Os Gerontolescentes. (Autor Ricardo de Faria Barros)


No tempo da internet das coisas também existem as febres, as febres digitais.
A da hora é o envelhecimento de fotos, quando um aplicativo projeta como será a pessoa, anos luz à frente.
E as reações são de toda ordem quando acessam a imagem que o tal do FaceApp produz. Umas pessoas ficam confortáveis, outras incomodadas, outras ainda pregam peças com os amigos tirando onda das rogas deles.

Umas até ficam tristes, ao se perceberem diferentes.  Tadinhas, sabem nada da vida!

Brincadeiras a parte, o que se abstrai da leitura dos comentários, tanto no Instagran quanto no Face, é  um estranhamento ao novo fenômeno da velhice, reforçando antigos esterótipos do ser velho.  Como se isto representasse o que vem ocorrendo no mundo todo, no que chamamos de revolução da longevidade, ou a gerotonlescência.

E não representa. Ufa!

Não tive a menor curiosidade de olhar para mim no futuro. Quero chegar lá como sou agora, e do ponto de vista de meus valores. Quanto à beleza física, de que lugar ela vai ser avaliada mesmo? E por quem? E com base em que padrão? O da indústria da beleza, da mídia que vende formas aceitáveis, ou dos corpos politicamente correto? Estou fora.

Se quanto às rugas biológicas não se pode fazer muita coisa, na luta implacável da pele contra o Senhor das Horas, o Tempo.  Mesmo muitos se esforçando, um estica dali, estica daqui, um botox aqui, um creminho ali, uma massagem, uma alimentação adequada, um cuidado com o sol...e por aí vai. Quanto as rugas emocionais pode-se fazer mutia coisa.

Prefiro me tornar um velhote todo enrugado, na face, mas com a pele interior lisinha, qual bunda de bebê.
De que adianta tanto esforço em manter a pele exterior jovem, quando a interior decai em intrigas, invejas, mágoas, falta de perdão, reclamações, rabugices, pessimismo, desesperança e chatice?

Inevitavelmente o tempo deixará em nós suas marcas evolutivas. Não só em nós, mas em todos os seres vivos. E, por mais esticada que nossa pele esteja, outros atributos denunciarão nossa idade.

E qual o problema?

Pelo que li, em alguns posts, parece que as pessoas temem a velhice, qual temem a morte.

Não sabem elas que este conceito mudou completamente. Não há mais uma cultura de "descer as escadas da vida para acessar os porões da morte", após passar dos 50.
Muito pelo contrário. A ideia agora é como se preparar melhor para chegar aos 100, no mínimo.

E, quanto mais cedo comece esta preparaão, melhor será.

Ela envolve o acúmulo de cinco capitais. A boa notícia é que se você tiver três deles, de forma bem consistente e intensa, já terá uma envelhescência maravilhosa. Os capitais da longevidade são:

1. Biológico - Cuidados com o corpo, promoção de uma cultura de fomento à saúde.

2. Financeiro - Adequação do estilo de vida á renda, garantindo o acesso aos alimentos, moradia, medicamentos e lazer.

3. Social - Participação e cultivo de laços e vínculos com os mais diversos grupos sociais: religiosos, esportivos, culturais...

4. Humano - Postura de "aprendente", não parar de desenvolver habildiades, conhecimentos e atitudes. Continuar conhecendo e tendo curiosidade e espanto em descobri algo novo.

5. Capital Psicológico Positivo - Formado pela combinação sinérgica de quatro competências sócio-emocionais: a esperança, o otimismo, a resiliência e a autoeficácia (crença de que com os recursos disponíveis irá entregar algum resultado).

As pesquisas com longevos felizes (The Grant Study, Okinawa, Rosseto, Louisiana)  mostraram que a ativação de apenas três capitais, dos relatados acima, com o seu investimento na vida longeva, torna a vida mais plena e feliz.
Por exemplo, alguns longevos que enfrentam déficits na saúde, mas mantém um forte espírito de vinculação social, esperança, e ainda continuam curiosos em aprender algo, compensam o pouco capital biológico, alterando a modulação da percepção geral do estado de ânimo, para a de um bem-estar subjetivo, apesar das doenças e limitações físicas que enfrenta.

Assim como verificado junto a longevos com pouco recursos financeiros, ou vivendo em condições de risco social. Mais uma vez, quando os outros capitais estão presentes, pelo menos três deles, o enfrentamento da situação financeira não compromete a saúde emocional.

Então, eu resumiria que o segredo de uma pele lisinha interior é manter a cabeça ocupada e o coração aquecido.  Vida ativa, participação social, vontade de aprender coisas novas, são a fonte da vitalidade.

Todo mundo conhece alguém com mais de 80, ou não?  Daqui a alguns anos você conhecerá alguém com 100, em cada esquina.

Então, a ideia que a placa de estacionamento reservado passa, nas vagas de idosos, como uma pessoa andando de bengala, tipo um "encostado da vida", é cada vez menos representativa do que vem ocorrendo, mundo afora.

Os gerotonlescentes estão fazendo com suas bengalas verdadeiros cajados.

E, eles não têm vergonha de seus rostos, amassados pelas prensas do tempo. Pelo contrário, consideram-nos troféus. Orgulhosos e classudos, estes "novos velhos" estão participando ativamente da vida, estudando, namorando, conhecendo novos lugares em suas próprias cidades, abrindo negócios, e sem medo de ser feliz, nem do espelho - até o pior deles, o que se revela no olhar estereotipados de pessoas que se acham dentro de uma piscina de formol.

Obs: O termo gerontolescente, ou gerontolescência, foi criado pelo geriatra, e especialista nas questões da revolução da longevidade, o médico brasileiro Alexandre Kalache.

Um dia difícil (Autor Ricardo de Faria Barros)

Todo mundo tem aquele dia no qual uma sucessão de fatos negativos ocorrem, transformando-o em algo asfixiante e pesado.
Ontem vivi um destes dias.  Tudo começou ao ir buscar o notebook do JG, na assistência técnica, após receber ligação de que o mesmo estava consertado.  Ao recebê-lo, constatamos um sério equívoco. O micro consertado e nos entregue não era o nosso. Eles cometeram um erro. E, nos garantiram que iriam encontrar com quem estava o nosso.
Saindo dali, recebi uma notificação de que minha empresa, a Ânimo, tinha entrada na Dívida Ativa da União, por algum recolhimento de imposto não efetivado. Pensei comigo, vou matar meu contador, ahh se vou! 
No caminho para a aula, resolvi cortar o cabelo e aparar a barba. Entre uma navalha e outra, acabei discutindo com a namorada, e por besteira. 
Chegando ao IBMEC, local que dou aula, recebo uma mensagem no WhatsApp, do tipo "comida de rabo individual - CRI", de minha mãe. Ocorre que não gostou de uma foto que postei no Insta e Face e me deu uma regulada.
Já era pelas 18hrs, os pensamentos negativos de um dia difícil se encaracolavam, grudavam e atormentavam meu ser.
Eles ficavam em loop, sendo ruminados em nuvens de pensamentos cíclicos e sufocantes: notebook-impostos-love-mãe-notebook-impostos-love-mãe-notebook-impostos-love-mãe.
Então resolvi intervir.
Aprendi, com os fundamentos da psicologia positiva, que precisamos fazer intervenções em nosso processamento cerebral, na forma como as emoções e pensamentos operaram.
Então, como ainda faltava uma hora antes da aula, levei-me para distrair o meu pensar, afastando o fixar no pesar.
Isto é uma arte. Chamo de cuidados paliativos emocionais.  Eles não solucionam o problema. Mas, não agravam a ferida. Por isso são paliativos. Como se botássemos um esparadrapo numa ferida, para que ela não infecione e complique mais ainda.
Não resolverão o notebook e os impostos, pelo menos no momento. Mas, ajudarão a perceber outras coisas que podem existir ao lado dos problemas. Tirando o olhar deles, e reenergizando os ser.
Saí para caminhar, e logo na calçada percebi um belo pôr do sol que tingia tudo de vermelho, daqueles que só no DF tem.
Uaaauuu, que lindo.
Resolvi caminhar descendo a avenida, dobrando a esquerda, num trajeto diferente do que sempre faço.
Logo notei uma árvore, que tinha uma florada diferente. Uma flor laranja, avermelhada, que não conhecia ainda. Uma bela flor.
Passando à frente do jornal Correio Braziliense, no Setor de Indústrias Gráficas, resolvi parar numa barraquinha na calçada, e pedir um café com tapioca.
Descobri que a dona era chamada por todos de Tia. E ela foi logo se desculpando dizendo que levaria um pouco mais de tempo, pois estava sozinha.
E uma lágrima desceu pelas suas faces.
Perguntei-lhe o que ocorrera.
Então, ela me contou que nos últimos meses perdeu os dois ajudantes, o marido e o filho.
O marido, por se sentir enlutado em casa e sem condições de trabalhar.
O filho, por ter falecido.
Ele tinha 27 anos, era seu braço direito, o marido o esquerdo.
Faleceu de morte súbita, quando estavam na igreja. Disse-me que ele teve um "treco no coração".
Ela contou que não pode se deixar morrer também. Que está vindo trabalhar à força. Mas que precisa reerguer o marido, e continuar tocando a vida e o pequeno negócio deles.
Que, entre um pedido e outro, no estilo Delivery, quem ia deixar era o filho.
O fato havia ocorrido há 5 meses. E a dor ainda estava insuportável.  Contou-me que precisava falar com um psicólogo, mas não tinha tempo nem recursos para tal.
Então, coloquei-me a disposição e trocamos alguns dedos de prosa.
Terapêutica prosa, para ambos.
As pessoas queriam que ela não chorasse, não falasse mais do filho, não rememorasse. Queriam que ela fosse forte, virasse a página, e não a consideravam em sua dor e luto.
Eles não faziam por mal, queriam ajudá-la, mas ela se sentia pior ainda. Culpada por sofrer e ficar triste.
Então, disse-lhe que ela tinha direito ao luto. Ao sofrer, ao chorar, ao relembrar do filho e contar do quanto ele fazia-lhe falta.
Tia me disse que todos os dias ainda louvava a Deus por tudo. E que nos domingos visitava hospitais, levando a palavra. Que ela tinha acolhido a vontade Dele, em levar o filho dela, embora algumas vezes brigasse com Ele, disto ter ocorrido tão cedo.
Que santa mulher!
Sua meta de vida, no momento, era cuidar do marido, para que ele não adoeça de tristeza, ou adentre no álcool, como fuga da dor.
Sem nem perceber o tempo, despedi-me correndo, prometendo voltar na próxima semana, para mais um café terapêutico.  E pedi que ela convença o marido a tomar um café comigo.
Ela me abraçou, agradecendo a escuta, balbuciando que finalmente alguém tinha entendido a sua dor.
Achamos que temos problemas, que eles são insolúveis.  Até nos deparar com pessoas vivendo situações, para as quais não há dia após dia que possa resolvê-las, por sua característica terminativa.

Precisamos aprender a conter o rio de pensamentos negativos que ficam rodando em nosso ser. O que não significa se tornar um alienado, esquecer os problemas, ou não enfrentá-los.

Significa possibilitar um espaço de refrigério do ser, um refresco para alma, seja vendo um sol que se põe, uma flor que se abre, ou acolhendo a dor de uma mãe que enterrou seu filho - servindo!

Quando voltamos destes "passeios existenciais" estaremos mais fortes para enfrentar as situações, encontrar saídas inovadoras, e ser mais engajados em fazer acontecer o que de fato queremos que ocorra.

O desânimo nos deixa impotentes, o medo nos imobiliza, e o excesso de estresse nos tira o vigor.  Então, precisamos deste termômetro interior  pra saber a hora em que precisamos intervir, em nós mesmos, para não sermos tolhidos pelo pessimismo que rouba o que de mais sagrado existe no ser humano, a esperança!




Aos que Semeiam Esperança! (Por Ricardo de Faria Barros)

Era uma vez um povo que nas noites frias reunia-se ao redor das fogueiras,  feitas com os restos de  de suas vidas.
Muito ficavam horas ali, perfilados, sem murmurarem queixumes, sem falarem do tempo, sem comentarem sobre o último que partiu, ou repararem os que por ali chegavam.
Apenas se aqueciam, deixando seu ser perambular, entre as chamas brincantes que teimavam em  escapar da sina de queimar junto.
Numa grande panela, um caldeirão de sopa coletiva e rala fervia. Feita com as com raras e minguadas batatas, retiradas do que restou das plantações, baús e escombros.
Então, dirigiam-se até ela, enchiam seus pratos, sorviam aquele alimento, sem se falarem, pois não mais se reconheciam como iguais.
Eles viviam naquela rotina há meses, até que numa noite algo ocorreu.
Havia uma pessoa diferente, arrodeando o fogo, logo notada por todos.
Perceberam que ela não era dali, era forasteira.
Tinha um semblante altivo, embora esquálido pela fome. E, ela fazia coisas diferentes deles. Vez por outra ela botava uma lenha no fogo, para não deixar apagar. E ia em direção à panela mexer, atitude que muitos reprovavam, em expressões faciais, já que não mais se falavam.
Ora, para que mexer uma panela de sopa, feita com dez litros de água e uma única batata?
Não havia lógica.
Na outra noite, não satisfeita em atiçar o fogo e mexer o caldeirão, Carmina começou a cantar uma velha canção, para desaprovação de muitos.
Os pensamentos deles trocavam ideia entre si, no silêncio dos porões espirituais.
- Como pode esta senhora cantar, diante de tudo que estamos passando? Pensou o mais alto do grupo.
Ao que o outro pensamento, em diálogos espirituais, endossou dizendo.
- Só pode ser maluca, é preciso que tenhamos cuidado com ela. Poderá inclusive botar algo na sopa. é bom prestar atenção nela.
Contudo, entre os presentes alguns começaram a bater o pés, no ritmo da canção. Embora timidamente. Outros assumiram a tarefa de botar a lenha no fogo. Outros ainda, começaram a revezarem-se na mexida da sopa, que até passou a lançar delicioso perfume, daqueles que atiçam e dão sabor à fome.
Uma jovem órfã se aproximou de Carmina. Ela se chamava Maria, e passou a cantar baixinho com ela.
Ao voltarem para casa, as duas iam juntas parte do caminho, até se despedirem.
Passou uma semana e a rotina era sempre a mesma, fogo sendo atiçado até tarde, caldeirão mexido, e canções sendo cantadas pela Carmina, sempre acompanhada por algumas batidas de pés no chão.
Mas, eis que Carmina não foi naquela noite.
Eles se entreolharam, perguntando com seus toscos botões o que teria ocorrido.
Não sabiam em qual casa ela morava, ou quem ela era, pois nunca se importaram em perguntar.
E se sentiram culpados por isso.
Perguntaram então à Maria, mas ela falou que quando voltavam juntas, Carmina a deixava primeiro, e seguia caminho.
Fez um silêncio, daqueles que se dá para ouvir o crepitar das chamas.
De repente, um dos presentes, timidamente, começa a entoar a canção preferida da Carmina, ao que todos o acompanharam.
Outros, logo se animaram e assumiram o atiçar do fogo, e uns outros revezavam na mexida da panela.
Eles já tinham cantado por diversas vezes, e as labaredas do fogo estavam alta, quando ao longe um vulto aparece, trazendo algo nas mãos.
Era Carmina, e trazia uma placa com a inscrição: "Casa de Maria".
Todos olharam para ela, desconcertados, sem entenderem o gesto.
Então, ela fez sinal para que o grupo a acompanhasse. Após andarem por bairros destruídos,  chegaram a um resto de casa, na qual Carmina ficou na calçada a placa que fez.
Disse que a noite seria encerrada com Maria contando sobre a sua casa, seu mundo, sua família, amigos, conquistas, derrotas, medos, coragens, sonhos e desejos que ainda tinha e alguma coisa da dimensão da "estranhice" que ela gostava, colecionava, fazia.
E a noite seguiu pela madrugada adentro. Logo as pessoas foram buscar algum resto de fogueira, feita com escombros das casas destruídas, e se aqueciam enquanto sorviam a vida da Maria.
Ao raiar do dia, o mais alto do grupo, e outrora o mais resistente, disse que naquela noite gostaria de botar uma placa no que restou da casa dele, e que gostaria de contar sua história aos presentes.
E assim se sucedeu, dia à dia, pessoa à pessoa.
Ao acabarem as narrativas, Carmina propôs um mutirão para ajudar, um a um, a reconstruir o que restou de suas casas. E assim foi feito.
Existe um punhado de gente que inspira outros ao seu melhor, como Carmina Burana, cujo nome nesta ficção foi retirado de uma famosa ópera.
Existe gente que não desanima, mesmo que só possa, diante de uma situação limite, atiçar o fogo.
Ou mexer a panela. Ou ainda, cantarolar uma canção daquelas de aquecer corações cansados.
Este povo do bem, consegue devolver identidades perdidas, atiçar ânimos molengas, revitalizar práticas virtuosas esquecidas. Mesmo quando todos, tudo e a própria situação represente para eles uma barreira, quase que intransponível.
Mesmo assim, eles continuam, perseveram, e caso nada possam fazer de mais significativo, ainda assim fomentam o espaço da fala aos aflitos, para que estes possam se reconhecer nelas, recriando identidades, reinicializando-se em aberturas às novas possibilidades, nem que seja a de mexer uma panela, de uma sopa rala, ou a de não deixar um fogo apagar!
No limite, um dos bens mais preciosos que podemos conceder aos outros é o direito à fala, ao compartilhar de sua jornada, em espaços fecundos de escuta institucional de narrativas eivadas de subjetividades e valor.
Ninguém sairá igual dessa roda de conversa, sairá mais forte e esperançoso!
Obrigado pelo carinho dos reconhecimentos.
Às vezes, quando se nos faltarem os ventos, ainda poderemos ousar remar. Os remos podem ser uma vírgula: Aos que semeiam, esperança!

Termômetro Emocional (Autor Ricardo de Faria Barros)



Um dos indicativos de que as coisas não vão bem com o organismo é a febre. Quem já criou crianças sabe do aperreio de uma febre alta. E tome banho frio, tome remédio, tome preocupação que cavalga noite adentro. O termômetro indica como as coisas estão se passando dentro do organismo.  Já se passaram uns bons 400 anos da invenção do termômetro, feita por Galileo Galilei (1592), e a descoberta de seu uso médico, feita pelo fisiologista Sanctorius de Pádua, em 1612.  Quantas vidas se salvaram graças a este aparelhinho tão simples?
Seria muito bom se algo do tipo fosse descoberto para medir o grau de nossas emoções.
Já imaginaram se houvesse um termômetro que nos alertasse sobre a nossa temperatura emocional interna?
Os marcadores deste termômetro poderiam ser estes: Desanimado -> Desmotivado -> Apático -> Ressentido -> Desiludido -> Desamparado -> Prostrado -> Culpado -> Frustrado -> Chateado -> Triste -> Irado  -> Decepcionado -> Ácido -> Descrente -> Ranzinza -> Crítico -> Pessimista  
Para cada um dos humores acima, haveria um nível aceitável e um nível doentio, que recomendaria uma intervenção imediata, para controlar o processo de infecção da alma.
Aí, poderíamos parar o que estávamos fazendo, e entrando em contato conosco mesmos, escanear nossas emoções, pensamentos e acontecimentos que provocaram este elevar da temperatura emocional.  Uma vez identificada a fonte de nossa febre emocional, poderíamos sobre ela atuar. Em processos de autoconhecimento, autoconsciência e autonomia do ser.
Em muitas das situações, o que elevou esta temperatura foi o foco perceptivo seletivo negativo do que nos ocorreu.  Expressos em narrativas cheias de coisas ruins, filtradas de forma doentia da realidade.
Imagine a seguinte cena:
Quando começou a narrar a semana o Sr. Amaro (60), visivelmente chateado, disse que a tinha perdido, pois ficara de “molho” em casa. Contou que houvera comido algo que lhe fez mal, e foi parar numa emergência de hospital que atendia seu plano de saúde.  Após triagem, colocaram-no numa enfermaria, para tomar soro e fazer exames.  Umas longas três horas depois, o médico plantonista deu-lhe alta, dizendo que a infecção intestinal ainda estava no início, e que ele poderia se tratar em casa, tomando antibiótico por 7 dias, e “nada de álcool e comidas gordurosas” durante o tratamento, recomendou-lhe o doutor. Amaro falou que ficou triste, pois perdeu de aproveitar a festa do batizado da sobrinha, regada a muita bebida e churrasco.
Se colocássemos o termômetro em Amaro o que revelaria? Quais emoções negativas estão com os valores alterados, e para cima, causando-lhe infelicidade?
Imagine agora que o Amaro aprendeu a identificar a subida da temperatura emocional e passou a intervir nela, alterando a polaridade das cenas que são captadas na realidade – do negativo para o positivo.  Ele vai contar a semana, abaixo, com a polaridade positiva:
Quando começou a narrar a semana o Sr. Amaro (60), visivelmente em paz, disse que a tinha ganhado, pois ficara de “boa” em casa, convivendo mais intensamente com a família. Contou que houvera comido algo que lhe fez mal, e foi parar numa emergência de hospital que felizmente atendia seu plano de saúde.  Seu atendimento foi perfeito, o reidrataram, pediram exames, e todo mundo estava querendo que ele logo melhorasse.  E que pouco tempo depois, umas 3 horas, o médico deu-lhe alta. Já que graças a Deus a infecção intestinal não evoluiu, podendo ser debelada em casa mesmo. E que havia uma boa opção de antibiótico pra o tipo de bichinho que apareceu na cultura.  Ele seria o motorista da vez, na festa do batizado da sobrinha, liberando a esposa para tomar uns champagne, coisa que ele nunca fazia, pois ela era quem voltava dirigindo. E que assumiria a churrasqueira, para colocar legumes e frutas para grelhar, já que não podia comer nada gorduroso, enquanto se recuperava do piriri.
Percebem a temperatura do segundo Amaro?
A situação e realidade são as mesmas.  O que mudou?
A narrativa, a leitura que ele vai fazendo, minuto a minuto, sobre tudo que lhe ocorre. Mudou a polaridade da alma, de negativa, para positiva. Vejamos:
Na segunda narrativa, Amaro extrai e colore o seu existir com aspectos positivos. Ele vai preenchendo o que poderia ser negativo, com fortes doses de gratidão, bondade, compaixão e acolhimento.
Tem que ficar em casa de repouso? Então ele se propôs a melhorar a intimidade no lar.
Não pode comer carnes gordurosas? Então ele vai grelhar frutas e legumes.
Não pode tomar álcool? Então, ele será o motorista da vez, liberando a esposa para os brindes.
Adoeceu?  Mas pelo menos tem plano de saúde, foi prontamente atendido, não ficou internado, e existe medicação para debelar a infecção, ele pode comprá-la.
É preciso fazer este escaneamento de nossos pensamentos e emoções toda as horas.
Para identificar quando estamos ficando com febre emocional. Quanto de nossa leitura da realidade está sendo contaminada apenas pela polaridade negativa.
Com narrativas da mesma repletas de ódio, desejo de vingança, medo, desconfiança, pessimismo e rabugice. 
É preciso aprender a nos conhecer, a nos ler por inteiro, identificando o que nos ocorre, quais vulcões estão querendo entrar em ebulição, quais áreas estão em polvorosa, para sobre elas atuar - mudando a ênfase e a valorização que lhes estamos dando.
Ser mais feliz passa, necessariamente, pela reescrita de nossas narrativas, particularmente sobre aquilo que saiu fora do planejado, controle ou nos causou algum tipo de aborrecimento.
Assim como dar um banho frio é uma dica que contribui em baixar a febre, eu tenho umas que melhoram a temperatura emocional positiva. Use-as sem moderação.

          1. Cultive a gratidão sobre tudo que lhe ocorre.
2. Seja menos perfeccionista e exigente consigo mesmo.
3. Aprenda que o maior perdão que a vida lhe pede, talvez seja para consigo mesmo.
4. Seja mais empático às necessidades dos outros.
5. Seja mais generoso e menos individualista.
6. Pare de achar que o mundo gira em torno de você.
7. Tenha menos expectativa sobre os outros.
8. Mude a si mesmo, diante de uma situação ruim e imutável.
9. Acolha algumas situações e vire a página. No mínimo, desenvolverão aprendizados.
10. Para cada ruminação de coisas chatas pelas quais passa, traga à mente coisas boas, legais e virtuosas que ainda lhes resta. Muitas delas, esquecidas, desvalorizadas, e à margem de teu viver.



Cuidadores de Pessoas Sem Necessidades Especiais (Autor Ricardo de Faria Barros)

O motivador desta crônica foi o relato de Sr. Valdecir (76 anos).  De quando na sua casa cheguei, no momento em que regava seu jardim, em frente à sua casa (ver foto).
Após saudá-lo, fomos tomar um café na cozinha.
Hoje ele estava meio agitado. Contou-me um monte de coisas que andam preocupando a cabeça dele, tirando-lhe o sono, a vontade de comer e que o deixam infeliz: "Ricardo, ando com a vida cheia de tubulações (atribulações)...".
Todas elas, girando em torno de algumas situações-problema de pessoas da família. E, nenhuma delas, dizendo respeito exclusivamente a ele.  Então, contei-lhe a história de Dona Januária, a que embasará esta crônica, veja a seguir. 

Dona Januária, aparentando um certo nervosismo, lentamente ergueu as mãos, inscrevendo-se para compartilhar sua resposta à minha pergunta: "Qual a receita para uma vida feliz na envelhescência?"

Lentamente, um tanto vacilante, ela dirigiu-se à frente. Mas, ao tomar o microfone, já era outra pessoa.  Serena e confiante, ela foi irradiando luz em forma de letrinhas debulhadas ao vento.

Contou-nos que há 15 anos tinha sofrido um AVC, cuja recuperação de parte dos movimentos foi quase um milagre.

E que uma enfermeira de UTI ensinou-lhe uma receita para diminuir o risco de vir a ter um outro:

"Dona Januária, a senhora precisa parar de se preocupar tanto com os outros. Esvazie sua cabeça dos problemas dos filhos, noras, genros, netos e demais familiares, para que dentro dela possa caber sua própria vida. Deixe de viver sua vida pela ida dos outros, eles já estão crescidos."

Uauuu!!!

Ela falava com uma paz que contagiava a todos nós. E, sem rancor, sem mágoa, ou qualquer falsidade, ela disse que fez um propósito de vida, ali naquela UTI, de parar de deixar que a vida dela fosse a expressão da vida dos outros, nas suas alegrias, frustrações, e situações que lhes causava alguma dose de aflição.  Finalmente, aos 62, ela enxergou que passava todo o dia gravitando na vida de todos da família e amigos, e que não pensava nela mesma.

Se um filho tinha algum problemas aquilo era suficiente para acabar com toda a graça de seu dia.
Se um filho pedia para usar o cartão de crédito dela, e não pagava, ela não tinha coragem de cobrá-lo, provando-se de suas poucas economias para socorrer o filho.
Que, tempo depois, o filho comprava mais coisas, ou ia se divertir com os amigos, gastando tudo outra vez, e recorrendo mais uma vez a ela.
Que alguns chegavam na casa - sem combinarem, e só iam embora no domingo, tirando a liberdade dela de também fazer o que queria, para aquele final de semana. E fazendo-a ter que correr atrás de coisas para alimentá-los, corroendo a pouca renda mensal que tinha.  

Bem emocionada, com a voz embargada, ela contou ainda que descobriu que não tinha a vida dela mesma, que viúva que era,  poderia viajar, passear com as amigas da igreja, ou aprender algo novo de que gostasse de fazer.

Ela virou a provedora dos filhos, a dona da pensão, a cuidadora de jovens-velhos que não querem mais sair de casa, pela comodidade de que a casa dos pais lhes oferecem.

Encerrou dizendo que há uns dez anos passou a colocar barreiras, exigindo que respeitassem o espaço dela, suas economias, sua privacidade e desejos, e que nunca mais fez a rota de telefonemas diários que fazia antes, ligando pra umas oito pessoas da família, para absorver deles as preocupações, ou responsabilidades, que cabe a eles mesmos resolverem, ou com elas lidarem.

Fiquei tão mexido com aquele depoimento que só consegui expressá-lo nesta crônica, meses depois,  no dia de hoje.

Sou pai de quatro filhos e em breve terei neto. E não quero isto para mim. Não quero gravitar minha vida em função da vida deles. Quero ser que nem Dona Januária, e não preciso de um AVC para sacar que é chegada a minha hora de cuidar de mim.
O que não significa que não lhes amem, de montão, ou que não esteja disposto a ser um apoio, quando de mim necessitarem.

Mas, não podemos fazer isto com nossa vida. Viver nossa vida em função da vida dos outros. Ser permeável a todo problema que ocorre na vida deles, e que serão eles, com autonomia e responsabilidade quem deverá resolvê-los e beber daquele cálice.

Tenho visto um monte de jovens-velhos que não saem mais da casa de seus pais, e ainda exigem que seus pais sejam uma espécie de cuidadores deles. Roupa lavada, comida pronta, e - eventualmente, socorra-nos com empréstimos e compras no cartão - nunca devidamente ressarcidas.

Os "Novos Velhos" - expressão que caracteriza um movimento pela busca da qualidade de vida e plenitude na longevidade,  não podem renunciar à sua própria existência realizada, condicionando-a à existência realizada dos outros.

Isto não é empatia, isto é co-dependência afetiva, e do tipo asfixiante.  "Dai a César o que é de César". Pois, este negócio de achar ocupação na vida se ocupando da vida dos outros é muito pobre, enquanto realização pessoal na longevidade, esta vida é de "César". 
Sem falar nos aborrecimentos que podem causar, na própria dinâmica de vida dos outros, que passa a ser vigiada e cobrada, por esta pessoa que deixa de focar nas suas próprias necessidades e desejos, deslocando-os  para os outros.

Valeu Dona Januária, é preciso impor limites sobre todo aquele que quiser transferir sua própria vida para a nossa. 

Isto será educativo até para eles. E, fazendo assim, passaremos a perguntar-nos - com mais frequencia, o que de fato queremos para nós mesmos, do reino da plenitude, felicidade e satisfação.

Sem querer viver como cuidador familiar, de pessoas que não necessitam de cuidados especiais algum, só precisam assumir suas próprias escolhas, decisões e responsabilidades sobre a vida e o viver.


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