Prevenção ao Riscos à Saúde Mental na Pandemia

     


           Já ouviu falar da doença 43.2?  Pera que te explico. 
           No Catálogo Internacional das Doenças (CID), a 43.2 diz respeito aos Transtornos de Adaptação que podem causar dificuldades de adaptação às novas realidades e situações que a pessoa passa a enfrentar, que gera uma sobrecarga emocional e podem afetar a própria saúde mental. Mesmo sendo longa, vale a pena conferir a definição da 43.2, do próprio CID:

        (CID-10) 43.2 Transtornos de Adaptação: Estado de sofrimento e de perturbação emocional subjetivos, que entravam usualmente o funcionamento e o desempenho sociais. Ocorrendo no curso de um período de adaptação a uma mudança existencial importante ou a um acontecimento estressante. O fator de “stress” pode afetar a integridade do ambiente social do sujeito (luto, experiências de separação...) ou seu sistema global de suporte social e de valor social (imigração, estado de refugiado...); ou ainda representado por uma etapa da vida ou por uma crise do desenvolvimento (escolarização, nascimento de um filho, derrota em atingir um objetivo pessoal importante, aposentadoria...). A predisposição e a vulnerabilidade individuais desempenham um papel importante na ocorrência e na sintomatologia de um transtorno de adaptação; admite-se, contudo, que o transtorno não teria ocorrido na ausência do fator de “stress” considerado. As manifestações, variáveis, compreendem: humor depressivo, ansiedade, inquietude (ou uma combinação dos precedentes), sentimento de incapacidade de enfrentar, fazer projetos ou a continuar na situação atual, assim como certa alteração do funcionamento cotidiano. Estes transtornos podem consistir de uma reação depressiva, ou de uma outra perturbação das emoções e das condutas, de curta ou longa duração.   Fonte: http://www2.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f40_f48.htm   (Grifos meus)

       Vocês devem estar se perguntando onde quero chegar com a apresentação da 43.2. 

    Bem, eu e um grupo enorme de profissionais da saúde, do mundo todo, inclusive da OMS, acreditamos que a reboque do Covid-19 vem chegando uma epidemia de Doenças Mentais. 

    E, assim como na Covid-19, temos os grupos de risco em termos de saúde mental, e que estão mais expostos: que são as pessoas que estão passando episódios de luto (morte, fortes mudanças na rotina da vida, doença, separação,crise econômica, ou desemprego)  ou que convivem diariamente com as fortes expectativas, demandas e desafios no trabalho: tais como os profissionais da saúde, da assistência social, da educação, da segurança pública,  e os funcionários de Instituições Governamentais que atuam na linha de frente do atendimento ao público.  

     Em termos destes trabalhadores, acima relatados, o Transtorno de Adaptação 43.2 pode evoluir para o que chamamos de Síndrome de Burnout. Que é caracterizada por uma sensação de exaustão emocional, despersonalização e sentimento de baixa realização profissional, com sintomas como irritabilidade, apatia, rigidez emocional, esgotamento e estresse agudo: frente ao trabalho, em seus componentes interpessoais, de sentido, satisfação e de desempenho. 

    Então, o que tenho percebido é que em maior ou menor grau este tal de "Novo Normal" não poupará ninguém de mudanças importantes no sentido existencial, ou de vivenciar acontecimentos estressantes.

    Quem não passou por alguma mudança importante nestes meses de enfrentamento da Pandemia?

    Seja na educação dos filhos, seja na forma como o trabalho passou a ser feito, seja na dinâmica dos relacionamentos presenciais, seja no aperto da renda familiar, seja na relação a dois, seja nos projetos para com o futuro, ou na sensação de incerteza perante o amanhã.  Ninguém está 100% livre de se expor aos gatilhos da 43.2.

    Então, precisamos urgentemente que todas as Instituições Humanas, sejam as de natureza familiar, social, política, governamental, laboral e religiosa se irmanem em medidas preventivas ao adoecimento mental e promotoras do bem-estar emocional subjetivo.

    Estas medidas são as Vacinas contra a 43.2.

    Citarei algumas delas que podem ser ministradas pelas Instituições acima relatadas:

1.  Abrir espaços para a fala. Para que as pessoas elaborem suas narrativas de estranhamento, sofrer, medo e angústia.  Processando-as de forma mais saudável. Isto pode ser feito de forma lúdica, vivencial, a distancia e com criatividade.  É preciso se manifestar sobre o que nos ocorre. Pintar, escrever, desenhar, representar... é preciso que os sentimentos sejam colocados pra fora.  Sabe aquela pessoa próxima de ti? Se achegue nela. Ela pode tá com muita coisa guardada, frente a este momento que vive, e que não tem coragem de colocar pra fora. Ou que acha que se o fizer será tida como fraca. Diga pra esta pessoa que é normal não se sentir bem todos os dias. Que é normal está se sentindo estranha ao que vem enfrentando. E que ela não está sozinha. Ofereça apoio, e se coloque diante dela com compaixão, sem julgamentos e críticas. E nunca compare tua fortaleza de enfrentar situações similares com a dela. NUNCA!  As pessoas podem reagir de forma diferente aos mesmos estímulos e situações. Então, não queira usar a si mesmo(a) como exemplo de superação. Isto só a fará se sentir mais deslocada ainda. Apenas acolha a fala dela, se interesse pela narrativa, busque compreender as razões do que ela sente, pensa e fala, pelos olhos e mundo dela, e não pelos teus.    

2. Fomentar Resiliências.  A resiliência é a capacidade de se adaptar, aprender e crescer com as situações de tensão, mantendo o desempenho em níveis aceitáveis, dado a realidade difícil pela qual se passa. E isto pode ser ensinado. Quando as pessoas evocam situações passadas para as quais foi corajoso e as superou, ela está trazendo à memória quem ela pode ser, em relação ao que se vive no presente. Quando tomamos a consciência do porque nos afetamos tanto com determinadas situações, para as quais nada que façamos poderá mudá-las, aprendemos a mudar a nós mesmos(as) diante delas. E não mais ficar numa posição de enfrentamento desgastante, que drena nossa energia emocional. Entramos no "modo acolher" que não significa concordar. 

3. Perceber-se Dentro de um Todo Maior - Quando estamos em momentos estressantes tendemos a personalizá-lo. Como se aquilo fosse só conosco que ocorrer. E passamos a nos culpar, ou agredir nossa autoestima com aquele fato que nos causou um mal estar. Quando nos vemos dentro do coletivo, de um coletivo que também enfrenta as mesmas situações, passamos a relativizar as ondas de tensão, colocando-as em perspectivas para com um todo maior. Por exemplo, pensar que não foi só você que ficou desempregado. E que não foi pessoal. Ajuda no processo de sobrevivência a esta dura realidade.

4. Buscar Alternativas Paliativas de Bem-Estar - É preciso proteger a ferida emocional com uma espécie de band-aid, para que não infecione. E quais são estes band-aids que podemos ativar? A fé é um deles, a oração e contemplação, caso seja religioso. Mas, existem outros, encontrar o sentido nos pequenos prazeres que se proporciona, tais como ler, ouvir uma canção, buscar apoio com um (a) amigo(a) querido (a), fazer algum trabalho manual, criar rituais de bem-estar, ajudar alguém, jardinar, escrever, meditar, fazer yoga, fazer uma lista de gratidão diária, caminhar, e "colecionar entardeceres e canto de pássaros"...  É preciso que tenhamos estes espaços band-aid para que a ferida emocional, ocasionada por algo de ruim que passamos, ou estamos passando, não se alastre. E, alguns destes band-aids você vai aplicar em si mesmo sem querer. Sem ânimo. Não se sentirá motivado para reagir. Se sentirá sem gás. Mas, te digo, faça como quem tem que tomar aquele remédio diário. Faça mesmo sem estar querendo fazer. Engane teu cérebro que entrou no modo reptiliano. Um pequeno gesto band-aid, que introduza na tua rotina diária, mesmos endo feito com esforço hercúleo, poderá causar um excelente resultado no fortalecimento de teus recursos pessoais de enfrentamento dos eventos da 43.2. 

5.  "Esperançar" o Viver -  Marque algo na agenda de 2021 pra realizar. Tenha pequenas metas diárias para atingir. Fixe objetivos de mudança. Mova-se com a força da esperança. A esperança não é de esperar. A esperança é de esperançar. De acreditar que a vida é muito maior e melhor do que um conjunto de experiências negativas a que fomos sujeitos. É acreditar num outro amanha possível. Não deixe que o quarteto do mal: o Reclamão, o Rabugento, Pessimista e Desanimado passe a orientar - tal qual um GPS, o teu olhar sobre a vida e as tuas vivências cotidianas. Ajude a fomentar uma cultura de esperança, encontrando e evitando consumir aquilo que em ti provoca uma onda de emoções negativas.  Cuidado, elas podem ser toxicas e viciantes. Então, encontre e ensine às pessoas que lhes são próximas, os fatores a que estão expostas que roubam a esperança. Talvez você tenham que se afastar de algumas pessoas, que só lhe diminuem. Talvez tenha que consumir um outro tipo de informações. Ou até dar um tempo em determinados grupos cujo discurso é eivado de negatividade. É preciso proteger as razões de nossa esperança. Que são equilibristas e frágeis. 

São estas cinco recomendações as que faço para comigo mesmo e que têm funcionado. E que quis compartilhar para com vocês.   

Pois que é preciso desenvolver um "couro grosso" para diminuir nossa vulnerabilidade, ao sermos expostos à uma realidade com tantos fatores estressores. E precisamos urgentemente ensinar isto em todas as organizações humanas do trabalho, da família e sociedade.

Converse com as pessoas mais próximas sobre como elas estão se colocando neste momento, talvez você possa ajudá-las a refletir sobre o momento delas,  como se fortalecer, utilizando algum dos cinco passos acima. 

Vamos lá gente, ninguém solta a mão de ninguém!


2020 – O Ano em que Voltamos para Casa! (Ricardo de Faria Barros)


Numa manhã de segunda, planejo abrir uma caixa de restos de mudanças que fui fazendo ao longo da vida. Ela esteve sempre ali, bem guardada no fundo do depósito, mas eu não tinha tempo para vê-la.
Nem tampouco para conferir o que guardei por tanto tempo dentro dela. e se ainda necessitava daquilo.
Agora, neste ano de 2020, tempo é coisa que não falta.
Eu poderia falar do ano de 2020 sobre muitos aspectos. E, com certeza, você também. Não há um ser humano, dos bilhões que somos, que não tenha sido atingido de alguma forma pelas coisas que ocorreram em 2020.
Mas, seu eu pudesse fazer um destaque, como que escrevendo para meus netos: Lucas e Laís, um ainda bebê de 9 meses, e a outra ainda morando na barriga da minha nora, eu diria que 2020 foi o ano que voltamos pra casa. Lucas e Laís, acreditem em vovô,  2020 foi o ano em que voltamos pra casa!

Para mim, este será um dos legados que o enfrentamento desta pandemia deixou para a humanidade. O retorno ao lar.
E, seja de que forma você dê o nome a isto que chamamos de lar, e como ele em teu viver esteja estruturado.
Voltamos pra casa!
Tente imaginar como era a vida antes de 2020, em relação ao teu lar.
Nossas casas tinham virado um ponto de passagem, nunca uma linha de chegada.
Um lugar para descansar, banhar, dormir, limpar e se alimentar, e não um lugar para se estar.
Muitos saiam pra trabalhar 5 horas da manhã, de uma segunda, e só voltavam para casa no sábado, ou final da sexta. Falo um voltar efetivo. E não um dormir - morto de cansado, pra ir trabalhar novamente.  
E, ao nela chegarem, eram tantas coisas para providenciar, para arrumar, para preparar para mais uma semana que se iniciaria, que a casa não era percebida como lugar de se estar.
Era lugar de passagem, de lida, de recuperação das energias para uma nova semana que chegava - logo ali no domingo à noite, que vinha mais rápido que notícia ruim.
Em maior ou menor grau, todos passamos por uma redescoberta de nossas casas.
Agora é nela que trabalhamos, que ensinamos as tarefas para as crianças, que encontramos formas de nos divertir e de interagir com a comunidade local.
Descobrimos seus cantinhos não mais olhados. Descobrimos suas possibilidades. Passamos a gostar até dos outros sons que passamos a ouvir, dentro delas, fruto do silêncio externo que se fez.
Se no começo ficávamos inquietos, ansiosos, querendo ir para a rua. Se no começo parecia que nossa relação com a casa estava como a de duas pessoas que moram juntas, mas são solitárias.
Agora se faz uma relação de enamoramento. Queremos cuidar dela. Investir um pouco pra melhorar aquele cômodo. Trazer umas plantas, que agora tenho tempo para regá-las.
Ver como melhoro a conexão da internet, sem gastar muito. Fazer aquele prato que vi a receita no youtube.
Criar opções para a criançada se divertir, transformando espaços - antes impensados, em verdadeiros playgrounds para a molecada brincar.
Sim, a casa devolveu o brincar. O querer preencher os relacionamentos, dos que habitam naquele mesmo espaço, com coisas legais para se fazer juntos.
Jogos de tabuleiro, ver uma live. Se conectar com os amigos e fazer um sarau cultural pela rede.
Eu aprendi a fazer cuscuz, nestes tempos em casa. Também passei a criar um cachorro, que comigo vai descobrindo muitos lugares deste apartamento de 60m2 que eu ainda não conhecia.
Tipo, embaixo da cama. rsrs
Com esforço, tirei a caixa do armário da área de serviço. Pela nota fiscal, afixada no papelão, era algo de 2015. A Nota Fiscal revelava ser algo de material de escritório, num valor R$ 120,00.
O que seria? E porque deixei fechada por cinco anos, e até me acompanhando em três mudanças, desde então.
Sabem o que tinha dentro?
Umas 100 capinhas plásticas de DVD. Lembrei que meus DVDs estavam com as capas em frangalhos, e queria dar uma geral neles.
E fui adiando, adiando, adiando e agora não faz mais sentido. Já não tenho mais a imensa coleção que tinha de DVDs, que fui doando ao longo destes anos, até por falta de uso.
E hoje, já não compro mais DVDs, uma vez que muitas coisas deles estão na nuvem, na web.
Então, nesta segunda, pergunto-me para que me servirão estas caixinhas?
Portanto, ativei o modo Desapego, e "Bela Ciao" para elas!
E sobrou mais espaço na estante da área de serviço.

Com este retorno ao lar, não só descobrimos nossas caixas que já não nos servem mais.
Descobrimos o que realmente nos importa.
Descobrimos que não precisamos de muitas das coisas que achávamos que sem elas não seríamos felizes.
Descobrimos que podemos fazer do lar um local de se ficar, de crescer, de prazer... E não apenas sendo um dormitório e um carregador de bateria vital, que ele vinha se tornando.
Descobrimos que brincar é bom. Que as crianças pedem presença. Que o outro importa.
Descobrimos muitas coisas pela falta que elas nos fazem. Por exemplo, de como foi bom aquele passeio que fizemos com a família ou com amigos.
Descobrimos que coisas que adiamos para depois, ou que não a vivemos intensamente, agora se tornaram mais difíceis de ocorre.
Descobrimos que todo viver vale a pena, desde que a alma não seja pequena. 
Descobrimos um monte de possibilidades de aprender coisas novas, e de mudança de nosso estilo de vida.
Descobrimos estratégias para aquecer corações da pessoa amada, da família, filhos e amigos.
Descobrimos que ficar em casa pode ser bom.
Descobrimos os vizinhos.
Descobrimos que estar sozinho, não é estar solitário.
Descobrimos a presença da ausência, de tantas coisas, antes despercebidas, ou não valorizadas, que agora os assombram, em sua negação de se fazer presente.
Descobrimos que a vida é um sopro. Portanto, aprendemos que não se tem certeza de nada. Que o amanhã é uma previsão de riscos.

Sendo assim, e por não sabermos quando algo do tipo ocorrerá novamente, mais nunca vamos deixar de fazer aquele último passeio, ao chegarmos no quarto do hotel cansados.
É tomar um belo banho, trocar a muda de roupa, e se permitir a um novo passeio, pois que ainda dará tempo de curtir outras coisas do local em que estivermos. 

Descobrimos que aquela visita que adiamos, agora dói... Descobrimos a presença da falta.
E do quanto fomos deixando para um depois qualquer, para um dia à frente, coisas que podíamos ter feito, no momento em que as vivíamos.
Mas, que não as fizemos por nos achar imorríveis, eternos demais para ter que viver o presente.
E, com um pé no passado, e outro no futuro, quem consegue viver as maravilhas e possibilidades do presente?
2020, o ano que voltamos pra casa e nela nos refizemos como humanidade. O ano que fomos forçados a parar, a diminuir o ritmo, a encontrar a paz e o prazer, dentro de nós mesmos, só pelo fato de existir.
2020, o ano em que a humanidade se irmana um único pedido de Natal, a vacina!
E, quando toda a humanidade se enlaça num único desejo, parece que o mundo se torna menor. Parece que nos vendo pertencendo a este mesmo propósito.
E, neste dia será uma festa tão linda. Com tantos reencontros, abraços apertados, e o enxugar das mil lágrimas, pelo luto dos que partiriam.
Mas, não abandonaremos mais nossas casas. Nosso lar, pedaço de nós mesmos em cada um de seus recantos, nunca mais será deixado de lado.
Ele terá sido para nós o ninho que nos ajudou a enfrentar este turbilhão de sentimentos e situações.

É live, pode parar! (Autor Ricardo de Faria Barros)


Ontem tive o prazer de ver meu primeiro show da série: O Grande Encontro.
Nunca consegui ver pessoalmente este show.
Mas, ontem tive a satisfação de pelo menos vê-los, em sua versão digital, numa live.
Preparei a pipoca e uma Stella geladinha, arrumei o som da TV.
Chamei a namorada pra ver, ela lá e eu cá, isolados como se deve.
E ficamos no frisson danado de bom, esperando o começo. Contando os segundos.
E aí ouvimos aquele sininho que toca nos teatros.
Aquele que diz que o show irá começar em breve.
E eles entraram no palco e estava feita a festa.
Nos primeiros dez minutos, eu já estava extasiado com tanta beleza, na forma de canções que marcaram minha vida. Cujas letras dizem muito das coisas em que acredito.
No Brasil, naquele momento, eu me sentia conectado com milhares de pessoas que também acompanhavam o histórico, e inédito, show; seja pela TV, seja pelo youtube.
Após duas horas e meia de show, "voltamos enamorados para casa", deixando aquele teatro muito ricos de emoções compartilhadas, a cada canção que ouvíamos.
E, por que não dizer, mais curados. A arte nos cura.
No caminho ela me perguntou do que mais gostei, e falei que foi da parada aos 11 minutos.
Veja a parada de que falo neste texto aqui: https://youtu.be/__wGzZu6HuU?t=650
Foi algo tão bonito que gostaria de compartilhar com vocês o que disse pra ela, justificando meu gostar.

Aos 11 minutos, o trio Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Alceu Valença, cantava a bela canção Sabiá.
E, quando Geraldinho passou a bola para Alceu, ele travou.
Durante alguns segundos ele ficou sem reação. A voz não saia de sua boca.
Aí ele reagiu e falou assim:

"É live... É live!
Volta!
Ei, para aí! É live...
Para aí.
Vamos voltar...bora!
Vamos voltar!"

Elba Ramalho fez uma expressão de quem estava sem entender nada.
Geraldo Azevedo, fez cara de que não gostou.
Mas, Alceu insistia em repetir, dizendo quase numa súplica:

- É Live!

E, eles entenderam a riqueza do momento, repetiram a música, e Alceu entrou na sua vez sem mais travar, e dando um show de interpretação.

É live!!!

A vida é live. A vida não cabe numa planilha de excel. Nem numa apresentação de power-point.

Viver é live.

Quantas das vezes também precisamos parar algo. Voltar ao início e recomeçar?
Nos permitir retomar a vida e não seguir o erro, com aquela sensação de que poderíamos ter feito melhor, caso tivéssemos desistido de insistir na canção errada.
Mesmo que para isto, tivéssemos que voltar uns passos atrás.
É live.
Alceu suplicava aos seus pares para retornar a canção.
Querendo dizer que podiam se cobrar menos, ser menos formais, menos inflexíveis, e que o improviso e coisas que não saem legais, nas lives são mais aceitas.
Quanto ensinamento Alceu nos deu.
Ele poderia ter deixado seguir. E convivido por um bom tempo com aquela sensação de frustração, de desgosto para consigo mesmo, e até culpa por não ter pedido uma segunda chance para fazer direito a sua parte na melodia.
Alceu nos ensinou muito.
Pedir uma segunda chance, para fazer novamente algo que não deu correto não é sinal de fraqueza.
É de coragem! Coragem em ser verdadeiro, em querer apresentar o seu melhor Eu, a sua melhor versão.
Exige humildade, exige autoestima, exige a esperança equilibrista. Aquela que diz que da próxima vez as coisas poderão ser melhores, e que vai passar.
Uauuuu!!! É live.
Viver é live. Podemos nos cobrar menos. Podemos aprender com os erros. Podemos recomeçar um novo esboço de nós mesmos.
Ei, pode parar? É live!
Você não precisa continuar fazendo algo, só para agradar alguém. O show pode parar.
Ou, desafinar no coro dos contentes.
Viver é live.
E não tem manual. O que funcionou pra um, pode não funcionar pra você.
Mas, cobre teu espaço no acontecer. E não tenha vergonha, nem receio, em se colocar pedindo pra retomar sua parte em algo, que teu próprio desempenho produziu um mau resultado.
E, quando voltar, vá com gosto. Sem ficar se lembrando que vai falhar novamente.
Abra teu ser à nova experiência. E sem ficar olhando-se pelo retrovisor, e com medo de errar.
E, caso as pessoas queiram negar-lhe o direito ao recomeço, insista com elas.
Sem medo, pois o medo nos apequena ao mundo dos outros.
E, de tanta pequenez vamos deixando de ser nós mesmos, ao nos moldar ao que os outros pensam, querem e esperam de nosso existir.

Recomece relacionamentos em cuja entrada em cena, tu tenha causado tristeza, ou sofrimento, em pessoas amigas.

Recomece aquele desafio no trabalho, que ao tentar atingi-lo não conseguiu.

Recomece sonhos que foram ficando esquecidos, nas gavetas de teu ser.

Recomece crenças limitantes, daquelas que sopravam em teu ouvido de que jamais amaria novamente, ou de que não seria capaz de conseguir algo.

Recomece a criança curiosa, alegre, aventureira e amiga que já foi um dia.

Recomece a cultura de perdão, paz e respeito que já teve.

Recomece a autoestima e amor próprio que já teve.

Recomece de pessoas que te diminuíram e te fizeram sofrer.

Recomece dos lutos que te levaram junto.

A vida é uma live, na qual se pode recomeçar, e a cada manhã, e em cada instante.
Agora, sem errar mais naquela parte. Pelo menos naquela parte!
E, caso esteja no palco com alguém que errou o tom.
Aprenda o segundo ensinamento, aos onze minutos deste show.
Dê a esta pessoa a chance de fazer novamente, de se recriar e de tentar mais uma vez. A estimule e apoie neste reinventar-se.
Não a coloque na profecia realizadora, tão comuns em nossos julgamentos, de que "daquela mata não sairá coelho".

Afinal, na live da vida, pessoas podem nos surpreender. Coelhos não!

Está difícil, contudo é o que temos para hoje! (Autor Ricardo de Faria Barros)


Recebo o matinal telefonema de meu pai, que mora em Campina Grande-PB, distante 2.500 de Brasília-DF, onde moramos, os seus filhos.
Entre a costumeira conversa sobre o clima, ele solta uma frase, quase sem querer:
"Tem muitos dias que não saio de casa nem pra pisar na calçada da rua, está difícil isto, e só cresce, parece que não acaba nunca!
Mas, logo ele se apruma na conversa e diz assim: "mas, não estou reclamando não, você me conhece... ".
Acho que papai fala por boa parte da Humanidade. Realmente, está difícil.
Compreender o que está causando este sentimento de angústia é importante para ativar os recursos internos para lidar com eles, no que chamo de ligar o "Modo Sobrevivência".
Esta doença trouxe pelo menos cinco interrupções e dez consequências disto, nos cursos da vida e do viver.
As interrupções que destaco, longe de querer exauri-las, ou esgotá-las, são:

1. No ciclo natural da vida e morte. Inclusive em seus processos de luto;
2. Na intricada, diversificada, energética e complexa rede de relacionamentos humanos (presenciais);
3. Na dinâmica de funcionamento das famílias, escolas e trabalhos;
4. Na vivência de eventos de lazer, sociais, culturais, esportivos e religiosos;
5. E nos projetos concebidos para ocorrer neste período e nos próximos meses.

Sim papai, está difícil mesmo. Este vírus não só invadiu as células biológicas, mas se alastrou em todas as áreas da vida, provocando nelas, como as acima citadas, paradas não previstas, desgastantes e anormais.

Estas cinco paradas, ou interrupções, cobram uma conta emocional, econômica e social muito salgada, que se traduzem em dez impactos. Com certeza, você deve estar passando por algum deles.

1. Impactos na Socialização Urbana - O outro com o qual eu cruzo é uma ameaça viral, até que prove em contrário. Ninguém se sentirá à vontade, interagindo com pessoas que não sabemos se elas poderão nos contaminar. Mesmo nas rebeldes visitas familiares, ainda assim esta sensação de meio que fica sombreando o momento.

2. Impactos nos Planos e Visão de Futuro. Que é a característica do Ser Humano de sempre ter uma data à frente para alcançar algo, ou para agendar coisas a fazer no amanhã. Por exemplo, quem poderá de bom juízo programar um encontro da família, no final do ano, enquanto não sair uma vacina?

3. Impacto nos Projetos Pessoais - Que vão desde a reforma de um imóvel, até a programação das férias, ou uma viagem há muito tempo cobiçada.

4. Impacto na Relação com os Idosos - Qual filho não sente medo em transmitir esta doença para seus pais? Se os idosos já enfrentavam o vírus da solidão, a situação agora - da solidão, agrava-se mais ainda.

5. Impactos nos Ritos de Passagem - O Ser Humano é fecundo em criar seus Ritos de Passagem, e eles viram marcos históricos e celebrativos. É um chá de bebê; um batizado, uma formatura, um casamento, uma data festiva comunitária. A falta destes Ritos provocam uma sensação de vazio. É o que sente aquela jovem mãe que ao voltar da maternidade, não pode receber os amigos e familiares para o "Cachimbo".

6. Impactos no Envelhecimento Ativo - Uma revolução grisalha estava em curso. Os idosos estavam redescobrindo a vida, após os 60. E muitos deles voltando a estudar, trabalhar, viajar, namorar e viver mais uns bons 30, 40 anos de vida. Isto tudo entrou no modo Pause, até que venha uma vacina.

7. Impactos Psicológicos - A humanidade está sofrendo de um estresse traumático, e pós-traumático, com o enfrentamento desta doença. Seja pelo luto dos amigos, seja pelo desemprego e perda de renda, seja pelo medo de adoecer. Não se pode, nem se deve, conviver muto tempo num ambiente incerto, inseguro, imprevisto e sem garantias. Isto causa ansiedade e drena a saúde emocional. Precisamos apoiar nossa existência em bases sólidas. E, esta doença nos colocou numa situação de muita fragilidade.

8. Impactos na Organização da Vida  - Desde que nos entendemos por gente organizamos nossos ciclos da vida em períodos, horários e rotinas. E, isto de uma certa maneira foi meio que bagunçado. E, tem muita gente perdendo a noite pelo dia, e vice-versa. É como se perdêssemos o referencial das horas que nos habituamos a seguir, inclusive com o tempo do transito, e vivemos um "jet-lag" emocional.

9. Impactos na Economia e Trabalho  - Diferente de outras crises que a economia passou, agora vive-se a crise do Não-Mercado. O Mercado está albergado, amedrontado e de mal-humor. E isto causa uma profunda recessão, com reflexos na competitividade das empresas e na manutenção dos níveis de emprego.

10. Impactos nos Relacionamentos -  O logo tempo de isolamento tanto solidificou relações que já eram boas, como agudizou as relações que estavam tensas. A casa não foi planejada para tanta gente morando junta e por tanto tempo. E isto causa polos de tensão quase que permanente.  

Então pessoal, papai fala acertadamente que está difícil! E ele não está deprimido. Nem eu. Nem você.
Só estamos desgastados por tantas interrupções que houve em nossa vida e seus consequentes impactos.

Queria deixar umas dicas com vocês, as mesmas que falo para papai. Mas, não esperem as fórmulas fáceis.
Reconheço que não está sendo fácil, e que está sendo difícil.
E, em minha vida fui impactado por várias das situações acima descritas. Então,sei de onde estou falando.
Creio que a consciência crítica nos ajuda a pelo menos entender o mundo em que vivemos. E, este entendimento ajuda-nos a sair da confusão mental, da alienação, negação ou revolta.

Não adianta dourar a pílula. Tenho visto mofados e cínicos conselhos para quem está sofrendo que beiram uma violência para com estas pessoas.
A consciência do porquê estamos tristes, sofrendo e ansiosos já é um excelente antídoto à apatia.
Sabendo o que ocorre conosco, e o porquê ocorre, podemos ativar o Modo Sobrevivência de que falei no inicio deste texto.
Neste modo, procuramos resistir um dia de cada vez. Neste modo, acreditamos que vai passar, e nos apegamos a esta crença com força.
Neste modo, fazemos pequenas intervenções na rotina de nossos dias, para que de forma paliativa possamos proteger nossa saúde emocional.

Tal qual botamos um band-aid num ferimento. Pode não curar a ferida, mas reduz as chaces de uma infecção. É isto a que me proponho quando oriento pessoas que se sentem em crise neste momento: - encontre os teus band-aids. Que passam por perguntas tais como:

Que personagem interno está sabotando em você a energia emocional: Será o crítico? Será o ingrato? Será o perfeccionista? Será a vítima? Será o rabugento?
O que é importante manter, descartar, adiar, esquecer, ou renunciar, neste momento em que vive?
O que pode fazer para achar um bocadinho de paz e prazer no teu existir?

No Modo Sobrevivência ativamos as gambiarras existenciais para conseguir reduzir os danos e riscos a que estamos expostos. É neste modo que a criatividade é muito fecunda.  Você e eu precisamos encontrar as formas de subverter o tédio e a tristeza pela privação de mutias coisas que tivemos. E isto se faz com autenticidade e uma certa "malandragem" na forma como se leva a ´serio, ou encara a vida.

Por exemplo, eu deixei de caminhar, pelo perigo que estava tendo em cruzar com muitos sem máscaras. Então descobri que o corredor do apartamento toma um belo sol pela manhã, então botei uma cadeira nele, tiro a camisa, e tomo o cafezinho matinal ali. Naquela área comum do prédio. Fico na porta da cozinha, sentado numa cadeira de acampamento, sentindo-me na praia, pouco me lixando pra quem por ventura por ele passe. 
A saudade aperta? Que tal escrever cartas?
A casa está pequena? Que tal navegar em cidades, parques e museus virtuais?
O dia se arrasta?  Que tal aprender algo pela internet?

Cada um sabe dos band-aids que funcionam. Mas, repito, o principal neste momento é se entender dentro de muita coisa que lhe foi tirada, e da falta que estas coisas estão causando em teu viver.

Por último, falo uma coisa pra papai que considero das mais importantes. Marque algo na agenda para fazer num amanhã possível e realista.  Seja uma celebração, daquelas dos Ritos de Passagem anteriormente descrita, uma viagem, ou iniciar um projeto pessoal a muto adiado.
Force teu cérebro a agendar algo para o amanhã, isto ajuda em muito a diminuir a sensação de falta de controle e ação sobre o carrossel do destino. Eu irei no São João de Campina Grande-PB, em junho de 2021. Ah se vou!

Está difícil sim, e não sei quando vai passar. Só sei que vai. Mas, não me pergunte quando.
Também não sei se para todos vai passar. Para muitos, estes dias deixarão sequelas.
E precisamos ter compaixão e empatia para com eles. E, o coração e mente em reverenciosa contrição. Pois que este momento pede também um pouco mais de silêncio, contemplação.
Pede empatia para com outras pessoas que não estão dando conta.
Pede coragem, a coragem dos sobreviventes, aquela que nos diz que é preciso resistir - um dia de cada vez!   E que se não "esperançarmos" a vida, ela irá murchar rapidamente. 

Amorável Manhã (Por Ricardo de Faria Barros)

Sob o sol dos cobogós, trago minha alma para tomar banho, nestas manhãs iluminadas de isolamento. Confesso que este será um dos bons legados, destes dias tão cinzentos, nos quais me vejo perdido em em pensamentos de quando é que isto tudo que aí está vai cessar...
E é um legado que só a parada de tudo, em hibernação social, fez se mostrar.
E, nas manhãs tenho feito esta aprazível rotina.
O tempo está ajudando: céu aberto Anil-Brasília e temperatura pelos 20 graus.
E aí, um bom café, uma música de qualidade, uma cadeira de acampamento, uma revista Vida Simples, e está feito o acampamento no corredor do apartamento, estrategicamente montado à frente da entrada da cozinha.
Ali, tomo meu banho de sol e vejo as brincantes de maritacas que se escondem nos reticulados das parede de concreto, sem se mostrarem para mim, mas flagradas em suas sombras gritantes.
E uma lufada de luz amorável invade meu ser.
O poeta Manoel de Barros definiu este termo dizendo que ele é próprio das andorinhas, dado que o urubus são carniceiros.
Então, estas manhãs tem sido amoráveis. Manhãs andorinhas.
É preciso cultivar um jeito de viver amorável, no qual a cada tempo, gourmetizado vivido, gera nascentes de sentido, travestidas em mil possibilidades de presença.

Folheio matérias ao léu, e paro as vista na esquina de uma folha, na qual vejo a fotografia de um osso. Trata-se de um fêmur pré-histórico.
O que ele teria de tão importante? Matuto minhas caramiolas.
Descobri que aquele osso humano tinha uns 50 mil anos, desde sua última caminhada (*).
E o que chamou minha atenção ao ler a matéria foi a descoberta, da Antropóloga Margaret Mead (+1978), sobre aquele singelo pedaço de osso.
Numa análise mais apurada, os cientistas descobriram que aquele fêmur tinha um talho no seu meio, preenchido com tecido ósseo mais jovem, produzido como fruto da colagem das duas partes que se quebraram.
Nenhuma espécie que tenha ossos, para suportar sua caminhada, como os caprinos, bovinos ou prosaicas galinhas, terão seus ossos restaurados, após quebrados, em iniciativas de assistência à saúde promovidas pela sua própria espécie.
Estes animais estarão condenados a mancarem, a morrerem por inanição, ou até a se infecionarem pelo corte ali produzido.
Mas, ali, 50 mil anos atrás, algo ocorria diferente com a espécie humana. E, aquele fóssil restaurado comprovava isto.
Alguém providenciou um cuidado para aquele ser humano.
Alguém o alimentou, tracionou a perna para juntas as partes seccionadas.
E colocou talas fixando os ossos, as amarrando com tiras de cipó.
Por meses, aquele ser humano foi alimentado, deram-lhe água, protegeram-lhe das ameaças do frio, das feras.
E até retardaram sua marcha, migrante pelas estações do ano, para dele cuidar.

O sol vai se erguendo, agora o sol bate em meu coração e cabeça. Sinto sua presença.
O telefone toca e é papai, para nossas matutinas conversas a 2.500 km de distância um do outro.
Ele pergunta como estou, o que estou fazendo, e digo-lhe que estou sob os sol dos cobogós.
Ele sorri, e me diz que também está bem. E que vai tocando a vida no isolamento, deliciando-se com a vida de alguns youtubers de caminhoneiros que achou.
Depois, quem me aciona é meu filho mais velho. Ele diz que virá buscar o meu carro para botar um equipamento que comprei, e depois devolverá com aquilo lá resolvido.
Ufa!
Desligo e vejo que tem mensagem da namorada, querendo saber do Rodrigo, de quantas andas o mal estar que ele começou a sentir de uns dias pra cá.
Aproveito, e pergunto sobre uma dor que ela andava sentindo nos pés, se o exame de ácido úrico já saíra.
Mando mensagem pra Rodrigo e digo que estou na área, para o que ele venha a necessitar.
Se há uma característica universal da Humanidade é o cuidar. Desde aquele fêmur, até os diálogos cuidadosos deste adolescer da manhã.
Esta é a nossa essência, cuidar uns dos outros.
Podemos até termos nos afastado disso, nestes dias cinzentos que vivemos. Mas, o cuidar faz parte de nossa narrativa social.

Veja por exemplo quantos profissionais de saúde estão de desdobrando, dando em trabalho muito mais do que são contratados, e recebendo muito menos do que merecem, só para não deixarem pessoas sem assistência.

Veja os professores que tiveram que se desdobrarem, país afora, para não deixarem seus alunos sem aulas. Improvisando até varais de atividades, impressas em velhos mimógrafos a álcool, criando uma nova metodologia de ensino a distancia: o varal ensinante.

Veja quantas pessoas estão doando recursos financeiros, em vaquinhas virtuais, ou doando seu próprio tempo, para melhorarem a vida dos mais sofridos, ou levarem um pouco de sol para almas congeladas.

Somos Homo-Cuidadores. Não deixamos ninguém para trás. E, se necessário for, atrasaremos nossa marcha até o fêmur calcificar novamente.

Aqui e acolá aparece alguém que nega esta essência. Sim, eu sei. Pessoas más que asfixiam a outra com a perna, que tratam os tidos por diferentes deles com escarnio, violência e injustiça.
Sim, eu sei...
Eles também existem. Noutras tribos, também há 50 mil anos atrás, algum de seu morador poderá também ter tido um fêmur quebrado. E, nela, a cultura sobrejacente não era a do cuidado, era a de sacrificar o inválido, ou deixá-lo à própria míngua.
Mas, na evolução da Humanidade, são as tribos de cuidadores que predominam. São eles quem socorrem os feridos, apoiam os cansados, estimulam os sem ânimo e fortalecem, com presença, os carentes de esperança.

O cuidar é o primeiro tratado ético-moral e civilizatório de nossa espécie.
É uma habilidade afetiva e sócio-emocional, derivada da empatia. Da consciência que o outro importa e que toda a vida humana é preciosa. E merece ser vivida em plenos direitos e dignidade.

A empatia pode ser ensinada pelo exemplo.
A mãe que cuida das tarefas, alimentação e higiene dos filhos, enquanto também trabalha em casa.
Está ensinando empatia aos pequenos.
O (a) parceiro(a) afetivo(a) que cuida desta mãe, contribuindo com a saúde mental dela, ao assumir parte das tarefas domésticas, também está dando aula prática da disciplina Empatia.
A empatia se aprende e se ensina na escola da vida. E nela, que desde pequenos vamos sendo cuidados e cuidando, uns dos outros, e até de nossos animais de estimação e plantas.
E, isto é contagiante, Famílias andorinhas-cuidadoras, formam desde pequenos os futuros cuidadores. São famílias amoráveis, como diz o poeta.
Lá em casa, por exemplo, nunca um pedinte saia de mãos vazias. Mamãe sempre arrumava algo no fogão, na dispensa, nos armários de roupa, para dividir para com eles.
E, com ela aprendemos.

Mas, pra aprender o verbo do cuidar tem que antes conjugar o do interessar-se.
Sem se interessar o outros nunca se fará presente ao nosso viver, e vamos condená-lo ao pior dos ódios, o da indiferença.
Você tem alguém em teu viver que conjuga bem este verbo? O do interessar-se?
Eu tenho. E, quando ela o conjuga, como num ato contínuo, dele brotam duas manifestações amoráveis: a empatia e o cuidar.
Se interessar, ter empatia e cuidar, parecem ser palavras de uma mesma frase que diz assim: A Humanidade pode dá certo, sim!
Mas, precisamos fazer um enorme esforço coletivo para que a espécie de cuidadores não entre em extinção.
E, isto depende da minha e da tua resposta às várias situações da vida que reivindiquem interesse, empatia e cuidado.
Guardo as tralhas na cozinha, o sol já levantou.
Escuto vozes no corredor. Abro a porta e vejo que por ele vem correndo, uma criança em seu velocípede, e um avô-zorro em seu encalço.
Estão em amorável comunhão do existir. Acho na dispensa um pirulito. Pego com guardanapo e chamo o pequeno para presentear-lhe com aquela guloseima.
Ele pega e sai todo feliz, pedalando e abrindo o doce, com seu avô correndo atrás.
Abro um sorrisão com a cena
Sim a humanidade tem jeito. E aquele avô está ensinando ao neto - ciclista de velocípede, a arte do cuidar.

Nove Semanas de Gestação de um Mundo Novo Pós Covid-19 (Autor Ricardo de Faria Barros)

Vem chegando devagarinho a hora do Angelus, e tudo vai se silenciando neste encontro do dia com a noite.
E, mais um domingo se finda, e com este já são nove deles, e em completo isolamento social.
Do alto de meus quase 56, e do grupo dos hipertensos, não é bom vacilar.
Então, faço as coisas direitinho. Fico em casa, uso máscaras, lavo as mãos e evito fazer visitas e sair.
Aqui em casa, coloquei um nome em cada cômodo. A sala virou a praça. A cozinha a feira-livre. O banheiro a cachoeira. O quarto de dormir o drive-in. O quarto de hóspedes a Biblioteca Nacional.
Tenho alguns pesares, neste processo de distanciamento.
De não ver meu amor, embora morando na mesma cidade. Ambos em isolamento e conscientes.
Embora, ela tenha vindo hoje no estacionamento, namorar a distancia, mas se vendo, e ainda ganhei uma suculenta feijoada para o almoço, passada com cuidado pelo vidro do carro, exalando álcool de sua sacola.
Novos tempos.
Lamento pelos casais enamorados que vivem em distanciamento nestes dias. Não. Não é fácil.
Parece que a sofrência aumenta mais ainda, principalmente quando se mora na mesma cidade.
Também gostaria de estar mais presente, fisicamente falando, para ver meu netinho crescendo, e me maravilhando com suas primeiras descobertas.
Ele agora está com 6 meses. Então, dois terços da vida dele se passaram com os seus avós em isolamento social.
E isto não é bom.
Mas, quando a sofrência vem chegando eu faço brincantes ousadias para que ela não venha a reinar.
Se deixar ela te domina.
Eu saio para cuidar das plantas, um de meus melhores passatempos. Algumas delas habitam o corredor de cobogós, que o transformei num jardim Inda agorinha minhas violetas me deram boa-noite.
Você também anda escutando coisas? Tenho tido bons papos com o fogão, que é de quente nas argumentações. E com a geladeira também, mas ela é mais fria. Com a máquina de lavar roupa não é bom. Lavar roupa emocionais no distanciamento ninguém merece.
Tenho enraizado sentimentos nestes dias. Não é angústia, nem tristeza, é um momento de rica conexão espiritual, talvez único em minha vida. Ou, em nossas vidas.
E, no silêncio de mim mesmo, vou me reconstituindo e me fortalecendo.
Já tenho uma rotina de atividades que preenchem meu dia. Uma rotina que me mantém produtivo e com a cabeça ocupada. Ando até cansado. Leio, estudo, pesquiso, preparo as refeições, dou uma geral no apartamento, rego as plantas, boto água dos beija-flores, vejo séries com meu amor, e, quando a coisa tá ficando feia arrumo o apartamento, depois posto algo nas redes. Sou dos que pensam assim: posto, logo existo!
Também navego nos canais que assinei no youtube, verdadeiras preciosidades que me distraem muito. Canais de pessoas simples que ligam a câmera e gravam os seus cotidianos. Gente sem maquiagem, gente verdadeira e muito resiliente.
Até acho que ando mais produtivo do que antes. Nestes dois meses, já consegui elaborar e ministrar cinco lives-palestras.
- A Esperança Equilibrista e o Capital Psicológico Positivo (INTELETTO)
- Cuidados com a Saúde Mental no Home-Office (CNMP, FUNCEF e ADASA)
- Dicas de Bem-Estar no Isolamento (PRIMED)
- O Mundo Pós-Covid 19, o Novo Normal (FUNPRESP-JUD)
- A Curadoria do Conhecimento - Novas Possibilidades para Gestão dos Saberes (INTELETTO)

Também, neste parto de Lua Cheia (9 semanas), soube que o meu artigo de TCC, de uma pós que fazia em Psicologia Positiva, que já estava pronto, e aprovado pelo orientador, foi negado a sua publicação pela Coordenação do Curso.
Ocorreu a falta de um documento prévio à realização de uma pesquisa, o que acabou comprometendo toda a aquela produção intelectual.

Ou seja, como diz a canção, começar de novo, e vai valer a pena...
Aprendi coisas novas. Agora sei transmitir uma Live, diretamente para as redes sociais, usando um bom aplicativo gerenciador da mesma, no meu caso, o OBS Studio.
Tento não olhar para o que perdi, com o advento desta doença. Contratos já fechados com a minha empresa, para 2020, a Ânimo Desenvolvimento Humano. Posso dizer que o prejuízo foi igual ao meu faturamento de 2019, e com isto acabei adiando o sonho de voltar a ter uma edícula pra chamar de minha, e sair do aluguel. Tive que absorver o prejuízo, e adiar o projeto de construção da mesma. “Tem nada não. Amanhã pode acontecer tudo, ou simplesmente nada.”, como diz a canção.

Mas, tem gente muito pior Gente esperando respiradores, vagas em UTI, gente enterrando os seus e chorando a ausência deles. Gente sem renda, e empresários sem crédito – vendo seus negócios a muito tempo estabelecidos irem à bancarrota.
Então, como tenho a aposentadoria, e mesmo tendo prejuízos enormes em minha empresa, ainda estou o lucro. Agora é ter esperança e paciência, e não desanimar. Mas, que o baque foi grande, isto foi!

Acho que todos ganhamos uma lente com esta doença. E, onde colocarmos esta lente ela amplia. Amplia tudo: emoções, sentimentos, pensamentos, sofrências e atitudes.
Por isso temos que ter muito cuidado. Os tempos atuais são amplificadores e aceleradores de futuros. E, passos mal dados no agora, vão ecoar muito forte no amanhã.
Então, é preciso caminhar com consciência, segurança, e sem acelerar o ritmo, para não forçar a barra emocional, um passo por dia já tá bom.
Tenho visto muitos meus pais, diariamente nos falamos. Antigamente, olha como falo, antigamente (rsrs), era uma vez por semana - e aos domingos.
Agora nos telefonamos diariamente, e temos feito lives com a família, filhos, neto, noras, genro, irmãos, sobrinho e cunhados.
Ontem, fizemos um jogo de perguntas e respostas, um Quem Quer Ser um Milionário improvisado, tendo o filhote JG como aquele que fazia as perguntas. Criamos regras na hora e foi legal. Nos divertimos muito, e minha cunhada ganhou a pergunta do milhão. Amanhã eu compro um no mercado para ela.
Não quero projetar em mim, nestes dias que parecem uma eternidade, os SEs. Se eu tivesse ido na Europa, Se eu tivesse curtido mais as férias de dezembro e janeiro. Se eu e ela estivéssemos juntos agora, numa casinha de campo.
Estes SEs são doentios e nos amarram ao ontem, e nos causam mal.
Também não quero um conjunto de QUANDOs pra chama de meu. Quando passar vou fazer isto, aquilo, ou isto.
Quero não.
Até porquê, um monte de coisas que programei pra fazer num quando qualquer deram em água. Quando um dia tivesse tempo... Tempo agora é o que não falta e, por exemplo, as fotos digitais que planejei organizá-las, só o fiz com as de 2014. Tinha todo tempo do mundo, mas não tinha mais tesão pra fazer aquilo lá.
Assim como o espanar e limpar os discos de vinil. Só fiz de uns 10, dos mil que tenho.
Paciência. Acho que a gente não pode se cobrar muito neste isolamento. E tem que ir levando como rende, se descobrindo naquilo que tá fazendo sentido e dando prazer ao momento.
Ando com ressaca institucional das notícias políticas de meu Brasil.
Chego até a ter inveja de outros países, muito mais coesos e focados no enfrentamento da Pandemia, em todas as suas áreas que demandam atenção.
Isto aqui virou uma guerrilha de narrativas, na qual quem perde é quem sofre.
A Air-Freyer apita, minha carne de sol está pronta. Deu vontade de tirá-la do freezer e fazer agora. Ficou muito boa. Ufa!! Menos despesas com IFood.
Nestes dois meses recebi ligações de pessoas querendo saber como eu estava. De Se. Valdecir, dos garçons do Libanus: Rangel e Bahia, de minha antiga diarista, a Marta. E fiquei muito feliz.
E vamos vivendo assim, cuidando da cabeça. Levando a alma pra balançar na rede do existir.
Saber que o amanhã pode ser incerto, com muitos riscos nos planejamentos e marcações na agenda. Ok.
Saber o dia que estaremos comemorando termos sido vacinados, nem o melhor futurólogo pode prever. OK
Saber o que fazer de produtivo, e significativo, com o tempo do agora, isto está sob o meu controle e o teu. E poderemos fazer.
Mas, tente. Faça alguma coisa, não se entregue a apatia e desânimo. Quando eu sair de casa a Terra terá recebido uma nova versão, após ter sido formatada. Penso que terei que atualizar a minha para poder navegar neste novo contexto social e econômico que viveremos.

Baixe a Nova Versão da Terra
Faça a barba. Troque este pijama de dias.
Dê aulas fictícias.
Converse com suas plantas.
Crie um blog com as histórias da família.
Arrume a casa.
Faça cartas pra vizinhos, parentes, amigos, diga que eles são importantes pra ti.
Mande flores para as redes sociais, tão cheias de ódio.
Deixe de comer só miojo.
Pare de lamentar o que perdeu, o que sofreu, o que não deu.
Experimente aprender pratos novos.
Não pegue no pé dos meninos, por não se engajarem tanto na educação a distancia. Tudo bem se eles não tirarem as melhores notas, eles também estão sem saber bem o que está ocorrendo com tudo e todos.
Tenha paciência com teu cônjuge com quem divide a toca. Este momento amplifica o que já sentia antes. Então, conte até 1000. Ou, corra para um colo. Dependendo da natureza do que circula em teu coração.
Deixe fluir o amor. Qualquer que seja a expressão dele em teu viver. O amor mantém a chama da vida acesa.
Ligue pra seus pais idosos. Faça que com que eles se sintam importantes pra você.
Quem sabe não é a hora de lavar aquela mágoa encardida e oferecer perdão.
Tenha calma com as calorias a mais.
Contudo, que tal uma malhadinha aí dentro de casa, ou saindo protegido(a) pra caminhar.
Leve-se para tomar sol.
Beba menos. Ou pare.
Tome mais sorvete e menos sopa.
Corte seu próprio cabelo.
Aprenda a fazer pequenos reparos em casa. Tem no youtube como.
Escute uma boa live.
Acompanhe alguma delas online e ajude alguém fotografando o QR-Code. Vai se sentir melhor.
E, repito, atualize-se na Nova Versão da Terra.

Afinal:
“ Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo. Não adianta fugir. Nem mentir pra si mesmo.
Agora, há tanta vida lá fora.
E aqui dentro. Sempre!”

Não Normalize o Luto (Por Ricardo de Faria Barros)

Em dois dias, 2000 pessoas morreram de Covid-19 no Brasil. 
E isto não pode ser normalizado. 
Não! 
Por caridade, isto não pode ser normalizado, nem é coisa banal.
No mínimo, faça um minuto de silêncio, uma prece. 
Faça algo.
Escreva um post solidário.
Silencie.
Cubra-se de cinzas, acenda umas velas.
Respeite o luto do outro que sofre.
Só não diga que é normal. 
Estas pessoas ainda teriam bons anos pela frente. 
Não, isto não é normal.
Pessoas que morreram em filas de espera.
Não, isto não é normal.
Pessoas que morreram sem receber ventiladores. 
Não, isto não é normal.
Também não me venha com piedosas intenções. 
Dizer que foi o melhor pra elas. 
O melhor sempre é viver.
Nem tampouco me diga que Deus as quis levar. 
Deus não trabalha com fast-food de mortalidade. 
Isto é especialidade dos Homens, não é coisa de Deus.
Enterrei muitos portadores do vírus da Aids, de 94 a 98, e nunca aquilo foi normal. 
Ou escolha do destino deles.
Nunca! 
Morriam por não haver uma vacina, ou medicamento eficaz, ou leitos de hospital para tratar as infecções oportunistas. 
E nunca deixamos nenhum militante do GAV dizer que era normal.
O que vivemos hoje é uma catástrofe. 
E estas mortes se espraiam em todos os setores sociais. 
Com pequenos comerciantes, morrendo, sem acesso ao crédito. Com trabalhadores, morrendo, numa fila de auxílio emergencial. Com profissionais de saúde, morrendo, no front do enfrentamento. Com caixas de Bancos Públicos desdobrando-se para atender filas quilométricas, além de expostos.
Não, não podemos normalizar a morte, a dor, a luta de tantos por seus direitos à assistência.
Vivemos um polvo-tragédia, que se manifesta em mil tentáculos de medo, impotência, sofrimento e luto.
E, em nenhum deles, repito, em nenhum deles, pode habitar a normalização.
Nego-me, com veemência, a considerar esta besta fera como normal.
Nego-me a dizer que morreriam de um jeito ou de outro. Afinal, quem não?
Nego, como a bandeira de meu Estado, a fingir que nada ocorre, ou continuar com a vida normal.
Nego a fazer de conta que tudo vai bem, deitado em berço esplêndido.
Nego botar uma fantasia, entorpecendo e alienando a consciência, para fugir do real.
Nego não chorar.
Eu choro, eu sofro, porque o instante existe. E a minha alma não é pequena.
Quando eu não mais me assombrar, não mais me indignar, não mais apertar o coração ao ver tanto sofrimento, eu me tornarei tudo aquilo que mais me revira as tripas, alguém cuja a presença no mundo não coopera em torná-lo melhor.
Nem que seja chorando as mil lágrimas, nesta noite de pesadelo brasileira que não quer findar.
Quanto à esperança de dias melhores, eu tenho e de montão. 
Mas, cada coisa em seu lugar. 
E o momento é de chorar.

Ass. Ricardo de Faria Barros

Sejamos Itaberaba (por Ricardo de Faria Barros)


Acordei cedinho e me despedi de meus pais, após uma breve temporada de isolamento vivida no colo deles.
E como estes dias me fizeram tão bem!

Agora eu começaria a viagem de volta, de Campina Grande-PB para Brasília-DF, percorrendo uns bons 2.200 km, em dois dias de carro.


Saí 5h30 da manhã e, duas horas depois, aquela vontade de fazer xixi apareceu. Eu optei por me alimentar dentro do próprio carro, e não usar os banheiros dos postos, limitando ao máximo meu contato social.

Então, entre as brumas do dia que nascia, já perto de Caruaru, eu parei no acostamento para me aliviar.

Naquele instante reflexivo, eis que contemplo uma moita com belas flores, de um tipo que nunca tinha visto à margem da estrada. Eram de um violeta forte, quase carmim, e muito bonitas. Davam de arbustos pequenos, que formavam uma touceira única.
Pensei em levar uma muda, dado que gosto de jardinar. Então quebrei um galinho dela e a coloquei numa sacola dentro do carro.
Minutos depois, já dirigindo,  que parti, uma sensação de ardor me acomete nas mãos e pulsos. Uma coceira ardida, que nem passando o álcool resolvia.

O incomodo era tão grande que até dificultava a concentração para dirigir. Procurei alguma cidade perto, para comprar um antialérgico, mas tudo ainda estava muito longe.

Aquilo ali deveria ser da família das urtigas, contudo a ardência era pior, mais penetrante, irritativa, e muito chata.

Como o álcool não amainava passei a colocar o gelo que levava,  e a sensação de dor foi amainando aos poucos. Ufa. Uns quinze minutos depois ela cessou e respirei aliviado. Preventivamente, joguei o galho na estrada. Aquilo não era muda de se ter em casa.

Este foi meu primeiro "aprendimento" no retorno. Nem tudo que floresce é bom. E não é verdade?  Como temos coisas que são floridas, exuberantes, e que quando delas nos aproximamos sairemos machucados, elas vão nos agredir, vão nos ferrar!

Nem tudo que floresce te faz bem. Algumas destas coisas vão te machucar, porque elas tem espinhos venenosos, que agridem tudo que nelas tocará.

Perdido em mil pensamentos comecei a ouvir o vento. Tem sensação melhor do que abrir a janela do carro, ao passar por uma região que acabou de receber uma chuva, e sentir aquele vento cantando feliz?

Agora eu descia a Serra dos Ventos, em direção à Garanhuns-PE. Gostei muito de por ali passar. Aquela serra foi adornada com inúmeras torres eólicas que davam um charme adicional à mesma.
E os ventos uivavam, e lavavam minha alma. E levavam até o restinho de ardência das mãos, que propositadamente eu botava ara fora, para serem umidificadas por aquela brisa uivante e refrescante.

Aqueles ventos foram um outro "aprendimento", ventos podem gerar energia. Precisamos ventar sobre nossa alma, para que ela se movimente. Como diz a canção: "Vento, Vela, Vida, leve-me daqui". Os ventos são isto. São possibilidade de sair.
Seja uma pipa, um avião, uma jangada, ou um catavento que puxa água de um poço, onde há vento há esperança de que algo está ocorrendo, ou ocorrerá. Como anuncio de uma chuva benfazeja.
Eu nunca tinha parado para refletir sobre a força dos ventos, o que fiz descendo cuidadosamente uma serra com o seu nome.
É preciso arejar a vida, abrir as janelas do entendimento, tirar os fungos, ácaros e os mofos da rotina, e nisto os ventos são craques.

Já pela tarde, após muitas léguas de direção, avisto ao longe uma construção imponente. E, ao fazer uma curva, é que ela se apresenta completa, toda majestosa. Uauuu!
É a represa de Paulo Afonso, que bela obra de engenharia.  Passo com o carro bem devagarinho sobre o balde do açude, vendo o Velho Chico que escorre pelo canal das turbinas de energia.
É algo tão místico esta travessia sobre a represa que chega a silenciar a mente, elevando-a num estado de prece.

Aqui tive um outro "aprendimento", o do quanto podemos fazer como humanidade, quando esta humanidade se junta num coletivo único, somando conhecimentos, tecnologias e investimentos para realizar algo.  A construção desta Hidrelétrica é um destes fazimento.  Imaginem o quanto de progresso a energia levou, gerada daquele rio represado.
Testemunhar estas grandes obras da engenharia nos apequena o orgulho, liberta-nos de toda arrogância do conhecimento, e nos faz orgulhosos de nossa trajetória civilizatória. E, como precisamos disto!  Desde as Pirâmides do Egito, à chegada na Lua, os grandes feitos da engenharia mundial nos lembram que nos desenvolvemos como humanidade, que superarmos limites, que crescemos. E, em tempos de tanto medo com o que virá desta Pandemia, sai daquela represa mais confiante. Confiante de que encontraremos a cura, a medicação e viveremos um novo renascimento cultural, após tanta devastação que este vírus causou. 

Seguindo viagem, cruzo a ponte de Ibotirama, mais uma vez sobre o Velho Chico, que sob ela corre caudaloso.
De Paulo Afonso não se tem ideia do tamanho deste rio. Uma vez que o cruzamos sobre o balde do sangradouro, bem distante de seu leito original.
Já em Ibotirama-BA, é preciso quase que parar sobre a ponte, de tanta beleza que se ver. Peguei um período em que as chuvas foram generosas nas suas nascentes, e um verdadeiro tsunami de águas desce sobre ele.
E que águas abençoadas são as do Velho Chico. Já tive a honra de vê-las chegando no mar, lá na cidade de Piaçabuçu-AL. Agora só me falta visitar suas nascentes. Que um dia farei. Tomar banho nele já tomei, lá na transposição em Monteiro-PB.
Passando por sobre aquela bela ponte, tive outro "aprendimento".  O de que as águas podem levar vida, caso sejam bem aproveitadas e respeitadas. Que daquelas águas muitos bebem, navegam, criam, regam e se refrescam. Avistei ao longe um barco, com sua carranca típicas, que me lembrava que é preciso afastar os "maus espíritos" do rio. Sim, meus caros amigos, este foi o aprendimento de Ibotirama. Precisamos de "carrancas" que nos protejam.  Que afastem os galhos perigosos que descem pelo leito caudaloso, que sinalizem os bancos de areia ou de pedras, que nos façam continuar avistando à frente, mesmo que a neblina seja forte.  Elevo meu coração e rezo ao Espírito Santo. Ele é minha Carranca do São Francisco. Você deve ter as tuas. Para alguns a Carraca pode ser a poesia, a literatura, uma boa música, ou um moi (ajuntamento) de amigos. Que seja! Mas, sem elas a travessia pelo rio da vida fica muito mais difícil. Quase arriscosa de se naufragar na primeira braça de água vencida. Precisamos de subjetividades imateriais que nos inspirem, que nos façam apreciar uma lua cheia, ou uma folha orvalhada.  Precisamos cultivar esta conexão espiritual maior.

A viagem continua e as surpresas idem. Agora as margens são multicoloridas das flores baldias do sertão da Bahia. Em alguns trechos predominam as amarelas, noutro trepadeiras rosas e violetas, mais à frente são as branquinhas da Jurema, cujo perfume delicia um olfato mais atento  presente ao existir. As flores catingueiras estão em festa, choveu no sertão. E elas sabem que precisam florescer com exuberância e fecundidade, para que novas sementes e frutos sejam possíveis, no curto período de águas do Nordeste. Mais à frente um mandacaru mostra-se todo carregado de suas flores brancas, e um arco-iris compõe a idílica beleza do planalto da Chapada Diamantina. Cruzo a estrada por entre morros, por cima de morros, abaixo de morros, que quase tocam o carro. A Chapada está linda e em festa. Para onde a vista se pruma, é beleza estonteante que se vê. Mas, a atração principal ocorre nas margens da estrada, que são as flores vadias que a emolduram. É como se dirigisse entre canteiros floridos e perfumados. E aqui tenho um outro aprendimento. É preciso aguçar o sentir, o estar presente, para captar toda a essência de alguns momentos que vivemos. Caso contrário, eles passaram despercebidos, ou serão vítimas da maior forma de violência que podemos ter para conosco mesmos, ou para com os outros, que é a indiferença. Como senti o perfume das flores da Jurema? Apurei o olfato, e me deliciei. Como vi que as flores vadias, invadiam as margens da pista, e alguma delas se atrepavam em velhos troncos retorcidos e secos, formando inusitados arranjos e rara beleza? Apurei o olhar.  Creio que a ansiedade e estresse cotidianos nos privam disto. Vamos entrando no modo sobrevivência, no modo piloto automático, e não mais nos capacitamos para poetizar a jornada do viver. Preocupamo-nos com o aquecimento do motor, com o combustível, com o trafego intenso, com ultrapassagens, com as curvas, a chuva e os buracos na estrada, e em chegar logo. E, de tantas preocupações, esquecemos de apreciar o caminho, a flores que perfumam e embelezam nossa travessia. E, transpondo para nossa vida, elas são as pessoas boas e a gratidão pelas coisas que facilitam o nosso existir. As pessoas boas e o sentimento de gratidão são as flores de nossa existência. 

Termino de atravessar a chapada e agora são campos abertos que se descortinam até perder de vista.  O sol se encaminha para a lua, e o céu é tingido de um vermelho vívido. Dirijo no trecho Ipirá-BA a Itaberaba, que será a última parada para abastecimento, antes dos 200 km que faltam até o pernoite em Seabra-BA.
É uma estradinha estadual muito boa, sem curvas, bem conservada e que erguida sobre um planalto. Já estou cansado, após 900 km percorridos.
Olho à minha esquerda e vejo um luz ofuscante vindo em minha direção. Vem de algo estranho, pois que algumas elevações da estrada a encobrem. Fico curioso com aquilo, o que será aquele negócio brilhante lá longe? Pergunto-me.
E vou me aproximando, até que tudo aquilo se descortina ao meu lado. Uaauuu!!!
Do meio do nada, de um enorme planalto, irrompe dois morros de pedra, que no conjunto parecem com o Pão de Açúcar do RJ.
É tanta beleza que pela primeira vez não resisti, e fiz uma parada adicional, sem ser para xixi. Parar ali era necessário, para documentar aqueles dois morros que se fundem numa imagem única, brilhante, que dela brota uma estranha e bela luz.
Contemplo aquela cena admirado. Que coisa mais linda de meu Deus. Quando voltei pra Brasília pedi um help nas redes sociais e o amigos Rubem, Isaac  e Eliézio socorreram-me na inquietação do que seria aquele conjunto rochoso, é a Pedra de Itibiriba, ou Itaberaba, como depois ficou sendo mais conhecida.
Cuja tradução significa a "pedra que brilha".
Uauuu!!!
Eu estava diante de uma raridade, de um fenômeno geológico, de uma formação rochosa, possivelmente recheada de minúsculos cristais que quando o sol neles incidia amplificava e projetava o seu fulgor, sendo visível a mais de 50 km de onde eu a contemplava.
Eu precisava registrar aquele momento para a minha namorada, que é minha Itabereba. E este foi meu último aprendizado. Precisamos parar para nos deixar iluminar pelas Itaberabas em forma de gente. Pessoas que brilham, não o brilho da vaidade, da ostentação ou do árido poder. Mas o brilho dos valores, da mansidão, da paz, da ética, da justiça, da fraternidade, do respeito. Um brilho que alumia as trevas dos tempos presentes. Um brilho que orienta, acalma, influencia positivamente e que nos faz enxergar coisas boas, que nem nós mesmos percebíamos em nosso viver.
Você tem alguma pessoa Itaberaba em tua vida? Aquela que o amor, quando dela sai e se projeta em ti, torna-lhe melhor e mais forte como pessoa, mais apto a encarar e resolver as coisas da vida?
Aquele conjunto rochoso, que ilustra esta crônica, reluz porque não se limitou a ser como qualquer formação rochosa, que só absorvem a luz. Itaberabas devolvem parte da luz recebida, tornando tudo ao seu redor melhor e mais significativo. Dirigi os últimos 250 km, de Ipirá à Seabra, agradecendo a Deus os aprendizados deste primeiro trecho da viagem. E resplandecente com o brilho do olhar que recebi daquele morro. E pensei no quanto podemos polvilhar nossa rocha da existência com pó de cristais, para que parte da luz que recebemos seja devolvida para os outros. Contribuindo para que a luz vença as trevas!  Abençoados os que têm Itaberabas em seu viver. E, mais abençoados ainda, os que adquirem a consciência de que podem iluminar multidões, com o brilhar de sua existência, pautada em valores positivos e na defesa da dignidade humana. 

Agora vou ali contar pra minha Itaberaba o quanto ela ilumina o meu viver!
 

 

 










Em tempos de crise, qual Quinteto Fantástico devemos alimentar? (Autor Ricardo de Faria Barros)

Neste momento de perplexidade mundial, nada mais urgente, necessário e possível do que manter a fé na vida, no ser humano e no que virá. Conforme a canção abaixo:

Semente do Amanhã (Nunca Pare de Sonhar)  - Gonzaguinha

Ontem um menino que brincava me falou
que hoje é semente do amanhã...

Para não ter medo que este tempo vai passar...
Não se desespere não, nem pare de sonhar

Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs...
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!
Fé na vida Fé no homem, fé no que virá!

Nós podemos tudo,
Nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será



Mas, não é nada fácil manter o pensar, sentir e fazer de forma sustentável, em ambientes de medo, restrições, angústia, frustração de expectativas e de decepção por necessidades não atendidas.

Nestes momentos, cresce em nós atitudes e comportamentos derivados do cérebro reptiliano que amplifica, distorce e reverbera o perigo, para que possamos a ele sobreviver.

Entra em cena o Quinteto do Mal. Personagens que alimentamos em nossa mente e que conduzem nossas atitudes e comportamentos de forma muito danosa. As principais atuações destes personagens, no palco da vida e do viver, são cinco:

1. O Rabugento Reclamão– Ele é aquele personagem que sempre está mal-humorado. Que reclama de tudo na vida, para quem os dias estão sempre cinzentos. Em alguns momentos o rabugento chega a ser violento, porque ele tem pouca noção de empatia para com o outro.

2. O Negativo Crítico – É aquele que não acredita que algo de positivo possa ocorrer. Ele chega num ambiente procurando o que aquele local tem que não o atende. O que falta para ser excelente, e nunca se satisfaz com o que está regular ou bom, ou seja, o que já dá jogo, dentro daquele determinado contexto. 

3. A Vitima Desanimada – Para este personagem, todos estão contra ele. O mundo o persegue. Tudo de ruim lhe ocorre, e busca nestes acontecimentos justificativas que reforcem o seu desânimo. Na posição de vítima ele não se ver como protagonista de mudar, de dar uma resposta à vida. Diante de algo de ruim que lhe ocorreu.

4. O Ingrato Egoísta – Este personagem não consegue sentir e expressar gratidão, por nada e por ninguém. Ele acha que o mundo gravita em torno de si mesmo, e que tudo deve ser direcionado para si mesmo. De postura altamente individual, ele acha que merece, e que por merecer, não precisa dividir, cooperar, nem elogiar as pessoas que com ele interage.

5. O Destrutivo Desarmonioso – É aquele papel de quem adora atear fogo no circo. Como ele tem medo do amanhã, ele opera no sentido de que todos pode ser seus inimigos, e [e melhor eliminá-los, seja com fofocas, seja com conflitos desnecessários. É aquele que não só rema contra, mas ainda faz buraco no barco.



É possível deter a ação deste Quinteto do Mal? SIMMMM!!! 

Para cada personagem do Quinteto Mal, há um outro do Bem, que encena no mesmo palco da vida e do viver. Resta saber qual deles daremos comida ao final do dia, quem vamos alimentar dentro de nós, pergunta que nos fazemos em processos de autoconhecimento, de aprendizado e de sensibilidade diante da vida.  

Quem são os mocinhos que combatem estes vilões?

Quem são os personagens do Quinteto Fantástico do Bem?

1. O Otimista Realista – Ele não é alienado, ele tem consciência da situação presente, dos desafios e limites. Contudo, a orientação de vida dele é positiva. O GPS interior dele aponta para a solucionática, para uma disposição positiva diante da vida. Ele sabe que nem sempre vai conseguir a melhor resposta a algo, conforme planejado, mas aprende a saborear aquilo que ainda deu para fazer, de acordo com os recursos disponíveis, e na conjuntura em que se opera.

2. O Esperançoso Transformador – Ele cultiva sonhos de que o amanhã será melhor, para si mesmo, para os outros e para a sociedade. Porém, ele não fica sentado, à beira do caminho, esperando que algo de bom lhe aconteça. Ele vai atrás, construindo possibilidades, alternativas e ações no hoje, cujo somatório contribuam para com o amanhã desejado.

3. O Resiliente Sábio – É um personagem do Quinteto do Bem que aprendeu a se contorcer, diante de um perigo, a se adaptar, e a mudar posturas e comportamentos, para melhor conviver com uma situação difícil. Ele não se deixa abater, aprendendo a melhor reagir aos problemas. Ele aprende a navegar em mares bravios, no lugar de ficar reclamando do tempo. E, quando lhes faltam os ventos, eles remam.

4. O Grato Generoso
- Ele desenvolve a postura de captar, sentir e expressar gratidão. Tem consciência do outro, de quem lhe abre caminhos, de quem lhe ajuda nas demandas da vida. E contribui no círculo virtuoso devolvendo o que de bom lhe ocorreu, em farta doses de doação e generosidade para com o outro.

5. O Construtivo Harmonioso - No lugar quem que todo mundo está em pé de guerra, é este personagem que chama para a paz, que cede, que tolera, que harmoniza, que reconcilia e que busca uma solução negociada para as tensões. Sua especialidade é em construir, em crescer junto com as outras pessoas. Sem as diminuir, sem as oprimir, sem fazer de cada desavença uma guerra insolúvel. Ele aprendeu a não criar paredes nos ouvidos, e a desenvolver a empatia no ser, fazer e acontecer junto com os outros.


Então, é isto que temos que ter cuidado em momento de grandes crises pelas quais passamos, ou passaremos, ao ter a consciência de qual dos personagens devemos alimentar em nosso viver, quem deverá crescer em nosso pensar, sentir e agir?
Os dos Mal, ou os do Bem, a decisão é nossa e ela pedirá esta resposta várias vezes por dia.
Basta que comece a se analisar, a se conhecer melhor, a questionar as posturas do Mal, que aprendeu a desempenhar, até como forma de auto-defesa.
Será que elas fazem sentido ainda? Será que elas não estão lhe empobrecendo?
O mal far murchar, o bem faz florescer. O mal diminui, aprisiona e desvaloriza. O bem cresce, liberta e valoriza.
Mas, é preciso muito cuidado, e não perder, como diz a canção do início deste texto, a “luz do céu que brilha no olhar”.  Pois que é justamente este céu interior quem nos dará forças para não alimentar o Quinteto do Mal, com atuações tão comuns em nossos dias. 

Os dia em que a Terra nos formatou! (Por Ricardo de Faria Barros)

Acordei sobressaltado, após uma semana dormindo, pois que era um sono acumulado de milênios. Durante o qual tive um pesadelo terrível.
Sonhei que o planeta Terra teria formatado o sistema operacional da raça humana, nos devolvendo aos tempos das cavernas.

Banhei o rosto, tentando lavar aquele pesadelo ruim, e botei o tênis para caminhar, levando numa sacola um livro que comprei para o filho do Rangel, que estuda direito.
Na calçada das crianças, uma que dá acesso à uma creche, não havia os costumeiros choros de despedidas das mamães e papais. Nem sons infantis, tão relaxantes.
Dobrando a esquina, não vejo as costumeiras garrafas litrão, de restos de noite do Bar Piauí. Ué, o Piauí fechou ontem, em plena quinta-feira?
Algo estava errado no ar, não sentia aquele clima de “Sextou”. Até os raros caminheiros passavam por mim com expressões taciturnas, diferentes das expressões “sextou”.
E, não avistei cenas que me comovem quando caminho, e que as vejo com frequência, de casais caminhando de mãos dadas, de crianças brincando nas entrequadras. Estava tudo vazio.
Será que seria feriado? Acho que não, em feriados as pessoas circulam.
Passo pelo Líbanus, para deixar um livro para o Rangel, de presente para o filho dele, e está fechado. Ué, já são 10h, e eles começam a preparar o ambiente cedinho, principalmente numa sexta. Voltei pra casa pensativo, será que formataram a raça humana mesmo. Será que estou formatado e não sei?
Uma porta de casa se fecha com a lufada do vento. 
Acordo, e lembro que sonhava sobre o sonho do pesadelo. Sonhei o pesadelo. Respiro apreensivo, não, não era um pesadelo. E nem caminhei a pouco, nem levei livro, nem vi as calçadas vazias, tudo era um sonho. Menos, a realidade surreal e alucinante, de que realmente a Terra nos formatou.
Estamos todos no modo “Format”. Não há mais festas de batizados e casamentos, nem tampouco enterros comunitários. Não há mais as gostosas visitas dos amigos e familiares, para confraternizar com algo, ou simplesmente o nada, só pelo gosto de estarem juntos.
Não há mais as envolventes disputas esportivas, entre as quais os emocionantes Fla x Flu, ou Treze x Campinense. Não há mais pessoas nos templos, em grupos, orando a bom Deus.
Escolas, academias, bares, teatros, cinemas, museus, shoppings, parques, clubes...etc., todos fechados.
E a raça humana, bilhões de pessoas, voltou para a toca. Todos ao mesmo tempo. A fogueira que mantém o povo unido, à beira do calor da toca, é o WIFI.
Crianças que não mais sabiam o valor de se ter uma família, passaram a conviver com os seus de forma intensa.
Pessoas que tinham paraísos em suas vidas, mas que estavam esquecidos, hoje sentem falta deles, como a possibilidade de abraçar quem gosta, e que muitas vezes moram pertinho.
Casais apaixonados não podem se ver mais, e, cada um em sua toca, procura formas de manter a chama acesa, e lidar com a dor da ausência do outro. A pior das solidões, revestida na palavra saudade. E uma das mais cruéis saudades é a da presença do outro que não está ali.
Filhos passaram a ligar mais para seus pais.
Casais, na ausência do que fazer na toca, reaprenderam a conversar entre si, sem brigar, sem buscarem o que o outro tem que não o satisfaz mais. Na toca, não há tempo para pequenez da alma, todos ativa o modo sobrevivência.
E, no modo sobrevivência, não se tem tempo para alimentar rancores, mágoas, ou agressões mútuas, é todos por um, um por todos, caso contrário a toca não sobrevive.
Filhos aprenderam a fazer tarefas domésticas. Pais aprenderam a acompanhar atividades online dos filhos. Aliás, reaprenderam até a convier melhor com eles, inventando mil brincadeiras para entretê-los.
Na toca se reaprende a limpar as gavetas da alma, a passar esperança na alma, a degustar boas 
lembranças do passado.
Se reaprende a dar valor à própria toca, por menor que ela seja, pois que há tantos que no modo "Formatado" tiveram que ser resgatados das ruas para abrigos improvisados.
Na toca, ficamos nus, e podemos finalmente voltar a enxergar a nossa essência.
Na toca, pessoas não valorizadas, reconhecidas ou simplesmente invisíveis foram finalmente percebidas como essenciais. Aquela diarista, que mal podia comer da mesma comida da casa em que trabalha, agora está sendo sentida a sua falta.
Na toca, se aprende a valorizar aqueles que se arriscam a dela saírem, pois que executam atividades essenciais, ao próprio funcionamento dos que se protegem nelas. O caixa de banco e de supermercado, o profissional de saúde, o professor que transmite aulas online da escola, o frentista de posto de combustível, o atendente da farmácia, o motorista do ônibus, o zelador do prédio, o policial, a cuidadora de idosos, o motorista de entrega de comida, os atendentes de call-center, e um monte de outras profissões.
Na toca, reaprendemos a ler, ouvir música, ver lives, jardinar...
Na toca, é preciso agendar o dia. E descobrir as possibilidades que ela possui, com os recursos disponíveis, para que a pessoa não adoeça mentalmente. Sim, o modo “Formatado”, vivido sem objetivos, pode causar doenças mentais, pois que que desliga o sistema de produção, mobilidade e interação humanas.
Este primeiro semestre de 2020 vai entrar para a história. Na idade moderna, é a primeira vez que toda uma população entra em quarentena, e volta à toca.
Creio que tirando as sequelas econômicas, que serão enormes, haverá um aprendizado muito grande para a raça humana, quando sair do modo Formatado.
Que ela pode sobreviver, e bem, a um monte de coisas que foi se plugando ao estilo de vida do ser humano.
Aprenderemos muito nestes dias de toca, que ainda vivemos. O valor do outro, da empatia, da solidariedade, da ajuda de qualquer forma, para que pessoas sobrevivam a este momento Formatado, sem mais os vírus comportamentais e atitudinais que estavam apequenando a humanidade. Aprendemos o valor da simplicidade. Aprendemos a bater palmas para pessoas que mantém as coisas funcionando. Aprendemos o valor de um abraço, tão desejado, e tão difícil de ser dado em tempos de isolamento.  Aprendemos que as pessoas são mais importantes do que as coisas. Aprendemos o valor do agora, pois que sobre o amanhã não temos certeza alguma.
Aprendemos que não fazer nada também é bom. Que não ter uma agenda estressante e cheia de coisinhas pra fazer, lá fora, também é bom. Aprendemos que muito do trabalho já pode ser executado de casa mesmo, o que pode revolucionar o modo de concebê-lo.
Aprendemos a nos reinventar, a focar nas solucionáticas, e buscar inovações para operar neste novo mundo que se descortina.
Aprendemos como era bom quando a campainha tocava, ou quando alguém dizia que vinha nos ver, ou nos chamava para algo.
Não é o que estamos vendo em todo lugar? O melhor da raça humana acontece na toca.
Jovens se oferecendo para ajudar idosos. Filhos descobrindo que ainda têm pais. Profissionais e empresas, de todos os setores, oferecendo seus serviços gratuitamente, no ambiente web, ou tocando músicas das varandas de seus lares, para animar os demais.
Gente se mobilizando para cantar parabéns bem alto, para que aniversariantes escutem do outro lado do corredor. Gente se curando da síndrome da intolerância a Humanos. Gente perdendo a arrogância, orgulho e vaidade, e se aquebrantando em sabedoria e humildade, diante da insegurança com o que ocorre.
Gente se achando, se escutando, se avaliando sobre as escolhas e decisões que fará, ao sair da toca. O modo “Formatar” pode ter sido bruto, mas que levará toda uma geração a se reinventar, tenho certeza disso. E para melhor.
Aquilo que antes importava, pelo qual perdíamos noites de sono, ou que dávamos a vida para conseguir, aprendemos que podemos sobreviver a sua perda.
São os relatos das tocas, mundo afora.
Quando a Terra nos reinicializar ela estará mais limpa, de nossos lixos, e nós estaremos mais limpos, de nossos lixos também, os emocionais.
Acreditem nisto!
E, quando dela sairmos, uma lufada de Brisa Aracati vai restaurar e refrescar o nosso ânimo, fazendo renascer uma profunda vontade de amar e de viver, que ativará mais uma vez a imensa capacidade da humanidade de se reinventar.
Ao redor da fogueira do wifi, dentro da toca, tem uma placa escrita com letras de esperança, com os dizeres:
“Sobreviveremos: isto também passará, e amanhã seremos melhores”.


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Foto: A Caverna das Mãos, na Patagônia Argentina, datação de 9.000 anos. A ‘Cueva de las Manos’ é um Patrimônio Mundial da UNESCO.

Não basta álcool em gel nas mãos, é preciso esperança na alma. (Por Ricardo de Faria Barros)

Estamos vivendo um dos momentos disruptivos da história da Humanidade, no qual a pandemia do Coronavírus virou tudo de cabeça para o ar.

No meu entender, seremos testemunhas, e atingidos,  por uma grande transformação sócio-econômica pela qual passará a sociedade,  assim que começarmos a juntar os cacos deixados por este vírus, mundo afora.

Uma destas coisas que podem nos atingir, são as sequelas emocionais de longos períodos de isolamento social, ou de distanciamento de relações amistosas e afetivas com os outros.

Quando o abraço murcha, a noção de civilidade apodrece, virando uma espécie de um por um, e nenhum por todos.

Então, é preciso que vozes do mundo todo se unam numa corrente de esperança. Como digo no título deste texto, não basta lavar as mãos com álcool em gel, para conter o avanço da pandemia, é preciso lavar a alma com esperança.


ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DOS ISOLAMENTOS - (Para se entender melhor) 

Uma das principais tarefas cidadãs, no momento, é não circular pela cidade.
Ficando em casa e evitando uma propagação mais veloz deste vírus.
Mas, as pessoas foram pegas da noite para o dia com esta diretriz de saúde pública.
E, para muitos não está sendo fácil viver este auto-isolamento, na gruta em que habita, seja o nome que se dê a mesma: casa, apartamento, barco, chácara, lote...

1. O Desejo da Falta

Vive-se neste isolamento a sofrência do desejo o ir e vir.  É que a mãe de todo o desejo se chama Falta. O desejo expande na falta. Quando não se tinha o sentido da falta, não importava a calçadinha da praia existir, a poucos metros de nossa casa. Ela estaria sempre ali. E, ficaria para um dia depois ir passear por lá.   Agora, com os Decretos Estaduais que impõe o isolamento, ela não pode mais ser acessada. E, se antes mal nela passávamos, agora sentimos uma vontade danada de andar por aquela calçadinha, seja a de Copacabana, seja a de Tambaú.  Então a primeira sofrência que o auto-isolamento faz brotar é daquelas coisas que estavam pertinho de nós, e que nem sempre as valorizávamos, e que por agora não podermos mais degustá-las, sentimos uma falta danada delas.

2.  A Ausência do Outro

Não fomos feitos para viver trancados. Precisamos da dinâmica da vida, dos sons de humanos, de dar e receber afetos, e do cheiro e toque de gente para nos sentirmos vivos. Não sem motivo, uma ida à feira-livre é terapêutica. Sentimos falta do happy hour, do papo com colegas de trabalho, da ida a shows, noitadas, e partidas esportivas, além da missa-culto, da academia, de sair para viajar, ou de churrasquear para os amigos no final de semana.  O outro importa.  O sentimento de não achar a turma, de se sentir só, mexe com a psiquê humana.  Não estamos preparados, emocionalmente falando, para viver numa ilha.  Por melhor que ela seja, caso sozinhos, após alguns dias, vamos nos enfadando. Queremos alguém para dividir as coisas da vida, que ocorrem nesta ilha.

3.  A Sabotagem da Paz 

Este processo de exílio  no enfrentamento de uma doença que circula invisível, pelo ar, sem muita previsibilidade de quem será o próximo atingido, aumenta a sensação de aperreio. por melhor que seja a rede social, nada se compara a uma visita de uma amigo que nos acalma o coração. Então é um momento de muita angústia, ansiedade, medo e preocupações, afinal não o planejamos, nem foi uma escolha. E a incerteza com o amanhã açoita o pensar, e produz noites insones.

4. Os Desestabilizadores do Agora 

Nesta categoria de aperreio existem dois elementos cruciais. A questão da execução da agenda cotidiana que foi rompida. E a pessoa se sente perdida. Ela acordava todos os dias com uma agenda a cumprir. Seja escola, seja trabalho, seja sair para resolver pendências, ou coisas da vida pessoal. E, de repente, cadê aquele ônibus que pegava todos os dias? Cadê o menino pra deixar no colégio? Cadê aquela busca por vaga no estacionamento? Ou aquela agenda que as 24 horas eram poucas pra cumprir? Agora, parece que o dia tem 48 horas. E a falta de marcações habituais na agenda, cria uma sensação de vazio existencial.  O outro elemento é o cancelamento de coisas que marcamos para ocorrerem logo ali, dobrando a esquina do futuro. Um casamento que iríamos, uma viagem cobiçada e duramente comprada, que tiveram os vôos e hotéis cancelados,  seja coisas prosaicas como uma noite cultural, um festival de cerveja, um congresso, um evento da igreja, ou até o dia de uma entrevista de emprego, realização de concurso, ou de visita a parentes distantes. Toda a agenda futura, para os próximos meses, ficou adiada, para um dia qualquer, ou sempre cancelada. Isto mexe com o agora, tira o chão dos pés.


Dito isto, agora você já começa a se compreender melhor sobre coisas que pode estar sentindo. Eu tenho uma fórmula para lidar, e atenuar, os imprevistos negativos que me ocorreram. Como um cancelamento de um contrato de fornecimento de palestras, um vôo cancelado, ou um projeto adiado por falta de condições epidemiológicas para juntar pessoas em torno dele. Todos ocorridos comigo.

Como melhoro da cabeça?

Faço três perguntas a mim mesmo, e, caso a resposta a elas seja uma negativa, eu prescrevo uma dose de AAS.  Leia e entenderá.

Vamos às perguntas.

Fui culpado pela situação negativa ocorrida?
Posso alterar algo na situação negativa ocorrida?
Pensar na situação negativa que me ocorreu ajudará em algo, do ponto de vista de sua solução?

Se respondi: Não, Não e Não, passo para o AAS.

O que é o AAS?

A de Acolher o que ocorreu, já que não posso mudá-lo.
A de Aprender com o que ocorreu, e crescer diante da situação negativa vivida. Mudar a si mesmo.
S de seguir em adiante, parar de olhar para trás. Mudar-se da posição de vítima.


RISCOS DO ISOLAMENTO SOCIAL


1. Quebra da Arquitetura da Toca

Nossa toca, nossa gruta, tem um espaço socialmente demarcado. Com mais pessoas mais tempo coabitando este lugar as tensões e conflitos poderão eclodir. E precisarão de muita inteligência  emocional para serem harmonizadas. Coisas simples como uma ida ao WC pode criar fila, ou o acesso à cozinha  Também a parte do lazer pode ser afetada, com diferentes necessidades sendo colocadas em pauta. A Toca parece que não é programada para longas permanências dentro dela, sem sair para uma desparecida lá fora.

2. Busca de Atenuantes à Ansiedade

A pessoa começa a querer suprir a ansiedade do "confinamento" comendo tudo que vê pela frente. Ou bebendo qualquer coisa que tenha na adega. E ainda consumindo em sites virtuais. Então, o risco é sair um alcoólatra, obeso e endividado após um período de isolamento social.

3.  Perda de Referencial Temporal 

Aqui colhemos da experiência de quem ficou em solitárias, na qual não se sabia mais que dia era. A pessoa deixa de seguir uma agenda de cuidados, dorme muito, troca a noite pelo dia, não come nos horários costumeiros. E o dia vira noite. E a noite vira dia. Como se ele estivesse passando por uma espécie de Jet Lag.


O QUE EVITAR NO AUTO-ISOLAMENTO SOCIAL (Coronavírus)

1. Consumo excessivo de mídia negativa, alarmista e, muitas das vezes, sem consistência científica.

2. Acreditar em narrativas apocalípticas, como verdadeiros mantras auto-realizadores. "Nunca iremos nos recuperar disso".  "Vai faltar comida e água".

3. Participar de boicotes, crendices, e outros comportamentos sem amparo científico, alimentados pelo medo e ignorância sobre a doença.


SEIS FORMAS DE LIDAR COM O ISOLAMENTO SOCIAL

1. Não se prostre e se descuide de si mesmo.  Você não tirou férias de teu corpo.  Precisa manter a autoestima funcionando, ao tomar um belo banho, comer saudável, fazer o que der pra fazer pra se exercitar, nem que seja cantando no banheiro. E, não se desconecte dos horários dos remédios, nem dos amigos que pode acessar via rede social.

2.  Crie metas e agendas diárias para alcançar e fazer algo. O que vou aprender hoje? Que prato posso fazer na cozinha? Qual livro lerei? Que artista preferido vou pesquisar tudo sobre ele? Sobre que parte de minha vida farei uma crônica? Qual foto antiga merece uma repostagem, com a narrativa daquele momento gostoso que viveu. Mesmo sem ser numa quinta.

3. Engajamento (Flow).  O que te leva a se desconectar do tempo e das preocupações quando está fazendo? Eu coleciono vinis. Quando folheio as capas, e os escuto, esqueço do mundo. Ache aquilo que te dá esta sensação. Pode ser um trabalho que esteja produzindo no notebook. Pode ser uma jornada para leitura de livros sagrados. Pode ser a própria oração, ou meditação. Ache seu Flow, de deixar a vida fluir em si mesmo.

4. Solidariedade - Ninguém Solta a Mão de Ninguém Virtual. Uma das maiores fontes de bem-estar ocorre na relação empata e cooperação para com os outros. Coloque-se disponível para isto. Tem gente no teu prédio que pode estar precisando de tua luz. Seja cantando na varanda, seja se oferecendo para levar o cachorro para sair (caso tenha menos de 60 anos), ou fazer compras. Ou simplesmente ligar para a pessoa e tranquilizá-la, para que ela não se sinta desamparada, por não estar recebendo visitas.  Há um monte de coisas que podemos fazer para que este momento seja menos dolorido para muitas pessoas. Inclusive liberar nossas diaristas pagando-lhe o salário. Se tiver filho, uma boa ideia é contar histórias para ele, transmitindo-as pelo ZAP do prédio, ou condomínio, para outras crianças.       

5. Sabedoria espiritual. Desenvolva a temperança, a moderação e a fortaleza. Alimente pensamentos e emoções positivas que digam para si mesmo: amanhã será melhor, isto também passará. Busque a paz dentro de si, ou ao contemplar um amanhecer, anoitecer, ou uma criança sorrindo. Exercite a paciência e a tolerância. Reaprenda a dialogar, a chamar as pessoas para a refeição, na mesma mesa e horário. Sinta que este momento de isolamento pode ser fecundo para se autoconhecer, para exercitar o silêncio de si mesmo, sem a agitação da rotina da sobrevivência diária.  Tempo de descobertas, na gruta do lar, é o que estamos vivendo!

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