Raspa de Tacho (Por Ricardo de Faria Barros)


Tomava meu cafezinho de feira livre, quando o Sr. Francisco, vizinho da banca de onde me sento para comer pastel, se aprochega e me aborda com um potinho de margarina, cheio de umas coisinhas amarelas.
Ele me diz, pode comer, é coisa fina e com café combina bem.
Sr. Francisco me disse que era a raspa do tacho de onde fizera requeijão. 
E, de fato, um manjar de encher os olhos.
Mas, o que me fez mesmo encher os olhos, dessa vez marejados por lágrimas rebeldes, foi o gesto dele.
Há quanto tempo você não recebe de alguém as raspa da panela?
A raspa da panela é o que tem de melhor, em inúmeros pratos.
É aquele gostinho de quero mais, é aquele cozimento perfeito.
Receber a raspa de panela de alguém, é recebe um grande abraço, é receber amor, e faz-nos sentir o amor.
Passei a saboreá-la aos poucos, entre um golinho e outro de café.
Já percebeu que têm pessoas que sua presença em nossa vida é como raspa de tacho?
Que nos dão de seu melhor, que não se poupam para nos ajudar, que nos apoiam, nos estimulam, nos reconhecem, nos amam incondicionalmente, apenas por não saberem ser diferentes, quando estão em nossa presença.
Pessoas raspa de tacho, quem tiver algumas delas em seu viver é um abençoado.
Quantas vezes vamos guardando nossas raspas de tacho, sem doá-las para ninguém?
Creio que uma raspa de tacho, só se torna verdadeiramente uma raspa de tacho, quando é comida com gosto, com colher, sem medo de se lambuzar.
Como fazemos quando deliciamos da presença do afeto, em forma de gente, em nosso viver.
Ganhei raspas de tacho no domingo, e aquele gesto, de me doar o que o Sr. Francisco tinha de mais precioso, e raro, em seu precário tabuleiro de feira, me fez sentir a força do amor.
Quando somos amados, recebemos raspas de tacho. Quando amamos, damos raspas de tacho.
Delícia.
O tacho somos nós, a raspa é o que temos de melhor no relacionamento com o outro.
É a mansidão, é a generosidade, é a gratidão, é o respeito e apoio.
Isso tudo, torna a vida saborosa.
Então, caro amigo(a), preserve, cuide e admire a sua raspinha de tacho, caso tenha uma.
E, caso se sinta assim, para com alguém, deixe-se raspar por ele (a), entregue-se gratuitamente e generosamente à raspada, pois, ao raspar teu interior, eles não ficarão os mesmos, ficarão melhores e mais doces.

Quanto está disposto a pagar pelo teu sonho? (Autor Ricardo de Faria Barros)

Têm sonhos que sofrem de falta de capacidade "acabativa".  O cara é muito bom de opinar, de ter ideias, mas na hora de executá-las ele trava.

Têm sonhos que sofrem de falta de energia. A pessoa quer algo para si, mas não se move em direção ao alvo. Não faz acontecer no presente, o futuro sonhado.

Têm sonhos natimortos, infelizmente. Que não são nutridos, cuidados, cultivados e morrem.

Sonho é um nome bacana para definir desejo. Até porque, o nome desejo ficou muito associado ao erótico. Então, gosto de falar em sonhos desejantes.

Creio que se pode definir vários momentos em nosso viver, vários marcos, ou até marcas que deixamos, ou em nós foram deixadas, pelos sonhos desejantes.

Essa mãe e filha dançando, na foto que ilustra esse texto, são um exemplo de como devemos perseguir o que queremos, e não desistir diante do impossível.

O impossível pode ser somente uma ilusão de como se olha.

Em fevereiro (2017), estava de férias em João Pessoa-PB e fui visitar o salão de artesanato. 

Quando de lá saí, fiquei petrificado de amor ao ver essa escultura. Ela é montada sobre um pivô rotativo, que a faz girar, como se a mãe estivesse rodopiando com a filha.

Tudo nela é movimento, é amorosidade, é ânimo.

Pensei que daria uma boa decoração na sala de minha empresa. Mas, já tinha gasto muito nas férias, era fim de férias, e a prudencia mandava economizar. E, ainda tinha o peso da peça, que dificultaria a vinda de avião, sem ter que pagar excesso.

Despedi-me dessa mãe e menininha, pesaroso, coração apertado. 

Ao chegar em Brasília, eu não tirava da cabeça aquela escultura. De tanto pensar nela, entrei em tudo que era de site do Salão de Artesanato, tentando achar o artesão que tinha feito essa obra de arte. 
Tudo em vão.
Então, descobri o contato do pessoal da Secretaria de Turismo e liguei para eles.
Eles foram muito legais, e me deram o celular da pessoa que mandei cuida do tema artesanato.
E eu mandei um zap para ela, dizendo que queria adquirir aquela escultura e não sabia como.
Seis meses depois, ela me respondeu, eu não a culpo pelo atraso. No mundo digital, as mensagens podem ficar séculos perdidas, dependendo da incidência delas em nossa caixa de entrada. E me forneceu um monte de contatos de artesãos.

Aí, consegui achar o artesão, que na verdade é um casal: Adauto e Lindalva. E, depois de breve negociação, mandei o dinheiro para eles, confiando no fio do bigode. E eles foram deixar o objeto de arte na casa de meus pais, dirigindo de João Pessoa à Campina Grande. E ela será trazida por alguém dos nossos, quando em viagem para Brasília.


Quanto estamos dispostos a lutar por nossos sonhos desejantes? 

Quanto estamos propensos a renunciar, pelas escolhas dos sonhos desejantes que fazemos?

Quanto de entrega estamos dispostos a doar, para construir o sonho desejante que almejamos?

Penso que a vontade de realizar o sonho desejante é uma questão determinante. Não há transformação, não há mudança, não há conquista, sem esforço, sem disciplina, sem noites insones.

Sem isso, a mãe e menininha que rodopiam, estariam condenadas a serem apenas boas lembranças do que passou.

Afinal, não há realizações de sonhos desejantes, sem esforços cambaleantes.

Cartas ao JG - Transições Necessárias (Autor Ricardo de Faria Barros)


Querido JG, era um domingo pela manhã, dia do aniversário de teu irmão mais velho, o Tiago, que fazia 32 anos.
No dia anterior, comemoramos o teu aniversário dos oito anos.
Comemoramos no dia 8, já que o dia 6/7/2017 caiu numa quinta.
Gosto muito do dia seguinte ao teu aniversário.
Embora eu tenha uma trabalheira danada para por a casa em ordem.
No dia seguinte, é quando autorizamos que você abra os presentes.
E é como se a festa continuasse.
Ver sua carinha de expectativa, sua vibração e felicidade, a cada pacote que abre, é um pedacinho de céu.
Da posição em que eu estava, eu tinha uma vista privilegiada de você abrindo os embrulhos.
E, fui notando que passou a balançar as caixas e sacolas.
Algumas deixava de lado para abri-las depois.
Dizia: "é roupa".
E, à medida em que avançava na operação mais caixinhas eram deixadas de lado, e tua expressão foi mudando.
Não é que ficou triste.
Só mudou a expressão.
Sabe aquelas boas atrizes que conseguem alternar na face a expressão de desejo para de frustração?
Assim acompanhei teu rostinho.
No final, recolheu os poucos brinquedos, como tesouros.
Olhou para os "embrulhos sem sons" e começou a abri-los, um a um.
Nós percebemos e passamos a fazer festa, com cada camisa, boné e calça que abria.
Até pedimos que você fizesse pequenos desfiles.
Quando abriu a camisa do Barcelona ficou muito feliz, tu gostava muito de futebol.
Ainda vou te dar uma do Fluminense.
Passado um certo tempo, tu recolheu os presentes que fazem barulho, teus brinquedos, e um a um subiu com eles para o quarto.
Deixou, no canto do sofá, as roupas.
Vendo-lhe subindo as escadas com teus brinquedos, segurando-os como tesouros, senti uma perto no coração.
Acabei de presenciar a primeira transição que a vida faz contigo.
Ano a ano, os presentes que chocalham vão sendo em menor número.
Você está virando um rapazinho, e os brinquedos vão começar a rarear.
Logo mais serão roupas, discos de música, livros, perfumes, cintos e gravatas.
E, quando chegar nas gravatas, a infância será apenas uma doce lembrança.
Filho, passou rápido não foi?
A vida passa muito rápido. Então, aprenda a degustá-la no momento, prestando bem atenção a tudo que lhe acontece.
Esteja presente!
Não se ligue no piloto automático.

Um dia desses você brincava com seu "amiguinho de pano", e alegrava-se com carrinhos que ganhava.

Durante a vida você ainda passará por muitas transições.

Aliás, creio que elas nunca findarão.

Até na idade adulta passamos por transições. Pelo ponto de mutação, no qual de um dia para a noite a roda gira, e assumimos outros papeis.

Apenas uma coisa te peço e recomendo.

Nunca deixe largado, num canto de seu coração, a alegria de viver de uma criança.

Não vire Homem sério e chato.

Daqueles cheios de razões, de verdades intocáveis, rabugentos, críticos e reclamões de tudo.
Deixe a criança em ti sobreviver, mesmo que em outras formas e situações.
Existem outras formas de brincar, na juventude e vida adulta, sem ser com brinquedos.
Você verá.
Quando você sair para dançar, será um prazer enorme, é um brincar.
Quando você viajar, será como brincar.
Quando você praticar algum esporte, participar de algum evento cultural, será como brincar.
Não se perca disso. Não vire Homem sério e ocupado, tão ocupado que perdeu a capacidade de poetizar a vida.
De ir num teatro, de participar de uma festa popular, de andar de pés descalços e de tomar mais sorvete do que sopa.
Não se perca da curiosidade da descoberta, aquela que faz com que aprendamos coisas novas, um valor muito presente na infância.
Não se perca da capacidade de refazer relações desgastadas, daquelas que ao brigar com os amiguinhos, 5 minutos depois já estão brincando juntos novamente, sem mágoas ou ressentimentos.
Não se perca da capacidade de se alegrar com o simples, como tantas vezes se alegrou ao subir em árvores.
Não se perca da criança que um dia habitou em você, será ela quem te dará forças para sair do lugar comum, o da estagnação, e ousar ser diferente.
Não tema passar por ridículo, se assim precisar, para defender os valores mais nobres da bondade, mansidão, doação e esperança.
Esteja sempre disposto a um recomeçar, a entrar no carro e partir para um lugar que nem sabe onde fica, apenas pelo prazer de passear com teu pai dirigindo.
E, nunca esqueça, no carro de tua vida quem dirige é o nosso Pai maior.
Portanto, não tema as transições!
Elas serão necessárias ao teu amadurecimento.
E,  por mais duras que sejam, sempre poderá guardar consigo e preservar, algo de bom da etapa anterior, como a felicidade de ser criança.
Nunca se perca dela! Mesmo que um dia tenha que passar pelo nó da gravata apertando, ainda assim, cultive um espírito livre e amoroso. Não tema passar recibo de "estranho", de bobo, de um cara que faz as coisas diferentes.
Seja normal, no que é preciso para sobreviver.
Quanto ao demais, seja você mesmo.
E, se ao passar por uma calçada, tiver uma fruta madura num pé de manga, e quiser tirá-la e chupar, ali mesmo, faça isso.
Não deixe envelhecer teus desejos, culpando alguém ou terceirizando os outros, pelo fato deles não terem virado realidade.
Em mutias ocasiões, será de você que a vida esperará mais respostas do que justificativas.
Coisas que as crianças são experts em fazer.
Sim, tua tia Marlene, irmã de mamãe, ligou perguntando o presente que quer. Ela vem no dia 16 te visitar, pois não pode vir no sábado.
Eu disse a ela: "Traga um brinquedo". rsrs
Tá me devendo esse!

Deixo-lhe com poesia.

Tempo de Travessia – Fernando Pessoa
“Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos”

Aprenda a Jogar Frescobol


Existem relacionamentos do tipo pingue-pongue, ou como chamamos agora após se tornar um esporte: Tênis de Mesa. No Tênis de Mesa, queremos que a bola, por nós lançada no campo do outro, chegue por lá o mais quadrada possível. De preferência, bem veloz e com efeito, para que ele não consiga defendê-la e perca a jogada.

Quem se relaciona com alguém assim, vai adoecendo com o tempo, de tanta bola quadrada que recebe.  De tanta falta de admiração e cuidado que não sente para consigo mesmo. A relação vira um palco de desconfianças, de ressentimentos, de nenhum cuidado ou admiração pelo outro. O esporte é procurar o que o outro tem que lhe falta. E não o que o outro tem que lhe sobra. Entende?

E o pior é quando ambos aprendem a jogar esse jogo, aí é que o ambiente fica de disputa de egos, daquelas que todos se enchem de razões.

Existem relacionamentos pingue-pongue entre gerentes e seus liderados, entre pastores e suas ovelhas, entre marido e mulher, pais e filhos, entre amigos, e, infelizmente, até em grupos sociais, esportivos,culturais, e religiosos. 

Então, meu caro amigo ou amiga que me ler, se você tiver alguém na sua vida com o qual jogue frescobol, ajoelhe-se e agradeça ao bom Pai.

Andam raros os jogos relacionais do tipo frescobol. Seja de que tipo de relacionamento você tenha, se ele for do tipo frescobol, ele é terapêutico, apoiador e amoroso.

Ele contribui para aumentar sua percepção de felicidade, ao liberar os hormônios e neurotransmissores do quarteto fantástico do bem-estar emocional que são: endorfinas, serotonina, dopamina e oxitocina.

Quem joga frescobol relacional não quer derrubar o outro. Quer vê-lo crescer. Quer o melhor para ele. E, se preciso for, renuncia a si mesmo para que a jogada chegue mais redonda do outro lado, esparramando-se no chão para salvar uma bola.

No frescobol relacional o importante não é vencer o outro, em insanas disputas de egos vazios,  e sim manter a bola em campo.

E, nesse espaço relacional,  cultiva-se o respeito, a amorosidade, o perdão, admiração e o cuidado pelos que chamamos de amigos.

Se eu trabalhasse com educação infanto-juvenil eu usaria o frescobol para ensinar o valor do outro em nosso viver.

Para ensinar, desde o início, a arte de relacionar-se, de forma apreciativa com o outro.

Ensinar o diálogo construtivo. Ensinar o respeito à quem classificamos de diferente.

Ensinar a perdoar e restaurar pontes. Ensinar a compartilhar, a admirar, a cuidar do outro.

Ensinar a pensar no nós.  Ensinar a comunicação não violenta e o cultivar da atitude apreciativa do outro.

Mas, falar desse negócio de frescobol relacional parece que soa para muitos como coisa utópica, nos dias de hoje.

Inúmeros estudos confirmam que os relacionamentos significativos são um três alicerces que sustentam a percepção de bem-estar com a vida.

O outros dois são o Sentido, nas suas expressões de próprio, engajamento e realização.

E as emoções positivas. 

O maior estudo psicológico transversal já feito, o Estudo Grant, que acompanhou o desenvolvimento emocional de pessoas por 50 anos, confirma que aqueles que têm relacionamentos bacanas, que lhes servem como fonte de apoio, de estímulo, de admiração, de cuidado, atravessam momentos de crises com muito mais valentia e resiliência do que os que se dizem sem nenhum relacionamento desse tipo, do que chamo de relacionamento frescobol.

Então, quem tem um desses pra chamar de seu, é hora de guardá-lo com carinho, de cultivá-lo, de não deixá-lo morrer, e de até fazer outros do mesmo naipe.

Garanto-lhes, valem ouro em pó!

E, quem aprendeu a jogar pingue-pongue com o outro, que tal desaprender?

Que sabe não é chegada a hora de desaprender esse hábito perverso e tirano, de se relacionar com o outro nessas bases pinguepongueanas, tão sem vida.

Cartas ao JG - Participe de Tudo! (Por Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 8 anos).



Filho, domingo passado eu perambulava pela feira de São Sebastião-DF, trazendo para casa os pasteis de queijo de que tanto gosta. 

Aí, avistei esse cartaz da foto, que divulgava um torneio de Dominó.

Achei de uma pureza interiorana fantástica, algo que estamos perdendo.
Fiquei um tempo imaginando a cena. 

Imaginando as pessoas levando as torcidas, treinando, dizendo em casa que iriam participar da grande disputa de Dominó do ano.

Com direito ao primeiro prêmio de uma porca.

Já pensou se eu ganho? Ou tu? Como chegaremos carregando uma porca? rsrs

Outro dia, nossa família enluteceu, morreu minha tia, irmã de mamãe, a Tia Lila.
Achei tão linda a despedida de meu sobrinho, o Artur, postada no grupo da família.
Ele agradeceu a tia por ter-lhe ensinado a jogar Buraco, e por ter jogado com ele em muitas férias que ele passou em João Pessoa.

Entende o valor para o Artur daqueles momentos em que ele interagia com a família para jogar buraco?

Você deve estar pensando que o tema essa carta é sobre dominó, buraco, porca, etc. 

Não filho meu, não é!

O tema é sobre a capacidade do ser humano de se afiliar, de se vincular a algo.

E a dica dessa carta, filho meu, é para que você aprenda a se vincular. Seja para disputar um torneio de dominó. Seja para dançar uma quadrilha, seja para participar de um projeto social. Seja para cantar num coral. Seja para se congregar numa igreja. 

Se afilie a algo e se vincule a muitas pessoas.  Se for fazer mestrado, por exemplo, proponha ao teu grupo vários espaços fora da sala de aula para que se integrem e entre eles cresça a amizade.

No trabalho, seja daqueles que faz festa a cada aniversário que sempre convida o pessoal para um evento de final de semana.  

Seja um catalizador de encontros sociais, e que teu lar esteja sempre aberto aos amigos. 

Faça e cultive redes sociais.  Elas são muito importantes para nossa saúde mental.

Nós precisamos de vínculos sociais. Precisamos de ajuntamentos humanos, de pessoas que comunguem dos mesmos ideais, de pessoas com as quais construiremos nosso presente e vir a ser.

E, quanto mais diversificados teus grupos, melhor será para teu crescimento como ser humano.

Não se feche em apenas um grupo, pois correrá o risco de ficar dogmático, ou daqueles chatos que acham que só existe a verdade do grupo deles. Desprezando tudo que seja diferente.

Não seja assim. 

Eu ficarei mito feliz, de onde eu estiver te vendo, ao saber que você participa do grupo de  teatro, de vôlei, da igreja, o grupo dos escoteiros, o grupo do voluntariado.

Os grupos são espaços bacana para que neles exercitemos o valor do outro.

Trata-se de locais preciosos para dar e receber apoio, dar e receber perdão, dar e receber amor e cuidado. 

Portanto, filho meu, o pagamento dos R$ 40,00 para participar desse campeonato de Dominó, é infinitesimalmente menor do que a dose de oxitocina que será liberada no corpo de quem participará dele. Algo da dimensão de fazer algo prazeroso com o outro.

A oxitocina é um dos hormônios mais importantes para a construção do tecido social da humanidade.
Trata-se do hormônio do vínculo, que só é produzido em condições de confiança e respeito pelo outro, como as mães que amamentam sua cria.

A oxitocina reduz a presença da adrenalina e do cortisol, que em excesso nos envenenam e tiram o prazer dos dias, fazendo-nos focar exclusivamente nos problemas e preocupações.

Uma pena, filho meu, que os grupos estejam se tornando tão agressivos e cheios de arrogância, deixando de ser um lugar de saudável harmonização de diferentes.

Se um dia você estiver andando pela feira e achar um cartaz desse tipo, inscreva-se e participe.

Participe de tudo. 

A participação em espaços sociais nos quais exista amistosidade, cooperação e trocas recíprocas de afetos é uma das melhores coisas da vida. 

Aí você acorda. (Autor Ricardo de Faria Barros)


E sente aquele frio imenso. A cama lhe atrai como um imã. Mas, você tem atendimento logo cedo, e pula dela apressado.
Entra no banheiro e tem dificuldade de urinar, não consegue ver onde se escondeu o bingolim, encolhido pelo frio que ficou.
Olha para o chuveiro e lembra-se que precisa encarar um banho. Até pensou em usar o velho truque do perfume, mas o corpo está muito estragado, e precisa de um banho para rejuvenescer.
Abre o chuveiro e percebe que o frio da madrugada fez com que o aquecedor solar não conseguisse aquecer a água das tubulações. Então lembra-se de dar dez pulos embaixo da água gélida, enquanto lava as partes pudicas e axilas, no 9 pulo molha rapidamente o cabelo, e já deu. Chega de banho.
E aí você sai do chuveiro, mas parecendo um palito de picolé, e se olha no espelho.
De seu nariz vê saindo aqueles pelos, comuns em machos que envelhecem, de qualquer espécie.
Lembra-se então que comprou, lá nos camelôs, um “pra que isso?” que se propõe a cortar os pelos do nariz.
Todo orgulhoso, da tecnologia disponível, liga o “pra que isso?” e ele não funciona. A pilha só tinha carga para a demonstração do vendedor.
Aí você olha para o bingolin desaparecido, olha para o chuveiro gelado, olha para os pelinhos que agora acenam para você, vitoriosos, e pensa consigo: “hoje era dia de ficar na cama!”
Bate o rosto com as palmas das mãos, e lembra-se que um bom café cura tudo.
Então, refeito das frustrações, mas ainda com frio na alma, e querendo jogar o aparelho ladeira abaixo, bota uma roupa quentinha, e lembra-se que é a hora do café na cozinha.
Pensa, com suas papilas gustativas, Cida já chegou, com certeza”
Então, sai do banheiro e cruza com a esposa, que carrega o pequeno insone para a escola.
Respira fundo, abre um sorrisão e profere para ela o seu melhor bom dia.
Ela olha para você, com cara de “Bom dia por que?”, e você desiste de dar-lhe um abraço, com medo dos espinhos. rsrs
Aí, numa fração de segundos, lembra-se que no dia anterior ela pediu-lhe ajuda para uma carona até a concessionária, e você falou que não podia ajuda-la, dado que seria na mesma hora de uma palestra no Sistel-DF.
Estava explicado o “Bom Dia, por que?”
Então, refeito do chuveiro frio, dos pelos no nariz, do abraço não dado, você dirige-se à cozinha, ávido por aquele café delicioso.
Na porta da cozinha, Cida lhe espera pelo lado de fora.
Você estranha o fato, abre a porta, e ela lhe diz que não fez café ainda, dado que sua mãe trancou a porta por dentro, com medo de ladrão. Ela não conseguiu acessar a cozinha.
Aí você se lembra que tomou banho frio, que o pelos do nariz ficaram tirando onda de sua cara, que não teve um bom dia sequer e agora nem café tem para afogar o frio na alma.
Cida lhe diz que em dez minutos o café estará servido, e “bem gostoso”.
Pensa em aproveitar o tempo de preparo do café, para atualizar as mensagens do celular. E percebe que a bateria arriou, pois não deixou carregando o celular.
Celular é um troço que sempre está sem bateria.
Procura o carregador, o único que dá na traseira do celular modernoso que comprou, e não acha onde a colocou.
Aí pensa, que dia!
O chuveiro gelado, o pelo no nariz, o bom dia sem o bom, o café atrasado, e o celular mortim...
Para matar o tempo, antes do café, já que num tem celular para distrair, lembra-se da obra de arte matinal que sempre faz.
Então, pega um bom livro de psicologia e dirige-se para o banheiro do escritório.
Senta-se qual rei e se dar o direito de um daqueles n. 2 memoráveis, com tempo para a leitura de duas páginas do livro.
Agora bem relaxado, você levanta-se, olha para sua obra de arte, e dá descarga.
Aí, percebe que o conserto que o bombeiro hidráulico fez, no dia anterior, na bacia sanitária, não funcionou.
A sua merda dá cambalhotas, rodopia, mas não desce tubo adentro.
E o vaso sanitário fica mais parecendo um aquário de merda, com peixinhos circulando nela livremente, desafiando o redemoinho de água.
E, aquela merda posso sentir, está quase alegre, sentindo-se tão vitoriosa quanto os pelos de meu nariz. Do banheiro ouve sua mãe dizendo-lhe que está fazendo as preces para “as almas dos vaqueiros” para achar o carregador do celular.
E pensa que está dando trabalho até às almas. Respira fundo, e por falar em nariz, sente o aroma do café entrando na vida, vindo da cozinha.
Refeito do desgosto de ver merda boiando, dirige-se à cozinha.
Chegando lá, vê que seus pais de 80 e 78 anos, que vieram de Campina Grande-PB lhe visitar, já estão sentados degustando o café.
Sua mãe pergunta-lhe se comprou o mamão dela.
Ai, você todo orgulhoso de ter se lembrando daquilo, no dia anterior, diz que comprou e pede à Cida que ara o mamão.
Cida abre o mamão e solta um: “Sr. Ricardo, o mamão só está maduro por fora, por dentro está verdinho, verdinho, não dá para comer”.
Aí, um turbilhão de pensamentos negativos assolam teu ser, como que descessem rio abaixo: lembra-se do frio do chuveiro, dos pelos de velho, do abraço sem receber, do café atrasado, do celular mortim, do carregador desaparecido, do conserto que não consertou, da merda saltitante e do mamão comprado errado.
Mas, você é um ninja emocional, e se recupera logo, sem deixar transparecer para sua mãe o seu estado de frustração.
Para disfarçar o vexame de ter comprado o mamão errado, levanta-se, abre a janela da cozinha e respira fundo.
Dali, contempla o horizonte e ver o sol nascendo, em mil tons de laranja à carmim.
E uma brisa Aracati entra pela janela e areja teu ser.
Você respira fundo, agradece a Deus pela manhã que nasce, e pelos seus pais que tomam café contigo.
Fecha a janela, para que a friagem não atinja seus pais, volta-se para eles que alegres comem do que tem à mesa, e não reclamam.
Sua mãe até diz que não queria mamãe mesmo.
Mães fazem isso, renunciam a elas mesmas para que os filhos sintam-se melhores.
Aí você quase não se lembra mais:
Do banho frio, dos pelos rebeldes, do bom dia sem dia, do atraso do café, do celular mortim, do carregador desaparecido, da merda peixinho, do mamão verde e decide olhar para o que sobra no dia, e não para o que ele esteve em falta para contigo.
Olha a sobra de ter uma casa, de ter pais, de ter uma Cida, de ter um café, de ter água, de ter uma janela para as montanhas, de conseguir fazer a digestão, de estar vivo, e escolhe racionalmente fechar as janelas das frustrações matinais. Zerar as faturas delas.
Afinal, o que é a vida senão as escolhas que nós fazemos daquilo que ela faz conosco.
Aí você esquece de todos os aborreceres cotidianos, seletivamente pinçados naquela manhã, e olha para aquela mesa da cozinha.
Ali, tomando café, estão seus pais. Uma cena cada vez mais rara, e que com o avanço da idade é mais finita a cada dia.
Aí você serve para sua a mamãe um cafezinho com leite, serve para seu papai um pão do tipo bisnaguinha com manteiga.
Então ida adentra na cozinha dizendo que achou o carregador.
Sua mãe agradece aos vaqueiros.
Você sorri. E mais uma vez agradece estar aprendendo para que lado olhar a vida, e quais janelas deverão ser fechadas, antes que contaminem todo o bom, belo e virtuoso, com seu cheiro fétido, que ainda lhe resta.
Beija seus pais, despede-se de Cida, e segue para a palestra Gestão das Emoções e Relacionamento Interpessoal, agora mais convicto ainda do que falará!
Aí você entra no carro, começa a dirigir, e uma borboleta azul passa à sua frente. Você a vê e a ama, sentido uma profunda gratidão por ela existir e se fazer presente, nas manhãs de teu viver, raríssima que é.
E o amor aquece todo seu ser.
E, ao dirigir, medita: o que é a vida senão as escolhas que fazemos, as janelas que fechamos, junto com suas renuncias, e o lado que decidimos olhar, considerar, valorizar e carregar conosco? Escolhendo seletivamente e racionalmente o ser mais feliz, apesar da juntada de cacos diária, ao prosseguir esperançoso pela nossa jornada peregrina.
Aí você acorda, e num belo dia percebe que a vida é breve demais para ser pequena.

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