A Diretoria
Tem um lugar, na casa de meus pais, em Campina Grande-PB, que guarda memórias ensombradas pela generosidade das bouganvílles.
A gente chamava aquele canto de Diretoria. Eu, meu pai e meu tio. Era sob as bouganvílles, que no Brasil não sabem ser discretas, que a gente resolvia o mundo, ou fingia que resolvia. Tinha petisco, tinha copo, tinha música baixa e história alta. Tinha riso que começa no peito e termina nos olhos.
A Diretoria não tinha pauta. Tinha presença.
Meu pai foi em 2021. Meu tio ficou, mas a coluna não deixa mais ele chegar até aqui com a mesma leveza de antes. Vim de Brasília passar dez dias com minha mãe, dona Denise, 87 anos, que se recupera de uma cirurgia com a delicadeza e a teimosia que só as matriarcas sabem ter. Tinha acabado de voltar da Feira da Prata, onde comprei seriguelas pra ela. E me sentei aqui, nessa cadeira, tomando um café que esfriou devagar, segurando uma fruta na mão como quem segura um pensamento que ainda não virou palavra.
A casa estava silenciosa. Mas a Diretoria ainda existe enquanto eu sentar aqui.
Aos 61 anos, a gente começa a perceber certas coisas que antes passavam despercebidas no corre da vida. Percebe, por exemplo, que o café esfria. Que ele esfria e a gente deixa esfriar, porque estava pensando em outra coisa, ou em ninguém, ou simplesmente existindo sem pressa, sem destino, sem a urgência que o mundo sempre cobrou da gente.
Isso antes me incomodava. Agora começo a entender que é um privilégio.
A vida toda somos tomados de barulhos. O barulho do trabalho, o dos filhos pequenos, o dos amores que chegam anunciando festa. A gente aprende a existir no meio do ruído, a se orientar por ele, a confundir movimento com direção. Passei a vida como Tarzan. De cipó em cipó, de amor em amor, de projeto em projeto, de cidade em cidade. No ar, a gente se sente livre, se sente vivo. O vento no rosto convence que está indo pra algum lugar. E enquanto tem o próximo cipó à vista, não tem medo.
Mas o Tarzan nunca aprende o cheiro da terra.
Quando os barulhos silenciam, o do trabalho que diminuiu, o dos filhos que cresceram, o dos amores que partiram, resta ouvir os sons do próprio ser. Sons antes abafados para acolher tantos outros. E é exatamente isso que esse cantinho oferece: a possibilidade de entrar no deserto.
O deserto assusta. Mas é o lugar dos cinco Rs: redenção, remição, restauração, ressignificação e reinvenção. Sempre foi assim, desde os profetas que precisavam do silêncio árido para ouvir o que importava.
Tem uma coisa estranha e bonita que acontece quando a gente chega nessa fase da vida sem muita gente ao lado. A gente começa a andar diferente. Não porque está triste, embora às vezes esteja. Mas porque o passo fica mais lento e mais atento. A gente para na calçada pra olhar uma flor que sempre esteve ali. Nota o cheiro da terra molhada depois da chuva. Sente o peso do próprio corpo na cadeira como se fosse a primeira vez, e pensa: eu ainda estou aqui. Que coisa extraordinária.
Fui à Feira da Prata de manhã. Sozinho, como tenho feito muita coisa ultimamente. Comprei seriguelas pra mamãe porque ela ama, e comprei também o simples prazer de caminhar entre as bancas, de ouvir o vendedor que grita o preço como se fosse uma cantiga, de sentir o cheiro de coentro e de manga no ar quente de Campina Grande. Ninguém me esperava em nenhum lugar. E nisso havia uma liberdade estranha, quase assustadora, quase deliciosa.
O longevo que caminha sem muita gente ao lado não é necessariamente um homem abandonado. Às vezes é um homem que está, pela primeira vez, completamente disponível para si mesmo. Que está aprendendo, na prática, o que os filósofos tentaram explicar em livros: que existir, simplesmente existir, já é suficiente.
As bouganvílles continuam escandalosas e belas, como se não soubessem de nada. A parede que as sustenta é a quadra do Colégio Pingo de Mel, e eu mal sabia o que estava por vir. E lá em cima, num galho que vira ninho, duas rolinhas constroem juntas o lugar onde vão colocar vida no mundo.
Fiquei olhando pra elas mais tempo do que devia.
E o café esfriou de vez.
Foi quando mamãe me chamou da cozinha.
Voltei dos meus pensamentos devagar, como quem sobe à superfície depois de um mergulho fundo. Ela queria me dizer uma coisa urgente e importante: que amava seriguela. Que iria comer sozinha o saco inteiro que eu tinha comprado. Peralta e faceira, com seus 87 anos e sua cirurgia ainda fresca, ela estava ali em seu melhor momento, plena, cobiçando as seriguelas com a alegria desavergonhada de uma criança que ganhou o que queria e não vai dividir com ninguém.
Eu sorri.
E percebi que o deserto tinha, ali, uma fruta doce no meio.
Fiquei pensando em dona Denise enquanto voltava pra cadeira. Em como ela chegou aos 87 com essa chama acesa. Em como a gente às vezes confunde longevidade com resignação, com espera, com o modo quieto de ir deixando a vida passar. E ela ali, com o pote de seriguela na frente, era a prova viva de que envelhecer bem é uma decisão que se toma todos os dias. É acordar e escolher a seriguela. É ligar o celular e fotografar a própria fartura. É ser peralta mesmo quando o corpo pede sossego.
É carnaval lá fora. O mundo está em bloco.
Eu estou no bloco do eu e eu. Apenas.
Não é solidão, ou não é só isso. É o forasteiro que voltou à própria cidade e não se reconhece mais nela, nem ela nele, desde que partiu em 1999. É o homem que saiu dos galhos, do voo de amor em amor, de compromisso em compromisso, de barulho em barulho, e descobriu que o infinito não estava lá em cima, estava aqui embaixo, no chão firme, na terra que guarda raiz.
Aprendi hoje que caminhar sem muita gente ao lado não é o fim de nada. É o começo de uma conversa que a gente adiou por décadas: a conversa consigo mesmo. Aquela em que a gente pergunta, de verdade, sem pressa e sem medo: quem sou eu, agora que não preciso mais ser o que os outros esperavam?
E a resposta não vem em palavras. Vem no café que esfria e a gente deixa esfriar. Vem na seriguela que a mãe come sozinha e feliz. Vem no passo lento pela feira, sem destino, sem pressa, com todos os sentidos acordados para o milagre ordinário de estar vivo numa manhã de carnaval em Campina Grande.
E hoje, nessa cadeira que meu pai também sentou, eu não quero mais tanto cipó. Quero botar o meu bloco na rua. Carregar sozinho o meu estandarte. Me levar pra ver a vida. Acompanhar na pipoca a multidão em seus abadás, com a leveza de quem encontrou, no meio do deserto, a melhor versão de si mesmo.
Não o herói. O esboço.
E o esboço, às vezes, é o mais honesto que a gente já foi.
Então o Pingo de Mel soltou sua orquestra de frevo.
O som veio pelo muro, tomou as bouganvílles, desceu pelo quintal e me encontrou na cadeira. Frevo de Olinda, do bom, daquele que não pede licença. Fechei os olhos e senti meu pai e meu tio ali, do lado, curtindo a orquestra como só eles sabiam curtir. Podia ver as crianças nos cordões, nas piruetas, vivendo um dia que vai ficar na memória de suas vidas. E na minha.
O carnaval não esperou que eu fosse até ele.
Ele veio até mim.
Então mamãe veio sentar na mesa que ela gosta, ao lado da porta da cozinha, de onde se vê o quintal e a Diretoria inteira. E ficou ali, cantarolando baixinho as músicas de frevo, lembrando dos antigos carnavais, com um sorriso que não precisava de explicação.
Ela que passou por duas cirurgias em janeiro, que ficou mais de oito dias na UTI depois de complicações, que chegou tão perto de um lugar de onde a gente não volta, estava ali, de preto, cantarolando frevo como se o corpo soubesse, antes da mente, que era hora de celebrar.
Fiquei olhando pra ela sem dizer nada.
Porque tem momentos em que a palavra seria pequena demais.
O carnaval entrou na vida dela também. Sem bloco, sem abadá, sem confete. Entrou pelo muro do Colégio Pingo de Mel, desceu pelo quintal, passou pelas bouganvílles e pousou mansinho no coração de uma mulher de 87 anos que decidiu, mais uma vez, ficar.
Obrigado, Pingo de Mel. Por trazer luz e paz nessa manhã de sexta-feira, véspera de carnaval, que eu não vou esquecer enquanto eu viver.
Há quem diga que eu dormi de touca. Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga. Que eu caí do galho e que não vi saída. Mas..., eu quero é botar meu bloco na rua.
Botar o bloco na rua: três lições sobre a solidão na longevidade
1. O deserto não é o inimigo, é o começo
A solidão que dói não é a que a gente escolhe. É aquela que chega quando os barulhos da vida param e a gente percebe que não sabe mais ficar consigo mesmo. Mas o deserto, quando atravessado com coragem, oferece o que a agitação nunca deu: o reencontro com a própria voz. Combater a solidão na longevidade começa por não fugir do silêncio, mas por aprender a habitá-lo sem terror. É no deserto que a gente descobre que ainda tem companhia: a própria presença, que ficou esperando pacientemente enquanto a vida corria lá fora.
2. Botar o bloco na rua é um ato de coragem, não de desespero
Quem viveu de cipó em cipó, de relação em relação, de grupo em grupo, estranha profundamente o momento em que precisa dar o primeiro passo sozinho. Mas existe uma diferença enorme entre esperar que o carnaval bata à sua porta e decidir ir ao encontro da festa com o próprio estandarte. Na longevidade, cultivar presença social exige iniciativa ativa: ligar, aparecer, propor, criar. Não porque a solidão é fraqueza, mas porque pertencer é uma necessidade humana que não se satisfaz passivamente. O bloco não vem sempre até a gente. Às vezes a gente precisa ir até ele, descalço e sorrindo, com um copo na mão.
3. A festa mais próxima pode estar no quintal
Quando procuramos conexão apenas nos grandes gestos, nas viagens, nos grupos numerosos, nos relacionamentos intensos, esquecemos que a vida acontece também no miúdo: numa mãe de 87 anos que rouba seriguelas com olhos brilhando, num ninho de rolinhas sobre a cabeça, num frevo que vem pelo muro sem avisar. Combater a solidão na longevidade é também treinar o olhar para o que está perto e vivo. A Diretoria não precisa de quórum para existir. Às vezes ela funciona com uma cadeira, um café, uma memória e a disposição de estar presente no momento que a vida oferece, seja ele qual for.
Ass. Ricardo de Faria Barros