Era uma vez um São João em que meu pai voltou.
Não, ele não voltou como nos filmes, nem houve qualquer fenômeno sobrenatural. Meu pai, Seu Evandy, partiu em 2021. Mas, naquela manhã de festa junina da escola de meus netos, por alguns minutos, ele esteve comigo novamente.
Cheguei cedo. Como toda família grande faz, tratei logo de juntar algumas mesas na área da alimentação. Teríamos um longo dia pela frente. Eram quatro netos e uma neta sobrinha, cada um em uma série diferente. Das dez e meia da manhã às três da tarde, haveria apresentações para todos eles.
Enquanto aguardava a chegada da turma, fiz uma escolha que, sem saber, mudaria o meu dia. Guardei o celular no bolso.
Não havia nada urgente acontecendo na tela.
Então fiz algo que andamos desaprendendo: comecei simplesmente a olhar.
Olhar as pessoas.
As conversas.
As crianças correndo.
As bandeirinhas colorindo a quadra.
A luz atravessando o ambiente.
Os abraços.
As esperas.
Os reencontros.
E as crianças chegando, uma a uma, prendadas para a festa. Cada uma mais bonita do que a outra. Nenhuma fantasia era igual. Havia vestidos de chita, fitas coloridas, chapéus de palha, remendos cuidadosamente costurados, botas, trancinhas e pinturas nas faces, onde balões, bandeirinhas e corações pareciam contar pequenas histórias. Fiquei ali apenas observando. Aquela explosão de cores amanteigava a alma. Talvez porque as cores também curem. E poucas festas sabem colorir a vida como um São João. Contemplar tanta beleza, tanta criatividade e tanta infância reunidas era, por si só, um presente.
Foi nesse passeio silencioso dos olhos que encontrei meu pai.
Ou melhor, encontrei alguém que poderia muito bem ser ele.
A mesma altura. Os cabelos totalmente brancos. O boné. A jaqueta. O jeito de caminhar. A postura. A forma tranquila de conversar. Até a facilidade de fazer amizades parecia ser a mesma.
Senti um arrepio bom.
Sabia perfeitamente que aquele senhor não era Seu Evandy. Mas minha imaginação, essa artesã das saudades, fez o restante do trabalho.
Passei a conversar com ele em silêncio.
"Papai... já fez amizade por aqui?"
Sorri sozinho.
Claro que ele já tinha feito.
Meu pai nunca chegava a lugar algum sem voltar com novos conhecidos. Parecia carregar uma conversa pronta no bolso e um sorriso disponível para qualquer pessoa.
Fiquei apenas contemplando aquela cena.
Na minha fantasia, dali a pouco ele se levantaria, olharia para mim e diria:
"Rico... tá na hora."
Era nossa senha.
A gente sairia dali e iria para o Libanus abrir uma cervejinha gelada, brindar à vida e conversar sobre tudo e sobre nada, como tantas vezes fizemos.
Por alguns minutos, vivi esse encontro inteiro.
E o mais bonito foi perceber que não doeu.
Foi bom.
Foi leve.
Foi uma dádiva.
Não senti a dor da ausência.
Senti a alegria da presença.
Depois, aquele senhor levantou-se e desapareceu entre as pessoas, certamente para assistir à apresentação de algum neto. Nunca mais o encontrei.
Mas meu pai permaneceu comigo o restante do dia.
Volta e meia eu olhava a fotografia que fiz de longe, não porque ela registrasse um desconhecido, mas porque ela guardava um encontro que só meu coração era capaz de reconhecer.
Aquele também foi um dia especial por outro motivo. Foi o primeiro São João em que meus quatro netos e minha neta sobrinha estudavam na mesma escola. Todo o clã de Seu Evandy e Dona Denise, que há tantos anos migrou para Brasília, estava reunido ali.
Talvez por isso eu tenha sentido sua presença com tanta força.
Naquele desconhecido, meu pai parecia representar todos os bisavós da nossa família.
E o fez exatamente como viveu: com simplicidade, gentileza, elegância e uma luz serena que iluminava qualquer encontro.
Naquela manhã compreendi algo sobre o tempo.
Costumamos imaginar que o ontem ficou para trás, que o amanhã ainda não chegou e que apenas o agora existe.
Mas talvez o tempo seja muito mais parecido com a maré.
Quando recua, traz lembranças, saudades e histórias.
É o ontem.
Quando avança, carrega sonhos, projetos e esperanças.
É o amanhã.
E há momentos em que ela parece repousar.
É o agora.
Só que o agora nunca está sozinho.
Ele acolhe o ontem e, ao mesmo tempo, prepara o amanhã.
Naquela manhã, meu pai era o ontem.
Meus netos eram o amanhã.
E eu estava exatamente entre os dois.
Naquele único instante, vivi as três dimensões do tempo ao mesmo tempo.
Percebi que o presente não é uma linha separando o passado do futuro.
O presente é uma ponte.
Foi nele que reencontrei meu pai.
Foi nele que vi meus netos construindo, sem perceber, as lembranças que um dia guardarão de mim.
Enquanto eu recordava meu pai, eles escreviam, sem saber, a história que contarão aos filhos e aos netos.
Somos filhos das lembranças que recebemos e ancestrais das lembranças que ainda deixaremos.
Também descobri outra coisa.
A maioria desses presentes só acontece quando desaceleramos.
Se eu estivesse mergulhado no celular, respondendo mensagens ou percorrendo as redes sociais, jamais teria percebido aquele senhor.
Não teria encontrado meu pai.
Não teria vivido aquele reencontro.
Na verdade, talvez eu nem tivesse percebido a beleza das crianças, das famílias, das conversas, das cores ou das pequenas cenas que transformaram aquela manhã numa obra de arte.
Observar a vida acontecendo é um exercício extraordinário.
É perceber as texturas, as cores, as luzes, os sons, os silêncios e as pequenas histórias que cada rosto carrega.
É imaginar conversas.
É acolher subjetividades.
É permitir que nossa empatia complete aquilo que os olhos apenas começam a enxergar.
Quando fazemos isso, nossa percepção deixa de ser fragmentada e passa a ser inteira.
É como montar, dentro de nós, um grande caleidoscópio de vivências.
Cada pessoa acrescenta uma cor.
Cada gesto desenha uma nova forma.
Cada encontro amplia nossa maneira de existir.
E, curiosamente, isso acalma.
É como se o cérebro respirasse mais devagar.
Como se a alma fosse reiniciada.
Como se a vida dissesse apenas:
"Fique."
Não custa nada.
Basta sentar num canto.
Olhar.
Escutar.
Sentir.
O resto vem por inteiro.
Foi somente quando cheguei em casa e revi a fotografia que percebi um detalhe que havia passado despercebido.
Meu pai estava exatamente diante de uma enorme placa onde se lia:
SAÍDA.
Sorri sozinho.
Meu primeiro pensamento foi simples.
"Ele já estava indo embora."
Mas continuei olhando.
E, de repente, meu coração contou outra história.
Ele não estava indo embora.
Estava abrindo o caminho.
Como fez durante toda a vida.
Foi assim quando me ensinou a caminhar.
Quando me mostrou que o trabalho dignifica.
Quando me ensinou, sem discursos, que vale mais a pena fazer amigos do que colecionar razões.
Quando me mostrou que a simplicidade é uma forma de grandeza.
Talvez aquela placa nunca tenha sido sobre a saída dele.
Talvez fosse sobre a minha.
A saída do luto.
A saída da ansiedade.
A saída dos dias em que acreditamos que não existe solução.
A saída dos momentos em que a vida parece estreita demais para continuarmos.
Há uma delicadeza ainda maior nessa fotografia.
Meu pai estava de costas para a placa.
Quem lia a palavra "SAÍDA" era eu.
Como se aquela mensagem não tivesse sido escrita para ele.
Mas para o filho que ficou.
Naquele instante, quase pude ouvi-lo dizendo:
"Rico... pode vir.
O caminho existe.
Eu só vim na frente para lhe mostrar por onde seguir."
Voltei para casa com muito mais do que a alegria de ver meus netos dançando.
Voltei com a certeza de que algumas pessoas nunca deixam de ser pai.
Nem quando partem.
Às vezes, elas apenas encontram uma forma diferente de continuar nos guiando.
Naquele São João, meu pai não voltou para o passado.
Veio apenas me lembrar que a presença é o lugar onde o amor vence o tempo.
E que sempre haverá uma saída para quem continua caminhando.
Mesmo quando, por alguns instantes, ela só pode ser vista pelos olhos do coração.























