Major Drive: Uma Calçada, Uns Pastéis e um Bocado de Humanidade (Psicólogo Ricardo de Faria Barros)


Passei o dia de hoje, com um "Sol Riso" estampado na cara da alma, pensando na noite de ontem.

Das 19h às 22h, numa quarta-feira comum, um grupo de pessoas conseguiu desafiar a lógica fria do século XXI, reunindo-se em mesas colocadas na calçada da pastelaria “Espaço do Gerente”, lá no bairro do Geisel, em João Pessoa, para algo cada vez mais raro: celebrar a convivência humana.

Três horas.

Apenas três horas.

E, ainda assim, tempo suficiente para muita gente voltar para casa emocionalmente mais leve.

Não havia luxo.
Não havia aparência.
Não havia necessidade de impressionar ninguém.

Havia apenas refrigerante gelado, pastéis fumegando, conversa boa, risadas sinceras e uma singela garrafa de Matuta circulando entre amigos como quem reparte afeto.

E havia gente.

Gente simples.
Gente bonita de alma.
Gente cansada do peso do mundo.
Gente querendo apenas estar perto.

Tudo por causa do canal do YouTube Major Drive. Ou talvez por causa de algo ainda maior do que um canal.

Porque o Major Márcio e sua Waleska acabaram construindo mais do que audiência. Construíram presença. Construíram pouso emocional. Construíram um lugar onde pessoas podem ser vistas sem precisar fingir felicidade.

E talvez o Major tenha mesmo sido chamado para um propósito.

Porque, sem perceber, enquanto dirige seu Uber pelas ruas de João Pessoa, contando causos, fazendo piadas, interagindo com clientes, amigos e membros do canal, ele vai ajudando muita gente a continuar.

Tem pessoas que entram naquele carro cansadas da vida.
Tem gente triste.
Tem gente ferida.
Tem gente lutando silenciosamente contra depressões, perdas, medos e desesperanças.

E, aos poucos, entre uma prosa e outra, uma popa inesperada, uma gargalhada espontânea, uma história engraçada ou uma reflexão simples da vida, o sofrimento vai acalmando.

As pessoas vão ficando mais fortes.

Porque o Major nunca desistiu.

Acorda cedo.
Trabalha muito.
Enfrenta as durezas da vida.
Corre atrás.
Luta.

E ainda assim permanece alegre.

Existe algo profundamente inspirador em pessoas que continuam sorrindo mesmo carregando o peso do cotidiano.

Talvez seja por isso que tanta gente se reconheça nele.

Porque o Major representa uma espécie de resistência afetiva popular. Um homem simples, trabalhador, imperfeito, engraçado, humano, mas que escolheu continuar vivendo com alegria apesar das dificuldades.

E ainda chega em casa feliz para tomar sua gigantesca vitamina de abacate, comer seus dez pães e prosear com Waleska e Kayanne como quem celebra o simples privilégio de estar vivo.

Isso tem uma força simbólica enorme.

Num mundo cansado, o Major ensina sem perceber que felicidade não precisa ser sofisticada.

Às vezes ela mora num Uber.
Num pastel.
Numa vitamina de abacate.
Numa gargalhada.
Num reencontro na calçada do Geisel.
Num canal do YouTube feito com verdade.

E talvez quem se inspira no Major realmente não tenha o direito de desistir da vida.

Porque ele próprio nunca desistiu.

Mesmo cansado, trabalha.
Mesmo apertado, sorri.
Mesmo diante das dificuldades, segue acolhendo pessoas sem nem perceber a dimensão do bem que faz.

E talvez seja exatamente isso que transforme o Major Drive em algo tão diferente.

Ali não existe apenas entretenimento.

Existe companhia emocional.
Existe acolhimento.
Existe pertencimento.

Uns dezesseis convivas. Crianças correndo. Contação de causos. Fotos coletivas. Sorteio de brindes. E Deus, na sua misteriosa pedagogia afetiva, resolveu entregar dois dos três prêmios justamente para as crianças.

O João vibrou de felicidade. Seus olhos brilhavam mais do que o próprio presente. Uma outra menininha também ganhou e irradiava alegria pura. E eu vibrei por eles.

Porque talvez os adultos daquela mesa precisassem reaprender exatamente aquilo que as crianças ainda sabem naturalmente: a felicidade mora nas coisas pequenas.

Num pastel dividido.
Numa gargalhada coletiva.
Num prêmio simples segurado com orgulho.
Numa mesa onde ninguém precisava provar nada para ninguém.

Teve também a mãe do Saulo.

E aquilo me tocou profundamente.

Achei bonito demais um filho levar sua mãe para um encontro do grupo do qual participa. Era quase uma declaração silenciosa de amor.

Como quem diz:

“Venha conhecer aquilo que me faz bem. Quero a senhora perto da minha alegria.”

Num mundo onde muitos escondem os pais da convivência social, Saulo fez o contrário. Levou sua mãe para dentro do afeto coletivo. E ela estava feliz. Daquelas felicidades leves que iluminam o ambiente sem fazer barulho.

Teve também os momentos filosóficos do Major.

Em meio às risadas, soltou a frase que virou patrimônio da noite:

“Homem que não é mandado pela mulher ainda é menino.”

Tudo acompanhado das piadas sobre Waleska, o célebre rolo de macarrão e o corretivo doméstico prometido ao Major.

E ali existia amor de verdade.

Porque amor não mora só em declarações cinematográficas. Mora também nas implicâncias cotidianas, nos cuidados silenciosos, na intimidade construída com o tempo.

Waleska já organizava a agenda do Major para o dia seguinte, justamente na folga dele, enquanto o carro colocaria o GNV.

Mas homem casado não tira folga.

Sempre existe uma goteira pra resolver.
Uma tomada pra ajeitar.
Um mercado pra ir.
Uma pendência doméstica esperando.

Foi quase uma aula prática sobre casamento, dada entre pastéis e gargalhadas.

Teve também os cochichos de Issinha com Waleska, daqueles cochichos que despertam imediatamente a curiosidade alheia. E o pobre do Saulo ficou tentando descobrir o conteúdo secreto daquela conversa paralela feminina, enquanto as duas apenas riam baixinho, alimentando ainda mais o mistério.

E isso também era bonito.

Porque amizade verdadeira também mora nesses pequenos teatros cotidianos. Nas brincadeiras. Nos olhares atravessados. Nos segredos cochichados ao pé do ouvido. Nas curiosidades plantadas só para provocar quem está por perto.

Teve o carinho de buscar Kayanne.
Teve pastel levado pra ela.
Teve acolhimento.

E ali também existia outra forma bonita de amor.

O amor de mãe.

Porque dava para perceber, nos gestos de Waleska, o tamanho do carinho e do cuidado que ela tem pela filha. Não era apenas buscar Kayanne ou levar um pastel. Era aquele jeito materno de incluir, lembrar, acolher, cuidar dos detalhes e fazer questão da presença.

Mãe ama até nos pequenos atos.

Ama quando pergunta se já comeu.
Ama quando insiste para participar.
Ama quando leva um pastel embrulhado achando pouco, mas oferecendo tudo.

Talvez muitas vezes o amor materno more exatamente aí: nas simplicidades.

E foi bonito ver isso acontecendo naturalmente, sem discurso, sem pose, sem precisar anunciar.

Teve também o pequeno Dudu aperreando para ir ao encontro, insistindo para alguém levá-lo. A logística dificultava. Mas aquilo também era bonito. Porque criança percebe energia boa. E Dudu queria estar onde o coração dele dizia que existia alegria.

E existia mesmo.

Até quem estava longe parecia presente. Quase cem pessoas acompanhavam online, vibrando como se ocupassem uma cadeira naquelas mesas espalhadas pela calçada do Geisel.

Como quem diz:

“Eu também pertenço.”

E talvez seja exatamente isso que tanta gente esteja procurando hoje sem conseguir nomear.

Pertencer.

Ter um banco de carona no Uber do Major.
Passear no Zé Gotinha pelas ruas de João Pessoa.
Prosear sem utilidade prática.
Rir de bobagem.
Ser lembrado.
Ser esperado.
Ser visto.

Porque há pessoas que estão morrendo não de fome, mas de invisibilidade.

E, sem perceber, esse grupo desafia o desamor moderno.
Desafia a indiferença.
Desafia a solidão crônica dos nossos tempos.

Ali, entre pastéis, refrigerantes e afeto, gente vai se curando de depressões silenciosas, traumas antigos, abandonos, medos e vazios.

Apenas porque encontrou um lugar onde pode existir sem precisar fingir.

E talvez aquela noite possa ser explicada como uma casa invisível.

A fé era o alicerce.
A gratidão, o amor, a paz e a bondade eram as quatro colunas que sustentavam tudo.
E o teto daquela casa chamava-se esperança.

Esperança de que ainda existam pessoas boas.
Esperança de que o afeto ainda resista.
Esperança de que ninguém precise atravessar a vida sozinho.

Enquanto muita gente procura felicidade em luxo, aparência e performance, aquele povo encontrou sentido numa calçada do Geisel, diante da pastelaria “Espaço do Gerente”, entre refrigerantes, pastéis, crianças sorrindo e almas perfumadas.

E talvez seja exatamente isso que torne tudo tão bonito.

Não havia riqueza material ali.

Mas havia abundância humana.

E talvez a felicidade verdadeira seja exatamente isso:

Uma mesa simples na calçada.
Uma noite qualquer.
Pessoas que gostam umas das outras.
E a sensação tranquila de que, por algumas horas, ninguém estava sozinho.

E antes de terminar este texto, preciso fazer uma homenagem especial às mães do Canal Major Drive.

Às mães presentes.
Às mães que acompanham online.
Às mães que vibram silenciosamente pelas conquistas dos filhos.
Às mães que ainda cozinham cuidado, servem amor e oferecem colo mesmo quando o mundo anda áspero demais.

E aqui deixo também um carinho especial para Waleska, pelo amor bonito que demonstra ter por sua filha Kayanne. Porque mães como ela carregam uma capacidade rara de transformar pequenos gestos em abrigo emocional.

Buscar.
Cuidar.
Lembrar.
Incluir.
Proteger.

Tudo isso também é amor.

E talvez sejam justamente essas delicadezas maternas que mantenham o mundo um pouco menos duro.

Porque, no fundo, talvez toda grande comunidade humana só exista porque algum coração de mãe ajudou, um dia, a ensinar o significado do amor.

Obs: Quem quiser se inscrever no Canal do Major entre em: https://www.youtube.com/@majordriverr


Onde Moram Nossos Medos de Águia de Louça? (Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

Fui tomar café bem cedinho, aqui perto de casa. O céu de Brasília estava da cor anil, um azul de plenitude, belíssimo. Segui com passo firme e contemplativo até a padaria. Chegando lá, escolhi uma tapioca, um cuscuz com ovos e um café. Sentei me na varanda, observando o movimento da vida.

Foi então que meus olhos repousaram na porta da padaria. Ali, no chão, perto da entrada, ao lado de uma mesa, vi uma águia de louça. A princípio, achei que alguém tivesse esquecido a peça ali. Mas, poucos segundos depois, a ficha caiu, daquelas antigas, metálicas, que a gente usava nos telefones públicos. A conexão foi imediata. Aquela águia não era decoração. Era estratégia. Uma tentativa engenhosa de afastar os pombos que vivem à caça das migalhas deixadas pelos clientes.

Entendi a jogada, mas, por uma solidariedade instintiva com os desvalidos, passei a torcer pelo pombo.

E não demorou. Da minha mesa, vi um deles, todo serelepe, caminhando em direção à escultura. Passou rente à águia, ignorou sua presença imponente e começou a ciscar o chão, em busca de farelos, sem o menor sinal de medo. Abri um sorriso daqueles que a gente guarda por dentro.

Aquele pombo enfrentou o que, para ele, deveria ser o símbolo máximo do perigo. E venceu, não pela força, mas pela percepção. Ele deve ter percebido que ali não havia vida. Não havia cheiro, nem movimento, nem intenção. Só forma. Só aparência. A águia estava no chão, imóvel. Uma águia de verdade jamais estaria daquela maneira. Mas, até chegar a essa conclusão, ele precisou atravessar um território interno cheio de alertas. Imagino os outros pombos, ao longe, avisando: tem bico curvo, tem asas grandes, tem garras afiadas, é uma águia. E ele foi. Desafiou o óbvio. Questionou o medo. Testou a realidade.

Fiquei ali, mastigando o cuscuz e pensando em quantas águias de louça habitam a nossa vida. Quantos medos sustentamos que já não têm mais vida, mas continuam nos paralisando como se fossem reais.

Porque existe uma diferença fundamental, e nela reside toda a sabedoria. Existe o medo da águia de penas, a águia de verdade, aquela que tem bico, garras e fome. Esse medo é legítimo. Ele nos protege, nos mantém vivos, nos ensina a respeitar o perigo real. Mas existe também o medo da águia de barro, da águia de gesso, da águia de louça. Essa não voa, não ataca, não devora. E, no entanto, é ela que mais nos aprisiona. Confundir uma com a outra é o grande equívoco da alma.

A verdadeira sabedoria está em aprender a distinguir.

Quantas vezes na vida tratamos uma águia de barro como se fosse de penas? Quantas vezes recuamos diante de uma escultura imóvel, achando que ali havia perigo? O namorado que partiu o coração foi uma águia de penas naquele momento. Mas condenar todo amor futuro por causa dele é transformar cada novo afeto em uma águia de louça. O chefe que humilhou foi uma águia de penas. Mas acreditar que toda crítica é aniquilamento é construir uma águia de barro na porta do nosso próprio crescimento.

E assim vamos construindo nossa padaria particular, cheia de águias de gesso, de cimento, de barro. Esculturas imóveis que nos paralisam mais do que um predador real poderia fazer. Estão no chão, perto da entrada, ao lado da mesa onde poderíamos sentar para festejar. Mas não sentamos. Tememos.

Aonde moram nossos medos de águias de louça?




Eles não estão apenas na porta da padaria. Moram na padaria do nosso coração. Moram na nossa mente. Moram em percepções distorcidas que insistem em ver perigo onde só há forma vazia. São medos moldados em afirmações absolutas e negativas sobre nós mesmos, sobre os outros ou sobre a realidade. Medos oriundos da fórmula prisão águia de louça: 3N2T1S. Narrativas pessimistas que começam por aquelas palavras: o nunca, o ninguém, o nada, o todos, o tudo e o sempre. Eu nunca conseguirei perder peso. Ninguém me ama de verdade. Nada do que eu faço é reconhecido pela minha chefia. Todos estão conspirando contra mim. Tudo o que eu invisto não dá resultado. Sempre que acredito em alguém, acabo decepcionado. Essas frases são esculturas bem feitas. Convencem. Impõem respeito. Mas não passam de louça.

E, no entanto, elas governam nossas decisões. Nos impedem de testar. De avançar. De descobrir que, muitas vezes, o perigo já não está mais ali, só a memória dele.

Os medos verdadeiros, da águia de penas, são poucos e exigem prudência. Os medos falsos, da águia de louça, são muitos e exigem coragem para serem desmascarados.

A pergunta que o pombo me deixou foi esta: quanta vida plena estamos perdendo por não nos alimentarmos mais das emoções positivas? Quantas vezes recusamos a bondade, a mansidão, a ternura, o amor e o perdão com medo de sermos devorados novamente, agora por uma águia que nem voa?

Quantos temores são apenas justificativas piedosas para não sairmos do lugar onde estamos? Gaiolas confortáveis, é verdade. Isentas de risco. Mas também isentas da beleza. Isentas da brilhante experiência de viver. Porque viver é isso: sair da varanda, aproximar se da águia que está no chão, descobrir que ela é de louça e, mesmo assim, ciscar o chão em busca das migalhas de felicidade que estão ali, à vista, só esperando um pouco de coragem.

Os medos falsos, da águia de louça, são muitos, mas não sabem voar!

E se não sabem voar, então estão no chão. E se estão no chão, podem ser encarados. Podem ser examinados, tocados, desmontados, atravessados. Eles não sobem aos céus. Não rasgam o vento. Não picam a carne. Apenas pesam, mas o peso deles é o peso da mentira repetida tantas vezes que virou verdade na nossa cabeça.

Eis a grande virada: eles são muitos, sim. Mas você é um. Um só passarinho. E esse um, quando decide, pode mais do que a multidão imóvel. Eles são muitos, mas não sabem voar. Você sabe. Você sempre soube. Basta lembrar. Basta dar o primeiro passo em direção à águia de louça e ciscar o chão como aquele pombo.

"Eles passarão. Nós passarinhos..."

Eles sempre passam, quando a gente se move. O medo fica. A vida também. Mas a vida é mais rápida. A vida é mais leve. A vida tem asas, mesmo que pequenas.

Então, que venham as águias de barro, de gesso, de cimento, de louça. Que venham os nunca, os ninguém, os nada, os todos, os tudo, os sempre. Que venham as frases que nos querem pequenos. Elas são muitas, mas não sabem voar. Eu, passarinho, passarei.

Entre os ovos mexidos e as migalhas da varanda, entendi que crescer é, muitas vezes, isso: aproximar se das próprias águias de louça. E, com um pouco de atenção e ousadia, descobrir que elas nunca voaram.

De forma marota, abri o saco do pão francês, do pão de sal, ou cacetinho, como chamam, e tirei umas migalhas, deixando no chão. Afinal, aquele pombo é mais que um vencedor. Ele é um mestre. E todo mestre merece um café da manhã generoso.



Vagalumes de Pessoas ( Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


No meu posto de escuta do mundo, numa mesa perto do palco do FunFest, no CINFABB, eu fiquei, confesso, impressionado.

E olha que não faltava motivo. Os shows estavam ótimos. O clima era de alegria, encontro, celebração. Gente se abraçando, se revendo, se reconhecendo. Delegações das cinco regiões do Brasil, cada uma carregando sua história debaixo do braço. Era bonito de ver. Era gente feliz por simplesmente estar ali, e às vezes isso é o suficiente.

Mas, no meio de tudo isso, duas presenças me chamaram mais atenção do que os holofotes.

Dois acendedores de lampiões.

No Brasil do século XIX, eles eram conhecidos como vagalumes. Trabalhadores que acendiam, apagavam e cuidavam dos lampiões a gás ou querosene, antes da eletricidade chegar para mudar tudo. Ao cair da tarde, passavam com uma vara longa acendendo um a um, rua por rua, lampião por lampião. De madrugada ou ao amanhecer, voltavam para apagar. Limpavam os vidros, trocavam peças, cuidavam da chama. Cada um tinha sua rota, feita a pé ou de bicicleta.

Mas o que eles traziam não era só luz.

Era civilidade. Era urbanidade. Era a cidade funcionando depois que o sol se punha. Com os lampiões acesos, as ruas ficavam mais seguras, menos sombra para o perigo, menos escuridão para o medo, menos espaço para as feras à espreita. Os encontros podiam acontecer. Os passeios podiam continuar. A vida não precisava parar só porque a noite chegou.

Com frio, chuva, neve ou calor, lá estavam eles. Pontuais. Confiáveis. Discretos. Se atrasassem, a rua ficava no escuro. E a cidade, um pouco menos cidade.

Às vezes penso que o acendedor de lampiões tinha uma coisa que a gente perdeu: ele sabia exatamente onde cada chama precisava nascer. Não acendia por acaso. Acendia com rota. Com memória do lugar. Com a certeza de que, se faltasse um, o escuro ganhava um pedaço. Hoje a gente quer iluminar o mundo inteiro de uma vez, e acaba deixando apagados os cantos mais próximos.

Cada um do seu jeito.

Alexandre, da delegação de futebol 70+ da AABB Aracaju, esperava o jogo da tarde. Mas não esperava parado.

A concentração dele era a pista.

Dançava twist, inventava passos, fazia gesto de pássaro com os braços. Sorriso largo, energia viva. E foi chegando a torcida de Erechim, lá do Rio Grande do Sul, que veio ver seus parceiros disputarem a categoria 60-70+. Gente animada demais, que fazia festa no salão. E, eles se encontraram com aquele sergipano que não parava quieto. E o que poderia ser só convivência, formal e respeitosa, virou fusão de culturas e comunhão. Sergipe e Rio Grande do Sul, baião e chamamé, num caldo que ficou excelente. As mulheres iam chegando, entrando na dança, uma a uma, como lampiões que se acendem em sequência numa rua comprida.

Ele conduzia sem forçar. Era presença que convida.

E havia mais. Alexandre, de vez em quando, ia até a minha mesa, falava com o time que estava ali esperando a hora da partida, dava uma forcinha, e logo retornava ao palco, todo saltitante, para não perder por um segundo sequer o vigor de existir. Ele não precisava fazer isso. Ninguém pediu. Ele simplesmente ia. Porque ser vagalume também é isso: saber que a luz não fica só no palco. Ela tem que andar, se aproximar, tocar quem está à espera.

Ali estava Alexandre, acendendo lampiões de alegria e coragem.

No dia seguinte, encontrei Dôra.

Oitenta anos. Dançando no cantinho, com Ana Cristina do lado.

Sem querer o centro, mas com uma presença que ocupava tudo.

As duas repetindo os passinhos. De novo. De novo. Até acertar. Ao som de Boate Azul, Roberto Carlos, músicas que carregam história na melodia. Não havia pressa. Havia intenção. Havia cuidado. Havia alegria no processo, não só no resultado.

Sorriso de Mona Lisa. Passos leves, medidos. Um jeito manso de estar no mundo, como quem já aprendeu que a pressa é uma ilusão cara.

Na camisa, uma frase que dizia tudo: faça o simples

E ela fazia. Inteira.

O que mais me tocou, porém, não era a perfeição dos passos. Era a ausência de medo de errar. Dôra não tinha medo de errar os passinhos da dança de salão que fazia com Ana Cristina. Ambas confiavam uma na outra. Aceitavam os erros. Riam. E voltavam a tentar, sem cobranças, sem receios, apenas pela boa e justa cumplicidade de existirem em presença coletiva, uma para a outra na vida, e não da vida, naquele salão.

Teve um momento em que ela parou por uns segundos. Só respirou. Olhou a pista, as outras duplas, o burburinho. E recomeçou. Ali entendi que também isso é ofício de vagalume: saber a hora de apagar por um instante para recarregar a própria luz. Porque ninguém acende o outro se já não aprendeu a guardar brasa dentro de si.

Ali eu entendi: esse ofício não acabou. Só mudou de forma.


Alexandre acende com garra. Dôra acende com paz.

Um com passo firme. A outra com leveza.

Os dois com a mesma sabedoria: a vida do coração também precisa de luz.

Alexandre jogou, competiu, se lançou. Levou cartão. Eu ri. Quem vive com intensidade às vezes passa do ponto, e tudo bem, porque o mundo precisa de gente que arrisca.

Dôra resolve na calma. Sem cartão. Sem pressa.

Um ocupa com energia. A outra ocupa com serenidade.

Nenhum melhor. Só jeitos diferentes de seguir aceso.

Eu saí dali com um lampião aceso dentro de mim.

E fiquei pensando em outra coisa.

Você já viu um vagalume, o inseto, aquele que brilha nas noites de breu lá no campo? Hoje a gente quase não vê mais nas cidades. Foram ficando raros, como certas conversas.


E sabe o que é mais bonito neles?

Ele não pega luz de fora. Ele tira a luz de dentro de si mesmo.

E, preste atenção nisso, para acender a própria luz, ele não precisa apagar a de ninguém.

Cada um brilha no seu canto. E juntos, sem combinar, iluminam a noite inteira.

Acho que esse tipo de gente também está ficando mais raro. Não tanto quanto o inseto, espero. Mas raro o suficiente para a gente parar e notar quando encontra.

Alexandre e Dôra são um pouco disso.

Vagalumes.

Gente que acende a própria luz e, sem esforço nenhum, ilumina quem está por perto, não porque quer aparecer, mas porque simplesmente é assim.

Talvez essa seja uma das lições mais bonitas do longeviver: tirar a luz de dentro de si. Ajudar a acender a luz nos outros.

Ser vagalume.

Porque no fim, o mundo não precisa só de luz. Precisa de gente que brilhe de dentro pra fora, mesmo quando a noite fecha, mesmo quando a rua está no escuro, mesmo quando a vara do lampião pesa.

Porque há corações que estão perdendo a chama de viver. Falta-lhes o pavio, ou o querosene, ou o vidro que os proteja do vento e da chuva. Ou, pior: falta alguém que se aproxime deles e os acenda por dentro. Pessoas exaustas, sozinhas, adoecidas num mundo agitado, violento e pouco empático. Ser vagalume hoje em dia é ser subversivo à ordem reinante. É ser um arauto de novos tempos. É ser curativo para o outro, só com a sua presença. Presença que sara, liberta, restaura e constrói um amanhã possível.


SOBRE SE ENCANTAR COM A VIDA E O VIVER



Estive por três dias num grande campeonato esportivo de aposentados do Banco do Brasil.
Delegações de todo o país, vindas das AABBs, ocupando o espaço com cores, sotaques e histórias.

Pela manhã, eu circulava pelos estandes, campos e quadras.
Via jogos marcantes, disputas bonitas, momentos que valiam a pena.

Fazia interações com o pessoal da ANABB, do 70+, CASSI, PREVI, Cooperforte e FENABB.
E tinha também um compromisso afetivo logo cedo.

Às 8 da manhã, lá estava eu na beira da quadra de beach tennis, torcendo por Tânia e Cláudia, de Brasília, amigas dos tempos da DITEC.
Vi duas partidas delas, cedinho.
Virei fotógrafo improvisado, registrando cada ponto, cada vibração.

Ali, por alguns momentos, eu não estava só.
Eu estava junto.

Mas, a partir das 10h30, meu escritório abria.

E funcionava até por volta das 16h30.

Meu escritório, nesses dias, foi uma mesa qualquer na FunFest.

E foi ali que algo em mim encontrou lugar.

Meu escritório naquela área de lazer, era ao lado da delegação de Erechim-RS, que é chamada da Terra da Amizade. E a delegação deles era uma festa em vida. Que integrava a todos na animação do salão. 

Uns trinta, ou mais, membros da delegação — jogadores e seus cônjuges, que iam abrindo o salão sem cerimônia, na maior felicidade.
Coreografias inventadas, risos soltos, nenhuma preocupação em parecer bonito.
Só em ser feliz.

Era contagiante.

Eu me alegrava por osmose com eles.

E, se existisse uma medalha por integração e animação na área da FunFest…
Erechim, RS, teria levado ouro.

Aquilo era mais do que animação.
Era uma transfusão de sangue emocional, das boas.

E ali eu entendi:

não tinha só uma história.

Tinham várias.

Foi ali que conheci Pita e Gilvan.

Gilvan, um dos craques do time de futebol de Erechim, RS, no grupo dos 60 aos 70 anos.
Pita, sua companheira de vida, sua cônjuge… e também sua maior torcida.

E foi observando os dois que entendi algo bonito sobre amor.

Pita dançava.
Livre, inteira, entregue à música.

Gilvan, às vezes, ficava à distância.
Observando.
Torcendo por ela.

E, de longe, os olhos deles se encontravam.
Se tocavam.
Na mesma melodia.
Na cumplicidade.
Na compatibilidade de quem escolhe estar junto… sem precisar prender.

Um amor que não pede gaiolas.
Não pede algemas.

E tinha um detalhe que me encantava.

Gilvan era daqueles atentos.
Dos que se lembram do copo vazio da companheira antes mesmo que ela peça.

Ia até o balcão, pegava as duas geladinhas…
e voltava já dançando.

Numa mão, a cerveja.
Na outra, a medalha erguida, brilhando no meio da música.

O corpo leve, atravessando o espaço até o salão como quem celebra a vida em cada passo.

Ali estava um homem livre.
Livre pra viver, pra sentir, pra cuidar sem controlar, pra amar sem prender.

Já consigo imaginar.

Terça-feira, final do futebol.
Gilvan em campo.

E, de algum canto, a voz dela atravessando tudo:

- Vai, maridão!

Mas a vida também mostra o outro lado.

Na sexta, numa mesa ao lado da minha, uma mulher dançava sozinha.
Livre, inteira, entregue à música como se o mundo coubesse ali.

No sábado, era outra.

Quieta.
Apagada.

Como se, de um dia pro outro, alguém tivesse diminuído sua luz.

E eu fiquei ali, sem saber, mas sentindo.

Porque há amores que expandem.
E há amores que encolhem.

E talvez o maior erro seja quando uma pessoa entrega sua identidade nas mãos de quem deveria apenas caminhar ao lado.

Identidade não se terceiriza.
Nem se negocia.

E por isso eu também louvo Gilvan.

Porque amar não é possuir.
É reconhecer.

E foi ali que eu aprendi:

a arte de erechimzar a vida.


E também o ensinamento mais bonito de Erechim, RS sobre o amor.

Seja o amor a dois,
seja por uma causa,
seja entre amigos.

Um amor que se pode até soletrar:

E de envolver.
R de reconhecer.
E de encantar.
C de cuidar.
H de humanizar.
I de interessar-se.
M de motivar.

Amar é envolver-se com o outro.
Reconhecer o outro. Fazê-lo se sentir pertencendo, acolhido, incluído e valorizado.
Encantar-se com ele e deixar-se ser encanto para ele. 

É cuidar…
e também deixar-se ser cuidado.

É humanizar o dia a dia,
sendo compreensivo,
tendo compaixão,
sabendo recomeçar
e também perdoar.

É interessar-se pela vida do outro.
Motivar-se com ele…
e motivá-lo também.

Talvez seja isso.

Erechim, RS não é só um lugar.

É um jeito de amar. Que pede um VAR, uma metáfora do futebol do Gilvan.
Um VAR de Valorizar, Acolher e Respeitar as outras pessoas. 

E, quem aprende… a pedir o VAR, a praticar o ERECHIM do amar, 
nunca mais desaprende.

O lanche, a tela e o escurecimento da tarde


Era para ser um final de tarde bacana. Daqueles simples, bons e merecidos. Eu havia passado parte do dia com dois filhos, dois netos e meu genro no Eixão do Lazer, em Brasília. Havia riso daqui, conversa dali, menino correndo, bicicleta cruzando a paisagem, gente devolvendo humanidade à cidade. Tudo seguia num compasso bom: leve, familiar, humano.

No fim da tarde, quando o céu de Brasília começa a mudar de azul para vermelho ouro, pedi um lanchinho vindo do meu lar, para mim e para JG. Um gesto pequeno, desses que combinam com o cansaço bom de um dia vivido ao ar livre, em família. Era para ser só isso. Uma pausa. Um agrado. Um fechamento manso para um feriado bonito.

Mas foi ali que a tarde entortou.

Quando o jovem veio trazer o pedido, em vez de apenas me entregar o lanche, resolveu me perguntar se eu estava sabendo do absurdo da nova lei da misoginia. Achei curioso o modo como ele trouxe o assunto: não como quem quer entender, mas como quem já chega com a conclusão pronta e só precisa de alguém que balance a cabeça em concordância.

Fiz-me de bobo e perguntei qual era o tal absurdo.

Foi então que ele começou a despejar sua fala, inflado por uma certeza emprestada. Disse que agora não se poderia mais dizer nada contra mulher, que um simples flerte poderia dar prisão, que até um esbarrão seria motivo de cadeia. Tentei argumentar com calma. Pedi que ele buscasse a fonte, o texto, a letra da proposta, e não se deixasse conduzir por vídeos feitos para acender medo e ressentimento. Mas ele me mostrou um vídeo de ativista desses de tela pequena e estrago grande, no qual a pessoa lia trechos recortados e, em seguida, servia sua própria interpretação como se fosse verdade revelada.

Eu disse que aquilo era uma distorção. Uma fake embalada em indignação. Que a ideia não era criminalizar flerte, nem transformar qualquer esbarrão em caso de polícia. Que o propósito era proteger mulheres contra ameaças, discriminações, desprezo, aversão e preconceito extremo. Em suma, tentar conter uma cultura de violência que muitas vezes começa no rebaixamento, na piada, no desprezo, e depois escala para coisas piores.

Mas aí ele soltou a pérola, com a segurança rasa dos simplórios: mulher é mais frágil mesmo e homem é mais forte.

Naquele instante, entendi que não adiantava prosseguir. Porque já não se tratava de esclarecer. Quando alguém chega a esse ponto, já não está debatendo; está apenas defendendo um pequeno território interno, murado por preconceitos, slogans e vídeos engolidos sem mastigar. Fiquei pensando de que fortaleza ele falava. Da biológica? Da emocional? Da sociológica? Da cultural? Da histórica? Da força de quem grita mais? Da força de quem bate? Ou da força de quem atravessa séculos sendo diminuída, silenciada, ameaçada e, ainda assim, segue vivendo, criando, trabalhando, sustentando, resistindo e recomeçando?

Há homens que confundem força com volume de voz. Confundem poder com interrupção. Confundem privilégio com mérito. Confundem o hábito de mandar com alguma superioridade natural. E quando uma lei, ou um projeto de lei, tenta proteger as mulheres contra a humilhação e o ódio, sentem-se ofendidos, como se a dignidade alheia lhes roubasse alguma liberdade sagrada.

Mas o que mais me espantou nem foi apenas o teor da fala dele. Foi pensar que um jovem, num dia de feriado, entre uma entrega e outra, em vez de alimentar a cabeça com algo que o alargasse por dentro, estava se deixando sequestrar por vídeos de extrema direita, desses que não informam, apenas inflamam. Em vez de um curso, um documentário, uma minissérie bem feita, uma boa música, não. Estava ali, abastecendo-se de recortes raivosos, versões tortas e certezas de segunda mão. E talvez esteja aí uma das tragédias discretas do nosso tempo: tanta gente com um celular na mão e tão pouca vontade de usá-lo para crescer.

A pobreza mais perigosa nem sempre é a do bolso. Às vezes é a da imaginação, da leitura de mundo e da incapacidade de desconfiar da mentira que chega mastigada pela tela.

O pior é que aquilo não parecia ser um caso isolado. Pedi para ver melhor o vídeo. Havia milhares de seguidores. Muitos comentários favoráveis. Gente repetindo absurdos com a desenvoltura de quem já perdeu o pudor de pensar mal. E foi aí que meus neurônios, que até então descansavam numa rede invisível de sossego, se levantaram todos de uma vez, alarmados. A tarde seguia bonita do lado de fora. O Eixão continuava cheio de vida, rodas, passos, conversa, família, infância, cidade ocupada. Mas dentro de mim alguma coisa havia mudado. A paisagem externa seguiu a mesma. A interna escureceu um pouco.

Fiquei matutando como será o relacionamento daquele rapaz com as mulheres de sua vida. Com a mãe, com uma irmã, com uma namorada, com uma chefe, com uma colega de trabalho, com uma filha, se um dia a tiver. Porque esse tipo de pensamento não nasce para ficar apenas numa conversa qualquer de fim de tarde. Ele costuma vazar para o cotidiano. Vai para o jeito de olhar, de interromper, de diminuir, de duvidar, de achar natural ocupar mais espaço do que o outro. Vai para a piada, para a impaciência, para a superioridade mal disfarçada, para o desprezo embalado como opinião.

E isso, claro, não para nas mulheres.

A mesma cabeça que se fecha à dignidade feminina pode também se fechar ao negro, ao indígena, ao cadeirante, ao nordestino, ao obeso, ao pobre, ao diferente. Todo preconceito, no fundo, é irmão do outro. Muda apenas a roupa da vítima. O que falta ali é alteridade. É a capacidade de reconhecer no outro não uma ameaça, mas uma possibilidade de alargamento humano. É a disposição de se deixar tocar por vidas que não têm a sua cara, o seu corpo, o seu sotaque, a sua história, o seu invólucro. E quem não desenvolve isso empobrece por dentro. Deixa de se enriquecer justamente naquilo que a convivência humana tem de mais bonito: a chance de ser atravessado por outras culturas, outras dores, outras formas de existir.

Talvez estejamos mesmo flertando com uma nova idade das trevas. Não aquela da falta de informação, mas a da recusa da informação. Não a da ausência de conhecimento, mas a da vitória da versão sobre o fato. Um tempo em que o vídeo gritado derrota a leitura serena. Em que o recorte vale mais do que o contexto. Em que a mentira bem editada chega antes da verdade ainda de chinelos. Um tempo em que muita gente não quer compreender a realidade. Quer apenas domesticá-la até que ela caiba no tamanho de seus medos, de seus rancores e de suas velhas hierarquias.

Saí daquela conversa com o lanche na mão e uma tristeza funda na cabeça.

Era para ser apenas mais um fim de tarde bonito em família, no Eixão do Lazer, em Brasília, no dia em que ela completava 66 anos. O céu já tinha trocado o azul pelo vermelho ouro, como só essa cidade sabe fazer, e eu queria guardar daquela tarde apenas o calor bom dos meus, a presença dos meus, a bênção simples de estar ali. Mas bastou um diálogo curto para eu sentir o peso de uma pergunta maior. O que está acontecendo com a nossa capacidade de ler, de pensar, de ponderar, de conviver, de respeitar? Em que esquina foi que tanta gente decidiu trocar o estudo pelo slogan, a empatia pelo espantalho, a complexidade do mundo por uma caricatura raivosa dele?

Era para ser só um lanche no fim da tarde.

Mas veio junto um retrato do tempo.

E o retrato, confesso, saiu bem mais feio do que eu gostaria.

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