Vagalumes de Pessoas ( Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


No meu posto de escuta do mundo, numa mesa perto do palco do FunFest, no CINFABB, eu fiquei, confesso, impressionado.

E olha que não faltava motivo. Os shows estavam ótimos. O clima era de alegria, encontro, celebração. Gente se abraçando, se revendo, se reconhecendo. Delegações das cinco regiões do Brasil, cada uma carregando sua história debaixo do braço. Era bonito de ver. Era gente feliz por simplesmente estar ali, e às vezes isso é o suficiente.

Mas, no meio de tudo isso, duas presenças me chamaram mais atenção do que os holofotes.

Dois acendedores de lampiões.

No Brasil do século XIX, eles eram conhecidos como vagalumes. Trabalhadores que acendiam, apagavam e cuidavam dos lampiões a gás ou querosene, antes da eletricidade chegar para mudar tudo. Ao cair da tarde, passavam com uma vara longa acendendo um a um, rua por rua, lampião por lampião. De madrugada ou ao amanhecer, voltavam para apagar. Limpavam os vidros, trocavam peças, cuidavam da chama. Cada um tinha sua rota, feita a pé ou de bicicleta.

Mas o que eles traziam não era só luz.

Era civilidade. Era urbanidade. Era a cidade funcionando depois que o sol se punha. Com os lampiões acesos, as ruas ficavam mais seguras, menos sombra para o perigo, menos escuridão para o medo, menos espaço para as feras à espreita. Os encontros podiam acontecer. Os passeios podiam continuar. A vida não precisava parar só porque a noite chegou.

Com frio, chuva, neve ou calor, lá estavam eles. Pontuais. Confiáveis. Discretos. Se atrasassem, a rua ficava no escuro. E a cidade, um pouco menos cidade.

Às vezes penso que o acendedor de lampiões tinha uma coisa que a gente perdeu: ele sabia exatamente onde cada chama precisava nascer. Não acendia por acaso. Acendia com rota. Com memória do lugar. Com a certeza de que, se faltasse um, o escuro ganhava um pedaço. Hoje a gente quer iluminar o mundo inteiro de uma vez, e acaba deixando apagados os cantos mais próximos.

Cada um do seu jeito.

Alexandre, da delegação de futebol 70+ da AABB Aracaju, esperava o jogo da tarde. Mas não esperava parado.

A concentração dele era a pista.

Dançava twist, inventava passos, fazia gesto de pássaro com os braços. Sorriso largo, energia viva. E foi chegando a torcida de Erechim, lá do Rio Grande do Sul, que veio ver seus parceiros disputarem a categoria 60-70+. Gente animada demais, que fazia festa no salão. E, eles se encontraram com aquele sergipano que não parava quieto. E o que poderia ser só convivência, formal e respeitosa, virou fusão de culturas e comunhão. Sergipe e Rio Grande do Sul, baião e chamamé, num caldo que ficou excelente. As mulheres iam chegando, entrando na dança, uma a uma, como lampiões que se acendem em sequência numa rua comprida.

Ele conduzia sem forçar. Era presença que convida.

E havia mais. Alexandre, de vez em quando, ia até a minha mesa, falava com o time que estava ali esperando a hora da partida, dava uma forcinha, e logo retornava ao palco, todo saltitante, para não perder por um segundo sequer o vigor de existir. Ele não precisava fazer isso. Ninguém pediu. Ele simplesmente ia. Porque ser vagalume também é isso: saber que a luz não fica só no palco. Ela tem que andar, se aproximar, tocar quem está à espera.

Ali estava Alexandre, acendendo lampiões de alegria e coragem.

No dia seguinte, encontrei Dôra.

Oitenta anos. Dançando no cantinho, com Ana Cristina do lado.

Sem querer o centro, mas com uma presença que ocupava tudo.

As duas repetindo os passinhos. De novo. De novo. Até acertar. Ao som de Boate Azul, Roberto Carlos, músicas que carregam história na melodia. Não havia pressa. Havia intenção. Havia cuidado. Havia alegria no processo, não só no resultado.

Sorriso de Mona Lisa. Passos leves, medidos. Um jeito manso de estar no mundo, como quem já aprendeu que a pressa é uma ilusão cara.

Na camisa, uma frase que dizia tudo: faça o simples

E ela fazia. Inteira.

O que mais me tocou, porém, não era a perfeição dos passos. Era a ausência de medo de errar. Dôra não tinha medo de errar os passinhos da dança de salão que fazia com Ana Cristina. Ambas confiavam uma na outra. Aceitavam os erros. Riam. E voltavam a tentar, sem cobranças, sem receios, apenas pela boa e justa cumplicidade de existirem em presença coletiva, uma para a outra na vida, e não da vida, naquele salão.

Teve um momento em que ela parou por uns segundos. Só respirou. Olhou a pista, as outras duplas, o burburinho. E recomeçou. Ali entendi que também isso é ofício de vagalume: saber a hora de apagar por um instante para recarregar a própria luz. Porque ninguém acende o outro se já não aprendeu a guardar brasa dentro de si.

Ali eu entendi: esse ofício não acabou. Só mudou de forma.


Alexandre acende com garra. Dôra acende com paz.

Um com passo firme. A outra com leveza.

Os dois com a mesma sabedoria: a vida do coração também precisa de luz.

Alexandre jogou, competiu, se lançou. Levou cartão. Eu ri. Quem vive com intensidade às vezes passa do ponto, e tudo bem, porque o mundo precisa de gente que arrisca.

Dôra resolve na calma. Sem cartão. Sem pressa.

Um ocupa com energia. A outra ocupa com serenidade.

Nenhum melhor. Só jeitos diferentes de seguir aceso.

Eu saí dali com um lampião aceso dentro de mim.

E fiquei pensando em outra coisa.

Você já viu um vagalume, o inseto, aquele que brilha nas noites de breu lá no campo? Hoje a gente quase não vê mais nas cidades. Foram ficando raros, como certas conversas.


E sabe o que é mais bonito neles?

Ele não pega luz de fora. Ele tira a luz de dentro de si mesmo.

E, preste atenção nisso, para acender a própria luz, ele não precisa apagar a de ninguém.

Cada um brilha no seu canto. E juntos, sem combinar, iluminam a noite inteira.

Acho que esse tipo de gente também está ficando mais raro. Não tanto quanto o inseto, espero. Mas raro o suficiente para a gente parar e notar quando encontra.

Alexandre e Dôra são um pouco disso.

Vagalumes.

Gente que acende a própria luz e, sem esforço nenhum, ilumina quem está por perto, não porque quer aparecer, mas porque simplesmente é assim.

Talvez essa seja uma das lições mais bonitas do longeviver: tirar a luz de dentro de si. Ajudar a acender a luz nos outros.

Ser vagalume.

Porque no fim, o mundo não precisa só de luz. Precisa de gente que brilhe de dentro pra fora, mesmo quando a noite fecha, mesmo quando a rua está no escuro, mesmo quando a vara do lampião pesa.

Porque há corações que estão perdendo a chama de viver. Falta-lhes o pavio, ou o querosene, ou o vidro que os proteja do vento e da chuva. Ou, pior: falta alguém que se aproxime deles e os acenda por dentro. Pessoas exaustas, sozinhas, adoecidas num mundo agitado, violento e pouco empático. Ser vagalume hoje em dia é ser subversivo à ordem reinante. É ser um arauto de novos tempos. É ser curativo para o outro, só com a sua presença. Presença que sara, liberta, restaura e constrói um amanhã possível.


SOBRE SE ENCANTAR COM A VIDA E O VIVER



Estive por três dias num grande campeonato esportivo de aposentados do Banco do Brasil.
Delegações de todo o país, vindas das AABBs, ocupando o espaço com cores, sotaques e histórias.

Pela manhã, eu circulava pelos estandes, campos e quadras.
Via jogos marcantes, disputas bonitas, momentos que valiam a pena.

Fazia interações com o pessoal da ANABB, do 70+, CASSI, PREVI, Cooperforte e FENABB.
E tinha também um compromisso afetivo logo cedo.

Às 8 da manhã, lá estava eu na beira da quadra de beach tennis, torcendo por Tânia e Cláudia, de Brasília, amigas dos tempos da DITEC.
Vi duas partidas delas, cedinho.
Virei fotógrafo improvisado, registrando cada ponto, cada vibração.

Ali, por alguns momentos, eu não estava só.
Eu estava junto.

Mas, a partir das 10h30, meu escritório abria.

E funcionava até por volta das 16h30.

Meu escritório, nesses dias, foi uma mesa qualquer na FunFest.

E foi ali que algo em mim encontrou lugar.

Meu escritório naquela área de lazer, era ao lado da delegação de Erechim-RS, que é chamada da Terra da Amizade. E a delegação deles era uma festa em vida. Que integrava a todos na animação do salão. 

Uns trinta, ou mais, membros da delegação — jogadores e seus cônjuges, que iam abrindo o salão sem cerimônia, na maior felicidade.
Coreografias inventadas, risos soltos, nenhuma preocupação em parecer bonito.
Só em ser feliz.

Era contagiante.

Eu me alegrava por osmose com eles.

E, se existisse uma medalha por integração e animação na área da FunFest…
Erechim, RS, teria levado ouro.

Aquilo era mais do que animação.
Era uma transfusão de sangue emocional, das boas.

E ali eu entendi:

não tinha só uma história.

Tinham várias.

Foi ali que conheci Pita e Gilvan.

Gilvan, um dos craques do time de futebol de Erechim, RS, no grupo dos 60 aos 70 anos.
Pita, sua companheira de vida, sua cônjuge… e também sua maior torcida.

E foi observando os dois que entendi algo bonito sobre amor.

Pita dançava.
Livre, inteira, entregue à música.

Gilvan, às vezes, ficava à distância.
Observando.
Torcendo por ela.

E, de longe, os olhos deles se encontravam.
Se tocavam.
Na mesma melodia.
Na cumplicidade.
Na compatibilidade de quem escolhe estar junto… sem precisar prender.

Um amor que não pede gaiolas.
Não pede algemas.

E tinha um detalhe que me encantava.

Gilvan era daqueles atentos.
Dos que se lembram do copo vazio da companheira antes mesmo que ela peça.

Ia até o balcão, pegava as duas geladinhas…
e voltava já dançando.

Numa mão, a cerveja.
Na outra, a medalha erguida, brilhando no meio da música.

O corpo leve, atravessando o espaço até o salão como quem celebra a vida em cada passo.

Ali estava um homem livre.
Livre pra viver, pra sentir, pra cuidar sem controlar, pra amar sem prender.

Já consigo imaginar.

Terça-feira, final do futebol.
Gilvan em campo.

E, de algum canto, a voz dela atravessando tudo:

- Vai, maridão!

Mas a vida também mostra o outro lado.

Na sexta, numa mesa ao lado da minha, uma mulher dançava sozinha.
Livre, inteira, entregue à música como se o mundo coubesse ali.

No sábado, era outra.

Quieta.
Apagada.

Como se, de um dia pro outro, alguém tivesse diminuído sua luz.

E eu fiquei ali, sem saber, mas sentindo.

Porque há amores que expandem.
E há amores que encolhem.

E talvez o maior erro seja quando uma pessoa entrega sua identidade nas mãos de quem deveria apenas caminhar ao lado.

Identidade não se terceiriza.
Nem se negocia.

E por isso eu também louvo Gilvan.

Porque amar não é possuir.
É reconhecer.

E foi ali que eu aprendi:

a arte de erechimzar a vida.


E também o ensinamento mais bonito de Erechim, RS sobre o amor.

Seja o amor a dois,
seja por uma causa,
seja entre amigos.

Um amor que se pode até soletrar:

E de envolver.
R de reconhecer.
E de encantar.
C de cuidar.
H de humanizar.
I de interessar-se.
M de motivar.

Amar é envolver-se com o outro.
Reconhecer o outro. Fazê-lo se sentir pertencendo, acolhido, incluído e valorizado.
Encantar-se com ele e deixar-se ser encanto para ele. 

É cuidar…
e também deixar-se ser cuidado.

É humanizar o dia a dia,
sendo compreensivo,
tendo compaixão,
sabendo recomeçar
e também perdoar.

É interessar-se pela vida do outro.
Motivar-se com ele…
e motivá-lo também.

Talvez seja isso.

Erechim, RS não é só um lugar.

É um jeito de amar. Que pede um VAR, uma metáfora do futebol do Gilvan.
Um VAR de Valorizar, Acolher e Respeitar as outras pessoas. 

E, quem aprende… a pedir o VAR, a praticar o ERECHIM do amar, 
nunca mais desaprende.

O lanche, a tela e o escurecimento da tarde


Era para ser um final de tarde bacana. Daqueles simples, bons e merecidos. Eu havia passado parte do dia com dois filhos, dois netos e meu genro no Eixão do Lazer, em Brasília. Havia riso daqui, conversa dali, menino correndo, bicicleta cruzando a paisagem, gente devolvendo humanidade à cidade. Tudo seguia num compasso bom: leve, familiar, humano.

No fim da tarde, quando o céu de Brasília começa a mudar de azul para vermelho ouro, pedi um lanchinho vindo do meu lar, para mim e para JG. Um gesto pequeno, desses que combinam com o cansaço bom de um dia vivido ao ar livre, em família. Era para ser só isso. Uma pausa. Um agrado. Um fechamento manso para um feriado bonito.

Mas foi ali que a tarde entortou.

Quando o jovem veio trazer o pedido, em vez de apenas me entregar o lanche, resolveu me perguntar se eu estava sabendo do absurdo da nova lei da misoginia. Achei curioso o modo como ele trouxe o assunto: não como quem quer entender, mas como quem já chega com a conclusão pronta e só precisa de alguém que balance a cabeça em concordância.

Fiz-me de bobo e perguntei qual era o tal absurdo.

Foi então que ele começou a despejar sua fala, inflado por uma certeza emprestada. Disse que agora não se poderia mais dizer nada contra mulher, que um simples flerte poderia dar prisão, que até um esbarrão seria motivo de cadeia. Tentei argumentar com calma. Pedi que ele buscasse a fonte, o texto, a letra da proposta, e não se deixasse conduzir por vídeos feitos para acender medo e ressentimento. Mas ele me mostrou um vídeo de ativista desses de tela pequena e estrago grande, no qual a pessoa lia trechos recortados e, em seguida, servia sua própria interpretação como se fosse verdade revelada.

Eu disse que aquilo era uma distorção. Uma fake embalada em indignação. Que a ideia não era criminalizar flerte, nem transformar qualquer esbarrão em caso de polícia. Que o propósito era proteger mulheres contra ameaças, discriminações, desprezo, aversão e preconceito extremo. Em suma, tentar conter uma cultura de violência que muitas vezes começa no rebaixamento, na piada, no desprezo, e depois escala para coisas piores.

Mas aí ele soltou a pérola, com a segurança rasa dos simplórios: mulher é mais frágil mesmo e homem é mais forte.

Naquele instante, entendi que não adiantava prosseguir. Porque já não se tratava de esclarecer. Quando alguém chega a esse ponto, já não está debatendo; está apenas defendendo um pequeno território interno, murado por preconceitos, slogans e vídeos engolidos sem mastigar. Fiquei pensando de que fortaleza ele falava. Da biológica? Da emocional? Da sociológica? Da cultural? Da histórica? Da força de quem grita mais? Da força de quem bate? Ou da força de quem atravessa séculos sendo diminuída, silenciada, ameaçada e, ainda assim, segue vivendo, criando, trabalhando, sustentando, resistindo e recomeçando?

Há homens que confundem força com volume de voz. Confundem poder com interrupção. Confundem privilégio com mérito. Confundem o hábito de mandar com alguma superioridade natural. E quando uma lei, ou um projeto de lei, tenta proteger as mulheres contra a humilhação e o ódio, sentem-se ofendidos, como se a dignidade alheia lhes roubasse alguma liberdade sagrada.

Mas o que mais me espantou nem foi apenas o teor da fala dele. Foi pensar que um jovem, num dia de feriado, entre uma entrega e outra, em vez de alimentar a cabeça com algo que o alargasse por dentro, estava se deixando sequestrar por vídeos de extrema direita, desses que não informam, apenas inflamam. Em vez de um curso, um documentário, uma minissérie bem feita, uma boa música, não. Estava ali, abastecendo-se de recortes raivosos, versões tortas e certezas de segunda mão. E talvez esteja aí uma das tragédias discretas do nosso tempo: tanta gente com um celular na mão e tão pouca vontade de usá-lo para crescer.

A pobreza mais perigosa nem sempre é a do bolso. Às vezes é a da imaginação, da leitura de mundo e da incapacidade de desconfiar da mentira que chega mastigada pela tela.

O pior é que aquilo não parecia ser um caso isolado. Pedi para ver melhor o vídeo. Havia milhares de seguidores. Muitos comentários favoráveis. Gente repetindo absurdos com a desenvoltura de quem já perdeu o pudor de pensar mal. E foi aí que meus neurônios, que até então descansavam numa rede invisível de sossego, se levantaram todos de uma vez, alarmados. A tarde seguia bonita do lado de fora. O Eixão continuava cheio de vida, rodas, passos, conversa, família, infância, cidade ocupada. Mas dentro de mim alguma coisa havia mudado. A paisagem externa seguiu a mesma. A interna escureceu um pouco.

Fiquei matutando como será o relacionamento daquele rapaz com as mulheres de sua vida. Com a mãe, com uma irmã, com uma namorada, com uma chefe, com uma colega de trabalho, com uma filha, se um dia a tiver. Porque esse tipo de pensamento não nasce para ficar apenas numa conversa qualquer de fim de tarde. Ele costuma vazar para o cotidiano. Vai para o jeito de olhar, de interromper, de diminuir, de duvidar, de achar natural ocupar mais espaço do que o outro. Vai para a piada, para a impaciência, para a superioridade mal disfarçada, para o desprezo embalado como opinião.

E isso, claro, não para nas mulheres.

A mesma cabeça que se fecha à dignidade feminina pode também se fechar ao negro, ao indígena, ao cadeirante, ao nordestino, ao obeso, ao pobre, ao diferente. Todo preconceito, no fundo, é irmão do outro. Muda apenas a roupa da vítima. O que falta ali é alteridade. É a capacidade de reconhecer no outro não uma ameaça, mas uma possibilidade de alargamento humano. É a disposição de se deixar tocar por vidas que não têm a sua cara, o seu corpo, o seu sotaque, a sua história, o seu invólucro. E quem não desenvolve isso empobrece por dentro. Deixa de se enriquecer justamente naquilo que a convivência humana tem de mais bonito: a chance de ser atravessado por outras culturas, outras dores, outras formas de existir.

Talvez estejamos mesmo flertando com uma nova idade das trevas. Não aquela da falta de informação, mas a da recusa da informação. Não a da ausência de conhecimento, mas a da vitória da versão sobre o fato. Um tempo em que o vídeo gritado derrota a leitura serena. Em que o recorte vale mais do que o contexto. Em que a mentira bem editada chega antes da verdade ainda de chinelos. Um tempo em que muita gente não quer compreender a realidade. Quer apenas domesticá-la até que ela caiba no tamanho de seus medos, de seus rancores e de suas velhas hierarquias.

Saí daquela conversa com o lanche na mão e uma tristeza funda na cabeça.

Era para ser apenas mais um fim de tarde bonito em família, no Eixão do Lazer, em Brasília, no dia em que ela completava 66 anos. O céu já tinha trocado o azul pelo vermelho ouro, como só essa cidade sabe fazer, e eu queria guardar daquela tarde apenas o calor bom dos meus, a presença dos meus, a bênção simples de estar ali. Mas bastou um diálogo curto para eu sentir o peso de uma pergunta maior. O que está acontecendo com a nossa capacidade de ler, de pensar, de ponderar, de conviver, de respeitar? Em que esquina foi que tanta gente decidiu trocar o estudo pelo slogan, a empatia pelo espantalho, a complexidade do mundo por uma caricatura raivosa dele?

Era para ser só um lanche no fim da tarde.

Mas veio junto um retrato do tempo.

E o retrato, confesso, saiu bem mais feio do que eu gostaria.

Toc, toc, toc... tem gente? Tem alguém em casa? (Por Ricardo de Faria Barros)

 

Era uma vez um tempo em que as pessoas conversavam mais do que deslizavam o dedo na tela. Um tempo em que uma mensagem era uma ponte, não um corredor de passagem apressada.

Era uma vez um tempo em que as pessoas se visitavam sem avisar, sem pedir licença, sem marcar na agenda. Chegavam com um “ô de casa” e um sorriso aberto, e já iam entrando como quem sabe que ali há lugar. Não havia protocolo, havia afeto. A casa do outro era extensão da própria vida.

Era uma vez um tempo em que as cadeiras iam para a calçada no fim da tarde. O vento corria leve, as conversas iam e vinham, e ninguém tinha pressa de voltar para dentro. Falava-se da vida, das novidades, das dores e das alegrias. E, sem perceber, as pessoas se curavam umas nas outras.

Era uma vez um tempo em que a gente saía apenas para dar uma voltinha. Sem destino, sem pressa, só para ver a vida acontecendo lá fora. Para além dos porões de apartamentos, havia ruas, rostos, encontros, acenos. Havia mundo pulsando, e a gente fazia parte dele.

Era uma vez um tempo em que havia um interesse genuíno pelo mundo do outro. A gente perguntava e queria ouvir a resposta. Admirava conquistas simples, celebrava pequenos passos, se emocionava junto. Não era sobre performance, era sobre presença. Não era sobre aparecer, era sobre pertencer.

Era uma vez um tempo em que tínhamos vontade de sair com os amigos, não apenas no tal do "sextou". A gente combinava coisas no meio da semana, depois do expediente. Um cinema, uma conversa, uma cerveja sem pressa. Frequentávamos as AABBs em qualquer dia, sem cerimônia. Havia vida ali, havia riso, havia encontro. Hoje, muitas estão esvaziadas, como se o tempo tivesse levado embora não só as pessoas, mas a vontade de estar junto, deixando lembranças guardadas como em uma cristaleira vazia.

Você também só está lendo as mensagens e já passando para outra coisa, sem tempo para uma interação mínima?

Lembrei de mamãe. Durante muito tempo, ela respondia a todas as interações no grupo da família. Era como se dissesse, em cada resposta, “eu estou aqui”. Mas, nos últimos anos, algo mudou de forma silenciosa. Agora ela passa longos minutos deslizando o dedo na tela do Instagram. Ri sozinha. Às vezes comenta em voz alta, como quem ainda conversa com o mundo. Mas não escreve mais. Não responde mais. Nem com as amigas.

Fica ali, entre um vídeo e outro. Entre uma rolagem e outra. Presa naquele fluxo infinito que não pede resposta, não exige presença, não constrói ponte. Só passa.

Sou do tempo do Orkut. Tenho saudade daquele tempo em que as pessoas paravam um pouco mais. Hoje parece que tudo foi desenhado para que a gente não pare. Nem pense. Nem se coloque. Os da área chamam de engajamento, mas, curiosamente, nunca estivemos tão desengajados uns com os outros.

Você pode estar dizendo que é falta de tempo. Que a vida está corrida. Mas me diga com sinceridade: pra quantas mensagens você realmente respondeu hoje? Ou só leu, avançou, deslizou e seguiu?

Começo a acreditar que vivemos uma epidemia silenciosa de solidão digital. Não é a falta de gente, mas a fluidez das relações, onde os laços se desfazem com a mesma facilidade com que se formam.

Li o desabafo de um 70+. Ele entrou num curso de fotografia, todo animado. Postou no grupo da família, mais de 30 pessoas. Contou da primeira aula, compartilhou a primeira foto. Era sábado, meio-dia. Até seis da tarde, silêncio. Nenhuma resposta. Nenhum olhar de volta.

Ele começou a duvidar. Será que o grupo está funcionando? Ou será que fui eu que caí? Mais tarde, um neto mandou um meme de futebol. Em minutos, seis interações. E ali, no meio daquele barulho leve, ele se sentiu ainda mais só. Invisível.

Estamos numa espécie de babel digital. Todo mundo falando. Pouquíssimos ouvindo. É todo mundo com o rosto iluminado pelas telas e a alma apagada pelas ausências. E os músculos definhando pela falta de percepção do lado de lá — da vida real que ocorre para além dos vídeos editados e acelerados, dos memes, das correntes e assemelhados. Viramos uma geração de emudecidos. Recebemos mensagens, mas não devolvemos presença. O que o outro posta cai no vazio, como um pano de guardar confetes de carnaval, esquecido até o próximo ano.

Ontem, cheguei de viagem depois de dirigir 2.200 quilômetros. Só parei para dormir seis horas. Cheguei cansado. Muito cansado. Mas, ainda assim, com vontade de estar junto. Fiz uma foto. Montei uma arte com carinho (esta que ilustra este texto), um convite com o aviso: "Vovô táxi já está na praça novamente. Aproveitem!". Nela, meu sorriso aberto convidava à interação, enquanto um carrinho de "Vovô Táxi" com crianças felizes acenava. Um gesto simples. Um "estou aqui".

Postei no grupo de filhos, noras e netos. Somos em 10, comigo. Sabe qual foi o retorno? Um único. Justamente de um filho que ainda não tem filhos. Foi ele quem validou minha presença, quem viu o pai por trás da imagem.

E veja, nosso relacionamento é bom. Não há conflito. Há ausência de gesto. Fiquei ali, com minha alegria de avô, imaginando buscar os netos no colégio, oferecendo meu coração aberto. E o silêncio respondeu. A imagem está lá. Eu também.

E então pensei: meus filhos devem estar muito ocupados. Um dia depois, continuava sem repercutir o Vovô Táxi. É que eles têm a vida deles. A agitação do cotidiano. E com certeza se esqueceram do quanto seria importante para mim uma simples interação naquela foto. Algo breve. Eles não fazem por mal.

Mas aí me perguntei: e eu? Quantas vezes eu também deixei de responder alguém que me amava? Quantas vezes eu vi uma mensagem, pensei "depois respondo", e o depois nunca chegou?

Não é falta de amor. É falta de presença. E a falta de presença não é um defeito de caráter de ninguém: é um sintoma do tempo.

Agora mesmo, enquanto escrevia este texto, lembrei de algo. Depois de um dia corrido, com uma agenda de coisas a fazer após 10 dias fora, lembrei que não retornei o telefonema de mamãe. Ela ligou no salão. Eu digitei: "estou no salão, depois ligo". Sabe por que não atendi? A navalha estava perto. Rsrs. E o depois... já era. A ansiedade de resolver mil coisas — e até de escrever este texto — me desconectou da minha própria agenda. Da minha própria mãe.

Eu faço exatamente o que critiquei. Não por mal. Porque estou anestesiado igual. Intoxicado pelo século XXI, com suas insanas realidades e seu jeito de ser. Eu faço, tu fazes, eles fazem... Nós todos estamos assim. Deixando para um dia depois, numa possibilidade vaga de diálogo e interação.

Era uma vez um tempo em que não se matava — nem se morria — por causa de governantes. Em que não se brigava por visões extremas de nada. Em que se convivia mais facilmente em sociedade. Sem ser boicotado. Sem ser bloqueado. O outro era melhor aceito e incluso, do jeito que ele era.

Eu também já bloqueei. Também já deixei de falar com alguém por causa de uma discordância. Também já preferi o silêncio ao desconforto de ouvir quem pensa diferente. Não por mal. Por medo. Por cansaço. Porque é mais fácil apertar um botão do que sustentar um olhar.

Por isso, antes de ir, deixo cinco pequenos gestos para não transformar ninguém num chão de giz que foi apagado:

1. Responda enquanto sente: Não deixe para depois. O depois costuma virar nunca.  

2. Valorize o simples: Uma foto, um relato, uma conquista pequena. É ali que mora a vida de verdade.  

3. Use a tecnologia como ponte, não como esconderijo: Se recebeu, devolva. Nem que seja com um emoji, mas devolva.  

4. Dê nome às pessoas: Chame, marque, reconheça. Ninguém gosta de ser genérico no mundo de alguém.  

5. Pratique o cuidado invisível: Às vezes, uma resposta sua é o que impede alguém de se sentir esquecido.

Porque, no fundo, o que sustenta uma vida longa e com sentido não é só saúde. É vínculo.

Agora encerro, preciso ligar para minha mãe!


E vínculo não se lê. Se responde.  


Puxe sua cadeira, e seja presença!

 

Domingo de manhã, eu "despachava" sozinho na Diretoria. O copo vagando por pensamentos e caramiolas quando notei uma movimentação diferente. Mamãe costuma ficar ali, perto da porta da cozinha, na área da toalha rosa. De lá, ela participava das "decisões" da Diretoria, um lugar sombreado por Bougainvilles, no fundo do quintal, que virou nossa área de lazer.
Hoje ela fez diferente e veio até mim, mesmo por um terreno irregular. Há 3 anos fez operação num joelho, tem hérnia de disco, e andar é difícil pra ela.
Três meses se passaram de duas cirurgias pesadas e invasivas. Uma extração de mama e, em seguida, um procedimento de emergência para a contenção de uma hemorragia perigosa. Qualquer pessoa comum estaria prostrada em um quarto escuro, pensando na mama retirada, no câncer, e seus fantasmas, e reclamando da vida. Sua recuperação tem sido exemplar e inspiradora, porque não é fácil o que ela passou. Mulher orante, ela acolheu e seguiu a vida possível. Muitas vezes a dor e o desgaste encolhem as pessoas. A gente vê isso o tempo todo nos relatos de quem chega querendo entender as próprias perdas. O envelhecimento também tem esse poder de isolamento. Muitos decidem construir muros ao redor do próprio sofrimento e viram ilhas inatingíveis. Minha mãe decidiu construir uma ponte de pedras irregulares, e caminhar. Puxou a cadeira de plástico e se fez presente de corpo inteiro. Sem melodrama nenhum. Sentou e pronto. Puxou algum assunto, recebeu telefonema de meu irmão, e ancorou, a nós dois, na realidade do presente.

Esperamos grandes gestos de amor, declarações cinematográficas, atitudes que mudem o eixo da Terra, quando o afeto verdadeiro pode ser uma caminhada difícil, por pedras irregulares, para se fazer presença, e não deixar um filho sozinho, numa manhã de domingo.
A Diretoria definitivamente não estava vazia. Fiquei olhando de soslaio para ela. O tecido da roupa desenhando os ombros curvos, as mãos descansando sobre o colo, a expressão de normalidade de quem acabou de atravessar um deserto particular.
O domingo floresceu e nós ficamos ali, parceiros de Diretoria, exercitando a arte renascer, apesar dos pesares, e com o que se tem para hoje. E está tudo bem.

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