O mundo aqui em Campina Grande é um cobertor molhado. Chuva fina, daquelas que canta no telhado como um sussurro de segredo, e o silêncio da tarde — pesado, mas calmo. Minha mãe, recobrando-se de uma cirurgia, dormita no sofá, e eu, de olho na janela, sinto o tempo deslizar devagar, quase triste. Até que o celular vibra, e é uma chamda de vídeo.
Na tela, um caos colorido. Rodrigo e Andrezza, suados, sorridentes, com os olhos brilhando como se tivessem roubado um pedaço do sol de Salvador. O fundo é um mar de gente, um *vumbora* de cores, e a voz de Bell Marques ecoando: *“Que calor é esse?!”* Eles estão no bloco Vumbora, na Barra-Ondina, no sábado 14.
"Tá vendo, meu velho? Ainda estamos", grita Rodrigo, apertando o celular com uma mão, enquanto Andrezza, com o abadá roxo do bloco, acena com um "estamos vivos" que nem precisa de palavras. Na pequena janela do vídeo, minha cara — o sorriso de quem vê a vida fora do quarto — contrasta com a explosão da avenida. É como se o universo tivesse dividido a tela: um lado, a chuva de Campina; o outro, o fogo do Carnaval.
Quem olha de fora, talvez diga: “Mas, cara, o início do ano é um caos! Dívidas, escola nova pro Laís, o Eduardo com dois anos… Eles tavam loucos?”. Talvez. Mas Rodrigo e Andrezza, há mais de dez anos, têm um ritual: ir pro Carnaval de Salvador. E em 2026, nada os pararia.
A história é assim: contas apertadas, boletos da escola, a pressão de “serem pais de verdade” — como se isso significasse só trabalho e seriedade. Só que, no fundo, eles sabiam: se não forem, a vida vira um filme sem cor. Então, planejaram o impossível. Voo de madrugada, um dia só no bloco, e bate e volta: sem hotel, sem descanso.
“É barril, meu irmão!”, escuto ao longe. A gente chicleteia a vida, ajusta as velas e vem!
E é isso: *chicletear*. Não é só dançar, é segurar a vida com as duas mãos, mesmo quando ela escorrega.
Naquela videochamada, o que mais me chamou? O olhar deles. Não era cansaço. Era triunfo. Enquanto eu, aqui, via a chuva cair, eles saboreavam cada segundo. O suor, o barulho, o “100% você” do Bell Marques — tudo virava combustível.
É isso que a gente esquece: viver não é só sobreviver. A psicologia chama de savoring (saborear), mas, pra gente, é fazer do hoje um presente. Rodrigo, naquela multidão, não pensava no trabalho da segunda-feira. Andrezza, com o abadá colado no suor, não se punia por “deixar os filhos em casa”. Eles estavam ali. Só ali. E sabe o que mais? Isso é resistência. Num mundo que quer que a gente viva desconexões, e maratonas de boletos, que sempre chegam, eles foram para o meio da rua e disseram: “Ainda estamos aqui”.
E é verdade. Quanto mais a gente cuida da própria alegria, mais a gente ensina a família a viver. Porque, se os pais virarem fantasmas de somente de responsabilidades, os filhos aprendem que a vida é cinza. Mas, se os pais "chicletearem", mesmo com dificuldade, eles deixam um legado: “Nossa família não desiste”.
Porque, no fundo, o Carnaval não é só folia. É resistência cultural. É dizer: “Apesar do mundo, eu vou dançar”.
Hoje, naquela tarde cinzenta, eu entendi algo: a vida não espera a gente ficar pronto para ser feliz. Rodrigo e Andrezza não esperaram “melhorar as contas” pra ir pro bloco. Eles foram, mesmo com medo, mesmo com fadiga.
E sabe o que isso traz? Energia. Cada acorde do Bell Marques, cada abraço na multidão, vai ser combustível para 2026. Porque, quando a gente saboreia, a alegria não some. Ela vira força.
Agora, a chuva aqui em Campina Grande não parece mais triste. Pelo contrário: é até sonora, como um convite para dançar. Enquanto minha mãe dormita, penso naquela imagem: Rodrigo, com o abadá roxo, sorrindo pra câmera, e Andreza acomapanhando juntinho, gritando: Ainda estamos aqui!".
A lição é simples: não deixe a vida virar um filme de quarto. Vá pro que faz seu coração acelerar. Mesmo que seja um bate e volta. Mesmo que chova.
Porque, no fim, a gente não se lembra do que comprou. A gente se lembra do que viveu.
E, como diz o Bell Marques: “Que calor é esse?”.
É o calor de saber que, mesmo na lama, a gente ainda dança.
Porque a vida é curta pra ser vivida só de boletos.
P.S.: A foto da videochamada? Guardo ela na memória. É a prova de que, mesmo na chuva, a gente pode ter um sol dentro do peito. E, se um dia você se sentir cansado, lembre-se: “Ainda estamos aqui”.

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