dela. Isso é rede. Isso é raiz. Uma mulher de 87 anos que ainda planta, ainda arrecada para outro, ainda confia em quem cuida dela, não está entregue ao modo de esperar a morte chegar que eu tanto recuso para mim. Ela também recusa, à moda dela, na escala do dia a dia dela.

O que doeu em mim, eu entendi depois, não foi achar que ela está desamparada. Foi que meu amor por ela quer ser mais espesso do que uma câmera permite. Quer ser mão, não pixel. E isso não tem solução tecnológica. Tem só o jeito antigo: telefonema, viagem, a pizza que virou ponte entre nós dois naquele domingo.

A gente vive numa época em que dá para "ver" alguém sem nunca chegar perto. Câmera, story, mensagem de bom dia automática. Tudo isso parece carinho, mas é só a embalagem dele. O carinho de verdade tem três ingredientes, e nenhum se compra pronto: Tempo, Atenção e Carinho. Eu chamo de TAC. Ele não cabe em notificação. Exige que alguém pare o que está fazendo e esteja ali, de corpo ou de voz, sem pressa de desligar.

Tenho minhas frustrações, minhas decepções, minhas mágoas, minhas desesperanças. Não vou fingir que não. Mas não dou comida pra elas antes de dormir. O que se rega, cresce, e eu não quero acordar amanhã colhendo mágoa que eu mesmo adubei à noite. Prefiro regar flor. Regar delicadeza, gentileza, interesse pelo outro, sem esperar nada de volta, só porque não saberia ser diferente. Não seria a minha essência.

Entrei no quarto do JG, ainda desarrumado, e senti sua presença amiga. Ele não é de falar muito, e o DCIG nem sempre precisa de muitas palavras. Às vezes, um simples estar ali, sem exigir nada, já é forma dela se manifestar. Como o chão florido de ipês. Como os jovens apaixonados que se programaram, num domingo, para ver o sol se pôr no cerrado da capital do meu país. Como uma mãe que, a dois mil e duzentos quilômetros, ainda manda mensagem de agradecimento por um prato de pizza.


Às vezes me pergunto se estou fora do meu tempo, sentimental demais para um mundo que aprendeu a ter pressa até para sentir. Sou sentimental, sou mesmo, sempre fui, desde menino, e não vou pedir desculpa por isso. Mas hoje, vendo o cerrado pegar fogo de beleza e a cidade inteira parar para testemunhar isso, entendi uma coisa: não estou fora de estação. Só estou entre os poucos que ainda descem do trem para ver o sol se pôr, e que ainda atravessam a distância, quando dá, com mais do que uma câmera. 

A época dos emudecidos (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

Acordei hoje com uma saudade sem endereço certo. Ficou rondando a casa a manhã inteira, feito cheiro de café coado que já não existe mais na cozinha.

Era o tempo do Orkut.

Tinha um tópico chamado Receitas Fáceis. Não era meu, mas eu me inscrevi nele e participava ativamente. Simples assim, sem frescura no nome. E ali dentro a gente trocava muito mais do que ingredientes. Trocava tardes, risadas e aquele tipo de atenção que hoje parece artigo de luxo. Ali rolava de tudo, até noite de São João teve, com direito a quadrilha improvisada e animação que atravessava a madrugada.

Foi lá que conheci a arquiteta Aurora Takiochi, de São Paulo. Um dia contei a ela sobre um terreno e um sonho de casa. Ela nunca havia pisado no meu quintal. Não me conhecia de nada. Mas pegou aquela ideia solta que eu lhe dei, ainda torta, cheia de lacunas, e me devolveu, com uma solidariedade que eu nem havia pedido, um croqui.

Era um desenho de casa nascido de conversa, não de planta baixa.

Depois foi meu pai quem traduziu aquele papel em parede, telhado e vida morada. Isso hoje soa quase como milagre. Naquela época, era apenas uma terça-feira.

Conheci também a Angela, de Aracaju. Com ela e mais uma trupe de gente que só existia ali dentro da tela, eu tocava, à distância, um boteco chamado Mói de Liso. Cada um entrava com seu pedido de música para um garçom de bigode, que existia apenas na nossa imaginação coletiva e, por isso mesmo, era mais real do que muito garçom de carne e osso que já me serviu cerveja.

A gente ria como ri quem está sentado ao redor de uma mesa. Só que a mesa era um fórum de internet discada.

Não sei precisar quando o silêncio entrou.

Foi devagar, como toda enchente que primeiro molha apenas o pé da porta.

Hoje entro em grupos e comunidades de WhatsApp. Entro até na do sangue do meu sangue, na da minha própria família, e vejo o mesmo fenômeno: gente lendo, ninguém respondendo. Um bom-dia com balãozinho. Uma imagem de flor dentro de uma moldura dourada. E depois, o vazio.

Como se todo mundo tivesse combinado, sem combinar, de emudecer.

E não é falta de gente na roda. É excesso.

São tantas as portas abertas ao mesmo tempo, como X, Facebook, Youtube, Instagram, TikTok e o próprio Zap, que a gente vai rolando de uma para outra sem pousar em nenhuma. Lê e não interage. Não fala. Não se coloca. Apenas olha.

Depois volta para sua arquibancada particular, de onde fica assistindo a tela rolar a tela, infinitamente, feito quem compra ingresso para o jogo e passa o tempo inteiro de costas para o campo. Tal qual o time da Argentina fez, na comemoração da Copa. 

Confesso que sinto falta.

Sinto mesmo, e não tenho vergonha de dizer.

Gosto de um papo. De uma prosa que empaca, volta, ri de si mesma e depois continua. Sinto falta daquele ambiente de conversa que o Orkut tinha e que ninguém, nem o Facebook com toda a sua força, conseguiu repetir.

Virei órfão de uma coisa que nem tem nome direito.

Órfão do diálogo. Órfão da boa prosa. Órfão da certeza de que, do outro lado da tela, existe alguém com a vida pulsando, e não apenas um perfil.

E essa falta aperta mais porque, aos 61, moro sozinho.

Tenho minhas plantas para regar de manhã e ainda não decidi entre um aquário ou um cachorro para dividir a casa. Nesse silêncio de morar só, um bom-dia de verdade, com resposta e continuação, pesa diferente. Faz falta de um jeito que talvez ninguém que more acompanhado consiga perceber por inteiro.

O que será que aconteceu com o diálogo? O que aconteceu com a gente?

Acho que a tela, com tantos estímulos disputando um segundo da nossa atenção, drenou uma bateria que a gente nem sabia que existia: a bateria social. E então não sobra energia nem para uma interação breve. Um ok. Um joinha. Umas palmas de emoji.

E para por aí. Parece que gastar mais do que isso vai deixar a bateria no vermelho.

Eu costumo postar texto, vídeo, foto, coisa bonita que encontro pelo meio do caminho. E já me acostumei com o silêncio que vem depois. Não digo que gosto. Digo que me acostumei, o que é bem diferente de fazer as pazes com a situação.

Porque reparei numa coisa curiosa: para a treta, o povo sai correndo da arquibancada. Para discutir política, gol anulado, fofoca de quem fez o quê, aí nasce debate longo, cheio de gente querendo provar quem está certo.

O silêncio, ao que parece, não é uma regra geral. É seletivo.  Mas eu prefiro desafinar essa partitura de silêncio. Continuo postando. Continuo buscando interação. Continuo oferecendo o que acho bom, belo e virtuoso, porque não quero me tornar mais um emudecido diante daquilo que ainda merece ser dito.

Desconfio de uma coisa nesses tempos tão vorazes e velozes: o maior tesouro de hoje já não é dinheiro nem fama.

É doar e receber TAC, essa combinação de Tempo, Atenção e Carinho.

Quem investe tempo numa relação, quem presta atenção de verdade no que o outro precisa e espera, quem ainda tem carinho de sobra para oferecer sem a pressa de passar para o próximo estímulo da tela... essa pessoa virou raridade.

E quem recebe um TAC desses sabe: comeu manjar dos deuses.

Ser doador de TAC é remar contra a maré de telas. É o gesto pequeno de quem não quer virar mais um emudecido nessa epidemia de solidão que mora em casa cheia, rua lotada, tela acesa.


Ontem mandei pro grupo da família uma cópia do meu livro novo, "O Menino que Aprendeu a Olhar" Somos dezoito ali dentro. Postei ontem às 14h40. Hoje de manhã, nove e meia, contei de novo: um único retorno. Não vou chamar isso de sofrência, nem de carência, nem de drama. É só constatação. E constatação triste é a pior de todas, porque não pede colo: pede só que a gente admita o que está vendo.

Mas eu convivi com o outro jeito de partilhar vidas e histórias. De interagir, estando verdadeiramente presente e inteiro. 

Sei que aquele momento, intenso de interação, sob a égide do Orkut, existiu. Tenho até pendurado na parede da memória, um croqui de casa desenhado por quem nunca viu meu rosto. E ainda guardo o gosto da música pedida a um garçom de mentirinha que fazia aquele boteco parecer de verdade.

Aquilo era interação de corpo inteiro, mesmo sem corpo algum ali.

A gente demorava. E era bom demorar.

Não escrevo isso por saudosismo bobo, como quem só sabe olhar para o espelho retrovisor. Escrevo porque desconfio que a gente perdeu o jeito de ficar, não o jeito de se conectar.

Conexão a gente tem de sobra. O sinal chega em toda parte.

Ficar é que ninguém mais fica.

Às vezes penso se essa geração inteira de telas vai sentir, um dia, a mesma falta que sinto hoje. A falta de um tópico chamado qualquer coisa, onde gente desconhecida virava gente da vida.

Se você foi do Orkut, sabe do que estou falando. Se não foi, deixo apenas uma pergunta, sem cobrança de resposta, o que já seria uma ironia digna do assunto:

O que será que drenou tanto a nossa vontade de conversar, a ponto de um joinha parecer energia suficiente para sustentar uma conexão verdadeira?


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