"Eu quero a minha vida de volta" (Autor Ricardo de Faria Barros)


- Doutor, não poderei ir na sessão hoje. Acabei de sair do otorrino, estou arrasada, ele disse que na radiografia da face que levei, exame de uma sinusite que tive,  tem um "achado" radiológico  importante", e que ele precisará investigar, trata-se de uma mancha esbranquecida.

A tranquilizei, deixando em aberto a consulta, colocando-me à disposição para atendê-la a qualquer hora e dia que ela se sentisse mais confortável.
Meses depois ela me procurou, após uma bateria de exames e fechamento do diagnóstico de um câncer nos tecidos mole da face.
Começou a falar, e, entre soluços e silêncios, só dizia "eu quero a minha vida de volta".
Quem tem entre os amigos, ou família, alguém que já recebeu o diagnóstico de uma severa doença é testemunha do quão difícil é o enfrentamento deste momento de luto.
Então, pedi-lhe para contar uma história, ela meneou positivamente com a cabeça.
Contei-lhe que certo dia meu notebook, ao ligá-lo, mostrou uma mensagem dizendo que uma atualização crítica havia baixado nele e que eu precisava atualizá-lo, imediatamente.
Aceitei a atualização, e,  para minha surpresa, ela demorou um bom tempo, privando-me do que necessitaria fazer naquele momento.
No começo fiquei super chateado, querendo parar com aquilo. Mas, uma mensagem na tela azul fornecia o percentual de atualização que ia sendo processado. Aquilo me acalmava, mais em dados momentos eu entristecia, pois não saia dos 16%.  Quando quis desligá-lo á força, tirando a bateria, na esperança que ele não mais precisasse atualizar nada, uma mensagem aparece dizendo que mais ou menos assim:
" Acalme-se, vou desligar e me religar sozinho, até toda a carga ser efetivamente baixada no meu sistema operacional, num se aperrei não!".
O termo "Aperrear", no sentido do texto, significa: "tenha calma, isto passa, fique nervoso não!".
Minha cliente esboçou um olhar de quem pergunta: "o que este notebook tem comigo?"
Aí expliquei-lhe. Quando recebemos uma carga muito forte na vida, seja a notícia do desemprego, a morte de um ente querido, o fim de uma relação amorosa, ou o anuncio de uma doença grave, por exemplo, nosso sistema de processamento existencial se atualiza.
E, esta atualização é dolorosa, mas profundamente humana e necessária.
Precisamos passar por ela.  Durante esta etapa, de processamento da carga de dor, culpa, sofrimento e peso no coração, parece que nossa vida se desliga, em alguns momentos. Parece que nada mais faz sentido, as cores não brilham, os aromas não cheiram, as pessoas são distantes, e todas as luas cheias são más.
Nosso sistema de interpretar a vida está enlutado, e precisa de desligamentos para ir acomodando tudo que passou.
Mas, a cada retorno dele, numa manhã qualquer quando nos pegamos contemplando o céu azul novamente, percebemos que avançamos pontos percentuais na digestão da dor.
Pedi que ela escrevesse dez palavras que caraterizassem suas emoções naquele momento, e estas foram as que saíram: arrasada, assustada, decepcionada, exaurida, enraivecida, violentada, angustiada, impotente, entristecida e sozinha.
São as palavras do apagão emocional que o luto provoca. Quem já passou por algum dos lutos acima relatados deve ter sentido alguma destas palavras atuando. Não são palavras fáceis. São daquelas que tornam almas insones. E, dependendo da prumada com as qual se olhe para elas, são todas verdadeiras para quem sofre o luto. Por isso muitas pessoas que querem ajudar, acabam atrapalhando o enlutado, ao negar-lhes o direito á dor, ao momento só deles de sentirem a força da manifestação destas palavras em seus corações.
Elas são a carga que se recebe, após viver a situação difícil. E, nossa psiquê precisa de tempo para acomodar a situação.
Por um momento, parecerá que toda a vida vai gravitar em torno daquilo que ocorreu.  Mudam-se agendas, projetos futuros e rotinas diárias. E aquelas dez palavras parecem que se tornaram redes e presas monstruosas, prendendo e sugando toda a essência do viver.
E as metas, sonhos e objetivos ficam num estado de degradação energética, como se entrassem no modo "pause".
Mas, não "podemos desligar o notebook".  Precisamos beber nosso próprio cálice e continuar desafiando viver, um dia de cada vez.
Disse-lhe que ela acaba de mudar de fase, atingindo a etapa dos que sabem que a vida é finita. Ela me olhou querendo sorrir, mangando de mim, sem entender. Então expliquei-lhe que muita gente vive como se fosse não-morrível, perdendo de aproveitar momentos preciosos, ao hiper valorizar o que não tem valor, ou buscando razões ao léu para ser infeliz.
A fase que ela ingressou, só pessoas perfumadas e sábias, independente de suas idades, alcançam, a de que precisam degustar a vida com sabor, no presente do agora, pois quanto ao amanhã ninguém poderá dizer ao certo nada do que virá a ser.
A que nos concebe como morríveis.  E, por agora sabermos que morreremos (não se enganem, muitos não sabem disto ainda) atingimos uma nova perspectiva e dimensão na degustação do agora.
Tudo passará a ser saboreado de uma forma diferente, e quando a carga estiver processada, os humanos assumem a coragem dos sobreviventes e superam a dor pela qual passaram.
Não serão mais os mesmos, pois se reinventarão, no que sobrou deles mesmos, a partir do luto que viveram, de coisas que lhes foram negadas, ou das expectativas quanto um futuro tornarem-se sombrias.

Faz parte das Etapas do Luto (Elisabeth  Kluber-Ross) atravessar este vale de lágrimas, ou chorar as mil lágrimas, como costumo dizer.
Disse-lhe que não se agoniasse, mais do que o necessário.  Nem que bancasse a forte. Pois haverá dias em que se sentirá pior, como se retroagisse. E noutros um pouco melhor. Que se lembrasse de meu notebook. É a carga processando, desligando e religando o sistema.  Fará parte do processo de adaptação á nova realidade de vida.
Meses depois ela me procura e diz que voltou para aulas de natação.  E que começou a químio. E que se afiliou num grupo de pessoas com sua doença, e com eles não discutem remédios, e sim o que se pode fazer ainda com "o que restou do fim de nossas vidas".
E que tem lutado para não deixar que a doença assuma a vida dela. "Pois que a doença é somente uma parte da vida, mas é nem será toda a minha vida".
Esperançosa, conta-me de um médico-anjo que apareceu na vida dela, dos novos tratamentos, de amigos que fez com a mesma doença, de um músico do Laboratório Sabin que até já sabe do gosto musical dela. Fala das dietas, de almas perfumadas que a inspiram a lutar pela vida, e me confidencia que andou procurando uma peruca mais bonita.
Falou que estará fora no próximo mês, pois irá visitar parentes noutro estado, que estão preocupados com ela, aproveitando para retornar nos lugares de sua infância.
Contente, dei-lhe um abraço. Disse-lhe, que ela atingiu a fase da coragem dos sobreviventes, e que era como se seu notebook voltasse a poder funcionar, após a carga crítica ter sido atualizada.
Assim é a vida. Tem vez que a roda viva gira e muda tudo do lugar, como diz a canção (Roda Viva). Mas, também tem vez que passamos a não mais chorar e com o nosso braço fazer o nosso viver, como também diz uma outra canção (Travessia).
Não há luto fácil pra ninguém que o vive. Nem há receita de bolo, nem de tempo, para o sistema voltar a processar a vida, novamente.
Só há uma constatação clínica, a pulsão-força de eros (vida) é mais forte do que a de pulsão de tânatos-morte (morte).
Temos mais forças de superação do que pensamos ter.
É só não se desligar do sistema, e deixar que a vida corra para a margem, cultivando nela a coragem dos sobreviventes, ao assumir uma posição de luta, compaixão e paciência para consigo mesmo, enquanto o leito do rio do viver não oferece condições de navegabilidade no seu centro.
Um belo dia, de esperança à esperança, de fé em fé, de amizade em amizade, vamos retornando com a embarcação de nosso viver para o leito de nossa vida. Agora com uma embarcação diferente, reinventada e adaptada para águas mexidas, desconhecidas, perigosas, mas não menos bela do que a anterior.
Esse novo barco tem por nome: Estou Aqui. E, enquanto estamos por aqui, podemos deixar um legado de superação, que sirva de exemplo e estímulo para outras pessoas, como resultado de nosso novo projeto de vida, pós coração enlutado.
"Eu quero a minha vida de volta". Não, querida amiga, tu não a terás como antes. Mas, terás outra, grávida de novas possibilidades, ao juntar os cacos do que ainda lhe sobra.
E aí, neste momento, não aquela vida, mas a que se faz como resultado desta reinvenção, volta.
E,  àquele apelo, título desta crônica, ela responde: "eis-me aqui!

Horda, Selvageria e Barbárie (Por Ricardo de Faria Barros)

Arte: Gleriston , Heber ,  Iolanda  e Thiago (Alunos da Nova Faculdade de Contagem-MG)

Uma horda de prefeitos invade os restaurantes de Brasília, após participarem de uma Marcha reivindicatória pelos seus municípios.

Alfredo, garçom amigo, conta-me que o problema não foi o atendimento deles. Foi o fechamento das contas. Não de todos. Mas, de vários. É que um grupo deles insistia em tirar das contas os uísques que tomaram, ou vinhos da melhor qualidade, substituindo o valor do consumo deles por pratos fictícios de comida. Outros, mais raros e mais éticos, pediam contas separadas das bebidas alcoólicas e das comidas. As bebidas eles pagavam com recursos próprios.  As comidas com os da prefeitura, para posterior prestação de contas.

Ele contou que o geral era isso que ouvia:  "Coloca aí tudo como comida, a prefeitura não paga bebida, nas ajudas de custo para missão..."

Alfredo então voltava com as NF para "retificá-las". Outros, mais ousados ainda, pediam que ele colocasse nelas um valor bem acima do consumido, dizendo que o reconheceriam, "pela compreensão e apoio", com uma farta gorjeta.  Alfredo negava-se a fazer isso, e era hostilizado.

Alfredo, naquela noite de quinta, precisava desabafar. Ele estava se sentindo violentado. E eu também. E você que me lê, idem.  Se não somos éticos nas pequenas coisas, como queremos ser nas maiores? Na minha escala de julgamento, quem lesa a "viúva" por uma dose de uísque, fará o mesmo nos contratos de fornecimento, com preços superfaturados para desvio de recursos.

Corta a cena e escuto um apitaço. São carros se acotovelando para abastecerem, mutos ainda com meio tanque de combustível, mas temem o pior e querem completar.  Os apitos são gritos para alguns "espertos" que descobriram que se levarem recipientes plásticos de 30, 40 litros, poderão evitar as filas e se apresentarem diretamente nas bombas. E a confusão se estabelece, cada vez que um desses "sabidos", toma o lugar de quem por muito tempo espera seu abastecimento.

Na frente da fila, um prosaico frentista, atendendo a ordens de seu patrão, sobe na placa que anuncia os preços e altera, sem o menor pudor, majorando-a em 100%.  O apitaço aumenta. Alguns descem do carro, gritam palavras de ordem. Mas quem os ouve?

Volto pra casa e ligo a TV.  O jornal mostra cenas de selvageria, por todo país, nos mercados e postos.

Numa delas, uma senhora sai com o carrinho abarroado de saquinhos de dois quilos de arroz. O repórter pergunta se é para um restaurante. Ela diz, candidamente, que é para seu lar. "Pois, pode faltar".

Produtos faltam nas gôndolas, pela sua compra maciça, para além das necessidades de uma semana.

Todos os entrevistados justificam a atitude de usura consumista: "é o medo!".  Mas, quando uma única pessoa leva para casa dez latas de leite, para uma família que consome 5 por semana, alguma outra ficará sem. Este é o principio da anomia e anti-solidariedade social. "Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu... e quem vier atrás que fecha a porteira. "

Imaginar que nos países asiáticos, vítimas de calamidades climáticas (tsunamis, terremotos), as pessoas só levam dos mercados que ainda funcionam o que precisarão comer e beber naquela semana, pois se levarem a mais faltará para outros. E não tem policia dizendo isto, não tem cartaz.  É uma questão de aprendizado social, de educação cidadã para o coletivo.

Selvageria e barbárie. Tanto no microambiente, o das relações cotidianas com o outro. Desde furar fila, bancar o esperto,  ou se apropriar de todo o estoque de arroz, água e até sal, sem se preocupar com as necessidades alheias.  Tanto no macroambiente econômico, com espertalhões vendendo um litro de gasolina por R$ 10,00 (cinicamente colocado R% 9,99). Como no contexto institucional político, com líderes que precisavam ser exemplos de cuidado e zelo pelo bem público, torrando nosso dinheiro em seus próprios interesses, confundindo o público com o privado, no que se chama de patrimonialismo.

Uma horda, repleta de atitudes de selvageria e barbárie, é nisso que uma população se transforma quando falta-lhe exemplos virtuosos para seguir na gestão pública,  uma educação para valores e práticas éticas de coletivo-vivência, para além de belos discursos a cada eleição.

Como seremos uma verdadeira nação com práticas no nível individual, comercial e pública desta natureza?

Obs: Alfredo existe, mas não com este nome!

Cartas ao JG - Na vida, mesmo achando que perde de goleada, continue em campo. (Por Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 8 anos)

Sabe JG, naquele manhã de sábado tu estava muito empolgado com a escolinha de futebol. teria um amistoso, com outras crianças, que vinham de São Sebastião-DF. Tu foi o último a perfilar, antes do Hino Nacional. Teu técnico, tão cuidadoso, estava arrumando tua tornozeleira e chuteira, e todos esperavam por vocês. Agora, pronto para o embate, você correu para sua posição na fila, a dos atacantes. Nós, os pais, ficamos sentados na "arquibancada de grama", cada um mais ansioso que o outro. Os meninos do outro time tinham cara de bonzinhos. Com suas camisas desbotadas, e chuteiras esfarrapadas, dava para notar que eles eram apoiados como projeto social da PM, e o fato de chegarem no micro-ônibus dela reforçou minha tese. Não havia pais deles com potentes câmeras fotografando ou filmando. Não tinha pose de antes. Eles estavam praticamente sós, para aquele embate, confiando apenas no seu treinador. Todos deviam ter entre oito e dez anos. O hino começou a tocar e era visível a emoção. Pela primeira vez eu te via perfilado e cantando o hino, e cantou direitinho. Aí começou o jogo. Da arquibancada prometi dez pacotes de figurinhas, caso fizesse um gol.
Ao que os demais pais seguiram, numa gostosa algazarra. De sorvete, figuras á pizza, tudo prometemos. No primeiro minuto de jogo, vocês tomaram um gol. No segundo, outro. No terceiro, outro. Mas, os meninos do time adversário respeitavam vocês. Não ficavam tirando onda. Nós, seus pais, ficávamos incrédulos. Não sabíamos o que ocorria em campo. Pois, vocês não conseguiam passar da linha central, em direção ao gol deles. Aos berros, reduzimos nossas premiações para um único ataque fulminante, daqueles que conseguisse botar o goleiro deles para trabalhar. Terminou o primeiro tempo e vocês não conseguiram cruzar a linha central. E o placar, muito pior que o do Brasil x Alemanha, 10 a zero para os meninos de São Sebastião-DF. No intervalo, você veio me abraçar. Os seus amigos, idem.
Você precisava daquele abraço. Seus adversários não tripudiaram em cima da aparente derrota de vocês. Não havia provocações, ou comemorações humilhantes. Respeitosos, baixaram a cabeça, num círculo, enquanto recebiam instruções para o segundo tempo. E começou o segundo tempo. Gritamos que o placar tinha zerado. Que considerassem 0 a 0. Vocês sorriram para nós. Em pouco tempo o time deles fez o 11 gol. Mas, num ataque digno de Seleção Brasileira, vocês empataram. Ops, fizeram 11 a 1. Ainda faltavam uns bons minutos de segundo tempo, e vocês estavam tomando tomavam uma média de um gol a cada 4 minutos. E o placar avançava em prol do time visitante: 12 a 1. 13 a 1. 14 a 1. 15 a 1. Contudo, eu e um monte de pais, nos emocionamos de ver que vocês não desanimavam em vim buscar a bola na defesa, e tentarem partir para o ataque. E o goleiro de seu time passou a ser uma atração a parte, evitando muitos gools com defesas precisas.


Vocês sabiam que era impossível reverter aquele resultado, mas honraram o adversário. Não desanimaram. Não esmoreceram, ou penduraram as chuteiras antes do apito final. Jogaram aqueles 20 minutos do segundo tempo como heróis legendários. Ao apito final, ficaram em fila e cumprimentaram todos os jogadores que por vocês passavam, apertando suas mãos, e olhando de frente para eles. Que exemplo para nós! Você subiu o gramado da arquibancada, em minha direção, abriu os braços, e chorou baixinho.

Eu te disse que tu me deu uma linda lição de resiliência, ensinando-lhe o sentido do termo. Que o fato de continuarem em campo, e correndo, e fazendo o que podiam, mas nunca desistindo do jogo, foi um ensinamento para toda a vida. Vocês não queriam mais empatar o jogo, pelo menos, queriam não tomar gols, ou fazer mais um. E isso foi muito lindo. Te disse que uma das mas célebres lições que a vida nos ensina, é que para ganhar temos que perder. Você não entendeu direito e eu disse te ensinei. Que na vida podemos perder muitas batalhas, mas o importante é não sair da guerra. Que não se faz um bom atleta, um bom time, ou uma vitória, sem vez por outra ele, não conseguir o primeiro lugar, a classificação, ou vencer o adversário - na primeira tentativa. Sabe filho, um traço que os fortes têm em comum é a coragem. Eles se levantam após as derrotas, e continuam acreditando que dias melhores viram. E é um acreditar transformador, pois enquanto acreditam eles ajudam a si mesmos, tornam-se mais focados e disciplinados, e perseguem com mais afinco ainda seus objetivos.
Recentemente, ouvi várias mães com problemas de relacionamento com seus filhos. Elas não sabiam como fazer com seus jovens-adultos-filhos, ainda dentro de casa, e sem um propósito de vida. Muitos estão passando o dia jogando no computador, teclando em redes sociais, ou enclausurados em seus quartos-hotel, com toda a auto-suficiência para dali não precisarem mais sair. Filho, são jovens que estão perdendo o sentido do jogo da vida. Estão deixando de correr atrás da bola, de se esforçarem em busca de seus próprios sonhos. De sua própria autonomia. Levaram umas boladas, uns gols, seja na vida afetiva, seja na vida acadêmica, ou até no primeiro emprego, e desistiram de continuar jogando. Foram para os "vestiários" de sues quartos superpoderosos, alienando-se da vida real, como ela é. Com muita ralação, aborrecimentos, dificuldades, e vez por outras, divinas e saborosas alegrias, talvez por isto mesmo. Então, querem chegar à janelinha, mas sem esforço. E, qual o sentido de chegar a algum luga sem ser como fruto de nosso esforço?
E a depressão juvenil, por falta de sentido na vida, avança em nossa sociedade. São filhos de uma classe social que enchem eles de bens, viagens, para os quais não lhes faltam nada. E tornam-se ambiciosos demais, querendo soluções rápidas, prontas e acabadas, de preferência que não precise, para o alcance delas, se esforçarem. E, viram pequenos tiranos dos seus pais. Que passam a limitar suas próprias vidas, preocupados com o filho que não reage. Que larga todo emprego que consegue. Que troca de curso superior como quem troca de boteco. que acorda três da tarde, ao virar a noite jogando. Que não arrumam nem seus quartos, e ainda culpam os pais pela infelicidade deles. Não filho meu. a vida boa não se faz assim. Na vida, temos que aprender a perder, não saindo do campo.
De que adiantaria para vocês se nós pais tivéssemos "comprado" umas molezas - do time adversário, para que a vida de vocês ficasse mais fácil no segundo tempo? De que adianta fazer gol assim, com o outro time facilitando? Então, filho meu, não sei onde estarei daqui a vinte anos, quando você tiver 28 anos. Mas, peço-lhe que se lembre daquela partida na qual perdeu de 15 a 1 e não desanimou. E continuou vindo buscar a bola na defesa, e partindo para o ataque. E, caso esteja lendo essa carta dentro de seu quarto, deprimido. Sem sentido na vida. Achando que tudo e todos tramam contra tu. Que a vida é má. Mesmo, com com comidinha na boca, remédios e roupa lavada, te digo: saia logo daí e venha para a vida real. Deixe de reclamar da vida, que a vida não é boa para você, que não arruma namorada, que emprego dentro de sua área está difícil, que o curso superior que faz não é bom...
Deixe de passar o dia entocado nesse quarto, achando que assim, que dentro dele, a vida acontecerá. Busque sua independência, com coragem. Não ache que tu terá essa estrutura de apoio para sempre.
E, paradoxalmente, é esta estrutura que não te deixa faltar nada, quem está sufocando em tu o ânimo e a coragem de ser. Um pouco de desequilíbrio, de falta, te fará bem. Pois, é na falta que corremos atrás para conseguir algo, que nos esforçamos. E, ao conseguir aquilo, como fruto de nosso esforço, nos sentimos muito bem. Então, continue assim. Correndo atrás. Se esforçando para ser o melhor para o mundo, e não o melhor do mundo.
Tendo consciência de que o que possui é muito superior a jovens em vulnerabilidade e risco social, como teus adversários. Que nem por isso desanimaram, ou amarelaram diante de vocês, todos de cara boa, e estatura superior, pelo que comem. Eles não são garotos-Nutrella. Fiquei sabendo que muitos catam latinhas, fazem pequenos trabalhos em feiras-livres e que seus pais são ausentes, pelo álcool, abandono do lar, ou estão apenados. E, mesmo assim, eles vieram e enfrentaram os meninos da classe média. Respeitaram vocês, mas não se intimidaram, mesmo não tendo uma voz seque nas arquibancadas gritando pelo nome deles.
E, aquela vitória talvez seja a melhor alegria que tenham nesse mês. Eles aprenderam o valor da superação, da conquista de seus ideais, mesmo sem terem a mínima possibilidade de premiação, pelas "Vidas-Severinas" que enfrentam, de um sorvete, um pacote de figurinhas, ou uma deliciosa pizza, ao final do jogo. E, caso faça um gol no próximo amistoso, nada de eu te prometer qualquer coisa em troca do feito. Vou te ensinar o valor de conseguir algo, sem prêmio material algum como alvo.
Aliás, os melhores prêmios que a vida me deu não foram materiais, foram um abraço sincero, um eu te amo vadio, um que bom que chegou. Ou, um: você fez falta por aqui!. Esse tipo de premiação não tem preço! E era um sentido na vida e uma satisfação interior, pela conquista de algo pelo teu próprio esforço, que durarão um monte de tempo em tuas lembranças. Sem para que isso ocorra, precise existir um prêmio material esperando-lhe na esquina da vida. Sabe filho meu, você não merece nada por fazer um gol, apenas um abraço. E será o que melhor receberá na vida. Dentro de um abraço, não há tempo ruim, e ao sair dele, tu estará sempre mais forte e mais corajoso, para enfrentar outras partidas do tipo 15 a 1, sem desistir após o primeiro tempo.
Muitas das coisas boas que fazemos e recebemos da vida, a premiação delas acontece no mundo das emoções e sentimentos positivos, ou no da razão como o de uma consciência limpa, o sentido do dever cumprido. E, chegará o dia em que saberá o valor de um abraço, após um gol que marque no jogo da vida!

O Compositor do Tempo, Artesão de Esperanças Vadias (Autor Ricardo de Faria Barros)

Era manhã do dia do trabalhador e resolvi investir o dia visitando Sr. Valdecir, e de lá ir até a casa de meu irmão.

Sr. Valdecir estava agitado, gesticulava com o celular que estava sem créditos, só recebendo notícias do mundo de lá,  deixando-lhe muito ansioso por uma informação que esperava. Ameacei colocar créditos no celular dele, acessando meu banco de bolso. Mas, irritado, ele me disse que todo dia primeiro uma pessoa amiga o faz, e que naquele dia estava demorando mais que o costume. E que, em questão de minutos tudo se resolveria.

A razão pela qual este paraibano de 75 anos, viúvo, pai de 7 filhos, todos vivos, e muitos netos, estava nervoso, era por notícias de um dos filhos. Que na noite anterior bebera, e que nesta manhã precisava ir trabalhar, e tocar um serviço, com ele contratado.

Sr. Valdecir é como madeira de aroeira, pode até vergar com o peso, mas num quebra não.
Sua vida só está boa quando a dos filhos, netos e agregados está.

Naquela manhã ele não estava com a vida boa.  Os netos andam se metendo em confusão, e um filho luta contra o vício do álcool, que causa estragos na vida profissional.

Sr. Valdecir olhava para mim, como quem diz, só mais uns minutos e já consigo ligar. Mas, antes disso, o telefone dele toca, e é uma das filhas, avisando que o irmão foi para o trabalho, e que ele pode ficar despreocupado.

Pronto, o tempo se encontrou com as horas, e o alívio se fez naquele senhor. O tempo teima em brincar com nossas marcações dele.

Para quem espera a cura de uma infecção, sete dias pode ser um parto. Para quem aguarda um encontro amoroso, sete dias pode ser um raio. Raio que lhe parta, grilhões da saudade, e amarras da doença.

A noção de tempo alcança uma outra dimensão, na perspectiva de uma espera.

Sr. Valdecir me chama para tomar um café na casa da filha dele, a Linda, e aproveitar para conversar com outra de suas filhas, a Edvânia, que passa por problemas pessoais.

Em lá chegando, encontramos a Edvânia muito chorosa e cheia de pesar. Um de seus filhos foi preso, por causa de uma briga em que se meteu. E ela sente saudades dele, e muito aperto no coração, daqueles apertos em coração de mãe, que são inclementes de dor e força.

Ela estava conversando com a amiga Cristina, que veio lhe consolar. A visita que conseguiu fazer na penitenciaria só será possível na semana que vem, e já fará quinze dias que ela não vê o filho de 18 anos.  E sofre, sofre muito.  Em sua cabeça habitam monstros, fantasmas, e todo tipo de assustamento. Não é fácil ficar tanto tempo sem contato com quem se ama, principalmente sabendo que a pessoa está num lugar perigoso, e sofrendo.

Estes dias que faltam para a visita são anos, na percepção daquela mãe.

Cristina entrou na conversa. Disse que amanhã fará uma das últimas sessões de quimioterapia, de um tumor que tirou de um dos seios. Ela já fez muitas sessões de quimio. Agora só faltarão duas sessões, a contar com a de amanhã. Em dois meses, ela estará livre desse tratamento tão cheio de efeitos colaterais, e poderá celebrar a vitória da cura. Ela espera esses meses com visível alegria estampada no rosto. O médico que lhe acompanha disse que pelos exames tudo está correndo muito bem.
Então, esta espera é de júbilo, de celebração.

É daquelas que o tempo vira brincante, e no lugar de incomodar, ele sussurra palavras de esperança no coração que espera.

Um pai que espera notícias de um filho, uma mãe que anseia em chegar a data da visita de um filho, uma senhora que marca no caderno os meses que faltam para o final de um tratamento exitoso.

Algo queria me falar naquela manhã. O tema tempo estava presente na história de vida daquelas três pessoas.    E, em cada um delas, fazia um efeito diferente.  O tempo que um filho leva sem beber. O tempo que falta para visitar um filho, o tempo que falta para uma medicação completar seu ciclo.

Mas, o que mexeu comigo nos relatos de Valdecir, Edvânia e Cristina foi a forma pela qual descreviam suas penas.

Não havia traço de desânimo algum, embora estivessem - cada um à sua maneira, carregando suas cruzes.

Sr. Valdecir tinha esperança por mais um dia que o filho conseguiria fazer suas atividades profissionais, sem estar alcoolizado num leito de uma cama.  Edvânia tinha esperança que veria o filho vivo, e ainda saudável, na medida do possível de quem está preso.  Helena tinha esperança na cura de sua doença.

E, enquanto esperavam eles agiam. Sr. Valdecir monitorava o filho por uma rede de pessoas próximas, já que ele não tinha mais celular, perdido no álcool.  Edvãnia fazia contatos com pessoas que conheciam advogados, para entender o que a juíza tinha feito, ao decretar a prisao do menino, durante uma audiência. Cristina deslocava-se de longe, enfrentava filas e aperreios, mas num faltava a nenhuma sessão das quimio.

Eles têm em comum a esperança corajosa. Não qualquer esperança, como muitas daquelas que temos, das que não alteram o carrossel do destino de viver, por serem anêmicas em seus propósitos de ação. São esperanças fraquinhas.

As deles não. São esperanças potentes, que enquanto esperam, atuam na natureza das coisas, mudando-lhes formas e cursos de ação.

Na terceira rodada de café, todos estavam animados e sorridentes. Nosso povo mais pobre aprendeu o segredo da felicidade.
Que não passa pela busca de algo para ser mais feliz, e sim pela valorização do que possuem, que os tornam menos infelizes.
Um celular que toca e é uma notícia boa do filho. Uma visita finalmente autorizada. Um remédio tomado na rede pública de saúde.
As conversas agora refletiam esse mote. Sr. Valdecir contava que o filho iria conseguir passar o dia sem beber, e entregaria uma pintura de uma casa que estava tocando.  Edvânia, agora até se consolava pelo filho estar preso. Pois, a briga em que se meteu poderia ter causado a morte de alguém, inclusive a dele mesmo. E, quando isto ocorre, o Compositor do Tempo altera a partitura do presente, deixando no seu lugar uma dor irremediável pelo luto do ausente. Já Cristina, alegrava-se de não precisar de mais sessões, ou de outra intervenção cirúrgica.

A paz era tão grande naquele lar que esqueci complemente o tempo que urgia, para levar um ingrediente de uma  receita que meu irmão fazia.

Sim, caros amigos(as), o tempo tem dessas peraltices que nos faz alterar agendas, repriorizar situações, enfocar enquadramentos, tornando-o elástico, ou sem mais necessidade de sorvê-lo ansiosamente, pelo simples fato de ali ele estar se multiplicando.
Não me perguntem como, mas que se multiplica, se multiplica.
Ah! como os que vivenciam algo bom, ou por aquilo esperam, entendem do que falo.

Psicologia Positiva e as Amarras de Gulliver

Percorrendo uma exposição de trabalhos escolares, da escola de meu filho, parei numa instalação artística baseada no livro de Jonathan Swift - As Viagens de Gulliver.

Ela representava uma cena clássica desse livro que foi a prisão de Gulliver, na ilha de Lilliput.
Gulliver tinha escapado de um naufrágio, nadando até aquela ilha. E, muito cansado pelo esforço, adormeceu na praia.

Ao acordar, sentiu-se imobilizado por centenas de finos barbantes, colocados pelo Lilliputeanos - pessoas minúsculas, com 15 cm de altura, que habitavam aquela ilha.

Por um tempo, por estar triste ao rememorar perdas recentes, por sentir-se muito cansado, e por não entender a situação que se apresentava – olhando atônito para pessoas minúsculas ao seu redor, assumiu uma posição de desamparo, que lhe sabotava as forças, e que o aprisionava na própria situação, sem oferecer uma resposta à ela.

Quem de nós nunca esteve preso em Lilliput que desate a primeira amarra!

Têm momentos em nosso viver que nos sentimos assim: desamparados. É quando a roda viva da vida gira, e muda tudo de lugar. Quando o carrossel do destino nos pega de jeito, alterando cursos e formas de ação.

E, gigante que somos em relação ao que, ou a quem nos aprisiona, ainda assim não conseguimos reagir, entrando num processo de letargia comportamental. É que a sucessão de acontecimentos, difíceis de digerir, esgotaram nossa capacidade de resposta.

Sentir-se desamparado ao vivenciar momentos assim, de luto, de enfrentamento de situações delicadas, daquelas que parece que estamos num beco sem saída, faz parte também da boa saúde mental.

Engana-se quem pensa que a vida é feita apenas de dias de céu azul. Passar por dias cinzentos faz parte do processo de viver. E, não se passa por momentos assim, em estado de júbilo e felicidade explícita. Momentos de silêncio interior, de quando a alma pede colo e cafuné.

E, descansá-la um pouco, deitado na praia, faz parte do reinventar-se.

Mas, um belo dia percebemos que as amarras não exercem sobre nós tanto poder, como outrora exerceram. Ou, que o medo do desconhecido, já não nos paralisa como dantes, embora ainda amedronte.
E que, aquilo, ou quem nos aprisionava não é mais forte o bastante para deter-nos, na fecunda força da esperança, que nos faz renascer.

E, rompemos os finos cordões que nos amarram, e botamos para correr as pessoinhas minúsculas que tanto nos atemorizaram.

Erguemo-nos das areias de Lilliput não mais os mesmos.

Agora, revestidos de uma imensa força interior, sentimo-nos potentes novamente para enfrentar velhas e novas batalhas de, e do, ser.

As pessoinhas minúsculas e as suas amarras medíocres não nos venceram. Não derrotaram o gigante que vive em nós.

Reerguemos-nos confiantes e olhamos novamente para imensidão do oceano azul como crianças que contemplam parques de diversão.

Não, não fomos feitos para morrer na praia. Então, saudosos dos mares repletos de instantes de liberdade e autonomia do ser, consertamos nosso barco, remendamos toscas velas, e estamos prontos e confiantes e para recomeçar, erguendo as âncoras de nosso ser que teimavam nos aprisionar em amarras que não mais fazem sentido.

Cientistas comportamentais da psicologia positiva entrevistaram pessoas que se reergueram da "praia de Lilliput" e descobriram algumas práticas que elas adotaram que ajudam a quem se sente como Gulliver deitado na areia, ainda sem forças para se reerguer.  Vejamos quais são:

A primeira delas é a postura de garimpeiro de coisas boas, belas ou virtuosas. Essas pessoas fizeram para si mesmas um firme propósito de enumerar diariamente as coisas boas. belas e virtuosas que viam, que faziam, ou que faziam para elas.  Havia uma intencionalidade nelas que altera a modulação do processamento cerebral, expandindo as fronteiras do pensamento seletivo negativo, para áreas mais positivas. Por exemplo, essas pessoas quando submetidas ao estresse de ter que se submeter a sessões de hemodiálise, pelo resto da vida, procuravam destacar as coisas boas que ainda havia naquela situação, como as amizades que faziam, ou o uso do tempo para leitura. Outros, sob as amarras de Lilliput, só viam naquelas sessões coisas ruins.

A segunda delas é a de pescador de gratidões. Não se trata de gratidão como uma emoção. Mas, como uma prática que após ser sentida, precisa ser expressada. Como se com o material da gratidão se tecesse uma bela arte, pela qual vale a pena se viver. Essas pessoas expressavam suas gratidões ou face a face, para pessoas por elas reconhecidas, ou em suas preces. Elas procuravam nos registros narrativos de suas vidas, enfatizar o momentos pelos quais eram gratas, no lugar de destacar as ingratidões pelo qual passaram. A gratidão ativa consegue romper muitas amarras de Lilliput, mas é um comportamento que rareia nos tempos presentes, nos quais as pessoas sempre se acham merecedoras de tudo, portanto, nada por elas é percebido como sendo uma dádiva, uma bênção. Voltando para o caso das sessões de hemodiálise, essas pessoas expressavam sua gratidão pelo cuidado que estavam recebendo dos profissionais de saúde, e por aqueles que em casa mantinham as coisas funcionando em sua ausência, e até pelos que deixavam-nas nos hospitais e depois iam pegá-las. Elas tinhas as retinas do coração abertas para perceberem as dádivas acontecendo, apesar de seus pesares.

E a terceira delas, muito presente nas pessoas que se reerguem dos tombos da vida, se reinventam a partir deles, ou lidam com eles de forma mais eficaz, é a de cultivador de emoções positivas. No jardim do coração dessas pessoas, há canteiros semeados, adubados e irrigados, periodicamente, com práticas de doação ao outro, práticas de bondade, práticas de paz, de otimismo e de esperança. Elas não adubam, nem molham, os canteiros das mágoas, invejas, ódios e ressentimentos. Deixam-lhes sem condições de crescimento. viço. Ao contrário, elas dedicam-se a uma causa, ou em tornar a vida das pessoas, ou do lugar por onde passam melhor, com a sua presença. Voltando ao exemplo das sessões de hemodiálise, elas são do tipo que levam um bolo, no aniversário da enfermeira que lhes atendem.

Garimpar coisas boas que acontecem na vida; pescar gratidões e cultivar emoções positivas é o segredo dos que conseguiram romper as amarras que lhes aprisionavam, ao lidar com os reveses do viver.

Cartas ao JG - Quando a falta da falta fará falta. (Autor Ricardo de Faria Barros)


Teu grito de alegria, de decibel ensurdecedor, ecoou por aquela manhã de domingo.
Você abria o último pacote de figurinhas do álbum da Copa do Mundo 2018 que lhe comprei, e tirou o "time da Espanha".
Numa enxurrada de felicidade, dizia para todos, "agora só faltam 3 para eu completar o time da  Espanha."   Veja a foto que cliquei, no exato momento em que tu fecha os olhos de alegria, e depois sai correndo feliz pelo jardim da casa do tio Guga.
Por um instante. todos passamos a colecionar figurinha contigo.  Lembramos dos dias quando saíamos com nossos refugos (repetidas) à caça de trocas para eles.
Ou, quando selecionávamos as repetidas mais fáceis, para a disputa no jogo bafo. Pura emoção e risco, no qual se usa uma das palmas das mãos, para tentar desvirar figurinhas colocadas num monte, apenas batendo sobre elas.  Tentando, desesperadamente, fazer algum tipo de vácuo para lhes virar, e ganhá-las como troféu.
Você me contou que seus colegas de classe já completaram o álbum.  Logo em seguida em dando a dica de como eles conseguiram aquela proeza,
"Pai, têm umas bancas de revistas que vendem todos os números que faltam.  É só levar a lista a lá.  Assim completarei logo as mais de 200 que me faltam".
Olhei para ti com olhos de compaixão e amor. Vou te explicar de que se faz uma vida boa, pensei!
Pensei comigo, pobres pais, estão tirando o aprendizado da frustração, da negociação, da espera, dos limites, da busca cobiçada por algo, do desejo de conseguir fechar uma página, ao menos, antecipando-lhes o gozo dos filhos, e de uma vez.
Qual deles viveria a minha emoção ao te ver gritando, no último dos pacotes, que tirou o time da Espanha?
E qual de seus filhos viveria a alegria que tu viveu, a ponto de sair correndo pelo gramado, de tão feliz que ficou?
É só pagar R$ 1,00 (um real) e ali está a figura do  time da Espanha. Mas, o teu cromo da Espanha é diferente do de teus amigos.
Tu sempre que olhar para ele vai se lembrar daquele domingo, e do quanto ficou feliz. Vai se lembrar dos dias de espera, a cada semana para ganhar dez pacotinhos, vai se lembrar do quanto precioso vão sendo as conquistas que irá fazendo.
Nenhuma delas ofertadas de mão beijada. Todas fruto de paciência, frustrações, e até conquistas, em torcas com teus amiguinhos, ou no bafo.
O que é dado não damos valor.
Sabe filho, tem um pássaro azul e preto que habita a copa da árvore, que margeia a janela de meu quarto. Já tentei muito fazer a foto dele. É um pássaro lindo e que nunca tinha visto por estas bandas.
Hoje, nos vasos da jardineira das flores que cultivo, ele veio brincar.
Fiquei petrificado diante de tanta beleza.  A máquina fotográfica, que já deixo no ponto para fotografá-lo, estava na sala. Então, ao me mexer para usar o celular, ele se foi.
Mas, não tem nada não. Um dia eu documento ele. Tenho alterado meus hábitos para tentar essa foto.  Até digitar na cama de casal estou digitando, coisa que não gosto de fazer.  Nesse momento a máquina está armada com minha melhor lente, e botei até uma farofa de milho na terra das floreiras, na espera que ele venha comer.
Isso tudo que faço me dá um grande sentido, uma orientação de valor.  Se alguém me dissesse que tem desse pássaro no zoológico, prontinho para minha foto, eu não iria lá bater.
Eu quero este que habita minha extensão do lar, a varanda das copas. Vivo com ele uma relação de enamoramento, daquelas que cuidamos de conquistar o enamorado, em jogos de encantamento. Nem som eu escuto, e olha que sou musical, para que ele não se assuste e não pouse por aqui.
Percebe filho meu, que para alcançar meu sonho eu preciso dedicação, disciplina, esforço, e saber sofrer as esperas do tempo.
Na vida, tudo quer vier em forma de almoço grátis, não gerará em ti a alegria da conquista, tal qual a carta do time espanhol.  Fuja de almoços grátis.  e desconfie de quem chega fácil na janelinha, sem esforço algum. Em breve, a vida poderá perder o sentido para ele. Pois, não teve que lutar por nada, tudo lhe foi dado.
Engraçado que nesse mesmo domingo, ao sair para te ver, havia no para-brisas de meu carro tinha esse folheto da foto, que anunciava os serviços para "solucionar difíceis ou impossíveis problemas", com "trabalho garantido".
Seria cruel se isto fosse verdade. Onde estraria nosso esforço para solucionar os problemas da vida? Onde entraria nossas crises, angústias, lutos, momentos de sofrimento existencial,  por não termos o que queremos, por quebra de expectativas, por não ver nossas ambições e necessidades atendidas?
E, filho meu, a vida também é feita de dias cinzentos. Dias de aperto no coração, daquelas que achamos que um pássaro fez cocô em nossa cabeça.
Já pensou se não passássemos por eles?  Nos tornaríamos orgulhosos, arrogantes, prepotentes, e ocos. Vazios por dentro.
Não filho meu. Na vida não existem bancas de revista para tu antecipar os esforços, e conquistar facilmente o prêmio do álbum completo.
Nem existem soluções fantasiosas, pretensamente místicas, para todos teus males. Alguns deles, tu terá que purgar em ti mesmo, e o melhor laxante para eles é o tempo.
Mas, garanto-lhe, tu sairá mais forte, e mais feliz quem sabe, ao se sentir corajoso de ter atravessado aqueles dias ruins, sem ter desanimado. Nem procurado atalhos fáceis, mas perigosos, de encontrar o que precisa.
Usando de métodos ilícitos tu pode até antecipar conquistas, mas nunca saberá de fato o que é o sabor da vitória. que só quem ralou para conseguir algo sabe do que falo.
Quando eu fizer essa foto, ela será a foto. Sei dos dias que montei plantão nessa cama, tentando pegá-lo almoçando flores. Sei do quanto ele é especial, nesta visita diária que me faz. Mas, seu eu não tiver a máquina preparada, com bateria e cartão de memória a postos, e com a lente certa, isto não passará de um capricho, de uma intenção abestada de teu pai.
Mas, ao deixar tudo pronto, como não estava a pouco, eu saio da intenção para a possibilidade.
E o infinito conspira favoravelmente com semeadores de possibilidades.
Sabe filho, estamos criando uma geração que não está vivendo momentos de frustração, de limites, de esforço. Tudo lhes está sendo entregue de bandeja.
E, quando chegam ao mercado de trabalho, acham que as coisas ali são assim também.
Que não precisam bater metas, aprender novas competências, entregarem resultados de excelência, tudo isso com muita dedicação e esforço. Querem o prato feito, e a menor decepção, desistem de jogar o jogo da vida real.
Foram filhos de pais ansiosos que não cobraram deles esforço, para alcançar objetivos, por medo de que eles sofressem. Pais que se infantilizaram, e deram-lhes tudo, achando que com isso estavam amando os filhos.
Não queria esse caminho para ti.  Estude com afinco para as provas. Mesmo que não tire uma nota boa, foi a nota que teu estudo conseguiu alcançar. Não cole, nem compre facilidades. Isto tira de tu o melhor aprendizado que a vida nos fornece, e de graça, o da auto estima. Que só a coragem e a ousadia de ser nós mesmos proporciona.
Na vida, haverá sempre as partes que lhe faltam.  Seja figuras do álbum. Seja uma promoção almejada. Seja um chefe mais legal. Seja um trabalho menos cansativo. Seja um professor que de fato ensine. Seja um amor que lhe complete. Seja um bem material que deseja muito. Seja até a saúde, em algumas ocasiões.
Aprenda, que é na falta que nos mexemos para algo. É a falta que nos mobiliza ao avançar. E, o avançar exigirá comprometimento, disciplina e dedicação tuas, e de mais ninguém.
Não adianta terceirizar a busca por completar tuas faltas. O negócio será sempre contigo mesmo.
Mas, não tema as partes que lhes falta.
São elas que mobilizarão em ti a força do desejo. E, sem ser um ser desejante, tornamos-nos autômatos de nossa existência.  Precisamos repetir sempre: "Eu tenho um sonho!"
Precisamos de sonhos, pois são eles quem nos dão asas.    Mas, enquanto os perseguimos, não podemos querer queimar etapas, antecipar gozos, situações, ou agendas.  Sofrendo pela falta que faz o sonho não conquistado.
Não é o que nos falta quem nos arruinará. É perder de vista o que ainda temos, e valorizar aquilo, enquanto juntamos forças para conquistas as três figurinhas restantes do time da Espanha.  Tu me entende?
Não foque sua felicidade, apenas na busca pela três que lhes falta. Embora as persiga. Foque também nas 17 que já conseguiu.
Este é o segredo da felicidade de quem corre atrás das partes que lhes falta. Eles, enquanto correm, se esforçam, treinam, se dedicam, aprenderam a celebrar as que já têm, de forma agradecida.
O anúncio diz que dá garantia.
Eu te dou a minha também.
Garanto-lhe que tudo que lhe faltar e que venha a conquistar pelo fruto de teu esforço, produzirá em ti memórias afetivas de muita felicidade.
E te capacitarão para outras buscas, desenvolvendo em ti a ousadia e coragem de enfrentar os monstros do amanhã, ao desafiar os limites do impossível, que habitam nas fronteiras de nossos pensamentos.

E por alguns segundos a vida balançou. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Era como se uma onda lenta e mansinha passasse por sob mim, e meu apartamento estivesse numa boia de mar.
Naqueles poucos segundos, conectei-me a uma força enorme, vinda das profundezas da terra, que com magnitude 4,0 atingiu Brasília em ondas sísmicas, oriundas de um terremoto na Bolívia.
O lustre da sala tremeu, como que a me saudar.
Estava no sexto e último andar de um prédio da SQS 205 Sul, em Brasília, e digitava um texto sobre a importância da liberdade, quando fui tomado dessa súbita emoção. Na hora pensei que estava tendo um desmaio, segurei-me na mesa. Depois, vi que o lustre da sala estava tremendo,e as janelas estavam fechadas, afinal chovia fininho.
Era um tremor de terra, pensei. Ou uma forte ventania. Fiquei uma fração de segundo imóvel, com medo do que viria a seguir.
Posso nunca ter visto um vulcão, ou os flocos da neve, ou até mesmo a beleza de uma geleira... mas das forças da natureza senti o balanço da terra, aos meus pés.
Naqueles segundos, confesso-lhes que não me veio a mente arrependimentos a arrepender, nem velhas mágoas não resolvidas, e ainda rendendo na poupança do coração.
Só me veio um único temor, partir sem dizer que amava aos meus. Mas, como tinha estado com eles recentemente, estava tudo ok.
Refeito do cagaço, liguei para a portaria e o Cláudio me disse que muitos desceram correndo as escadas, e por ali estavam.
Decidi ficar em casa mesmo. Botei um cafezinho pra fazer, uma boa música na radiola, e continuei o texto que escrevia, sobre as prisões que acabamos nos metendo na vida.
Um texto de uma mãe que voltava para a cadeia, vítima de uma uma prisão injusta por uma calúnia e armação, após os dias de Páscoa que passou com seu filho de 9 anos, cortava meu coração. Como a liberdade é um bem tão precioso, principalmente quando se lhes priva o amor.
Um outro relato de um pai, sobre as besteiras que seu filho anda fazendo, pelo excesso de álcool que vem consumindo, quase que diariamente, emocionava-me. Aquela luta daquele pai, do alto de seus 75 anos, para resgatar seu filho é um manifesto à liberdade.
Isto sim são terremotos. Terremotos emocionais que levam toda a família a estremecer junto.
Quem tem um(a) amado(a) preso, fica um pouco preso também.
Quem tem um(a) amado(a) doente pelo vício, acaba adoecendo um pouco também.
Botei uma xícara de café, e fui esperar um possível novo abalo vendo as plantinhas da varanda do quarto.
Eis que um beija-flor aproxima-se e beija as flores violetas que crio na sacada.
Ele nem reparou em minha presença, nem tampouco das prisões a que eu evocava, e num show de bater de asas mirava seu bico para cada vulva daquelas florzinhas, beijando-as com prazer e alegria.
Entregues ao momento estavam aquela flor e aquele pássaro. Um completava o outro.
Esqueci os tremores, esqueci as injustiças dos Homens da lei, esqueci a besteria de arruinar a vida com drogas, acordando pior do que ontem, e a cada amanhã, e deixei aquele passarinho entrar em meu ser.
Ele rodopiava. Ora mirava nas florzinhas que estavam mais abaixo da copa da plantinha. Ora nas que estavam ao lado. Ora nas que estavam acima.
Nenhuma delas ficou sem seu beijo de amor, que desafiava a natureza das coisas, dos dias, das pessoas e dos corações.
Creio que esse beija-flor que cumpre sua missão, de ao se alimentar polinizar florezinhas pelo beijo, é a expressão da maior liberdade a que possamos almejar.
Creio firmemente que ser livre é amar. Uma mãe que ama seu filho, ao dele se despedir para voltar às celas, não está presa.
Um pai que chora por seu filho que não consegue vencer o álcool, não está preso a esta sina e saga.
O amor que eles expressam é o mesmo do beija-flor, que alheio aos tremores nas árvores, prédios e pessoas, aquele que assustou a tantos naquela manhã, continuava sendo belo e grande.
O amor não nos deixa desistir diante dos tremores que a vida nos dá.
O amor nos impulsiona ao impossível, nos torna imortais, nos faz depositar nosso melhor pólen naquele que é o sujeito de nosso amor.
Como aprendi com meu pequeno JG, o amor nos torna lendários, no sentido de eternizar raros momentos, tais quais as cartas lendárias de seu álbum de figurinhas.
Temos uma força enorme dentro de nós que nos impulsiona ao outro, em todas as formas de amor, inclusive na solidária empatia junto aos mais necessitados.
Falei de dois relatos de prisão que tive, nesse final de semana, e da liberdade do amor de seus envolvidos.
Também tive um relato que muito me comoveu nessa Páscoa, finalizando essa tríade a que compartilho.
Meu sobrinho, o Artur, aluno de medicina, participou de uma missão, no estilo Médicos Sem Fronteiras, numa cidadezinha do Tocantins.
Ele veio diretamente da rodoviária, para o almoço de Páscoa do domingo, recém-chegado dessa missão.
E nos contava o que puderam fazer junto às populações muito carentes e humildes. Cada caso que resolviam, era motivo de orgulho para todos aqueles voluntários, tão jovens.
Mas, cheios de idealismo, de amor ao próximo, de vontade de fazerem com esse mundo algo melhor do que com ele encontraram.
Todas as formas de amor, e de amar, são expansão de nós mesmos.
São libertadoras.
Desafiam o impossível.
Criam possibilidades.
Confrontam a natureza das coisas a que muitos teima em acreditar que: "são como são, não mudam".
Quem ama revoluciona ambientes, pessoas, destinos e a si mesmo.
Elas são fontes de propósito.
E, este talvez seja este o maior apelo da Páscoa: lutar pela libertação dos cativos, e com a força do amor. Não desanimar da missão de beijar as flores, de esperançar outras vidas em pólens vadios, mesmo em meio aos tremores do arriscoso e fecundo processos de existir.

Um lugar chamado Casarão do Jabre

"Por onde devo começar a contar uma história?"  É a primeira frase da música Love Story.

E é assim que me sinto, ao acordar com o coração encharcado de amor, e exalando saudades, após uma breve temporada com meus pais, na Paraíba.
Esta viagem, ficamos pensando nela, após uma outra que fizemos, na ocasião de meus 53 anos em outubro.
Voltávamos do Sertão do Rio Grande do Norte, terra de minha mãe, e ao adentrar na Paraíba avistamos, ao longe, as antenas sobre o Pico do Jabre, vistas das imediações de Patos-PB.
Mamãe queria ir lá.
Contudo, o calor era inclemente, e estávamos exaustos, ao fazer um bate e volta por Caicó e Serra Negra-RN, saindo de Campina Grande-PB.
Então, papai e eu, dissemos em coro que voltaríamos ali, para levá-la para conhecer o Pico do Jabre, e na volta daríamos uma passadinha por Patos-PB.
Sabiamente, ela deu de ombros e acatou nossa decisão.
Dias desses me peguei planejando essa odisseia em direção ao Pico do Jabre.
Acessei sites de viagens, e descobri um hotel que ficava bem próximo dele: "O Casarão do Jabre".
Fiz as reservas e passamos a planejar o melhor roteiro de acesso até ele, saindo de minha cidade natal, o que dista uns 200 KM, sertão adentro.
Saímos de Campina umas 8 da manhã, já com minha tia Lurdinha (84) que se agregou ao grupo.
Ao descer a Serra da Borborema, e ingressar no Sertão, notamos que algo estava diferente de seis meses atrás.
Estava tudo verdinho. Aqui e acolá cruzamos com pequenos açudes de beira-de-estrada todos com água, de chuvas recém-caídas.
Abrimos os vidros do carro para sorver o perfume da Caatinga, quando floresce, após as chuvas.
Em dez anos de seca inclemente, talvez muitas daquelas flores só agora estivessem sendo paridas pela mãe natureza.
Aprumamos o carro em direção à Taperoá, e logo em seguida Matureia, cidadezinha de 6.000 habitantes que fica na base da maior montanha da Paraíba, o "Pico do Jabre".  Jabre significa abismo.
No caminho, paramos para comprar umbu, daqueles docinhos de uma boa safra, e a festa foi completa.
Mas, o encantamento era olhar o verde. Engraçado que quem sempre o vê não percebe mais a sua beleza. Só olhares cinza, marrom e da cor de terra vermelha podem realmente apreciar o verde das matas e o azul das águas.  Vez por outra é preciso desassossegar o olhar, desacostumando-o às rotinas das coisas sempre vistas
Para ele voltar a perceber como elas ainda são belas, e estão ali pertinho, encobertas pela névoa da indiferença, que sobre elas precisa se dissipar, para novamente lhes valorizar.
O verde no Sertão que contemplávamos, em silêncio reverencioso, fazia parte desse momento em que só damos valor a algo quando temos a consciência que nem sempre o teremos por perto novamente.
E nós apreciávamos.
Passavam por nós revoadas de pássaros, voltando de onde um dia migraram. Algumas garças e patos selvagens davam o ar da graça, tornando mais expressiva ainda as composições da água, verde, rochas, cactos, e agora eles, vidas que ali teimavam em voltar.
Já era por volta da 11hrs quando ao longe vislumbramos uma cena idílica. O estonteante Pico, e o Casarão do Jabre, tendo à sua frente um enorme barreiro (açude) de águas virgens, das primeiras chuvaradas em tanto tempo.
Adentramos no estacionamento do Hotel Casarão do Jabre, e uma gostinho de casa de avôs nos encantou. Lá fora, esperando-nos na calçada, estava Dalvanete Dantas, proprietária do hotel, museu, recanto cultural, restaurante e imensa coleção de plantas que cultiva, com suculentas de todos os tipos e belezuras.

Ela foi logo nos abraçando, nordestinos gostam de abraçar, e dizendo:

"Me chamem de Dalvinha".

Entrando no recinto, um som baixinho de violão tocava Cinema Paradiso. Pensei, não é sorte, é graça! Amo essa música.

Mamãe enlouquecia com o mói e ruma (muitas/quantidade) de plantas que via.

E foi logo dizendo, têm mudinhas pra nós.
Dalvinha sorriu e disse: não se preocupem, todas sairão daqui com mudinhas de plantas.
Eis que chega o Eduardo, o excelente Chef do pedaço, trazendo caipirinhas e uns petiscos de bode,  que as citei numa das trocas de email que fiz com o local, mas que jamais pensei que eles se lembrariam. Afinal de contas eu disse tirando onda, numa das trocas de email, quando ela perguntou-me: " O que posso fazer para recebê-los bem, de que necessitam? Falei que era só nos esperar com caipirinha, bode e mudas de plantas para mamãe, e estria tudo certo. rsrs.

E, ela lembrou de tudinho, num email de mais de 15 dias atrás da data de chegada.

Entrei na sala de estar do Casarão, um enorme saguão onde funciona o Restaurante, com um uma palco estilizado nos fundos, usado em shows e manifestações culturais de artistas da região que incentiva suas apresentações, como repentistas, emboladores de coco, sanfoneiros dos bons e tudo que exale poesia popular.

Papai foi visitar as salas de museu das coisas do nordeste e suspirava de emoção. Encontrou-se com vários objetos dos tempos de sua infância, e com gosto ia me explicando o sentido de cada um deles, sempre começando com a charada: "Sabe pra que é isso?". eu não sabia, e ele se regozijava me ensinando qual o valor e uso daquele objeto, em tempos tão difíceis para o sertanejo, no século 20.

Mamãe e tia Lurdinha, que a esse momento já tinha provado de minha caipirinha e gostado, percorriam os enormes jardins, um verdadeiro horto, com todo tupo de planta ornamental que venha a imaginar.

Ouviam-se os suspiros de exclamação delas.

Belisquei-me para acordar, afinal de contas aquilo ali só podia ser um sonho.

Boa musica, um açude na frente, um morro ao lado, um pé de umbu carregado nos fundos, museu, palco, jardim, e a doçura de Dalvinha, a atenção de Eduardo, o jeito de querer nos agradar de Denise e Raimundo, os camareiros do hotel,  não podia ser realidade.

Então, passado as visitas percebemos que estávamos brocados de fome, e almoçamos como reis, já com a presença da Dalvinha em nosso grupo.

Era galinha caipira, arroz de festa, bode guizado, farofa de pra que isso, suco de umbu, caju e laranja, e uns doces amostrados de tudo que é bom.

Adotamos a Dalvinha, ou ela nos adotou, desde aquele almoço.  Foi amor á primeira vista.
Dalvinha é um poço de generosidade, sabedoria, doçura, atenção, gentileza e respeito a todos. Temos muitas outras cenas com ela, por exemplo de quando ela nos chamou para conhecer a fazenda de sua mãe, ou a Pedra do Tendó.
Ou de quando via lugares bonitos que estavam fechados, e dizia: "Vou falar com fulana(o) que ela (e) abre pra nós". Uauu!!!

Além disso, é uma ativista ambiental e divulgadora cultural. Ou seja, tudo de bom!

Agora éramos cinco, em nosso time. Jogando no ataque, com seus 84 anos estava minha tia Lurdinha.
No meio de campo, trocando uns passes, meu pai Evandy e mãe Denise, com seus 80 e 79 anos. Na defesa, Dalvinha com seus 71 anos. e no gol, eu tava ali a postos, com meus 53 anos.

Fomos conhecer o chalé das meninas, e o nosso, que ficava ao lado. Um chalé encantador, com redinha na varanda, e bem amplo, acomodou minha tia e mãe como rainhas, o que elas são.

Guardamos as malas, e meu povo foi descansar um pouco.

Eu fui tomar banho de barreiro. Uma experiência única. Encontrei logo, numa de suas margens, um melhor acesso e por ali adentrei naquelas santas águas. Delícia.
Não era água de poço, mina, fonte ou rio. Eram águas captadas somente da chuva.

Olhei no relógio, eram 15hrs, ainda tinha uma hora de banho, até subirmos ao Pico, uma vez que o sol no nordeste se põe as 17hrs.

Mirei o olhar para a margem, pois algo nela se mexia esvoaçadamente. Eram borboletas pretas, castanhas, brancas e laranjas. um mote delas. Elas fizeram daquela margem um ninhal.
Aproximei-me com calma, e fiquei um tempão contemplando-as, de dentro da água.
Apurei o ouvido em direção a uns grasnados, e vi um casal de pequenos patos silvestres nadando no barreiro. De onde eles vieram?  Não sei. Só sei que eles estavam muito felizes. Pelos grasnados percebi que estavam namorando. E, ali formariam uma família, esperançando a vida até onde a água existisse.

Voltei para o Casarão, caminhando uns cem metros, no máximo, e fui logo chamar o grupo para subirmos o Pico, pela estradinha de paralelipípedos mantida pelas operadoras de TV e celular que possuem antenas no seu alto.
Dalvinha garantiu que o carro subia.
E partimos nos cinco todos animados, tal qual crianças em parque de direção.
Botei uma primeira na base do Pico, na cota 0, e subimos 1.200 metros, numa estrada de perder o fôlego. De medo, e de tanta beleza que vimos.
Daquelas que só passar um carro, e se outro vier descendo, alguém terá que botar ré. O que tornava mais emocionante ainda a subida.

Dalvinha tranquilizava-nos: "Não desce carro nessa época, dia de semana e com pouco movimento".

Mamãe rezava uma Ave Maria sobre a outra. Após uns 800 metros de subida, o motor não aguentou. Parei o carro. Botei no freio de mão .Pedi que os mais novos descessem, para diminuir o peso do carro, e eu tentar vencer uma curva íngreme, esperando-os à frente.
Funcionou.
Após uns 10 minutos, para percorrer uns 20 metros andando e morro acima, Dalvinha, mamãe e papai chegam até nós, vindos com os bofes de fora.  Sorrimos muito, e demos partida no carro. E ele conseguiu vencer os 400 metros que faltavam.

Chegamos ao alto do Pico, do qual se avistam terras de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Mas, se forçar bem a vista, a depender do número de caipirinhas que se tomou no Casarão, dá pra ver  Ceará e a Átrica.

O sol foi dando seu show. As meninas contemplavam o horizonte sentadas. Papai explorava as redondezas. E eu fotografava tudo, enlouquecido com tamanha beleza.
Dalvinha deixou mamãe e tua Lurdinha em lugar seguro, e me levou para conhecer 4 quadrantes de rara beleza que só guias experientes conhecem e sabem como neles chegar. Em cada um deles, não tinha como não se emocionar com tanta beleza.

Para onde eu mirava a vista era algo que surpreendia: flores que só dão naquele alto, bromélias raras, pássaros e seus cantos,  orquídeas, rochas sinuosas e um vento fresco e revitalizador soprava minhas faces, e arejava minha vida com o perfume do sertão. Aquele que deixa tudo com um gosto de quero mais.

Voltamos para o hotel extasiados, e em respeitoso silêncio.  À noite, após um delicioso jantar, daqueles que o Eduardo prepara no fogão à lenha,  proseamos mais um pouquinho e voltamos para os chalés.
O Casarão fecha as portas 21hrs. Dalvinha, e os funcionários vão para suas residências, nas imediações.

Agora, éramos nós os proprietários do pedaço. Tudo escuro, e uma paz tremenda invadia o local, sem sem presença urbana, ou seus sons, que mutias vezes agridem o ambiente.
Dava pra se ouvir o som das rochas, negociando sua presença com os ventos.
Dava para ver o lampejo verde, dos vagalumes, a iluminar noites de breu.
Os sapos, grilos e assemelhados formavam uma orquestra, com sons em profusão vindo do barreiro.
Deitados na rede, em silêncio orante, contemplávamos as estrelas, em noite sem nuvens.
Os mais velhos foram dormir.
Fiquei redeando na varanda, até umas 2 da manhã, quando notei que é nessa hora que a natureza dorme também.
Dorme o grilo, a rã, o pato, o galo e o cachorro que longe falavam.
Dormem as pedras, dormem as plantas. Dorme até o vento.
E, é quando todos os sons se calam que podemos finalmente ouvir o som de nosso coração.
Aquele que diz, como seria bom se pessoas que amamos pudessem viver o que estou vivendo!
Pelas seis da manhã, acordo com cheiro de lenha crepitando. E um novo dia está pronto para acontecer, com todo o seu esplendor novamente.


Para não dizer que não falei em sementes e sal. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Nunca esqueço alguns almoços celebrativos de quando eu trabalhava na BBTS (BB Tecnologia e Serviços), nos quais saíamos tal qual uma manada esfomeada, e feliz, por ter acontecido algo legal no mundo do trabalho. E era preciso comemorar coletivamente aquele gol.
Nestas ocasiões, geralmente optávamos por um restaurante que ficava a uma travessia de nosso prédio, na 508 Norte, aqui em Brasília. Aprumávamos o faro em direção ao Xique-Xique, nosso vizinho de avenida, situado do lado de lá. Lá chegando eu pedia o meu prato predileto: carne de sol, com feijão de corda, e farofa d´água. Um prato de comer ajoelhado, de tão bom.

Lembrei que esse prato só foi possível, com o domínio da arte de semear e de salgar a carne, consideradas a maior revolução no modo de vida nômade da Humanidade, no seu processo de produção coletor-caçador, há 10.000 a.C e 2.000 a.C respectivamente.
Então, com o sal e as sementes a revolução se fez. O excesso de proteína animal, numa determinada época do ano, poderia ser guardada para tempos futuros, com o uso da salga. E as frutas, cereais, legumes, tubérculos e vargens podiam ser plantados, em períodos do ano mais favoráveis, criando com sua safra as condições necessárias para que o Homem finalmente se fixasse em algum lugar, e ali se estabelecesse como vivente, e não mais como sobrevivente - que migrava de lugar em lugar para coletar e caçar.
Entre uma garfada e outra, pensei em tudo que nos ocorre, em nossa saga de existir, que pode nos tirar dessa condição de nômades de nós mesmos, de eternos sobreviventes, e nos fixar como viventes. Tudo aquilo que pode nos ajudar a desfazer as malas emocionais e deitar sobre a terra alicerces bem fundamentados de coletividade.

Se para o Homem Neolítico, a revolução foi possível com o domínio das sementes e do sal, para o Homem da pós-modernidade, nesse Séc. XXI que mal estreia, a revolução se dará pelo domínio do cultivar de emoções positivas, e do salgar a vida com o sal dos valores.
Acredito que após nossa saga de mais de 12.000 anos, retornamos ao período pré-neolítico, e por aqui impera novamente o reinado dos nômades, com seus caçadores tecnológicos de modernidades líquidas e com os coletores de pequenas felicidades alheias.
Paradoxalmente, portanto, ainda faço parte do grupo dos que acredita que estamos no limiar de um transição disruptiva no estilo de vida da sociedade. Fruto do cultivar das emoções-pensamentos positivos; e no salgar dos valores universais. Expressos sempre em função da melhoria da vida do outro.

Como toda transição, quem está dentro dela nem sempre a vê, logo ali chegando, trazendo os tempos novos.
O povo do bem está se juntando, e em todo o mundo. É que estamos fartos de tanta violência e egoismo. Estamos cansados de tanta comunicação digital, que não comunica nada, pois só fala, e não escuta ninguém. Estamos cansados de tanta destruição na natureza, e despersonalização humana.
Queremos desfazer nossas malas comportamentais, e habitar num outro mundo possível.
Sim, eu sei, pode não ser coisa para esse século. Mas, virá esse dia!
Tivemos a revolução agrícola, a industrial, a tecnológica e a próxima será a comportamental.
Que não afetará o modo de produção, mas o modo de ser gente.

Nós nos perdemos como coletividade. É fato. Perdemos capital social e de humanização das instituições e trabalho. E andamos sentindo falta de algo, como o valor de trocar uma prosa, com as cadeiras na calçada da rua, ou de um abraço caloroso, para além das datas festivas.
E sentimos falta de algo, que em nossas lembranças mais ancestrais ainda mora, o valor do coletivo partilhado numa roda de fogueira, dentro de uma gruta quentinha e segura.
E é na consciência da falta que o desejo impera.
E, somos todos desejantes de tempos novos.
Eu vejo vir vindo os tempos de uma nova revolução.
Que passa pelo reeducar emocional do otimismo, da compaixão e da esperança participante; e pela práticas de valores da paz, gratidão, generosidade, honestidade e respeito.
Peguemos nossos alforjes e os enchamos com esse tipo de sal e sementes.
E, deixaremos de ser nômades de nós mesmos, sempre em busca de uma condição para ser mais feliz: um Se. Ou de um acontecimento: um Quando. Aprenderemos o valor do agora, com sua ação positiva nossa de cada dia, em ação positiva nossa de cada dia, um outro mundo está sendo erguido, silenciosamente, em gestos concretos que vão ecoar nos recantos do infinito.

O Valor das Coisas Simples do Cotidiano ( Autor Ricardo de Faria Barros)

O dia amanheceu com sabor de cafezinho na cozinha de meus pais. Com gostinho de paz e amor.
Após dois dias arrumando a mudança, com a valiosa ajuda de filhos, noras, genro e a diarista, finalmente por aqui um lar se fez.
Nada mais estava encaixotado, esperando um dia qualquer ser aberto, como minha escultura Brincante, comprada há um ano, e que morava numa caixa. Tadinha.
Acordei cedinho, a tempo de flagrar as folhas se despedindo das gotinhas de orvalho que pela madrugada fizeram-lhes companhia.
Após um saboroso café, daqueles coados na hora, saí para caminhar e explorar as imediações, da quadra 205 Sul, em Brasília, para onde mudei-me recentemente.
No caminho, deixei uma de minhas confortáveis poltronas de escritório para os simpáticos porteiros. Para que precisarei de duas poltronas?
Eles gostaram muito da doação. Falaram-me que a que usavam, naquela guarita da recepção, estava quase na pele e osso, uma verdadeira tábua, e que o presente chegou na hora certa. Um deles falou:  “E tem até recosto reclinável, e é de couro!!” 
Como são genuínas e belas as razões para ser feliz dos mais simples.
Saindo da guarita segui em direção a uma barraca de legumes, que margeava a pracinha da 205.
Ali chegando conheço o seu proprietário, o Sr. Nicácio, há 35 anos naquele ponto vendendo suas frutas e verduras.
Ele me conta que viu crianças brincando de pega-pega, por entre as estantes de frutas, que agora são “homens feitos” e que o visitam com seus filhos.
Sr. Nicácio é daqueles terapeutas de feira. Paraibano, de Pombal, ele acolhe a todos com uma mansidão e um jeito bom de ser que exalam paz no ambiente.
Passei um bom tempo sentando num dos toscos banquinhos que ele deixa para os clientes, com mais tempo, que nem eu.
E pude comprovar que aquele espaço virou local de ajuntamento social. De criação de vínculos. E ele conhece a todos elo nome. Então, ninguém compra um maço de alface e volta. Antes, proseia um pouco com ele, e com outros que ali escolhem as verduras fresquinhas.
Como precisamos, no frio concreto árido da cidade grande, de uma Kombi de frutas e verduras, pilotada pelo Sr. Nicácio, estacionada num cantinho de rua, que vira um espaço de trocas terapêuticas.
Fui vendo uma procissão de moradores se alternando, entre um quiabo, um limão e um queijo, todo fresquinho.
A todas e todos, Sr. Nicácio destinava um dedinho de prosa, com direito a tomar um cafezinho que ele traz de casa, sem custo algum para seus clientes.
Comovido por tanta paz e harmonia, naquele pedacinho do DF, fui buscar em casa um de meus livros e o presentei.
Aí, ele sacou, de uma das gôndolas, um outro livro que já tinha lido, e me retribuiu com ele, dizendo: “pode levar e ler, é muito bom”!
Voltei para casa cheio de amor no coração. Como é bom saber que temos um Sr. Nicácio por perto, a nos abastecer, muito mais de que com seus legumes e hortaliças, mas de seu melhor lugar no mundo – o seu jeito de ser: manso e espiritual. 
Talvez seja esta justamente a mística das feiras livres. Não vamos consumir nelas o que de tudo ali se vende, vamos em busca de relacionamentos significativos com os feirantes.
Coisa que está ficando rara, nesse mundo de vínculos exclusivamente digitais, e que fazem um bem danado. O outro, ali pertinho, de carne e osso, a um simples toque de afeto, importa e pode nos ser muito terapêutico.  Existem anjos disfarçados de feirantes, copeiros, zeladores, diaristas, vigilantes e até “guardadores de carros”. É só ter olhos para ver, e um coração para acolher.
Onde estarão Antônio, Arnaldo, Claudio e Nicácio para os demais moradores do bloco G?
Talvez muito nem saibam quem eles existem, conheçam seus nomes, ou quando por eles passam, reconheçam o trabalho deles.
Visto que atrás de uma farda, podemos nos tornar invisíveis a olhos criados na urbanidade, apressados e individualistas demais, para acolher o outro, o diferente daquele mundo em que habitamos.
E aí, perdemos uma oportunidade ímpar de aprendermos um pouco mais sobre a arte da sobrevivência, numa lida tão difícil como a deles, e sem perderem a esperança e a ternura em acreditar que o amanhã será melhor, e que isso também passa, nestas pessoas tão presentes, quando externam gratidão, e abrem um sorrisão ao ganharem um livro, ou uma cadeira usada de escritório.

Se o pessoal que milita e faz políticas em saúde pública soubesse do valor de um ponto de feira, como o do Sr. Nicácio, dava a ele melhores condições de ali se estabelecer.  Aquilo lá é curativo.

É preciso estar presente, para saborear o presente de viver.(Autor Ricardo de Faria Barros)

Há vinte anos que moro em Brasília e nunca tinha habitado nos imóveis projetados por Lúcio Costa, no que chamamos por aqui de Plano Piloto, com suas duas Asas que mais se parecem com um avião: a Sul e a Norte. Recentemente, mudei-me para a quadra 205, na Asa Sul, e minha primeira sensação -  ao adentrar no corredor daquele prédio de 6 andares, em direção ao meu apartamento, foi de assombro.

Mas, para se assombrar precisamos estar presentes ao momento. 

Passei por muita coisa em minha vida sem prestar atenção direito a elas.  Ansioso demais, correndo demais, preocupado demais, sem estar inteiro e completo ao momento que vivia.

E, nossas lembranças pedem presença. Sem a presença, como sentiremos a ausência delas, tempos depois, no que nós brasileiros chamamos de saudades?

Pois bem, naquela segunda feira, 17hrs, eu estava presente ao caminhar naquele corredor. Éramos só eu e a corretora, caminhando por um vão de uns 30 metros, num silêncio quase de templo sagrado. 

A parede direita do corredor era completamente fechada por uma bloquinhos de concreto vazado, que deixavam passar luz e uma gostosa brisa, compondo com seus enlaces uma estrutura surreal, que transmite uma paz muito intensa. Olhando para baixo, por entre os cubos vazados, vemos tudo lá fora, mas quem tá de fora não consegue distinguir o que se passa lá por dentro, dando um tom intimista e bem aconchegante.

O nome dessa obra de arquitetura é Cobogó, e trata-se de um acrônimo, com as iniciais dos  sobrenomes de três pernambucanos, que trabalhavam com construção civil, o Coimbra, o Boekmann e o is. 

Trata-se de uma invenção genial pra fechamento de paredes, essencialmente brasileira e premiada no munto todo, pela sua funcionalidade de fechar espaços, sem fechá-los, permitindo que o interior, pelos cobogós protegidos, fique numa temperatura amena, com boa luminosidade e seguro.

Sábado levei meu quarto filho, o João Gabriel de 8 anos, para conhecer o cafofo do pai.

Ele entrou no corredor em prestar atenção. Eu pedi que parássemos. E o ensinei que ele estava adentrando numa área premiada da arquitetura nacional, e falei sobre o cobogós. 

Até o passo dele mudou. Agora ele passava a mão na parede, olhava por entre seus furos, se apoderava daquilo que estava vivendo, da experiência de transitar por uma parede fechada de cobogós.

Quantas coisas em nossa vida as vivemos sem maiores deslumbramentos, ou encantamentos, até que alguém nos toca com o amor, com a amizade, e nos ensina o que de fato são, qual sua importância, e é como se abrissem novos olhos sobre a mesma. E, nunca mais seremos os mesmos. 

Eu sabia do cobogó pela Denise, minha cliente de coaching, que numa das sessões me deu uma aula sobre aquela peça estrutural. Mas, nunca tinha vivido a experiência de caminhar por eles. Eu sabia no plano teórico. Agora, eu vivia o saber, tornando para mim um acontecimento.

Tenho por hábito fotografar flores, mas qual a sensação de fotografar um flor que vi num país distante, tão bela, na mão de uma pessoa amada, ao caminhar de volta para meu apartamento?  

É a sensação de se viver uma experiência, que só foi possível por eu ter prestado atenção àquela flor estranha, e incrivelmente bela, tempos atrás. 

A vida pede atenção. Pede que estejamos presentes ao momento, desligando os vários hds cerebrais que ficam processando em paralelo, enquanto estamos vivendo algo. 

Mus filhos diziam uma coisa que agora não mais me orgulho dela. Sempre que levavam amigos lá em casa, e eu ficva pilotando os comes e bebes, algum dos amigos mais educados dizia: "Seu Ricardo, sente um pouco conosco, nós agora assumiremos a churrasqueira e as bebidas". 

Aí meus filhos diziam assim: "Papai não para, não senta, está sempre fazendo algo!"

Eles não diziam em tom de crítica. Mas, hoje vejo que muto de minha amnésia de focar lembranças era por não ter parado para degustar com calma a experiência que vivia. Sempre agitado, fazendo duas, três coisas ao mesmo tempo, sem ansioso de não dar tempo, acabei por perder tempos memoráveis, por não ter me permitido, para os temas secundários que vivia.
É até bíblico. Conta uma cena, nos evangelhos, que Jesus foi visitar duas irmãs: Marta e Maria. 
Uma delas, após Jesus entrar no seu lar, ficou lá dentro se arrumando, limpando a casa, botando lenha no fogão e mexendo as panelas, vindo de vez em quando falar com Jesus. A outra, Maria, parou tudo que estava fazendo, e ficou dando atenção pra Ele. Apreciado aquele momento, que convenhamos, não era todo dia que acontecia de Jesus entrar numa casa, durante suas peregrinações.  
O próprio Jesus, ao dirigir-se à irmã ansiosa, nos dá uma excelente reflexão: "MartaMarta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada..."

Nesse modo ansioso ligado, perdemos a capacidade de contemplar os cobogós, as flores que falam em sinais, o encontro com amigos, ou aquele pôr do sol que passa despercebido, ao retornarmos do trabalho. Sem falar naquele luar do sertão que se abre por inteiro,  numa noite de primavera, e que também não temos "tempo" para encostar no acostamento de nossa vida e contemplá-lo.

Precisamos aprender a estarmos presentes novamente, naquilo que de importante estamos vivendo, desligando momentaneamente outras janelas de processamento neurais.

Se vamos visitar um casal que teve um bebê, e se só tivermos 15 minutos para cumprir aquele compromisso, ainda assim os 15 minutos precisam ser focados naquilo. Não é a quantidade do tempo, mas a intensidade do mergulho nele, o que determinará as fronteiras de nossas lembranças.

Nunca esqueci uma pesquisa com adolescentes cujos pais trabalhavam muito, e que não tinham muito tempo com eles, ao retornarem de suas externuantes jornadas, antes deles irem dormir. 

Os jovens que disseram que seus pais passavam mais tempo com eles não havia nenhuma relação com a contagem do tempo. Assim como os que percebiam os pais mais ausentes também.

Tinha pais que passavam duas horas líquidas no lar, com os filhos, à noite, e os filhos os percebiam como ausentes. 

Tinha pais que passavam apenas 30 minutos, chegando em casa após o terceiro turno, pegando os filhos já tomados banhos e de pijama.  E ao perguntarem sobre a percepção de tempo que os pais passavam com eles, estes jovenzinhos diziam ser suficiente, sem bom, ser muito tempo.

É que naqueles 30 minutos os pais eram 100% presentes aos filhos. Contavam histórias de seus trabalhos, ouviam a dos filhos, penteavam os cabelos deles, e tinham rotinas sacramentais de cuidado para com eles, antes deles irem dormir, como um beijo na testa, ou uma música que cantavam. 

Percebem que o tempo pede a educação de sua presença? O tempo é com um alimento que se evapora em nossas mãos, e que só fica nelas caso o degustemos com sabor. O tempo pede o sabor das coisas, pessoas e realidade.  Pede, para ser bem vivido, foco no que se faz, contemplação, vazios, desligamentos de ansiedades e preocupações que tiram o presente do presente. 

Corta a cena e escuto crianças brincando no corredor dos cobogós. Logo enturmo o João Gabriel com elas e aquilo lá vira uma festa. Eles brincam de polícia e ladrão. JG é a polícia. O Davi, o Artur, O Lucas e A Maria são os ladrões.

Mas, JG não contava com uma estratégia dos "ladroes, para dele fugirem. Eles escalaram os cobogós. Aposto que os criadores dos cobogós também. E a pequena Maria correu do JG também em direção á escalada dos mesmos.

Como percebi esta cena mágica? Estando presente ao meu filho, degustando os abor de vê-lo brincar com os novos amigos. 

Estar presente é o cobogó de nossas emoções. Nos mantém arejados, protegidos do sol e seguros, para nos envolver plenamente com o que vivemos.

Nos mantém confortáveis diante do outro para acolher sua grandeza, sua história de vida, seu momento único que generosamente nos doa. 

Paredes não são cobogós. Elas fecham espaços. Paredes não permitem os fluxos.  Não sem razão a moda agora é abrir os vãos e dividir os espaços com as coisas, resgatando inclusive a cozinha para a área social. Tudo vira social. 

Precisamos quebrar nossas paredes emocionais, substituindo-as por cobogós. Que nos darão um certa privacidade e individualidade, sem nos fechar para o outro, em nosso egoíco mundo.

Precisamos vazar as paredes de nossos comportamentos, para que o outro seja a ele permeável. Isto se faz com mais tolerância, ética da convivência e respeito às diferenças.

Precisamos arejar nossos pensamentos, tirando dele a toxidade do pessimismo e negativismos, preguiçosos em si mesmo, na sua força transformacional. 

Precisamos acumular capital tempo, com investimento no estar presente em tudo que vivemos, sendo inteiros e completos naquilo que o momento a vida pede nossa atenção, ousando parar processamentos em paralelo que só contribuirão para que os bons momentos vivido caia nos porões da indiferença.  

Sejamos cobogós para nós mesmos, para o outro e para a realidade: arejados, permeáveis, sem pegar pressão por tudo de pequenos que a rotina do dia a dia nos apresenta, e abertos a outras prumadas do olhar.  A ansiedade é o vilão do capital tempo de qualidade. Ela é como a maresia no ferro, ninguém a vê, mas seu efeito causa dano tremendo às fundações das estruturas.  A ansiedade é a maresia de uma vida plena de sentido e de qualidade. 
E é preciso muita coragem para parar processamentos em paralelo que consomem energia emocional e que tiram capacidade de apreciar o que ocorre no presente. É preciso muita coragem para erguer os tijolos da felicidade possível, pois necessariamente passarão por uma mudança no estilo de vida. E isso não é fácil.
Mas, espero que este texto possa chegar em alguma pessoa tipo a Marta, dos Evangelhos, ou tipo eu, de tempos atrás, com meu jeitão elétrico de ser,  e alertá-lo(a ) a tempo de curtir coisas legais, estando mais presentes a elas.

Manual de Sobrevivência de um Zangão Descasado (Autor Ricardo de Faria Barros)

Aprendi a ligar uma máquina de lavar. E a sacar como funciona o liquidificador e a máquina de fazer café, ou de grelhar carne, sem óleo. 
E que nunca deve colocar pano de chão junto com as outras roupas.
Nem roupas com cores berrantes, junto com as de cores tímidas.
E que elas não secam sozinhas, precisam ser colocadas num varal.
E que as camisas sociais, se colocadas num cabide, ficam melhor para serem passadas.
Nem se deve levar comida para a cama.
Aprendi que a geladeira não tem um sistema de reabastecimento próprio.
E que não adianta o que compre, ou guarde nela, algo sempre vai sobrar, azedar, ou perder o prazo.
E que cabe a você fazer esta classificação. Eles não sairão sozinhos da geladeira, mesmo sendo um aniversário que ali completam.
E que as forminhas de gelo não se enchem sozinhas, após serem servidas em sucos e uísques.
E que existe uma técnica de propagar a vida das comidas que é botar as bichinhas para morarem no freezer
Aprendi que as plantas não se molham sozinhas.
Que precisam que delas se retirem as folhas secas e flores.
E que gostam de sol e vento, nem sempre na mesma ordem.
Mas, que gostam também de sombra e calmaria, e que cada um tem um temperamento.
E que não adianta comprar aquela flor linda, aquela touceira maravilhosa de flores, elas vão murchar, e não vão ficar como na loja do floristas, e não adianta se culpar.
Aprendi que a casa não é auto-limpante.
Todo dia tem pó caindo em cima de tudo, mesmo que não veja, mesmo que feche tudo, ainda assim o desgraçado estará ali, infernizando tua vida.
E que as frigideiras, após uma boa fritada, precisam ser colocadas em água fervente, para melhor serem lavadas.
E que as roupas não voltam sozinhas para as gavetas, nem tampouco os livros, e todo tipo de tranqueira que se manuseie.
E que antes de se despedir dos amigos, que vieram te visitar, um mutirão de limpeza cai bem.
E que as janelas precisam ser fechadas, em caso de chuva, e que precisam ser abertas, em caso de sol.
E que o ralo da pia não é como um saco sem fundo que cabe tudo que ali se jogue
E que os pratos, da comida que se come, amanhã estarão sujos ainda, mesmo que use a técnica de enche-los com água, com preguiça de lavá-lo no mesmo dia. E, infelizmente, se acumulam.
Aprendi que não terá ninguém dizendo que já é hora de ir dormir.
Ou de parar de beber. Ou de me agasalhar, pois fará frio.
Nem haverá passos no quarto te acordando, ou o som do chuveiro denunciando que alguém já tá desperto.
E que não adianta, sou eu quem precisa se lembrar de tomar os remédios.
E que é de bom tom limpar os restos de coisas que ficam nas beiradas do vaso, enquanto frescos. eca.
E que as luzes não desligam sozinhas, e que por melhor que seja a diarista, muita coisa precisará ser feita nos intervalos de sua visita.
Mas, sobretudo, aprendi a me amar e a cuidar de mim.
A ouvir os sons do infinito, tocando nas cordas de meu coração.
A desafiar a natureza das coisas reinventando-se um pouco, a cada dia, e para melhor.
Aprendi o valor de acordar com um "bom dia, lindo dia".
De um cafezinho e prosa com o amigo zelador.
Aprendi o sentido de contemplar o entardecer, com seu pôr do sol em tons avermelhados.
E que as pessoas estão ali pertinho, a um clique, e que não existe a menor condição de ser solitário, mesmo estando sozinho. E que isso também pode ser muito bom.
Aprendi que não precisaria estar descasado para já ter aprendido tudo acima, e que era só ter participado mais da vida do lar, assumindo outras tarefas, diminuindo a influência do machismo que existia em mim.


Cartas ao JG - Não Saia da Pista! (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 8 anos)


Estávamos zanzando no shopping, naquela tarde de sábado, quando tu avistou uma pista de patinação e teus olhos faiscaram.
Perguntei se tu queria ir. Tu me olhou, entre empolgado com a novidade, e assustado com os tombos que via de quem nela se aventurava, mas deixou-se conduzir pelo espírito que nos motiva a fazer algo novo, a desafiar nossos limites.
E tu foi, e por uma hora, deve ter levado uns trinta bons tombos.  Algumas pessoas que olhavam os aprendizes de esquiadores caindo, riam de tu.
Mas, tu as ignoravam, solenemente.
Sem se deixar abater por aqueles risos, que mangavam da queda dos outros, tu se levantava, segurando-se nas barras laterais, e começava novamente a patina no circuito retangular.
Sempre que passava por mim parava, todo orgulhoso, e me perguntava se eu tinha visto o que tu tinha feito.
Nunca me perguntou se eu tinha visto tuas quedas.
Sempre se eu tinha visto que tu conseguira fazer a curva, sozinho, sem segurar nas barras, ou que tinha conseguido uma volta inteira, sem cair.
Eu aprovava teus esforços e o incentivava a continuar desafiando limites, e superando-se a si mesmo.
Numa de tuas quedas, o pequeno Mateus te deu a mão. 
Foi uma cena linda. O Mateus já tinha mais horas de vôos e de quedas, e embora menor que você, ele parou para lhe socorrer.
Depois, você deu a mão a ele e ambos passaram a patinar de mãos dadas, como velhos amigos.
E seu equilíbrio melhorou muito. Como precisamos de Mateus em nosso viver!
Aí teve uma hora que foi o Mateus que levou um tombo feio, numa pirueta que ele fez para te mostrar com era. E lá foi tu, dar a mão ao Mateus, e ambos caíram no chão e ficaram sorrindo, tirando o excesso de gelo que grudava nas roupas e luvas.
Eu olhava para aquilo tudo embevecido.
Tu estava dando uma aula sobre a arte de viver.
Que na vida é bem assim mesmo. 
Não tem almoço grátis.
Que temos que nos esforçar, ter disciplina, treinar, e aprender a cair e a levantar, e muitas vezes.
E não desistir do jogo, antes do apito final.
Tu tinha 60 minutos de pista, e usou todos, sem desistir pelo meio do caminho. 
Sabe filho, durante tua vida mais adulta, pois que agora tu só tem 8 anos, esta pista de patinação vai aparecer em mutias situações que enfrentará.
Daquelas que um misto de vontade enfrentar, e o medo de não ter êxito, ou se machucar, estarão presentes.
Para enfrentá-las, faça como fez nesta tua primeira vez numa pista de patinação.
Não desistindo de teu sonho de patinar.
Vai ter coisas chatas que lhe acontecerão, tal qual os tombos que levou. Vai ficar uns tempos de molho, desorientado com o que houve, vai olhar para os lados, até envergonhado, ou sentindo-se culpado, ou impotente. 
Nestas horas, tenha calma. Vá se reerguendo devagarinho. Busque apoio. Não banque o fortão, de querer resolver tudo da vida sozinho. Busque ajuda, tal qual aquelas barras de ferro que nelas segurava, ao lado da pista.
Vai ter acontecimentos que vão querer que tu abandone o jogo, antes de terminar o tempo contratado. Vão soprar na tua cabeça de que tu não é capaz, que não dará certo, que tu é isso, ou aquilo, e que é melhor desistir. Besteira. Tu ainda tem mais minutos para tentar novamente.  Já pensou se tivesse desistido nos primeiros 30 minutos? Ou ficado chorando caído no chão? Dizendo que não conseguiria?
Caminhe mais um pouco, mais uma légua, sempre que quiser desistir de algo. Lembre-se da pista de patinação que tu tinha 60 minutos. Então, não desista nos 30 minutos. Vá até o final do tempo de teu viver. 

Estas situações vão exigir renúncias, esforços, novos aprendizados, e podem até criar machucados em teu ser. Mas, repito-lhe, prossiga!
Encare-as como encarou aquela pista de patinação.
Não escute os que ficaram rindo de ti. Os que vão querer te diminuir, ou que ficarão rindo de teus tombos, sem oferecerem uma mão sequer, nem tampouco um olhar de compaixão, fruto da empatia.
Não deixe que eles morem em teu coração, imobilizando-o para continuar.
Faça como fez, dê um solene desprezo aos risos de teus tombos, bata o gelo que ficou impregnado em teu corpo, e recomece.
Talvez o aprendizado maior da vida é a forma pela qual nós damos respostas á ela, e não dela esperamos respostas.
Ou seja, a forma pela qual nos reerguemos após situações inesperadas de perda, frustração, decepção chatas, ou até a nós dirigidas, e que nos machucaram, é o que faz a diferença entre uma pessoa de coragem, e um covarde.
Não desista nunca de teus ideais, objetivos, metas e sonhos. Não terceirize sua pista de patinação, para que outro patine por ti, e em teu lugar.
Tu verás que do nada aparecerão os Mateus que poderão te ajudar a enfrentar melhor as dificuldades que aparecerão.
Muitos, por já terem passado por situações semelhantes, e terem aprendido a patinar melhor, sobre elas.
Outros, apenas por serem teus amigos, e contigo se solidarizarem, ajudando-lhe a se erguer e voltar pra pista.
Não saia da pista. Não desista, ao levar dezenas de tombos. Logo, logo, dobrando a esquina do futuro, vai acontecer de tu conseguir dar duas voltas inteiras, sem segurar nas barras de apoio, e sem cair. 
É só perseverar, continuar aprendendo, exercitando, criando resiliências, que só a vida pode de fato produzir. Resiliência é um negócio que só se desenvolve nas situações tipo "primeira vez em pista de patinação". 
Mas, quando vamos passando por situações desafiadoras, e vamos enfrentando-as, ficamos com uma tenacidade bacana, para encarar outras, a partir da experiência anterior acumulada.
Ou seja, o que não te matará, te fortalecerá.

Situações como assumir uma nova função, trabalhar numa equipe cheia de traíras, ser liderado por um líder autocrático, ter dado cabeçadas no amor, ter tomado prejuízo nos negócios pessoais, ser avaliado injustamente, não ser reconhecido, ser injustamente desqualificado numa promoção, se decepcionar com algum amigo, ter as contas sempre no vermelho, sofrer alguma perda significativa, ou ter que migrar para conseguir um lugar ao sol, são algumas das situações que pedirão um investimento no desenvolvimento da competência de cair, bater o gelo, e continuar.
Situações que pedem respostas, e não justificativas.
A monitora chega perto de ti, informa que o tempo acabou. Tu me olha com um olhar de quero mais.
Tu se despede do Mateus com um abraço de irmãos de pista.
Daqueles que quem viu de longe, não teve como não se emocionar.
Não paguei mais uma hora para ti. Tu precisa aprender sobre os limites do desejo, do querer e do ter.
Combinei te trazer noutro dia, mais a frente.
E você soltou essa frase, tão linda.
"Aí poderemos pegar a Bianca (sua prima de 6 anos) e eu ensino pra ela como é..."
Meus olhos viraram uma piscina, e lembrei que tu estava querendo retribuir, com um coração cheio de gratidão, o que o Mateus fez por ti.
Então pensei, mais que uma aula de patinação, o JG teve mesmo foi uma aula de vida. 
Daquela vida boa que se tem quando um amigo nos dá a mão, para que nos ergamos novamente, sem cansar de fazer isto, a cada queda nossa.

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