Cartas ao JG - Os cinco pilares do bem-estar (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do JG de quase 8 anos).


Sabe filho, têm noites especiais, e a de sábado foi uma delas.
Você aprendeu a ler as legendas dos filmes.
Não gosto de filmes dublados, e você ontem acompanhou comigo um filme, pela primeira vez.
Um daqueles bem legais, no qual uma fisioterapeuta trata um atleta para a volta às quadras de basquete, um famoso jogador da NBA. Você curtiu, gosta de esportes.
E, em alguns momentos, durante o filme, fez cafuné em minha cabeça. 

Depois, antes de dormir, brincou de se esconder comigo. E não lhe achei. Você vibrou, pois perdi. 1 a 0 para tu. Adoro perder para quem amo.
Tu se escondeu num dos cômodos do guarda-roupa. E me pegou direitinho.

Depois, antes de dormirmos, você veio na minha rede e trouxe um de seus amiguinhos para dormir comigo, o “Tobi”, seu cachorro de pelúcia.
E me senti tão amado por ti!

Dormi abraçado com o Tobi, e viajei para bem longe, para um lugar na minha infância no qual eu tinha meu Tobi, que se chamava Preto, um amigo-cão de estimação que era quase gente.
Sabe filho, nessa carta queria te falar para nunca perder essas três coisas que fez ontem: a capacidade de dar afeto, a de brincar e a de doar algo de melhor que tem para o outro. 

Expressos no cafuné, no brincar de se esconder, e no teu Tobi de pelúcia.
Essa é a formula do bem viver. Nunca esqueça. Cultive sempre em ti um ser de ternura, o brincar e doar de teu melhor ao outro.

Andamos pedindo da vida muitas respostas, e não damos para ela, a vida, as respostas. Um perdão pode ser uma resposta. Um gesto de doação, pode ser outra. Uma bondade, sem segundas intenções. Um agradecimento sincero. Um coração que encontra tempo e oportunidades de expressar a gratidão. Tudo isso são respostas. 

Todo mundo anda cheio de direitos, de razões, só querendo receber, só querendo para si o melhor, mesmo que a custas de estratégias nada éticas.
E a infelicidade campeia solta. Somos vítimas de nosso próprio estilo de vida, da dita sociedade pós-moderna.
Imagine filho, que essa semana saiu num dos Jornais daqui que o Distrito Federal já é recordista em prescrição de remédios para ansiedade e controle de estados de humor.
E as doenças mentais já são as que mais afastam no mundo do trabalho, segundo a OMS.
Atacamos as consequências, e fingimos não ver as causas.
As pessoas estão individualistas demais. Estão insensíveis demais. Estão agressivas demais. E o efeito se dá saúde mental.
Então, filho amado, nesses três gestos teus estão o segredo do bem-estar emocional, e da prevenção ao adoecimento psíquico. Cultive-os nos mais diversos formatos, estilos e intensidade.

No primeiro, o do cafuné, estão as emoções positivas e os relacionamentos significativos.
Emoções positivas e relacionamentos significativos estão contidos em quem se propõe a acarinhar alguém. Ninguém faz cafuné no outro pensado em vingança, ódio, mágoa e desamor. Pelo contrário, quem faz um carinho no outro pensa o bem para ele, pensa amor, pensa paz, pensa bondade, pensa gratidão, potentes emoções positivas.

No segundo, o do brincar de se esconder, estão dois outros pilares do bem-estar emocional: o engajamento e a realização. Você se engajou em algo, em se esconder. E após constatar que eu não lhe encontrei, viveu o saboroso momento da realização. Engajar-se com algo, que quando estamos fazendo perdemos a noção de tempo e espaço, de tão bacana que é, que fundimos o cérebro emocional com o cognitivo, num enlace perfeito. A isso chamamos estado de flow, ou de engajamento. E a realização você viveu, na vibração com os resultados que alcançou. No seu trabalho você pode viver estados de engajamento, de flow. No lazer ou Hobbies, e até na produção acadêmica ou cultural. O flow é o estado do ser que mais ativa as endorfinas e ocitocinas – hormônios do prazer.

Por último, na doação de teu amigo de pelúcia para dormir comigo, tu viveu o pilar do sentido, ou propósito. Houve uma intencionalidade, você queria me proporcionar algo não tangível, de uma dimensão subjetiva, algo do campo da visão, do estado mais puro de doação de si mesmo, que fazemos quando somos orientados por um propósito maior de viver. Você tinha um propósito, proporcionar companhia para mim, na noite que dormi na rede, e você espertamente tomou meu lugar na cama de casal. Era como se quisesse que o Tobe me fizesse companhia.

Que lindo!

Então grave bem: Emoções Positivas, Relacionamentos Significativos, Engajamento, Realização e Sentido são as cinco dimensões do florescimento, nome que nós chamamos o estado de bem-estar psicológico. E, se tiver uma delas bem ativa, ela se encarrega de nutrir as outras. Não é legal isso?
Continue assim, em tudo que fizer, e mesmo que esteja enfrentando situações difíceis, e até triste, assim agindo a tristeza não criará raízes no teu coração. Ela passará, você passarinho.

Numa trilha, um manifesto à vida. (Autor Ricardo de Faria Barros)


Não era um sábado qualquer.
Afinal, iríamos sair para conhecer um lugar diferente, para nos reabastecer com a poética da natureza.
Os meninos, Tiago, Priscila e Rodrigo estavam em alegre efervescência.
Quem deu a ideia do passeio foi a Poliana.
Ela tinha ido com seu namorado, o Polion, fazendo por lá uma trilha de jeep.
Mas, segundo ela, qualquer carro passaria pelos caminhos por onde foi.
E que valeria muito a pena.
Nossa ONG estava com o emocional aos farrapos. Tínhamos perdidos vários companheiros naquele mês, vítimas do HIV/Aids.
Precisávamos daquela aventura.
Partimos de Campina Grande-PB, em comboio, e seguimos pela BR 104, no prumo de Caruaru-PE.
Após passarmos pela cidade de Queimadas-PB, e bem próximo ao distrito de Barra de Santana, saímos na pista asfaltada e nos embrenhamos pelo sertão catingueiro.
Eu sorria à tôa. Agora seria com muita emoção!
Eu amo a Caatinga! Leia com dois “As”, por favor. rsrs
Aquelas árvores me falam, e até sinto o aroma das flores de Jurema.
A trilha se esgueirava tortuosa. Aqui e acolá, precisávamos parar para abrir restos de porteiras, que a pobreza do lugar não permitia concertá-las.
Chegamos numa casa, no final da trilha.
Descemos, cumprimentamos os moradores. Pedimos licença para adentrar nas terras deles e ver os Cayons do Rio Paraíba.
Liberamos uns sacos de bolacha para a filharada dos nativos que corria solta, e partimos agora a pé.
Os meus filhos seguiam à frente, como desbravadores.
Poliana estava feliz da vida, havíamos conseguido chegar no local por ela indicado.
À medida em que nos aproximávamos do abismo, formado pelos paredões rochosos, um silêncio respeitoso ia tomando conta de todos.
Descobrimos uma trilha que descia pelo precipício, daquelas bem íngremes, de fortes emoções, e fomos lentamente descendo por ela.
Ansiosos para nos refrescarmos no filete de água que ainda escorria do Rio Paraíba, a uns 300 metros abaixo de nós.
A descida foi boa. Mas, alguns de nós ficaram pensativos... “e a subida?”
O local era estonteante. Daqueles de cinema. Com grutas formadas pela erosão da água sobre as rochas, com lajedos em forma de piscinas, com o rio mansinho e convidativo nos chamando ao seu regaço.
Descobrimos que estávamos nas ruínas da represa de Curimatã, uma obra iniciada pelo exército na década nos anos 70 e nunca terminada, não sabemos porquê.
Par aonde olhávamos era beleza pra todo lado que saltava á nossa frente.
Flores diferentes, cactos ousados, pássaros que ali vinham para beber.
E um uivo do vento que passava sobre o cayon emoldurava tudo com uma trilha musical que falava-nos de eternidade.
O som do Eterno que habita em nós reverberou, em cada coração ali presente, e agrademos aquele momento mágico, com tanta comunhão entre nós e a mãe Terra.
As noivas ainda não descobriram aquele local, mas que ali daria um casamento lindo daria!
Desde então adotei aquele lugar como meu, meu infinito particular.
Tem uns 20 anos que lá não vou.
Mas, já coloquei na pauta. Não posso partir dessa para a melhor sem antes ter voltado em Curimatã.
É impressionante a força da água sobre as rochas. Que mesmo correndo em filetes minguados, ainda assim, conseguem esculpir nelas sua presença.
Quem esculpiu em mim e em você a presença dele(a)?
Quem foi essa água que nos moldou, que amansou nossas arestas, que nos tornou mais redondos, menos pontiagudos?
Menos lanças agressivas, menos quinas que machucam pernas?
Quem foi? Quem é?
Volto-me para o rio e quase escuto o diálogo das rochas com as águas. Ora uma cede, ora a outra, e dessa comunhão nasce a esperança de que elas vão atravessar as maiores dificuldades.
Às vezes, Via um filetinho rompendo a barreira de uma rocha, e por ali escorrendo a vida.
E ficava impressionado com a força daquele resistir.
Encontramos lugar para estender as tolhas e pikniquear.
Era uma espécie de gruta, que nos fazia sentir como os Homens das Cavernas.
Dali, naquele ninho, nos confortamos mutuamente. Um ou outro chorou, lembrando os falecidos que naquele local não puderam chegar.
Mas, foi choro breve.
A hora era de se alegrar, e em profunda interação com a vida, recuperar a esperança.
Pelas 16hrs, despedimo-nos do local, preparando-nos para a subida.
Agora sim, agora é que seria o teste final.
Um a um íamos nos ajudando. Não tínhamos pressa.
Só avançávamos mais um metro, quando todos estavam em segurança.
Metro a metro, fomos subindo, não temendo mais o amanhã.
Nossos olhos viram a paz.
Chegando no topo, olhamos para aquele oceano de imensidão azul, num contraste de céu de fim de tarde no Nordeste, com o azul da águas refletidos nas rochas, qual espelho.
Aquele Oceano Azul nos restaurou a força em nós mesmos, e no valor do outro a nos segurar pelas mãos.
Sim, tenho e tive muitas águas de vida que moldam o melhor de mim em meu ser.
Que não se cansam de lapidar minha pedra bruta.
Que esculpem minhas imperfeições, que aplainam meus desatinos, que me orientam e estimulam.
Abençoadas águas. Misteriosas águas.
Voltamos para casa cantando o Ói-Êpo, nossa canção da resistência.
Abraçados, despedi-me de meus afilhados: Maio, Reginaldo, Poli, Lana, Maria, Moisés, Fabrício, Paizinha, Nalva e Josi.
Entrei em casa, não me sentia exausto, embora estivesse.
Sentia-me como quem tocara nas vestes de Deus. Como quem se aninhara nos travesseiros dos anjinhos.
 Olhei para meus filhos e senti que eles também entenderam algo precioso para a vida.
A vida acontece é no caminho dos pés, enquanto eles se dirigem para as águas.
A vida se renova no subir de pedras íngremes, quando passamos a dar valor àquela mão que nos guia, àquela mão que cuida de nós, àquela mão que nos sustenta e apoia nossa subida.
A vida se perpetua, em cada traço de nós que com delicadeza deixamos esculpidos no outro, ou que com singela amorosidade, deixamos que ele talhe em nosso coração.

Farinha de Andiroba, de Manaquiri-AM do Renan (Autor Ricardo de Faria Barros)

Aproximava-se o horário de atender a um de meus clientes e o whats apita, com mensagem nova, e é justamente a dele.
Imagino que não conseguirá chegar a tempo. Coisas do tipo.
A mensagem era enigmática: “Acesse seu email e leia minha mensagem, antes de nossa consulta!”
Estremeci...
O que será que aconteceu? Pensei comigo...

Abri o email dele, relaxei, soltei um sorriso lua cheia, e me deliciei com uma crônica que fez para mim.
É que incentivo meus pacientes (“clientes”) a escreverem narrativas positivas de suas vidas e trazerem para as sessões.
E essa fez-me encher os olhos, desde o primeiro parágrafo:

“Nas minhas viagens procuro reservar um tempinho para conhecer algumas pessoas que possam me ensinar um pouco sobre a realidade local. São conversas informais, normalmente são momentos extremamente divertidos e, por vezes, inusitados. Mas, sempre são aprendizagens maravilhosas. Meu aprendizado foi na feira livre de Manaquiri-AM”

Quem começa um texto assim, promete quem vem coisa boa. E ele continua:

“Às 6h em ponto, a feira é aberta, já com todos os produtos expostos e todos os produtores devidamente identificados com seus coletes verdes (o que rendeu o apelido de periquitos). A participação da população não deixa a desejar e, já nas primeiras horas, a procura por alguns itens é grande, fazendo-os esgotar rapidamente. Foi o aconteceu comigo. Esgotou-se a melhor farinha de puba da comunidade de Andiroba, a do Renan.”

Ele me conta que o mercado do produtor só tem 4 meses. Antes dele, os atravessadores dominavam o comércio de farinha, sujeitando os Renans da vida à exploração ao comprarem por preços irrisórios o fruto de seu trabalho.
Agora não. A prefeitura investiu na capacitação dos produtores, preparou um ginásio para receber a feira, e forneceu até a gasolina para que os mesmos subissem por longas horas as estradas de rio e pudessem chegar com suas mercadorias à “cidade grande”.
Me diz que não conseguiu comprar a farinha do Renan.
"Acabou logo".
E que ficou com sentimentos contraditórios: frustração e felicidade. “Frustração por não encontrar a farinha e felicidade por saber que, se há pouco tempo atrás aquele monte de produtores não tinha para quem vender sua produção, a iniciativa da prefeitura estava trazendo ganhos concretos para eles.”

Aí a mística se fez. Quando ele estava vindo embora para Brasília, sem a farinha do Renan, eis que ele aparece no hotel e o presenteia com 12 litros de farinha. E, ao entregar-lhe a farinha não deixou que ele pagasse: “
Leve minha farinha para Brasília. Diga que é a Farinha de Andiroba”, do Manaquiri-AM! A melhor farinha que eles vão comer! E, que um dia venham aqui conhecer a nossa feira do produtor.”
Eu estava ainda muito emocionado, quando meu cliente adentra a sala, com um pacote.
E me presenteia com a farinha do Renan, a do distrito de Andiroba, do Manaquiri-AM.
Aí, um filete de lágrimas escorreu e nos abraçamos. Nós sabemos o que aquela farinha representa. Aliás, todos que já sobrevivemos a situações difíceis saberemos.
Hoje, nessa noite chuvosa, comi mais um pouco dessa farinha e me senti tão bem.
Não é qualquer farinha.
É a farinha de quem saiu das mãos da opressão e que agora consegue um pouco de luz, no seu lugar ao sol da Nação Brasileira, tão desigual.
Não é qualquer farinha, é a farinha comercializada num espaço de líderes na gestão pública que reinventaram um modelo de negócios, possibilitando uma maior inclusão social, com geração e emprego e renda, contrapondo-se aos tubarões do capital.
Aqueles mesmos que financiam tantos políticos para manterem-se no poder.
É farinha revolucionária de um Brasil que pode dá certo.
Ela tem gosto da esperança!
Renan, não te conheço mas queria te dizer que está deliciosa. Que combinou bem com o peixe.
Sua perseverança, em não desistir de procurar suas melhoras, em romper com um modelo de escravidão e acreditar na força do coletivo, nos inspira. Nem todos subiram o rio para o mercado do produtor. Acomodaram-se a ganhar pouco, “mas na porta de casa”.
Você não. Você teve a ambição de ser mais, de procurar seu espaço, e o pagamento justo pelos frutos de seu trabalho. Você e seus amigos da Feira do Produtor nos motivam. A todos nós que porventura um dia nos sintamos vendidos, comprados, amordaçados, na mão de quem nos domina, seja economicamente, seja emocionalmente.

Precisamos subir nossos rios também, em busca de outros potenciais adormecidos, sempre que nos sentirmos pequenos diante de tanta dominação a que somos sujeitos, indo até a “ Feira do Produtor”, na qual com outros também peregrinos, poderemos nos juntar e nos sentirmos mais valorizados, reconhecidos e apreciados.
Não é qualquer farinha, é a farinha de quem com ela renasceu para a vida!
Sim, nós podemos também sair das garras de quem nos faz mal, humilha e nos desvaloriza!
Subamos os rios de nosso viver!
A gasolina não é a prefeitura quem pagará, quem pagará será nossa coragem, amor, determinação, disciplina, objetivos, sonhos, otimismo, esperança e valores!
Eita combustíveis potentes!

Esvaziando Armários (Autor r Ricardo de Faria Barros)





































































Você já teve naqueles dias em que pensa em tirar tudo do guarda-roupa, da dispensa, do quarto de tranqueiras, estante, ou algo similar,  e se motiva a arrumá-los?
Na nossa vida interior também é assim. Precisamos desses dias de arrumação de nossas coisas internas, que foram se amontoando. 
Colocar no lixo as mágoas, ódios, invejas e ressentimentos que guardamos... já deu! Não é hora de levá-los mais conosco!  Ou aquele sapato da culpa que jã não lhe cabe mais.
E até as coisas que já não lhes servem mais, modelos fora de época, pequenos ou grandes, do tipo de quem fica sempre se justificando para os outros, implorando ser reconhecido, ou suplicando por migalhas de afeto! 
Aproveite para lavar, ou lustrar, as coisas boas que estavam esquecidas, e que um dia já te fez feliz. Dê a elas novos significados.  Valorize-as novamente, para que não fique esquecidas nos escuros mofados da indiferença.  
Veja aquele vestido ou terno de baile, e se sinta novamente tão linda e belo, agradecendo por tudo que passou e continuou na batalha. 
Areje os cômodos interiores de teu existir, abrindo espaço para cultivar neles a tua auto-estima. 
E, faça novo leiaute nas emoções que guardará, na hora de arrumá-las novamente, privilegiando as de foco positivo.  
Então, caro amigo e amiga, aproveite esse dia de arrumação para crescer como pessoa. 

Assim como na foto, portas se abrirão para uma nova caminhada, só com esse revisitar em teu coração.  Acredite, e periodicamente encare essa jornada da alma, em busca de si mesmo!

Aviso aos Novos Empreendedores! (Por Ricardo de Faria Barros)


Recentemente, participei de um treinamento para me tornar certificado na prestação de serviços de personal coaching, apoiando meus clientes nas suas metas para com a vida. 
No último dia do curso, proporcionado pela SLAC, muitos compartilharam esperanças, ambições, ansiedades e até um certo frisson, para se lançarem nesse mercado, e logo faturarem salários cobiçados, daqueles de concursos público.
Eu entendi perfeitamente aquele movimento.
Pois, para alguns será uma oportunidade de abrir seu próprio negócio, outros de recolocação profissional, ou até de ser uma fonte complementar de renda.
Eu vibrava com a vibração deles.
Era contagiante o clima de: “Sim, nós podemos!”.
Revivi meus momentos de empreendedor, quando cheguei em Brasília em 1999, e estava ávido por montar meu consultório de psicologia.
Até comecei, lembro-me que foi numa sala que a Fran cedeu, lá onde funcionava a primeira escola do IBMEC, perto do Gilberto Salomão.
Engraçado que dez anos depois, daquele fatídico 1999, eu viria a ser um dos professores do IBMEC, num feliz reencontro.
Mas, caros amigos e amigas, eu me estrepei profissionalmente falando. Tinha um cliente, que mal dava para pagar a gasolina. Embora fiquei muito feliz quando recebi aquele dinheiro, ele tornou-se o único.
E saí do mercado de microempreendedor, frustrado e sem pique para ousar novos voos.
Aquilo incomodou-me bastante.
Nas revistas de psicologia, no PowerPoint, no relato de alguns colegas, tudo era tão fácil, o mercado era “comprador”, então o que eu estava fazendo de errado?
Vou contar-lhes.
Eu não sabia caminhar na maré baixa, e, enquanto se caminha, colher conchinhas, mariscos, e iscas para pescar.
Eu só estava preparado para a maré boa, aquela maré alta que possibilita elevar os barcos, fundeados na praia, por falta de condições de atravessarem os bancos de areia e arrebentações à sua frente.
Aquela minha ambição de alçar altos voos, influenciado pelo que eu lia, pelas vidas editadas, pelo relato de professores da clínica, e pelos textos que eu lia com as narrações de colegas psicólogos, cujo teor era repleto de vitórias e vencedores, estava me matando.
Aliás, me matou.
A enorme expectativa de resultados a curto prazo, somando-se com uma ambição desmedida e com a observação seletiva e distorcida da grama do vizinho, contribuíram com meu afastamento da clínica, só retomando agora.
Eu desisti, por não ter feito a coisa certa, por ter acreditado que seria fácil, por não ter pego as conchinhas na maré baixa, e com elas me saciado, na minha fome de um lugar ao sol.
A pressa em chegar no topo, quando se depara com a dureza da realidade, vai erodindo a esperança e tornando tudo mais difícil.
É na maré baixa que conseguimos criar capacidades para aproveitar a cheia, quando ela chegar.
É na maré baixa que conseguimos limpar os cascos de nosso barco interior. Tirando deles as cracas, mexilhões, lodo e todo tipo de sujeira que atravanca nosso deslizar, em busca do alvo.
É na maré baixa que damos valor ao pouco que ainda temos.
É na maré baixa que aprendemos a sobreviver, cuidando da chama da esperança, com zelo e atenção, para que ela não se apague. E, quando chegarem os tempos melhores, já termos desistidos de nós mesmos.
Ao lançar minha empresa no mercado, eu lembrei muito daqueles dias. E, não tenho mais essa ambição e ansiedade desmedidas.
Nada é fácil. E é literalmente de grão em grão.
Mas, tenho que estar capacitado para pegar a boa maré. Meu barco tem que estar lixado, limpo, pronto.
Tenho que ter um monte de conchinhas, que mostram por onde andei e o que já passei e ainda estou aqui, forte e firme!
Tenho que continuar me exercitando, não perder os tônus, para aproveitar melhor as oportunidades que virão.
Não acredite em topo de carreira fácil.
Um palestrante bom pode cobrar acima de RS 30.000,00 por palestra.
Mas, se você conseguir uma por R$ 2.000, agarre essa oportunidade.
E, se eles não puderem pagar, faça assim mesmo.
Você está sendo visto, e no dia em que eles poderem pagar, lembrar-se-ão de você.
Uma consulta com um psicólogo tarimbado pode se igualar ao preço de um pediatra.
Mas, se seu cliente só pode lhe pagar 1/4 disso, avalie a possibilidade de atendê-lo.
Você estará treinando, ajudando a uma pessoa e ainda tendo mais um para distribuir seus cartões, de coração penhoradamente agradecido.
Assim também é para o mercado de sessões de coaching.
O que mais vejo são depoimentos de coachs que estão comprando suas Ferraris. Entendeu?
Tipo aquelas igrejas da prosperidade, ou correntes de marketing de multinível.
Vá para qualquer sessão dessas empresas e os vídeos mostrarão os caras. Os top, os vencedores!
E você sai anestesiado, nas alturas, em êxtase. Quer ser como eles, o que é legítimo.
O problema é que esses vídeos são de vidas editadas.
Não mostra as marés baixas que eles enfrentaram.
Faça treinamentos de empreendedorismo. Ajuda.
Mas, uma coisa é o curso, outra o mundo real.
Neles, tudo parece tão fácil: São cases e mais cases. “é só fazer um plano de mercado”, “faça um plano de negócio”, “elabore o projeto de marketing”, “defina sua estratégia de posicionamento”, “divulgue-se nas mídias digitais”, etc. etc. etc...
E pronto, os negócios aparecerão, como o orvalho da manhã.
Se não apareceu é que tu é fraco mesmo.
Não acredite. Isso é mentira.
Mas, não pare só porquê não chegou naquela tela do PowerPoint ainda.
Não desista. Mas, aprenda a ir devagar e em frente, sempre.
Sem grandes ansiedades, modulando sua ambição à realidade do país, e não pense que o sucesso está na próxima esquina.
Não está! Só para alguns que geram matérias para revistas e programas televisivos, pode até estar. Mas, são poucos.
No geral, tem que ralar, ralar, ralar, ralar e muiiitooo!!!
E leva tempo.
Mas, não faça como fiz em 1999. Quando não ficava feliz em ter apenas um cliente na clínica. E parei.
Não pare.
Não desista de seus sonhos, pois, quase 20 anos depois, ficou bem mais difícil para mim.
Já pensou se eu tivesse me contentado com um cliente novo por mês? Hoje estaria abarrotado de clientes.
Mas não! Ouvi pessoas erradas, li material errado, deixei-me influencia pelas vozes da negatividade que me apontava o dedo em riste, mostrando os vitoriosos à minha frente.
Então, fica a dica: É na maré baixa, naquela que ninguém procura seu negócio, naquela que você está prestes a desistir, naquela que está quase quebrado, que você deverá limpar os cascos do barco de seu sonhar, e poetizar sua vida – cultivando a esperança, aquela que nos faz colher bela conchas, só visíveis porque a água baixou.

Não é por uma mesa e três cadeiras. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Chego para costumeiro café, no lar Seu Valdecir, e noto umas tralhas no chão da sala.
Pergunto-lhe se está fazendo mudança. Ele sorri, e me diz que emprestou uma mesa e três cadeiras à vizinha, do “lote de trás”.
E continua, “sempre tem alguém pior do que nós, e precisamos ajudar”.
Sr. Valdecir mora num puxadinho, de uns 20m2, sobrevivendo com um salário mínimo de aposentadoria, que após descontos com remédios, alimentação, luz e água, ele me diz assim: “e ainda consigo comprar umas carteiras de cigarro para o mês, meu único luxo”.
Comento que antes de parar na sua casinha, quando eu me dirigia para a feira, vi a sombra dele na parede amarela.
Ele sorri, e pergunta-me: “Como assim ?”
Pego uma vassoura que está encostada na parede, e o chamo para vir comigo. Mostro como eles estava fazendo, varrendo o terreiro da casa, e como o sol batia no seu corpo e projetava na parede a sombra, tal qual fazia no meu, no momento da demonstração, e que quando vinha dirigindo, avistei a parede e a sombra dele, trabalhando, logo cedo, pelas 7hrs da manhã de um domingo.
Aí ele me conta que após ter varrido “o terreiro”, expressão nordestina, ele foi aguar as plantinhas que adotou para si, que estão plantadas na calçada da frente da casa dele.
E me disse que o dia dele só começa após varrer a casa, aguar as plantas, e tomar um cafezinho na calçada, ao lado de umas touceiras de sempre-viva que plantou e que está a coisa mais linda do mundo, toda florida. Depois, pita o cigarro da manhã. Tem um para cada turno, tudo racionado para chegar até o final do mês.
Voltamos para a sala, tropeço nas tralhas, e ele continua.
“Você sabe o que é não ter uma mesa e três cadeiras par receber alguém num domingo? Na hora em que minha vizinha, da rua de trás, perguntou se eu podia emprestar a minha, não tive dúvidas, eu me arranjo pelo sofá, ela não, ela precisa de algo para apoiar as comidas e para dar conforto a quem vai na sua casa, talvez almoçar no dia de hoje, não sei, não perguntei, só emprestei a mesa e as três cadeiras”.
Uma mesa e três cadeiras, e a dignidade se fez naquele lar.
Uma mesa e três cadeiras, emprestadas por quem não tem nada, e que se solidarizando, bota suas próprias coisas no chão, para acudir que mais precisa.
Uma mesa e três cadeiras... Não amigos, você não está lendo errado, Sr. Valdecir não tem quatro cadeiras de mesa.
Só três. Quando ele comprou o conjunto, já usado, não havia a quarta cadeira. Não era um conjunto completo, mas era o que ele conseguiu pagar, com um desconto pela cadeira faltante.
Ele resolveu a situação com maestria, encostou a mesa na parede, isolando um dos lados dela. Pronto, agora com três cadeiras ela ficaria bonita e ninguém sentira a falta da outra.
É assim a vida do povo mais simples, que me ensina tanto. Eles vão encontrando seu jeito de ser feliz, de fazer suas engenhosidades, suas gambiarras, para conseguirem sobreviver numa sociedade cada vez mais excludente.
O café na casa de Sr Valdecir, todos os domingos por volta das 8h30min da manhã é onde faço minha terapia.
Ele é meu psicólogo da vida.
Sua história dá muitos livros, e em todos os capítulos ele esteve presente na vida de seus 7 filhos, ajudando-os como podia. Até se desfazendo de seus próprios bens materiais, “para dar sombra aos meus filhos”, como ele fala emocionado.
Disfarçando um fio de lágrima que insiste em querer descer de meu rosto, olho para cozinha e brinco com ele.
- Sr. Valdecir e aquele parede sem reboco atrás da geladeira, é pra esfriar o motor dela?
Ele sorri, um sorriso de criança, de pureza dos simples, e me diz que ali é o lugar de seu sonho.
- Como assim, Seu Valdecir?, pergunto-lhe.
Ele me diz que sonha em não ter que entrar no seu barraco pelo portão da casa da filha, que mora lá nos fundos. Ele quer entrar pela porta da frente, pela calçada, sem ter que incomodar ninguém. e, naquele lugar que não rebocou a parede, de seu barraco, atrás da geladeira, será colocada uma porta para acesso para à rua.
E que um dia a colocará, pois já tem até o portão de ferro, “ferros dos bons, pesado.”. Disse-me que periodicamente lava o portão, para não dar ferrugem.
E convida-me para ver seu tesouro, o portão de ferro, que está empilhado na parede dos fundos do barraco.
Seus olhos brilham, dizendo que foi o que sobrou de uma casinha que vendeu e deu aos filhos, o portão de ferro que ele mandou fazer, “com ferro dos bons”, e que ele o trouxe para seu barraco, pois não deu tempo de colocar na casinha que vendeu para ajudar os filhos.
Aquele portão não é mais um portão. É o portão!
Aquela parede sem reboco não é mais uma falha no projeto, não é mais “para resfriar geladeira”, é o local onde ele deposita a esperança.
Para o povo mais simples a esperança é assim, qual criança, alegra-se com pequenas coisas. Tipo fazer um curso de brigadista, ou de vigilante e ser chamado para uma vaga.
Ou, conseguir uma ficha para ser atendido no médico do SUS, daqui a três meses.
Ou, ter uma mesa e três cadeiras para melhor receber visitas.
Convidei seu Valdecir para irmos lá para a calçada, para que ele me explicasse o tal do buracão que queria fazer na parede, colocando nele um portão de acesso direto ao seu barraco.
Ele me deu uma aula, com olhos brilhandos.
Ao final, disse-lhe que podia começar a obra. Que iria fazer uma cotinha com meus amigos e arrecadar aqueles R$ 1.500,00 reais, necessários para a obra.
Ele parou o que fazia.
Procurou com mão trêmula a caixa de fósforos no bolso. Sentou-se num banquinho de toco de árvore. Acendeu um cigarro.
Olhou para mim e disse de forma emocionada, agradecida, serena e feliz: “Nós vamos construir nossa porta!".
"- Mas, só depois que eu terminar os exames que faço, num treco que tive no coração”.
Oxente Sr Valdecir, o Sr. está fazendo exames ainda, e não é melhor repousar, enquanto sai todos os exames e o clínico faz o diagnóstico do que teve?”
"Sr. Ricardo, se agente parar, a gente morre”
Olho para seu cigarro, sorvido como quem degusta um raro vinho português e não tenho coragem de repreendê-lo.
Deixa quieto, também acho que ele não vai morrer pelos três 3 cigarros que fuma ao longo do dia, e não posso tirar dele aquela satisfação que ainda lhe resta, de tantas que a vida foi lhe negando.
Mas, engana-se quem pensa que ele reclama de algo, ou se refere ao passado com mágoa ou negatividade.
Nada disso.
Ele se considera um vitorioso. “Afinal, Sr. Ricardo, tem gente pior do que eu, que nem três cadeiras e uma mesa tem!”
Nós, que lemos este texto, temos tanto mais que isso e ficamos procurando razões para ser infeliz!
Ou desistindo de viver, de valorizar o trabalho, de contabilizar as sobras e não o que lhe falta, esquecendo que temos ainda que varrer muitos terreiros e aguar muitas plantinhas.
Que temos que construir dia-a-dia o nosso sentido de viver. Se pararmos, à beira da estrada de nosso viver, morreremos! Como ele bem disse quanto ao varrer e aguar, mesmo doente.
E que não podemos ficar sem olhar para as paredes não rebocadas de nosso viver, que ali ficam como a nos dizer que precisamos continuar acreditando, crescendo, movendo o destino, para que nossos sonhos, de um dia por elas fazer um portal, não fiquem esmorecidos nas gavetas da acomodação, da vitimização e da falta de coragem em procurar nossas melhoras.
Mesmo que no momento a coragem e ação possível, diante de tanto que precisamos remar para chegar ao sonhado, seja apenas a de lavar do portão de ferro, para que ele não enferruje. Entende a metáfora?
.
Obrigado Sr. Valdecir obrigado por existir e nos ensinar tanto.

Crônicas Anteriores