Doces Memórias, para os Barros. (Por Ricardo de Faria Barros)


Acordei bem cedo e botei minha melhor roupa de apanhador de lembranças, e saí para recolhê-las nos campos do passado.
Aí, posicionei-me no jardim, e fiquei esperando o sol nascer.
Perto de meus pés, passava uma tropa de formigas, sem importarem-se com meus devaneios, seguindo ritmos de acompanhar.
Uma delas, a mais barulhenta, acenava para as outras com antenas, ensinando-lhes o caminho das melhores folhas orvalhadas.
Daquelas que enquanto se come, mata-se a sede. Delícia.
Fechei os olhos e senti uma brisa faceira acarinhar meu rosto. Senti que eu respirava. Engraçado, nem sempre sinto que respiro.
O silêncio era tanto que até podia ouvir as asas de beija-flores, tomando o café da manhã, bem nas minha costas, onde alimentavam-se de florezinhas.
Sinto-me como se estivesse num teatro, ouvindo uma orquestra em seus primeiros acordes.
Uma borboleta dá um rasante à minha frente, não está com jeito de quem acordou agora, e sim de quem vem chegando do baile.
Gosto das imensidões do silêncio. E, quando estou naqueles prados de mim mesmo, fico mentalmente catalogando o maior número de sons que vão se acordando. Faz parte do ofício de apanhador de memórias escutar os sons do silêncio.
Lá nos porões das lembranças, escuto o som de chocalhos, bem ritmados. Vovô João vem tangendo as poucas vacas que criava, e que abastecima seu lar com o leite matinal.
O quarto em que eu dormia, quando ia para o sitio de vovô, fazia divisa com o curral.
Até hoje esse som de chocalho, além do aroma de estrume de vaca, me acalmam!
Meus avós paternos moravam numa propriedade rural próxima de Juazeirinho-PB.
Lá não tinha energia elétrica e a vida era muito simples.
Pelas 20h todos já estavam dormindo, não sem antes tomarmos a sopa que a vovó fazia, ou o "angu com leite".
Aí, pelas 4 da manhã eu acordava com o saboroso som do chocalho das vacas.
Aquilo me dava uma paz tremenda. Eu sabia que vovô estava ali, ao lado de meu quarto, e que nada de ruim podia me acontecer. Afinal, vovô venceu os monstros da escuridão.
Pelas cinco da manhã o barulho de panelas entrava no quarto, junto com o cheiro de fumaça, que agora disputava com o de merda de vaca, as primícias de aroma de um dia no sertão da Paraíba.
Menino travesso, eu pulava logo da cama e ia ter com a vovó. Vovó era de muita conversa.
Vovô, de fala meiga, pausada e muito sábia. Formavam um bom par.
O sol começava a nascer e seus raios contracenavam com a fumaça na cozinha, formando uma nevoa branca, que deixava a cozinha mais parecendo com os Alpes Suíços.
O galo, sempre atrasado, dava seu ar da graça, pelas 5h30min.
E, já manhã vindoura, algumas galinhas histéricas anunciavam que pariram vida, em ninhais escondidos pelo imenso quintal.
Alguns eram descobertos, e a vovó fazia com eles uma fritada, na chapa do fogão. Misturando-os ao cuscuz, para render mais.
Aí, botava um caneco de leite para os netos, e deitava o pó de café no coador.
Agora sim, era cheiro de café, de fumaça, de leite, de merda de vaca, agora a manhã nascia realmente.
Vovô pegava uma espécie de bisaco de tecido, colocava no ombro, e saia para catar algodão. Eu ia atrás dele, como cachorrinho adestrado.
Pelas 8hrs, ele voltava com os bisacos cheios. E partia para outras tarefas. A saga num sítio não para. É cuidar tirar leite, é procurar ovos, é arar, é semear, é adubar, é cuidar das cercas, é vacinar, é alimentar a criação, é fazer ração, é ser parteiro de vaca, cabra, é selar jumentos para ir buscar água, em caçuás de madeira.
Eu acompanhava tudo aquilo com olhos maravilhados, de menino curioso e buchudo da cidade grande, que pensava que o leite nascia das caixinhas.
Pelas 9hrs saía com os primos para aventuras na caatinga. Do tipo, fazer castelos e tuneis no rio seco, que passava embaixo da ponte da linha férrea.
Era encostar o ouvido nos trilhos para sentir se o trem se aproximava.
Era pegar pedras, para atiçar os maribondos "caboclos" que faziam ninho embaixo da ponte.
E, depois correr mais rápido que um raio, tentando escapar da fúria deles, o que nem sempre conseguíamos, e aí tome choro e dor.
Atrás da casa tinha enormes árvores, chamadas de algarobas. que davam uma sombra gostosa.
Nosso lugar para planejar as "caçadas" na caatinga. Era nosso escritório.
Eu era o único, dos primos, que tinha uma espingarda 28, boa pra pegar avoantes de todos os tipos.
Aí, nos embreávamos pela Caatinga espinhenta, sentindo aquele aroma das flores da jurema, que anunciavam que haveria inverno.
A Caatinga tem um perfume que antes de morrer ainda quero senti-lo novamente. Cheira e enebria como a mulher amada.
Eu admirava a arte de andar na caatinga de meus primos. Caatinga não é mata de se perder. Eles sabiam se achar, e eu me sentia o mais forte dos moleques, andando ao lado deles.
Eu levava a espingarda, mas os fortes eram eles.
Depois de caminhar um légua, parávamos em resto de água, esperando que os avoantes chegassem.
Pelas 11hrs, eles viam tomar a pouca água daquele local. E eu, e meus primos, tirávamos a vida deles. Confesso-lhes.
Após matar uns 30, colocávamos no bisaco de couro e voltávamos pra casa, com fome. Antes do almoço, tomávamos banho no barreiro que tinha do lado da casa. Pois, não se podia tomar banho de barreiro depois do almoço, dava nó nas tripas.
Ali mesmo, no terreiro da casa, um a um íamos tratando os bichos, retirando as tripas, limpando com uma água de bacia de zinco, daquelas bem grandes.
Depois, salgávamos e levávamos uns 5 para vovó fritar. Mas, uma caçada de 30 só aconteceu uma vez. Geralmente eram dois avoantes, por légua caminhada, uns 6 km.
Naquele dia, um bando migrou e passou pelo sitio de nosso avós.
Colocávamos eles para "secarem" no alto de uma telha, vigiando para que os gatos ou gaviões não jantassem eles primeiro que nós.
No almoço vovó fazia arroz de leite, carne de galinha ou de bode, e muito feijão.
Os avoantes eram a sobremesa.
Vovô nos perguntou quanto caçamos, e, todos orgulhoso, dissemos-lhe que uns 30.
Ele perguntou quanto comeríamos no almoço, dizemos que serão cinco deles.
Aí ele nos perguntou por que tínhamos matado 30, se só comeríamos cinco?
Aí ele nos disse que alguns daqueles podiam ainda botar um ovo, no dia seguinte, e erar a vida para as próximas férias.
Só hoje tenho a compreensão da aula que vovô nos deu. Como era sábio.
Vovô nunca quis que "furassem" um poço no seu sítio. Ele disse que não queria ficar com seu título de eleitor na casa do "benfeitor". Que autonomia! Mesmo que lhe custasse andar muitas léguas, com jumentos para buscar água. Mas, ele nunca se vendeu aos coronéis locais.
Perto das 17hrs os jumentos uivavam, anunciando que o sol se ia.
E uma paz invadia o lugar. Rapidamente, para pegar a última gota de luz, tomávamos banho de cuia.
Botávamos roupa de noite, e jantávamos cuscuz com leite. Aí vovó saia acendendo os lampiões a querosene, que agora davam o cheiro da noite, e invadiam com sua luz um breu de monstros à nossa espreita.
Um galo esclerosado cantava alto, achando que era amanhecer.
As galinhas se aninhavam no alto das algarobas, com medo de raposas.
E o céu sem nuvens, iluminava-se de estrelas.
Vovô botava a cadeira no terreiro, ligava o rádio de pilha e escutava o canto da Ave Maria.
Era 18hrs, e a noite galopava. Nós, ficávamos ao seu lado, olhando para escuridão lá do terreiro de fora, esperando trem, ou brincando de ver onde a vaga-lume ia acender sua traseira e iluminar.
Em contida reverência, como admirávamos nosso avô. Até, falávamos baixinho, para respeitar seu silêncio que nos falava tanto.
Vovô entendia dos saberes do sertão, acho até que ele conversava com cada ser vivente daquele lugar.
Mania que passou para mim, a de conversar com formigas, borboletas e beija-flor, entre outros.
Ergo a vista e vejo raras borboletas azuis, ao fundo escuto JG correndo atrás de uma bola, atrás de mim sinto que vem chegando um aroma de brisa aracati, que me abraça por trás.
Olhos para os lados como quem a procurar mais lembranças. Mas elas se foram, pelos abismos de minha amnésia, e consolo-me com as que ainda evoquei.
É preciso lembrar de vez por outra vestir as roupas de apanhadores de memórias, para que elas não se esvaziem de nós mesmos.
Entro no Google Maps, acesso Juazeirinho, sigo a linha do trem, pela estradinha até o sitio do vovô.
Vejo que o Street View filmou a estrada. E faço uma maravilhosa viagem virtual. Passo pela ponte do trem, e temo os maribondos, subo a ladeira, a casa do vovô é mais acima. Aí, o Street deixou de filmar. Mas, já foi bom demais.
Até vi o rio que quase nos mata, que passava por debaixo da ponte, e que num dia qualquer uma Cabeça de Água desse por ele e nos dá um caldo. Ainda bem que éramos espertos e saímos logo de dentro dele.
E assim vai-se o dia...

Mensagem do Papa Francisco


Pessoal, essa mensagem do Papa Francisco é impactante.
Todos que passam por aperreios na vida, e creem no Senhor Jesus, deveriam ler.

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HOMILIA DO SANTO PADRE

Praça dos Mártires (Carpi)
V Domingo de Quaresma, 2 de abril de 2017


As Leituras de hoje falam-nos do Deus da vida, que vence a morte. Analisemos em particular o último dos sinais milagrosos que Jesus realiza antes da sua Páscoa, no sepulcro do seu amigo Lázaro.

Ali tudo parece ter acabado: o túmulo está fechado com uma grande pedra; em volta, unicamente pranto e desespero. Também Jesus está abalado pelo mistério dramático da perda de uma pessoa querida: «Comoveu-se profundamente» e ficou «muito perturbado» (Jo 11, 33). Depois «desatou a chorar» (v. 35) e foi ao sepulcro, diz o Evangelho, «mais uma vez profundamente comovido» (v. 38). É assim o coração de Deus: distante do mal mas próximo de quem sofre; não faz desaparecer o mal magicamente, mas compadece-se com o sofrimento, o faz seu e o transforma habitando nele.

Contudo observamos que, no meio da desolação geral pela morte de Lázaro, Jesus não se deixa levar pelo desânimo. Mesmo sofrendo Ele também, pede que se creia firmemente; não se fecha no choro, mas, comovido, põe-se a caminho do sepulcro. Não se deixa capturar pelo ambiente emotivo e resignado que o circunda, mas reza com confiança e diz: «Pai, dou-te graças» (v. 41). Assim, no mistério do sofrimento, face ao qual o pensamento e o progresso colidem como as moscas contra o vidro, Jesus oferece o exemplo de como nos devemos comportar: não evita o sofrimento, que faz parte desta vida, mas também não se deixa aprisionar pelo pessimismo.

Em volta deste sepulcro, acontece portanto um grande encontro-desencontro. Por um lado há a grande desilusão, a precariedade da nossa vida mortal que, atravessada pela angústia e pela morte, experimenta com frequência a derrota, uma obscuridade interior que parece insuperável. A nossa alma, criada para a vida, sofre sentindo que a sua sede de bem eterno é oprimida por um mal antigo e obscuro. Por um lado há esta derrota do sepulcro. Mas por outro há a esperança que vence a morte e o mal e tem um nome: a esperança chama-se Jesus. Ele não leva um pouco de bem-estar ou algum remédio para prolongar a vida, mas proclama: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá» (v. 25). Por isso diz decididamente: «Tirai a pedra!» (v. 39) e clamou a Lázaro com grande voz: «Sai!» (v. 43).

Amados irmãos e irmãs, também nós somos convidados a decidir de que parte estar. Podemos estar do lado do sepulcro ou do lado de Jesus. Há quem se deixa dominar pela tristeza e quem se abre à esperança. Há quem permanece vítima dos destroços da vida e quem, como vós, com a ajuda de Deus, remove os destroços e reconstrói com esperança paciente.

Face aos grandes «porquês» da vida temos dois percursos: ficar a olhar melancolicamente para os sepulcros de ontem e de hoje, ou deixar que Jesus se aproxime dos nossos sepulcros. Sim, porque cada um de nós já tem um pequeno sepulcro, alguma parte um pouco morta dentro do coração: uma ferida, uma injustiça suportada ou cometida, um rancor que não dá trégua, um remorso que vai e volta, um pecado que não se consegue superar. Encontremos hoje estes nossos pequenos sepulcros que temos dentro e convidemos para ali Jesus. É estranho, mas muitas vezes preferimos estar sozinhos nas grutas escuras que temos dentro, em vez de convidar para lá Jesus; somos tentados a procurar sempre a nós próprios, cismando e caindo na angústia, lambendo as nossas chagas, em vez de ir ter com Ele, que diz: «Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei» (Mt 11, 28). Não nos deixemos aprisionar pela tentação de permanecer sozinhos e sem confiança a chorar pelo que nos acontece; não cedamos à lógica inútil e inconcludente do medo, a repetir resignados que tudo corre mal e nada é como outrora. Esta é a atmosfera do sepulcro; ao contrário, o Senhor deseja abrir o caminho da vida, do encontro com Ele, da confiança n’Ele, da ressurreição do coração, o caminho do «Levanta-te! Levanta-te, sai!». Eis o que nos pede o Senhor, e Ele está ao nosso lado para o fazer.

Sentimos então dirigidas a cada um de nós as palavras de Jesus a Lázaro: «Sai!»; sai do engarrafamento da tristeza sem esperança; desata as ligaduras do medo que impedem o caminho; aos laços das debilidades e das preocupações que te bloqueiam, repete que Deus desfaz os nós. Seguindo Jesus aprendamos a não atar as nossas vidas em volta dos problemas que se emaranham: haverá sempre problemas, sempre, e quando resolvemos um, imediatamente chega outro. Mas podemos encontrar uma nova estabilidade, e esta estabilidade é precisamente Jesus, esta estabilidade chama-se Jesus, que é a ressurreição e a vida: com ele a glória habita o coração, a esperança renasce, o sofrimento transforma-se em paz, o temor em confiança, a provação em oferenda de amor. E mesmo se os pesos não faltarão, haverá sempre a sua mão que alivia, a sua Palavra que encoraja e diz a todos nós, a cada um de nós: «Sai! Vem a mim!». Diz a todos nós: «Não tenhais medo».

Também a nós, hoje como naquela época, Jesus diz: «Tirai a pedra!». Por muito pesado que seja o passado, grande o pecado, muita a vergonha, nunca fechemos a entrada ao Senhor. Tiremos diante dele aquela pedra que impede que Ele entre: este é o tempo favorável para remover os nossos pecados, o nosso apego às vaidades mundanas, o orgulho que nos bloqueia a alma, tantas inimizades entre nós, nas famílias... Este é o momento favorável para remover todas estas coisas.

Visitados e libertados por Jesus, peçamos a graça de ser testemunhas de vida neste mundo que dela está sedento, testemunhas que suscitam e ressuscitam a esperança de Deus nos corações cansados e oprimidos pela tristeza. O nosso anúncio é a alegria do Senhor vivo, que ainda hoje diz, como a Ezequiel: «Eis que eu abrirei os vossos sepulcros, e vos farei sair das vossas sepulturas, ó meu povo» (Ez 37, 12).

Missão: Educar (Autor Ricardo de Faria Barros)



Pelas 19hrs da sexta, a pilha de discos se esparrama sobre a mesa, cadeiras e áreas afins. Resolvi investir meu tempo na apreciação de discos velhos de vinil que coleciono, mais uma de minhas esquisitices. Minha emoção, ao "folhear" cada um deles, era semelhante àquela que tinha, quando olhava para as figurinhas de um álbum que colecionava. Eu sabia que em cada um deles havia um história. Em alguns, até com dedicatórias de pessoas que nem as conheço, mas que ainda sinto o amor delas expresso naquelas linhas, proferido para alguém que fora presenteado.
Noutros, que compro pelos sebos da vida, dou sorte de encontrar o encarte do disco, verdadeiras pérolas culturais.
Já na terceira latinha de cerveja, e viajando ao som do vinil de Xangai, "Que Que Tu Tem Canário". Eis que meu celular toca e é da pós-graduação, do IBMEC-DF.
Letícia pergunta-me se não irei dar aula. Perdendo os pés, e com o coração a mil, digo a ela que deve ter havido algum erro, pois que não leciono essa disciplina na sexta, e sim nas quartas. Ela se despede, pedindo-me desculpas pelo ocorrido.
Relaxo, troco o lado do vinil, coisa que só os de meia idade entenderão, abro mais uma latinha, e o celular toca novamente. Dessa vez, é o coordenador Gaspar quem me aborda, com sua classe corriqueira, e me diz que de fato a disciplina é na quarta, mas que há uma única exceção, que é nessa sexta.
Aflito, pois que não a tinha marcado na minha agenda e costumo chegar uma hora antes das aulas, peço-lhe que comuniquei aos alunos que chegarei em 30 minutos e que os libere para anteciparem o intervalo, dado que pegarei direto para otimizar o tempo.
Não precisa dizer que fiquei altamente nervoso, sou muito rígido com horários e agendamentos. Algum erro de comunicação houvera, mas não era hora de procurar culpados.
Acelerei o passo, não dava pra tomar banho, então tome perfume!
Botei um chiclete na boca, pra tirar bafão de cerveja.
Me adentrei numa calça jeans e camisa, sem perceber que esquecera até do cinto. Despedi-me de Cris que não entendeu nada, nem eu. E corri alucinado para a aula. Sorte que o material da mesma eu já tinha selecionado e estava fácil.
Descendo a escada rolante, os alunos que lanchavam na praça de alimentação, numa enorme mesa coletiva, viram-me e fizeram festa.
Foram as palmas mais bonitas que recebi, nos últimos tempos.
Como é bom ser recebido assim. Senti que sou alguém para eles. Fui lá perto deles, e disse-lhes que em 5 minutos estaria pronto para começarmos mais uma aventura do conhecimento.
Eles sorriam e negociavam comigo para a aula ser ali mesmo. Pensei, até que não seria má ideia. A disciplina se chama Negociação e Gestão de Conflitos, e eles estão ficando bons nisso. rsrs "Não se pode dar asas a cobra". cacaca
Sem cair na fala alegre e envolvente deles, pedi que pagassem suas contas logo, e descessem para a escola.
Entrei na sala de aula e respirei profundamente. Já refeito do susto, e agora já pisando no terreno sagrado da educação, recebi meus meninos e meninas para mais um caso de negociação: A Concessionária de Jeep Trolha x Eco Hotel Fazenda
E eles vibravam, a cada rodada de negociação, com um interesse de fazer babar qualquer educador, principalmente numa aula de sexta à noite, quando muitos já estão cansados da peleja semanal.
Pelas 22h40min a aula encerra, nos despedimos afetuosamente, e volto para casa nas nuvens de feliz, com a sensação de missão cumprida.

O Humano do Digital (Por Ricardo de Faria Barros)


Qual é o Humano do digital, nas Competências para o negócio e trabalho, nos tempos atuais?

Com essa pergunta, abrirei minha participação no Segundo Fórum Trilhas de Aprendizagem: Gestão por Competência em Empresas Públicas e Privadas, que acontecerá em Brasília, de 12 a 13/09/2017, produzido pela Inteletto. (www.inteletto.com

Antecipo algumas reflexões que ali serão proporcionadas. Nunca esquecerei o dia em que meu gerente perguntou se eu tinha WhatsApp, em setembro de 2013. E, até parece que foi no século passado. Olhei para ele, totalmente “ignorante" no assunto, e com a minha melhor cara de paisagem soltei um: “Uotezape o que?”, eu não sabia o que era aquilo, e estava à margem daquele mundo digital.
Chamei um estagiário que passava por perto, pedindo-lhe que me ensinasse o tal do “uot”, e aprendi.
Hoje, de meus pais à Casinha Mineira, aqui no DF, todo mundo “Uota” pra todo mundo. 
Com ele negócios são fechados, namorados namoram, famílias se reencontram, amigos interagem, e até trabalho são trabalhados.
O celular virou algo que até dá para nele se telefonar. Mas, isso deixou de ser o seu atributo principal. Quem diria!
Nessa sociedade conectada e em rede, as possibilidades de novos negócios, interação social, produção de conhecimentos e co-criação de bens, produtos e serviços, avançam a passos largos. Com forte impacto no desenvolvimento de competências, e até nos modelos de negócios, como exemplo o dos Bancos.
Sem prejuízo de outras competências, e sem querer esgotar um tema tão rico, listo quatro competências com “viés de alta” na economia digital em que vivemos:

1. Comunicação Não-Violenta - Desenvolver uma comunicação de qualidade, empática e eficaz com os outros, fazendo as devidas distinções entre: observações e juízos de valor; opiniões e sentimentos; necessidades e estratégias; pedidos e exigências. Ela se expressa também em práticas restaurativas de administração de conflitos. Essa talvez seja a mais catalisadora e humana das competências oriundas da nova economia digital.

2. Letramento Digital - Ser capaz de buscar, avaliar, criar, distribuir e operar as mais diversificadas fontes e canais tecnológicos, cada vez mais será uma das fontes de riqueza das organizações. Explorar e aproveitar as potencialidades das mídias e redes sociais, da web, das plataformas de interação e dos sistemas eletrônicos de automação produtiva virou a regra, não mais a exceção. Na sociedade digital, não há mais separação entre presencial e virtual. O negócio e trabalho acontecem em todo lugar, e a todo momento, exigindo um contínuo processo de desenvolvimento nas competências técnicas e humanas. Saber aproveitar os mais diversificados recursos de interação e de posicionamento empresarial, com uso dos canais tecnológicos, poderá fazer a diferença na competitividade empresarial.

3. Interação Produtiva Apreciativa – Seria como se pudéssemos combinar o trabalho em equipe, o relacionamento interpessoal e a produtividade. O fazer coletivo supera o paradigma do espaço x tempo, com atuações inovadoras em redes coletivas de produção de significados e labor. Ela se expressa na capacidade de compartilhar competências em busca de objetivos comuns, apreciar as contribuições dos outros, acolhendo-as e em cima delas operar, interagir positivamente com pessoas e em ambientes, e na construção coletiva de soluções de bens, produtos ou serviços maximizando a experiência do cliente. Crescerão os espaços pedagógicos de Design Thinking (um novo jeito de pensar e abordar problemas, com o pensamento centrado no usuário) na busca por inovações.

4. Artesanato do Sentido e da Resiliência Restaurativa. Equipes menores, demandas maiores, sobrevivência organizacional colocada à prova todos os dias, além de impensáveis entrantes no mercado, impacta diretamente a qualidade do ambiente no qual se configura o trabalho, e a percepção de seu sentido. Portanto, a capacidade individual, ou coletiva, de restaurar o tecido emocional positivo do trabalho, será vital à saúde do trabalhador e ao clima organizacional, com impactos na produtividade. Todos precisarão ficar vigilantes a um possível crescimento do desânimo, intervindo imediatamente nesse processo, antes que ele altere por completo a percepção e satisfação no trabalho, e até venha a degradar o ambiente laboral. Como um trabalho de artesãos, essa competência terá várias formas de se expressar, adequando-se às realidades locais. Mas, em toda as suas formas estará presente o desafio de revestir as coisas de sentido, de recuperar o vigor e ânimo, após o enfrentamento de situações-limites, restaurando o vigor e tenacidade do time. 

Nesse particular, a atuação e formação dos gestores será ainda mais vital. Para que no exercício da gestão eles possam desenvolver suas equipes, serem líderes eficazes, procedendo com suas práticas à restauração da resiliência do grupo, e a ressignificação permanente do sentido do trabalho. 

Essas quatro competências se combinam sinergicamente potencializando os resultados, uma das outras. Em resumo, os novos tempos que já chegaram, exigirão uma maior capacidade de diálogo com o diferente; aprenderes da gestão social de redes, canais e instâncias digitais que favoreçam o fortalecimento dos elos produtivos; a capacidade de criar coletivamente, tijolo a tijolo, exigindo desapego cognitivo e doação generosa de saberes; e, por último, uma nova postura gerencial, que os times passam a exigir dos líderes, como a de serem artesãos do sentido do trabalho e fomentadores da renovação da resiliência, individual ou coletiva.

Têm noites que não são para se dormir (Autor Ricardo de Faria Barros)

Como diz a canção, "uma noticia está chegando lá do interior".
Estamos a um mês do colapso total de abastecimento de água, numa cidade de mais de 400.000 habitantes, Campina Grande-PB, e que vive 4 dias de racionamento por semana.
Não sem razão, seu prefeito decretou ponto facultativo nas repartições municipais, hoje 12/4/2017 .
E, o que haverá de tão importante para tal medida?
O povo quer celebrar. E, celebrar é sempre uma ocasião importante, e tão desacostumada pela nossa gente sofrida.
Caravanas são formadas, vestidos confeccionados, bandas de músicas devidamente escaladas. E, muitas rezas, à beira daquelas águas, estão programadas. E, não é para menos, estamos só com 3% de água para os próximos dias, e já são as do volume morto.
Até a lua brindou esse encontro, tão sagrado, e previsto para essa noite. A noite em que um veio de água que sai lá dos fundões de Minas Gerais abraçará minha cidade natal.
Essa felicidade deve ter sido um pouco parecida com o frisson daquela manhã em Jerusalém, há dois mil anos atrás, quando o povo saiu às ruas para aguardar o Sr. Jesus chegar. Cada um catou algo para segurar nas mãos, abanando-as de felicidade, e vestiu-se com sua melhor roupa para receber o Cristo.
Água é vida, é renovo, é restauração, é esperança, é florescer.
Nas águas do São Francisco que chegam em minha cidade natal, e que aplacam a morte iminente, está o amor de Deus para conosco.
Ele é água, Água Viva. Que sara, liberta e transforma. Tal qual as novas águas no velho Boqueirão.
Que cuida de nós, que nos ama incondicionalmente, que nos acalma e acolhe.
Meu coração, nessa noite estará no leito daquele rio, sequioso rio, que recebe a vida.
Não será noite para se dormir.
Será noite para louvações, gratidões e eternos abraços, daqueles de quebrar os ossos de tão forte.
Abraços que ao dele nos separarmos, e olhamo-nos frente à frente, dizemos-nos, uns para os outros, conseguimos!
Vencemos a morte.
Afinal, "oh! morte, qual a tua vitória?"

Sinal de Alerta (por Ricardo de Faria Barros)

Na sociedade contemporânea, uma tríade trágica está acontecendo agora, enquanto me lê, e qual epidemia.
Ela se revela em três preocupantes expressões:
1. Uso crescente,e cada vez mais precoce, de drogas ilícitas que criam dependência química, o que é uma doença.
2. Diminuição da resiliência emocional, com aumento exponencial das depressões leves, com risco de sua evolução.
3. Aumento do número de suicídios, na juventude, motivados por jogos e disputas insanas, que circulam nas redes sociais.

Na logoterapia, de Viktor Frankl, a "tríade trágica" é definida como:
a. Sofrimento
b. Culpa
C. Morte.
Para Frankl, o ser humano propriamente dito começa onde deixa de ser impelido, e cessa quando deixa de ser responsável.
Creio que essas duas tríades hoje se combinam e criam entre si sinergias nefastas.
E, pais, educadores, líderes religiosos, mobilizadores sociais, gestores, e as mais diversas Instituições precisam atuar para deter o avanço das tríades.
Precisamos conversar com nossos filhos, e amigos, sobre esses temas tabus.
Precisamos abrir espaço para a escuta, apoiando pessoas em risco social.
Dependência, Depressão e Desistência de Viver são, hoje em dia, como as doenças da idade média foram para aquela época.
Precisamos ajudar. Precisamos entrar nessa causa, sem agredir pessoas, criminalizá-las ou julgá-las.
Apenas, estando mais presente na vida delas, revelando que as amamos.
Que queremos elas deitadas em nossos colos.
E, ali, fazer-lhes cafuné.
Precisamos oferecer a elas outros desafios, para que a vida tenha um maior sentido, bem mais importantes do que aqueles que muitos estão assumindo, para bancarem os fortes, perante seus "amigos" na rede social.
Algo precisa ser feito, e já!
E, meus amados papais e mamães, não se culpem tanto. Por melhor que seja a educação que estão dando, não esqueçam que dependendo das influências que estejam atuando nos seus amados, eles estarão sendo deseducados, paulatinamente. Portanto, continuem, não esmoreçam!
O convite é para que exerçamos o amor exigente. Para que não nos cansemos de acreditar na força do amor.
E em ser bênção para pessoas que se sentem cansadas e oprimidas. Pessoas que estão atravessando um vale de lagrimas, muitas das vezes dividindo a mesa de trabalho ao nosso lado, e fingindo que estão legais.
Preste atenção nelas. Sonde seu coração. Escute o inaudível, e nunca negue-lhes o seu abraço.
Dentro de um abraço, não há tormenta que perdure, vendaval que assole, seca que persista e amargor que resista.

Uma Segunda Mágica (Autor Ricardo de Faria Barros)

No quintal da Ânimo há um pomar. Sinto uma paz tão grande nele, como se adentrasse o do Sítio do Pica Pau Amarelo, descrito nos livros de Monteiro Lobato.
Nele, habitam dois pés de cajá, bem altos, um coqueiro, um tamarindo, uma graviola, uma pitanga, um cajá-manga, uma laranja e um abacateiro.
Correndo por fora, nascido quase ao lado do de cajá, havia um de jamelão.

Por que havia, Ricardo?
Eu jurava que era um Jamelão, aquele que dá uma frutinhas como se fossem azeitonas pretas, com o interior carnudo e que mancha tudo com a cor violeta.
Até que o jardineiro me falou que não era jamelão. Ele me disse que se trata de "um pé de Cravo da Índia".
Uauuu!!! Nunca tinha visto um pé de Cravo da Índia.
Sei que por ele travaram-se batalhas, sendo uma das especiarias mais cobiçadas no comércio da idade média.
Sr. Manoel apontou para o alto da copa e me mostrou umas frutinhas, que ainda havia, restos da última safra.
Notando minha cara de espanto, pegou uma folha e pediu que eu a mascasse.
Uauuu!!!
Era mesmo que estar comendo um dente de Cravo da Índia, de sabor inesquecível.
Hoje pela manhã, após a sessão com meu paciente, convidei-lhe para conhecer o pé de Cravo da Índia.
Afinal de contas, não é todo dia que conhecemos algo de novo.
Ele me seguiu com uma disposição de adolescente, antevendo uma nova aventura.
Chegando lá, fiz a mesma cena de Sr. Manoel, com a diferença que não mais avistei as frutinhas no alto da copa.
Dei-lhe para mascar uma folha, e seu sorriso abriu num sol riso, como que maravilhado ele soltou um: “Não é que é mesmo!”
Agora, enquanto digito essa crônica, masco um pedaço de uma folha que trouxe do quintal. Ela perfuma, refresca, dá uma sensação de liberdade.
Delícia.
Voltando com ele para a sala da Ânimo, um beija-flor nos encara.
Coisa mais linda do Pai, ele fica dando rasantes à nossa frente, como que a querer brincar conosco.
Eleva-se um pouco, até a altura de nossa visão, e numa fração de segundos nos cumprimenta, partindo faceiro para um enorme Bourganville lilás que emoldura a lateral de nosso quintal.
Ficamos uns instantes extasiados. Nas nossas bocas o gosto do cravo, em nossos corações o sabor do encontro com o beija-flor. Convenhamos, não é todo dia que um beija-flor está para papo conosco.
Ao chegar em casa, deparo-me com minha amiga borboleta, de asas inconfundíveis, sei que é ela.
Você deve estar sorrindo, tentando adivinhar o que andei bebendo, comendo ou cheirando. Risos.
Nada, nada, nada!
Só vida. Dessa ando comendo, bebendo e cheirando muito.
Minha borboleta está nas flores da Sempre-Viva. Aproximo-me dela, a cumprimento, e vejo suas asas um pouco dilaceradas, pelo ocorrido ontem. Então é ela mesmo. Aquele corte na asa foi quando a resgatei.
Deixa eu lhe contar.
Ao chegar da feira, comecei a colocar na mesa da cozinha as mercadorias que comprei: macaxeira, melancia, laranja e, ao desviar minha vista para o chão, vejo uma borboleta ali deitada.
Com delicadeza, pego-lhe pelas asas, e sinto que ela ainda vive.
Coloco-lhe bem devagarinho numa flor.
Fico na torcida, que ela se levante daquele sono. Que ainda esteja viva.
Não sei desde de quando ela ficou presa na cozinha. Então, lentamente ela vai reagindo. Abre as asas, meche as antenas, como que a me agradecer.
Depois, fica uns minutos ali pousada, posando para minhas fotos. E então levanta vôo.
Fico feliz da vida. Como ela veio parar na cozinha? Não sei.
Mas, sei que cozinha não é lugar para borboletas. Borboletas são livres, pedem polinizações amorosas para cumprirem seu legado.
Borboletas gostam de flores, de preferência das de cor laranja, aí elas enlouquecem de desejo pelo néctar delas.
Por isso comprei uma roseira laranja, para elas.
Deve ser algo místico, ou ando ficando velho, ou sentimental demais, mais confesso-lhes que me emocionei com a presença dela.
Acho até que ela me reconheceu, pois espevitou-se toda.
Masco minha folha de cravo.
E relembro do amigo beija-flor e de sua parada para encarar meu ser.
Que segunda mágica!
Agora, vou ali buscar o JG na escola, e contar-lhe sobre essas coisas.
Acho que ele irá gostar.

Para além de nós mesmos, a vida também acontece, e em todo lugar. É só prestar mais atenção! E agradecer.

5 Segundos Adiantado (Autor Ricardo de Faria Barros)


Numa terça em que não dei aula, acabei voltando mais cedo para casa, e vim escutando a Voz do Brasil, uma de minhas esquisitices.
Estava com uma dor de cabeça infernal, coisa que não tenho, e para desparecer sintonizei numa Rádio AM que gosto. Outra de minhas esquisitices.
Após uns 20 km, o sinal dá começou a ficar ruim e mudei para a FM. Aí percebi uma coisa misteriosa.
O Programa na FM, repetia tudo que eu acaba de ouvir na AM, pelo menos uns 5 segundos.
E fiquei brincando de Deus. Botava na AM, e virava pra FM. Até esqueci a dor de cabeça.
Como assim?
Eu descobri que o sinal da Rádio AM chega mais rápido do que o da FM. E, esse mesmo fenômeno, acontece também entre os sinais Analógico e Digital da TV.
O gol do Fluminense, na TV analógica chega primeiro. Pena que esse sinal está sendo extinto.
Fiquei matutando, se nas vezes em que fiz uma coisa de que me arrependo, se eu pudesse ter tido acesso aos 5 segundos posteriores, compreendendo qual seria o impacto daquilo no futuro, se não teria sido melhor, pois eu poderia fazer diferente.
Tipo assim, como os jovens falam por aqui, uma máquina de antecipar em 5 segundos o que vem pela frente, para que pudéssemos alterar rotas ou intenções de ação.
A cabeça latejou, lembrando-me que existia.
E disse não!
Não quero essa máquina de ver o futuro, essa espécie de Rádio AM, antecedendo o que vem por aí. Acho que não podemos mexer no futuro, sem alterar todo o sistema.
Imagine que você ouve, nessa espécie de aparelho que criei, que uma bala perdida vai atingir seu carro.
Aí, você freia bruscamente, fazendo com que o carro que vem atrás do seu sofra um sério acidente. Que não teria sofrido, caso você não tivesse escutado seu futuro, dos 5 segundos, e freado.
A vida acontece mais ou menos, como quando enviamos mensagens pelo WhatsApp, o que fazemos no presente deixa marcas no futuro, que não podem mais ser editadas, ou deletadas.
Lembro de um monte de coisas que não faço mais. Que se pudesse retroceder as fitas, ahh como seria ruim.
Como assim Ricardim?
É pessoal, nem quero uma máquina de antecipar o futuro, nem de retroceder as fitas.
Isso tiraria de mim o livre arbítrio, e a capacidade de viver com responsabilidade e autonomia o tempo presente.
Tiraria a liberdade de vir-a-ser.
Não, não quero!
Embora pudesse concertar um monte de coisas, isso me daria uma falsa sensação de que na vida tem aquela tecla de atalho que volta ao que digitamos antes, após ter digitado algo errado, ou excluído algo sem querer.
E a vida não tem teclas de atalho.
Ou seja, nem dá para voltar ao passado e arrumar as coisas. Nem dá para fotografar o futuro, e alterar as cenas dele no presente, sem estragar todo o filme da vida que a essa cena se conectará.
E isso é maravilhoso!!!
O presente é o que temos para hoje.
É no presente que emitiremos nossas vozes que ecoarão na eternidade.
É no presente que teremos consciência de nossas ações, do impacto delas sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre a realidade, podendo com essa consciência crítica mudarmos a nós mesmos, a eles e à “natureza das coisas”.
Não é legal?
Uma reação minha descontrolada, no passado, e que magoou alguém, sobre ela eu não tenho mais controle. Não posso voltar as fitas.
No máximo, posso me arrepender, pedir perdão, e aprender com o ocorrido para não mais repetir aquele proceder.
Então, meus queridos leitores, nós temos sim uma Rádio AM que nos antecipa sobre o futuro.
Ela se chama consciência. Que desenvolve o discernimento e uma certa previsão do que pode ocorrer, novamente, se repetirmos os mesmos atos que fizemos no passado, e que não deram certo.
Não é maravilhoso?
Passamos a nos sentir bem mais responsáveis pelo aqui e agora, pois é de presente e presente que o futuro vai se moldando e que o passado vai virando a nossa história, vai sendo deixado nele o nosso legado.
Muitos chamam essa rádio AM, com avanço de 5 segundos em relação à FM, de Sexto Sentido.
Eu chamo esse fenômeno de sensibilidade emocional.
O famoso “Se Mancol!”
É quando a vozinha interior nos diz: “Cuidado, não proceda assim, se acalme, pode dar merda, lembra?”
E vamos crescendo, nessa maravilhosa aventura de viver. Crescendo em humildade de reconhecer nossos erros, aprender com eles e mudar.
Crescendo em novos aprenderes, de coisas que embora parecidas que estamos vivendo, as conduziremos de forma totalmente diferente.
Crescendo no escutar e no prestar atenção, de nossas vozes e ações no presente, entendendo que serão eles que reverberarão e moldarão um lugar que chamamos de destino.

Bendita dor de cabeça!

Ela fez cair a ficha que me diz: Você é inteiramente responsável pelas ações cujo controle depende única e exclusivamente de seu acontecer. Portanto, não terceirize sua existência; nem ache que a vida voltará pra que você possa fazer novamente. Nem voltará, nem adianta querer ver como será o amanhã.

Para viver uma vida que vale a pena ser vivida, tem que se aprender a degustar o hoje: seja ele doce ou salgado, frio ou quente, duro ou macio...
E, nesse degustar, aprender a valorizar o que realmente tem importância, a ter coragem para mudar o que realmente pode mudar, e serenidade para conviver com aquilo que não dá para alterar. E, muito discernimento para entender a diferença entre uma coisa e outra. Como disse Francisco de Assis: “Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado... Resignação para aceitar o que não pode ser mudado... E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”

Fio 1000 Egípcio (Por Ricardo de Faria Barros)


Um casal amigo resolveu comemorar o cinquentenário de vida deles, numa celebração conjunta com o nome: "Cem Motivos para Louvar".
Achei a ideia de uma grandeza e generosidade espirituais tremenda.
Senti-me honrado em ter sido convidado e ter podido presenciar tanto amor reunido em forma de gente.
Depois da entrega dos presentes e os parabéns, acheguei-me num conhecido e perguntei o que o nosso grupo deu de presente, como fruto de uma cota que rolou.
Ele me disse que compramos um jogo cama e banho, de "fio egípcio".
Fiz uma cara de:
"O que, homi? Nossos amigos fazem 100 anos e damos toalha e lençol?"
Aí, aquela alma mansa, boa e sábia, vendo minha total ignorância para tratados de fios de algodão, ensinou-me:
- Os fios egípcios são oriundos de um raro algodão, de fibra longa, que só tem no Egito. E que em cada trama (uma polegada quadrada, ou 6,45cm2) há 1.000 fios entrelaçados, o que confere ao tecido uma maciez e durabilidade excepcionais, inigualável!
Fazendo uma vistoria, em casa, descobri que a maioria das camisas, lençóis e toalhas por aqui tem de 60 à 120 fios.
Ou seja, o Egito passou bem longe. rsrs
Meu amigo, naquela noite, sacou uma pérola: "Quem recebe esse tipo de presente deverá guardá-lo para usar numa ocasião especial."
Aí, foi minha hora de ensiná-lo algo.
Amigo, após 50 anos, todo dia deve ser especial, toda ocasião deve ser especial, e não temos que guardar mais nada para um dia depois.
Com isso não digo que devemos ser perdulários, ou o outro extremo, o acumulador de coisas materiais.
Temos que encontrar um termo do meio, entre usufruir e economizar.
Sabe aquela xícara linda, como um tesouro perfilada na cristaleira da mamãe?
Quem sabe não é a hora de se dar ao direito de tomar um chá nela?
Sabe aquela louça linda, em porcelana rosa que fica guardada como bem de família, que tal convidar os mais chegados para tomar uma sopa nela?
Nunca esqueci um conjunto de Cerâmicas Marajoara que minha esposa trouxe de Belém, e de nossas discussões por ela não me deixá-las as usar.
Ela guarda "para um dia especial".
Outro dia papai fez feijoada aqui em casa. Daquelas pra toda a família. É ou não é uma ocasião especial?
Agora lembro que meu filho, o Rodrigo, também fez uma feijoada aqui. É ou não é uma ocasião especial?
E as cerâmicas continuam virgens.
"Para não sujar, para não quebrar, para não desgastá-las...".
Acabou. Hoje as libertei dessa sina, de serem sempre deixada para trás, à espera de ocasiões especiais.
Vou fazer uma feijoada e inaugurá-las. Será meu dia especial, afinal nunca fiz feijoada.
É ou não é algo especial fazer um prato pela primeira vez?
Quanto aos meus amigos, usem os fios Egípcios bem muito, e em muitas ocasiões a que se permitam perceberem como especiais.
Não guardem no maleiro até que virem esquecimento.
Não deixem isso só ser lembrando, de que não usaram, no instante em que a vida nos prega sua peça mais sorrateira, aquela na qual duvido você saber o dia ou noite em que chegará.
Use seus fios egípcios!
A vida vai acontecendo é no caminho, e ficamos esperando o alvo, aquilo de especial acontecer, quando no caminho um monte de coisas especiais vão aparecendo, e adiamos o seu desfrutar.
E, não estou mais na idade de adiamentos. Então, à feijoada!
Quer ocasião mais especial do que a de se estar vivo?
Hoje vi o drama de um pai que deixou o filho no Kumon, e ao buscá-lo não o encontrou lá.
O menino travesso, esperou o pai sair, e fugiu. Deveria ter uns 12 anos. Todos ficaram mobilizados, deixei meu café de lado e entrei no grupo que bateu aquela quadra comercial atrás de um menininho de cabelos cacheados e louros.
Depois de uns 30 min, o pai já quase desfalecido sentado na calçada, com um olhar impotente para o vazio, imaginando o pior, eis que a mãe chega dirigindo um outro carro, e o filho vinha com ela.
Ela nos diz que o moleque acertou o caminho de volta para casa, andando sozinho uns 3 Km.
E, como o celular do maridão estava descarregado, ela não pode avisá-lo.
Relaxamos todos. Menos o garoto, que estava com a bunda quente, e merecidamente.
Aquele casal, tem ou não tem uma razão para se aninharem em fios egípcios nessa noite?
Ou, abrirem aquele vinho que guardam para um dia especial.
O dia especial é hoje, o filho que estava perdido voltou.
O problema é que estamos perdendo a capacidade de ver "espelciar" nossos instantes, sentindo em nosso ser o quanto são mágicos, místicos, misteriosos e encantados de bom, de belos e de virtuosos.
Tudo vai ficando opaco, pelos olhos turvos da indiferença, e perdemos a capacidade de ver o quanto o dia a dia tem de coisas especiais. Aí, atribuímos isso a um fato inédito, esperando para um dia qualquer, que nunca chega.
Lembrei que ganhei do amigo Júnior um pacote com camarões, do tipo exportação. Guardei para um dia especial, mas será em 2017, em outubro, nos meus 53 anos.
Claro, se algo de mais especial não ocorrer antes disso.
Como, por exemplo, receber a visita do casal amigo - dos cinquentenários de Andre Schirmer e Cristina De Oliveira Schirmer aqui em casa, pois sei que amam camarão.
Aí, eles irão para a panela.
Anteciparei a ocasião especial, antes planejada. Essa é a arte.
Fiquei pensando que também temos pessoas Fio 1000 Egípcio em nosso viver.
Pessoas raras, macias, de longos valores, extremamente resistentes à desesperança e que nos colocam para cima.
Uma pena que com elas também aconteça isso. Vamos deixando-as guardadas no "maleiro" como se as tivéssemos para sempre conosco.
Sem dizê-las o quanto elas enriquecem nosso viver.
Só sabemos a falta, quando um dia elas partirem de nosso viver.
Aí, a traça da história se encarregará de corroer o tecido de nosso coração. Sendo tarde demais para valorizá-las e dizer o quanto nós lhes amamos. Pois, esperávamos uma ocasião especial para fazê-lo.

Amanhãs Possíveis (Ricardo de Faria Barros)



Amanhãs Possíveis

Um ponto, pode ser uma vírgula.
Uma vírgula, pode ser explicação.
Uma explicação pode não ser um ponto.
Final, pode não ser fim.
E um não, pode ser um sim.
Um depois, pode ser agora.
Um não dito, pode ser dito.
Um silêncio, pode ser um grito.
Um escrito, pode não expressar.
Um grito pode ser um gol.
Um gol pode ser um filho.
Um filho pode ser luz.
Uma luz pode caber num litro.
Um litro pode estar cheio de nós.
Um nós pode se cultivar um sol. 
Um sol riso pode aliviar pelejantes.
E, caso secar o litro, apagar a luz.
Nem litro, nem luz, sairão incólumes.
Um ao outro.
Ficaram com as vírgulas, espasmos de silêncios.
Entrecortados de amanhãs possíveis.

Das Cem Razões do Amor (Autor Ricardo de Faria Barros)


São sete da manhã, de um domingo.
No ponto de ônibus, duas freirinhas perfiladas, com suas fardas bem passadas, aguardam a condução para alguma missão pastoral, com um classudo porte tal qual xícaras de porcelanas sagradas, guardadas na cristaleira da vovó.
Mais à frente, um senhorzinho com cabelos bem branquinhos, empurra com dificuldade uma carroça, lotada de latinhas, ferro velho e papelão. Está voltando da madrugada de coleta, conduzindo seu pequeno tesouro, de volta para casa.
Na feira, seu Agenor me aborda e diz que se lembrou de trazer para mim as mudas de macaxeiras, das boas, amarelinha e macias.
Sorridente, entrega-me um feixe de varas e me diz: "Dá para umas 50 covas".
Quanta generosidade, domingo passado pedi três "sementes" de mandioca, e ele me trouxe 50.
Lembrei de um versículo que diz que nossos frutos deverão dá cem por 1. Como o do Sr. Agenor.
A lado, na barraca de frutas, a Iêmi elogia em voz alta, típica de feirantes com boa autoestima a camisa de Amuêda, dizendo-lhe que ele ficou bem de azul.
Amuêda, olha para mim, todo orgulhoso, como quem me diz: "Viu, ela me achou bonito!!!!"
Não sabe Amuêda, que nunca mais ele usará aquela camisa da mesma forma, ela agora está reluzente, pelo amor que recebeu da Iêmi.
Virou azul Iêmi.
Volto para o carro e um moleque pergunta-me se sobraram umas moedas, pelo "guardamento" do veículo. Ele deve ter uns 12 anos, bem gordinho e sorridente.
Senti-me tocado, pela abordagem de “resto de moedas”.
Abro o carro e ele solta um: "É que estou juntando as moedinhas para comprar uma mochila nova".
Uauu.
Sensibilizado, como você também ficaria, dou-lhe uma nota de R$ 10,00 e ele parte correndo de alegria.
Ligo o carro, e ao meu lado passa descendo a ladeira um pai-bike.
Pedalando com seu quase-bebê ainda, montado numa cadeirinha à frente da sua bicicleta, numa cena de amor comovente.
Ambos sorriem, divertem-se naquela agradável farra familiar. E, os capacetes deles são da mesma cor: laranja.
No rádio, anuncia que hoje acontece em Brasília o “Dia das Boas Ações”, no qual as ONGs que de alguma forma prestam algum serviço voluntário à povos em risco social, estarão expondo seus trabalhos e pedindo colaboração e apoio, nos locais de ajuntamento como Eixão, Sinais e praças. Eu acredito, e apoio!
Fiquei emocionado com a matéria. Como uma que junta cosméticos para presidiárias da Coméia, ou outra que levou luz a populações ribeirinhas do Alto-Amazônia, a Litro de Luz.
Eles estão botando as preces das freirinhas na pratica, vendo Jesus em cada sofredor. “Eu estive preso, e me visitaste. Eu estive nu, e me vestistes. Eu estava com fome, e me desse de comer...”
Se gosta do tema, veja o fantástico de hoje à noite, vai passar a Litro de Luz, em campo, no Norte do Brasil. Não tem como não se emocionar.
São tão jovens, tão idealistas, tão gente!!!
Uauu!!
Antes de chegar em casa, paro para um café lá no Seu Valdecir. Um senhorzinho de 76 anos que considero de minha família.
Aí ele me conta sua saga médica. Sem nenhuma ponta de raiva, reclamação. Ele conta que foi na UPA, com uma dor no peito. “Nas costelas.”.
Ali, pediram um eletro e o atendente notou algo errado.
Entregou-lhe então um papel que daria direito a ele a ir noutro local, agora um Centro de Saúde e solicitar uma marcação de exame com cardiologista.
No Centro de Saúde ao tendente falou-lhe que o papel estava errado, que tinha que ter vindo o “prontuário”.
Sr, Valdeci, volta na UPA, o atendente diz que é coisa da burocracia, e que ele deve ir lá novamente, agora com mais papel.
Então, ele se lembra de uma médica que o atendeu em 2015, no HUB, e que lhe disse que quando ele precisasse, “em qualquer dia, hora ou situação” ligasse para ela, deixando no cartão do atendimento seu celular:
Chama-se Dra. Beatriz. Santa Beatriz. Afinal, isso não é usual isso acontecer. Em atendimentos públicos. Beatriz deve ter se afeiçoado do Sr. Valdecir. Quem não se afeiçoa dele?
Ele liga para ela. Ela o convida para um cafezinho no hospital, e que irá examiná-lo, ele sente-se amado, brilha sua face, estufa o peito, recupera estimas, e sente-se acolhido por alguém que foi além de seu papel na vida. Alguém que excedeu em amor.
Ele fala dela e enche os olhinhos de lágrimas. De coração agradecido, conta-me que não era nada, era só uma arritimiazinha. Coisa boba!
E, me serve mais um cafezinho!
Quantas pessoas boas estão nos apoiando, sendo luz, sendo o azul da Imêi para o Amuêda. Sendo as manivas de macaxeira, do Sr. Agenor, para mim. Sendo as freirinhas orantes. Sendo o catador de papelão e latinhas, elevando o ganha pão pra seu lar, sendo jovens das Ongs Sociais. Sendo a Beatriz, sendo a gratidão e paz do Sr. Valdecir. Sendo aquele pai que passeia com seu filho. Sendo o jovenzinho que junta dinheiro pra sua mochila. Sendo agora meus filhos, noras e genro, que invadiram minha cozinha e disseram-me: “Pai, hoje vocês serão visita, viemos fazer o almoço”.
O amor está no ar, ajuste as frequências de teu viver a ele e verás como há razões para sermos felizes, para amar e nos sentir amados.
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Memórias Líquidas (Autor Ricardo de Faria Barros)


Se Zygmunt Bauman fosse vivo, talvez nesse dia estivesse escrevendo sobre Memórias Líquidas.
A febre que assola a humanidade no momento.
Virou moda os grandes veículos de interação digital-social criarem estratégias de proteção do conteúdo, de quem posta algo, apagando-os após um certo tempo.
Todo mundo agora faz vídeos que duram um dia, depois passarão a habitar o terreno do nada.
Nossas memórias estão sendo relativizadas a um dia de duração. Que pena!
É como se um casal passasse o dia trocando confidências, e ao anoitecer, tudo fosse apagado, virasse pó.
Tempos depois, quando quiserem reler suas vidas entrelaçadas, os caminhos pelos quais trilharam na doce e imprevista entrega do amor, não se achassem mais.
Cruel, não é?
Cruel essa sociedade do presente, que renega o valor das memórias, lembranças e recordações.
Nem nossas fotos nos damos ao direito de as imprimir mais.
Lembram daquelas filmagens que fazíamos em fitas VHS, de nossos bons momentos em família, com amigos e em atividades que fizeram a diferença em nosso viver?
Acabaram.
Perdemos esse hábito, nesse viver alucinado do aqui e agora, uma espécie de hedonismo do hoje.
Como pequenos deuses que a um toque no "Play" pudéssemos evocar todo cabedal de memória afetiva que nos fez maior e melhores.
E, vamos nos perdendo de nós mesmos, de nossa história, pois ela agora virou líquida.
O que postei de mim hoje, amanhã já será outra coisa.
E se quiser voltar a mim ver, pelos caminhos que trilhei, paciência.
E tudo vai ficando pó, perdendo as raízes, ficando na provisoriedade de um DEL.
E levamos isso para a vida afetiva também.
Como se as cenas boas, belas e virtuosas estivessem sempre ali. E não precisássemos com elas fazer compotas emocionais para os tempos outros que virão.
Não faça isso com sua vida!
Guarde seus bilhetes de amor. Guarde seus posts de uma fase que viveu, em que esteve ternurando a vida.
Guarde seus vídeos num lugarzinho especial do HD de seu coração. Não perca o engatinhar de se filho. Não perca suas primeiras palavras. Não se perca suas declarações de amor.
Você pode dizer quantas vezes amará na vida?
Então, não faça vídeos co sua amada que se apagam no dia seguinte. Entendeu?
Vejo o vídeo do JG, com dois anos, entrando na creche, numa fila, de soslaio ele olha para mim. Como que a me pedir socorro.
E choro.
Quase seis anos depois, se eu não tivesse guardado esse registro, não teria uma emoção tão boa de saber que sou amado por ele.
Então, resista ao povo que não gosta de bater foto. Bata muitas. E guarde-as na nuvem, para nãos e perderem.
Faça muitos vídeos.
Um dia poderá rever seus filhos engatinhando, aquela feijoada que fez com defumados de primeira, sua filha voltando de uma missão solidária, ou aquele amor que te tirou dos eixos.
Guarde!!!
Essa sociedade que nos ensina a ser descartável, até em nossas memórias não poderá vencer-nos, resista.
Imprima fotos, faça vídeos, cultive saudades boas, não ache nunca que amanhã terá as mesmas condições de fazer o mesmo vídeo de coisas boas de teu viver.
Portanto, ao fazê-los, não os apague de seus corações.
Seja um subversivo, não se renda às memórias líquidas do Séc. XXI.
Não descarte suas boas vivências, cuide delas.
E, com elas faça compotas para que nos dias do futuro possa ter sempre um lugar para degustar

O Grupo de Apoio à Vida - GAV (Autor Ricardo de Faria Barros)

É sexta feira, 22h50min, e estamos encerrando a primeira reunião do Grupo de Apoio à Vida, o GAV. Era março de 1994, e dos mais de 200 convites impressos em A4 e entregues, convidando voluntários para fundarmos aquela ONG (não havia Whats nem Face), apenas duas pessoas aderiram, Lana e Josi, que somados a mim e a Joane, formamos um grupo de quatro idealistas.
Um mês depois, já éramos 12. Pessoas lindas que queriam ajudar a diminuir o preconceito contra portadores do HIV e de alguma forma ajudá-los.
No segndo mês, já tivemos que alugar um lugar maior, éramos agora uns 30 voluntários. As reuniões da sexta foram históricas, e sempre começávamos com Selma Reis: cantando para nós sua obra prima: O Preço de uma Vida.
"Mesmo quando a esperança
Por si só não bastar mais
Só nos valerá se nessa morte em vida
O amor com amor pagar o preço de uma vida
Se não se sonha mais, de que nos valerá"
Cantávamos aquela canção quase em prece.
Durante as históricas reuniões da sexta à noite, traçávamos metas, fazíamos balanços das visitas e necessidadas das pessoas assistidas, abriámos espaços para desabafos, choros e emoções. Mas, sobretudo, nos amávamos!
Esperanças vadias e frágeis ali eram cultivadas, num tempo em que só havia o AZT para deter a evolução da Síndrome.
Após a Selma, nos abraçávamos, dançávamos o Ói-êpo, e prometíamos nos encontrar novamente, na próxima sexta.
Aos mais debilitados, faziámos votos de que não sucumbissem.
Que aguentassem mais um pouco.
Nunca consegui escrever aqui sobre o impacto do GAV em meu viver, sendo o fundador daquela ONG e presidente por duas gestoes.
Mas, hoje recebi de uma amiga a canção O Preço de uma Vida, e lembrei do quanto fomos valentes e ousados naquela época. Essa música é um hino ao amor.
Queria dizer a vocês que se foram, aos que ainda resistem, e a dezenas de voluntários que pelo GAV passaram e ali serviram, que nessa noite fria de sexta, aqui no DF, senti muita saudade de vocês e de nossa causa.
 Fizemos história!
"Ói êpo e tata êpo, Ói êpo e tata êpo, Ói êpo e tata êpo.
E tuqui, e tuqui, e êpo. E tuqui, e tuqui, e êpo."
Olhai por trás dos morros, olhai por trás dos morros, olhai por trás dos morros. E nunca desista, nunca desista.
Só o amor nos torna eternos. E, quem recebe esse toque durante a jornada de sua vida, o toque do amor, deve botar os joelhos no chão e agradecer, por mais dolorido que possa lhe parecer.
E é o que faço agora e convido-lhe a fazer também.
Obrigado GAV!

L O (Autor Ricardo de Faria Barros)

A primeira transmissão da internet está próxima dos cinquenta anos.
A letrinha piscou numa tela de fósforo verde, e era um L.
Um professor, incrédulo, entusiasmado e sem querer acreditar no que acabara de fazer, correu para o telefone e pegou o telefone e ligou para seu colega, há quilômetros de distância em Stanford, perguntando-lhe:
- Chegou algo na tela de seu computador?
O colega respondeu-lhe, quase dando pulos de alegria: Sim, a letra “L”. “E eu não digitei nada aqui!!!”
Cientistas da UCLA abraçaram-se, e teclaram uma nova letra: “E agora?”
- Agora chegou um O.
E a alegria tomou contas das duas Instituições de ensino
Contudo, a próxima letra enviada, nunca chegou, o computador de Stanford deu pau.
Seria, G. Seguida por I e N.
LOGIN!
Uauuu!!!
Bem na hora do Login o sistema caiu.
Mas, eles não desistiram. Tempos depois, nem eles, nem nós, seríamos mais os mesmos após a internet das coisas.
Amo as coisas que tudo que nos remete a conexões.
Lembram daquela cena no filme ET, na qual ele toca com o dedo na testa do menininho.
Não tem como não se emocionar com aquela cena, que considero uma das mais bonitas da dramaturgia. Eles fazem entre si uma conexão de amizade.
Outra cena de conexão, vemos na Capela Sistina, pintada por Michelangelo. É aquele famoso quadro em que Deus toca o seu dedo no dedo do Homem, fazendo uma conexão espiritual.
Temos que “levantar nosso sistema emocional e espiritual” para permitimos que conexões aconteçam. Temos que fazer como os professores fizeram, ao não desistirem até que conseguiram o LOGIN.
Quem tem as chaves de nosso coração? Quem consegue nos fazer sentir bem, cheios de esperança, de vida? Quem ao lado dele(a) não tem tempo ruim que persista?
Quem contamos as horas para rever, ou quando com ele(a) estamos as horas insistem em galoparem?
Se você está se lembrando de pessoas assim, em teu viver, guarde o login delas com muito zelo, com muito cuidado. Elas são bênçãos.
E, sinto dizer-lhe, não temos a mínima ideia do que faz algumas pessoas terem o login de nosso coração, em detrimento de outras.
Tem logins de amizades, de amores, de fraternidade, de solidariedade, de espiritualidade.
E, quem tem esse acesso aos nossos corações, quando digitam suas letrinhas, faz rodar em nosso peito o carrossel do destino: alterando nossas rotas e jeito de ser, e para melhor.
321, o que é para você? Para mim é conexao.
De amor.
Em 3 2 1, sinto que algo de bom vai começar.
321 é o número da casa de meus pais, na rua Antenor Navarro.
O que é 32 pra você?
Para mim a maior mensagem de amor já feita para nós. Que só podemos compreendê-la no mundo espiritual.
O três da Trindade Santa. O dois de eu e tu, conectados a Ela. . "Onde dois ou mais estivrem reunidos, EU (a Trindade de amor) estarei entre eles.
Que conexão maravilhosa, o 32 nos possibilita.
E, não nos esqueçamos jamais. No mundo espiritual, Deus tem a senha para girar nossos corações, para nos fazer sentir amados por Ele. O problema é que colocamos, do lado de cá da porta, uma trave que impede que a chave gire. E Ele opere em nós. Entende?
A trave do egoísmo, da maldade, do ódio, da ganância, do materialismo, do poder, da mágoa e inveja enferrujadas que deixamos oxidar em nosso peito.
Quando dois corações se conectam passam a operar numa mesma frequência, e entre eles imperará uma força transformadora fazendo tudo novo e diferente, embora cotidiano e igual seja. Entende?
Nas escolas deveríamos ter a disciplina Amor. Ensinar a fazer os Logins com o outro.
Ensinar sobre cuidado e respeito humano. Ensinar sobre ternura e apoio.
Ensinar sobre amizade e paz.
Precisamos cultivar conexões. Uma das maiores faltas que o Orkut me fez foi nesse terreno. Ali fiz amigos e amigas de até hoje. Amizades cultivas em comunidade como o “Boteco Mói de Liso”, ou a “Receitas Fáceis”.
Agora as redes sociais tornaram-se agressivas. Até as Comunidades abertas, são tudo, menos Comum + Unidade.
Quem tem logins a digitar, no coração do outro; ou quem se deixa acessar por logins, digitados pelos outros, tem tesouros.
Sem as conexões com os outros não há vida boa, e que por ela valha a pena ser vivida.
O quadro da Sistina, a cena do ET, e as letrinhas LO que não completaram a palavra LOGIN, nos ensinam muito sobre como bem viver.
E, que nunca esqueçamos a senha que um dia permitiu que adentrássemos na vida do outro, fazendo nele um login.
É preciso que a guardemos num pano de guardar confete, como diz a canção.
Pois, nunca saberemos novamente quando login e senha darão certo novamente, seja em que nível de acesso se dê a conexão, nas suas várias formas e expressões de amor de: philos, fraternos, ágape, eros ...
O problema é que hoje estamos com muita falta de conexões verdadeiras, entre os Eus e os Eles(as).
E não venha culpar o tempo, estresse ou coisas do gênero.
É um dos efeitos colaterais e uma sociedade que desaprende a cada dia a ser NÓS.
Que embora superconectada pelos dispositivos móveis, ou nas internets das coisas, cada vez se encontra mais isolada, sozinha.
Solitários high-tech gourmets é em que estamos nos tornando.
Você vai caminhando pela praça, dá um bom dia e o outro lhe ignora.
Você senta-se à frente do atendente, que ao lhe atender, ali não está.
Seu gerente chama a equipe para uma reunião, fala, fala, fala, fala, ali ele não está.
Você leva seu filho ao médico, ali ele também não está.
Você chega do trabalho e conversa com os filhos, ali eles não estão.
Você faz terceiro turno na faculdade. E, na aula que assiste, o professor nela não está.
Você almoça com sua esposa, ali ela não está.
Você vai na missa, culto, ou similar, ali Ele também não está. Embora você insista em encontrá-lo num lugar diferente de seu próprio coração.
Precisamos reaprender como humanidade a criar, cultivar e manter conexões verdadeiras com os outros.
A deixá-lo participar de nossas vidas, e nós das deles.
Reaprender a fazer pontes, no lugar de muros.
Reaprender a tecer laços, no lugar de correntes.
Reaprender a erguer as velas, no lugar de lançar as âncoras.
Reaprender a conviver com o outro. Um outro amigo, confiante, orante, cooperativo e amistoso poderá ser muito terapêutico em nosso viver.
Como percebem, aquele problema de conexão evoluiu, agora atingindo os sistemas de humanização de pessoas e ambientes.
Pensemos nisso!
Agora vou ali, recuperar minhas senhas de conexões com os outros que um dia me tornaram maior, melhor e muito mais feliz do que era antes de conhecê-los.

Olhe para mim! (Autor Ricardo de Faria Barros)

Olhe para mim! (Autor Ricardo de Faria Barros)
Era a melhor hora do dia para observação de movimento de feira livre.
Antes das sete da manhã, de um domingo, na Feira de São Sebastião-DF, eu já me posicionava no escritório de catação de cotidianidades populares, que instalo na única mesa externa da pastelaria La Deyse, para a qual já tenho direito de posse – por fidelidade amorosa.
Deyse logo se achega e me serve com meus quitutes prediletos. Café, recém-passado, seguido de pastel com caldo de cana.
Sorvo o café e refresco a alma!
Abrindo em meu ser as portas para a manhã que antes era a vindoura, prestando atenção ao seu nascimento em meu ser, tal como se presta atenção ao milagre diário de renovação do frescor da vida quando se recebe a rejuvenescedora Brisa Aracati, soprando esperanças em todos que habitam nas proximidades do Rio Jaguaribe, no Ceará.
Fecho os olhos e escuto o barulho de feira livre!.
Aquele tipo de burburinho que tem sabor de vida.
Ao meu lado, a Iêmi prepara sua mesa de hortaliças. Vaidosa, de longos cabelos negros, entre uma alface e outro que dispõe em pilhas verdes-claras, ela se olha no espelhinho de feira-livre, retocando a maquiagem com um pincel. À sua maneira, ela também se abre à manhã vindoura que já acontece no agora, nem sempre percebido.
Uma voz interrompe meu deleite quase espiritual.
“Sr. Ricardo, olha”.
À minha frente, o Francisco.
- Bom dia Francisco! Estou vendo, a feira está bonita, não é?
“Não Sr. Ricardo, olha!”
E aponta para seu crachá, seu “jaleco” bordado, e estufa o peito todo garboso.
Eu então percebo o que ele quer me mostrar e encho meu coração de ternura.
Ele contou-me que participou de uma reunião com o pessoal da “prefeitura”, a turma que administra as feiras livres. E que ouviu que era preciso melhorar a higiene e a qualidade dos produtos; o manuseio e a apresentação dos feirantes, atraindo mais clientes.
 E que seria bom que todos usassem um jaleco personalizado, luvas, toucas e um crachá de produtor rural.
Ele me contou que saiu da reunião e foi logo mandar fazer seu kit, investindo por conta própria uns R$ 100,00 nele.
 E, que nesse domingo, estava muito feliz!
Que até um cliente já tinha elogiado seu novo visual e forma de atender.
Perguntei-lhe: quantos participaram da reunião? Ele me falou que praticamente todos, daquele setor, estiveram presentes. E que tinha sido no final da feira de domingo passado.
Olhei ao redor e só vi a Iêmi com a “farda”. Até onde a vista alcançava, cobrindo com ela uns 30 feirantes, não vi mais ninguém além deles.
Pedi outro café, o dia renderia em observação.
Eu posso estar enganado, mas percebi que ambos estavam mais entusiasmados, e que não paravam de olhar para o crachá.
E que repetiam a história da reunião para todo cliente que chegava, do tipo curioso por coisas de gente, como eu.
Francisco limpava cada garrafa do leite das vacas de sua pequena propriedade. Mas parecia que as polia, de tanto esmero.
Arrumou a toalha da frágil mesa, umas 3 vezes, deixando-a impecável com seu alisamento.
A toalha era nova. Branquinha, branquinha.
Iêmi, dava umas viradas no cabelo, tipo para mostrar o crachá que porventura eles o encobriam.
Fui nela e soltei um: “Iêmi, como seu crachá ficou bonito”.
Aí ela derreteu-se toda de amor, sentindo-se notada por mim, e ofereceu-me para vender uma linda graviola que trouxera. E que escondera para a hora das frutas.
Hora das frutas? Como assim? Ela explicou-me que a feira tem um rito. Pelas 10hrs é a hora que mais se vende frutas. Pois é a hora em que os clientes olham se sobrou algum dinheiro ainda, após comprarem os galináceos, temperos, legumes e hortaliças, e investem o saldo em frutas.
Ahh!!! Sábia Iêmi. Comprei sua graviola , voltei-me a sentar e passei a contemplá-los.
Eu fiquei embevecido com o orgulho com o qual apresentavam os frutos de seu trabalho. Os outros feirantes, eram apenas outros, perto deles.
Quase autômatos, nas suas interações com a clientela.
Eles não.
Eles estufavam o peito, sorriam, seduziam com seu atendimento a todos.
Era como se agora eles tivessem uma identidade maior, aquele vestuário e crachá, mexeu com a autoestima deles, de forma positiva.
Lembrei-me de meu orgulho quando entreguei o meu primeiro cartão corporativo da Ânimo.
Eu queria até abraçar a pessoa que recebeu, tal significado aquele gesto teve para mim.
Para a pessoa, mais um que recebe. Para mim, o primeiro que entreguei. Tenho cartão, logo existo no mundo corporativo. Foi o que pensei. rsrs
Para além do asfalto da realidade, somos seres de dimensões subjetivas e intangíveis, que beiram à poesia e magia em ser, fazer e acontecer.
Tirei foto de Francisco. E não tive coragem de tirar foto da Iêmi, pois percebi que ela não gosta de registros e a respeito.
 Francisco posou todo imponente. Os vizinhos de barracas ficaram tirando onda. Os mesmos que foram para a reunião, ouviram os mesmos ensinamentos, e com eles não alteram o destino de suas vidas.
Ou seja, não lideraram mudanças.
Costumo dizer que líderes são pessoas comuns que fazem coisas incomuns.
Francisco e Iêmi são líderes, de sua categoria. São exemplos, próximo domingo outros podem se sentir inspirados por eles e também adotarem a prática deles.
Mas, o que melhor aprendi foi o valor de se ter um nome para mostrar.
De não ser mais um feirante. Agora eles tinham um nome.
Tinham uma identidade profissional e eram outros.
Como vamos nos perdendo desse gostinho de fazer as coisas comuns se tornarem incomuns.
Outro dia estava aguardando um vôo de JP para Brasília, já no Portão de Embarque.
Profissionais, de empresas diferentes, organizavam as filas de vôos simultâneos que sairiam a pouco.
A da Avianca, chama-se Juliene. Ela lidou com uns 100 passageiros, nas mais diferentes filas: Preferenciais; Poltronas de 16 a 30 e as demais; com uma paz e alegria que eram destaques.
Aos desavisados, ou gente que não entedia direito as orientações e entravam na fila errada, ela sorria, dizia “Eita está com pressa, espere só um bocadinho aqui que já chamo sua fila”. E seguia com os demais.
Uma jovenzinha cadeirante apresentou para ela os documentos. Aí ela fez algo inusitado, e fenomenal, ela disse para menina: “Quer que eu lhe empurre até o avião, eu sei descer essa rampa como um foguete, até tiraram-me dessa função, de tão rápida que eu era. Ou prefere seguir com o Mário?”.
E ambas caíram na gargalhada. Nunca tinha presenciado tanto amor em relação às pessoas com mobilidade reduzida, em forma de um saudável humor.
Não tinha como ficar irado com ela. Impossível.
Aí observei a que operava o mesmo serviço, numa empresa concorrente. Eu não via uma pessoa ali.
Não que ela atendesse mal, longe disso. Mas, não havia chama interior. Não havia relação com seus clientes. Ela repetia, mecanicamente, o mesmo que a outra repetia, sobre a disposição das filas. Mas, faltava alma no procedimento. Os seus clientes tornaram-se um “bilhete de entrada”. Apenas isso.
Nós não. Dava até gosto ver a Juliene conferindo os documentos, sorrindo, quase nos abraçando ao desejar uma boa viagem, sem perder o ritmo em fazer a fila andar.
Iêmi, Juliene e Francisco estão fazendo diferente o que todo mundo faz igual.
Eles encontraram seu jeito de marcarem sua presença entre nós, de tornarem o lugar em que habitam melhor do que acharam, e de deixarem seu legado no trabalho que fazem.
Estão saindo do lugar comum e sem energia de ser apenas mais um dos que fazem a mesma coisa, todos os dias, sem chama alguma.
Eles até fazem as mesmas coisas, todos os dias, contudo botam a eles mesmos nelas e tornam: as coisas, a eles e a nós diferentes do que éramos antes de seu toque de amor, cuidado e atenção. Nos fazem ter uma experiência prazerosa como clientes. E, quem não deseja por isso nos dias atuais, de pessoas e interações tão mecânicas?

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