Bode com Farinha - Psicologias do Cotidiano
Continue estreando na vida e no viver (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)
Há pessoas que envelhecem porque os anos passam.
E há pessoas que envelhecem porque param de estrear.
São coisas diferentes.
Conheço gente de 40 anos que já desistiu de experimentar novidades.
E conheço pessoas de 80 que continuam inaugurando capítulos inteiros da própria existência.
Talvez uma das maiores armadilhas da aposentadoria seja acreditar que a fase das primeiras vezes terminou.
Que já aprendemos o que havia para aprender.
Que já sonhamos o que havia para sonhar.
Que já amamos o que havia para amar.
Mas a vida costuma ser generosa com quem continua dizendo "sim" ao novo.
Outro dia vivi uma dessas estreias.
Aos 61 anos, participei da minha primeira corrida de rua.
Não era sobre os cinco quilômetros.
Nunca foi.
Os cinco quilômetros eram apenas o endereço.
O destino era outro.
Era descobrir que ainda sou capaz de aprender.
Era perceber que ainda posso me reinventar.
Era voltar a confiar no corpo.
Era descobrir que a idade não determina os limites da alma.
Era continuar estreando a vida.
A corrida tornou-se a nona experiência de uma lista muito especial que comecei a construir.
Uma lista chamada:
As 100 coisas que ainda estrearei, pós 60+.
Gosto dessa ideia.
Aliás, deixo aqui um convite afetuoso.
Compre um caderninho.
Pode ser simples.
Na capa, escreva:
As 100 coisas que ainda estrearei, pós 60+
E vá preenchendo suas páginas devagar.
Não com obrigações.
Não com cobranças.
Mas com possibilidades.
Com sonhos.
Com curiosidades.
Com vontades antigas.
Com pequenas ousadias.
Com tudo aquilo que ainda faz nascer borboletas no estômago.
Porque felicidade não nasce apenas do que já conquistamos.
Ela também nasce do que ainda desejamos viver.
Dos projetos que nos chamam para frente.
Dos convites que fazemos ao futuro.
Dos capítulos que ainda não foram escritos.
Há pesquisas mostrando que pessoas que cultivam objetivos, curiosidade, aprendizado contínuo e senso de propósito tendem a apresentar mais bem-estar, vitalidade e satisfação com a vida.
Talvez porque o cérebro adore novidades.
Talvez porque o coração também.
Ou talvez porque a esperança precise de algum lugar para pousar.
Quando deixamos de estrear, os dias começam a se parecer demais uns com os outros.
Mas quando mantemos espaço para novas experiências, a vida ganha novamente cheiro de aventura.
E não estou falando de aventuras radicais.
Estou falando da coragem simples de continuar aprendendo.
De continuar tentando.
De continuar começando.
De continuar se permitindo.
Lembro-me então de uma das mais belas canções de Flávio Leandro: Mudança.
Nela, o poeta conta que acordou com vontade de cuidar de si.
De arrumar as gavetas.
De colocar tinta na caneta do coração.
De escrever para si mesmo um poderoso "eu me amo".
Que imagem bonita para quem envelhece.
Porque envelhecer bem talvez seja exatamente isso.
Voltar a cuidar das gavetas da alma.
Retirar o que perdeu o sentido.
Organizar afetos.
Revisar crenças.
Jogar fora alguns pesos desnecessários.
E abrir espaço para novos sonhos.
A música nos lembra ainda que, quando mudamos por dentro, algo também começa a mudar ao nosso redor.
Quando mudamos nosso olhar, mudamos a paisagem.
Quando mudamos nossos hábitos, mudamos nosso destino.
Quando mudamos nossas perguntas, mudamos as respostas que a vida nos oferece.
E talvez esteja aí uma das maiores lições da maturidade.
Passamos boa parte da vida tentando mudar o mundo.
Mas, com o tempo, descobrimos que muitas das mudanças mais importantes começam dentro de nós.
A canção termina com um verso simples e profundo:
"O que não muda nesse mundo é somente a mudança."
E talvez seja exatamente por isso que precisamos continuar estreando.
Continuar aprendendo.
Continuar experimentando.
Continuar sonhando.
Continuar começando.
A aposentadoria não precisa ser o encerramento da história.
Pode ser o início do capítulo mais livre dela.
A fase em que já não precisamos provar tanta coisa aos outros e podemos finalmente experimentar mais coisas para nós mesmos.
Por isso, deixo uma pergunta:
Qual será a próxima estreia da sua vida?
Qual será a próxima página do seu caderninho?
Qual será a próxima coisa que ainda fará até os 100 anos?
Talvez ela não esteja tão distante.
Talvez esteja apenas esperando a coragem do primeiro passo.
Porque existe uma juventude que não mora nos músculos.
Não mora na pele.
Não mora na certidão de nascimento.
Ela mora na capacidade de continuar se encantando.
Na coragem de continuar aprendendo.
Na disposição de continuar dizendo sim ao novo.
Talvez a verdadeira velhice não comece quando os cabelos embranquecem.
Talvez ela comece quando paramos de estrear.
E enquanto houver uma primeira vez esperando na próxima curva, haverá também um pedaço de juventude caminhando dentro de nós.
A minha nona estreia foi uma corrida de rua.
A décima ainda não sei qual será.
E talvez seja justamente isso que torna a vida tão bonita.
O fato de ainda existirem páginas em branco esperando para serem preenchidas.
Porque viver não é apenas acumular anos.
É continuar colecionando estreias.
E quem coleciona estreias nunca envelhece por completo.
Apenas muda.
Como o vento.
Como a vida.
Como nós.
Ps. Seguem as minhas estreias até agora.
As 12 Estreias que Mais Me Surpreenderam Após os 60+
Quando olho para esta lista, percebo que ela não fala apenas sobre coisas que fiz.
Ela fala sobre coisas que eu jamais imaginei que faria.
Cada uma delas derrubou uma pequena cerca invisível.
Daquelas que a idade, os hábitos, os medos ou a acomodação vão construindo sem que a gente perceba.
O mais curioso é que, em quase todas elas, a maior surpresa não foi a experiência em si.
A maior surpresa fui eu. Foi descobrir que ainda existiam territórios desconhecidos dentro de mim.
1. Visitar o Show da Monga
Surpreendi-me ao perceber que ainda existia um menino curioso morando aqui dentro.
2. Aprender uma coreografia
Surpreendi-me ao descobrir que rir de mim mesmo pode ser libertador.
3. Participar de um Garage Sale
Surpreendi-me encontrando prazer em garimpar histórias escondidas em objetos simples.
4. Andar de patinete elétrico
Surpreendi-me sentindo novamente aquela sensação de vento no rosto dos tempos de juventude.
5. Pedalar uma bike triciclo na orla de João Pessoa
Surpreendi-me brincando sem me preocupar com a opinião de ninguém.
6. Curtir uma praia com dunas no Rio São Francisco
Surpreendi-me ao encontrar beleza onde jamais imaginei procurar.
7. Andar na Carreta Furacão
Surpreendi-me permitindo que a criança interior assumisse o comando da viagem.
8. Andar de Banana Boat
Surpreendi-me aceitando sair da zona de conforto e me divertir com isso.
9. Boiar no mar
Surpreendi-me aprendendo que confiar também é uma forma de sabedoria.
10. Assistir a um show de Heavy Metal
Surpreendi-me gostando de algo que, durante décadas, imaginei não ser para mim.
11. Tomar banho na ducha do Parque da Cidade
Surpreendi-me encontrando felicidade em algo tão simples e tão gratuito.
12. Participar da minha primeira corrida de rua
Surpreendi-me descobrindo que o corpo ainda é capaz de aprender novos caminhos e que a alma continua gostando de desafios.
Se existe algo que essas doze experiências me ensinaram, é que a aposentadoria não precisa ser uma estação de chegada. Ela pode ser uma estação de partidas. Depois dos 60, percebi que ainda sou capaz de sentir frio na barriga. Ainda sou capaz de aprender. Ainda sou capaz de mudar de ideia. Ainda sou capaz de me reinventar. E talvez seja exatamente isso que me deixou mais feliz.
Não foi a Monga. Não foi a Banana Boat. Não foi o Heavy Metal. Não foi a corrida.
Foi descobrir que eu ainda consigo me surpreender comigo mesmo.
E talvez seja esse um dos segredos da felicidade na longelescência: Nunca parar de colecionar experiências que nos façam dizer: "Rapaz... eu não imaginava que ainda faria isso."
Porque enquanto continuarmos nos surpreendendo, continuaremos crescendo.
E enquanto continuarmos crescendo, continuaremos vivos. Muito vivos.
Nunca foi pelos 5KM, foi para continuar estreando na vida! (Por Ricardo de Faria Barros, psi)
Fazia tempo que eu não sentia isso.
Aquele friozinho na barriga. Aquela inquietação leve, tal qual o vento Aracati quando muda de direção e avisa que algo está para acontecer. Um misto curioso de expectativa, adrenalina, esperança e dúvida. Algo entre o “vai dar certo” e o “será?”.
Hoje é noite de véspera.
A roupa está separada. O número preso ao peito. Os tênis aguardam ao lado da cama. Brasília amanhecerá fria, abraçada por uma frente fria dessas que convidam a ficar mais alguns minutos debaixo do cobertor. Mas amanhã não.
Amanhã é dia de estrear.
E, aos 61 anos, descubro que ainda gosto de estrear coisas.
Já arrumei roupa para ir trabalhar. Para ir estudar. Para namorar. Para viajar. Para dar palestras. Para tantas jornadas importantes da vida. Mas hoje arrumo roupa para ir correr.
E isso me fez pensar sobre as primeiras vezes.
O primeiro contracheque.
A primeira vez que saí de casa para construir minha própria história.
A espera do primeiro filho.
As primeiras não são apenas acontecimentos. São portais. Travessias. Lugares onde uma versão antiga de nós se despede enquanto outra começa a nascer.
Talvez uma das vantagens da maturidade seja justamente reconhecer essas passagens.
Quando somos jovens, muitas primeiras vezes acontecem sem que percebamos.
Hoje não.
Hoje quero estar completamente presente.
Quero sentir o frio na barriga.
Quero perceber a expectativa.
Quero prestar atenção na conversa acelerada da mente.
Quero guardar o amanhecer.
Quero ouvir o coração.
Porque sei de uma coisa: isso também passará.
A ansiedade passará.
A expectativa passará.
O frio da manhã passará.
A corrida passará.
E justamente por isso merece ser vivida com atenção.
Amanhã, dia 31 de maio, às sete horas da manhã, Brasília ainda estará despertando. A largada acontecerá diante da Catedral de Brasília.
E confesso que gosto desse detalhe.
Há algo de simbólico em iniciar uma travessia aos pés de um dos monumentos mais bonitos da cidade que escolhi para viver há tantos anos.
Enquanto o sol tenta romper a manhã fria do Planalto Central, centenas de pessoas estarão reunidas ali, cada uma carregando suas próprias histórias, seus desafios, seus sonhos e suas razões para correr.
E eu estarei entre elas.
Não para competir.
Não para provar nada.
Mas para viver plenamente aquele instante.
Porque a vida acontece no agora.
E quantas vezes, nesta sociedade tão acelerada, ansiosa e digital, deixamos o presente escapar por entre os dedos?
Estamos pensando na próxima tarefa, na próxima mensagem, no próximo compromisso, na próxima preocupação.
E perdemos o que está acontecendo diante de nós.
O sorriso.
O abraço.
O amanhecer.
O friozinho na barriga.
A primeira vez.
E a vida não devolve esses momentos.
Na vida não existe replay.
Não existe botão de voltar.
Não existe como viver novamente, com a mesma intensidade e o mesmo significado, aquilo que não foi verdadeiramente vivido quando aconteceu.
Por isso quero estar inteiro amanhã.
Presente.
Atento.
Grato.
Saboreando cada passo, cada conversa, cada batida do coração e cada metro percorrido.
Porque algumas memórias não são construídas depois.
Elas são construídas durante.
Como quem prepara uma compota emocional positiva para degustar no futuro.
Há alguns meses eu não imaginava estar aqui.
Vieram os treinos.
Vieram os dias bons.
Vieram as cólicas.
Vieram as dores.
Vieram os dias em que caminhei mais do que corri.
Vieram as manhãs em que a preguiça tentou vencer.
Mas veio também a persistência.
Um treino de cada vez.
Um passo de cada vez.
Até entender que os cinco quilômetros nunca foram realmente o objetivo.
Os cinco quilômetros eram apenas o endereço.
O destino sempre foi outro.
Era voltar a acreditar no corpo.
Era cuidar melhor da saúde.
Era descobrir que ainda era possível construir novos projetos depois dos 60.
Era continuar estreando na vida.
Mas descobri hoje que existe mais uma beleza escondida nesta história.
Amanhã não estarei sozinho na largada.
Quando meus filhos souberam da prova, decidiram correr também.
Tiago.
Rodrigo.
João Gabriel.
E minha nora Carol.
De repente, aquilo que começou como um desafio individual virou uma experiência compartilhada.
E há algo profundamente bonito nisso.
Porque amanhã não correremos apenas lado a lado.
Correremos atravessando gerações.
Um pai.
Dois filhos adultos.
Um filho adolescente.
Uma nora.
Cada um com seu ritmo.
Cada um com sua história.
Cada um com seus próprios desafios.
E talvez esteja aí uma das maiores vitórias desta prova.
João Gabriel viverá sua primeira corrida de rua.
Eu viverei a minha.
E os demais estarão ali, transformando a experiência em algo maior do que uma simples prova.
Algo que poderá virar memória.
Daquelas que a vida guarda com carinho.
Então, nesta noite de véspera, enquanto a cidade desacelera e o dia se recolhe, percebo que nunca foi pelos cinco quilômetros.
Nunca foi.
Foi pela vida.
Foi pela possibilidade de continuar me surpreendendo.
Foi pela coragem de não permitir que a idade me convencesse de que todas as estreias importantes já haviam acontecido.
Foi por continuar dizendo sim ao novo.
Talvez por isso o coração esteja tão inquieto.
Porque há coisas do amanhã que começam a acontecer hoje.
A largada será amanhã.
Mas a emoção já começou.
A corrida será amanhã.
Mas a expectativa já corre dentro de mim.
O encontro será amanhã.
Mas a alegria já chegou.
E quando isso acontece, o tempo parece desafiar os relógios.
O amanhã invade o hoje.
E o hoje se enche de futuro.
Talvez seja por isso que certas vésperas sejam tão especiais.
Porque nelas o tempo deixa de ser apenas uma sequência de horas.
Deixa de ser número.
Deixa de ser calendário.
Deixa de ser ponteiro.
E passa a ser sentimento.
Afinal, existem experiências que acontecem antes de acontecer.
E existem alegrias que chegam antes da chegada.
Talvez seja exatamente isso que eu esteja vivendo nesta noite.
Existe um frio que paralisa.
Mas existe também o frio das boas notícias que ainda não chegaram.
O frio dos sonhos que estão prestes a acontecer.
O frio das primeiras vezes.
Esse frisson manso do bem, do bom e do virtuoso.
Essa inquietação bonita que visita o coração quando algo pelo qual lutamos, esperamos e nos preparamos está finalmente prestes a acontecer.
E talvez seja isso que eu esteja sentindo agora.
Enquanto a cidade dorme.
Enquanto espero o raiar do dia.
Porque amanhã haverá uma largada.
Mas esta noite também merece ser vivida.
Merece ser sentida.
Merece ser guardada.
Afinal, um dia ela também será lembrança.
E quando esse dia chegar, quero recordar não apenas a corrida.
Quero recordar a véspera.
O frio na barriga.
A expectativa.
A gratidão.
E a certeza de que, aos 61 anos, eu ainda era capaz de estrear a vida.
Porque enquanto houver uma primeira vez me esperando na próxima curva, haverá também um pedaço de juventude correndo dentro de mim.
E amanhã, por alguns quilômetros, ela correrá ao lado dos meus filhos.
E isso, por si só, já vale a corrida inteira.
Ps. Abaixo, o registro dos treinos.
As Bandeirinhas que Tremulam no Varal da Alma (por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)
Era começo da tarde de uma sexta feira qualquer dessas que Brasília inventa para misturar céu azul, vento seco e coração ansioso. Eu estava dentro do carro, estacionado na rua em frente à ANABB, me preparando para entrar no auditório onde, dali a pouco, falaria sobre a arte de florescer no deserto. Florescer no asfalto. Florescer, apesar dos pesares.
Confesso que fiquei ali alguns minutos olhando para o volante, pensando no que poderia dizer àquelas pessoas.
Que sementes eu conseguiria lançar?
Será que me escutariam de verdade?
Será que estariam apenas esperando a palestra terminar para voltar à correria do dia?
Será que alguma palavra minha conseguiria tocar uma tristeza escondida, uma solidão silenciosa, uma esperança quase desistindo dentro de alguém?
No banco de trás do carro estavam as bandeirinhas de São João que eu havia levado para a dinâmica da palestra. Pequenas. Coloridas. Simples. Dessas que muita gente acha apenas decoração de festa junina.
Mas eu não via ali apenas papel de seda.
Eu via símbolos.
Via presença.
Via afeto.
Via pertencimento.
Enquanto respirava fundo antes de entrar, lembrei das bandeirolas tibetanas penduradas nos cumes gelados da Cordilheira do Himalaia. Símbolos de paz e compaixão. Diz a tradição que os mantras nelas inscritos purificam o ar e espalham bênçãos de saúde, prosperidade e harmonia para todos os seres. Como se saudassem os aracatis, os bons ventos da existência, soprando esperança sobre os caminhos humanos.
Conta-se também que quem sobe os montes costuma deixar ali um tecido trazido de longe, preso aos varais do alto da montanha, como celebração da travessia vencida. Uma espécie de testemunho silencioso de que foi possível chegar até ali.
E aqueles lenços tremulando ao vento acabam servindo de estímulo para outros caminhantes que, ainda muito distantes, olham para o alto e enxergam as bandeirinhas dançando contra o céu.
Como quem diz:
“Falta pouco.
Você consegue.
Caminhe só mais um bocadinho.
O alto da montanha já está lhe esperando.”
E pensei:
No fundo, nossas bandeirinhas de São João também fazem isso.
Abrem espaço para o “festar” em nossas jornadas tão exaustivas.
Anunciam a fartura das comidas de milho.
Anunciam as danças, os folguedos juninos e os reencontros em volta da família e amigos.
Anunciam o congraçamento humano.
Anunciam que ninguém nasceu para viver isolado no próprio escuro.
Elas tremulam saudando a vida.
Anunciam que alguém importa.
Que alguém foi amado.
Que alguém deixou perfume na travessia do nosso existir.
Peguei o pacote de bandeirinhas, desci do carro e entrei no auditório.
A palestra começou.
E, aos poucos, aquela metáfora foi criando asas.
Falei para eles que a saúde mental não é um prédio de concreto armado, frio e inabalável. Saúde mental é mais parecida com um varal ao vento. Flexível. Vivo. Sensível. Sustentado por fios invisíveis de afeto.
Disse que nossas bandeirinhas emocionais são as pessoas pelas quais vale a pena continuar caminhando.
Aquelas que nos apoiam.
Que torcem por nós.
Que sentem nossa falta.
Que nos reconhecem.
Que nos acolhem.
Que seguram uma ponta da vida quando nossos braços cansam.
Falei que ninguém floresce sozinho no deserto.
Nem no sertão.
Nem no asfalto.
Nem dentro da própria alma.
E então entreguei as bandeirinhas.
Pedi que cada pessoa escrevesse nelas, quando chegassem em casa, nomes de pessoas especiais em seu viver.
Nomes de quem faz o coração continuar acreditando.
Nomes de quem ainda colore o céu da existência mesmo em tempos difíceis.
Foi bonito de ver.
Homens e mulheres segurando aquelas pequenas bandeiras coloridas como quem segura um pedaço delicado da própria alma.
Alguns sorrindo.
Outros emocionados.
Alguns silenciosos, talvez porque há tempos ninguém lhes perguntava quem ainda habitava o território afetivo de seus corações.
No final, cada um levou sua bandeirinha para casa.
Não apenas um pedaço de papel.
Mas um lembrete.
Um lembrete de que saúde mental também depende dos nomes que tremulam no varal afetivo da nossa existência.
Saí dali feliz.
Muito feliz.
Porque percebi que, às vezes, uma palestra não muda o mundo inteiro.
Mas pode ajudar alguém a não desistir do próprio mundo.
E isso já é milagre suficiente para uma sexta feira qualquer.
Talvez esteja aí uma bonita tarefa para a nossa longevidade.
Em vez de apenas contar remédios, exames, boletos, perdas e dores, quem sabe possamos voltar a contar afetos.
Quem sabe ainda dê tempo de criar um varal dentro da alma.
Um varal de gratidões.
De presenças.
De nomes que sustentam nosso coração nos dias de ventania.
Pegue também suas bandeirinhas.
Faça delas um pequeno ritual de humanidade.
Escreva nomes.
Reconheça pessoas.
Agradeça existências.
Reate laços.
Perdoe distâncias.
Diga que ama enquanto ainda há tempo de ouvir resposta.
Tal qual as bandeirolas tibetanas balançando nos cumes das montanhas, e as bandeirinhas de São João colorindo nossas ruas, talvez nossa saúde emocional também dependa dessa capacidade de deixar o amor tremular ao vento.
Porque envelhecer bem não é apenas acumular anos.
É continuar tendo por quem balançar bandeiras dentro do peito.
É ainda conseguir celebrar a chegada de alguém.
Sentir saudade.
Cuidar.
Reconhecer.
Abraçar.
Ser abrigo.
Ser lembrança boa na memória de alguém.
Há gente envelhecendo cercada de coisas e vazia de vínculos.
E há gente simples, sentada numa cadeira de balanço, carregando uma verdadeira quermesse afetiva dentro do coração.
No final das contas, talvez felicidade seja isso:
Ter um céu interior cheio de bandeirinhas tremulando.
E saber que, em algum lugar da vida, também existe uma delas dançando ao vento com o seu nome escrito nela.
A Pizza que o iFood Nunca Entrega
Era sábado à noite no lar do Major.
Ou melhor, no lar de Márcio, motorista de aplicativo pelas ruas de João Pessoa, contador de histórias improvisadas do cotidiano, desses que ligam a câmera do celular e deixam a vida acontecer ao vivo, sem roteiro, sem maquiagem e sem filtro de felicidade artificial.
Logo cedo, durante uma das transmissões de suas corridas, ele anunciou para seus mais de cinco mil inscritos que naquela noite haveria pizza caseira.
E foi aí que começou a aventura.
Durante as corridas, entre um passageiro e outro, o Major encontrou tempo para passar no mercado e comprar os ingredientes que Waleska “achava” que precisava. E digo “achava” porque ela mesma admitia, aos risos, que não fazia a menor ideia de como preparar uma pizza.
E talvez fosse justamente isso que deixasse tudo mais bonito.
A ousadia culinária também pode ser uma forma de amor.
Ela pensou numa lista básica. Um molho aqui. Um queijo ali. Um orégano talvez. Farinha. Fermento. Coisas assim. E o Major foi comprando aos poucos, no intervalo das corridas, como quem junta peças de uma esperança simples.
Já perto das sete da noite, ele soltou uma frase que me ganhou de vez:
“Vou fazer mais umas corridas antes de ir pra casa, pra ajudar nos custos da pizza.”
Aquilo me atravessou.
Enquanto muita gente romantiza sucesso sem esforço, ali estava um homem comum dizendo, sem discurso bonito, que ia trabalhar mais um pouco para garantir uma noite especial pra família.
Mais uns corres.
Mais umas corridas.
Mais um bocadinho de suor pra transformar farinha em memória afetiva.
E assim foi.
Por volta das oito da noite começou a saga da pizza.
Waleska estava feliz. Major também. Correndo pela casa estava Kayanne, a filha do casal, junto de suas amigas Ruthe e Melissa, chamada de Mel, carinhosamente. Cinco pessoas naquela pequena epopeia culinária. E ainda tinha Mike, o cachorro da família, observando tudo com aquele olhar de cão que parece entender mais da vida do que muito filósofo.
E havia ainda quase oitenta pessoas acompanhando tudo ao vivo pela internet. Entre elas, eu.
Na neuropsicologia descobriu-se que os neurônios espelho fazem com que sintamos, dentro da gente, experiências que vemos acontecer nos outros. Quando nos conectamos emocionalmente com uma cena, o cérebro reproduz parte daquelas sensações como se estivéssemos ali.
Talvez seja por isso que tanta gente ficou presa naquela live simples de uma família tentando fazer pizza.
Mas deixemos a psicologia um pouco de lado.
Porque naquela noite o que importava era o cheiro da cozinha.
Waleska pedia ajuda aos inscritos. Um dizia pra colocar orégano. Outro sugeria manjericão. Alguém ensinava a untar a forma com azeite. Outro dizia que a massa precisava descansar.
Ela consultava o YouTube como quem pede conselho a vizinhos de uma vila antiga.
O Major preparava recheios e perguntava o tempo inteiro:
“No que posso ajudar?”
Kayanne colocava a mesa.
Ajudava na louça.
As amigas ajudavam na alegria.
E aos poucos a massa foi tomando forma. Aberta na mão mesmo. Sem perfeição. Sem estética gourmet. Sem borda vulcão. Mas cheia de risadas.
Você pode me perguntar:
“Não seria mais fácil pedir no iFood?”
Claro que seria.
Talvez até mais barato.
Mas não teria a experiência que viveram naquela noite.
Não teria emoção.
Não teria afeto.
Não teria comunhão.
Não teria o calor humano da cozinha, esse fogo ancestral que reúne pessoas desde que nossos antepassados descobriram que cozinhar juntos também era uma forma de amar.
Não teria as trocas.
As brincadeiras.
As pequenas confusões.
A felicidade simples de construir alguma coisa com as próprias mãos.
A pizza comprada chegaria pronta.
Mas não carregaria o sabor das mãos deles sovando a massa, ajeitando recheios, tentando acertar juntos.
Quando a primeira forma saiu do forno houve praticamente um clamor nacional na live.
Todo mundo vibrou.
Waleska servia pedaços generosos pras meninas. Kayanne e suas melhores amigas, Melissa e Ruth, atletas de vôlei do IE Colégio e Curso, comiam sorrindo, naquela fome bonita que só adolescência e felicidade conseguem produzir.
Kayanne estuda com bolsa integral conquistada pelo esforço no esporte. E aquilo também dizia muito sobre aquela família.
Nada ali parecia luxo.
Mas havia dignidade, acolhimento e orgulho.
O Major afogava as fatias em ketchup. Ele ama ketchup. Waleska ria sem caber dentro da própria felicidade.
Porque deu certo.
Deu trabalho.
Mas o triunfo final era infinitamente maior do que simplesmente apertar um botão num aplicativo.
Naquela cozinha havia PERMA puro, como ensina Martin Seligman na Psicologia Positiva.
Emoções positivas.
Engajamento.
Relacionamentos.
Sentido.
Realização.
Tudo servido junto, numa forma de pizza.
Depois da comilança, as meninas foram ouvir música no quarto de Kayanne. O Major deitou no sofá abraçado com Waleska. Mike observava tudo satisfeito, sem entender exatamente por quê.
E nós, do outro lado da tela, tivemos uma aula silenciosa sobre o que um dia foram as famílias.
Quando ainda existiam cozinhas cheias de gente.
Quando as pessoas faziam coisas juntas não porque precisavam economizar, mas porque queriam pertencer umas às outras.
Sem cada um trancado em seu próprio mundo.
Sem o celular sequestrando todos os silêncios.
Sem a pressa moderna de comer correndo e voltar para as solidões individuais.
Na noite da pizza do Major vimos que ainda é possível dar novos significados à vida.
Criar compotas afetivas.
Fabricar lembranças.
Construir memórias que um dia servirão de abrigo emocional.
Daqui a trinta anos, talvez Kayanne repita essa cena em seu próprio lar. Porque viveu isso. Porque sentiu isso.
E certas coisas não se aprendem nos livros.
Precisam ser experimentadas.
Depois, as meninas voltaram do quarto trazendo um jogo de tabuleiro: Banco Imobiliário.
Aí a noite lacrou de vez.
Lembrei imediatamente da casa de meus pais. Das noites de pizza. Dos jogos de WAR, Banco Imobiliário, baralho espalhado sobre a mesa, risadas atravessando madrugada.
Então a cena final parecia pintura.
O casal junto no sofá.
A filha e as amigas jogando na mesa.
A louça lavada.
A casa em paz.
A vida acontecendo devagar.
E percebi outra coisa bonita.
Há casas que afastam os amigos dos filhos.
Casas feitas para não bagunçar.
Para não gastar.
Para não sair da estética perfeita da decoração.
Mas as amigas de Kayanne se espremiam felizes naquele espaço pequeno sem ligar pra luxo, tamanho de quarto ou ar-condicionado.
Porque elas só queriam estar ali.
Com a melhor amiga.
Dentro daquela energia de acolhimento.
E Major e Waleska têm esse dom raro.
São uma espécie de útero afetivo.
Útero de esperança, simplicidade e gratidão.
E talvez tenha sido essa a maior lição daquela noite.
A pizza era só a desculpa.
Porque, no fundo, o que o Major nos mostrou é que quase todo sonho da vida começa assim: com alguns ingredientes simples, um pouco de coragem e mais uns “corres” quando a gente acha que já trabalhou demais.
Todos nós temos nossa própria pizza.
Às vezes ela vem na forma de um curso que queremos pagar.
De uma viagem.
De um quarto melhor pros filhos.
De um almoço especial em família.
De uma prestação apertada.
De um projeto.
De uma esperança que ainda não desistimos de viver.
E quase sempre haverá um momento em que precisaremos fazer “mais umas corridas”.
Mais um esforço.
Mais uma entrega.
Mais um turno.
Mais um bocadinho de persistência.
Foi isso que Márcio, o Major, ensinou naquela noite sem perceber.
Que dignidade também mora no esforço amoroso.
Que trabalhar pra construir momentos é diferente de trabalhar apenas pra sobreviver.
Que vale a pena cansar um pouco mais quando o resultado final é afeto quente servido na mesa.
E enquanto muita gente anda comprando tudo pronto, terceirizando emoções e vivendo relações cada vez mais frias, o Major e Waleska seguem fazendo algo revolucionário sem discursos complicados:
Eles estão construindo memórias.
Agora é domingo pela manhã.
E provavelmente o Major já está novamente nas ruas de João Pessoa, dirigindo seu carro, pegando passageiros, fazendo seus corres, garantindo as próximas noites de cozinha.
Quem sabe venha a noite do pudim.
Quem sabe da panqueca.
Quem sabe do bolo improvisado.
Quem sabe apenas do café com conversa.
Não importa.
Porque o prato nunca foi o principal.
O principal sempre foi o amor servido junto.
E nisso o Major ensina muito.
Ensina que uma família não se harmoniza apenas em discursos bonitos, mas nas pequenas construções coletivas do cotidiano.
Na pia compartilhada.
Na mesa posta.
Na massa sovada juntos.
Na risada no meio do caos.
Na parceria entre marido e mulher.
No acolhimento dos amigos dos filhos.
Na capacidade de transformar uma cozinha simples num território de pertencimento.
Talvez seja disso que o mundo esteja mais precisando.
Menos perfeição.
Mais presença.
Menos pressa.
Mais comunhão.
Menos vidas prontas entregues em embalagens.
Mais pizzas imperfeitas feitas com as próprias mãos.
Se quiser viver aqueles bons momentos, clique abaixo:
https://www.youtube.com/live/rWnV9kZXo5c?si=91F3u1d4iZFcrovL&t=16898
Major Drive: Uma Calçada, Uns Pastéis e um Bocado de Humanidade (Psicólogo Ricardo de Faria Barros)
Passei o dia de hoje, com um "Sol Riso" estampado na cara da alma, pensando na noite de ontem.
Das 19h às 22h, numa quarta-feira comum, um grupo de pessoas conseguiu desafiar a lógica fria do século XXI, reunindo-se em mesas colocadas na calçada da pastelaria “Espaço do Gerente”, lá no bairro do Geisel, em João Pessoa, para algo cada vez mais raro: celebrar a convivência humana.
Três horas.
Apenas três horas.
E, ainda assim, tempo suficiente para muita gente voltar para casa emocionalmente mais leve.
Não havia luxo.
Não havia aparência.
Não havia necessidade de impressionar ninguém.
Havia apenas refrigerante gelado, pastéis fumegando, conversa boa, risadas sinceras e uma singela garrafa de Matuta circulando entre amigos como quem reparte afeto.
E havia gente.
Gente simples.
Gente bonita de alma.
Gente cansada do peso do mundo.
Gente querendo apenas estar perto.
Tudo por causa do canal do YouTube Major Drive. Ou talvez por causa de algo ainda maior do que um canal.
Porque o Major Márcio e sua Waleska acabaram construindo mais do que audiência. Construíram presença. Construíram pouso emocional. Construíram um lugar onde pessoas podem ser vistas sem precisar fingir felicidade.
E talvez o Major tenha mesmo sido chamado para um propósito.
Porque, sem perceber, enquanto dirige seu Uber pelas ruas de João Pessoa, contando causos, fazendo piadas, interagindo com clientes, amigos e membros do canal, ele vai ajudando muita gente a continuar.
Tem pessoas que entram naquele carro cansadas da vida.
Tem gente triste.
Tem gente ferida.
Tem gente lutando silenciosamente contra depressões, perdas, medos e desesperanças.
E, aos poucos, entre uma prosa e outra, uma popa inesperada, uma gargalhada espontânea, uma história engraçada ou uma reflexão simples da vida, o sofrimento vai acalmando.
As pessoas vão ficando mais fortes.
Porque o Major nunca desistiu.
Acorda cedo.
Trabalha muito.
Enfrenta as durezas da vida.
Corre atrás.
Luta.
E ainda assim permanece alegre.
Existe algo profundamente inspirador em pessoas que continuam sorrindo mesmo carregando o peso do cotidiano.
Talvez seja por isso que tanta gente se reconheça nele.
Porque o Major representa uma espécie de resistência afetiva popular. Um homem simples, trabalhador, imperfeito, engraçado, humano, mas que escolheu continuar vivendo com alegria apesar das dificuldades.
E ainda chega em casa feliz para tomar sua gigantesca vitamina de abacate, comer seus dez pães e prosear com Waleska e Kayanne como quem celebra o simples privilégio de estar vivo.
Isso tem uma força simbólica enorme.
Num mundo cansado, o Major ensina sem perceber que felicidade não precisa ser sofisticada.
Às vezes ela mora num Uber.
Num pastel.
Numa vitamina de abacate.
Numa gargalhada.
Num reencontro na calçada do Geisel.
Num canal do YouTube feito com verdade.
E talvez quem se inspira no Major realmente não tenha o direito de desistir da vida.
Porque ele próprio nunca desistiu.
Mesmo cansado, trabalha.
Mesmo apertado, sorri.
Mesmo diante das dificuldades, segue acolhendo pessoas sem nem perceber a dimensão do bem que faz.
E talvez seja exatamente isso que transforme o Major Drive em algo tão diferente.
Ali não existe apenas entretenimento.
Existe companhia emocional.
Existe acolhimento.
Existe pertencimento.
Uns dezesseis convivas. Crianças correndo. Contação de causos. Fotos coletivas. Sorteio de brindes. E Deus, na sua misteriosa pedagogia afetiva, resolveu entregar dois dos três prêmios justamente para as crianças.
O João vibrou de felicidade. Seus olhos brilhavam mais do que o próprio presente. Uma outra menininha também ganhou e irradiava alegria pura. E eu vibrei por eles.
Porque talvez os adultos daquela mesa precisassem reaprender exatamente aquilo que as crianças ainda sabem naturalmente: a felicidade mora nas coisas pequenas.
Num pastel dividido.
Numa gargalhada coletiva.
Num prêmio simples segurado com orgulho.
Numa mesa onde ninguém precisava provar nada para ninguém.
Teve também a mãe do Saulo.
E aquilo me tocou profundamente.
Achei bonito demais um filho levar sua mãe para um encontro do grupo do qual participa. Era quase uma declaração silenciosa de amor.
Como quem diz:
“Venha conhecer aquilo que me faz bem. Quero a senhora perto da minha alegria.”
Num mundo onde muitos escondem os pais da convivência social, Saulo fez o contrário. Levou sua mãe para dentro do afeto coletivo. E ela estava feliz. Daquelas felicidades leves que iluminam o ambiente sem fazer barulho.
Teve também os momentos filosóficos do Major.
Em meio às risadas, soltou a frase que virou patrimônio da noite:
“Homem que não é mandado pela mulher ainda é menino.”
Tudo acompanhado das piadas sobre Waleska, o célebre rolo de macarrão e o corretivo doméstico prometido ao Major.
E ali existia amor de verdade.
Porque amor não mora só em declarações cinematográficas. Mora também nas implicâncias cotidianas, nos cuidados silenciosos, na intimidade construída com o tempo.
Waleska já organizava a agenda do Major para o dia seguinte, justamente na folga dele, enquanto o carro colocaria o GNV.
Mas homem casado não tira folga.
Sempre existe uma goteira pra resolver.
Uma tomada pra ajeitar.
Um mercado pra ir.
Uma pendência doméstica esperando.
Foi quase uma aula prática sobre casamento, dada entre pastéis e gargalhadas.
Teve também os cochichos de Issinha com Waleska, daqueles cochichos que despertam imediatamente a curiosidade alheia. E o pobre do Saulo ficou tentando descobrir o conteúdo secreto daquela conversa paralela feminina, enquanto as duas apenas riam baixinho, alimentando ainda mais o mistério.
E isso também era bonito.
Porque amizade verdadeira também mora nesses pequenos teatros cotidianos. Nas brincadeiras. Nos olhares atravessados. Nos segredos cochichados ao pé do ouvido. Nas curiosidades plantadas só para provocar quem está por perto.
Teve o carinho de buscar Kayanne.
Teve pastel levado pra ela.
Teve acolhimento.
E ali também existia outra forma bonita de amor.
O amor de mãe.
Porque dava para perceber, nos gestos de Waleska, o tamanho do carinho e do cuidado que ela tem pela filha. Não era apenas buscar Kayanne ou levar um pastel. Era aquele jeito materno de incluir, lembrar, acolher, cuidar dos detalhes e fazer questão da presença.
Mãe ama até nos pequenos atos.
Ama quando pergunta se já comeu.
Ama quando insiste para participar.
Ama quando leva um pastel embrulhado achando pouco, mas oferecendo tudo.
Talvez muitas vezes o amor materno more exatamente aí: nas simplicidades.
E foi bonito ver isso acontecendo naturalmente, sem discurso, sem pose, sem precisar anunciar.
Teve também o pequeno Dudu aperreando para ir ao encontro, insistindo para alguém levá-lo. A logística dificultava. Mas aquilo também era bonito. Porque criança percebe energia boa. E Dudu queria estar onde o coração dele dizia que existia alegria.
E existia mesmo.
Até quem estava longe parecia presente. Quase cem pessoas acompanhavam online, vibrando como se ocupassem uma cadeira naquelas mesas espalhadas pela calçada do Geisel.
Como quem diz:
“Eu também pertenço.”
E talvez seja exatamente isso que tanta gente esteja procurando hoje sem conseguir nomear.
Pertencer.
Ter um banco de carona no Uber do Major.
Passear no Zé Gotinha pelas ruas de João Pessoa.
Prosear sem utilidade prática.
Rir de bobagem.
Ser lembrado.
Ser esperado.
Ser visto.
Porque há pessoas que estão morrendo não de fome, mas de invisibilidade.
E, sem perceber, esse grupo desafia o desamor moderno.
Desafia a indiferença.
Desafia a solidão crônica dos nossos tempos.
Ali, entre pastéis, refrigerantes e afeto, gente vai se curando de depressões silenciosas, traumas antigos, abandonos, medos e vazios.
Apenas porque encontrou um lugar onde pode existir sem precisar fingir.
E talvez aquela noite possa ser explicada como uma casa invisível.
A fé era o alicerce.
A gratidão, o amor, a paz e a bondade eram as quatro colunas que sustentavam tudo.
E o teto daquela casa chamava-se esperança.
Esperança de que ainda existam pessoas boas.
Esperança de que o afeto ainda resista.
Esperança de que ninguém precise atravessar a vida sozinho.
Enquanto muita gente procura felicidade em luxo, aparência e performance, aquele povo encontrou sentido numa calçada do Geisel, diante da pastelaria “Espaço do Gerente”, entre refrigerantes, pastéis, crianças sorrindo e almas perfumadas.
E talvez seja exatamente isso que torne tudo tão bonito.
Não havia riqueza material ali.
Mas havia abundância humana.
E talvez a felicidade verdadeira seja exatamente isso:
Uma mesa simples na calçada.
Uma noite qualquer.
Pessoas que gostam umas das outras.
E a sensação tranquila de que, por algumas horas, ninguém estava sozinho.
E antes de terminar este texto, preciso fazer uma homenagem especial às mães do Canal Major Drive.
Às mães presentes.
Às mães que acompanham online.
Às mães que vibram silenciosamente pelas conquistas dos filhos.
Às mães que ainda cozinham cuidado, servem amor e oferecem colo mesmo quando o mundo anda áspero demais.
E aqui deixo também um carinho especial para Waleska, pelo amor bonito que demonstra ter por sua filha Kayanne. Porque mães como ela carregam uma capacidade rara de transformar pequenos gestos em abrigo emocional.
Buscar.
Cuidar.
Lembrar.
Incluir.
Proteger.
Tudo isso também é amor.
E talvez sejam justamente essas delicadezas maternas que mantenham o mundo um pouco menos duro.
Porque, no fundo, talvez toda grande comunidade humana só exista porque algum coração de mãe ajudou, um dia, a ensinar o significado do amor.
Onde Moram Nossos Medos de Águia de Louça? (Ricardo de Faria Barros, psicólogo)
Foi então que meus olhos repousaram na porta da padaria. Ali, no chão, perto da entrada, ao lado de uma mesa, vi uma águia de louça. A princípio, achei que alguém tivesse esquecido a peça ali. Mas, poucos segundos depois, a ficha caiu, daquelas antigas, metálicas, que a gente usava nos telefones públicos. A conexão foi imediata. Aquela águia não era decoração. Era estratégia. Uma tentativa engenhosa de afastar os pombos que vivem à caça das migalhas deixadas pelos clientes.
Entendi a jogada, mas, por uma solidariedade instintiva com os desvalidos, passei a torcer pelo pombo.
E não demorou. Da minha mesa, vi um deles, todo serelepe, caminhando em direção à escultura. Passou rente à águia, ignorou sua presença imponente e começou a ciscar o chão, em busca de farelos, sem o menor sinal de medo. Abri um sorriso daqueles que a gente guarda por dentro.
Aquele pombo enfrentou o que, para ele, deveria ser o símbolo máximo do perigo. E venceu, não pela força, mas pela percepção. Ele deve ter percebido que ali não havia vida. Não havia cheiro, nem movimento, nem intenção. Só forma. Só aparência. A águia estava no chão, imóvel. Uma águia de verdade jamais estaria daquela maneira. Mas, até chegar a essa conclusão, ele precisou atravessar um território interno cheio de alertas. Imagino os outros pombos, ao longe, avisando: tem bico curvo, tem asas grandes, tem garras afiadas, é uma águia. E ele foi. Desafiou o óbvio. Questionou o medo. Testou a realidade.
Fiquei ali, mastigando o cuscuz e pensando em quantas águias de louça habitam a nossa vida. Quantos medos sustentamos que já não têm mais vida, mas continuam nos paralisando como se fossem reais.
Porque existe uma diferença fundamental, e nela reside toda a sabedoria. Existe o medo da águia de penas, a águia de verdade, aquela que tem bico, garras e fome. Esse medo é legítimo. Ele nos protege, nos mantém vivos, nos ensina a respeitar o perigo real. Mas existe também o medo da águia de barro, da águia de gesso, da águia de louça. Essa não voa, não ataca, não devora. E, no entanto, é ela que mais nos aprisiona. Confundir uma com a outra é o grande equívoco da alma.
A verdadeira sabedoria está em aprender a distinguir.
Quantas vezes na vida tratamos uma águia de barro como se fosse de penas? Quantas vezes recuamos diante de uma escultura imóvel, achando que ali havia perigo? O namorado que partiu o coração foi uma águia de penas naquele momento. Mas condenar todo amor futuro por causa dele é transformar cada novo afeto em uma águia de louça. O chefe que humilhou foi uma águia de penas. Mas acreditar que toda crítica é aniquilamento é construir uma águia de barro na porta do nosso próprio crescimento.
E assim vamos construindo nossa padaria particular, cheia de águias de gesso, de cimento, de barro. Esculturas imóveis que nos paralisam mais do que um predador real poderia fazer. Estão no chão, perto da entrada, ao lado da mesa onde poderíamos sentar para festejar. Mas não sentamos. Tememos.
Aonde moram nossos medos de águias de louça?

Eles não estão apenas na porta da padaria. Moram na padaria do nosso coração. Moram na nossa mente. Moram em percepções distorcidas que insistem em ver perigo onde só há forma vazia. São medos moldados em afirmações absolutas e negativas sobre nós mesmos, sobre os outros ou sobre a realidade. Medos oriundos da fórmula prisão águia de louça: 3N2T1S. Narrativas pessimistas que começam por aquelas palavras: o nunca, o ninguém, o nada, o todos, o tudo e o sempre. Eu nunca conseguirei perder peso. Ninguém me ama de verdade. Nada do que eu faço é reconhecido pela minha chefia. Todos estão conspirando contra mim. Tudo o que eu invisto não dá resultado. Sempre que acredito em alguém, acabo decepcionado. Essas frases são esculturas bem feitas. Convencem. Impõem respeito. Mas não passam de louça.
E, no entanto, elas governam nossas decisões. Nos impedem de testar. De avançar. De descobrir que, muitas vezes, o perigo já não está mais ali, só a memória dele.
Os medos verdadeiros, da águia de penas, são poucos e exigem prudência. Os medos falsos, da águia de louça, são muitos e exigem coragem para serem desmascarados.
A pergunta que o pombo me deixou foi esta: quanta vida plena estamos perdendo por não nos alimentarmos mais das emoções positivas? Quantas vezes recusamos a bondade, a mansidão, a ternura, o amor e o perdão com medo de sermos devorados novamente, agora por uma águia que nem voa?
Quantos temores são apenas justificativas piedosas para não sairmos do lugar onde estamos? Gaiolas confortáveis, é verdade. Isentas de risco. Mas também isentas da beleza. Isentas da brilhante experiência de viver. Porque viver é isso: sair da varanda, aproximar se da águia que está no chão, descobrir que ela é de louça e, mesmo assim, ciscar o chão em busca das migalhas de felicidade que estão ali, à vista, só esperando um pouco de coragem.
Os medos falsos, da águia de louça, são muitos, mas não sabem voar!
E se não sabem voar, então estão no chão. E se estão no chão, podem ser encarados. Podem ser examinados, tocados, desmontados, atravessados. Eles não sobem aos céus. Não rasgam o vento. Não picam a carne. Apenas pesam, mas o peso deles é o peso da mentira repetida tantas vezes que virou verdade na nossa cabeça.
Eis a grande virada: eles são muitos, sim. Mas você é um. Um só passarinho. E esse um, quando decide, pode mais do que a multidão imóvel. Eles são muitos, mas não sabem voar. Você sabe. Você sempre soube. Basta lembrar. Basta dar o primeiro passo em direção à águia de louça e ciscar o chão como aquele pombo.
"Eles passarão. Nós passarinhos..."
Eles sempre passam, quando a gente se move. O medo fica. A vida também. Mas a vida é mais rápida. A vida é mais leve. A vida tem asas, mesmo que pequenas.
Então, que venham as águias de barro, de gesso, de cimento, de louça. Que venham os nunca, os ninguém, os nada, os todos, os tudo, os sempre. Que venham as frases que nos querem pequenos. Elas são muitas, mas não sabem voar. Eu, passarinho, passarei.
Entre os ovos mexidos e as migalhas da varanda, entendi que crescer é, muitas vezes, isso: aproximar se das próprias águias de louça. E, com um pouco de atenção e ousadia, descobrir que elas nunca voaram.
De forma marota, abri o saco do pão francês, do pão de sal, ou cacetinho, como chamam, e tirei umas migalhas, deixando no chão. Afinal, aquele pombo é mais que um vencedor. Ele é um mestre. E todo mestre merece um café da manhã generoso.
Vagalumes de Pessoas ( Ricardo de Faria Barros, psicólogo)
No meu posto de escuta do mundo, numa mesa perto do palco do FunFest, no CINFABB, eu fiquei, confesso, impressionado.
E olha que não faltava motivo. Os shows estavam ótimos. O clima era de alegria, encontro, celebração. Gente se abraçando, se revendo, se reconhecendo. Delegações das cinco regiões do Brasil, cada uma carregando sua história debaixo do braço. Era bonito de ver. Era gente feliz por simplesmente estar ali, e às vezes isso é o suficiente.
Mas, no meio de tudo isso, duas presenças me chamaram mais atenção do que os holofotes.
Dois acendedores de lampiões.
No Brasil do século XIX, eles eram conhecidos como vagalumes. Trabalhadores que acendiam, apagavam e cuidavam dos lampiões a gás ou querosene, antes da eletricidade chegar para mudar tudo. Ao cair da tarde, passavam com uma vara longa acendendo um a um, rua por rua, lampião por lampião. De madrugada ou ao amanhecer, voltavam para apagar. Limpavam os vidros, trocavam peças, cuidavam da chama. Cada um tinha sua rota, feita a pé ou de bicicleta.
Mas o que eles traziam não era só luz.
Era civilidade. Era urbanidade. Era a cidade funcionando depois que o sol se punha. Com os lampiões acesos, as ruas ficavam mais seguras, menos sombra para o perigo, menos escuridão para o medo, menos espaço para as feras à espreita. Os encontros podiam acontecer. Os passeios podiam continuar. A vida não precisava parar só porque a noite chegou.
Com frio, chuva, neve ou calor, lá estavam eles. Pontuais. Confiáveis. Discretos. Se atrasassem, a rua ficava no escuro. E a cidade, um pouco menos cidade.
Às vezes penso que o acendedor de lampiões tinha uma coisa que a gente perdeu: ele sabia exatamente onde cada chama precisava nascer. Não acendia por acaso. Acendia com rota. Com memória do lugar. Com a certeza de que, se faltasse um, o escuro ganhava um pedaço. Hoje a gente quer iluminar o mundo inteiro de uma vez, e acaba deixando apagados os cantos mais próximos.
Cada um do seu jeito.
Alexandre, da delegação de futebol 70+ da AABB Aracaju, esperava o jogo da tarde. Mas não esperava parado.
A concentração dele era a pista.
Dançava twist, inventava passos, fazia gesto de pássaro com os braços. Sorriso largo, energia viva. E foi chegando a torcida de Erechim, lá do Rio Grande do Sul, que veio ver seus parceiros disputarem a categoria 60-70+. Gente animada demais, que fazia festa no salão. E, eles se encontraram com aquele sergipano que não parava quieto. E o que poderia ser só convivência, formal e respeitosa, virou fusão de culturas e comunhão. Sergipe e Rio Grande do Sul, baião e chamamé, num caldo que ficou excelente. As mulheres iam chegando, entrando na dança, uma a uma, como lampiões que se acendem em sequência numa rua comprida.
Ele conduzia sem forçar. Era presença que convida.
E havia mais. Alexandre, de vez em quando, ia até a minha mesa, falava com o time que estava ali esperando a hora da partida, dava uma forcinha, e logo retornava ao palco, todo saltitante, para não perder por um segundo sequer o vigor de existir. Ele não precisava fazer isso. Ninguém pediu. Ele simplesmente ia. Porque ser vagalume também é isso: saber que a luz não fica só no palco. Ela tem que andar, se aproximar, tocar quem está à espera.
Ali estava Alexandre, acendendo lampiões de alegria e coragem.
No dia seguinte, encontrei Dôra.
Oitenta anos. Dançando no cantinho, com Ana Cristina do lado.
Sem querer o centro, mas com uma presença que ocupava tudo.
As duas repetindo os passinhos. De novo. De novo. Até acertar. Ao som de Boate Azul, Roberto Carlos, músicas que carregam história na melodia. Não havia pressa. Havia intenção. Havia cuidado. Havia alegria no processo, não só no resultado.
Sorriso de Mona Lisa. Passos leves, medidos. Um jeito manso de estar no mundo, como quem já aprendeu que a pressa é uma ilusão cara.
Na camisa, uma frase que dizia tudo: faça o simples
E ela fazia. Inteira.
O que mais me tocou, porém, não era a perfeição dos passos. Era a ausência de medo de errar. Dôra não tinha medo de errar os passinhos da dança de salão que fazia com Ana Cristina. Ambas confiavam uma na outra. Aceitavam os erros. Riam. E voltavam a tentar, sem cobranças, sem receios, apenas pela boa e justa cumplicidade de existirem em presença coletiva, uma para a outra na vida, e não da vida, naquele salão.
Teve um momento em que ela parou por uns segundos. Só respirou. Olhou a pista, as outras duplas, o burburinho. E recomeçou. Ali entendi que também isso é ofício de vagalume: saber a hora de apagar por um instante para recarregar a própria luz. Porque ninguém acende o outro se já não aprendeu a guardar brasa dentro de si.
Ali eu entendi: esse ofício não acabou. Só mudou de forma.
Alexandre acende com garra. Dôra acende com paz.
Um com passo firme. A outra com leveza.
Os dois com a mesma sabedoria: a vida do coração também precisa de luz.
Alexandre jogou, competiu, se lançou. Levou cartão. Eu ri. Quem vive com intensidade às vezes passa do ponto, e tudo bem, porque o mundo precisa de gente que arrisca.
Dôra resolve na calma. Sem cartão. Sem pressa.
Um ocupa com energia. A outra ocupa com serenidade.
Nenhum melhor. Só jeitos diferentes de seguir aceso.
Eu saí dali com um lampião aceso dentro de mim.
E fiquei pensando em outra coisa.
Você já viu um vagalume, o inseto, aquele que brilha nas noites de breu lá no campo? Hoje a gente quase não vê mais nas cidades. Foram ficando raros, como certas conversas.
E sabe o que é mais bonito neles?
Ele não pega luz de fora. Ele tira a luz de dentro de si mesmo.
E, preste atenção nisso, para acender a própria luz, ele não precisa apagar a de ninguém.
Cada um brilha no seu canto. E juntos, sem combinar, iluminam a noite inteira.
Acho que esse tipo de gente também está ficando mais raro. Não tanto quanto o inseto, espero. Mas raro o suficiente para a gente parar e notar quando encontra.
Alexandre e Dôra são um pouco disso.
Vagalumes.
Gente que acende a própria luz e, sem esforço nenhum, ilumina quem está por perto, não porque quer aparecer, mas porque simplesmente é assim.
Talvez essa seja uma das lições mais bonitas do longeviver: tirar a luz de dentro de si. Ajudar a acender a luz nos outros.
Ser vagalume.
Porque no fim, o mundo não precisa só de luz. Precisa de gente que brilhe de dentro pra fora, mesmo quando a noite fecha, mesmo quando a rua está no escuro, mesmo quando a vara do lampião pesa.
Porque há corações que estão perdendo a chama de viver. Falta-lhes o pavio, ou o querosene, ou o vidro que os proteja do vento e da chuva. Ou, pior: falta alguém que se aproxime deles e os acenda por dentro. Pessoas exaustas, sozinhas, adoecidas num mundo agitado, violento e pouco empático. Ser vagalume hoje em dia é ser subversivo à ordem reinante. É ser um arauto de novos tempos. É ser curativo para o outro, só com a sua presença. Presença que sara, liberta, restaura e constrói um amanhã possível.




















