Era começo da tarde de uma sexta feira qualquer dessas que Brasília inventa para misturar céu azul, vento seco e coração ansioso. Eu estava dentro do carro, estacionado na rua em frente à ANABB, me preparando para entrar no auditório onde, dali a pouco, falaria sobre a arte de florescer no deserto. Florescer no asfalto. Florescer, apesar dos pesares.
Confesso que fiquei ali alguns minutos olhando para o volante, pensando no que poderia dizer àquelas pessoas.
Que sementes eu conseguiria lançar?
Será que me escutariam de verdade?
Será que estariam apenas esperando a palestra terminar para voltar à correria do dia?
Será que alguma palavra minha conseguiria tocar uma tristeza escondida, uma solidão silenciosa, uma esperança quase desistindo dentro de alguém?
No banco de trás do carro estavam as bandeirinhas de São João que eu havia levado para a dinâmica da palestra. Pequenas. Coloridas. Simples. Dessas que muita gente acha apenas decoração de festa junina.
Mas eu não via ali apenas papel de seda.
Eu via símbolos.
Via presença.
Via afeto.
Via pertencimento.
Enquanto respirava fundo antes de entrar, lembrei das bandeirolas tibetanas penduradas nos cumes gelados da Cordilheira do Himalaia. Símbolos de paz e compaixão. Diz a tradição que os mantras nelas inscritos purificam o ar e espalham bênçãos de saúde, prosperidade e harmonia para todos os seres. Como se saudassem os aracatis, os bons ventos da existência, soprando esperança sobre os caminhos humanos.
Conta-se também que quem sobe os montes costuma deixar ali um tecido trazido de longe, preso aos varais do alto da montanha, como celebração da travessia vencida. Uma espécie de testemunho silencioso de que foi possível chegar até ali.
E aqueles lenços tremulando ao vento acabam servindo de estímulo para outros caminhantes que, ainda muito distantes, olham para o alto e enxergam as bandeirinhas dançando contra o céu.
Como quem diz:
“Falta pouco.
Você consegue.
Caminhe só mais um bocadinho.
O alto da montanha já está lhe esperando.”
E pensei:
No fundo, nossas bandeirinhas de São João também fazem isso.
Abrem espaço para o “festar” em nossas jornadas tão exaustivas.
Anunciam a fartura das comidas de milho.
Anunciam as danças, os folguedos juninos e os reencontros em volta da família e amigos.
Anunciam o congraçamento humano.
Anunciam que ninguém nasceu para viver isolado no próprio escuro.
Elas tremulam saudando a vida.
Anunciam que alguém importa.
Que alguém foi amado.
Que alguém deixou perfume na travessia do nosso existir.
Peguei o pacote de bandeirinhas, desci do carro e entrei no auditório.
A palestra começou.
E, aos poucos, aquela metáfora foi criando asas.
Falei para eles que a saúde mental não é um prédio de concreto armado, frio e inabalável. Saúde mental é mais parecida com um varal ao vento. Flexível. Vivo. Sensível. Sustentado por fios invisíveis de afeto.
Disse que nossas bandeirinhas emocionais são as pessoas pelas quais vale a pena continuar caminhando.
Aquelas que nos apoiam.
Que torcem por nós.
Que sentem nossa falta.
Que nos reconhecem.
Que nos acolhem.
Que seguram uma ponta da vida quando nossos braços cansam.
Falei que ninguém floresce sozinho no deserto.
Nem no sertão.
Nem no asfalto.
Nem dentro da própria alma.
E então entreguei as bandeirinhas.
Pedi que cada pessoa escrevesse nelas, quando chegassem em casa, nomes de pessoas especiais em seu viver.
Nomes de quem faz o coração continuar acreditando.
Nomes de quem ainda colore o céu da existência mesmo em tempos difíceis.
Foi bonito de ver.
Homens e mulheres segurando aquelas pequenas bandeiras coloridas como quem segura um pedaço delicado da própria alma.
Alguns sorrindo.
Outros emocionados.
Alguns silenciosos, talvez porque há tempos ninguém lhes perguntava quem ainda habitava o território afetivo de seus corações.
No final, cada um levou sua bandeirinha para casa.
Não apenas um pedaço de papel.
Mas um lembrete.
Um lembrete de que saúde mental também depende dos nomes que tremulam no varal afetivo da nossa existência.
Saí dali feliz.
Muito feliz.
Porque percebi que, às vezes, uma palestra não muda o mundo inteiro.
Mas pode ajudar alguém a não desistir do próprio mundo.
E isso já é milagre suficiente para uma sexta feira qualquer.
Talvez esteja aí uma bonita tarefa para a nossa longevidade.
Em vez de apenas contar remédios, exames, boletos, perdas e dores, quem sabe possamos voltar a contar afetos.
Quem sabe ainda dê tempo de criar um varal dentro da alma.
Um varal de gratidões.
De presenças.
De nomes que sustentam nosso coração nos dias de ventania.
Pegue também suas bandeirinhas.
Faça delas um pequeno ritual de humanidade.
Escreva nomes.
Reconheça pessoas.
Agradeça existências.
Reate laços.
Perdoe distâncias.
Diga que ama enquanto ainda há tempo de ouvir resposta.
Tal qual as bandeirolas tibetanas balançando nos cumes das montanhas, e as bandeirinhas de São João colorindo nossas ruas, talvez nossa saúde emocional também dependa dessa capacidade de deixar o amor tremular ao vento.
Porque envelhecer bem não é apenas acumular anos.
É continuar tendo por quem balançar bandeiras dentro do peito.
É ainda conseguir celebrar a chegada de alguém.
Sentir saudade.
Cuidar.
Reconhecer.
Abraçar.
Ser abrigo.
Ser lembrança boa na memória de alguém.
Há gente envelhecendo cercada de coisas e vazia de vínculos.
E há gente simples, sentada numa cadeira de balanço, carregando uma verdadeira quermesse afetiva dentro do coração.
No final das contas, talvez felicidade seja isso:
Ter um céu interior cheio de bandeirinhas tremulando.
E saber que, em algum lugar da vida, também existe uma delas dançando ao vento com o seu nome escrito nela.



















