Em quarenta e oito horas, o amor me apareceu quatro vezes. Não veio com flores, nem com trilha de cinema, nem com cena ensaiada pra feed. Veio disfarçado de notícia, de pesquisa, de inteligência artificial e de fila de supermercado.
A primeira notícia: cresce o número de pessoas com mais de sessenta que preferem morar sozinhas. Não querem mais dividir teto, armário, banheiro, controle remoto, cama. Dizem que não têm paciência com mania alheia ou que não querem abrir mão do próprio compasso. O horário de dormir, o volume da TV, o tempero da comida, o lado da cama, o valor sagrado do silêncio. A vida vai endurecendo a gente. Passamos anos ajeitando a casa por dentro e por fora. Quando alguém chega, qualquer mudança parece reforma grande, daquelas que levantam poeira. O amor vai sendo empurrado pro fim de semana. Um jantar, uma viagem rápida, um carinho, e cada um de volta pra sua fortaleza. Sua escova, suas plantas, seus controles. Não é que essas pessoas sejam amargas ou incapazes de amar. É que o custo de ajustar a própria rotina a outra pessoa, depois de tantos anos de autonomia, parece maior que o benefício. E quem somos nós pra julgar? Cada um sabe o peso que carrega e o preço que está disposto a pagar por um pouco de paz.
A segunda notícia: os apps de relacionamento estão perdendo usuários e dinheiro. Cansaram de deslizar o dedo como quem escolhe manga na feira. Na tela, tudo é bonito. Conversa afiada, foto bem iluminada, filtro na medida. Mas aí chega segunda-feira, a maquiagem derrete, o bom-dia demora, ninguém quer abrir mão do treino ou do cochilo pra caber o outro. A versão digital perde o viço no primeiro café da manhã. Não porque o outro seja ruim. É que ninguém é feito só de sábado à noite. Todo mundo tem uma segunda-feira cinzenta guardada no peito. E o que a gente faz com ela? Esconde, disfarça, posta um stories sorrindo. Mas na hora de encontrar alguém de verdade, a segunda-feira aparece. O cansaço aparece. A preguiça de explicar de novo a própria história aparece. E aí a gente desiste. Melhor ficar em casa com o cachorro e uma série nova. Menos trabalho, menos risco, menos exposição. Mas também menos chance de descobrir que o outro tem uma segunda-feira parecida com a sua.
A terceira veio da China. Plataformas de IA receberam ordem pra descontinuar namoros virtuais. Teve gente chorando a perda de avatares porque eles eram mais carinhosos, pacientes, atentos do que qualquer ser de carne e osso. E dá pra entender. Uma namorada de pixel não acorda de mau humor, não esquece o que você contou, não boceja no meio da sua história, não pede espaço no guarda-roupa. Ela massageia o ego, valida suas certezas, nunca aponta suas incoerências. É o parceiro perfeito porque nunca pede nada em troca. Mas isso não é encontro. É eco. É a própria voz da gente rebatendo na parede e voltando mais bonita. E a gente se apaixona pela própria sombra. O problema é que a sombra não esquenta a cama nos dias frios. Não faz pipoca quando você chega arrasado. Não segura sua mão no enterro da sua avó. A sombra é linda, mas não tem braço pra abraçar.
O amor de verdade tem atrito. Tem silêncio incômodo, dia morno, dia frio. Tem a mania que irrita, o atraso que chateia, a palavra dita sem pensar e a vontade de bater a porta. Mas também tem a conchinha no frio, a pipoca dividida no sofá, a mão que aperta a sua na caminhada, o alívio de ver "avisar quando chegar". Alguém que lembra da sua consulta, do seu medo de infância, daquela história boba que você contou meses atrás. E ainda tem casal que topa a desarrumação. Vi muitos. Longevos. Que aprenderam a sujar as mãos um no outro. Não porque o amor seja fácil ou perfeito. Mas porque descobriram que a solidão organizada pesa mais que o caos compartilhado. Eles sabem que o outro vai deixar a toalha molhada em cima da cama, vai roncar, vai esquecer o aniversário. Mas também sabem que vão ter alguém pra contar o sonho estranho da madrugada, alguém que ri das mesmas piadas bobas, alguém que entende o silêncio sem precisar explicar. E isso, pra eles, vale a pena. Não todo dia, mas na maioria deles.
A quarta cena foi no supermercado. Eu passava as compras quando a operadora de caixa viu a colega chegando pra assumir a esteira ao lado. Parou o que fazia, olhou fundo nos olhos dela e disse: "Senti sua falta ontem." A colega abriu um sorriso imenso, quase de criança. Talvez fizesse tempo que ninguém notava sua ausência. E ali, entre o bip do código e o barulho das sacolas, estava a chave de tudo. Não era uma declaração de amor. Não era um pedido de casamento. Era só uma frase dita de verdade, sem roteiro, sem interesse. Era alguém dizendo que percebeu que a outra não estava. E que isso fez diferença.
No fundo, a gente quer ser visto. Quer que alguém note que não estávamos lá. Que pergunte como foi o dia e fique pra ouvir a resposta. A gente quer caber na memória afetuosa de alguém. Não precisa ser todo dia. Mas de vez em quando, faz falta. E a falta percebida é o maior dos afetos, porque significa que a gente existe fora de si mesmo.
Vivemos o império do "eu". Meu tempo, minha rotina, meu espaço. O outro até pode entrar, desde que não mude nada de lugar. É como dois ouriços tentando se abraçar sem baixar os espinhos. Ou dois espelhos esperando que o outro reflita a imagem que eles mesmos querem ver. Mas namorar, viver a dois, exige uma pequena desarrumação. É puxar uma cadeira a mais pra mesa, abrir uma gaveta no armário e na alma, aprender a gostar de um tempero novo, escutar uma música que você nunca colocaria sozinho. Não é se anular. Essa história de "cara-metade" sempre me pareceu conta errada. Pra dar certo, precisamos de duas pessoas inteiras, bem resolvidas com suas próprias solidões, mas que topam fazer uns ajustes pra vida a dois encontrar uma fresta.
Eu não quero namorada de pixel. Também não quero alguém só pra ilustrar sábado à noite. Pra isso, fico com meus vinis e minhas plantas, que não exigem nada e fazem companhia honesta. Quero o pacote completo. Quero alguém que se encante pelo meu mundo enquanto eu me encanto pelo dela. Quero conhecer seus sustos, seus amigos, suas histórias, seus sonhos mais absurdos. Quero ser testemunha do seu crescimento e quero que ela vibre com minhas pequenas estreias. Não quero alguém que concorde com tudo. Quero alguém que, sabendo dos espinhos, arrisque o abraço.
Vida a dois não é utopia, é projeto e escolha. E ainda têm quem ouse tirá-lo do papel, ou da tela. Mas é preciso "sujar as mãos". Sentir a falta da falta. A tua falta de ontem.













