Ele desceu do carro. Me abraçou. Não foi o abraço de praxe, aquele de quem já está de saída com a cabeça em outro lugar. Foi um abraço que parou o tempo por um segundo, dos que a gente sente atravessar a roupa e chegar no peito. Fiquei ali, com a mão ainda sentindo o calor das costas dele, pensando: isso é raro. Isso precisa ser guardado.
Voltei para o carro com o coração oco. Não de tristeza, ou não só. Oco como uma casa depois que a visita foi embora e o silêncio ainda carrega o cheiro de quem esteve lá.
E foi voltando por esse silêncio que Brasília resolveu me mostrar coisas.
Um chão inteiro coberto de pétalas de ipê vermelho, cobrindo a calçada como se alguém tivesse decidido, de madrugada, forrar o caminho de quem ia passar triste. O cerrado incendiando o céu naquele tom que só ele tem, entre o vermelho e o queimado, como brasa que ainda respira. E gente, muita gente, carregando toalha e cadeira de camping para o Eixo Monumental, só para ver o sol se deitar. Ninguém ali estava resolvendo nada. Estavam só presentes. Estavam só olhando.
Isso tudo é do mesmo reino. Eu chamo de DCIG: delicadeza, carinho, interesse, gentileza. É o nome que dei, faz tempo, para uma língua que aprendi a falar antes de aprender que ela tinha nome. Aprendi na casa da minha mãe, em Campina Grande, onde afeto não pedia licença para existir. E é estranho, porque passei décadas dentro do mundo bancário, competitivo, de ego afiado como faca de cozinha, e essa língua não morreu em mim. Nem dois casamentos que não vingaram conseguiram me tirar dela. Tem coisa que a gente não escolhe abandonar. Só escolhe continuar pagando o preço de sustentar.
E o preço existe, sim. Tem dia de indiferença, de silêncio do outro lado, de gente que não devolve o mesmo tanto que a gente oferece. Mas hoje não foi dia de cobrança. Foi dia de colheita.
Porque enquanto eu guardava aquele abraço do JG, meu celular vibrou. Era minha mãe, lá longe, a dois mil e duzentos quilômetros daqui. Eu tinha perguntado se ela queria que eu resolvesse uma pizza pra ela jantar. Ela respondeu: quero a minha do tipo marguerita, e a da Maria, uma doce. Está certo? Obrigada pelo seu amor.
Fiquei olhando pra aquela frase um tempo enorme para uma frase tão pequena. Minha mãe, sentindo fome a quilômetros de distância, lembrando ainda de pedir a pizza de outra pessoa antes de pensar só em si. Isso não se ensina em sala de aula nenhuma. Isso se herda. Sou sentimental. Trago isso desde os tempos de infância e já não tenho vontade de pedir desculpas por isso. Um mundo apressado sempre vai achar estranhas as pessoas que param para olhar um chão coberto de ipês, ou um pôr do sol.Eu não estou fora do meu tempo. Apenas continuo acreditando que a vida acontece nesses pequenos instantes. Num abraço, na flor de ipê, em casais enamorados vendo um belo sol.
Mais tarde, olhei pelas câmeras da casa dela. Vi minha mãe comendo a pizza sozinha, do alto dos seus 87 anos, numa mesa grande demais para um prato só. E aquilo me cortou o coração. Ver de longe, por câmera, é um jeito cruel de estar perto: a gente vê o prato, vê a cadeira vazia do outro lado, mas não pode encostar a mão. É presença sem tato. Machuca justamente porque cuida.
Mas me corrigi ali mesmo, olhando a tela. Aquela casa não é solidão, é a sede de seu lar, de nosso lar. O filme inteiro da vida dela tem as plantas que ela rega toda manhã, tem as amigas, tem a arrecadação que ela toca para os que precisam mais do que ela, tem os médicos de confiança que atende o telefone pelo nome dela. Isso é rede. Isso é raiz. Uma mulher de 87 anos que ainda planta, ainda arrecada para outro, ainda confia em quem cuida dela, não está entregue ao modo de esperar a morte chegar que eu tanto recuso para mim. Ela também recusa, à moda dela, na escala do dia a dia dela.
O que doeu em mim, eu entendi depois, não foi achar que ela está desamparada. Foi que meu amor por ela quer ser mais espesso do que uma câmera permite. Quer ser mão, não pixel. E isso não tem solução tecnológica. Tem só o jeito antigo: telefonema, viagem, a pizza que virou ponte entre nós dois naquele domingo.
A gente vive numa época em que dá para "ver" alguém sem nunca chegar perto. Câmera, story, mensagem de bom dia automática. Tudo isso parece carinho, mas é só a embalagem dele. O carinho de verdade tem três ingredientes, e nenhum se compra pronto: Tempo, Atenção e Carinho. Eu chamo de TAC. Ele não cabe em notificação. Exige que alguém pare o que está fazendo e esteja ali, de corpo ou de voz, sem pressa de desligar.
Tenho minhas frustrações, minhas decepções, minhas mágoas, minhas desesperanças. Não vou fingir que não. Mas não dou comida pra elas antes de dormir. O que se rega, cresce, e eu não quero acordar amanhã colhendo mágoa que eu mesmo adubei à noite. Prefiro regar flor. Regar delicadeza, gentileza, interesse pelo outro, sem esperar nada de volta, só porque não saberia ser diferente. Não seria a minha essência.
Entrei no quarto do JG, ainda desarrumado, e senti sua presença amiga. Ele não é de falar muito, e o DCIG nem sempre precisa de muitas palavras. Às vezes, um simples estar ali, sem exigir nada, já é forma dela se manifestar. Como o chão florido de ipês. Como os jovens apaixonados que se programaram, num domingo, para ver o sol se pôr no cerrado da capital do meu país. Como uma mãe que, a dois mil e duzentos quilômetros, ainda manda mensagem de agradecimento por um prato de pizza.
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Às vezes me pergunto se estou fora do meu tempo, sentimental demais para um mundo que aprendeu a ter pressa até para sentir. Sou sentimental, sou mesmo, sempre fui, desde menino, e não vou pedir desculpa por isso. Mas hoje, vendo o cerrado pegar fogo de beleza e a cidade inteira parar para testemunhar isso, entendi uma coisa: não estou fora de estação. Só estou entre os poucos que ainda descem do trem para ver o sol se pôr, e que ainda atravessam a distância, quando dá, com mais do que uma câmera.




