Tem gente que ensina falando. Tem gente que ensina escrevendo livros, dando aulas, fazendo discursos. E tem gente que ensina vivendo. Ana Cristina é dessas.
Esses dias, acompanhei duas aventuras de Ana que me deram vontade de escrever esta crônica. A primeira foi sua estreia no jogo de câmbio, lá na praia do Cabo Branco, em João Pessoa. A segunda, sua pilotagem numa bicicleta motorizada, pelas ruas da cidade.
Duas experiências diferentes, mas com uma coisa em comum: a alegria de quem não perdeu a vontade de experimentar a vida.
Aos 64 anos, Ana continua curiosa, destemida e cheia de disposição para aprender. E foi vendo essa mulher viver que entendi por que ela merece uma crônica no Bode com Farinha. Não apenas pelo que faz, mas pelo tanto que me ensina.
Tudo começou quando fui convidado por Ricardo Silva, jogador do time Cabo Branco, para um treino de câmbio, por volta das quatro da tarde, na praia do Cabo Branco. Disse que iria, e Ana logo se escalou para ir comigo. Afinal, Ana não perde uma oportunidade de se meter numa novidade.
Chegando lá, fez o que sabe fazer muito bem: foi conversando, sorrindo, fazendo amizade. Ana tem esse dom. Não precisa de muito tempo para se enturmar. Quando a gente percebe, já está todo mundo conversando com ela.
Núbia, atleta do time Cabo Branco, foi de uma gentileza danada. Colocou meu nome e o de Ana na relação dos próximos jogadores. No câmbio, as equipes têm oito jogadores. Ana entrou logo no primeiro jogo, e eu fiquei para o seguinte.
De fora, fiquei fotografando, filmando e registrando os acontecimentos. E foi aí que vi uma coisa bonita demais.
Ana nunca tinha jogado câmbio na vida. Não sabia direito as regras nem tinha experiência com aquela brincadeira. Mas ninguém exigiu que ela aprendesse tudo primeiro para só depois lhe dar uma oportunidade.
Ela entrou no jogo.
E aquelas oito pessoas que já estavam ali pareciam ter se tornado um pouco Ana Cristina também.
Ensinavam as regras no calor da partida, orientavam, incentivavam. Quando ela segurava uma bola, era uma festa. Quando conseguia devolvê-la, outra alegria. Quando errava, tinha sempre alguém para ajudar e animar.
Ana não estava sozinha. Fazia parte do time.
E sabem o que aconteceu? Ela se empolgou tanto que até discutiu com o juiz, pedindo o VAR.
Pronto. Ana sendo Ana. Kkkkk.
Aos 64 anos, parecia uma moleca descobrindo uma brincadeira nova. Corria, tentava, ria, vibrava. E eu, ali de fora, ficava extasiado com aquela alegria de menina. Não era só por acertar uma bola. Era a felicidade de estar ali, aprendendo, participando, sendo acolhida.
(Ana com a bola)
Fiquei pensando: qual outro esporte recebe assim uma pessoa que nunca jogou? Qual outro ambiente permite que alguém chegue sem saber, entre na brincadeira e aprenda junto com os demais, sem se sentir deslocado?
Porque, convenhamos, em muitos lugares acontece justamente o contrário. Primeiro, a pessoa precisa provar que sabe. Depois, mostrar que é competente. Só então ganha espaço. E, se errar, ainda corre o risco de passar vergonha.
No câmbio, naquele treino que presenciei, foi diferente. Ana chegou sem saber, mas isso não impediu ninguém de lhe dar lugar. O pessoal ensinou, incentivou e vibrou com ela. Não precisou esperar que Ana virasse uma boa jogadora para gostar de tê-la no time.
Que coisa bonita!
O câmbio me pareceu muito mais do que um jogo de bola. É uma brincadeira coletiva, com regras, movimentos, estratégias, erros e acertos. Mas o que mais me encantou não foi a técnica. Foi o jeito de brincar junto.
A bola passa de mão em mão, e com ela vão também o incentivo, a confiança, a convivência e a amizade.
Fiquei tão impactado que comecei a pesquisar mais sobre o jogo e a preparar uma cartilha sobre o câmbio. Queria explicar as regras, claro, mas também registrar aquilo que me parece ser uma das maiores riquezas dessa prática: a capacidade de integrar pessoas, criar laços e fazer com que cada um se sinta parte de alguma coisa.
Tomara que o câmbio nunca perca esse jeito de ser. Que não deixe a competição engolir a brincadeira. Que não vire uma disputa de egos, músculos e performances. Porque, quando isso acontece, a gente corre o risco de esquecer o prazer de simplesmente estar junto.
Às vezes, a melhor jogada de uma partida é ver alguém que nunca jogou conseguir segurar a bola e ouvir todo mundo comemorar.
Foi isso que vi com Ana.
E foi bonito demais.
No dia seguinte, veio outra aventura.
Fomos buscar uma bicicleta elétrica que eu havia comprado e que estava sendo montada. Minha ideia era colocá-la no carro e voltar para casa com ela. Um plano simples, sem grandes emoções.
Mas eu estava lidando com Ana Cristina.
Voltar dentro do carro não lhe pareceu interessante. Ela quis pilotar a bicicleta motorizada.
E lá foi ela!
Capacete na cabeça, sorriso no rosto e aquela disposição de quem está estreando uma novidade. Percorreu cerca de seis quilômetros, a aproximadamente 30 quilômetros por hora, enquanto eu seguia atrás, dirigindo o carro.
De vez em quando, olhava para ela e ria sozinho. Não por achar graça da aventura, mas porque era impossível não me contagiar com aquela felicidade.
Ana parecia uma criança chegando a um parque de diversões. Sentia o vento, descobria o caminho e aproveitava cada minuto daquela pequena conquista. A bicicleta era motorizada, mas a alegria era toda dela.
E eu fiquei pensando nessa capacidade de se permitir. De não olhar para a idade como se ela fosse uma placa de proibido. De não achar que certas experiências já passaram do prazo de validade.
Ana não estava tentando provar nada a ninguém. Estava simplesmente vivendo.
Quando chegamos ao Bar da Buchada, no bairro do Altiplano, em João Pessoa, ela fez questão de anunciar a chegada com uma salva de buzinas. Buzinou, chamou a atenção de todo mundo e chegou ao restaurante como quem acabava de conquistar um pedaço novo do mundo.
O pessoal olhou, admirado: "É a Ana?"
Era ela mesma!
A dona do Bar da Buchada, aquela mulher que compra, cozinha, vende, paga fornecedores e resolve os problemas de uma rotina pesada, tinha acabado de chegar pilotando sua motinha, toda faceira, feliz da vida.
E eu ali, acompanhando tudo, pensando em quanta gente passa os dias trabalhando, resolvendo problemas e cumprindo obrigações até esquecer que também tem direito a brincar.
Porque a vida de Ana não é feita só de passeios e gargalhadas. Há muito trabalho naquela mulher. O restaurante exige presença, energia e responsabilidade. Ela compra, cozinha, vende, paga as contas e resolve o que aparece. É atacante, zagueira, goleira e artilheira do próprio negócio. Chuta, cabeceia, agarra e ainda faz o gol.
Mas, no meio de tanta obrigação, encontra disposição para aprender um jogo novo, conhecer pessoas, pilotar uma bicicleta e se alegrar com coisas que muita gente consideraria pequenas.
Pequenas para quem olha de fora. Enormes para quem ainda sabe se encantar.
No câmbio, Ana entrou sem saber jogar e encontrou gente disposta a ensiná-la. Na bicicleta, resolveu experimentar algo novo e descobriu mais um caminho para percorrer. Nas duas situações, teve a coragem de começar.
E talvez seja isso que mais me ensine.
A gente passa tanto tempo tentando parecer competente, seguro, preparado, que acaba perdendo a coragem de ser iniciante. Queremos chegar sabendo, evitar erros, não dar vexame. E, nessa preocupação toda, deixamos de viver um bocado de coisa boa.
Ana não. Ana vai.
Se tem uma brincadeira, ela experimenta. Se tem gente, ela conversa. Se aparece uma novidade, ela se interessa. E, quando a alegria chega, não faz questão de escondê-la.
Aquela fotografia dela na bicicleta, olhando para trás e botando a língua de fora, diz muita coisa. É o retrato de quem não tem vergonha de ser feliz. De quem ainda guarda espaço para a molecagem, mesmo carregando nas costas as responsabilidades de uma vida adulta.
Gosto de pensar que aquela língua de fora é quase uma resposta ao mundo, que vive dizendo como devemos envelhecer, o que já não combina com a nossa idade e quais brincadeiras deveríamos abandonar.
Ana parece responder com o próprio sorriso:
Ainda estou aqui. Ainda quero conhecer. Ainda quero aprender. Ainda quero brincar.
E isso me faz pensar na sociedade em que estamos vivendo. Tanta preocupação em produzir, competir, vencer e mostrar resultados. Tanta gente cercada de pessoas, mas se sentindo sozinha. Tanta gente com vontade de participar, mas com medo de não ser boa o bastante.
Por isso, aquele treino de câmbio me pareceu quase revolucionário. Um lugar em que ninguém precisa chegar pronto. Pode chegar como é, aprender com os outros, errar, acertar e descobrir que sua presença importa.
Ana me ajudou a enxergar isso.
Porque, no fim das contas, a bola é uma desculpa muito boa para juntar gente.
E a bicicleta me lembrou que nunca é tarde para sentir aquele friozinho bom de fazer alguma coisa pela primeira vez.
Hoje é quarta-feira. Estou voltando para Brasília.
Ana acordou às quatro e meia da manhã. Ia correr, mas resolveu ficar mais um bocadinho. Esse gesto, tão simples, veio comigo. No meio de uma vida que começa cedo e não dá trégua, ela escolheu ficar mais alguns minutos ao meu lado.
Às cinco e meia, já estava na Ceasa, fazendo as compras do Bar da Buchada. E, lá pelas quatro da tarde, ainda deverá estar no treino do Cabo Branco.
É assim essa mulher. Apatia e preguiça parecem palavras que não encontraram endereço nela. Ana tem sede de viver e fome de prazer. Prazer de experimentar, aprender, encontrar gente e descobrir o que ainda pode fazer pela primeira vez.
Estou voltando, mas levo comigo essas cenas: a mulher de capacete, a jogadora estreante, a dona de restaurante que madruga na Ceasa e a companheira que, com o dia inteiro pela frente, escolheu ficar mais um bocadinho comigo.
E você, minha gente, quando foi a última vez que saiu de casa para fazer alguma coisa pela primeira vez?
Não espere saber tudo para começar. Não espere sobrar tempo, desaparecer o medo ou chegar a idade certa. A vida não manda convite. É a gente que abre a porta. Procure um grupo de caminhada, um time de câmbio, uma aula de dança, uma roda de conversa. E, se chegar sem saber, melhor ainda: alguém vai ter o prazer de lhe ensinar.
E, se alguém lhe disser que certas brincadeiras já não são para a sua idade, lembre de Ana, com a língua de fora, o capacete na cabeça e aquele sorriso de quem acabou de aprontar mais uma.
O mundo já tem gente demais ensinando os outros a parar.
Que nunca nos falte coragem para começar, curiosidade para descobrir e esse jeito moleque de continuar ocupando a vida com alegria.


















