Um Des-conto de Natal.

Acordo um tanto ressaqueado no domingo de pré-natal. Lá pelas 17:00, vi que o pastor ligara no meu celular. Ao retornar, aceitei o convite para fazer uma leitura na celebração das 19:30hrs. Tomei um café forte, um banho, escovei umas quinhentas vezes a boca, para espantar a ressaca e seu fétido cheiro. Botei roupa depressa e fui na frente ensaiar o texto. No caminho, resolvi passar no mercado para comprar um halls do mais forte, pois não queria matar o pastor de vergonha com aquele cheirinho de cachaça dormida.
Sou católico, mas frequento esta pequena comunidade Metodista por ser a congregação de minha esposa, e por me faz bem estar por ali. No mercado, vi que a fila do meu caixa demorava. À minha frente um rapaz ia pedindo à caixa para devolver alguns itens já colocados, para que ficasse dentro de seu orçamento de R$ 50,00.
Devolveu um pedaço de queijo, um pacote de uvas e uma caixa d e fraldas. Entre uma devolução e outra o jovem casal discutia.
A jovem mãe, visivelmente irada, segurava sua bebê, que sem entender o que ocorria, sorria para mim.
Pensei em doar a eles aquelas mercadorias faltantes. Contudo, tive medo. Por isso que acho que o natal é a ausência de medo de agir em prol do próximo, seja ele quem for.
O natal é uma decisão, uma decisão de amar.
Uma atitude.
Não importa as conseqüências.
Fiquei matutando naquela pequena bebê que deve ter passado apuros na noite de 23/12 por não ter as fraldas. E no quanto aquele jovem casal priorizara botar outras coisas na sua minúscula feirinha, esquecendo as fraldas da bebê. Na discussão, percebi que havia desaparecido uma nota de R$ 20,00. Deve ter sido justamente o que faltava.
Pela cara do jovem ele tinha culpa no cartório. Ou perdeu o dinheiro, ou "ai, ai, ai" tomou de cervejas.
Fiquei com medo de intervir e ele sentir-se humilhado, ofendido na minha falta de respeito a sua privacidade, ou até aguçar a irada esposa contra ele próprio.
Sei lá. Temi.
Mas, eu me dirigia para uma igreja. Como pude ser tão impotente? Lembrei daqueles que desciam a montanha e passavam ao largo de um senhor que ferido jazia à beira da estrada, uma parábola chamada de O Bom Samaritano que Jesus nos conta em Lucas 10:30-37. Engraçado, ali também passou apressado um sacerdote e não o parou para ajudá-lo. Quem parou foi justamente um descrente, um samaritano. Um excluído da sociedade da época, considerado impuro. Não quero tecer uma discussão teológica sobre o texto de Lucas. O que me chamou a atenção foi a não atitude minha, quando era preciso e oportuna. Então, este é o meu conto de não-natal de 2012. Estou embrutecendo, perdendo a sintonia com a intuição da bondade que manda agir, que é mais forte do que todos os receios. Que acredita em coisas bobas como doação gratuita, perdão e gentileza. Passei a celebração toda me sentindo um merda. Ahh se eu pudesse voltar as fitas de meu viver e agir nas horas que era necessário agir. Vi um filme aqui neste link:http://www.youtube.com/watch?v=ID0kgP9IVhs
que mostra o quanto, quando somos tocados pela bondade, podemos sair reproduzindo este toque e melhorando nosso mundo. Queria dedicar meu natal àquela bebezinha.
Que nunca mais lhe falte agasalho, que nunca mais falte-lhe solidariedade pela vida afora. Que nunca mais seus pais se descuidem dela.
E que minha sintonia com as coisas do bem, meu "dial" existencial, volte urgentemente a se conectar e a influenciar o mundo ao meu redor, para que seja um bom local para se viver. Nem que para isso eu volte a tomar coragem na cara e agir, irradiar com doses de amor, a imobilidade das trevas que dizem e repetem "as coisas são assim mesmo". Que eu possa mudar. Deixar de ser hipócrita. Ver que ao meu lado tem gente que precisa que eu ande mais devagar para que as note e as reconheça em suas necessidades. Que eu possa, caso necessário, chamar outros seres de paz espalhados e dispersos, às vezes até marginalizados, por suas opções sindicais, políticas, religiosas, não-religiosas, étnicas para que nos juntemos num brado à vida. Vou tomar um porre de fé, fé das boas, daquela fé que homens de boa vontade possuem, e que mesmo sem frequentarem templo, botam em prática, vendo no ser humano o maior e mais precioso de todos os templos, agindo para sua reconstrução. Aquela fé como a de um amigo ateu que sacou R$10.000 de sua poupança e deu a sua diarista para reforma de seu barraco. É disso, de meu amigo-ateu, de que preciso, atitude. Coerência. Não teria me custado nada uns 20 reais a mais. E, caso fosse mal recebido, qual o problema? Teria feito minha parte. Amar é decisão. E é para os fortes. Sejamos fortes na remoção de tudo que nos impede de amar. Mágoas passadas, ódios centenários, culpa, inveja, ciúmes e desesperança.

O Peladão da Ponte JK


Todos os dias passo por este homem nu, na calçada de uma avenida próxima à terceira ponte do Lago, a JK.
Por ali circulam milhares de veículos dia, e todos cruzam com o peladão e seu bilau descaradamente à mostra.
O peladão faz parte da exposição de Antony Gormley – Corpos Presentes, que são esculturas feitas a partir do corpo dele, expostas aqui em Brasília no Centro Cultural Banco do Brasil.
Curiosamente, todos os dias o peladão acorda vestido com algo. Divirto-me procurando adivinhar qual a vestimenta do dia.
Já botaram nele touca de Papai Noel, boné, calcinha, cueca, sutiã, camisa de clube esportivo, camisa do BB.
Quando não botam nada, cobrem o pinto do bem dotado Antony.
Hoje a criatividade dos salva-peladão teve um toque de moda inglesa, colocou-lhe um chapéu vistoso, do tipo cartola, e o peladão ficou tal qual um lorde inglês.
Então, não me contive e fui tirar esta foto. Perto dele, senti um pouco do que ele deve sentir ao ficar exposto a olhares maledicentes, a hipocrisias, a falsos puritanismos, ou moralismos de todas as formas.
Senti pena dele. Desnudo.
Não é um desnudo ligado a alguma tribo natureza. Para os quais há sempre um olhar complacente e até de empatia.
É um desnudo por artimanha de seu criador, que para provocar-nos à reflexão, assim o concebeu.
Pensei que assim acontece quando vamos perdendo os elementos que nos estruturam como pessoa e nos dão identidade. Tal qual a nós próprios, antes de mães caridosas acorrerem com fraldas e cueiros, folhas de parreira modernosas.
Todos mais cedo ou mais tarde podemos ter vergonha, medo da exposição e temor.
Precisamos de vestimentas para nos constituir como pessoa.
Elas protegem do frio, da vergonha, do medo da exposição de nosso corpo ao léu e de que algo aconteça com nossas partes mais íntimas.
Em qualquer que seja a civilização, lá estará presente a moda, a nos revelar e a criar identidades tribais.
Ao peladão de ferro, coitado, resta esperar que algum solidário transeunte lhe salve do vexame.
Cada um desses, à sua maneira, empresta-lhes um pouco de honra e dignidade.
A moda é apenas uma linguagem, uma linguagem que nos torna alguém. O fato de está nu é uma provocação a todos os que se sentem assim, nus, marginais, expostos.
Sua expressão desnuda remete a um homem à procura.
Um Homem sem roupa. Aquele eroticamente despido – de falo imponente, sobre olhares de ira dos que se sentem atingidos pela sua postura ereta.
Lembrei-me de pessoas que sofreram esta “desnudação” pública e que sofreram. Um que foi denunciado por uns andarilhos que guardavam carro num supermercado de que tinha aliciado um menor. Outro que foi denunciado por uma mulher com quem vivia de ter molestado sua filha, querendo auferir ganhos em contendas judiciais.
Nos dois casos, após investigações, apurou-se que ele fora vítima de armações.
Mas aí já era.
A velocidade da calúnia, da notícia ruim, do boato mundo cão, só perde, e por muito pouco, da velocidade da luz.
Ambos ficaram desnudos. Aos olhos dos outros perderam a dignidade e honra essência de que se constituem os Homens de bem.
Aos olhos de si mesmos, embora saibam o que de fato fizeram, ficaram magoados, deprimidos, isolados, e entristecidos com a forma pela qual foram tratados, abordados, e até agredidos subjetivamente.
Ando me sentindo como o peladão.
Recentemente fiz uma carta aos funcionários que acompanho num programa de treinamento de 12 meses.
Escrevi-lhes um e-mail-epistolar, particular, íntimo e amoroso, quase paternal.
Este fora escrito dentro de um determinado contexto de referência, a partir de feedbacks recebidos do próprio grupo, e com base num arranjo relacional instituído ao longo de 12 meses.
Havia o pretexto, o contexto e o texto. Sou o gestor de um grupo em formação e é legítimo que me dirija a este grupo. Infelizmente pessoas fora deste contexto tiveram acesso ao texto, desconhecendo o pretexto, e o interpretaram à luz de suas próprias realidades, distorcendo o seu sentido. Ou extraindo partes do mesmo, para tratá-los ao sabor de sua ira.
A partir daí, a palavra mais doce que ouvi foi de fascista. A Carta do Ricardim virou top-five dos assuntos discutidos em redes sociais, e em recintos do local no qual trabalho.
Pessoas que não me conhecem começaram a achincalhar meu nome, ou tecer comentários ofensivos à minha honra, numa violência digital que beira ao assédio.
Aos poucos que me pediram explicações não me furtei em dá-las, mas, estes foram poucos.
A horda gosta de sangue. E passou a me atacar como se eu a ela lhe tivesse se dirigido, ou as citado expressamente.
Para quem tem na ética um valor. Na honra e dignidade um patrimônio, único bem de assalariados sério - torna-se o alvo de impropérios públicos machuca.
Mais do que perder o afeto, a confiança, o respeito de quem interpretou o texto como uma subliminar mensagem contra seu grupo ou posição ideológica, doe o não poder defender-se a contento pela velocidade virulenta dos ataques.
O que era para ser uma carta de amor, de um gestor que se coloca como pai para os ingressos no seu local de trabalho, acabou por se tornar um manifesto contra o trabalhador. Uma pena!

Estes dias estão sendo difíceis. Ando pelos corredores achando que alguém vem me atacar, mesmo que com palavras. Cabisbaixo, triste e angustiado pelos rumos que as coisas tomaram e com ansiedade para com o futuro que poderão tomar.

Para quem tem vergonha na cara, isto incomoda.

Por isso solidarizei-me com quem botou esta cartola no peladão.

Sem querer restituem-lhe um pouco de sua honra, dão a ele certo glamour. Assim como o que tentou cobrir suas partes pudicas, ou aquele que vestiu com um simulacro de um fraque.
Assim são as pessoas que se aproximam das vítimas de calúnias, imprecações e violência moral e lhes prestam apoio.
Ultimamente tive muitas delas.
Sou um felizardo, um abençoado por Deus.
Delas recebi cartolas, fraques, botas, calças, meias, cuecas, estou quase refeito exteriormente.
Estas vestimentas vieram a mim revestidas de um abraço, de um e-mail, um telefonema.
E, veste a veste, gesto a gesto, empatia a empatia, a dignidade e honra vão se moldando novamente, tal qual os adereços que colocam diariamente no peladão da Ponte JK.

Um empresta seus remédios, outro suas preces, outro liga para seu médico, outro se coloca a disposição para esclarecer mal-entendidos, outro manda um SMS.
Já outro lhe diz que lhe ama, outro sai em sua defesa publicamente. Outros ligam e perguntam se precisa de algo.

Vi agora como estes pequenos gestos, para quem viveu este tipo de estresse, favorece ao retorno do ser a si mesmo. Ajudam a religar o GPS interior que nestas ocasiões fica zureta.
Emprestam almas a um cansado-zumbi vagante.

Dão condições favoráveis para que ele se vista em seu interior. Reconfigure-se pleno de sentido. Minimizando o estresse pós-traumático.
Aos amigos e amigas obrigado.
Agora só preciso de um tempo para me vestir, lá no interior.

E, agora é comigo e com Aquele lá de cima.

Para os que trilham na verdade e justiça, o amor os liberta.

Os tece com as linhas e tecidos do melhor e exímio Alfaiate, o bom Deus.

Só Ele sabe preencher com rasgos de eternidade, os vazios deixados no interior de quem sofre.

Uma canção gospel me falou muito nestes últimos dias, chamada Deus do Impossível:

“Quando tudo diz que não
Sua voz me encoraja a prosseguir
Quando tudo diz que não
Ou parece que o mar não vai se abrir
Sei que não estou só
E o que dizes sobre mim
Não pode se frustar
Venha em meu favor
E cumpra em mim Teu querer
Deus do impossível
Não desistiu de mim
Sua destra me sustenta
E me faz prevalecer”

Por algum tempo pessoas que sofrem estes tipos de ataques difamatórios adquire um sobrenome indigesto. Fulano do Menino do Estacionamento; Sicrano, do Incesto... Ricardim, Aquele da Carta.

Conviver com este sobrenome, por uns tempos, suga a energia da pessoa.
E, quando vai se esquecendo e tocando a vida, sempre aparece alguém para requentar a história, pede detalhes e lá vem tudo novamente.

De agora em diante, não deixarei mais Homens desnudos ao meu redor.
Serei o primeiro a colocar-lhe uma cartola inglesa, para emprestar-lhe um pouco de honra e dignidade, enquanto se refaz da exposição pública que o entristeceu.
Direi, acredito em sua índole, conte comigo para ser mais um dos elos na corrente virtuosa para sua restauração.  A corrente do bem.

Coma suas folhas ao lado de flores.



Fotografei a este animal exótico, chamado de bicho-pau.
Ele não tem graça e formosura, aos olhos dos outros.
Até amedronta.
Parece um ser disforme.
Mas, se parar um pouquinho para percebê-lo, em toda sua essência, ele tem tudo que os outros animais possuem. Só que é diferente.

Aprendeu a se mimetizar em forma de galhos secos.
Para sobreviver.
Embora venhamos a ter momentos-trevas, momentos-seca, momentos estranhos tal qual este bicho. Aqueles instantes que para sobreviver nos adaptamos ao meio.


E nos transformamos num bicho-pau.


Ainda assim, somos belos.
Ainda assim somos luz.
Ainda assim, tal qual este bicho-pau: feio, estranho, sem graça e formosura, cansados, às vezes até entristecidos, há vida que geme em nosso ser interior.
Vida que nos faz caminhar para as bonitezas que existem ao nosso redor, e que precisam de poesia para serem vistas.
Somos caminhantes.
Peregrinos, em busca de instantes que eternizem nossa presença no mundo.
Caminhamos em busca de um sentido, de um belo, de algo que dê significado ao nosso existir, tal qual o caminhar do bicho-pau pra comer suas folhas perto de uma flor, de tantos galhos sem flores, ele escolheu este.
Esta flor que embeleza sua vida são nossos amigos, as pessoas para quem viver vale a pena. São elas que emprestam graça e formosura ao nosso viver.


Esta flor que ele toca, chama-se graça.
Graça por existir, por receber o abraço da vida todos os dias ao acordar.
Nos meus dias bicho-pau, lembrarei de ir comer umas folhinhas, para sobreviver, ao lado de flores.


Elas me ajudarão a continuar alimentando-me de frágeis esperanças. Pois, é de esperança que se constitui a matéria dos que se permitem chorar somente uma noite e um dia.


Daqueles que seguem à frente, abrindo caminhos, desbravando o novo, machucando-se em espinhos tal qual sertanejos ao procurar suas criações perdidas, no meio das árvores espinhentas da Caatinga. Não há caminhos para eles. Eles fazem seus caminhos ao caminharem por entre galhos ameaçadores.
Abrem picadas, aprendendo com os erros e decepções. Crescendo com eles.
Amadurecendo.
E, amadurecer dói, contudo sem dor não há mudança, em nenhum processo psico-físico-social.
Bendito bicho-pau que escolhe um canto florido para perseverar seu vir-a-ser!

Olhar que liberta. Olhar que aprisiona.



Bom dia!!!!! Acordei com um sentimento tão bom. Lembrei da solidariedade e luta de um grupo de revolucionários, à época, que empunhavam uma causa numa ONG - a causa anti-aids. Hoje é o dia internacional de luta contra aids. Parte do que sou devo ao tempo que militei no GAV, Grupo de Apoio à Vida (foto). De tanto conviver com soropositivos, vi que o sofrimento, ansiedade para com o futuro e um ti


po de culpa estavam presentes e abalavam sua saúde mental. Outra agressão a que eram submetidos, chegava nos relacionamentos que travavam. Esta era pior, muito pior do que a própria infecção. Esta agressão os condenavam a uma morte vivente, uma morte social. Pessoas desinformadas, sem conhecerem as particularidades daquela Síndrome, os agrediam às vezes só com um olhar, com uma calçada desviada, com um atendimento lhes negado. Escrevi então algo a respeito, em 1996, que agora compartilho. Serve para todos que são vitimas de calúnias e maledicências.




OLHOS DA AIDS




TENHO UM NOME

INCRÍVEL, PAREI PARA PENSAR E TENHO UM NOME.

MEU NOME NÃO É "AIDÉTICO".

TENHO UM POMPOSO NOME, UM NOME DE BATISMO.

TENHO SONHOS...

MEU CORAÇÃO PULSA... PULSA ?

TENHO UMA MÃE

MAMÃE...!

SE JÁ AMEI? O QUE VOCÊ ACHA !

AMEI CADA HOMEM E MULHER COM QUEM CONVIVI.

AMEI CADA MANHÃ E CADA ENTARDECER QUE VISLUMBREI.

AMEI CADA GOTA DE ORVALHO E CADA LUAR.




AÍ ELA CHEGOU...




CHEGOU DE MANSINHO, SEM FAZER ALARDE.




PRIMEIRO ELA VEIO MOSTRAR-SE EM TEUS OLHOS.




SENTI O QUE ERA A PENETRAÇÃO.




A PENETRAÇÃO DE TEU OLHAR!

TEU OLHAR QUE ACUSA,QUE DISCRIMINA,QUE ENOJA,

QUE REPUDIA,QUE VIOLENTA.




SENTI TEU OLHAR, E, AO OLHAR-ME JÁ NÃO MAIS ME RECONHECI NO ESPELHO.




PERCEBES O DRAMA?

PERCEBES A IMPORTÂNCIA DE TEU OLHAR?

TAMBÉM TENHO MEDO: MEDO DO ESCURO, MEDO DA MORTE, MEDO DA SOLIDÃO,MEDO DA INDIFERENÇA MEDO DA DOR.




DE TUDO QUE ME MALTRATA.




DE TODOS ESTES OLHARES E GESTOS DE QUE FALEI, APENAS ALGUNS ,

UNS POUCOS, É VERDADE.

RESGATARAM MINHA IMAGEM PERANTE O ESPELHO.




APENAS UNS POUCOS.,




É VERDADE!




VOCÊ NÃO ACREDITA ?




AH! COMO SÃO BONITOS ...




ESTES OLHOS.

ESTES TEUS OLHOS QUANDO ACOLHEM, QUANDO PERDOAM,

QUANDO RIEM, QUANDO COMUNICAM ESPERANÇA.




DE TUDO QUE ME ROUBARAM

RESTOU-ME APENAS UM BÁLSAMO.

ALGUÉM QUE AINDA ACREDITA EM MIM.

NO MEU POTENCIAL.

E QUE NÃO SE ASSUSTA COM MINHA CORPO MAGRO.

OU COM MEUS DESABAFOS DEPRIMENTES.








RESTOU-ME VOCÊ.

VOCÊ QUE AÍ ESTÁ.

QUANDO TODOS ME DERAM AS COSTAS,

VOCÊ ME APOIOU.


















NÃO PERGUNTOU: PORQUE ? COMO ? QUANDO ? COM QUEM ?

SIMPLESMENTE ME AMOU: INCONDICIONALMENTE, ESTUPIDAMENTE

BOBAMENTE, DESESPERADAMENTE.

Mãos que Semeiam!

Mãos e sementes. Assim quero permanecer na minha jornada do ser.
Mãos que mesmo calejadas, com cicatrizes, sofridas, ainda portam sementes.
Sementes de um verbo de ação chamado amar.
E amar é um tanto arriscoso. Quem ama se expõe, faz bes
teiras, emociona-se, recomeça, recomeça novamente. Perdoa, perdoa um bocado de vezes.
Quem ama sofre, ri, sente, sonha, irradia o mundo com sua luz.
Quem ama semeia, sem pensar se a terra está preparada.
Semeia por não saber fazer diferente.
Semeia até na poeira do chão caatingueiro, esperando que a chuva chegue nos dias vindouros, apostando em sinais sutis, que só ele vê. E que a natureza lhe será generosa com a chuva que irromperá no horizonte em fogo áureo.
Lançe suas sementes nesta terra cansada de tanta aridez.
Pois, é de esperança de que se constituí as sementes dos seres que amam.
Mãos calejadas, proféticas, que eternizam encontros.
Como é bom ser tocado por estas mãos.

Minha História



Tive algumas vivências que marcaram-me como pessoa:

Fome de descobrir. Meus pais estimulavam muito nossa leitura. Não faltaram bons livros à nossa mesa, mesmo remediados como eram. Eles compravam daqueles vendedores de porta-em-porta e dividiam em parcelas a perder de vista. Boas enciclopédias, livros e manuais estavam ao nosso alcance. Lembro sempre do que ouvia: "Somos pobres, e a única riqueza que podemos deixar para vocês é o acesso ao conhecimento, aos estudos, esta ninguém tirará de vocês." Devorava as obras de Monteiro Lobato e fazia muitos experimentos da coleção Cientistas. Aquilo despertou minha curiosidade em pesquisar, em observar e contar histórias. Na minha infância, morei em duas casa diferentes, em todas havia um quintal e nele fazia meus brinquedos: carro de latas, pipas, bonecos de pano. Nossa casa era ponto de encontro. Mamãe dizia que era melhor que as crianças brincassem em nosso lar, do que na rua. Não faltava um refresco do tipo k-suco pra todos. Fazíamos memoráveis campeonato de xadrez ou damas. Aquilo virou febre na rua, toda criança queria jogar xadrez. Fomos influenciado por Fernando, o mais adulto dentre nós, que jogava e muito bem. Meu primeiro grupo de afiliação, tirando o da escola, foi o da rua. Depois o dos atletas de natação do SESI. Treinei natação no Clube do Trabalhador no SESI, entrando aos cinco anos. Galguei todos os níveis da escola, permanecendo nela até os 17, muito me orgulha uma declaração que possuo habilitando-me pelo Sesi a ministrar curso de natação em suas dependências.

Um mundo a transformar. A partir de 1974 passei a militar fortemente na Igreja Católica, começando ajudando missa como coroinha, depois decidi que queria ser padre. Fazia parte de um grupos de 4 seminaristas-menores: Eu, Carlinhos, Assis e Cristovam, orientados por um Padre-Reitor. Nos nos finais de semana administravámos uma Comunidade Eclesial de Base, na periferia de Campina Grande-PB, na capela de São Sebastião. À exceção deste que vos escreve, os outros três colegas tornaram-se padres. Eu abandonei "a batina" aos '17 anos. Era tentação demais ao meu redor. rsrsr
No meio daquele povo pobre, tive outra influência marcante em meu viver, o acesso às obras da Vaticano II, Puebla e da Teologia da Libertação, devorando autores tais como: Leonardo Boff, Frei Betto e Dom Pedro Casaldáliga. A participação na pastoral da juventude foi marcante naquele período. Era engajado com os grupos jovens, grupos de crisma e o Encontro de Jovens com Cristo. Outra vivência marcante naquela década foi a criação de um grupo que dava assistência a pessoas que vivivem e convivem com o vírus da AIDS. O nome do grupo é GAV - Grupo de Apoio à Vida, que nos seus tempos aúreos congrevava uns 30 militantes, das mais variadas áreas do conhecimentos, todos prestando serviços de forma voluntária. Todas as sexta o grupo reunia-se para avaliar a caminhada e planejar as próximas ações. Foi uma vivência riquíssima, que marcou meu viver.
Fui um de seus três fundadores, e presidente por duas gestões, de 1994 à 1997. Naquela década, uma outra coisa que me recordo e me marcou foi a participação ativa nos encontros de juventude da Igreja Católica e Pastoral da Juventude. Após decidir não fazer mais Teologia em Recife, por influência de meu padre-orientador, que me achava muito novo, passei no vestibular para eng. Civil, aos 17 anos, e logo em seguida abandonei a vocação do sacerdócio. Entrei no curso de Eng Civil em 1982. Era um zumbi na UFPB, mesmo assim consegui pagar as disciplinas fundamentais dos primeiros anos, até hoje não sei como, e não colei. Vivia em crise existencial. Paralelamente dava aulas de religião no Colégio Imaculada Conceição - DAMAS, e adorava.

Virei adulto, no susto.
Em 1984 descobri que minha namorada engravidara, eu tinha 20 anos. Foi de uma gravidez não planejada, e como chamamos no nordeste, feita nas "coxas". Foi um choque. Um turbilhão. A vida rodou em minutos Da data da descoberta da gravidez, 26/12/1984, ao casamento foram menos de 10 dias, casei em 0501/1985. Meus pais usaram, suas parcas economias para montarem uma casa e comprarem o enxoval. Para melhorar a renda, fui trabalhar num banco, o Banco Nacional do Norte - Banorte, era compensador e fazia a jornada das 17:00 às 01:00.  Em 1986 passei no concurso do BB e tomei posse na agência Poções-BA.

Estudar é preciso. Voltei a estudar, após dez anos parado. Entrei no curso de Psicologia ali movido por mais um desafio. Fui convidado numa reunião da pastoral da juventude para ensinar dinâmicas de grupo que eu tinha criado. Durante a reunião de compartilhametno uma senhoera da igreja pediu a palavra e disse que aquelas dinâmicas seriam melhor conduzidas pro quem tivesse formação de psicologia, como ela. De pronto, ensinei-lhe como eram e ela ficou de aplicá-las em evento próximo. ao sair da reunião, com uma potna de chateação, decidi que faria psicologia. Abadonara os estudos superiores em 1985, ao casar, e desde então estava parado, só com o 2. grau. Inscrevi-me no vestibular de psicologia e passei. Ao me matricular vejo que aquela senhora era a coordeandora do curso, ainda bem que não briguei com ela. Neste período, me divorciei, e encontrei um novo amor, vivido com toda sua loucura e dimensões. Foi um amor a distancia, ela morando em Londrina-PA e eu em Campina Grande, estávamos a 3.200, km de distância. Namoramos a distancia por 4 anos. Desse novo amor, a Cristina, nasceu o meu 4 filho e com ela e ele estou até hoje.

Migrar e recomeçar.  Em 1999 vim para Brasília. No começo não foi nada fácil. Crise de adaptação e financeira. Pouco a pouco fui refazendo meu viver. Em 2003, fiz uma especialização em gestão de pessoas, na USP, pesquisando o tema motivação. Em 2007, fiz um mestrado em gestão social e trabalho, na UNB, pesquisando o tema Desenvolvimento Sustentável. Logo depois comecei a lecionar no ensino superior o que me dá muito prazer. A lição da primeira metade do resto de minha vida:
A roda grande passa por dentro da pequena, no giro da vida. Continue acreditando e fazendo a sua parte, um dias as coisas poderão ser melhores para você! Outro aprendizado: Deus age nas pequenas coisas, nos amigos, nas pessoas que ajudamos, na bênçãos que temos e não damos valor e só as vemos quando nos falta tudo.  Jesus Cristo sempre foi e será meu sustento e salvação, e ele esteve presente em cada dor, em cada alegria, em cada lágrima, em cada desespero, em cada dia de saúde, em cada dia de doença. Ele é amor. Portanto, ame de montão!

Vaso bom quebra, e pode colar!

Tenho tido um prazer enorme nos último dias. Desde que libertei um casal de agapornis de sua gaiola eles vieram fazer o ninho na varanda da sala TV. Contemplá-los, levando galho-a-galho pequenos ramos de um Salgueiro, plantado por mim no p
omar, é um deleite. Eles trazem os pequenos ramos para a calha do telhado da varanda. Construção de alto-risco, mas fazer o que? À tardinha eles descem da obra e vão comer na gaiola que deixei aberta, desde que os libertei. Todos os dias ponho comida ao chegar do trabalho, pelas 18:30hrs, e eles descem da calha para jantarem numa algazarra que dá gosto. Ontem os flagrei olhando o infinito, namorando, juntinhos, sobre um fio do poste em frente de casa. Depois, eles voltaram aqui para casa, para sua calha, num rasante mergulho no infinito. Fiquei pensando que não a tôa o nome deste aves vem do grego e significa um par de amor.
Para mim, esses pássaros falaram muito. Sabem dividir bons momentos, seja juntinhos olharem para o amanhã. Seja darem umas bicoradas, um namorinho dos bons. Seja voarem juntos, apoiando-se mutuamente. Sejam tocarem projetos a dois, como a construção do ninho.
Lembrei com pesar de dois relacionamentos que soube estarem em crise. Duas amigas queridas que sofrem. Sofrem pelos decepção com seus amados. Sofrem por não saberem qual decisão correta. Abandonar o ninho, ou tentar mais uma vez?
Como é difícil viver este roteiro numa relação, e tomar a decisão. Muita coisa acontece para a relação chegar a este ponto. Não há vencidos, nem vencedores, culpados, nem vítimas. Acho que em algum momento perdem-se um ao outro. Deixa-se de simplesmente gostarem de estarem juntos, olhando o horizonte, como este casal de agapornis. Aí, perde-se a vontade de encantar, de dá uns beijinhos para além do ato sexual. Aquela vontade de se fazer presença para o outro, de conquistá-lo com pequenos prazeres. Depois, cada um passa a voar para um lado. Perde-se em cumplicidade. Por fim, nada mais justifica uma construção a dois. Nem um projeto comum, à exceção da criação dos filhos.
Minhas amigas estão sofrendo. Elas amam seus amados. Embora estejam doídas, de luto com a traição descoberta. Minhas amigas vivem um pesadelo, um trauma.
Meus também amigos pisaram na bola, sabem disso, quebraram o vaso.
Pisaram no tomate. Deixaram-se conduzir pelo instinto e magoaram bastante suas parcerias. Alegam arrependimento, choram pelos cantos envergonhados. Alegam que as amam e coisa e tal. Mas parecem uma chaga viva da dor que portam, portadores que são da culpa e remorso. 
A sabedoria popular acorre logo com a solução: separa!
Ouve-se separa por todos os cantos, das amigas e amigos, de conhecidos distantes, de parentes. Até do cancioneiro popular com sua Amélia.
Parece que não resta uma solução que não purgar a dor com a ruptura.
Muita gente dando pitaco, contando suas próprias histórias. Muito papa-defunto rondando, torcendo pela desgraça do casal.
Justiceiros, família-clã, moralistas, legalistas, puritanos, contritos cristãos... Todos entram no coro, "Joga pedra no Geni". O Geni é o meliante, o safado. O que não se deve pronunciar o nome.
Poucos dão chance ao próprio casal que se entendam, ou que processem sua dor por si mesmos.
Quero subverter a ordem reinante e dizer que é possível recomeçar. Desde que o casal, após uma overdose de conversas e perdões remidos, e sob a égide do amor resistente, mesmo que combalido, ergam uma nova plataforma para seu viver.
Na qual os ensinamentos dos agapornis das fotos estejam presentes:

Olhar juntos o horizonte - cumplicidade
Namorar despretensiosamente - ternura
Voar juntos - viver aventuras
Construir ninho - investir em novos projetos juntos.

Por algum tempo será estranho. Mas, como a técnica japonesa do kintsugi ensina é possível colar vasos valiosos quebrados, com ouro fundido, ficando o resultado final mais precioso ainda.

Fica visível onde rachou. Os cortes ficam salientes.
Não tem jeito, ficarão cicatrizes.
Conviver com elas será uma arte. A confiança se acumulará novamente lentamente.
Mas, a estrutura da relação readquire sua forma.
Lança-se as bases para novos dias a dois, do tipo, só por hoje irei cativá-la, ou cativá-lo. Tal qual a filosofia dos AA.
Sua relação pode ficar até mais forte.
Mais verdadeira.
Ambos terão maior cuidado um com o outro, para não se perderem novamente.
E, você poderá voltar a constitui-se como pessoa, em sua auto-estima, em sua dignidade, dando uma chance para refazerem suas rotas, sua história.

Não por filhos. Mas por vocês mesmos.

Aliás, como bem disse Jesus na cena do apedrejamento de Maria Madalena (João 8,3-7) "Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de pé no meio de todos, disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes? Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo. Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra. Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra!".

Agora, se o amor de fato acabou, para ambos, aí é outra história...

Não se canse de procurar!

Amor é procurar uma gata preta vira-lata.

Amor não mede raça, credo, classe social. Amor ama, pronto!
Amor acontece.
E, quando acontecer, agarre-o, curta-o, viva-o intensamente. 
Pois, mágica que é, eternizará sua história.

Viva à procura de sua gata preta vira-lata, do seu amor.
Seu amor que não se explica.
Que aos olhos do outros pode ser feio, marginal, vadio, sem raça definida.
Não importa, é a sua gata preta vira-lata, aquela que te faz feliz.
Imperfeita, sem pureza de raça definida, sem brilho para concursos, ainda assim, aos seus olhos é a sua amada.
Como seríamos felizes se ao se perderem de nosso afeto, de nossa relação, nosso parceiro, cônjuge, namorado, ficante, publicasse um cartaz como esse à nossa procura.

Como é bom se sentir procurado, desejado.

Eu adoraria estar no lugar desta gata. Uma ponta de inveja das boas senti.

Vez por outra me perco de meu afeto e ninguém me procura.

Acho que também não procuro de quem me perco também.

Esta faixa ensinou-me tanto neste dia.

Fiquei até com vontade de procurar a gata.

Perdi muitas gatas pretas vira-latas em meu viver, e não as procurei. 

Uma lástima!

Viver é perder. Mas, te a coragem de procurar o perdido, resgatá-lo, investir tempo e recursos para sair por aí afixando faixas é o que fará a diferença. 
Resgatar as perdas é uma arte. Uma atitude e escolha. 
Aliás, amar é um verbo de decisão. Amar é decisão.


Relações podem ser perder no caminho. Traições objetivas ou subjetivas, agressões, falta de companhia e diálogo, de carinho, tesão, ou até de interferências externas, coisas assim. 

Muita coisa contribui para afastá-lo de sua gata preta.

Porém, tenha coragem e a esperança desta pessoa do cartaz, não desista.
Lute por ela.
Quem sabe ainda será tempo!
Quem sabe alguém ela leia teu cartaz, escondido nas entrelinhas de teu coração, e venha novamente para sua casa afetiva.
Quem sabe!

Corra, afixe as faixas de seu viver, das gatas-preta vira-latas que perdeu. Se elas les são importantes, lute para reencontrá-las, mesmo expondo-sse ao ridículo, ou nadando contra toda a maré de possibilidades remotas.

Peregrinos

O paraíso é logo ali, contudo você terá que andar até ele. 
E, é no andar em sua busca que se encontrará o sentido.
Porém, é um sentido fugidio, nunca dado, pronto, imanente, 
pois quanto mais perto dele, 
menos visível para quem nele está se configura. 
E, para vê-lo em nossas vidas, paradoxalmente, temos que nos afastar um pouco e contemplar-nos, como seres peregrinos: imperfeitos por natureza,
e belos por vocação. 
Caminhe em busca de seu arco-íris, mas saiba que ao chegar na montanha no qual ele se deita, sua representação desaparecerá.
Aí é só continuar a caminhar para vê-lo novamente, 
esta é a beleza da mensagem escondida no arco-íris.
Peregrino não há caminho para a felicidade, a felicidade consiste justamente no caminhar!

Sobre a Vida e o Viver, crítica!


SobreVivências

Vejo o livro Sobre a Vida e o Viver, do meu amigo, colega e conterrâneo Ricardo de Farias Barros, ou apenas Ricardim, como uma metáfora da vida, pois esta palavra, desmembrada, parece sugerir que devemos mesmo deixar algumas metas fora da vida.
Da mesma forma, o autor ensina que não valem a pena os objetivos cujos prêmios não justificam o esforço e a angústia da busca. Sua palavra, repleta de apoio e esperança, é dirigida aos que sofrem das infecções emocionais e das dores, conscientes ou não, do existir. Assim, seu trabalho destina-se a todos nós, os complicados animais ditos racionais.
De um gesto ou observação do cotidiano, o texto se eleva como uma névoa sobre nossos olhos, substituindo a visão difusa de uma aurora cinzenta por uma imagem nítida de uma bela manhã de sol. Outros assuntos vão se juntando, formando conexões com outras realidades que nos leva a um passeio complexo, onde situações aparentemente distintas nos aparecem como um todo inteligível, levando-nos a conclusões gratificantes, tudo isso sem perder de vista a ligação com o tema inicial do capítulo.
O livro é um alerta sobre o custo das relações humanas e sobre as influências que podem nos colocar grilhões. Revela-se, dessa forma, como um grito contra as tiranias emocionais, aquelas opressões discretas, mas não menos violentas, que ocorrem no silêncio das relações familiares, profissionais e afetivas.
O leitor mais atento descobrirá, entre as páginas, o mapa para se atingir - e reconhecer - a plenitude das atitudes gratuitas e desinteressadas; o colar de alhos para combater os vampiros emocionais; os fones de ouvidos para usar contra os propagandistas do impossível ou contra os desanimadores de festas.
Sobre a Vida e o Viver traz a paz do topo gelado da montanha. Mas é um frio calmo que pede aconchego e não distanciamento. Como um condor cansado ao final da tarde, depois de exaustivos trabalhos, o autor arrisca um voo de contemplação e encantamento por sobre os caminhos onde as pessoas tramam e travam as suas lutam.
Entretanto, Ricardo Farias não se limita a descrever a visão do alto, a amplidão da boniteza do entardecer. Ao contrário, arrisca a descida escabrosa, a escarpada ladeira das emoções, para dizer aos seus afortunados leitores que o barro com o qual se faz a dor é o mesmo com o qual se constrói a alegria, e que a felicidade pode ser o resultado dessa equação, pois, se a vida oferece tristeza e melancolia, o viver é também terapêutico.


Sonielson Juvino Silva
Recife (PE), 15 de novembro de 2012.
Publicado no site www.sonielson.com (seção: Crônicas/2012)

Semear apesar de toda desesperança!

Salmos 126, 6 "Aqueles que saíram chorando, levando as sementes para semear, voltarão cantando, cheios de alegria, trazendo nos braços os feixes da colheita."

Reconfortante para os que se sentem cansados dos embates da vida, das lutas pelas utopias, dos gritos contra os opressores, do gestos transloucados de amor, perante tanta indiferença. Reconfortante por acreditar na força da semente, mesmo que seus frutos só outras gerações venham a colher.

Não se compare e persiga seu objetivo!


Não importa o quanto se acha frágil e pequeno, persiga seu objetivo, pode demorar um pouco mais, porém chegará, caso não pare no caminho!



Aposentável, decifra-me ou devoro-te!

Fragmentos da palestra-reflexão que conduzo, sobre os aspectos psicossociais da aposentadoria. Refletir e preparar-se para adentrar nesta nova jornada na vida de um ser humano, para mim, é uma questão de cidadania.
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1. O trabalho é o principal organizador da vida humana - fonte de reconhecimento e identidade;
2. Ao se aposentarem algumas pessoas perdem seu ponto de referência;

3. Líderes sofrem mais com a aposentadoria;
4. Mulheres se adaptam melhor;
5. A aposentadoria representa um desafio para o casal;
6. Donas de casa sentem-se invadidas e sem privacidade;
7. Há diminuição dos relacionamentos sociais;
8. Tensões latentes ou imprevistas podem aparecer na dinâmica familiar;
9. Deve-se aposentar de um emprego, não da vida;
10. Há inúmeras formas de encontrar um sentido; um propósito; um porquê viver; algo que ocupe o tempo e dê prazer;
11. Curado o luto da separação da sua esposa (o)-emprego, você verá que há vida a ser vivida, aventura a ser descoberta, sonhos a serem perseguidos e uma pós-carreira a ser trilhada;
12. "O segredo de uma aposentadoria feliz, cheia de conteúdo, é saber lidar com o tempo disponível e a liberdade de escolhas;"
13. O ócio na aposentadoria pode ser degenerativo;
14. A SPSC vai te pegar, mas você pode escapar e ser feliz. SPSC = Síndrome da Perda do Sobrenome Corporativo (Descoberta pelo Ricardim);
15. A SNV pode ser dolorosa, mas você verá que a vida é feita de ninhos e não é porque estão vazios que não foram importantes. SNV = Síndrome do Ninho Vazio.

Aprender com os Erros

Por maior que seja a Corporação, pense numa Microsoft por exemplo, ela poderá falhar.
Observá-la saindo de uma crise pode ser pedagógico. 
Meses de planejamento, investimento na casa dos milhões, overdose de mídia, e o Windows 8 é vendido
on-line, no dia do seu lançamento no Brasil, 26/10/2012, com o preço errado. 
Grita geral e ela para a comercialização por 36 horas.
O preço anunciado era 69,00, ao fechar a compra o cliente pagava 83,98. Refeita do susto, e tardiamente retornando ao ar para venda on-line com o preço correto (36 horas para acertar um preço numa tabela, para uma Corporação de TI, é um alvitre).
Contudo, ela soube sair de um fracasso de maneira inteligente e exemplar: anistiou quem adquiriu o Programa pelo preço indevido, inclusive o frete, e o deu de presente. 

Pedir desculpas, compensar com algo o dano causado, e seguir em frente pode ser uma alternativa quando algo sai de nosso controle e pode machucar alguém.

Quase Mortes Reparadoras




Gilberto (41) é um lavador de carros, residente em Alagoinhas-BA.
Sem filhos, ou esposa, vive uma vida simples e mora sozinho.
Passa meses sem visitar sua mãe, e irmãos, que moram na mesma cidade.
Numa manhã de segunda, indo pra labuta, Gilberto esbarra num amigo. Este, entre assustado e atônito diz:
“Mas tu num tá morto homem?”
Um Gilberto assustado liga para um amigo para saber o que está acontecendo.

Este, ao atendê-lo, diz que não gosta de trote com coisa séria e desliga.
Encasquetado, ele dirige-se à casa de sua mãe.
Chegando lá, muitos saem correndo, outros desmaiam, outros gritam apavorados, outros o abraçam chorando.
O defunto que jazia, envolto num mar de flores brancas de cravo, não era ele.
Seus irmãos o reconheceram erroneamente no IML.
Desfeita a confusão, Gilberto ficou famoso, deu entrevistas, vestiu camisa de empresa para “merchant”, e ganhou na cidade a alcunha de morto-vivo.
Sua mãe disse:
“Eu fiquei muito alegre. Por que qual é a mãe que tem um filho que dizem que está morto e depois aparece vivo que não se alegra?”
Fiquei imaginando o quanto seria de bom, para o zeramento de faturas com a vida, uma mortezinha de araque vez por outra.
Saberíamos quem iria chorar por nós, quem se escalaria para segurar nosso caixão no caminho até o chão que chama.

Quem diria coisas bonitas sobre nós, outras nem tanto.
Quem ficaria resmungando lá fora, naquele lugar no velório no qual as pessoas se divertem observando quem chega, quase uma festa, só faltando cerveja e tira-gosto.

Observaria atento os papa-defuntos, as dívidas sendo perdoadas, os amigos remoendo as últimas cenas comigo.
“Lembro que ele postou algo sobre um dia difícil, devia está tendo uma premonição...”

Gilberto foi um felizardo, até entrevista na BBC de Londres deu, mas não foi felizardo por isso.
Foi felizardo porque, uma vez que não está morto, pessoas que o velaram pelo domingo e manha da segunda, amigos e família, poderão fazer ainda em vida as coisas que disseram, entre soluços, que fariam caso ele estivesse vivo.

Imagino que seus quatro irmãos casados irão chamá-lo com mais frequência para visita-los.
Até para comer aquela lasanha com frango no almoço domingueiro.
Os amigos farão a cota para ajeitar o seu barraco, botarão até um 3 x 1 na estante.
Os clientes do Gilberto passarão a tratá-lo com mais dignidade, visto que alguns deles souberam na missa do domingo do ocorrido e tiveram dificuldades de lembrarem-se do rosto dele.
Outros que velavam o seu corpo e comentavam que sempre os viam na praça com trajes molambentos, levariam roupa de bacana para ele vestir.
O pastor ou padre que encomendava o defunto, iria pessoalmente convidar o Gilberto para integrar a sua comunidade, aquela da praça na qual lavava carros, para a qual o ele nunca fora convidado, embora trabalhasse na área há muitos anos.
As tias e cunhadas compungidas iriam convida-lo para aniversários, para batizados.
O morto-vivo Gilberto, apelido que ficou sendo conhecido, faz-nos pensar sobre a finitude da vida, e sobre o quanto é bom não deixar perdões, ou eu-te-amos para os dias seguintes.
Poderá ser tarde.
Vamos juntando coisas que nos afastam de quem amamos, uma mágoa aqui, outra acolá. Vamos enchendo nosso coração com todo tipo de cobrança, de ódio, de indiferença.
Acho que precisamos de pequenas mortes, nossas e dos outros, para que possamos renascer relacionamentos, retomar vínculos e até refazer a confiança perdida no vale encantado do conviver.
Olhe para quem está a tua volta.
Grave o rosto delas.
Preocupe-se com elas, procure saber mais de suas vidas, compartilhar sentimentos.
Pode ser aquele copeiro que te serve o cafezinho, ou a recepcionista.
Interesse-se pelo mundo do outro com o qual convive.
Supere ressentimentos, mágoas encanecidas.
Se aprender como fazer isto totalmente, sem deixar uma pontinha sequer, manda um email pra mim me ensinando.
Contudo, uma pontinha de mágoa não faz uma guerra. É até sinal de auto-estima.
Diminua o passo, e contemple a beleza de uma pessoa humana que interage contigo.
Aproveite para dizer, a algumas delas, o quanto são especiais em teu viver.

Imagine agora quem serão os seis que te levarão para deitar a sete palmos do chão.
Que tal ligar para eles, ou mandar um sinal de fumaça, dizendo que os ama?
Não faça como Gilberto, ou seus familiares queridos, que se acostumaram a vê-lo apenas uma vez por ano, morando todos na mesma pequena cidade.
Tenho sido relapso neste item.
Acumulo dívidas com um montão de amigos e familiares que não troco um afago, há tempos.
Sou uma ameba-sapiens mesmo.
Mexeu comigo esta pseudo-morte do Gilberto, que fez libertar corações, fez fluir novamente o fluxo do amor.
O sucedido com o morto-vivo de Alagoinhas, lembrou-me a primeira cena do filme Ikiru (Viver) dirigido por Akira Kurosawa. Nesta cena, após saber que tem poucos meses dde vida, um gestor se aposenta e vai pra casa. Um belo dia, um de seus funcionários, com compaixão, bate a sua porta e o convida para sair. A cena dele balançando-se no parque municipal pela primeira vez é espetacular.

Inspirado nas quase-mortes das relações a dois cotidianas, amanhã vou mais uma vez resgatar a relação – a mulher ficou bicuda comigo porque esqueci de ligar para ela nos dias em que esteve fora.
E, quem sabe, a chamo para balançarmos num parque qualquer.
Este negócio de esperar pra ver quem se dobra primeiro, num teatro de culpas e ressentimentos, é um jogo que não estou curtindo mais.

Vai que eu morra!

A Perda dos Sentidos do Trabalho



Outro dia um colega me perguntou se eu já tinha passado por crises, ele me via sempre sorrindo. Comentei com ele que decidi alimentar meu monstro interior da esperança, e não o do pessimismo, mas ambos moram em mim. Quem me ver assim sorrindo...

A doença do desencanto no trabalho é a Síndrome de Burnout.  E sei como ela é grave. Há uns nos atrás tive uma infelicidade muito grande, com as coisas do trabalho. Sentia-me estranho, impotente frente a alguns acontecimentos que me aborreceram, angustiado com o volume de demandas e com a perda da qualidade nas entregas. Havia uma ruptura entre minha expectativa de oferecer um trabalho de excelência e a realidade em que trabalhava.

Disseram os homens de preto da época, que nossa área tinha que aprender a simplificar o processo, "para acompanhar a velocidade e ditames do negócio". Eu queria produzir o melhor trabalho, e então fui ficando chateado em ver que nem sempre o povo queria o melhor, queriam algo entre o pior e o regular.

Passei a ter fobia social, pânico de atender o telefone e medo de não dá conta, ao receber mais uma demanda atravessada. Tinha umas crises de choro, claro escondidas, e muita angustia apertando o coração. Lembro-me de um dia em que um alto executivo me "propôs" - visando aumentar a disseminação de um treinamento, para que um de nossos cursos de três dias, fosse dado num ginásio de esportes, para umas 500 pessoas, estilo aula de cursinho, reduzindo sua jornada para 4 horas, ou no máximo, 8 horas. Consegui convencê-lo do absurdo, do ponto de vista de construção de conhecimento, mas aquilo era apenas a ponta do iceberg, mudaram as estações... e eu não me adaptara aos novos tempos. Aquilo tudo foi me matando. E procurei ajuda, e na hora certa!

Hoje sei que tive a Síndrome de Burnout, descrita por Freudenberger como " um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional". Poucos profissionais estão capacitados para tratarem o Burnout. Muito o confundem com stress ou uma inadequação ao trabalho. Ou, como no caso de minha doutora, não dão o devido valor ao que o paciente alega que acontece consigo, derivado do mundo do trabalho.

Ou ainda dizem, relaxe é só estresse. E não é. Burnout é como uma infecção emocional, provocada pelo vírus do desencantamento laboral.
A melhor comparação que li sobre a diferença entre stress do trabalho e Burnout, é que o estresse é como um elástico puxado, quando some o fator estressante, seja uma campanha de vendas, seja uma mudança no processo de trabalho, o elástico volta a posição original. Hoje chamamos de resiliência. No Burnout ele volta, mais não para a posição original, vai perdendo-se pelo caminho e ficando esgarçado, rígido. Sem resiliência. Perde-se a capacidade de relaxar e sempre as coisas são vistas pela ótica do desânimo para com o futuro dos processos de trabalho.

Desde 2004 passei a estudar este tema e identifiquei-me inteiramente com seus sintomas. Naquele ano tive Burnout. Segundo Drauzio Varella, ele "se manifesta especialmente em pessoas cuja profissão exige envolvimento interpessoal direto e intenso. Profissionais das áreas de educação, saúde, assistência social, serviço público (atendimento), recursos humanos, agentes penitenciários, bombeiros e policiais correm risco maior de desenvolver o transtorno." Há uma variedade enorme de sintomas, alguns mais comuns são: sensação de esgotamento físico e emocional que se reflete em atitudes negativas, como ausências no trabalho, agressividade, isolamento, mudanças bruscas de humor, irritabilidade, pessimismo e baixa autoestima. Os físicos são dor de cabeça, enxaqueca, cansaço, palpitação, dores musculares, insônia e distúrbios gastrintestinais.

Aprendi que ele é a doença dos amantes do trabalho. Ele é a perda do encantamento, do enamoramento com o trabalho, quase um luto. Que acontece nos que adoram o trabalho, e querem sempre apresentar o melhor resultado. Naqueles que tem ritmo acelerado, que são produtivos e perfeccionistas, zelosos e detalhistas. Nos que gostam do cliente e querem que ele tenha acesso ao melhor atendimento; seja cliente interno seja externo. De quem se identifica, realiza-se, e quer apresentar sempre o melhor trabalho.
A doença "escolhe para suas vítimas prediletas" pessoas de alto nível profissional, que cobram muito de si, de natureza perfeccionistas, e até revelando uma certa inflexibilidade ou intransigência, por saberem - no fundo, de que a sua proposta é a melhor do ponto de vista técnico.

Burnout, portanto, é um estresse ocupacional que produz um estado de esgotamento emocional, relativamente perene.
A dedicação exagerada à atividade profissional é uma característica marcante de Burnout, mas não a única. O desejo de ser o melhor e sempre demonstrar alto grau de desempenho é outra fase importante da síndrome. O Burnout deixou em mim aprendizados, que compartilho com vocês, no intuito de ajuda-los a preveni-lo.

- Aprendi que não devo me levar tão a sério. Que os fatos ruins passarão, e nós podemos ser "passarinhos".
- Aprendi que 50% de minha excelência no trabalho poderá ser o que a Instituição precisa, e não mais fico remoendo o que poderia ser. Faço acontecer com o que tenho, mesmo que seja pouco para o que gostaria de entregar de resultados, mesmo assim é muito, no lugar em que nada existia.
- Aprendi a ser o melhor para meu trabalho, e não o melhor de meu trabalho. Ao diminuir minha expectativa, entre o meu sonho laboral e a realidade para executá-lo.
- Aprendi a relevar, a não ficar discutindo os detalhes dos detalhes dos detalhes, de um projeto de trabalho e a focar naquilo que realmente se for tirado dele é quem de fato fará muita falta.
- Aprendi a não me cobrar tanto, a ser menos impaciente comigo e com os outros. Ou seja, sempre faltarão recursos necessários para um trabalho de excelência. Adapte-se a isso e ofereça o seu melhor.
- Aprendi que não tenho controle sobre tudo, mesmo exaustivamente planejado.
- Aprendi que o caos, a desordem, não necessariamente são ruins, podem ser criativos e podem criar um ambiente de melhor relacionamento interpessoal.
-  Aprendi a ter compaixão pelo meu cliente, que nem tem ideia de como me viro nos 30 para melhor atendê-lo, e muitas das vezes age para comigo com ingratidão, falta de reconhecimento ou rispidez.
- Aprendi que não preciso provar que estou sempre certo, e que aceitar uma posição que entendo não ser a melhor, vinda de outra pessoa, pode ser a possível para que o projeto continue a andar.
- Aprendi a buscar as convergências, as interações, as comuns visões. Hoje sofro bem menos. Faço o melhor possível dentro de uma realidade possível. Não me flagelo mais.
- Aprendi a desenvolver a competência emocional e política de enxergar os porões organizacionais, com suas agendas ocultas, jogos de cena, não ditos, ou malditos, não achando que é algo pessoal, chicoteando-me de forma insana.

Precisamos de Encantamentos

Água, fogo, uma estaca marcando o terreno e um abrigo de madeira: estruturas de suporte à vida humana.
Mas, só elas não representam nada.
Precisamos gravar nossa presença nas paredes das grutas onde habitamos. Precisamos da arte, da estética, da cultura. Precisamos marcar nossa existência, diariamente, desenhando e contando nossa história com gravuras nas paredes. Precisamos celebrar, e em comunhão com o clã social, partilhar nossas alegrias e sofrimentos, nossa cultura e sonhos. O clã social é aquele que para além de nossa família carnal escolhemos para dividir nossa saga. Precisamos de fantasias, desejos mais profundos. Precisamos de amigos para em comunhão, encontrar um sentido e forças para continuar nossa jornada. Encontrar espelhos de identidade e idiossincrasias.
Precisamos da dança, da música, da história, da escrita, da mística e de um jardim para chamar de nosso. Somos sedentos de encantamentos. De enamoramentos e assombramentos que elevem e transcendam nosso vir-a-ser. Precisamos de florezinhas na janela, de pequenos prazeres, de uma mesa com uma comida amorosamente preparada. Precisamos de abraços, colo, sorrisos, afagos e cafuné. Precisamos de humor, de paz, de sentirmos solidariedade, de sermos solidários, de sermos reconhecidos em nossa presença e individualidade.
Tijolos são importantes, erguem uma casa. Mas não fazem dela um lar. Um lar tem cheiro de gente, de comida, até de bichos e de plantas. Um lar tem sons, bagunça, coisinhas que decoramos prateleiras, tem pedaços de vida, em forma de objetos materiais, que fomos juntando por aí e que nos falam bastante. São mais que uma caneca, um armário velho, um disco de vinil. 

São nós.Um lar tem lazer, quintais, varandas, quartos de despejo, lugar para despejos de detritos e banho, livros, discos, tecnologia, cozinha acolhedora, dispensa quentinha. Somos mais que água, fogo, tijolos para os que em nós fazem morada. Somos eternidade! Somos aqueles que curtem, comentam e compartilham as nossas travessuras, aventuras, desventuras.Somos alguém que um simples eu te amo, ou um - você me faz feliz, pode alterar todo nosso dia. Somos uma raça besta que gosta de festa, de futebol, de carnaval, natal, São João, o escambau. E é isto que nos torna maravilhosamente belos. Somos mais que água, tijolos, abrigo e fogão.
Somos liberdades e temos um milhão de possibilidades de metamorfosearmos nossa existência, a cada dia, surpreendemos antes de tudo a nós mesmos. Convido-lhe a surpreender-se nesta semana que inicia. Sendo menos matéria, mais espírito.

10 dicas para acabar com o estresse no trabalho

http://www.infomoney.com.br/carreira/emprego/noticia/2580781/dicas-para-acabar-com-estresse-trabalho

Quais são tuas obras?





Uma reflexão sobre a centralidade do trabalho e
seus impactos noutras dimensões da vida e do viver.

Outro dia um amigo me abordou, no corredor do trabalho, perguntando-me se eu já tinha visto um casal de João de Barro que constrói sua casa na fachada da portaria central da Diretoria de Tecnologia.

A janela, por eles utilizada como alicerce para sua morada, situa-se próximo a um jardim externo, utilizado como um fumódromo. Este colega integra o grupo dos fumantes matinais.

Chama-se André. André é um fumante sensível, daqueles que ao pitar contemplam a paisagem. E, ao fazê-lo, não podem deixar de se sensibilizarem com o que veem.

Não fosse por ele talvez não tivesse visto aquela cena, visto que acesso o andar no qual trabalho pelo elevador do subsolo.

Que legal quando podemos curtir, comentar e compartilhar algo bacana com alguém; algo que pode ser útil ao outro. Que pode edificar. Criando uma comunhão de valores, tal qual uma corrente, uma corrente do bem.

No outro dia vim ao trabalho com máquina em punho.

Cheguei cedinho, abri uns e-mails, orientei meu pessoal na agenda do dia, abasteci-me de café... e fui ver o ninho daqueles pedreiros-avoantes.

Mal conseguia fotografar de tanta boniteza. Enquanto um amassava o barro o outro ou outra ia buscar mais, numa série de voos rasantes.

Não se incomodavam com meus cliques, ou outros que ali pitavam e assistiam à cena.

Faziam seu trabalho com senso de urgência.

Contemplei a paz daquele casal de pedreiros da natureza por uns minutos. Nos dias seguintes, sempre que podia voltava para vê-los em sua jornada.

Fiquei embevecido com a singela construção e com o trabalho em sincronia, sintonia e sinergia dos Joões de Barro, sim Joões mesmo, estanho, mas é.

Enquanto um ia buscar barro molinho, ainda úmido pelo orvalho da madrugada, o outro com a ponta do bico amassava a parede, erguendo-a “tijolo” a tijolo.

Havia uma arte no depositar do barro que estava no bico, na parede que o outro moldava. Não era uma coisa jogada no chão. Havia uma espera que o outro parasse, aí sim, quem esperava com a massa argilosa no bico, depositava em cima do muro e o outro retomava a prensagem.
Esta foto expressa este momento de espera.
Ele nunca jogava no chão o barro. Que sabedoria.
Não desperdiçava a massa que trazia com dificuldade entre os bicos.
Senti em ver muitos colegas entrando apressados no corredor da portaria central, correndo para baterem seus pontos, e perdendo a chance de contemplar esta façanha. Nem que fosse no intervalo do cafezinho das 10h00minhrs. Valia descer para observar o trabalho em equipe daquele casal.
Deu até vontade de afixar um cartaz: “Parem, olhem a sua esquerda, no alto da fachada, e contemplem um casal em lua de mel erguendo seu ninho, centímetro a centímetro”.
Durante uns dias, fui agraciado com tão singelo fenômeno da natureza.
Comecei a notar que outros colegas estavam indo vê-los também.
As manhãs tornaram-se mais belas, ficava curioso para ver o quanto tinham avançado na casinha.
Vez por outra cruzava com outro observador que passara também a frequentar o local e acompanhar a saga do casal de pássaros.
Alguns comentavam que os bichinhos eram tinhosos, só trabalhavam até 11h00min da manhã, e à tardinha.
Outros falavam da crueldade do macho quando descobre ser traído, fechando a casa coma fêmea dentro.
Pesquisando na internet descobri uma enormidade de estórias sobre isto, o que me deixou encasquetado.
Por que precisamos de um modelo passional de relacionamento animal, que justifique - não sem um risinho irônico, que o macho ao ser traído mate a fêmea?
Foram poucos os sites que investigaram a fundo esta estória.
Parece-me que a fúria besta de cornos é ativada num inconsciente coletivo nesta estória, servindo como uma metalinguagem de comportamentos que na racionalidade humana afirmamos que são errados.
Não vi ninguém defender a passarinha de poder optar por outras escolhas em seu viver.
Ou até questionar o que tinha feito o Machão de Barro para levá-la a arrastar as asas para outro.
Um debate tão ridículo como o que justifica matar por ciúmes, ou como dizem, por amor, um amor minúsculo.
Achei uma explicação que mostra de onde veio esta lenda urbana, o que não diminui as projeções inconscientes, revestidas de um humor-mórbido, de quem gostaria de fazer algo igual, caso lhe acontecesse isso, uma pena.
Pesquisando achei várias fontes que contrariam esta lenda, abaixo transcrevo uma delas de http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/joao-de-barro/ a seguir:

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Há uma crença popular, inclusive mencionada em literatura ornitológica, de que o joão-de-barro, Furnarius rufus, empareda dentro do ninho a fêmea que o tenha traído. Pessoas adultas, mesmo com relativa experiência de vida, afirmam isto com a maior convicção. Esta estória imputa ao joão-de-barro duas pechas. Primeiro, a de que suas esposas são capazes de trair. Segundo, a de que os maridos são capazes de cometer assassinatos passionais.

Na verdade tudo não passa de um mito. E este mito pode ter surgido de dois fatos. O primeiro é de que alguns ninhos abandonados do joão-de-barro são aproveitados por abelhas indígenas como a uruçú-mirim, para fazerem sua colméia. As abelhas fecham a entrada do ninho com uma cera, dando a impressão de ter sido fechado pela ave. Mas olhando-se mais atentamente nota-se o engano.

Outra possível explicação, a meu ver a verdadeira, é a seguinte. Hudson, em uma obra de 1920, cita um interessante episódio ocorrido em Buenos Aires. Uma das aves (não foi possível saber se o macho ou a fêmea, pelo fato de serem muito parecidos) foi acidentalmente pega em uma ratoeira que lhe quebrou ambos os pés. Após liberada com muita consternação por quem havia armado a ratoeira, voou para o ninho onde entrou e não foi mais vista, ali morrendo certamente. O outro membro do casal permaneceu por ali mais dois dias, chamando insistentemente pelo parceiro. Em seguida desapareceu retornando três dias após com um novo parceiro e imediatamente começaram a carregar barro para o ninho, fechando a sua entrada. Depois construíram outro ninho sobre o primeiro e ali procriaram. Hudson viu este fato como mais uma "qualidade" do joão-de-barro, por ter tido o cuidado de sepultar sua parceira. É possível que esta história, publicada originalmente em um periódico científico, tenha sido divulgada muitas vezes em revistas e jornais, como acontece hoje com diversos assuntos, tornando-se logo de domínio público.

Acontece que toda história contada e recontada repetidamente, vai incorporando um pouco do floreado ou mesmo da fantasia de cada um, acabando muitas vezes com seu real sentido totalmente desfigurado. Tudo indica que foi o que aconteceu neste caso. Uma música popular, chamada "João-de-barro", de Tonico e Tinoco, muito cantada por Sergio Reis também deve ter contribuído para popularizar essa estória:

O João de Barro, pra ser feliz como eu Certo dia resolveu,
arranjar uma companheira
No vai-e-vem, com o barro da biquinha
Ele fez sua casinha, lá no galho da paineira
Toda manhã, o pedreiro da floresta
Cantava fazendo festa, pra aquela quem tanto amava
Mas quando ele ia buscar o raminho
Pra construir seu ninho seu amor lhe enganava
Mas como sempre o mal feito é descoberto
João de Barro viu de perto sua esperança perdida
Cego de dor, trancou a porta da morada
Deixando lá a sua amada presa pro resto da vida
Que semelhança entre o nosso fadário
Só que eu fiz o contrario do que o João de Barro fez
Nosso senhor, me deu força nessa hora
A ingrata eu pus pra fora por onde anda eu não sei. "

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Desfeito o preconceito, espero, voltemos à beleza do feito deste casal e seus ensinamentos.
Um deles é o de saber a hora de parar.
Notamos a comunidade de observadores de Joões de Barro, que se reunia nas manhãs por breves momentos, que a após o meio-dia eles não trabalhavam.
Trabalham forte, firme, desde o nascer do sol.
Aproveitam o barro úmido do orvalho, mais fácil e ser retirado e no ninho, socado e moldado em forma de parede.
Lembravam os lavradores nordestinos que mal o sol desponta no horizonte, às 5 da manhã, E já estão com enxadas em punho abrindo o solo seco e pedregoso, como que aproveitando a condição do solo está mais úmido pelo orvalho para deitar as sementes.
Não seria a mesma estratégia?
Fiquei meditando sobre a estratégia destes pássaros de não trabalharem à tarde.
Dão um duro danado e depois param.
Devem contemplar o resultado de seu trabalho e dizerem, por hoje é só.
O assanhado João deve dizer a sua Maria: Vamos dá um rolé por aí, garota?
Devem sair em busca das térmicas que os elevarão às nuvens mais altas.
Devem procurar uns insetos para almoçarem.
Devem namorar à sombra de árvores floridas, perto de nascentes de rios ou lagos, que vez por outra são usadas para refrescarem-se e tomarem um gostoso banhozinho a dois.
Sábios Joões de Barro.
Todos nós deveríamos ter um local para ir após o trabalho.
Um local para voar e contemplar o infinito.
Um local para reestabelecer energias, para descansar a mente e paradoxalmente, poder criar mais ainda, aproveitando outras referências de mundo.
Por mais sentido que tenha um trabalho. Por mais prazeroso que seja – imagine o prazer deste casal de pássaros vendo passo-a-passo, como fruto de seu trabalho, erguerem-se as paredes do ninho que abrigará os frutos do seu amor. Há muita vida lá fora a ser vivida, para além da labuta diária de erguer paredes de ninho.
Por mais obcecado que esteja com uma obra, há outras obras que esperam você.
Outro dia um amigo me perguntou se o segredo de ser feliz não era justamente o de ser obcecado por um trabalho, por uma única obra.
Disse-lhe que não. Justamente uma coisa que os gênios têm em comum é o gosto eclético. Curiosos que são, estão sempre disponíveis a novos aprenderes. Seja a música, literatura, filosofia, pintura, espiritualidade, esportes e outros hobbies.
Sábios Joões de Barros, exemplos de trabalho em equipe e de cultivo de novos prazeres.
Fiquei pensando se não podemos, a exemplo da lenda urbana - como numa metáfora ao terminar de erguer a obra, fruto de nosso trabalho, ficamos dentro dela aprisionados.
Será que não corremos o risco de ficar aprisionados ao trabalho, ao ponto de perdemos outras razões pelas quais viver? Dentro deste ninho de barro que construímos?
Será que ao não mitigar este risco o momento da aposentadoria não trará consigo infelicidade e vazio?
Fiquei nesta noite feliz.
Feliz por perceber que amo meu trabalho.
Por me sentir erguendo uma obra, lentamente, mesmo apesar de dias mais ou menos difíceis.
Mesmo apesar de tanta montanha ou entulhos que temos de remover, e de fogos amigos que temos de nos desviar.
Mesmo assim, não saberia fazer algo diferente.
Assim como o casal de pássaros, dou duro e me envolvo com o barro que vou levando ou moldando. Atuando junto a outras pessoas que dão sentido a obra coletiva do trabalho, do qual sou integrante. Pessoas que aprenderam o valor dos 5S no ambiente de trabalho: simpatia; sinceridade, sinfonia, simbiose e sintonia.
Feliz também por me ver voando para nuvens do infinito, todas as tardes a partir das 17h30min, quando saio do trabalho e vou buscar JG na creche; depois sigo para lecionar, e mais tarde – exausto, mas feliz tenho o prazer de voltar pra casa.
Feliz por perceber que não me perdi nos meus 26 anos de trabalho diário, de meus arvoredos, mananciais, apriscos e lugares para onde voo sempre que não estou na labuta: lugares de fé; de hobbies, de amizade; de encantamento; de solidariedade; de cultivo de novas aventuras.
Nuvens te aguardam para além da obra que tu ergues.
Por mais importante que teu trabalho te seja, não deixe que ele sugue toda a tua essência.
Roube-lhe todo o tempo. Afaste-lhe de outras fontes de prazer e realização.
Tua família, novos estudos, tua vocação cidadão, etc.!
E, quando estiver construindo teu labor, aquele diário das muitas horas a ele dedicadas, lembre-se de fazê-lo com afinco, comprometimento e paixão.
Ela é a tua marca, tua expressão.
Ama teu trabalho.
Lembre-se que o “meio-dia” chegará tão rápido, quando se trabalha com sentido, que nem notará que passou.
Aí, é só limpar o bico, e sair voando em busca de infinitos em forma de pessoas, aventuras e novas possibilidades e papéis no teatro da vida e do viver.

Espíritos de Porco

Hoje um amigo sentiu o peso da ingratidão e entristeceu. Num momento de desabafo, disse-me que cada vez mais desacredita da pessoa humana. Cada vez mais acredita que o geral da humanidade é constituído de pessoas más, interesseiras, invejosas e podres.
Lembrei desta foto que fiz recentemente. 
Às vezes temos que mirar nosso olhar para além das cercas e das prisões da realidade. 
Estas trevas, espíritos de porco (EDP) - prisões aramadas, com as quais eventualmente somos obrigados a conviver, não deveriam alterar nossa percepção, moldando-a, a ponto de não vermos mais a beleza de outras pessoas - mesmo que por trás de cercas. Nivelando-as todas como "farinha do mesmo saco". 
Amigo entristecido, afirmo e reafirmo, existem pessoas-luz. 
Gente que reconhece, gente sábia, gente que ama, gente que agradece, gente solidária. 
Só são tímidas, humildes. 
Geralmente são os espírito de porco que grunhem mais alto, e fica parecendo que tudo tá ruim, que todo mundo está infeliz. São os mais críticos, pessimistas, os que sempre querem levar vantagem em tudo.
Aos que me leem, peço, não desanimem da existência humana! 
Fiquem bravos, tristes, deprimidos, putos da vida, mas só por uma noite e um dia. Releve os EDP soltos por aí, com os quais tem de conviver. 
Você não os mudará. Mas, se não tiver cuidado, eles o mudarão, tornando-lhe como a um deles.

Pessoas-Kintsugi




Eu sou alguém que sempre está precisando de reparos na oficina da vida.
Muita gente foi juntando os cacos de meu viver que se espalharam ao leu: uns provocados pela saudade de lá, outros por desamores de cá, um mais ao fundo de solidão na multidão, outro, menos aparente, de um medo do futuro, medo de partir antes do JG desabrochar.
Cada um que cruzou em meu viver conserta um pouco estes cacos, une-os.
Completam-me a ponto de poder disfarçar o quanto de tecido puído e rasgado há na trama de meu ser. E, e muitos ainda me consertam, depositando ouro nas minhas imperfeições.
Tal qual a Kintsugi, técnica japonesa de colar pedaços preciosos de vasos quebrados, utilizando-se de ouro derretido. A ponto de o vaso ficar mais precioso ainda, mesmo com suas imperfeições.
Tive em meu viver pessoas-kintsugi, que quando todos viam caos no meu existir, elas foram mansamente juntando-me, pedaço a pedaço, e unindo-me novamente tornando-me algo menos disforme.
Hoje falo de algumas delas, que testemunharam momentos-ruptura em meu viver.
Falo de Dona Joaninha.
Conheci Dona Joaninha na Capela de São Sebastião, na qual fui seminarista de 1977 a 1982.
A Capela ficava na periferia de Campina Grande-PB, formada por gente pobre, simples, trabalhadores braçais e desempregados.
Naquela Capela, por quarto anos fiz minha formação prático-teológica para ser padre.
Eu era um dos quatro seminaristas-menores que chegavam na sexta-feira, e voltavam aos lares no domingo. Nossa agenda era cheia: reunião de oração, ensaio cânticos; catequese; comunhão aos doentes, celebrações nos lares, rito da palavra nos sábados à noite, grupo de jovens, etc.
Éramos quatro jovens vocacionados, só eu não virei padre. Carlinhos, Assis e Cristovam são padres ainda hoje.
Dona Joaninha tinha uns 80 anos, e nem sempre conseguia ir às Celebrações, pois era fraquinha do pulmão. Tossia muito e estava sempre “mais pra lá do que pra cá”.
Ela era minha “cliente” da comunhão aos doentes.
Chegar à sua casa, após um final de semana intenso de reuniões e pastorais, era um bálsamo.
Tinha sempre um cafezinho pronto, uma broa de milho.
Entre uma tosse e outra, ela dizia o quanto aquele momento da comunhão era especial para sua vida.
Nunca a vi reclamar de nada.
Sempre acolhedora e orante.
Um triste dia decidi que não iria mais ser padre. Tinha ingressado no curso de Eng. Civil, em 1982.
E não aguentaria o celibato.
Aproveitei o final da Semana Santa e anunciei aos colegas seminaristas e à Comunidade.
Foi um choque.
Todos correram para me abraçar, olhos marejados.
Senti, pela primeira vez, o que é o luto.
Estava muito abatido. Tinha certeza da decisão, mas sentira muito.
Aquela era uma espécie de “capela-escola” para novos padres e eu não podia continuar à frente de seus trabalhos.
No domingo de páscoa fui levar a comunhão pra dona Joaninha.
Sabia que era a despedida.
Ela abraçou-me longamente.
Até a tosse silenciou.
Em palavras entrecortadas de emoção pediu-me para continuar levando-lhe a comunhão.
Que mesmo sem querer ser padre eu era muito estimado por ela e ela queria receber semanalmente de mim a hóstia consagrada, já que sua doença a impedia de ir à Capela.
Dona Joaninha verteu litros de ouro derramado nas minhas feridas da separação, separação de amantes da mesma fé.
Por anos, ainda fui levar-lhe a comunhão, até que ela faleceu.
A visita na casa de Dona Joaninha era um bálsamo. Sempre mansa em paz, alegre e com um cafezinho a nos esperar. Ela era uma pessoa-kintsugi. Mesmo sem falar muito, sua expressão de bondade, de ternura, tornava sua casa um altar. Um fecundo poço de vida.

Outra pessoa-kintsugi foi Irmã Marie Etienne.

Ela era a Diretora de um Colégio de Freiras – o Imaculada Conceição DAMAS, nos idos de 1981. A conheci das pastorais da juventude, das quais participava. Houvera ingressado no curso de Eng. Civil e procurava um bico que custeasse os livros. Soubera que um professor de física das Damas houvera todo um derrame, e consequentemente se afastado das atividades docentes.
Tomado de coragem procurei Etienne. Acho que foi amor à primeira vista, e é por que ela tinha a fama de ser a dama-de-ferro do colégio. Sempre me dei bem com damas-de-ferro. Ela ouviu minhas inquietações e falou-me que a vaga já houvera sido preenchida.
Contudo, me propôs um desafio, que eu ensinasse religião aos jovens do 2. Grau: no Primeiro e Segundo Científico.
Ela propunha uma disciplina que levasse à reflexão fé x vida, nos moldes que as pastorais de juventude, inspiradas pela Teologia da Libertação, estavam fazendo na cidade.
Entre espantado e feliz, topei na hora. Foram lindos anos como educador naquele Colégio. Aprendi a contemplar, conjuntamente com meus alunos, o objeto do conhecimento - mesmo sem nunca ter lido à época Paulo Freire ou Rubem Alves. Era instinto. Naquelas aulas, muitas ao ar livre, discutíamos sociologia, política, filosofia, e até vez por outra religião...
Mas onde entra o Kintsugi?
Era Natal de 1984, fui pegar no dia 26 o resultado de um exame de gravidez da minha namorada. Aluna do III Científico.
Como nosso namoro era pesado, daquele tipo que só falta a “penetração formal”, e ela parou de menstruar, desconfiei que “algo” poderia ter subido nadando pela corrente de seu rio vaginal.
Lembro quando a moça me deu o exame e disse, - “Você é o pai? Parabéns!”
Minha vida quebrou-se em mil cacos.
Saí dali e entrei no Convento de Freiras das Clarissas, sentei-me no jardim da entrada e chorei copiosamente, chorei as mil lágrimas. Entre o resultado do exame, 26/12/1984 e o casamento 05/01/1985 foram dez dias.
Virei escândalo público. Não só pela ligação com o Colégio da Aluna grávida, como pela minha presença nas pastorais da juventude.
Tão logo casei, fui ao Colégio das Damas, dá baixa na carteira profissional, pedir demissão.
Morto de vergonha.
Etienne me abraçou. Consolou-me, não queria minha demissão.
Falou-me do amor de Deus. Do perdão de Deus. Estas coisas.
Eu, de tão envergonhado não olhava para ela.
E o quanto eu era importante para o Colégio.
Insisti, disse-lhe que minha autoestima religiosa estava abaixo de zero, e que não tinha a mínima moral para olhar os alunos.
Ela, visivelmente entristecida, aceitou.
Não esperava tanta compreensão.
Aquilo fluía pelo meu interior, qual ouro derretido que selava e fundia os cacos de meu vaso interior quebrado.
A dama-de-ferro revelava-se de imensa bondade, empatia, de quase um espírito maternal, eu tinha 20 anos.
Colou-me para que eu pelo menos voltasse a caminhar.
Aposto que fez reunião com a comunidade docente pedindo-lhes que preservassem meu ser.
Despediu-se de mim, não sem antes dizer que me pagaria ainda o mês de fevereiro, programando a baixa da carteira para março.
Ela foi meu Kintsugi. Ajudou-me a conviver de cabeça erguida com a vergonha de meu ato, vergonha que sentia quando entrava na Igreja do Rosário e os jovens para os quais eu era exemplo me viam, me acompanhou meses adentro, só sendo curada com a exata medida que meu filho crescia nos meus braços.
O nascer do Tiago me libertou de toda culpa, de todo pesar, de toda vergonha.
Vendo-lhe tão pequeno no meu colo, senti-me o mais forte dos Homens.
A médica que atendeu Cristina em sua gravidez de alto-risco do JG, inclusive fazendo o parto antes do tempo, com 31 semanas, Dra. Narayana, foi uma de minhas alunas de religião daquele colégio. E a esposa de meu irmão, a Patrícia Galdino, apresentado por mim a ele, idem. Coincidências? Nada. Kintsugi que flui.
Para finalizar, não poderia deixar de falar de meus pais-kintsugi, que tiveram presença marcante na mesma cena acima relatada.
Para eles aquela gravidez nas coxas também foi um choque.
Contudo, não se furtaram em correrem para me ajudarem.
Desfizeram-se de suas parcas economias das aposentadorias do Senai, e em dez dias montaram casa para seu filho.
Mas que casa, abriram seus corações e não deixaram que mais agressões chegassem até mim.
Pouparam-me e não me deixaram abater ainda mais.
Não ficaram me ofendendo com sermões sem sentido, após o leite derramado.
Eu gostava da namorada, fomos casados ainda por dez anos, mas foi toda uma vida que se precipitou, foi um amadurecimento no carbureto. Envelheci uns cem anos, em dez dias.
Meus pais durante muito tempo, mesmo nos primeiros anos de BB, davam-me ajuda financeira para cobrir os custos de uma família. Nunca me deixaram desesperar por problemas financeiros. Mesmo quando fui morar uns tempos na sua casa, por não ter dinheiro para pagar as contas regulares, eles ainda assim me diziam: vai passar, num instante vocês voltam pra casa, é só uma crise passageira.
Como foram sábios e amorosos.
Meus pais-kintsugi!
Dona Joaninha, Irmão Etienne e meus pais, eu sobrevivi!
Muito obrigado por juntarem meus cacos e os colarem com o que podiam.
Outros tantos juntaram meus cacos vida afora: Catão, Ari, Marcos Gouveia, Valzenir, Alcione, Pedro Nelson, Deraldo, João Júnior, Sergio Dantas, Gustavo, Andrea, Patrícia Galdino, Cristina Pinatti, Tiago, Rodrigo, Priscila e JG, muito obrigado por existirem!
Eu quero ser kintsugi para quem eu possa. Quero tornar alguém, mesmo que quebrado pela vida, desfeito em mil pedaços, melhor ao cruzar meu caminho.
Quero ajudar-lhe a sarar as feridas, fundido nos seus pedaços de ser que se espalham-se ao léu, qual os meus, um rio de ouro derretido que ao fundir vai colar seus pedaços interiores.
Ouro temos de sobra, é só buscarmos no interior uma palavra mansa, amiga, de estímulo, de consideração, de reconhecimento, de gratidão, de solidariedade e semeá-la no coração dos cansados e abatidos.
Palavras que poderão vir também na forma de gestos concretos, tais os que recebi de Joaninhas, Etiennes, Evandy e Denises de meu viver.
Para eles pode até ter sido pouco. Para mim, eram as tábuas que faltavam - na ponte de minha existência, para que eu pudesse continuar trilhando a minha jornada pessoal por mais uns metros, em busca de novas oportunidades que o futuro reservara para mim.

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