A Placa, as Cadeiras e a Exclusão dos Longevos (Ricardo de Faria Barros)

 

Há coisas que a gente só aprende quando o próprio corpo começa a fazer perguntas que o mundo não quer responder. Aprende quando o garçom demora um pouco mais para olhar na sua direção. Quando o cardápio digital exige uma destreza de dedos que os anos foram levando embora, em silêncio, como quem não quer incomodar. Quando você pergunta sobre os ingredientes de um prato e sente, na expressão do atendente, uma impaciência pequena — involuntária, talvez, mas real. Involuntária não a torna menos verdadeira.

Venho me envolvo com o tema da longevidade desde 1996, quando comecei a trabalhar junto aos aposentados das empresas de telefonia brasileiras, facilitando programas de preparação para aposentadoria. Desde então aprendi que envelhecer, no Brasil, é ainda um ato de resistência. Que a sociedade nos prepara para produzir, não para durar. Que os espaços, as cidades, os cardápios, os balcões de atendimento — tudo foi desenhado para quem tem pressa. E quem aprendeu que o tempo tem outra textura, vai ficando para trás.

Hoje trabalho no Projeto 70+ da ANABB — Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil — levando esse tema para quem precisa de interlocutores sérios, afetivos e bem fundamentados. Mas foi fora de qualquer projeto, num fim de tarde de João Pessoa, que a maior sacada me visitou.

Fui percebendo as coisas aos poucos. Não numa grande revelação — foi uma acumulação de apercebimentos. Percebi que os jovens chamavam o garçom com uma facilidade que eu já não tinha. Percebi que os banheiros ficavam sempre longe demais, numa lógica arquitetônica que simplesmente não me considerava. Percebi que eu ia deixando de ser um cliente e me tornando uma presença tolerada — alguém de quem se espera que não faça muitas perguntas, que não demore, que não ocupe cadeira de mais.

E fui entendendo, no fundo, que havia ambientes que me diziam sem palavras uma coisa muito clara: “Era melhor você ter ficado em casa. Aqui não é para você.”

Não estou falando de filas com atendimento prioritário. Não estou falando de rampas e elevadores — que já deveriam ser lei e não bondade. Estou falando do cotidiano miúdo, do café da padaria da esquina, do ônibus às sete da manhã, da informação que some num cardápio que só existe em QR code, do acesso ao metrô que vira labirinto. Estou falando de quando a vida inteira se organiza ao redor de quem tem pressa, e esquece quem aprendeu, com o tempo, a não ter.

O Longevo Doador de Cadeiras


Saindo em bares e restaurantes de Brasília, descobri um personagem que eu mesmo estava me tornando — sem ter pedido o papel, sem ter assinado nenhum contrato. Eu era o velho doador de cadeiras.

A cena era sempre a mesma. Eu chegava, me sentava numa mesa de quatro cadeiras, pedia o que queria, ficava. E aos poucos — um garçom aqui, um cliente ali — as cadeiras iam sumindo. Puxavam sem pedir. Às vezes com um aceno rápido, às vezes sem nenhum. Como se as cadeiras ao redor de mim fossem terra de ninguém. Como se o fato de eu estar sozinho significasse que eu estaria sozinho para sempre, que nenhuma pessoa seria capaz de se sentar à minha mesa ao longo daquela tarde, que a sociabilidade era um território dos outros — e eu já havia entregado meu passaporte.

Ficava num formato estranho de solidão exposta. Uma mesa com uma cadeira. Um homem sem a moldura que faz sentido ao redor de uma pessoa. E sentia os olhares — não hostis, mas curiosos, levemente desconfortáveis — de quem passava e via aquela cena estranha: um homem mais velho, sozinho, numa mesa esvaziada, que não estava olhando o celular.

Porque tem isso também: eu não olhava o celular. E isso, aparentemente, é suspeito. No mundo onde todo adulto solitário precisa de uma tela para justificar sua presença, o longevo que senta, olha ao redor, observa, pensa — esse vira uma anomalia. Um ponto fora da curva. Quem é aquele velho ali? O que ele quer? Por que não está olhando para baixo como todo mundo?

Aqueles olhares me ensinaram mais do que qualquer livro sobre longevidade. Me ensinaram que o problema não era eu não ter telefone na mão. Era eu não ter — aos olhos daqueles lugares — o direito de simplesmente existir em público, no meu tempo, no meu ritmo, disponível para o encontro que pudesse chegar.

O Bar da Buchada

A sacada nasceu num bar. O Bar da Buchada, no bairro do Altiplano, aqui em João Pessoa, na Paraíba. Um daqueles lugares que parecem ter sido feitos por acidente e terminaram certos: uns quinhentos metros quadrados ao ar livre, mesas embaixo de árvores frondosas, um ruído de conversa e gelo que é, por si só, uma forma de afeto. Um lugar que te recebe.

Mas havia uma placa na entrada. Pequena, clara, definitiva: proibida a entrada de animais.

Eu a via funcionar toda vez. Via pessoas chegarem, lerem, e darem meia volta. Grupos inteiros que precisavam se reorganizar porque alguém havia trazido seu cachorro. E aquela placa — justa, talvez, dentro de uma certa lógica — foi me incomodando por outra razão. Não pelo que dizia, mas pelo que representava: a ideia de que uma regra, por si só, vale mais do que a pessoa que está diante dela.

A Intervenção

Um dia, chegou um grupo grande. Camisetas iguais — uma academia recém-inaugurada no bairro, dava para ver pelo logo. Gente animada, barulhenta do jeito bom, ocupando uma das maiores mesas ao ar livre. Pouco depois, um casal entrou. Também com a camiseta. Traziam nos braços um cachorrinho pequeno, daqueles que cabem no colo e ficam por lá.

Leram a placa. Deram meia volta.

Os outros viram, acenaram, chamaram. O casal apontou para a placa com um gesto que dizia tudo: não vamos discutir, cumprimos as regras. E iam embora assim, deixando para trás uma mesa que os esperava e um grupo que os queria.

Me levantei.

Tenho uma relação boa com Ana, a dona do lugar. Usei disso. Propus um arranjo: o cachorro poderia entrar, desde que ficasse com eles, sem circular pelo salão. Se chegasse um animal maior, focinheira. Era simples, razoável, humano.

Ana concordou. O casal voltou. E eu — não sei bem por quê, talvez por instinto de quem gosta de gestar encontros — fui até a cozinha, peguei um vasilhame com água e levei à mesa. Para o cachorro. Uma coisa pequena. Uma coisa que dizia: você foi esperado aqui.

O Que Mudou — e o Que Nasceu

Desde aquele dia, Ana tirou a placa. Passou a ir pessoalmente saudar as mesas que chegam com seus bichinhos. Oferece água. Pede, com afeto, que os animais não fiquem soltos. Não mudou a regra. Mudou a forma. E a forma, quando é feita de empatia, muda tudo. Agora aquele local virou pet friendly.

Foi então que o pensamento pousou, com aquela leveza de coisa que parece óbvia depois que chega: e se um longevo chegasse assim? Com a sua pequena necessidade, com o seu cansaço, com a sua história de setenta, oitenta anos carregada nos ombros — e fosse recebido com a mesma atenção que Ana passou a dar ao cãozinho desconhecido?  E se tivéssemos o “aged friendly”?

E se houvesse um lugar onde o dono da casa viesse à sua mesa, apresentasse o espaço, trouxesse uma água fresquinha antes de você pedir? Onde houvesse uma campainha discreta — para que você não precisasse disputar a atenção de um garçom com as vozes mais jovens das mesas vizinhas? Onde ninguém retirasse as cadeiras que sobram à sua volta, te deixando numa mesa de cadeira única, num formato de solidão muito explícita?

E se esse lugar soubesse seu nome? Soubesse o que você gosta? Se antecipasse aos seus desejos com a naturalidade de quem te conhece — como se conhece quem frequenta a cozinha da avó?

O Pudim de Dona Denise

Pensei na minha mãe, Denise. Oitenta e sete anos, disposição a mil, e uma história de vida que merecia ser ouvida em cada mesa que ela senta. Imagine Dona Denise olhando para um cardápio — impresso, por favor, porque digital ela não consegue mais ler, e ninguém teve a gentileza de perguntar — e vendo um pudim de sobremesa por vinte reais.

Dona Denise, minha mãe 87 anos

Vinte reais que, para ela, são uma pequena deliberação. Uma hesitação. Uma conversa interna sobre se vale, se deve, se pode. Não porque não tenha como pagar — mas porque a gente aprende, com os anos, a não desperdiçar, a ponderar, a ser comedida.

E se, naquele lugar, o garçom chegasse e dissesse: “A senhora tem cinco por cento de desconto na sua comanda, Dona Denise, porque a senhora tem mais de oitenta anos — e isso aqui é uma razão de celebração.” Não é uma esmola. Não é uma benevolência envergonhada. É um gesto que diz: chegar aqui, com oitenta e sete anos, é um ato de coragem e alegria, e nós reconhecemos isso.

Um real. Um real e alguns centavos no pudim de Dona Denise. Uma coisa quase nada — e ao mesmo tempo tudo, porque o gesto não vale pelo dinheiro. Vale pelo que diz sobre quem você é aos olhos do lugar.

Ambientes com banheiros acessíveis e limpos, perto. Cadeiras confortáveis e ergonômicas. Corrimões. Cardápios impressos com letra legível. Uma campainha discreta em cada mesa. Um desconto para quem tem oitenta anos ou mais. Funcionários treinados em escuta ativa. Uma cultura de afeto para combater a solidão estrutural — essa solidão invisível que vai se instalando quando o mundo para de fazer espaço para você.

Um lugar capaz de denunciar maus-tratos, de perceber quando um longevo chega com marcas que não são do tempo. Um lugar que não olha para o idoso como um fardo tolerável, mas como alguém que viveu muito, sabe muito, e merece — no mínimo — a mesma atenção que se dá a um cliente qualquer.

Uma placa diferente da que eu via no bar do Altiplano. Não uma proibição — um convite. Uma placa que diga:

“Ei. Saia de casa. Aqui você receberá atenção, afeto e cuidado.
 Aqui você vai se sentir como na cozinha da vovó.”

     

Não precisamos reinventar a humanidade. Ela já existe — estava ali, na atitude de Ana com um cãozinho que quase ficou do lado de fora. Precisamos reconhecê-la, nomeá-la, certificá-la. Dar a ela uma placa, um símbolo, uma identidade.

Precisamos criar, em cada cidade, em cada bairro, em cada esquina com uma boa cadeira e uma geladeira gelada, o ambiente que diz ao longevo o que ele mais precisa ouvir: você ainda é esperado. Você ainda pertence aqui. O mundo ainda tem lugar para você.

Tudo começou com uma placa proibindo cães.

E com a certeza de que o contrário de excluir não é apenas incluir — é acolher.

Os Sons do Parquinho (por Ricardo de Faria Barros)


Hoje ganhei um presente raro numa cidade grande: silêncio.

Da janela do meu quarto observo o parquinho do prédio. Aquele chão de areia e brinquedos de ferro foi adotado por uma creche da vizinhança. Lá embaixo a infância acontece em correrias, gritinhos e risadas soltas. Mas o que mais me chama atenção nem são as crianças.

É o silêncio.

Quem vive em quadra residencial sabe como isso é raro. Sempre fica alguém em casa. E quem fica pode ligar rádio, televisão, arrastar móveis, usar furadeira, deixar o cachorro latir ou simplesmente permitir que a vida escorra em ruídos.

Mas hoje não.

Hoje fui presenteado com um oceano de sem som.

Um silêncio tão generoso que eu conseguia escutar o rangido das correntes do balanço. Os risos das crianças não rasgavam a tarde. Apenas boiavam sobre ela. Até as folhas da palmeira pareciam farfalhar mais baixo, como se também soubessem que havia ali uma delicadeza acontecendo.

A professora lá embaixo fazia um revezamento com os três balanços, garantindo a cada criança sua vez de tocar o infinito com os pés. Depois vieram as trocas, tão próprias da infância e também da vida.

O balanço foi deixado pelo escorrego.
O escorrego, pelos docinhos.
Os docinhos, pela ameaça de chuva.

E a própria ameaça de chuva acabou abandonada por um vento de sol radiante, um “SolRiso”, desses que empurram nuvens carregadas para outro rumo.

Fiquei apoiado no batente da janela apenas olhando.

E pensando.

Quem serão aquelas crianças quando chegarem aos sessenta e um anos, idade que tenho hoje? Quantos boletos pagarão, quantos projetos tentarão realizar, quantos amores vão amorar, quantas dores também vão dorar?

Talvez uma das lições mais bonitas daquela tarde tenha sido essa.

Quase nada permanece muito tempo no centro do nosso desejo.

O balanço cede lugar ao escorrego.
O escorrego cede lugar aos docinhos.
Os docinhos cedem lugar ao susto da chuva.
A chuva cede lugar ao sol.

E assim a vida segue, numa coreografia silenciosa de substituições.

Quando fui fechar a janela vi a placa que ganhei do meu irmão. Nela está escrito: “Meu fi, meu fi, um dia a tapioca vira”.

E vira.

Talvez amadurecer seja aprender a observar melhor as cotidianidades. Notar aquilo que antes passava despercebido. Trazer o pensamento de volta ao presente. Mirar os sentidos no agora.

Porque a vida não acontece apenas nos grandes acontecimentos, nas conquistas, nos cargos, nas metas e nas urgências.

Ela também acontece num parquinho visto da janela.

Num recreio interrompido por uma nuvem.

Num vento que devolve o azul ao céu.

Em pequenas cenas que colorem as retinas da alma e amanteigam as emoções.

No fim das contas, a chuva nem veio.

O sol reapareceu.
A porta se abriu.

Era JG, de dezesseis anos, chegando do colégio.

Uns começando a jornada no balanço do parque.
Outros já perto da faculdade.

E eu, cada vez mais inclinado a observar ventos, sons, luares e pores do sol.

Talvez uma das maiores pobrezas do nosso tempo seja esta: andamos tão corridos e tão ocupados que estamos desaprendendo a escutar a delicadeza.

A delicadeza continua acontecendo.

Somos nós que andamos apressados demais para percebê-la.

Ricardo de Faria Barros
Psicólogo | Especialista em longevidade, sentido da vida e bem-estar emocional.

Três gestoras que trouxeram ventos às minhas velas no Banco do Brasil


Em 1986, ano que entrei no BB, ele cheirava a papel carbono, café requentado nas copas das agências e tinha a sonoridade de máquinas registradoras e carimbos-tanque. Nos corredores, camisas sociais em tons sóbrios, gravatas alinhadas, paletós escuros, sapatos bem engraxados. Pouca risada interna. Muita compostura. O formalismo era espesso, quase militar. As hierarquias eram nítidas. A seriedade parecia fazer parte do uniforme invisível de todos.

Foi nesse ambiente que entrei no Banco do Brasil, exatamente no momento em que se anunciava a perda da chamada conta movimento, aquela espécie de funding federal que sustentava, entre outras frentes, o crédito rural brasileiro. Para quem viveu aquilo por dentro, sabe: não era uma notícia qualquer. Era como se uma engrenagem central da velha máquina institucional tivesse sido retirada de repente, obrigando o banco a reaprender a existir. O Banco do Brasil atravessava ali uma de suas grandes metamorfoses. Precisava rever modelos de negócio, práticas de gestão e até sua própria identidade institucional.

Havia insegurança no ar. Uma espécie de névoa pairando sobre mesas, pastas, corredores e conversas. Foi nesse clima que cheguei à agência Poções. Minha recepção veio em forma de espanto, quase como uma pergunta atravessada: “Mas o que foi que tu fez, rapaz, na Paraíba, largando o Banorte e vindo pro Banco do Brasil num momento desses?”

A pergunta fazia sentido. Eu havia deixado um banco privado onde trabalhava como compensador. Durante o dia, cursava Engenharia Civil na Universidade Federal da Paraíba. Tinha uma rotina puxada, mas organizada. Somando o cargo de compensador-chefe com o adicional noturno, meu salário era praticamente o dobro do inicial oferecido pelo Banco do Brasil. Ainda assim, decidi mudar. Ao entrar no BB, passei a ganhar menos, em condições mais difíceis, e ainda migrei quase 1.800 quilômetros para longe da minha cidade natal. Não era exatamente uma decisão lógica.

Alguns anos depois, já na Paraíba, em Campina Grande, comecei outra travessia pessoal. Em 1991, fui fazer Psicologia. E essa decisão nasceu de uma discussão que tive numa reunião de agentes de pastoral na Paróquia do Rosário. Mas essa é outra história, dessas que pedem mais tempo, outra ambiência e uma crônica à parte.

O Banco do Brasil daquela época era, essencialmente, uma instituição masculina. No cotidiano das agências, poucas mulheres ocupavam os espaços de trabalho e quase nenhuma chegava aos cargos de liderança. A liderança tinha quase sempre o mesmo rosto: masculino, formal, hierárquico. Talvez por isso, quando uma mulher surgia em posição de comando, a cena quebrasse a paisagem. Interrompia o automático das expectativas.


Graça Machado: A vanguarda que dá rosto à solução

A primeira dessas forças foi Graça Machado. Minha admiração por ela começou antes mesmo da convivência direta. Eu atuava como polo externo de vendas do Ourocard, visitando comerciantes na praça de Campina Grande para vender afiliação. Naquele tempo, poucos sabiam direito o que era aquilo, e a resistência era enorme. Foi nessas andanças que comecei a ouvir falar de Graça. Seu nome surgia na boca dos comerciantes sempre acompanhado de respeito. Falavam de sua capacidade de ouvir, resolver e encontrar saídas. Falavam de alguém que não empurrava dificuldades com a barriga, nem se escondia atrás do balcão. Minha admiração começou assim, pela boca dos clientes, antes mesmo da convivência. Graça me ensinou pelo exemplo sobre a importância vital do bom atendimento.

Na agência Rua João Pessoa, nos idos de 1990, Graça me marcou profundamente por sua forma de liderar. Para ela, excelência no atendimento não era slogan; era prática, compromisso diário e quase uma vocação. Por seus clientes, ela movia montanhas. Mas Graça Machado era muito mais do que uma gerente resolutiva; ela estava, na verdade, décadas à frente de seu tempo.

Enquanto o sistema bancário ainda operava de forma mecânica, ela já aplicava intuitivamente os fundamentos do que viria a ser o Programa Nacional de Qualidade e Excelência. Graça possuía uma visão integral e sistêmica da cadeia produtiva do cliente que era rara de se ver. Ela não olhava apenas para o crédito isolado, mas compreendia as necessidades reais de ponta a ponta, antecipando gargalos e criando soluções que iam além do balcão.

Sua gestão era um exercício precoce de inteligência estratégica e empatia radical. Num modelo ainda tão rígido e patriarcal, ela abriu caminho a fórceps, exercendo autoridade sem perder a elegância ou endurecer a alma. Foi a primeira mulher do Banco do Brasil nomeada gerente geral de agência na Paraíba e, depois, a terceira superintendente adjunta. Sua trajetória é a prova viva de que a qualidade de atendimento e a visão sistêmica do negócio são, antes de tudo, manifestações de respeito humano e vanguarda administrativa.

Graça dava rosto às soluções.

Maria Paula Aranha: A alma que me fez debutar na DG

Outra líder que deixou marca funda em minha travessia foi Maria Paula Aranha. Anos depois, fui parar numa diretoria do banco em Brasília. O clima ali era outro: ar-condicionado mais frio, carpetes espessos, telefones silenciosos, baias divisórias, café pão e e leite passando para o lanche. E eu, já psicólogo e observando tudo, e aflito. Passei na seleção de analista júnior, justamente na Controladoria. Que eu mal sabia que liderava uma revolução contábil no BB, da forma de precificar e avaliar os resultados dos negócios. Parecia o começo de uma piada corporativa. Foi então que surgiu Paulinha.

Paulinha foi minha madrinha naquela primeira valsa da diretoria. Quando deixei a carreira de agências, foi ela quem me ajudou a debutar naquele ambiente. Ela tinha o dom raro de traduzir o "controladrês" para uma linguagem humana. Naquele tempo, ela implantava um modelo de contabilidade gerencial, uma tarefa hercúlea, mas nunca se deixava sequestrar pela urgência. Parava nas mesas, perguntava da vida, demonstrava interesse sincero. Envolvia-se para além do crachá. Para Paulinha, gente não cabia numa planilha de Excel; pessoas vinham com suas subjetividades, desejos e medos. E, curiosamente, ela era também uma das maiores mestras que já vi no próprio Excel. Quando Paulinha gargalhava, o que era comum, todo mundo se curava, seja de que mal estivesse sofrendo. Seu jeito brincalhão, desobstruía safenas corporativas, de corações mais duros, entupidos pelos complexos números do mercado bancário.  

Paulinha dava alma aos números.

Eliane Mattioli: As asas para a utopia ativa

Mais adiante, cruzou meu caminho Eliane Mattioli. Ela era um "trovão bom" em forma de gente. Mattioli deu asas à minha primeira carreira gerencial, como Gerente de Projeto Nível I do DRS (Desenvolvimento Regional Sustentável). Sempre a vi como uma acendedora de lampiões, riscando luz no escuro antes que a noite tomasse conta de tudo.

Ela acreditou, antes de muita gente, que o Banco do Brasil poderia ser promotor de transformação social. Pegava textos utópicos e documentos densos e os convertia em algo prático, didático, quase um feijão com arroz bem feito para associações de moradores distantes. Viajamos o Brasil capacitando gestores. Nunca a vi rabugenta ou descrente. Mattioli tinha uma esperança ativa: não diminuía o tamanho do sonho para caber na preguiça do sistema; ela puxava o futuro para mais perto. Ela tinha o dom de nos fazer acreditar em impossíveis, e em articular, numa causa comum, parceiros tidos como inimigos, ou impensáveis de sentarem-se à mesa, para uma concertação social. 

Mattioli dava vida às utopias.


O Vento nas Velas e a Longelescência

Quando olho para trás e estendo esse pequeno varal de memórias profissionais, percebo que essas três mulheres foram minhas primeiras lições sobre o que viria a ser o cerne da minha própria jornada. Sem saber, elas já exercitavam o que passei a chamar de longelescência: aquela capacidade rara de equilibrar o peso da experiência institucional com o frescor da audácia juvenil. Aprendi com:

Graça Machado:  Que a liderança não permite que o processo esconda o ser humano. Ela ensina que, por trás de cada "problema", existe uma biografia. Ela dá rosto e significado às necessidades humana e soluções.

Maria Paula Aranha:
 Que a liderança que dados pedem temperatura afetiva, para não serem inertes. Ela transforma a planilha em partitura. Ela dá vida e emoção a projetos e desafios.

Eliane Mattioli:
  Que a liderança que não se deixa cegar pelo realismo cínico. Ela mantém o fogo aceso para que o futuro não seja apenas uma repetição do presente. Ela dá luz e magia ao impossível, ao "não pode, não dá".

Elas provavam que a alma não precisa envelhecer junto com o tempo de serviço; que a verdadeira longevidade profissional não se mede pelo tempo que ficamos no cargo, mas pela intensidade do vento que deixamos nas velas de quem vem com a gente. Como quem acende lampiões em noite escura, elas me ensinaram que liderança de verdade serve para iluminar travessias, renovar paisagens e ajudar a empurrar o mundo para um lugar mais justo. Exemplos de lideranças. 

Domingo de Carnaval com Gosto de Chá de Galinha

 


Têm domingos que a vida resolve te presentear. Não com fogos de artifício nem com grandes epifania;  mas com pastel de vento, ipê amarelo e uma história de galinhas que faz chorar de ternura.

Comecei o dia com uma frustração digna de nota: a barraca do bode com inhame tinha ido para a praia. Carnaval é carnaval, e até o bode merece férias. Fiquei ali, babando em frente ao portão fechado, como alguém que chega na festa e descobre que a festa foi embora. Mas a vida tem esses desvios que, às vezes, são mais ricos que o destino original.

Foi o desvio que me levou ao Seu Nino.

Seis garrafinhas pet multicoloridas na frente de uma pastelaria não são exatamente um convite sofisticado. Mas algo me disse: entra. E entrei. O suco de manga já foi uma declaração de amor. Mas o pastel — meu Deus, o pastel. Daqueles que se come a massa inteira sem precisar de recheio, porque a massa já é o milagre. O famoso pastel de vento, que não precisa de nada por dentro porque por fora já é completo. Como certas pessoas.

Seu Nino faz a própria massa. Não economiza em manteiga. Abre ali, na frente dos clientes, como quem não tem segredo a esconder — só amor a mostrar. Aprendeu com a mãe, que também tem ponto na Feira da Prata. E tem mais oito parentes com seus pontos espalhados por aquele território de cheiros e histórias. Uma família que fincou raízes num lugar e dele fez reino. Há quanto tempo o Brasil é feito dessa gente que a gente não vê nas manchetes?

Levei um pastel de queijo do coalho pra mamãe. Ela adorou. Claro que adorou.

Depois me lancei em direção a Puxinanã, porque sempre amei esse nome. Tem cidades que parecem ter sido batizadas por poetas em dia de inspiração. O caminho foi presente: ipês amarelos florescendo às beiradas da estrada como se a natureza tivesse decidido decorar o salão antes dos convidados chegarem. O clima meio chuvoso, daquele jeito que só quem nasceu no Nordeste sabe apreciar como bênção — como água no deserto, como notícia boa, como cheiro de terra molhada que a infância guarda dentro da gente.

Voltei. Ajeitei o almoço de mamãe. E me dirigi ao Ô Bar da Fava, a menos de dois quilômetros de casa, para comer uma faça com bode — porque domingo sem bode, no meu vocabulário afetivo, é texto sem ponto final.

Enquanto esperava o arroz de leite com bode, o Instagram me trouxe uma história que aqueceu a alma inteira.

Uma senhora de Hidrolândia, em Goiás, perdeu mais de quarenta galinhas na véspera de Ano Novo. Morreram de infarto — literalmente — perseguidas por cães. Não eram só galinhas. Eram galinhas com nome. Daquelas que a gente cria e que viram família sem cerimônia, sem contrato, sem que ninguém perceba a hora exata em que o bicho deixou de ser animal e virou afeto com penas.

Ela ficou inconsolável. Como se perde alguém.

Os amigos souberam. E, sem ela saber, organizaram um Chá de Galinhas.

No último final de semana, mais de quinze carros foram estacionando na frente da casa dela. Cada pessoa desceu carregando pelo menos um galináceo vivo — galos, galinhas, patos, assemelhados — todos com vida, todos com destino certo. Ela olhou pela janela e achou que alguém tinha morrido. Porque quando muita gente chega ao mesmo tempo, a primeira hipótese do coração é a má notícia.

Mas era o contrário. Era a vida chegando de braços abertos e de galo na mão.

Ela não se conteve. Chorou. Não acreditava.

Fiquei ali, comendo minha faça, olhando para a tela do celular com os olhos marejados, e pensei: quanta gente boa existe nesse mundo que a gente não vê.

Quem organizou o Chá de Galinhas. Quem doou. Quem foi levar. Quem abriu o galinheiro de casa e disse leva, ela precisa mais. Uma corrente de solidariedade que não dá ibope, não vira manchete, não tem hashtag viral — mas que recompõe o que foi perdido e ainda acrescenta juros de humanidade.

Sei que muita gente anda desencantada. E entendo. O noticiário às vezes parece uma curadoria do pior de nós. Mas o pior de nós não é a totalidade de nós.

Ainda existe o Seu Nino que não economiza em manteiga e ensina o filho com a mesma mão que aprendeu da mãe. Ainda existe o ipê amarelo que floresce sem pedir permissão na beira da estrada de Puxinanã. Ainda existe o cheiro de chuva no Nordeste como benção antiga. Ainda existe a senhora de Hidrolândia que chora de alegria abraçada a uma galinha desconhecida que virou símbolo de que não estava sozinha.

E ainda existe domingo de carnaval em que a barraca do bode fecha, e a vida te desvia para um pastel de vento que dissolve na boca — e te lembra que os melhores momentos quase sempre chegam pelo atalho que a gente não planejou.

Bel Marques, Ainda Estamos Aqui


O mundo aqui em Campina Grande é um cobertor molhado. Chuva fina, daquelas que canta no telhado como um sussurro de segredo, e o silêncio da tarde — pesado, mas calmo. Minha mãe, recobrando-se de uma cirurgia, dormita no sofá, e eu, de olho na janela, sinto o tempo deslizar devagar, quase triste. Até que o celular vibra, e é uma chamda de vídeo. 

Na tela, um caos colorido. Rodrigo e Andrezza, suados, sorridentes, com os olhos brilhando como se tivessem roubado um pedaço do sol de Salvador. O fundo é um mar de gente, um *vumbora* de cores, e a voz de Bell Marques ecoando: *“Que calor é esse?!”* Eles estão no bloco Vumbora, na Barra-Ondina, no sábado 14.
"Tá vendo, meu velho? Ainda estamos", grita Rodrigo, apertando o celular com uma mão, enquanto Andrezza, com o abadá roxo do bloco, acena com um "estamos vivos" que nem precisa de palavras. Na pequena janela do vídeo, minha cara — o sorriso de quem vê a vida fora do quarto — contrasta com a explosão da avenida. É como se o universo tivesse dividido a tela: um lado, a chuva de Campina; o outro, o fogo do Carnaval.  

Quem olha de fora, talvez diga: “Mas, cara, o início do ano é um caos! Dívidas, escola nova pro Laís, o Eduardo com dois anos… Eles tavam loucos?”. Talvez. Mas Rodrigo e Andrezza, há mais de dez anos, têm um ritual: ir pro Carnaval de Salvador. E em 2026, nada os pararia.  

A história é assim: contas apertadas, boletos da escola, a pressão de “serem pais de verdade” — como se isso significasse só trabalho e seriedade. Só que, no fundo, eles sabiam: se não forem, a vida vira um filme sem cor. Então, planejaram o impossível. Voo de madrugada, um dia só no bloco, e bate e volta: sem hotel, sem descanso. 

“É barril, meu irmão!”, escuto ao longe. A gente chicleteia a vida, ajusta as velas e vem!  

E é isso: *chicletear*. Não é só dançar, é segurar a vida com as duas mãos, mesmo quando ela escorrega.  

Naquela videochamada, o que mais me chamou? O olhar deles. Não era cansaço. Era triunfo. Enquanto eu, aqui, via a chuva cair, eles saboreavam cada segundo. O suor, o barulho, o “100% você” do Bell Marques — tudo virava combustível.  

É isso que a gente esquece: viver não é só sobreviver. A psicologia chama de savoring (saborear), mas, pra gente, é fazer do hoje um presente. Rodrigo, naquela multidão, não pensava no trabalho da segunda-feira. Andrezza, com o abadá colado no suor, não se punia por “deixar os filhos em casa”. Eles estavam ali. Só ali.  E sabe o que mais? Isso é resistência. Num mundo que quer que a gente viva desconexões, e maratonas de boletos, que sempre chegam, eles foram para o meio da rua e disseram: “Ainda estamos aqui”.  

E é verdade. Quanto mais a gente cuida da própria alegria, mais a gente ensina a família a viver. Porque, se os pais virarem fantasmas de somente de responsabilidades, os filhos aprendem que a vida é cinza. Mas, se os pais "chicletearem", mesmo com dificuldade, eles deixam um legado: “Nossa família não desiste”.  

Porque, no fundo, o Carnaval não é só folia. É resistência cultural. É dizer: “Apesar do mundo, eu vou dançar”.  

Hoje, naquela tarde cinzenta, eu entendi algo: a vida não espera a gente ficar pronto para ser feliz. Rodrigo e Andrezza não esperaram “melhorar as contas” pra ir pro bloco. Eles foram, mesmo com medo, mesmo com fadiga.  

E sabe o que isso traz? Energia. Cada acorde do Bell Marques, cada abraço na multidão, vai ser combustível para 2026. Porque, quando a gente saboreia, a alegria não some. Ela vira força.  

Agora, a chuva aqui em Campina Grande não parece mais triste. Pelo contrário: é até sonora, como um convite para dançar. Enquanto minha mãe dormita, penso naquela imagem: Rodrigo, com o abadá roxo, sorrindo pra câmera, e Andreza acomapanhando juntinho, gritando: Ainda estamos aqui!".  

A lição é simples: não deixe a vida virar um filme de quarto. Vá pro que faz seu coração acelerar. Mesmo que seja um bate e volta. Mesmo que chova.  

Porque, no fim, a gente não se lembra do que comprou. A gente se lembra do que viveu.  

E, como diz o Bell Marques: “Que calor é esse?”.  

É o calor de saber que, mesmo na lama, a gente ainda dança.  

Porque a vida é curta pra ser vivida só de boletos.

P.S.: A foto da videochamada? Guardo ela na memória. É a prova de que, mesmo na chuva, a gente pode ter um sol dentro do peito. E, se um dia você se sentir cansado, lembre-se: “Ainda estamos aqui”.  

A Traira, as Ovas e o Tufo de Cabelo Branco

 


Sábado tem cheiro diferente.

Não sei se é o ar, se é a luz que cai diferente sobre as coisas, ou se é só o coração que abre mais cedo. Mas sábado — especialmente sábado com feira — é um dia que já acorda com personalidade.

Saí cedinho. Campina Grande ainda estava sonolenta, mas o Mercado Central já fervia, do jeito que só lugar vivo ferve: aquele calor humano que não tem ar-condicionado que imite. Entrei pela rua das flores e fiz o que qualquer alma sensível faz — parei. Só parei. Deixei o perfume chegar antes de mim. Há um instante na vida que a beleza pede licença antes de entrar, e a rua das flores é assim: ela não grita, ela sussurra, e quem tem ouvido fino escuta.

Depois das flores, as lojas de mangaio. Couro. Barro. Corda. Madeira. E aquela categoria filosófica que só a feira nordestina sabe criar: o "pra que isso?". Um objeto de função misteriosa, de origem duvidosa, de preço irresistível. A feira é o único lugar do mundo onde você compra coisas que não sabia que precisava e vai embora convencido de que salvou o orçamento doméstico.

Mas eu tinha missão. Missão séria.

Traira.

Não qualquer peixe — traira. O peixe do Tio Naldo. Aquele que a Tia Cleó, com suas mãos de fada e seus segredos de cozinha que ninguém anota porque se souberem demais param de depender dela, faz de um jeito que não existe explicação científica. Só existe a fé de quem prova.

Desembarquei na rua dos peixes. Ali a feira abandona qualquer pretensão de delicadeza e vai direto ao ponto: cheiro forte, gelo, escamas voando, e feirantes que vendem peixe como se estivessem vendendo a última oportunidade da sua vida. "É hoje, moço! Só hoje!" — como se o universo inteiro dependesse dessa decisão, agora, aqui, nessa banca.

Achei as trairas. Duas. Um quilo e meio cada — que é, para quem entende, um peso de respeito numa traira. Gordas, lustrosas, com aquela cara atravessada que o peixe tem, mas que a gente aprende a amar porque o sabor perdoa tudo. Missão cumprida.

Mas aí estava o tambaqui.

Enorme. Descomunal. O tipo de peixe que você olha e pensa: esse aí viveu. Esse aí nadou muito antes de chegar aqui. Fiquei olhando pra ele como quem olha para uma obra de arte que não vai poder comprar, mas precisa apreciar.

Dei uma volta pelo mercado. Passei no centro de eventos — porque feira boa tem cultura junto, não adianta — comprei caju, pano de chão dos grandes (os de vergonha, aqueles que você dobra três vezes e ainda cobre o quintal), amendoim e abacate pra mamãe. E então comecei o que eu chamo de brincar de me perder.

Há uma arte nisso. Escolher um destino conhecido e chegar até ele por um caminho que você nunca tomou antes. Campina Grande foi crescendo, virando cidade grande, e eu fui ficando com meus caminhos habituais, minhas rotas de sempre, como quem mora numa casa grande mas dorme sempre no mesmo quarto. Dobrei esquinas que não conhecia. Encontrei ruas com nomes que ninguém lembra por quê. Feirinhas de bairro que são miniaturas da feira grande, com o mesmo espírito, a mesma alma, só que em escala de calçada. Bodegas sortidas com aquela organização que só faz sentido pra quem montou. Gente — e isso me encheu de uma alegria que não sei nomear — gente que ainda bota cadeira na calçada pra ver a vida passar.

Cadeira na calçada. Que invenção mais brasileira, mais nordestina, mais humana. A televisão chegou, o celular chegou, o streaming chegou. E tem gente que ainda prefere a calçada. Que ainda escolhe a vida ao vivo, sem legenda, sem pausa, sem pular pro próximo episódio.

Pelas oito da manhã, tentei adivinhar se tinha acertado a rua do Tio Naldo.

Doblei a esquina.

E de longe — lá estava ele.

Um tufo de cabelo branco. Algodão puro. Um senhor sentado na calçada como se tivesse sentado ali desde sempre, como se a calçada tivesse sido feita pra ele, com o bastão na mão e aquela postura de quem não precisa mais provar nada pra ninguém. Tio Naldo.

Ele me viu. Abriu um sorriso que foi da calçada até o telhado. Chamou a Cleó. Avaliou a mercadoria com seriedade de especialista — levantou, olhou, aprovou. E aí, como quem revela um segredo de Estado, disse que eu tinha comprado a ova do peixe também, e que ova de traira no leite de coco fica uma coisa que não existe na literatura gastronômica mas deveria.

Fiquei ali parado na calçada, com o peixe na mão e quarenta anos de saudades, desde que um dia me mudei para aquele território, quando tinha 21 anos. 


A casa do Tio Naldo fazia divisa com a da Vovó pelos fundos. E a da Vovó era colada na nossa. Então a gente vivia numa espécie de república afetiva acessada pelos quintais, como se as paredes fossem só sugestão. Saía de casa, filava um petisco na cozinha da Vovó — que sempre tinha algo no fogo, porque Vovó acreditava que cozinha vazia é sinal de alguma coisa muito errada no mundo — chamava o Tio e formávamos o trio. Sentados na cozinha dela, ouvindo ela se alegrar com a gente ali.

Tio Naldo achava que eu não batia bem da cabeça. Dizia, rindo, que eu era agitado. Hoje eu sei que era. Mas naquela época, há quarenta anos, não tinha TDAH — era só "jeito de ser do menino". E no fundo era um jeito doce de me acolher, porque agitado ou não, eu era dele também.

Tinha dias que convocávamos a Vovó e invadíamos a cozinha da Tia Cleó. Que sempre tinha algo bacana. Cleó tem mãos de fada, já disse — mas mãos de fada com especialidade em pescados e carnes de molho, o que é uma bênção particular numa família de gente que come direito.

Pelas onze horas era meio-dia. E chegava meu pai.

Aí o time estava completo. Um pai, um tio, uma tia, uma avó e muitas prosas. Era um tempo em que os boletos estavam nos vencendo — e quem não viveu isso que não jogue a primeira pedra — mas que naquele momento a gente conseguia botar os boletos de lado e sentar junto. Fortalecia, sabe? As pelejas que um tinha vencido alimentavam a coragem do outro pra vencer as suas.

Chegava o Marcelo, filho do Tio Naldo. Chegavam os meus, trazidos pela Joane — o Tiago, a Priscila, e o Rodrigo ainda na barriga da mãe. E acontecia aquele milagre que só casa de pobre conhece: brotavam lugares. Cadeiras de não sei onde, pratos que multiplicavam, espaço que se expandia. Casa de pobre é igual a fusquinha — cabe todo mundo e ainda sobra lugar pra quem chegar depois.

A Vovó então começava a contar as vezes que tinha acordado de noite pra tangir os gatos, que queriam pegar os pintinhos das galinhas que tinham acabado de ser mães também. E do quanto o galo dela estava bonito. Eu contava as aventuras do Sítio Samambaia — que a gente tocava com meu pai aqui pertinho —, da criação de abelhas que foi invadida por calangos, do dia que cacei umas rãs na beira de um charco e fiz a Joane tratar, sem contar que eram rãs, deixando ela imaginar que eram pássaros.

Ela só descobriu na hora que foi servir.

Me jurou de morte. Com toda razão. E com todo nojo.

O Tio Naldo ria desse jeito dele, de quem acha graça mas não quer perder a seriedade.


Daqui a uma hora volto pra lá.

Vou me sentar à mesa deles e me deixar acontecer. Vou olhar pro meu tio, que lembra tanto meu pai — os gestos, o sorriso, aquela forma de receber as pessoas que é quase uma oração. Vou comer traira com ovas no leite de coco, caju e amendoim. Vou ouvir histórias que já sei de cor mas que toda vez parecem novas, porque história boa é assim: envelhece bem, como vinho bom.

Uma pessoa tem que ter histórias pra contar. Mas pra isso precisa ter prestado atenção.

E prestar atenção é uma arte. Um exercício espiritual, quase. Num mundo que vive o amanhã da ansiedade ou o ontem das frustrações, parar no presente — no presente divino, que é o único lugar onde a vida de fato acontece — exige uma decisão que parece simples mas não é.

Mas quando você presta atenção, você vê. Você vê o tufo de cabelo branco do Tio Naldo de longe e já sabe que chegou em casa. Você sente o cheiro das flores antes de vê-las. Você ouve a senhora anunciando a galinha caipira e entende que ali está alguém que também tem uma história. Você olha pra um tambaqui enorme e pensa: esse aí viveu.

A luz da manhã descongelava as esperanças tardias da cidade. Eu andava pelas ruas novas que não sabia que existiam na minha própria cidade, e pensava: quantas coisas a gente não conhece do que é seu? Quantas ruas estão esperando que a gente dobte uma esquina diferente?

Aquele território onde eu cresci — eu, o Tio Naldo e a Vovó nas casas quase geminadas, acessadas pelos quintais como se tivéssemos combinado isso desde sempre — era um tesouro de afetos.

Todo dia a gente dizia, sem dizer, aquilo que talvez seja a coisa mais bonita que um ser humano pode dizer pro outro:

Ainda estou aqui.

Pode entrar.

A casa é sua.


E a traira? Estava ótima.
As ovas no leite de coco, então, não têm palavras.
Mas isso — isso você terá que acreditar em mim.





A Diretoria



A Diretoria

Tem um lugar, na casa de meus pais, em Campina Grande-PB, que guarda memórias ensombradas pela generosidade das bouganvílles.

A gente chamava aquele canto de Diretoria. Eu, meu pai e meu tio. Era sob as bouganvílles, que no Brasil não sabem ser discretas, que a gente resolvia o mundo, ou fingia que resolvia. Tinha petisco, tinha copo, tinha música baixa e história alta. Tinha riso que começa no peito e termina nos olhos.

A Diretoria não tinha pauta. Tinha presença.

Meu pai foi em 2021. Meu tio ficou, mas a coluna não deixa mais ele chegar até aqui com a mesma leveza de antes. Vim de Brasília passar dez dias com minha mãe, dona Denise, 87 anos, que se recupera de uma cirurgia com a delicadeza e a teimosia que só as matriarcas sabem ter. Tinha acabado de voltar da Feira da Prata, onde comprei seriguelas pra ela. E me sentei aqui, nessa cadeira, tomando um café que esfriou devagar, segurando uma fruta na mão como quem segura um pensamento que ainda não virou palavra.

A casa estava silenciosa. Mas a Diretoria ainda existe enquanto eu sentar aqui.


Aos 61 anos, a gente começa a perceber certas coisas que antes passavam despercebidas no corre da vida. Percebe, por exemplo, que o café esfria. Que ele esfria e a gente deixa esfriar, porque estava pensando em outra coisa, ou em ninguém, ou simplesmente existindo sem pressa, sem destino, sem a urgência que o mundo sempre cobrou da gente.

Isso antes me incomodava. Agora começo a entender que é um privilégio.

A vida toda somos tomados de barulhos. O barulho do trabalho, o dos filhos pequenos, o dos amores que chegam anunciando festa. A gente aprende a existir no meio do ruído, a se orientar por ele, a confundir movimento com direção. Passei a vida como Tarzan. De cipó em cipó, de amor em amor, de projeto em projeto, de cidade em cidade. No ar, a gente se sente livre, se sente vivo. O vento no rosto convence que está indo pra algum lugar. E enquanto tem o próximo cipó à vista, não tem medo.

Mas o Tarzan nunca aprende o cheiro da terra.

Quando os barulhos silenciam, o do trabalho que diminuiu, o dos filhos que cresceram, o dos amores que partiram, resta ouvir os sons do próprio ser. Sons antes abafados para acolher tantos outros. E é exatamente isso que esse cantinho oferece: a possibilidade de entrar no deserto.

O deserto assusta. Mas é o lugar dos cinco Rs: redenção, remição, restauração, ressignificação e reinvenção. Sempre foi assim, desde os profetas que precisavam do silêncio árido para ouvir o que importava.


Tem uma coisa estranha e bonita que acontece quando a gente chega nessa fase da vida sem muita gente ao lado. A gente começa a andar diferente. Não porque está triste, embora às vezes esteja. Mas porque o passo fica mais lento e mais atento. A gente para na calçada pra olhar uma flor que sempre esteve ali. Nota o cheiro da terra molhada depois da chuva. Sente o peso do próprio corpo na cadeira como se fosse a primeira vez, e pensa: eu ainda estou aqui. Que coisa extraordinária.

Fui à Feira da Prata de manhã. Sozinho, como tenho feito muita coisa ultimamente. Comprei seriguelas pra mamãe porque ela ama, e comprei também o simples prazer de caminhar entre as bancas, de ouvir o vendedor que grita o preço como se fosse uma cantiga, de sentir o cheiro de coentro e de manga no ar quente de Campina Grande. Ninguém me esperava em nenhum lugar. E nisso havia uma liberdade estranha, quase assustadora, quase deliciosa.

O longevo que caminha sem muita gente ao lado não é necessariamente um homem abandonado. Às vezes é um homem que está, pela primeira vez, completamente disponível para si mesmo. Que está aprendendo, na prática, o que os filósofos tentaram explicar em livros: que existir, simplesmente existir, já é suficiente.


As bouganvílles continuam escandalosas e belas, como se não soubessem de nada. A parede que as sustenta é a quadra do Colégio Pingo de Mel, e eu mal sabia o que estava por vir. E lá em cima, num galho que vira ninho, duas rolinhas constroem juntas o lugar onde vão colocar vida no mundo.

Fiquei olhando pra elas mais tempo do que devia.

E o café esfriou de vez.

Foi quando mamãe me chamou da cozinha.

Voltei dos meus pensamentos devagar, como quem sobe à superfície depois de um mergulho fundo. Ela queria me dizer uma coisa urgente e importante: que amava seriguela. Que iria comer sozinha o saco inteiro que eu tinha comprado. Peralta e faceira, com seus 87 anos e sua cirurgia ainda fresca, ela estava ali em seu melhor momento, plena, cobiçando as seriguelas com a alegria desavergonhada de uma criança que ganhou o que queria e não vai dividir com ninguém.



Eu sorri.

E percebi que o deserto tinha, ali, uma fruta doce no meio.

Fiquei pensando em dona Denise enquanto voltava pra cadeira. Em como ela chegou aos 87 com essa chama acesa. Em como a gente às vezes confunde longevidade com resignação, com espera, com o modo quieto de ir deixando a vida passar. E ela ali, com o pote de seriguela na frente, era a prova viva de que envelhecer bem é uma decisão que se toma todos os dias. É acordar e escolher a seriguela. É ligar o celular e fotografar a própria fartura. É ser peralta mesmo quando o corpo pede sossego.


É carnaval lá fora. O mundo está em bloco.

Eu estou no bloco do eu e eu. Apenas.

Não é solidão, ou não é só isso. É o forasteiro que voltou à própria cidade e não se reconhece mais nela, nem ela nele, desde que partiu em 1999. É o homem que saiu dos galhos, do voo de amor em amor, de compromisso em compromisso, de barulho em barulho, e descobriu que o infinito não estava lá em cima, estava aqui embaixo, no chão firme, na terra que guarda raiz.

Aprendi hoje que caminhar sem muita gente ao lado não é o fim de nada. É o começo de uma conversa que a gente adiou por décadas: a conversa consigo mesmo. Aquela em que a gente pergunta, de verdade, sem pressa e sem medo: quem sou eu, agora que não preciso mais ser o que os outros esperavam?

E a resposta não vem em palavras. Vem no café que esfria e a gente deixa esfriar. Vem na seriguela que a mãe come sozinha e feliz. Vem no passo lento pela feira, sem destino, sem pressa, com todos os sentidos acordados para o milagre ordinário de estar vivo numa manhã de carnaval em Campina Grande.

E hoje, nessa cadeira que meu pai também sentou, eu não quero mais tanto cipó. Quero botar o meu bloco na rua. Carregar sozinho o meu estandarte. Me levar pra ver a vida. Acompanhar na pipoca a multidão em seus abadás, com a leveza de quem encontrou, no meio do deserto, a melhor versão de si mesmo.

Não o herói. O esboço.

E o esboço, às vezes, é o mais honesto que a gente já foi.


Então o Pingo de Mel soltou sua orquestra de frevo.

O som veio pelo muro, tomou as bouganvílles, desceu pelo quintal e me encontrou na cadeira. Frevo de Olinda, do bom, daquele que não pede licença. Fechei os olhos e senti meu pai e meu tio ali, do lado, curtindo a orquestra como só eles sabiam curtir. Podia ver as crianças nos cordões, nas piruetas, vivendo um dia que vai ficar na memória de suas vidas. E na minha.

O carnaval não esperou que eu fosse até ele.

Ele veio até mim.

Então mamãe veio sentar na mesa que ela gosta, ao lado da porta da cozinha, de onde se vê o quintal e a Diretoria inteira. E ficou ali, cantarolando baixinho as músicas de frevo, lembrando dos antigos carnavais, com um sorriso que não precisava de explicação.

Ela que passou por duas cirurgias em janeiro, que ficou mais de oito dias na UTI depois de complicações, que chegou tão perto de um lugar de onde a gente não volta, estava ali, de preto, cantarolando frevo como se o corpo soubesse, antes da mente, que era hora de celebrar.

Fiquei olhando pra ela sem dizer nada.

Porque tem momentos em que a palavra seria pequena demais.

O carnaval entrou na vida dela também. Sem bloco, sem abadá, sem confete. Entrou pelo muro do Colégio Pingo de Mel, desceu pelo quintal, passou pelas bouganvílles e pousou mansinho no coração de uma mulher de 87 anos que decidiu, mais uma vez, ficar.

Obrigado, Pingo de Mel. Por trazer luz e paz nessa manhã de sexta-feira, véspera de carnaval, que eu não vou esquecer enquanto eu viver.

Há quem diga que eu dormi de touca. Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga. Que eu caí do galho e que não vi saída. Mas..., eu quero é botar meu bloco na rua.



Botar o bloco na rua: três lições sobre a solidão na longevidade

1. O deserto não é o inimigo, é o começo

A solidão que dói não é a que a gente escolhe. É aquela que chega quando os barulhos da vida param e a gente percebe que não sabe mais ficar consigo mesmo. Mas o deserto, quando atravessado com coragem, oferece o que a agitação nunca deu: o reencontro com a própria voz. Combater a solidão na longevidade começa por não fugir do silêncio, mas por aprender a habitá-lo sem terror. É no deserto que a gente descobre que ainda tem companhia: a própria presença, que ficou esperando pacientemente enquanto a vida corria lá fora.

2. Botar o bloco na rua é um ato de coragem, não de desespero

Quem viveu de cipó em cipó, de relação em relação, de grupo em grupo, estranha profundamente o momento em que precisa dar o primeiro passo sozinho. Mas existe uma diferença enorme entre esperar que o carnaval bata à sua porta e decidir ir ao encontro da festa com o próprio estandarte. Na longevidade, cultivar presença social exige iniciativa ativa: ligar, aparecer, propor, criar. Não porque a solidão é fraqueza, mas porque pertencer é uma necessidade humana que não se satisfaz passivamente. O bloco não vem sempre até a gente. Às vezes a gente precisa ir até ele, descalço e sorrindo, com um copo na mão.

3. A festa mais próxima pode estar no quintal

Quando procuramos conexão apenas nos grandes gestos, nas viagens, nos grupos numerosos, nos relacionamentos intensos, esquecemos que a vida acontece também no miúdo: numa mãe de 87 anos que rouba seriguelas com olhos brilhando, num ninho de rolinhas sobre a cabeça, num frevo que vem pelo muro sem avisar. Combater a solidão na longevidade é também treinar o olhar para o que está perto e vivo. A Diretoria não precisa de quórum para existir. Às vezes ela funciona com uma cadeira, um café, uma memória e a disposição de estar presente no momento que a vida oferece, seja ele qual for.

Ass. Ricardo de Faria Barros

Sim, antes que me esqueça, ainda estou vivo! (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Era uma tarde de terça feira e a paciente, vamos chamá-la de Clarice, sentou-se  na ponta da poltrona, quase pedindo desculpas por ocupar espaço físico no mundo. Ela ajeitou a saia e disse, com a voz embargada de quem engoliu muitas palavras não ditas durante anos, Doutor Ricardo, eu sinto que me tornei um móvel da casa. Sabe aquele aparador no corredor que todo mundo usa para jogar as chaves, mas ninguém nunca repara se está empoeirado ou se a madeira está lascada? Sou eu. Falo, bom dia, e o som bate nas paredes e volta. Tenho a impressão de que se eu desaparecesse hoje, só notariam quando faltasse o café na garrafa térmica. Eu existo, mas não vivo nos olhos dos outros.

Enquanto meu café esfria na xícara de porcelana, criando aquela película fina e triste na superfície, olho pela janela e penso na humanidade que corre lá fora. Estamos em 21 de janeiro de 2026 e a ironia bate à minha porta com a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Li hoje, num jornal digital, sobre a mais nova invenção para a nossa sociedade adoecida, um aplicativo que verifica se você ainda está respirando. É isso mesmo. A tecnologia agora serve de babá para a nossa solidão. Você instala, cadastra uns contatos e, todo dia, o software pergunta, E aí, tá vivo? Se você não responder em 48 horas, ele dispara o alarme para a família. Criamos um sistema automatizado para terceirizar a preocupação, um algoritmo que substitui o abraço, o telefonema, o cheiro de gente.

Essa notícia caiu no meu colo como um tijolo, justamente quando eu refletia sobre a invisibilidade que a Clarice descreveu. A vida moderna virou um grande saguão de aeroporto lotado onde ninguém se olha, cada um arrastando sua mala de ansiedades, com os olhos vidrados em telas luminosas, tropeçando na própria humanidade sem pedir licença. E é curioso notar como essa indiferença pode ser fatal, não apenas metaforicamente, mas literalmente.

Lembro-me de uma crônica antiga, que ecoa perfeitamente neste cenário gélido de 2026. Havia um encarregado de câmara fria, um homem simples, cuja jornada era marcada pelo frio industrial e pela repetição. Mas ele tinha um ritual sagrado, quase litúrgico. Ao final de cada turno, passava pela guarita e distribuía sua colcha de afetos em forma de palavras. Boa noite, fiquem na paz, bom plantão, dizia ele aos vigilantes. Era o único momento do dia em que ele deixava de ser uma função e voltava a ser um homem. Certa vez, o destino, esse roteirista que adora pregar peças, fez com que ele ficasse trancado acidentalmente dentro da câmara fria. O ar faltava, o frio queimava, e a hipotermia batia o ponto. Ele seria apenas mais um dado estatístico de acidente de trabalho se não fosse por um detalhe, o silêncio. Os vigilantes sentiram falta daquele boa noite. A ausência da gentileza foi o alarme. Eles não precisaram de um aplicativo de 2026 para notar que alguém faltava. A humanidade daquele homem o salvou porque ele se fez visível através do afeto.

Hoje, contudo, vivemos o inverso. Estamos trancados em nossas câmaras frias particulares, apartamentos de luxo ou quartos apertados, congelando emocionalmente enquanto o mundo lá fora ferve. Filhos não mandam mensagens para os pais porque estão ocupados demais protagonizando suas próprias vidas severinas, correndo atrás de ventos. Nos grupos de família ou amigos, lançamos uma mensagem como quem joga uma moeda num poço sem fundo. O vácuo. O silêncio absoluto. Nem um emoji, nem uma reação. A sensação é de que somos fantasmas gritando em uma sala à prova de som. A nossa esperança de conexão fica pendurada num varal de sentimentos que ninguém recolhe antes da chuva.

Eu mesmo, Ricardo, peregrina alma neste mundo estranho, sinto na pele essa invisibilidade. Há dois meses frequento uma igreja, sentando me religiosamente no segundo banco da frente, perto do altar, buscando o sagrado. E, no entanto, sou um forasteiro invisível. Nunca fui saudado. Os frequentadores antigos, que certamente notaram a presença deste corpo estranho, passam por mim como se eu fosse feito de vidro. Que planeta é este que estamos criando? Um lugar onde vizinhos dividem a parede, mas não dividem um bom dia? Onde precisamos de um aplicativo para garantir que não apodreceremos sozinhos em casa?

 


Precisamos ser subversivos. A verdadeira revolução hoje não é tecnológica, é humana. É preciso romper com esse narcisismo que nos coloca como o centro do universo e nos cega para o outro. A morte social não é apenas daquele que morre sozinho e é descoberto pelo cheiro dias depois. A morte social acontece agora, quando você lê isso e não se lembra da última vez que olhou nos olhos do porteiro, do colega de trabalho, ou da sua mãe. Precisamos sair das tocas, precisamos do oxigênio de pele humana, precisamos de rostos reais e não de interfaces digitais. Porque chegará o tempo, e talvez já tenha chegado, em que estaremos cercados por uma multidão e nos sentiremos os seres mais solitários da galáxia.

Enquanto escrevo, sinto uma pontada de angústia, mas também um chamado à responsabilidade. A Logoterapia nos ensina que o sentido da vida é encontrado no mundo, não dentro da nossa própria psique fechada. Ao nos tornarmos invisíveis para os outros, também perdemos a capacidade de ver o sentido da nossa própria existência. O homem da câmara fria sobreviveu porque transcendeu a si mesmo através de um simples cumprimento diário. Ele criou um laço. O aplicativo de estou vivo é a prova cabal de que falhamos como comunidade. Se precisamos de um software para lembrar que alguém existe, é porque já matamos essa pessoa socialmente muito antes do coração dela parar de bater. A cura para essa invisibilidade não está em mais notificações no celular, mas na coragem de ser inconvenientemente humano, de furar a bolha da indiferença com a agulha da presença.

O que aprendi. Primeiro, não baixe o aplicativo. Recuse se a ser monitorado por máquinas e comece a ser monitorado pelo afeto. Segundo, torne se um fiscal da vida alheia, mas no bom sentido. Envie hoje, agora, uma mensagem sem motivo para três pessoas que você não contata há tempos. Não pergunte se precisam de algo, apenas diga, lembrei de você e quis saber como está o seu mundo. Terceiro, pratique a cerimônia do porteiro. Cumprimente olhando nos olhos, pare por dez segundos, pergunte o nome se não souber. Quarto, no seu grupo de família ou amigos, seja aquele que responde, aquele que reage, aquele que valida a existência do outro. Não deixe ninguém no vácuo. E, por fim, se você frequenta uma igreja, um clube ou uma praça, procure o forasteiro. Aquele que se senta sozinho no segundo banco. Um simples olá pode ser a chave que abre a câmara fria onde ele está trancado.

 Veja a notícia aqui:

https://www.uol.com.br/universa/colunas/futuro-presente/2026/01/21/voce-ja-morreu-app-responde-e-prova-que-epidemia-de-solidao-virou-mercado.htm

Ricardo de Faria Barros, psicólogo da longevidade.

A Geometria do Vento e o Banquinho da Alma (Ricardo de Faria Barros, Psicólogo)



Era dois de janeiro de dois mil e vinte e seis. Eu estava na orla do Bessa, com a alma lavada de sal e as mãos entregues à arquitetura efêmera de uma piscina de areia para os pequenos. Enquanto levantava muros frágeis contra o avanço inevitável do mar, pensei que viver talvez seja exatamente isso: construir com cuidado absoluto, sabendo que tudo é provisório.


Meus olhos, por vezes exaustos da repetição de corpos em exibição e das queixas automáticas de uma humanidade que parece ter desaprendido o encanto, pousaram em uma cena que não pedia legenda, nem aplausos. Pedia apenas presença.


Se eu pudesse emoldurá-la, diria que o azul do céu de João Pessoa dialogava com uma sequência de guarda-sóis vermelhos ao fundo — como flores estendidas ao calor do verão. No centro dessa aquarela viva, um rapaz de camisa azul, da cor do mar profundo, estava ajoelhado. Não em oração, mas em ação inteira. A areia molhada devolvia sua imagem num reflexo límpido, como se o céu e o chão tivessem selado um acordo de silêncio.


O detalhe que costuma provocar o desvio do olhar ou aquela piedade ruidosa — que mais isola do que acolhe — era uma ausência. Faltava-lhe uma perna. Mas a vida, essa peregrina experiente, não trabalha com faltas; ela trabalha com rearranjos. Ele utilizava uma muleta adaptada e, para encontrar o eixo do mundo, apoiava o joelho em um banquinho simples de plástico. Sem drama. Sem heroísmo de vitrine. Apenas o recurso honesto para sustentar o seu estar no mundo.


Ali, naquele banquinho, residia uma lição silenciosa. Ele não desperdiçava energia combatendo o que era imutável. Usava o que tinha para dar suporte ao que lhe fazia sentido: ele empinava uma pipa. O pescoço inclinado para o alto, os olhos bebendo o azul, o corpo inteiro em conversa com o invisível. Não havia pressa, nem comparação, nem a tirania do desempenho. Havia entrega — daquelas em que o tempo afrouxa o nó e a vida passa a caber, inteira, dentro de um instante.


Ao lado dele, uma moça permanecia de pé. Não como cuidadora, nem como plateia vigilante. Ela estava ali como quem entende que presença não é controle, é confiança. Eles não estavam ali para "dar o exemplo". Estavam apenas se dando à vida. Ele oferecia sua disposição de brincar apesar dos limites; ela oferecia sua escolha de estar próxima sem invadir. Um oferecendo o corpo possível, o outro oferecendo o olhar atento.


Ela não o segurava, pois ele não precisava ser segurado. Mas também não se afastava. Seu sorriso não carregava pena, nem o orgulho de quem "suporta" uma carga. Era reconhecimento. E reconhecer o outro na sua integridade é uma das formas mais elevadas de amar. Amar, ali, não era consertar nada; era acompanhar o voo alheio, aceitando que, às vezes, é preciso sentar para tocar as nuvens.


Fiquei imaginando a cartografia dessa jornada. Quantas manhãs foram necessárias para que ele confiasse naquele banquinho? Quantas frustrações precisaram ser atravessadas até que o ato de sentar deixasse de ser derrota para virar estratégia? E quantas vezes ela conteve o impulso de "fazer por ele", aprendendo que o excesso de ajuda pode ser uma forma sutil de roubar a autonomia?


Pensei em meus pacientes. Em tantos que possuem o corpo intacto, mas a alma claudicante. Pensei em nós, essa humanidade ansiosa e barulhenta, econômica nos afetos e perdulária nas mágoas. Gente que corre maratonas sem sair do lugar, enquanto aquele rapaz, sentado, alcançava o horizonte.


Reparei, então, num detalhe final. Ao fundo, uma criança corria em direção ao mar. Corria com as duas pernas livres, rápidas, como quem ainda não conhece o medo. Naquele instante, algo se encaixou em mim: nem o jovem, nem a criança eram definidos pelo que tinham ou pelo que lhes faltava. Ambos eram definidos pelo mesmo verbo: Viver.


O banquinho foi a maior aula de psicologia que recebi naquele verão. Ele ensinava que o bem-estar não nasce da ausência de dificuldades, mas da capacidade de reorganizar os recursos internos. Que a resiliência não é endurecer, mas adaptar-se sem perder a ternura. A deficiência mais perigosa não era a física, mas a incapacidade de se encantar com o comum.


Aquele jovem não fez da sua dor uma identidade. Ele fez da limitação um pedestal. E ela, ao lado, não tentou clarear o céu por ele; apenas compartilhou a paisagem.


Obrigado, jovens desconhecidos. Vocês não quiseram aparecer, e exatamente por isso, permanecerão. A vida, às vezes, precisa sentar-se num banquinho para nos lembrar que o céu continua sendo um horizonte possível e que o verdadeiro voo acontece quando alguém nos olha sem pressa, sabendo que viver é uma construção, não uma competição.


Ricardo de Faria Barros Psicólogo e observador de vidas que ainda sabem se encantar.

Meus 13 Territórios do Afeto, no Bairro da Prata, em Campina Grande-PB


Caminhar por algumas ruas do Bairro da Prata, em Campina Grande-PB, não é um mero deslocamento físico; é uma peregrinação silenciosa pela cartografia da própria alma. Cada passo reivindica uma memória adormecida, como se o chão reconhecesse a pisada de meus pés muito antes de eu reconhecer o caminho. O cheiro do bairro   uma alquimia de asfalto quente, poeira ancestral e uma umidade teimosa que se agarra às paredes; percorre meu corpo como uma corrente elétrica suave, daquelas que não ferem, mas despertam. É um odor que não se descreve: ele invoca gente, convoca tempo, é a essência de casa.

Observo o meio-fio e vejo plantinhas insurgentes rompendo a crosta de concreto. Pequenas, frágeis, insubmissas. Ali, naquele exato ponto de ruptura, eu lançava meus barquinhos de papel, confeccionados às pressas com folhas de caderno, dobrados mais com esperança do que com técnica. Na alquimia da infância, as águas que desciam da ladeira da Antenor Navarro eram caudalosos rios de aventura. Não importava se carregavam segredos da cidade ou a pureza efêmera da chuva. A fantasia   essa força quase sagrada que nos redime da aridez do real   realizava seu milagre quotidiano: transmutava a matéria bruta em correnteza de sonhos. Hoje, aquelas plantas que brotam nas frestas me parecem oráculos. A vida, quando insiste, sempre traça sua passagem. A esperança, igualmente.

Mais adiante, o tempo parece ter feito uma pausa deliberada na bodega do Seu Tonheca. Ali, os relógios respiram em outra frequência. Davi, o filho mais novo, permanece um sentinela silencioso de uma era que se recusa a escoar. Seu olhar guarda uma fidelidade tácita ao passado, como se sustentasse um pacto: "Alguém precisa ficar para lembrar." A poeira dourada do crepúsculo pousa sobre o balcão, e todo o ambiente parece suspenso   um universo em pausa, tomando fôlego antes da próxima maré do tempo.

A subida em direção ao Hospital Santa Clara impõe um respeito quase litúrgico. É um monumento de paradoxos, onde a vida e a morte dançam a mesma valsa íntima, sem pedir licença. Suas paredes são argamassa de vozes: gemidos, orações murmuradas, promessas seladas em silêncio. Vejo, na memória, a luzinha rosa acesa, pequena e imensa, anunciando a chegada de Priscila   um farol de vida nova rompendo a escuridão. Mas sinto, no mesmo solo, o peso sereno onde papai descansou de suas fadigas. O mesmo espaço que acolhe o primeiro choro abriga o último suspiro. É um território sagrado, onde a fragilidade humana é recebida em lençóis brancos e por mãos que aprenderam, dia após dia, a honrar o que é finito.

No percurso, a sede do GAV se impõe à memória como um sobrado de luz em meio à noite. Fundado em 1994, aquele espaço foi minha escola prática de humanidade. Ali, a autotranscendência deixou de ser conceito para se tornar respiração. Revivo com clareza os rostos dos vinte voluntários: donas de casa, estudantes, desempregados   gente comum que, nas sextas-feiras à noite, transformava o medo da AIDS em abraço, em sopa quente, em escuta sem julgamento. Ali aprendemos, sem tratados, que a vida se expande quando se doa. Onde havia estigma, plantávamos presença. Onde havia desespero, insistíamos em esperança. O GAV não curava corpos, mas salvava sentidos   e isso, muitas vezes, é a cura mais radical.

A fome, biológica e afetiva, me conduz à Feira da Prata. O salão que procuro não se anuncia com placas, mas o cheiro do bode com cuscuz funciona como uma bússola infalível. Na banca que foi de Dona Socorro, o sabor da terra se oferece sem cerimônia. Por trinta reais, renovo o rosto no corte de cabelo; por quinze, garanto o rito do almoço. Penso na simplicidade abundante da minha cidade, tão distante da lógica inflacionada de Brasília. Aqui, o bode é iguaria nobre e o preço é um pacto de honra. Um aperto de mão sem papel, e um desconto pra um estranho, que sela confiança e fideliza as voltas.

Desço a Nilo Peçanha e o coração se contrai. Onde antes se erguia meu colégio   uma floresta encantada para nós, pequenos diante da grandiosidade das árvores   hoje se estende um vazio de ruínas. Desapareceram as construções, as sombras generosas, os bancos improvisados. Resta o silêncio de um terreno baldio. Mas fecho os olhos e ecoam nossas vozes infantis, correndo pelos corredores, rindo alto, acreditando que o mundo cabia, intacto, em uma tarde qualquer. Sinto um impulso quase físico de entrar, recolher um punhado daquela terra e guardá-lo no bolso. Não é sujeira. É relíquia. Testemunha silenciosa. Fragmento vivo do menino que fui.

A rua Dom Pedro II se desenrola diante de mim como um pergaminho da minha existência. Em seu curto quilômetro, ela condensa uma enciclopédia de vida. Foi ali que nasci. Ali que aprendi a nadar no Sesi, desafiando o medo da água com braçadas desengonçadas. Ali vivi o amor, o casamento, a construção de um lar com Joane e a chegada dos filhos. E ali também enfrentei a geografia do luto, o divórcio doze anos depois, quando a casa precisou aprender a pulsar em outro ritmo. Nessa mesma rua, a dor física me visitou com brutalidade, no acidente de moto que quase rompeu o fio da vida. O Hospital Francisco Brasileiro, testemunha daquele susto, ainda me observa de longe. E, logo adiante, a Igreja do Rosário: palco da minha fé em construção. Fui coroinha, sonhei ser padre, liderei jovens. Cada esquina dessa rua tem textura, tom, aroma e voz. E todas, sem exceção, ainda sussurram meu nome.



Ao chegar em casa, o ciclo se fecha com a ternura cotidiana de Dona Celina. O cheiro que me recebe não é apenas de comida: é de juventude condensada. É de tempo amorosamente estocado. Celina, nosso patrimônio afetivo imaterial, que por 40 anos teceu cuidados invisíveis na trama de nosso lar, preparou, como quem decifra almas sem perguntas, a tríade sagrada das gostosuras; pratos que marcaram minha juventude e que, juntos, narram mais da minha história do que qualquer crônica. A farofa de ovos, simples e reconfortante, bálsamo para dias difíceis. O cozido de carne com pirão, espesso e quente, alimento de sustância e presença, que segura o corpo e ancorava o coração. E, para a celebração, a pizza de liquidificador;  improviso generoso e festivo, símbolo dos dias em que a alegria não precisava de motivo para ser convidada. Celina fez os três. Num ato mudo que diz: "Eu me lembro de você inteiro." Entre um café e outro, ela me surpreende ao perguntar pelo meu livro novo. Diz que quer um exemplar. E, aquele pedido tão atencioso, simples, cotidiano e profundamente amoroso, validou toda a minha travessia. Seu interesse pela minha obra foi um abraço na alma, daqueles que não fazem ruído, mas sustentam; um reconhecimento que vale mais que qualquer láurea.

Aos 61 anos, como psicólogo e observador da alma humana, compreendo que somos, cada um de nós, um território vivo. Somos moldados pela geografia que habitamos e, ao mesmo tempo, a moldamos com a topografia de nossas histórias. Criamos conexões de sentido que transcendem o concreto e o asfalto. As ruas do Bairro da Prata não são apenas vias públicas: são artérias do meu próprio corpo, veias por onde corre o sangue da memória. Revisitar esses caminhos não é saudosismo estéril; é oxigenação existencial. A Logoterapia ensina que o passado é um celeiro inexpugnável: nada se perde, tudo se transforma em sentido vivido. Essas memórias nos humanizam, nos desaceleram, nos arrancam do piloto automático e nos sussurram que a vida é feita de encontros, sabores, dores atravessadas e vozes que, mesmo em ruínas, nunca cessam seu canto.

Convido você, leitor amigo, a empreender essa mesma peregrinação sagrada. Caminhe pelas ruas da sua infância. Pronúncia as esquinas da sua história. Que aromas elas guardam? Que perdas e amores ficaram gravados naquelas calçadas? Permita-se recolher a areia de suas próprias ruínas. Você descobrirá que, no grande mosaico da vida, cada fragmento de memória é um tijolo indispensável na construção do seu sentido de ser. Resgatar a geografia interior é, no fundo, um ato de reconciliação consigo mesmo   e a forma mais delicada de aprender a amar, com doçura e respeito, a pessoa que se tornou.

Ricardo de Faria Barros  


Psicólogo | Especialista em Psicologia Positiva e Logoterapia

 


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