Que Sociedade Estamos Criando para Nossos Filhos? (Ricardo de Faria Barros)


As reportagens acima são deste ano. E, no seu conjunto, retratam uma sociedade doente, doente de si mesma. Cada vez mais cheia de seus próprios direitos, e pouco tolerante com os direitos dos outros. Uma sociedade perversa com o tido como diferente e alienada, na construção de relações sociais, mediadas pelo diálogo.

Entrevistadas, estas pessoas dirão que só estão defendendo o direito delas. Ao dormir, ao não falar, ao ir e vir, conforme abaixo, vejam:.

As moradoras da praia de Cabo Branco, foram à Câmara dos Vereadores, reclamar que o projeto de acesso dos cadeirantes até a praia iria desvalorizar seus apartamentos, pela alteração do fluxo de trânsito de veículos no local, dificultando o acesso aos seus imóveis.

O Uber explora o filão de pessoas que gostam de se protegerem dos outros, cultivando endeusadas individualidades, um tanto narcisistas e egoístas. Pessoas com a Síndrome da Intolerância à Gente, muito comum nos dias atuais.

A vizinha que denunciou o choro de crianças, alegou que o barulho matinal e frequente, tem tirado seu sono e fere as leis do silêncio do condomínio, sendo passível de notificação.

Visto da perspectiva deles, há uma racionalidade em seus propósitos.  O problema é que a teia social de coletividade, a noção do todo, é pautada pela premissa da urbanidade.

Então, à racionalidade deve ser moderada pela urbanidade. Que são práticas sociais que expressam afabilidade, civilidade e cortesia entre os povos que habitam um mesmo ecossistema social.

Uma sociedade em que todos têm direitos, e que eles se sobrepõem aos dos outros, é uma sociedade fadada a morrer, e de solidão.

Nunca esqueci um post de amigo que viajava de avião com o seu bebê de 6 meses. Eles estavam indo ver os parentes em Recife. Então, ele distribuiu uns 20 chocolates, envoltos num bilhete que dizia assim:

 "Aceitem este chocolate como forma de  minimizar os transtornos com o barulho do horo de nosso filho".

Fiquei pasmo com isto. Que sociedade é esta que pra viajar com crianças, que choram pela pressão do ar em seus ouvidos, precisamos comprar chocolates e fazer bilhetes?

Que sociedade é esta que denuncia um post de uma mãe, feito ao amamentar seu filho, por considerarem que ela expôs o peito em local público, "desrespeitando os puros olhares" dos transeuntes.   Que sociedade é esta que ver um peito que erotiza, no lugar de um peito que alimenta?

Estamos ficando muito chatos. Chatos demais.  Cheios de não me toques, cheios de nossos próprios direitos.

Com pouco espaço para a tolerância, flexibilidade, para a aceitação de algo que ocorre no momento, e que não é para sempre.

Estamos sempre armados, e o meio digital amplificou esta agressividade.

As pessoas encontram suas bolhas digitais de intransigência e se retroalimentam com elas, além de receberem, naqueles espaços,  apoio e reconhecimento pelo "seu jeito de ser, fazer e acontecer" perante a vida.

"Mandou bem, se fosse eu denunciaria também estas crianças choronas. Não tem mãe não?"
"Tem mais é que ficar calado mesmo, não pago pra ouvir motorista de lero lero".
"Fez muito bem em proteger teu imóvel. Logo eles ampliam este projeto e tomam todas as nossas áreas públicas com estes cadeirantes".

Urge voltarmos a cultivar a urbanidade, irmã gêmea da empatia.

Deixar aquele motorista de ônibus passar primeiro, afinal ele transporta muita gente.
Esperar a pessoa que vem correndo pra pegar o elevador, e fingimos não ver ao acionar o botão de subir.
Dar o lugar na fila, pra quem está com mais pressa.
Não estacionar em vagas reservadas para outros públicos.
Tornar visível e tratar bem as pessoas que nos servem.

A lista é imensa.

Uma das melhores fórmulas de se ampliar a urbanidade é com aquela pergunta, e se fosse eu que estivesse no lugar dele?

E se fosse eu que teria uma alegria ao mergulhar no mar, após um acidente que me deixou de cadeiras de rodas?

E se fossem meus filhos, chorando por alguma doença, ou birra incontrolável?

E, se fosse eu o motorista que precisasse do diálogo com seus clientes, para se sentir diferente de um piloto automático, um autômato, que passará longas horas em trânsito pesado pelo dia afora.

Mas, para se fazer esta pergunta: "E Se fosse Comigo?" é preciso ter uma forma de sabedoria que considera o outro em sua própria dignidade e necessidades.

E, talvez aí, seja pedir muito nos tempos atuais!

Tempos em que estamos sendo educados, e em todas as instituições, para o culto ao nosso Eu.

Seja em Programas de Coaching, seja na Teologia da Prosperidade, seja em ofurôs corporativos, seja em livros de auto-ajuda que vendem como água.

"Você merece."
"Você vai ganhar, basta acreditar".
"Você é o cara"
"Você pode."
"A natureza conspira para você."
"Logo vão descobrir você e irá então arrebentar."

Não merecemos tudo que queremos.
Não vamos ganhar nada, só por acreditarmos. E, perder faz parte da vida.
Não somos o cara. Somos mais um dos caras.
Não podemos tudo que queremos.
A natureza não conspira para satisfazer nossos quereres. Ela tem mais o que fazer.
Não vamos arrebentar logo. Nem nos descobrirão. No máximo, vamos subir uns degraus, não sem nos arrebentarmos é de esforço, foco e investimento em priorizações.

É preciso deixar de ser arrogante e besta na vida e o viver.  Caso contrário, seremos uma sociedade de solitários, pois ninguém consegue fazer e manter amizades com pessoas que só pensam nelas, que só elas importam e têm direitos.

Todo mundo cheio de razões, e vazio de sentido na vida e felicidade.

Cartas ao JG - Preste Atenção às Flores e Frutos à Beira do Caminho (Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel - 10 anos)


Sabe meu filho, naquele final de semana de agosto-2019 o calor estava insuportável no Distrito Federal.  E o pior nem era o calor, era a baixíssima umidade, tendo sido decretado o Alerta Vermelho.
Você estava gripado, e na noite do sábado para o domingo, pela madrugada passei um tempo acordado, segurando tua mão.
Eu me embalava na rede, você dormia no sofá-cama, e, após um acesso de tosse, eu acordei e segurei tua mãozinha.
Era como se eu quisesse te proteger, te dar carinho, te fazer melhorar.
Você, ainda dormindo, correspondeu ao meu aperto de mão.
Pode ter sido até um reflexo físico mas, preferi voltar a dormir, de mão dada contigo, achando que tu tinha correspondido ao meu gesto de amor.

Quanto tempo eu terei ainda para dormir apertando tua mão, enlaçado à ela?

A juventude vem chegando em tua vida, e à galope.
Teus dez anos agora se esticam, diariamente, em formas que não cabem mais nas roupas.
E, a cada semana que te vejo, a sensação é que tu cresceu mais um pouco.
Acho que todos os pais com guarda compartilhada vivem isto quando vão buscar seus rebentos.
Tenho vivido isto mais intensamente, ou ando prestando mais atenção, ou mais sensível. Ou tudo isto, junto e misturado.
No meio da manhã de domingo, seu tio manda mensagem convidando-nos para um almoço na casa dele, que fica no mesmo condomínio onde você mora, lá pelas bandas do Jardim Botânico de Brasília e de São Sebastião-DF.
Certifico-me, prudentemente, que só estarão meu irmão e cunhada. Teu resfriado pode contaminar a Priscila,  tua irmã, que está grávida de 8 meses, do Lucas, meu primeiro neto.
Tudo certo, só nós quatro, então partimos para lá.
No caminho tu dorme que baba. Combinei com o Guga de chegar 12h30. São 12h e já estou no condomínio. Como sempre, chego antes nos compromissos.
Mas, eu tive pena de te acordar, e fiquei zanzando de carro, para que continuasse a dormir mais um pouco.
Lembrei-me do quanto era gostoso dormir no carro de meus pais, quando a maior aventura e felicidade, na tua idade, era ouvir a voz deles chamando para "dá uma voltinha de carro" pela cidade.
Como aquelas "voltinhas" sem parar em McDonalds algum, ou coisas da espécie, eram boas.
Sabe filho, a gente precisava de muito pouco para ser feliz, como crianças.
Só precisávamos de nossos pais inteiros ali conosco. "Dando uma voltinha". Sem estarem acessando, eles e nós, as redes sociais e os games.
Era o momento de uma prosa maneira, de se encantar com uma nova rua que recebia os paralelipípedos, e de falar das últimas realizações no Senai, local onde ambos seus avós trabalharam por mais de 40 anos.
Mamãe era a mais tagarela, e adorava saber de nossas novidades no colégio. Falávamos de nossos receios com as provas, pressão escolar, etc e ela só dizia, continuem se esforçando, isto também passa.
Papai era o bom-vivant, sereno e seguro, ele nos passava a sensação de que o amanhã seria melhor.
Com eles aprendi o valor concreto de duas posturas diante da vida.

Uma ligada à Esperança, de esperançar. Dizer que o "amanhã será melhor", nos energiza para mobilizar recursos no hoje, intencionalmente, para que este amanhã possa de fato ocorrer. E era assim que ele nos educava. Ao nos ensinar a ter paciência com as sementes que plantávamos. A ter tenacidade diante dos aperreios da vida, e continuar dando o nosso melhor.
Sabe filho, nunca esqueci quando sofri severo acidente de moto, e tive um traumatismo craniano.
Ao ter alta, e papai me levar para minha casa, eu pergunto pela minha moto. Onde estava, em qual oficina.
Aí, ele me mostra uma bicicleta que comprou pra mim, até com campainha de inox, e diz que investiu o que sobrou da moto nos remédios, hospital e na bicicleta. Quando ameacei ficar triste, com a perda e o ocorrido, ele solta um: amanhã será melhor. Vá trabalhar de bicicleta, é mais seguro. Pensar que foi esta bicicleta que me fez entrar no BB. Mas, isto já é outra história que depois lhe conto.
Esta era a marca de papai em tudo que fazia, e diante de todas as dificuldades que enfrentaram para criar três filhos, morando de aluguel e estudando em colégio particular.  Era uma esperança ativa. Ele tinha esperança dos filhos passarem de ano, mas não ficava sentado à beira do caminho esperando que algo de mágico ocorresse, neste sentido. Pelo contrário, apoiava mamãe nas exigências de tomar as lições, de cor e salteado.  E, bastava um olhar dele, para voltarmos à tabuada.

A outra é ligada a uma disposição atitudinal, o Otimismo. "Isto também passa", falava mamãe quando lhes trazíamos alguma dificuldade, ou resistência pra fazer algo. Como meus treinos de natação, tão jovem, para correção de um problema ortopédico no diafragma.  Era uma postura diante da vida, que quando algo de ruim ocorria sabia colocar aquilo como específico, passageiro e contido ao ocorrido, sem sair melando todas as áreas da vida. O que hoje se chama de Otimismo Aprendido, mamãe já ensinava no século passado, sem nunca ter lido nada de psicologia positiva.

Você deu uma roncada e me tirou dos devaneios da tal "vamos dar uma voltinha?".

Ainda faltavam dez minutos, para as meia hora de soneca boa que te daria, então lembrei-me que num determinado lote, ainda por construir, eu houvera visto uma ipê verde. Trata-se de uma das variedades mais exóticas dos ipês, e rara.
Fui contigo até lá e não é que avistamos os cachos de flores verdes! Uauuu, lá estava novamente aquela belezura de meu Deus, ali, toda oferecida para nossa visão. Você dormia, mas fiquei de passar ao sair do Guga por ali e te mostrar.

Chegando na casa do mano, tu ainda sonolento, arrumei o sofá da área de lazer e te deitei lá. E tu dormiu novamente. Não estava febril, nem tossia. Estava apenas cansadinho de noites em mal dormidas.

Pelas 16h, saí para te deixar na tua casa, que fica uns 500 metros do Guga. Como chegamos mais cedo do que o combinado (17h) tua mãe estava fora.

Então, aproveitei e fui te mostrar o ipê verde. Seus olhinhos custaram a ver as flores deles, a distingui-las entre as folhas.
É assim com mutia coisa boa da vida, às vezes eles estão ali, bem pertinho de nós, mas nossos olhos não conseguem mais enxergá-las.
Tu não via as flores do ipê verde.

Descemos do carro, e aprumei tua vista com minha mão.  Até tu soltar um:

- Ahhh!!!, eu vi papai, estão ali as flores!

Falei que tu estava vendo um espécime raro, e que logo, quando o dono do lote fosse construir, ele poderia ser abatido.

Tu deu a ideia de botar uma placa, avisando. Fiquei de pensar nisto, talvez uma faixa. Boa ideia meu filho. Quem sabe o dono daquele lote o protegerá.

Ainda faltava meia hora para as 17h, e lembrei que numa determinada barranca, às margens de uma avenida do Condomínio Amobb, tinha um pé de cajuzinho do Cerrado.

Te chamei para irmos ver se havia frutos. Confesso-lhe que fui desconfiado, geralmente os cajus nascem mais no final-início do ano.

Fomos passeando e mirando na barreira, e nada, e nada, e nada, aí, UAUUUUU!!!!

Lá estava, despencando de uma barreira, uma bela muda de cajuzinho do cerrado, toda cheia de cajus, maturis e flores.

Colhi dois deles, um pra mim e outro pra você.  Saboreamos aquele momento, diante de uma árvore igualmente tão rara no Cerrado, e em extinção, por não ter valor comercial. 

Deu 17h e fui te deixar. Na saída do carro, nos abraçamos. Falei que te amo. Tu falou que também me amava.

E voltei pra minha casa vendo o sol fazer seu espetáculo de todas os entardeceres no DF.

O coração cheio das vivências contigo, a alma cheia com o belo que contemplamos, em flores de ipê ver e cajuzinhos do cerrado. E o meu corpo descansando naquelas nuvens em fogaréu, que confirmavam, metro a metro, que o amanhã será melhor, e que isto também passa!

Se não fosse teu tossir, não haveria mãozinha dada na madrugada.
Se não fosse fazer hora contigo, pra tu dormir gostoso, não lembraria das voltinhas com meus pais.
Se não fosse isto, também não lembraria do lote do ipê verde.
Se tua mãe estivesse em casa, não teríamos lembrado de ir procurar o cajuzinho.

É assim com a vida, meu filho. Um monte de coisas vão ocorrendo que no somatório delas produzem um movimento, antes impensado, e de repente, não mais que de repente, algo bacana nos ocorre, fruto destes imprevistos e mudanças de planos.

Mas, precisa ajustar as lentes pra ver. Assim como tu fez pra enxergar as flores.  Precisa estar sintonizado ao bom, ao belo, ao justo, à paz, ao manso, ao Humano e ao Divino para ver, que apesar dos pesares, pra um monte de vida boa ocorrendo, pelas barrancas de nosso viver, ou disfarçadas entre as folhas.
Filho meu, na vida, esteja sempre 100% presente, atento e consciente às suas bênçãos e possibilidades. Module tua percepção seletiva para além do negativo, infeliz e crítico, presente como praga nestes tempos ditos modernos.
Ser mais feliz, ou menos triste, é uma escolha consciente, diária, possível, necessária e indelegável.
E, em grande parte, dependerá de ver que de uma barreira de Cerrado sequioso, com árvores cansadas pela inclemência do tempo, pende cajuzinhos vermelhos e suculentos.
E que, de um galho de folhas, iguais como várias outros do mesmo lugar, só ali, nele, há um buquê de flores a ti oferecido.
É preciso, filho meu, treinar o olhar para ver o lado bom da vida.
Apesar de todo o circo de horrores que temos presenciado, mundo afora, muita coisa boa ainda ocorre na vida.
Neste exato momento, em que digito esta carta para ti, algo de bom está ocorrendo. Uma Brisa Aracati caminha pela praia, agradecendo que as dores amainaram. Lucas chuta a barriga da filhota Priscila, pedindo comida.
Uma jovenzinha mobiliza o mundo para a defesa do Meio-Ambiente.
Papai, tira a meia anti-trombo, usada por 8 dias após cirurgia que fez no pulmão, e se sente finalmente de alta, já planejando a primeira saída de casa, com o amigo Renato.

Lá no térreo, escuto Antonio varrendo as folhas secas da calçada. Daqui a pouco desço, e ele com sorriso no rosto me dirá novamente, respondendo à minha provocação.

- É muita folha seca.

Ao que ele me responde sempre.

- É sr. Ricardo, mas elas nos dão sombra, flores e refrescam, e é só varrê-las todos os dias.

Quanta sabedoria. Sabe filho, tem gente que só ver as folhas secas, e seu incômodo. Nunca seja assim! Seja como o Antonio.

Não foi apenas uma Pirarara, foi amor. (Ricardo de Faria Barros)


“Aviz Júnior, depois quero uma foto tua e de teu pai (sr. Aviz) com um peixe, para eu usar nas minhas palestras sobre longevidade feliz”. 3/8/2019

Fiz este comentário num post de uma foto que o Aviz Júnior publicou no Face, documentando uma nova pescaria que faria com o seu pai.
Dessa vez, a pescaria tinha como destino um rio em Rondônia, e fariam uma surpresa ao Aviz pai, levando na viagem um de seus netos, e um outro filho.
Considero o Aviz Júnior um de meus melhores amigos e por um bom período de tempo, lá no BB, trabalhamos juntos. Hoje, ambos somos aposentados. E ambos, eu e ele, decidimos não nos aposentar da vida.
Acompanho estas pescarias dos Avizes (rs) há uns cinco anos. Tem ano que meu amigo se desloca de Brasília pra SP umas duas vezes, para levar seu papai para pescar. Inclusive para bons pesqueiros na América do Sul.
Ele me diz que faz isto por amor, que não é obrigação. Embora tenha que deixar a sua esposa sozinha aqui em Brasília, eles negociam estas saídas como prova de amor. A Shirley ainda está na batalha do trabalho formal. Shirley, incentiva estas aventuras de pescaria com o seu sogro. A isto chamamos de amor, amor de cumplicidade, de parceria e companheirismo.

O Sr. Aviz faleceu recentemente, um mês após chegar da viagem de sua última pescaria.

Tive acesso a um vídeo de sr. Aviz, dias antes de embarcar para sua última pescaria, a de agosto de 2019. Ele estava todo feliz ao saber que o seu neto iria também, além de dois filhos, Aviz Júnior e o seu irmão. Então, ele cantou para o neto a música que o inspira, quando sai pra pescar, e que nunca entra na jangada sem antes cantá-la. Cantou com voz firme, entoado, no ritmo e muito emocionado. A música é Mucuripe:

"Aquela estrela é dela
Vida, vento, vela, leva-me daqui
As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vou levar as minhas mágoas
Pra as águas fundas do mar
Hoje a noite namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar."

De forma predestinada, naquele vídeo, ele deixou documentado que precisamos seguir nossa jornada da vida, com o vento, e aprumando as velas...
Ganhei minha foto que pedi, e a usarei com carinho, já na semana que vem numa palestra que darei na Itaipu. Na foto que Aviz Júnior me mandou, seu pai pesca uma pirarara, cumprindo um dos objetivos desta pescaria, um peixe por ele muito cobiçado e nunca antes pescado.

Se Aviz Júnior não tivesse ido pescar com o pai em agosto como estas cenas ficariam nas memórias afetivas dele e família?

Se Aviz Júnior não tivesse sido este filho exemplar, que apoia incondicionalmente os pais na velhice, a que velhice estaria destinado o seu pai? Será que ele sozinho iria para dispendiosas, e ousadas, do ponto de vista logístico, pescarias?

Sabe Aviz Júnior, você nos inspirou e inspira. Todos nós que temos pais já velhinhos nos sentimos motivados a seguir teu caminho.
A reservar alguns dias do ano para ir visita-los e sair com eles para fazer algo legal.
Se tivéssemos o mesmo carinho que temos com animais que chegam a velhice para com os nossos pais idosos seria tão bom.

Ontem, vi uma vizinha passeando com a sua cadela, de 12 anos, e no braço. Pois, ela não consegue mais andar e tomar sol. Ela foi proporcionar uma das coisas que sua cadela mais gostava, acompanha-la nas caminhadas pelas entre-quadras aqui de Brasília. Doze anos num cachorro equivalem a 84 no ser humano. Será que fazemos este mesmo ato com nossos pais idosos?

Será que temos o espírito do Aviz Júnior de proporcionar momentos de intenso prazer a eles.
O espírito de quem nos últimos anos visitou o pai a cada três meses, deslocando-se uns 1..300 km, de Brasília para São Paulo.

Na maioria das vezes nos fixamos em um monte de muletas para não fazer isto. Dizemos que estão velhos para saírem. Que não gostam. Que estão muito frágeis. Que demandam cuidados médicos. Etc, etc. etc.

E vamos deixando eles mofando em suas casas, ou em abrigos. Quando muito os visitamos, achando que isto basta. E são visitas rápidas, de quem tem algo a fazer depois. Logo nos aborrecemos com o “tédio de uma casa de idosos”, ou com suas conversas antigas - mil vezes repetidas, ou com algumas doses de sincericídios que idoso nos prescrevem.

O Brasil está envelhecendo. Daqui a alguns anos ter um pai com 80 anos será super normal. E não podemos deixa-los à margem de nosso viver.

Precisamos fazer como a minha namorada, que tirou uns 15 dias e foi viajar com a mãe dela pelas praias da Bahia.
A mãe tem todos os protocolos de doenças que não recomendam sair. Ela teria tudo para deixar a mãe naquela cama. Mas, decidiu levar a mãe para ver o mar, para tomar água de coco molhando os pés na água do mar. Mesmo que tenha sido um esforço hercúleo para a filha, o que ficou deste passeio foi o prazer de ter proporcionado um dia diferente à sua mãe, tirando-a do ciclo doença-médico-exames-remédio-medo-dor.
Dias depois, ao retornar para Brasília, sua mãe lhe telefona. Ela está num acesso de acesso de raiva e tristeza, diante do enfrentamento da doença. E a agride dizendo que a ida na praia foi para atender ao interesse da própria filha, e não o dela, e que ficou muito cansada.
Brisa respira fundo, a chamo de brisa, acolhe o desabafo da mãe. Entende que a mãe está cansada de lutar pela vida, que não está dizendo de fato aquilo. E dá um boa noite amoroso pra mãe. Não retruca, não discute. Apenas entende.
Aí, telefona-me e diz, desconsiderei tudo que mamãe me disse, ela estava nervosa. Até o final do ano a levarei novamente para a praia. “Ahh se levarei”...

É desta matéria que se faz os filhos cuidadores. Eles não desistem de seus pais, mesmo não recebendo deles, muitas das vezes, palavras amistosas. E, não fazem isto por obrigação. Como bem me disse o Aviz Junior, fazem-no por amor.

Nossos pais gostam de conhecer coisas novas. Também querem se divertir, relaxar. Eles dizem que não querem. Que não podem. Que não têm saúde. Etc. etc. etc. Desconsiderem.

Eles querem. Só não querem dar trabalho e não podem gastar $. Por nos amarem, eles dizem que não querem se divertir, que preferem ficar onde estão.

Recentemente enfrentei momentos tensos junto aos meus pais de 82 e 81 anos. Papai precisava de cuidados médicos, e passei uma semana por lá. Nesta semana, não deu para ir pra praia, mas deu para botá-los no carro e fazer uma rota pela vizinhança da cidade de Campina Grande-PB, num horário em que o dia estava bem fresquinho, e em estradas vicinais que cruzavam pequenas propriedades rurais. Num determinado trecho paramos o carro, para apreciar as flores da Jurema Branca, e sentir seu perfume que encanta de tão gostoso.

Quando é que terei a oportunidade novamente de levar meus pais para turistar pela roça?

Quanto isto me custou? Nada. Só o querer. Só mover uma montanha para convencê-los a entrar no carro e comigo partir. E foi uma delícia de passeio, de umas três horas.

Aprender a cuidar e ter empatia pelos nossos pais nos torna melhores. Desenvolve em nós as competências do capital psicológico positivo (esperança, otimismo e resiliência), bem como as da inteligência emocional (empatia, relacionamento interpessoal, capital social).

Fazer um turismo de aventura com os pais idosos, abrindo uma brecha na tão sobrecarregada agenda de filhos que ainda trabalham, ensina muito mais sobre gestão, comportamento humano e liderança do que muito treinamentos comportamentais.

Sr. Aviz pai, obrigado pela foto que fez pra mim e mandou pelo seu filho. Com certeza, o senhor foi um exemplo edificante de uma longevidade feliz e plena de sentido.

Aviz Júnior, meu amigo, obrigado pelas mais de 8 pescarias que fez com teu pai, ao longo destes cinco anos. Tu nos inspira a procurar as nossas próprias pescarias com os nossos pais.

Brisa, obrigado por não desistir de tua ranzinza mãe. E, continuar dando amor.

Papai e mamãe, em janeiro iremos conhecer o Projeto do Peixe Boi Marinho.

Arruma a mala aí!

Mamute Alexandre, um Cantor-Pescador de Esperanças (Por Ricardo de Faria Barros)

Alexandre Lins é um pescador de esperança.  Têm pessoas que chegam em nossa vida e a iluminam. Não precisam dizer muita coisa, não precisam aconselhar, não precisam nos oferecer nada, apenas sendo quem são.

O pescador Alexandre é uma destas pessoas.

Ele é dos pescadores da Ilha de Itamaracá, situada a uns 40 km de Recife. 

Às vezes, ele sai para pescar com sua pequena e valente embarcação, a Nayara. Outras, esegue com a Aninha, barco que construiu para seu companheiro de pesca, o "Renamp".

Você deve estar se perguntando o que há de especial no Alexandre, o que há de inspirador nele? 

Responderei com uma palavra: tudo.  

No primeiros anos de pesquisa e produção de conhecimento em Psicologia Positiva, entre 1998-2005, foram entrevistadas pessoas no mundo inteiro que sob as mesmas condições dos outros, ou não adoeceram, emocionalmente falando, ou se reinventaram, ou tinham um enorme entusiasmo pela vida e o viver, e elas eram pessoas inspiradoras e diferenciadas.  

Alexandre, bem que poderia ser uma destas pessoas.  Vou contar pra vocês alguns dos saberes do Alexandre, não é justo ficarem só comigo. 

1. Ser grato em todas as ocasiões e sob todas as condições.  Muitas das vezes, só somos gratos quando as coisas vão bem, quando elas dão certo. Com Alexandre é diferente. Ele, quando puxa suas redes de pesca, ou despesca os Covos (espécie de armadilha colocada no fundo do mar) e o resultado é pequeno, com pouco ou nenhum peixe, nunca o vi não agradecer.   Ele diz assim: "Está de bom tamanho. Nós não botamos nenhum peixe no mar..."  É ou não é um pescador diferenciado, alias, um ser de luz  A mesma coisa quando pessoas más roubam os peixes de suas redes. Ele diz assim, "certamente ela estava precisando mais do que eu, e pelo menos não roubou as redes". 

"Nós não botamos nenhum...".  "Pelo menos não roubou as redes".   Quanta sabedoria em lidar com os reveses da vida. 

2. Se alegrar com o que se tem. Um dia de pescaria em alto mar é muito desgastante. Alexandre acorda de madrugada e só volta para casa pela tardinha. E ele sabe extrair poções de felicidade desta dura jornada, enfrentando chuva, ventos, ondas e o sol, numa pequena, rústica e frágil jangada, a Nayara, que não tem coberta, nem quarto, nem cabine,  e sem nenhuma estrutura de apoio, que torne a pescaria mais cômoda. Mas, Alexandre cultiva o dom de se alegrar. Com o sol que está nascendo, com a lua que já se vai, com os peixes que pesca, conversando com eles antes de colocá-los na caixa de isopor. Alegra-se com o "ventilador" do vento que balança a jangada, e faz a bandeira dela tremer. Pela tardinha, voltando para casa, muitas das vezes sem nem o dinheiro da "Lambaca", como ele chama um apurado bom que terá com os peixes, aquele que cobrirá os custos com o óleo diesel e sobrará um dinheirinho de lucro, ele cozinha no convés da Nayara.  Animado, começa a tratar os peixes e frutos do mar, e quanto maior a variedade deles mais "adubado" diz que ficará o cozido. 
Ele prepara o almoço-janta num fogareiro à lenha, disposto dentro de uma lata de tinta, e que se, segura em pé por milagre, a cada balanço do mar. Com o caldo do cozido, ele faz um pirão rústico, bem grosso, que serve de base para sobre ele deitar o cozido de peixes. Esta argamassa deliciosa é colocada numa tampa de isopor, que vira um prato-mesa, sendo nele comido com as mãos mesmo. Todo o preparo é só alegria. Alegria de viver, de desfrutar do que a vida tem a oferecer. Veja um Atoleiro em: https://www.youtube.com/watch?v=ZTdh4AFR--4

3. Mover o Carrossel do Destino.  Alexandre não é de desanimar com coisa pouca. E não é de ficar esperando a vida passar, olhando-a pela janela. Outro dia, o motor da Nayara falhou, quando estavam a uns 10 km da costa. Não havia sinal de celular para pedir socorro. E, pelo avançado da hora, nenhuma outra jangada estava voltando pra casa, e passaria perto deles. Então, ele não contou conversa, amarrou uma corda em si mesmo, pulou na água, e começou a nadar em direção à costa. Nadou por uns bons 60 minutos, até conseguir sinal de celular e chamar o socorro.  Noutra ocasião, ele resolveu fazer uma jangada maior, que pudesse pelo menos receber uma coberta, protegendo-o das chuvas, ventos e sol.  Ele foi em cidades vizinhas, atrás de madeira apropriada e a preço justo, e num barracão abandonado, começou a desenhar seu projeto, em toscas folhas de papelão, que serviam de molde. Percebendo que seu ajudante de pescaria precisava mais do que ele de uma jangada, pois ele já tinha a Nayara. Ele alterou o carrossel do destino do Renan, abriu mão do sonho da sua jangada maior, e passou a construir uma jangada para seu companheiro de pesca, que foi batizada de Aninha. Alexandre tem sempre um sonho no forno de seu viver. Ele é daqueles que busca realizá-los, e não fica só reclamando da vida, sem nada fazer para mudá-la. Neste sentido se insere a carreira dele como compositor e cantor. Sim pessoal, o Alexandre tem CD gravado, o "Chama na Calanga!" e já se apresentou até em programa de TV. Move ou não move o carrossel do destino uma pessoa assim? Pessoa que faz dos sonhos de futuro, pequenas realidades no agir do presente. 

4.  Nobres valores. Alexandre é uma pessoa otimista, boa, mansa e justa.  Os peixes menores, sem valor comercial, ele doa aos ajudantes de pescadores que ficam na praia, esperando aparecer um serviço de carregamento, ou descarregamento dos barcos maiores. Ele costuma dizer que pescador vive de esperança. E que não desiste nunca.  Seu primeiro Covo era grande e meio desengonçado, e recebeu o apelido de Mamute. E assim ficou sendo o Pescador Mamute, o Mamute Alexandre.  Em dias de vento forte não sai para o mar. Ele respeita a natureza e seus propósitos. Neste dia, ele vai para o seu "Estaleiro" e continua a fazer sua nova jangada. Sua relação com a família é de paz e de interesse para com todos. Chama as crianças de Mamutinhas e para cada uma delas tem uma palavra de inventivo. Quando as coisas estão difíceis, ele costuma brincar com a situação, dizendo que na casa dele as formigas estão comendo até o sal. Ou seja, já não há mais nada que elas possam se aproveitar, e comem o sal.  O que restou. Usa de um esperto humor pra levar a vida, com mais leveza. Ele fala sorrindo, com olhos amigos e ternos para com a vida, sem murmuração, sem se maldizer, dizendo que ao redor do caldeirão tudo é beira. Fita o horizonte e professa que no outro dia a pescaria será melhor, esperando que no amanhã que se aproxima as redes sejam mais generosas para com ele, que está "sendo judiado".

5. Sabedoria e Espiritualidade.  Um dia perguntei ao Alexandre com que olhar ele vê a vida. E ele respondeu de forma muito bonita, a que reproduzo aqui:  "Devemos ter fé, positividade e alegria de viver. A vida já é bastante dura para você andar se lamentando. Devemos procurar viver com esperança e alegria, acreditando que Deus tem preparado o melhor para os que Nele acreditam.  Tenho uma máxima sobre o Passado, o Presente e o Futuro.  O Passado, nos ensina mutia coisa, dele tiramos aprendizado tanto das coisas boas como das ruins. O Presente, nele se vive da certeza que tivemos um passado, qual ele tenha sido, e assim podemos viver o presente mais intensamente. Colocando em prática, com os aprendizados do passado, a melhor forma de viver com o nosso semelhante e a natureza. O Futuro precisa ser planejado, esperando que Deus possa realizá-lo. E eu entendo que todo mundo vive o Futuro, porque a cada milésimo de segundo que passou, vivemos o passado, o presente e o futuro, e ao mesmo tempo".  Uauuu!!!  Para quem leu filosofia existencial, na obra de Sartre, por exemplo, chamada o Ser e o Nada, o Alexandre resolveu uma das inquietações daquele autor, sobre a brevidade e singularidade da vida. Um humilde pescador, ensinou o que doutores em filosofia ainda procuram aprender. Que o sentido na vida está em cada segundo vivido, em viver o que se vive de forma intensa, pois logo ali já será passado, e que longe de assustar, este passado, se tece ao presente, antecipando o futuro planejado, em ações cotidianas, no aqui e agora.  Caraca, o Alexandre foi longe nesta sua descrição, transcrita de forma literal, do seu olhar sobre a vida e o viver. Um olhar holístico, integrado, complexo e multifacetado, que considera o tempo como capital, investido num aqui e agora sempre presente.

Deixo-vos com um trecho da música Mundo Melhor, composta e cantada por ele, vejam que bela mensagem:

"Pense nas coisas que trazem alegria.
O mundo precisa de paz e harmonia.
Esqueça as mágoas, esqueça o rancor.
Viva a vida com mais amor..."

Falou tudo amigo pescador!
Um Pescador de Esperanças.


Contatos com Alexandre:

Canal Youtube:  https://www.youtube.com/channel/UC9ZalI3xTcPdOHn8CFzyjoA
Instagran: https://www.instagram.com/mamutealexandrelins/
https://www.facebook.com/alexandre.lins.7315

Não era apenas um pastel e um Ki-Suco. (Autor Ricardo de Faria Barros)

A pauta seguia faceira, numa manhã de deserto no Distrito Federal, e lá para as bandas de São Sebastião.  Acabara de sair do corte do cabelo, por R$ 12,00 na máquina 2.0, e com direito a aparo da barba-noel e uma boa prosa.

A meta agora era levar o carro para lavar.  Saí zanzando, sem compromisso com algum, até que lava-jato de esquina chamou-me a atenção com placa nele afixada: "Promoção para Uber".

Pensei, é irmão ajudando irmão, numa sinergia perfeita.

Então, é neste que vou parar.

Esperando o trato o carro, devidamente acomodado em tamborete de falso equilíbrio, adentra o recinto um jovem vendedor ambulante. Montado em sua bike, oferece pastel e suco por R$ 1,00. Os lavadores do carro estabelecem prosa amiga com ele, que pelo visto os têm como clientes.

Aproveito e compro um pastel e experimento o suco. Delícia para ambos, com destaque para o suco de Ki-Suco que há uns 40 anos não provava novamente.

Financiei dois para os lavadores, e puxei o banquinho para perto do vendedor, admirando sua bicicleta.

Era uma daquelas bicicletas da marca Monark, das antigas, e totalmente original.

O vendedor falava dela com orgulho, "é puro ferro, nunca quebrou, e aguenta peso", dizia sorridente.

Perguntei-lhe seu nome, ao que me respondeu, Everaldo.

A partir daí fui enchendo-me de vida com a história de vida do Everaldo.

Ele tinha sido aprendiz de cozinheiro, em restaurante de Brasília, e lá aprendeu "no olho" a como tratar com carinho as carnes, e logo tornou-se um mestre-açougueiro. Um craque em abrir um boi inteiro, retalhando-o em cortes apropriados.

Saiu do restaurante, e achou emprego perto de sua casa, sendo o responsável pelos cortes das carnes que um mercado comprava no atacado.

Everaldo tinha um papo fluído e sem nenhuma pressa. Nem ele, nem eu. Perguntei-lhe quantos pasteis ainda havia para vender, ele falou que uns 8. Que já vendera mais do que a meta da manhã, ou seja, 92.   Nesta hora chegou um de seus clientes, e comprou cinco, para mecânicos de uma oficina à frente. Arrematei os 3 restantes para levar para Sr. Valdecir, o qual visitaria ao sair dali.

Everaldo me contou que estava precisando melhorar a renda, e que um dia pensou em fazer comida pra vender na frente do mercado. Mas, não podia ser nada que o mercado oferecia. Tinha que ser algo que não concorresse com o patrão.

Pensou nos pastéis e sucos. Mas, faltava-lhe o dinheiro pra começar. Tinha gasto todo o salário do mês, e aquele sonho ficaria para depois.

Não sabia ele, que os sonhos são o plural de uma vida singular. E, quem os têm, nunca estará vazio.

Contudo, sonho a sonho, mês a mês, e a coisa não melhorava, e não sobrava nada. Ele temia gastar o pouco dinheiro que tinha, e não conseguir colocar os produtos, ficando no prejuízo.

Um dia, ao terminar de cortar as carnes de um boi que o patrão adquirira, ele foi convidado para ir noutro estabelecimento, fora de sua jornada, e ajudá-lo a retalhar um boi. 

Mesmo sendo fora do horário, e sem ganhar nada em troca pelo serviço adicional, ele topou na hora.

Varou a madrugada retalhando o boi, ao final o patrão perguntou quanto ele queria pelo serviço extra. Ele, humildemente, falou que receberia qualquer coisa. Que não fez por obrigação, mas que queria ajudá-lo.

O patrão abriu a carteira e deu duas notas pra ele. Uma de 50 e outra de 20.

Everaldo sorriu, e pensou consigo, agora meu sonho vai acontecer.

No outro dia, comprou massa de pastel, queijo e carne moída, e Ki-Suco (rsrsrs).

Acordou de madrugada, a segunda noite sem dormir, e foi preparar os pastéis. Com o material fez logo cem. Arrumou com um vizinho uma caixa de isopor, atrepou-a na bicicleta, botou os sucos em garrafas pets. E saiu bem cedo fazendo a rota em direção ao Mercado, onde só tinha boi para retalhar lá pelas 11h.

Surpreso, viu que o povo comia um, e logo pedia outro. Gostaram do tempero do Everaldo. Em frente ao mercado deixou a bike, com um cartaz anunciando o produto, e logo os 100 pastéis foram vendidos. Como tinha uma espécie de horário flexível, pois dependia dos bois que chegavam, muitos deles à noite, aproveitou a tarde para fazer outra fornada, e vendeu tudo outra vez. 

Cada cem pasteis vendidos tirava os 70 de custos, e ainda sobrava uns 20, já reservando 10 para o gás.

Passou a ganhar 40 por dia, 20 em cada turno, e melhorou de vida.

Logo os clientes fiéis, em sua maioria das oficinas da região, perguntaram-lhe se ele não tinha quentinhas.

Então, ele passou a fazê-las, a um preço de R$ 8,00, mas com ingredientes bem escolhidos e tempero no capricho.

Ele me falou, sorrindo, que o que dá sabor é panela pequena.  Que aprendeu a cozinhar e que se sente um verdadeiro Chef, Chef Everaldo. E que comida feita em panelões industriais é difícil de pegar o tempero. Por isso a dele é tão boa, ele faz pequenas quantidades e trata a cada uma delas com muito carinho, e põe amor na mão que tempera.

Suas quentinhas não dão para ninguém, logo vendem. Todo mundo gosta de preço justo e qualidade superior, não é?

Ele mostra as fotos delas, dos cortes de carne, e dos pasteis. Sua expressão ao mostrar as fotos é de orgulho. De um trabalhador orgulhoso com os frutos de seu trabalho. 

Conta que o sonho dele é abrir um ponto, para vender jantinhas à noite, espetinhos, caldos... E,  nos finais de semana, feijoada. Diz que faz um feijoada invejável, daquelas de comer ajoelhado, agradecendo a Deus.

Olha no relógio, e comenta: xiii!!!, já são dez horas, é hora de fazer as quentinhas.

"O dia promete, e hoje ainda tem um boi para retalhar à noite", diz sorrindo, de bem com a vida, e com olhos faiscantes, enebriados com as possibilidades de alterar o carrossel do destino de sua Vida Severina.

Vai Everaldo, abre teu ponto de espetinhos de gatos e caldos.

Vai Everaldo, e supera teus condicionantes e circunstâncias da vida e do viver.

Vai Everaldo, segue nos inspirando a também fazer nossos próprios pasteis, alterando os cursos de nossa vida e do viver, e para melhor.  

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Obs: Abaixo o contato do Chef Everaldo, para quem quiser encomendar pastéis, caldos, feijoada, churrasco, ou apenas pra quem quiser mandar uma mensagem pra ele de incentivo.  Em breve, os convidarei para uma vaquinha para comprarmos o carrinho de churrasco de gato dele. Colocarei por aqui. Antes, vou pergunta-lhe de que ele precisa para o ponto.  Chef Everaldo 061 981470981

Quanto tempo tem o tempo de uma espera? (Ricardo de Faria Barros)


Quanto tempo tem o tempo de uma espera?

Com esta pergunta, a mim proferida, convidei-lhe para sentar à minha mesa.

Era um domingo de sol, tinha levado a radiola portátil e uns vinis para ouvir no Libanus, tradicional bar aqui de Brasília, já com  30 anos de candango. O som baixinho de Martinho da Vila era suficiente para nós dois nos deliciarmos, e podermos conversar. 
Ele era um dos vendedores ambulantes, que frequentam os bares do DF, vendendo a revista Traços. Uma iniciativa super bacana, que divulga a vida de moradores de rua, e a arte contemporânea que rola na cidade, com parte da renda destinada ao custeio de projetos sociais junto a estes moradores, inclusive deles mesmos. 

Sentou-se e me fitou, esperando minha resposta.

Sorridente, disse-lhe que tempo algum. Aí, ele abriu um sorriso maroto, e disse: "Acertou!"

Bem ainda não sei se acertei, e ele só queria me agradar. Só sei que fez sentido para mim.

Tem como colocar nas métricas de um relógio o tempo da espera?

Jamais!

A mãe que espera o filho nascer, não espera nove meses. Espera por séculos aquele encontro.

O jovem que esperou por dois anos ser chamado para um concurso, esperou por dois anos?  Nada disso, foram duas décadas.

Um casal que vive os afetos de amores à distancia, quando se encontram, por míseras duas horas, são duas horas, ou dois segundos, a percepção da frugalidade e rapidez da eternidade do que ali ocorreu?

Bobinho somos nós de querer entender o tempo usando para isso relógios.

Relógios apenas marcam o tempo das coisas. Não medem o tempo das poesias, das buscas, das culpas, das esperas, das graças e desgraças. 

Na mesa ao lado, dois músicos se encontram. Um ainda se levantando da perfomance que fez durante a madrugada. Outro, preparando-se para mais tarde fazer a sua.

É um encontro atemporal. Nós os flagramos, enamorados pelos instrumentos que carregavam.

Do nada, começam a tocar baixinho. Não há musica no Libanus, e faz parte da tradição da casa não ter. Eles pediram autorização para cantarem só entre si, no local embaixo das árvores, no britão, e em profunda comunhão com o espaço-tempo. Seguem, um no Tam Tam, instrumento de percussão, outro no violão. 

Desligo a vitrola para prestigiá-los. Os músicos começam com Candeia, com uma de suas músicas imortalizada por Cartola, "Preciso me Encontrar".

"Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar 

Meu agora amigo, o Francisco, o que vendia as revistas Traços, diz que é a música da vida dele.
E que também se encontrou, mas que levou tempo, e que teve mutia gente que lhe ajudou, para as quais é eternamente grato. 
Pede que eu abra a revista, que tem uma reportagem com ele, feita por José Rezende.
Na caixa alta da matéria, um de seus relatos: "Minha história é um pouco triste. Teve coisas boas também, porque a gente não nasce só pra sofrer desgosto, mas também pra ter alguma felicidade na vida."

Hoje folheei a revista para ler a história do Chico.  E que história!  De uma vida que tinha tudo pra já ter sido abortada pela violência, pelo submundo do crime, pelo lugar social do risco social, que leva tudo e todos para lugar nenhum.

Mas, Chico sabia que podia subverter o pior dos tempos, o tempo predestinado. Poderia refazer-se, e buscar suas "algumas felicidades na vida".

E assim o fez, ajudado, como ele muito bem falou, por algumas pessoas-anjo que nele acreditaram.

Um dos maiores estudiosos da autoeficácia, capacidade que temos de acreditar que com nossos próprios recursos: materiais, emocionais, cognitivos podemos fazer acontecer, o Antonio Bandura (1977) é categórico ao afirmar que uma das formas de se incentivar a autoeficácia são as palavras que recebemos de alguém, um alguém que nos inspira, que diz a nós mesmos que nos podemos ser mais do que somos, fazer mais do que somos. e superar nossos próprios condicionantes.

Uauu!!

Volto ao tempo, ao Chico, aos músicos, ao Preciso me Encontrar, e celebro a importância das pessoas que nos fazem o tempo parar, para escutá-las e segui-las.

Pessoas que nós dizem: Vai lá e faz, você é capaz, eu confio em você!

Disseram isto para o Chico, e transformaram sua vida.

Podemos dizer isto aos nossos liderados, podemos dizer isto aos nossos filhos, aos nossos parceiros afetivos e amigos. 

Podemos ser estímulo, apoio, ponte, incentivo e orientação. 

Podemos, fazer o tempo parar, acolhendo o outro em nosso viver, motivando e mobilizando-o ao Ser +.   Talvez a maior atitude que possamos ter, em tempos de tanta pequenez emocional, seja dizer a alguém, Eu Acredito em Você!

Aproximo-me dos músicos, pego uma garrafa para acompanhá-los, Chico se despede e segue para outras mesas, precisa bater sua meta de vendas. 

Peço uma música para ele, para nós, Corre e Olhe o Céu, do mestre Cartola, que fala do tempo.

"Vida. Te sinto mais bela. 
E fico na espera. 
Me sinto tão só. 
Mas o tempo que passa.
Em dor maior. 
Bem maior.
Linda. No que se apresenta.
O triste se ausenta.
Fez-se a alegria. 
Corre e olha o céu. 
Que o sol vem trazer.
Bom dia."

O tempo que passa, em dó maior, um bem maior.  Grande Cartola, disse tudo.  

 


Na Bike do Gilmar (Autor Ricardo de Faria Barros)

Gilmar e Silvia
Desembarquei em Curitiba e um motorista da Copel (Companhia Paranaense de Energia) esperava-me para levar-me, 400 km adentro, para o local do evento no qual eu iria palestrar, em Faxinal do Céu-PR.
Cheguei cansado, após uma maratona na madrugada, pegando os "vôos do padeiro", e ainda recuperando-me de um forte gripe que assolava a metade da população do DF. 
Estava propenso a pedir desculpas ao motorista, e me dirigir ao banco de trás para tirar um cochilo. 
Avistando-lhe com uma placa indicativa, dirigi-me a ele e o saudei.
- Sou o Ricardo, o da palestra na Copel.
- Sou o Gilmar, teu motorista. 

Abrindo um sorriso sincero de quem gosta do que faz.  Antes que eu pudesse dizer algo, ele foi logo debulhando umas letrinhas.

- Sr. Ricardo, logo ali no início da BR poderemos parar para o senhor tomar um cafezinho e se recuperar da viagem.

Uauuuu. Como dormir depois desta delicadeza no trato?

Busquei o restim de gás que ainda tinha e fui fazer uma das coisas que mais me causam alegria, catar histórias de gente. Sou colecionador de pessoas inspiradoras.

- E aí Gilmar, há muito tempo na Copel?

Daí por diante, tive acesso a uma história de vida tão bela, tão bela, que não poderia deixar somente  nas minhas memórias.

Há dez anos Gilmar trabalhava como motorista, de um pool de montadoras de veículos que operava no Paraná. 

Mas, sua esposa, a Silvia, botou na cabeça pra ele fazer o concurso pra motorista da Copel. 
Quando ele retrucou que já tinha um bom emprego, ela disse que ele já estava inscrito no concurso, que ela fizera a inscrição dele, e que as provas seriam no próximo sábado.
Contrariado, e sem muita força pra retrucar a Silvia, ele ouviu dela que as vendas de veículos estavam em queda e que o emprego dele corria riscos.
Gilmar fez a prova e ficou entre os melhores colocados, no cadastro de reservas. Meses depois, ele estava na listagem de demitidos da montadora. 
Passou a fazer uns bicos, "carregando combustível para Petrobrás", como motorista terceirizado. Passou a ganhar bem menos, e a sonhar em ser chamado. 

Até que este dia aconteceu. Quando assumiu o posto, a Silvia o incentivou a fazer todos os cursos, a andar na linha, dirigir com eficácia e a ser o melhor motorista que pudesse ser, sem desmerecer ou pisar em ninguém.  Gilmar seguiu à risca os conselhos, e foi galgando degraus na carreira, até integrar o seleto grupo de motoristas que conduzem os Diretores e o Presidente da Copel, pelo estado do Paraná. 

Perguntei como ele conheceu a Silvia.  Não sei você, mas eu gosto de um romance.

Ele contou que o motivo foi um rio.  Caí na risada. 

Quando eles eram adolescentes estudavam na mesma escola primária.  Depois, já crescidos, ele passou a ser observado por ela, de uma casa na outra margem do rio. A casa dele era no final da rua, um beco sem saída, que tinha no rio sua barreira. A dela, era do mesmo jeito, contudo do outro lado do rio.

Enquanto ele exercitava seus bíceps, consertando ou lavando a bicicleta, na margem do rio. A Silvia da outra margem contemplava aquele "Bifão", apelido tempos depois revelado por ela, para descrevê-lo, nas desejadas manhãs de sábado, dia de lavar a bicicleta, e a alma dela. rsrs

Mas, tudo era muito platônico, e Gilmar nem sonhava que estava sendo paquerado. Concentrado que estava entre pneus, jantes e o polimento de sua magrela. 

Muitos anos depois, os dois se encontram trabalhando na mesma região de Curitiba. Ela fazendo faxina num prédio comercial, ele fazendo entregas num caminhão.

E o amor, antes suspirante em olhares lânguidos da outra margem do rio, agora se faz presente entre eles.

Juntos, passaram a formar família, e o Gilmar assumiu a paternidade do bebezinho da Silvia, de menos de dois anos.
Gilmar me conta que já se vão uns 25 anos de companheirismo. E que a Silvia é a sua parceira nas  trilhas turística de bicicleta que organiza.

Como assim, Gilmar?

- "É Sr. Ricardo. A  Silvia me incentivou a fazer de minha paixão por bicicleta um negócio. Então comecei a montar grupos para pedalar por Curitiba e imediações, primeiro no prédio onde morávamos, depois no trabalho, e depois no evangelismo da igreja Bola de Neve da qual faço parte.
O negócio prosperou e hoje tenho uma pequena empresa a Gil Simon Bike Tour. (Veja em https://www.facebook.com/ssimondiz/) . Eu monto grupos para conhecermos lugares especiais no Paraná, muitos deles só acessíveis de bike. Por falar em lugares especiais, quer parar no Mirante da Serra da Esperança, logo ali á frente na estrada?."

Acenei com a cabeça, e o que vi foi um pedacinho de paraíso. Escavado do alto da Serra da Esperança, entre Curitiba e Guarapuava, o belo mirante faz amansar vistas cansadas, deitando-as por cima de vales, morros e pedaços de névoas brincantes, que teimam em se anovelar nas copas das Araucárias, daquelas enormes, que ficam com braços erguidos para o alto, como que em gratidão.

Voltando ao carro, ele disse que aprendeu sobre aquele lugar estudando. E que foi a Silvia quem o incentivou a estudar, assim como ela fez consigo mesma.  Ela fez auxiliar de enfermagem, técnica de enfermagem, enfermagem do trabalho e não satisfeita foi fazer Direito, agora já formada e atuando. 

Contou-me que como gostava muito de levar o pessoal para pedalar de bike por sítios históricos, e lugares bonitos da natureza, ela o incentivou a fazer Turismo. Gilmar já está quase concluindo o curso. E será o mais novo turismólogo do Brasil.  

Paramos para almoçar e perguntei como andava a vida do filhote e se tinha netos. 

Quando falou do filho, o Augusto, os olhos relampejaram de emoção. Quando falou do Joaquim, seu único neto, dos olhos saíram raios de felicidade. 

Contou a saga do Augusto, que após terminar um curso na área de tecnologia da informação, não vinha satisfeito com o rendimento do trabalho. Augusto conversou com os pais e disse que iria mudar de ramo. Que faria um curso de barbeiro. Os pais logo o apoiaram.
Mas, ao terminar o curso, quem disse que ele tinha dinheiro para investir nos equipamentos e aluguel de um ponto.

Então, a Sílvia lembrou que um antigo barbeiro do Sindicato dos Metalúrgicos não trabalhava mais, e quem sabe ele tinha ainda a cadeira.
O casal foi lá e conversando com o Sr. Joaquim, o antigo barbeiro do Sindicato, descobriram que não somente ele tinha a cadeira, como era uma daquelas de antigos salões, caríssimas, e que ele iria "vendê-la" para eles, envolvido de forma empática com a história do Augusto, por 10% do valor de mercado, quase uma doação, saindo por R$ 200,00.

O casal botou a cadeira no carro e colocaram-na na cozinha da casa onde moravam. Disseram então ao filho, que cadeira e local ele já tinha para cortar o cabelo e fazer a barba de seus clientes. 

E o Augusto, vibrando de alegria, começou a arregimentar cobaias na rua, entre amigos e familiares, e o povo da igreja Bola de Neve. Para ir treinando, na cabeça de amigos, só com e por Deus na causa. rsrs

E não é que deu certo!

O perfeito corte do Augusto foi passando de boca em boca, logo a cozinha ficara apertada e ele alugou, na raça e na fé, uma sala próxima a um shopping de Curitiba. Não deu outra, os clientes atravessavam a rua e iam cortar com ele, na sua primeira barbearia, a "Vonbarbarov". Veja em: (https://www.facebook.com/barbeariavonbarbarov/?tn-str=k*F

Hoje já são cinco Vons que existem em Curitiba, sendo local até de curso para novos barbeiros. Mas, o maior orgulho é do filho ser um evangelista e levar a palavra de Jesus a muitas pessoas que estão sem luz.

O Joaquim é seu xodó, tem 2 anos, e adora cantar com o avô.  

Quando comecei a palestra, cujo tema era empatia, falei que empatia é um profundo gesto de amor.  Pois é por amor que nos interessamos, nos conectamos, apoiamos e nos irmanamos ao outro. Conseguindo, tal qual milagre, perceber e sentir um pouco de sua vida, do lugar e forma com a qual  ele a nós se revela.

E agradeci ao Gilmar, que timidamente sentava-se numa das últimas filas, daquele auditório com mais de 170 pessoas.   

Encerrando a palestra, falei que em 1990 fora descoberto os neurônios-espelho. Áreas de nosso cérebro que se acendem em sinapses, quando temos acesso a histórias de vida dos outros - tristes ou alegres, desde que captadas de forma intensa e verdadeira. E que, este acendimento gera um hormônio chamado de oxitocina, que é o catalizador das relações sociais.

Ou seja, ter empatia não só nos torna melhores, como seres humanos, como ainda assim nos fornece, e "de grátis" uma farta dose do hormônio das vinculações sociais.

Encerrando a palestra, fizemos uma dinâmica com velas, pedindo que eles quando chegassem em casa, acendessem uma vela, ali entregue, para quem é luz para eles.

Agora à tarde, escrevendo esta crônica, recebo do Gilmar o momento em que ele acende a vela para a Silvia, quando retornou ao lar.

Para quem você acederá uma vela de gratidão hoje?  Quem é teu neurônio-espelho em forma de gente, aquela pessoa que quando aparece faz brilhar em ti a melhor luz?  

Tenho muitas pessoas-vela, que me fazem brilhar. Mas, a uma em especial eu dedico esta crônica, a minha Brisa Aracati. Aquela que mesmo quando tudo está um breu, lá pelos novelos de meu pensar, ou pesar, quando eu a vejo,  fagulhas de luz explodem e iluminam o meu existir. E, o dia amanhece novamente! 

Os Gerontolescentes. (Autor Ricardo de Faria Barros)


No tempo da internet das coisas também existem as febres, as febres digitais.
A da hora é o envelhecimento de fotos, quando um aplicativo projeta como será a pessoa, anos luz à frente.
E as reações são de toda ordem quando acessam a imagem que o tal do FaceApp produz. Umas pessoas ficam confortáveis, outras incomodadas, outras ainda pregam peças com os amigos tirando onda das rogas deles.

Umas até ficam tristes, ao se perceberem diferentes.  Tadinhas, sabem nada da vida!

Brincadeiras a parte, o que se abstrai da leitura dos comentários, tanto no Instagran quanto no Face, é  um estranhamento ao novo fenômeno da velhice, reforçando antigos esterótipos do ser velho.  Como se isto representasse o que vem ocorrendo no mundo todo, no que chamamos de revolução da longevidade, ou a gerotonlescência.

E não representa. Ufa!

Não tive a menor curiosidade de olhar para mim no futuro. Quero chegar lá como sou agora, e do ponto de vista de meus valores. Quanto à beleza física, de que lugar ela vai ser avaliada mesmo? E por quem? E com base em que padrão? O da indústria da beleza, da mídia que vende formas aceitáveis, ou dos corpos politicamente correto? Estou fora.

Se quanto às rugas biológicas não se pode fazer muita coisa, na luta implacável da pele contra o Senhor das Horas, o Tempo.  Mesmo muitos se esforçando, um estica dali, estica daqui, um botox aqui, um creminho ali, uma massagem, uma alimentação adequada, um cuidado com o sol...e por aí vai. Quanto as rugas emocionais pode-se fazer mutia coisa.

Prefiro me tornar um velhote todo enrugado, na face, mas com a pele interior lisinha, qual bunda de bebê.
De que adianta tanto esforço em manter a pele exterior jovem, quando a interior decai em intrigas, invejas, mágoas, falta de perdão, reclamações, rabugices, pessimismo, desesperança e chatice?

Inevitavelmente o tempo deixará em nós suas marcas evolutivas. Não só em nós, mas em todos os seres vivos. E, por mais esticada que nossa pele esteja, outros atributos denunciarão nossa idade.

E qual o problema?

Pelo que li, em alguns posts, parece que as pessoas temem a velhice, qual temem a morte.

Não sabem elas que este conceito mudou completamente. Não há mais uma cultura de "descer as escadas da vida para acessar os porões da morte", após passar dos 50.
Muito pelo contrário. A ideia agora é como se preparar melhor para chegar aos 100, no mínimo.

E, quanto mais cedo comece esta preparaão, melhor será.

Ela envolve o acúmulo de cinco capitais. A boa notícia é que se você tiver três deles, de forma bem consistente e intensa, já terá uma envelhescência maravilhosa. Os capitais da longevidade são:

1. Biológico - Cuidados com o corpo, promoção de uma cultura de fomento à saúde.

2. Financeiro - Adequação do estilo de vida á renda, garantindo o acesso aos alimentos, moradia, medicamentos e lazer.

3. Social - Participação e cultivo de laços e vínculos com os mais diversos grupos sociais: religiosos, esportivos, culturais...

4. Humano - Postura de "aprendente", não parar de desenvolver habildiades, conhecimentos e atitudes. Continuar conhecendo e tendo curiosidade e espanto em descobri algo novo.

5. Capital Psicológico Positivo - Formado pela combinação sinérgica de quatro competências sócio-emocionais: a esperança, o otimismo, a resiliência e a autoeficácia (crença de que com os recursos disponíveis irá entregar algum resultado).

As pesquisas com longevos felizes (The Grant Study, Okinawa, Rosseto, Louisiana)  mostraram que a ativação de apenas três capitais, dos relatados acima, com o seu investimento na vida longeva, torna a vida mais plena e feliz.
Por exemplo, alguns longevos que enfrentam déficits na saúde, mas mantém um forte espírito de vinculação social, esperança, e ainda continuam curiosos em aprender algo, compensam o pouco capital biológico, alterando a modulação da percepção geral do estado de ânimo, para a de um bem-estar subjetivo, apesar das doenças e limitações físicas que enfrenta.

Assim como verificado junto a longevos com pouco recursos financeiros, ou vivendo em condições de risco social. Mais uma vez, quando os outros capitais estão presentes, pelo menos três deles, o enfrentamento da situação financeira não compromete a saúde emocional.

Então, eu resumiria que o segredo de uma pele lisinha interior é manter a cabeça ocupada e o coração aquecido.  Vida ativa, participação social, vontade de aprender coisas novas, são a fonte da vitalidade.

Todo mundo conhece alguém com mais de 80, ou não?  Daqui a alguns anos você conhecerá alguém com 100, em cada esquina.

Então, a ideia que a placa de estacionamento reservado passa, nas vagas de idosos, como uma pessoa andando de bengala, tipo um "encostado da vida", é cada vez menos representativa do que vem ocorrendo, mundo afora.

Os gerotonlescentes estão fazendo com suas bengalas verdadeiros cajados.

E, eles não têm vergonha de seus rostos, amassados pelas prensas do tempo. Pelo contrário, consideram-nos troféus. Orgulhosos e classudos, estes "novos velhos" estão participando ativamente da vida, estudando, namorando, conhecendo novos lugares em suas próprias cidades, abrindo negócios, e sem medo de ser feliz, nem do espelho - até o pior deles, o que se revela no olhar estereotipados de pessoas que se acham dentro de uma piscina de formol.

Obs: O termo gerontolescente, ou gerontolescência, foi criado pelo geriatra, e especialista nas questões da revolução da longevidade, o médico brasileiro Alexandre Kalache.

Um dia difícil (Autor Ricardo de Faria Barros)

Todo mundo tem aquele dia no qual uma sucessão de fatos negativos ocorrem, transformando-o em algo asfixiante e pesado.
Ontem vivi um destes dias.  Tudo começou ao ir buscar o notebook do JG, na assistência técnica, após receber ligação de que o mesmo estava consertado.  Ao recebê-lo, constatamos um sério equívoco. O micro consertado e nos entregue não era o nosso. Eles cometeram um erro. E, nos garantiram que iriam encontrar com quem estava o nosso.
Saindo dali, recebi uma notificação de que minha empresa, a Ânimo, tinha entrada na Dívida Ativa da União, por algum recolhimento de imposto não efetivado. Pensei comigo, vou matar meu contador, ahh se vou! 
No caminho para a aula, resolvi cortar o cabelo e aparar a barba. Entre uma navalha e outra, acabei discutindo com a namorada, e por besteira. 
Chegando ao IBMEC, local que dou aula, recebo uma mensagem no WhatsApp, do tipo "comida de rabo individual - CRI", de minha mãe. Ocorre que não gostou de uma foto que postei no Insta e Face e me deu uma regulada.
Já era pelas 18hrs, os pensamentos negativos de um dia difícil se encaracolavam, grudavam e atormentavam meu ser.
Eles ficavam em loop, sendo ruminados em nuvens de pensamentos cíclicos e sufocantes: notebook-impostos-love-mãe-notebook-impostos-love-mãe-notebook-impostos-love-mãe.
Então resolvi intervir.
Aprendi, com os fundamentos da psicologia positiva, que precisamos fazer intervenções em nosso processamento cerebral, na forma como as emoções e pensamentos operaram.
Então, como ainda faltava uma hora antes da aula, levei-me para distrair o meu pensar, afastando o fixar no pesar.
Isto é uma arte. Chamo de cuidados paliativos emocionais.  Eles não solucionam o problema. Mas, não agravam a ferida. Por isso são paliativos. Como se botássemos um esparadrapo numa ferida, para que ela não infecione e complique mais ainda.
Não resolverão o notebook e os impostos, pelo menos no momento. Mas, ajudarão a perceber outras coisas que podem existir ao lado dos problemas. Tirando o olhar deles, e reenergizando os ser.
Saí para caminhar, e logo na calçada percebi um belo pôr do sol que tingia tudo de vermelho, daqueles que só no DF tem.
Uaaauuu, que lindo.
Resolvi caminhar descendo a avenida, dobrando a esquerda, num trajeto diferente do que sempre faço.
Logo notei uma árvore, que tinha uma florada diferente. Uma flor laranja, avermelhada, que não conhecia ainda. Uma bela flor.
Passando à frente do jornal Correio Braziliense, no Setor de Indústrias Gráficas, resolvi parar numa barraquinha na calçada, e pedir um café com tapioca.
Descobri que a dona era chamada por todos de Tia. E ela foi logo se desculpando dizendo que levaria um pouco mais de tempo, pois estava sozinha.
E uma lágrima desceu pelas suas faces.
Perguntei-lhe o que ocorrera.
Então, ela me contou que nos últimos meses perdeu os dois ajudantes, o marido e o filho.
O marido, por se sentir enlutado em casa e sem condições de trabalhar.
O filho, por ter falecido.
Ele tinha 27 anos, era seu braço direito, o marido o esquerdo.
Faleceu de morte súbita, quando estavam na igreja. Disse-me que ele teve um "treco no coração".
Ela contou que não pode se deixar morrer também. Que está vindo trabalhar à força. Mas que precisa reerguer o marido, e continuar tocando a vida e o pequeno negócio deles.
Que, entre um pedido e outro, no estilo Delivery, quem ia deixar era o filho.
O fato havia ocorrido há 5 meses. E a dor ainda estava insuportável.  Contou-me que precisava falar com um psicólogo, mas não tinha tempo nem recursos para tal.
Então, coloquei-me a disposição e trocamos alguns dedos de prosa.
Terapêutica prosa, para ambos.
As pessoas queriam que ela não chorasse, não falasse mais do filho, não rememorasse. Queriam que ela fosse forte, virasse a página, e não a consideravam em sua dor e luto.
Eles não faziam por mal, queriam ajudá-la, mas ela se sentia pior ainda. Culpada por sofrer e ficar triste.
Então, disse-lhe que ela tinha direito ao luto. Ao sofrer, ao chorar, ao relembrar do filho e contar do quanto ele fazia-lhe falta.
Tia me disse que todos os dias ainda louvava a Deus por tudo. E que nos domingos visitava hospitais, levando a palavra. Que ela tinha acolhido a vontade Dele, em levar o filho dela, embora algumas vezes brigasse com Ele, disto ter ocorrido tão cedo.
Que santa mulher!
Sua meta de vida, no momento, era cuidar do marido, para que ele não adoeça de tristeza, ou adentre no álcool, como fuga da dor.
Sem nem perceber o tempo, despedi-me correndo, prometendo voltar na próxima semana, para mais um café terapêutico.  E pedi que ela convença o marido a tomar um café comigo.
Ela me abraçou, agradecendo a escuta, balbuciando que finalmente alguém tinha entendido a sua dor.
Achamos que temos problemas, que eles são insolúveis.  Até nos deparar com pessoas vivendo situações, para as quais não há dia após dia que possa resolvê-las, por sua característica terminativa.

Precisamos aprender a conter o rio de pensamentos negativos que ficam rodando em nosso ser. O que não significa se tornar um alienado, esquecer os problemas, ou não enfrentá-los.

Significa possibilitar um espaço de refrigério do ser, um refresco para alma, seja vendo um sol que se põe, uma flor que se abre, ou acolhendo a dor de uma mãe que enterrou seu filho - servindo!

Quando voltamos destes "passeios existenciais" estaremos mais fortes para enfrentar as situações, encontrar saídas inovadoras, e ser mais engajados em fazer acontecer o que de fato queremos que ocorra.

O desânimo nos deixa impotentes, o medo nos imobiliza, e o excesso de estresse nos tira o vigor.  Então, precisamos deste termômetro interior  pra saber a hora em que precisamos intervir, em nós mesmos, para não sermos tolhidos pelo pessimismo que rouba o que de mais sagrado existe no ser humano, a esperança!




Aos que Semeiam Esperança! (Por Ricardo de Faria Barros)

Era uma vez um povo que nas noites frias reunia-se ao redor das fogueiras,  feitas com os restos de  de suas vidas.
Muito ficavam horas ali, perfilados, sem murmurarem queixumes, sem falarem do tempo, sem comentarem sobre o último que partiu, ou repararem os que por ali chegavam.
Apenas se aqueciam, deixando seu ser perambular, entre as chamas brincantes que teimavam em  escapar da sina de queimar junto.
Numa grande panela, um caldeirão de sopa coletiva e rala fervia. Feita com as com raras e minguadas batatas, retiradas do que restou das plantações, baús e escombros.
Então, dirigiam-se até ela, enchiam seus pratos, sorviam aquele alimento, sem se falarem, pois não mais se reconheciam como iguais.
Eles viviam naquela rotina há meses, até que numa noite algo ocorreu.
Havia uma pessoa diferente, arrodeando o fogo, logo notada por todos.
Perceberam que ela não era dali, era forasteira.
Tinha um semblante altivo, embora esquálido pela fome. E, ela fazia coisas diferentes deles. Vez por outra ela botava uma lenha no fogo, para não deixar apagar. E ia em direção à panela mexer, atitude que muitos reprovavam, em expressões faciais, já que não mais se falavam.
Ora, para que mexer uma panela de sopa, feita com dez litros de água e uma única batata?
Não havia lógica.
Na outra noite, não satisfeita em atiçar o fogo e mexer o caldeirão, Carmina começou a cantar uma velha canção, para desaprovação de muitos.
Os pensamentos deles trocavam ideia entre si, no silêncio dos porões espirituais.
- Como pode esta senhora cantar, diante de tudo que estamos passando? Pensou o mais alto do grupo.
Ao que o outro pensamento, em diálogos espirituais, endossou dizendo.
- Só pode ser maluca, é preciso que tenhamos cuidado com ela. Poderá inclusive botar algo na sopa. é bom prestar atenção nela.
Contudo, entre os presentes alguns começaram a bater o pés, no ritmo da canção. Embora timidamente. Outros assumiram a tarefa de botar a lenha no fogo. Outros ainda, começaram a revezarem-se na mexida da sopa, que até passou a lançar delicioso perfume, daqueles que atiçam e dão sabor à fome.
Uma jovem órfã se aproximou de Carmina. Ela se chamava Maria, e passou a cantar baixinho com ela.
Ao voltarem para casa, as duas iam juntas parte do caminho, até se despedirem.
Passou uma semana e a rotina era sempre a mesma, fogo sendo atiçado até tarde, caldeirão mexido, e canções sendo cantadas pela Carmina, sempre acompanhada por algumas batidas de pés no chão.
Mas, eis que Carmina não foi naquela noite.
Eles se entreolharam, perguntando com seus toscos botões o que teria ocorrido.
Não sabiam em qual casa ela morava, ou quem ela era, pois nunca se importaram em perguntar.
E se sentiram culpados por isso.
Perguntaram então à Maria, mas ela falou que quando voltavam juntas, Carmina a deixava primeiro, e seguia caminho.
Fez um silêncio, daqueles que se dá para ouvir o crepitar das chamas.
De repente, um dos presentes, timidamente, começa a entoar a canção preferida da Carmina, ao que todos o acompanharam.
Outros, logo se animaram e assumiram o atiçar do fogo, e uns outros revezavam na mexida da panela.
Eles já tinham cantado por diversas vezes, e as labaredas do fogo estavam alta, quando ao longe um vulto aparece, trazendo algo nas mãos.
Era Carmina, e trazia uma placa com a inscrição: "Casa de Maria".
Todos olharam para ela, desconcertados, sem entenderem o gesto.
Então, ela fez sinal para que o grupo a acompanhasse. Após andarem por bairros destruídos,  chegaram a um resto de casa, na qual Carmina ficou na calçada a placa que fez.
Disse que a noite seria encerrada com Maria contando sobre a sua casa, seu mundo, sua família, amigos, conquistas, derrotas, medos, coragens, sonhos e desejos que ainda tinha e alguma coisa da dimensão da "estranhice" que ela gostava, colecionava, fazia.
E a noite seguiu pela madrugada adentro. Logo as pessoas foram buscar algum resto de fogueira, feita com escombros das casas destruídas, e se aqueciam enquanto sorviam a vida da Maria.
Ao raiar do dia, o mais alto do grupo, e outrora o mais resistente, disse que naquela noite gostaria de botar uma placa no que restou da casa dele, e que gostaria de contar sua história aos presentes.
E assim se sucedeu, dia à dia, pessoa à pessoa.
Ao acabarem as narrativas, Carmina propôs um mutirão para ajudar, um a um, a reconstruir o que restou de suas casas. E assim foi feito.
Existe um punhado de gente que inspira outros ao seu melhor, como Carmina Burana, cujo nome nesta ficção foi retirado de uma famosa ópera.
Existe gente que não desanima, mesmo que só possa, diante de uma situação limite, atiçar o fogo.
Ou mexer a panela. Ou ainda, cantarolar uma canção daquelas de aquecer corações cansados.
Este povo do bem, consegue devolver identidades perdidas, atiçar ânimos molengas, revitalizar práticas virtuosas esquecidas. Mesmo quando todos, tudo e a própria situação represente para eles uma barreira, quase que intransponível.
Mesmo assim, eles continuam, perseveram, e caso nada possam fazer de mais significativo, ainda assim fomentam o espaço da fala aos aflitos, para que estes possam se reconhecer nelas, recriando identidades, reinicializando-se em aberturas às novas possibilidades, nem que seja a de mexer uma panela, de uma sopa rala, ou a de não deixar um fogo apagar!
No limite, um dos bens mais preciosos que podemos conceder aos outros é o direito à fala, ao compartilhar de sua jornada, em espaços fecundos de escuta institucional de narrativas eivadas de subjetividades e valor.
Ninguém sairá igual dessa roda de conversa, sairá mais forte e esperançoso!
Obrigado pelo carinho dos reconhecimentos.
Às vezes, quando se nos faltarem os ventos, ainda poderemos ousar remar. Os remos podem ser uma vírgula: Aos que semeiam, esperança!

Termômetro Emocional (Autor Ricardo de Faria Barros)



Um dos indicativos de que as coisas não vão bem com o organismo é a febre. Quem já criou crianças sabe do aperreio de uma febre alta. E tome banho frio, tome remédio, tome preocupação que cavalga noite adentro. O termômetro indica como as coisas estão se passando dentro do organismo.  Já se passaram uns bons 400 anos da invenção do termômetro, feita por Galileo Galilei (1592), e a descoberta de seu uso médico, feita pelo fisiologista Sanctorius de Pádua, em 1612.  Quantas vidas se salvaram graças a este aparelhinho tão simples?
Seria muito bom se algo do tipo fosse descoberto para medir o grau de nossas emoções.
Já imaginaram se houvesse um termômetro que nos alertasse sobre a nossa temperatura emocional interna?
Os marcadores deste termômetro poderiam ser estes: Desanimado -> Desmotivado -> Apático -> Ressentido -> Desiludido -> Desamparado -> Prostrado -> Culpado -> Frustrado -> Chateado -> Triste -> Irado  -> Decepcionado -> Ácido -> Descrente -> Ranzinza -> Crítico -> Pessimista  
Para cada um dos humores acima, haveria um nível aceitável e um nível doentio, que recomendaria uma intervenção imediata, para controlar o processo de infecção da alma.
Aí, poderíamos parar o que estávamos fazendo, e entrando em contato conosco mesmos, escanear nossas emoções, pensamentos e acontecimentos que provocaram este elevar da temperatura emocional.  Uma vez identificada a fonte de nossa febre emocional, poderíamos sobre ela atuar. Em processos de autoconhecimento, autoconsciência e autonomia do ser.
Em muitas das situações, o que elevou esta temperatura foi o foco perceptivo seletivo negativo do que nos ocorreu.  Expressos em narrativas cheias de coisas ruins, filtradas de forma doentia da realidade.
Imagine a seguinte cena:
Quando começou a narrar a semana o Sr. Amaro (60), visivelmente chateado, disse que a tinha perdido, pois ficara de “molho” em casa. Contou que houvera comido algo que lhe fez mal, e foi parar numa emergência de hospital que atendia seu plano de saúde.  Após triagem, colocaram-no numa enfermaria, para tomar soro e fazer exames.  Umas longas três horas depois, o médico plantonista deu-lhe alta, dizendo que a infecção intestinal ainda estava no início, e que ele poderia se tratar em casa, tomando antibiótico por 7 dias, e “nada de álcool e comidas gordurosas” durante o tratamento, recomendou-lhe o doutor. Amaro falou que ficou triste, pois perdeu de aproveitar a festa do batizado da sobrinha, regada a muita bebida e churrasco.
Se colocássemos o termômetro em Amaro o que revelaria? Quais emoções negativas estão com os valores alterados, e para cima, causando-lhe infelicidade?
Imagine agora que o Amaro aprendeu a identificar a subida da temperatura emocional e passou a intervir nela, alterando a polaridade das cenas que são captadas na realidade – do negativo para o positivo.  Ele vai contar a semana, abaixo, com a polaridade positiva:
Quando começou a narrar a semana o Sr. Amaro (60), visivelmente em paz, disse que a tinha ganhado, pois ficara de “boa” em casa, convivendo mais intensamente com a família. Contou que houvera comido algo que lhe fez mal, e foi parar numa emergência de hospital que felizmente atendia seu plano de saúde.  Seu atendimento foi perfeito, o reidrataram, pediram exames, e todo mundo estava querendo que ele logo melhorasse.  E que pouco tempo depois, umas 3 horas, o médico deu-lhe alta. Já que graças a Deus a infecção intestinal não evoluiu, podendo ser debelada em casa mesmo. E que havia uma boa opção de antibiótico pra o tipo de bichinho que apareceu na cultura.  Ele seria o motorista da vez, na festa do batizado da sobrinha, liberando a esposa para tomar uns champagne, coisa que ele nunca fazia, pois ela era quem voltava dirigindo. E que assumiria a churrasqueira, para colocar legumes e frutas para grelhar, já que não podia comer nada gorduroso, enquanto se recuperava do piriri.
Percebem a temperatura do segundo Amaro?
A situação e realidade são as mesmas.  O que mudou?
A narrativa, a leitura que ele vai fazendo, minuto a minuto, sobre tudo que lhe ocorre. Mudou a polaridade da alma, de negativa, para positiva. Vejamos:
Na segunda narrativa, Amaro extrai e colore o seu existir com aspectos positivos. Ele vai preenchendo o que poderia ser negativo, com fortes doses de gratidão, bondade, compaixão e acolhimento.
Tem que ficar em casa de repouso? Então ele se propôs a melhorar a intimidade no lar.
Não pode comer carnes gordurosas? Então ele vai grelhar frutas e legumes.
Não pode tomar álcool? Então, ele será o motorista da vez, liberando a esposa para os brindes.
Adoeceu?  Mas pelo menos tem plano de saúde, foi prontamente atendido, não ficou internado, e existe medicação para debelar a infecção, ele pode comprá-la.
É preciso fazer este escaneamento de nossos pensamentos e emoções toda as horas.
Para identificar quando estamos ficando com febre emocional. Quanto de nossa leitura da realidade está sendo contaminada apenas pela polaridade negativa.
Com narrativas da mesma repletas de ódio, desejo de vingança, medo, desconfiança, pessimismo e rabugice. 
É preciso aprender a nos conhecer, a nos ler por inteiro, identificando o que nos ocorre, quais vulcões estão querendo entrar em ebulição, quais áreas estão em polvorosa, para sobre elas atuar - mudando a ênfase e a valorização que lhes estamos dando.
Ser mais feliz passa, necessariamente, pela reescrita de nossas narrativas, particularmente sobre aquilo que saiu fora do planejado, controle ou nos causou algum tipo de aborrecimento.
Assim como dar um banho frio é uma dica que contribui em baixar a febre, eu tenho umas que melhoram a temperatura emocional positiva. Use-as sem moderação.

          1. Cultive a gratidão sobre tudo que lhe ocorre.
2. Seja menos perfeccionista e exigente consigo mesmo.
3. Aprenda que o maior perdão que a vida lhe pede, talvez seja para consigo mesmo.
4. Seja mais empático às necessidades dos outros.
5. Seja mais generoso e menos individualista.
6. Pare de achar que o mundo gira em torno de você.
7. Tenha menos expectativa sobre os outros.
8. Mude a si mesmo, diante de uma situação ruim e imutável.
9. Acolha algumas situações e vire a página. No mínimo, desenvolverão aprendizados.
10. Para cada ruminação de coisas chatas pelas quais passa, traga à mente coisas boas, legais e virtuosas que ainda lhes resta. Muitas delas, esquecidas, desvalorizadas, e à margem de teu viver.



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