Somos Sertões (Autor Ricardo de Faria Barros)

O dia começou com a visita do amigo Ari. Ele chegava oriundo de propriedade rural, e trazia consigo um 1/4 de bode, carne de sol e costela de gado para nosso churrasco da noite. Esse é um costume tao legal de nossa gente, quando se junta para festar, de cada um levar uma coisinha pra festa. E, de coisinha em coisinha, faz-se um banquete. Mas, Ari exagerou, ele trouxe uma coisona.
Amigos são assim, excedem nossas expectativas e atendem muito mais do que pedimos em nossas necessidades.
Após o café da manhã, nos despedimos do Ari, e partimos apressadamente para adentrar o pior sertão do Brasil, com a hora ainda a nosso favor. Nosso alvo era chegar no badalado Lajedo de Pai Mateus, um conjunto de formação rochosa, esculpido sobre pedras planas, ou lajedos, que formam uma área de impressionante beleza. Esse ponto turístico fica na cidade de Cabaceiras-PB, cidade que menos chove no Brasil, situada na região do Semi-Árido chamada de Cariris Velhos.
No caminho, passamos pela minha primeira casa. Um lugar de muita esperança, que é sempre bom voltar às origens para vermos o que crescemos e como conseguimos superar tantas dificuldades do início da vida adulta. Eu entrei nela num sábado, dia 5 de janeiro de 1985, o dia em que saí de casa aos 20 anos. Quando entrei no carrossel do destino, grávido do Tiago, de 4 meses.
Demos a volta e entramos na Getúlio Vargas, para que eu relembrasse do colégio em que fiz parte do primário, o de Eneida Agra, hoje demolido. Como fui feliz naquela escola!
Após essas breves paradas, seguimos estrada adentro passando passamos por Queimada-PB, uma cidade que tem como seu portal um conjunto de montanhas rochosas que lhe dão um toque surreal, entre elas uma que intitulei de "Fole de Sanfona", e até imaginei Flávio José tocando nela um bom Luiz.

Era a primeira vez que adentrava nos Sertões, desde que cheguei na minha cidade. Antes, passeei na Zona da Mata e no Brejo, áreas bem úmidas. Agora, estávamos do outro lado da Cordilheira da Borborema. Do lado em as chuvas não chegam, pois são barradas antes.
A cena é de impressionante e trágica beleza. Mata de caatinga, jurema, algarobas, vegetação que de tão seca ficou da cor cinza. Quilômetros e mais quilômetros sem nenhuma expressão de vida, nenhuma. E muitas fazendas abandonadas, em mais de dez anos de seca inclemente.
Mas, o sertão tem seus mistérios, aromas, imensidões e tonalidades, para além do cinza de folhas causticadas pela seca.
Olhando bem para ele, encontram-se flores, árvores que teimam a morte e ainda estão verdes, um ou outro grito de esperança, expressos em pequenos poços que são escavados, metro a metro nos leitos de rios secos, à busca de águas nas profundezas de seu leito. O Sertão é a esperança que o amanhã será melhor e que isso também passa.
Assim como Euclides da Cunha disse, eu também acho que os Sertões não são uma região geográfica, os Sertões somos todos nós, humanidade. Somos essa contradição entre morte e vida. Entre cinza e verde. Entre flores e murchamentos Entre o aparente leito seco de um rio, e as fontes de água de que brotam de seu interior, caso os homens se permitam escavarem-se em si mesmos, na busca pelo auto-crescimento e iluminação interior
Abastecemos em Boqueirão, cidade que ficou conhecida por abrigar um imenso açude, de mesmo nome, que quando era tempos de chuvas, e ele sangrava, a população fazia a festa e a fartura era garantida. Cresci vendo imagens da sangria de Boqueirão, que foram ficando cada vez mais tênues e espaçadas.
Chamou a atenção a qualidade das estradas da Paraíba. O trecho de Boqueirão até Cabaceiras, por exemplo, apesar de curvas sinuosas, é de um asfalto espetacular de bem feito. Todas estradas deveriam ser assim, não é? O problema é que contratam um tipo de asfalto, para um tipo de peso que a estrada foi dimensionada a suportar, e trocam esse asfalto por um que receba menos peso, e bem mais barato, e a diferença é embolsada. Uma pena, mas esse é um dos golpes mais comuns ao Estado Brasileiro. Aprendi isso nos meus três anos de Engenharia Civil.

Voltemos ao passeio, ando vomitando para assuntos de política.

À medida em que entrávamos, Cariris Velhos adentro, a vegetação da Caatinga era mais prevalente. Cactos e mais cactos, alguns bem altos. O sol judiava conosco, e o ar-condicionado do carro de papai sofria para dar conta. De longe, avistamos a placa de Cabaceiras, e ainda era 10hr, ufa!.
A placa anunciava que estávamos entrando na "Roliúde" Nordestina. Cidade na qual foi filmada muitos filmes com cenários dos Sertões, entre eles o Auto da Compadecida. E que tem na festa do Bode Rei uma de suas maiores atrações. Cidade fundada por um De Faria: o Domingos de Faria Castro. Nos sentimos em casa, era tudo parente. rsrs Aliás, no Nordeste para você se sentir em casa não precisa muito. Sente em qualquer mesa de bar e veja o que acontece com a mesa vizinha, que logo interage com a tua, e todo mundo vai sair daquela noite "irmão".

Passeamos pela simpática cidade. com suas ruas e calçadas limpinhas, limpinhas, e casa com fachadas bem cuidadas e pintadas. Um deleite para a vista. Entramos na igreja, fotografamos a praça do coreto, e visitamos o museu do cinema, uma iniciativa digna de louvor, que fortalece a autoestima local, mostrando aos filhos da terra as produções culturais que ali foram realizadas.
Então seguimos em direção ao Lajedo de Pai Mateus, por uma estrada de terra, comendo poeira, e adentrando pela Caatinga uns 10 quilômetros.
Mas, a paisagem que víamos pagava tudo. A sensação era que os Sertões nos engoliam, de tanta força de querer viver que eles possuem.
Ao adentrar na área de um hotel que funciona como o portal do Lajedo, fomos barrados na porteira. Um guarda, com cara de poucos amigos, disse-nos que o Lajedo estava fechado para visitas. E pelos próximos 6 meses.
Que a Globo "comprou os direitos de sua área" para preparar alguma de suas atrações. Como assim?
Quer dizer que quando vão procurar financiamento para aquela área com base no patrimônio turístico do Lajedo o vendem como de acesso público, como patrimônio da humanidade. Mas, quando o vil metal chega na frente, esquecem os projetos de turismo, que franqueiam o acesso ao cidadão comum, e fecham a área?
Pode isso Arnaldo? Que esculhambação é essa entre o público e o privado, herdada desde as Caravelas, no que se chamava de Patrimonialismo. Uma tremenda falta de ética coma coisa pública que a confunde com a privada, e faz-se do Estado uma Casa Grande - e para poucos, deixando a Senzala para os muitos, o povo brasileiro.
De nada adiantou meu protesto silencioso. Descobrimos que o Lajedo é particular aos interesses dos proprietários, e público, quando atende as esses mesmos interesses. Sendo de um ou de outro, por quem oferta a melhor proposta, e que o turista que volte por onde veio, comendo o pó da areia, agora levantada do rastro que deixara.

Pensamos o que fazer, já que o objetivo fora frustrado, e nos lembramos de ir visitar o Açude de Boqueirão, que tinha saído de sua quase morte, ao receber as milagrosas águas do São Francisco.
E foi um programão. Ficamos num restaurante erguido sobre o balde do açude. Dele, de nossa mesa, víamos aquela imensidão de água, as do Velho Chico, que agora fazia uma transfusão de vida para nada menos do que 500.000 pessoas que estavam sofrendo um severo racionamento de água, por 4 dias na semana, os habitantes de minha cidade, Campina Grande-PB. O apocalipse seria agora, em outubro, com o encerramento do bombeamento de água, caso não chegassem as águas da tranposição que entram por Monteiro-PB, e descem pelo leito do Rio Paraíba até ele.
Almoçar ali, comendo aquele peixe e pirão, e olhando para aquele milagre dos Homens, nos acalmou do Lajedo e deu um novo significado ao nosso passeio. Sim, é um programão, ir comer um peixe num dos dois restaurantes que margeiam, na esquerda e na direita a represa (balde) do açude.
Isso também o sertão nos ensina, a nos recuperarmos rapidamente da dor, luto e da decepção, às primeiras chuvas que caem em nossas almas, nascendo em nossa vida babujas (primeira e mais tenra relva após a seca) de esperanças. Somos assim, um povo forte, por sobrevivente que é!
No caminho de volta, papai fala em voz alta, para, para, para, dá meia volta.
Brequei e atendi o pedido, ele queria parar num pequeno estabelecimento comercial, daqueles de beira de estrada, por ter reconhecido um amigo de uns 30 anos atrás.
E não era que era ele mesmo. Que encontro gostoso de testemunhar. Ele era o dono da pequena bodega na qual papai às vezes tomava uma cerveja, voltando todo coberto do pó da estrada, após mais uma missão de educação profissional cumprida. Vou bacana vê-los conversando como velhos amigos, e sobre os tempos antigos em que tudo era tão difícil para ambos.
Chegamos em casa e fomos preparar a laje do quintal para receber meus amigos. A noite seria de celebração pelos meus 5.3 e pelos 6.5 de Ari.
São amigos que construí ao longo de minha carreira no Banco do Brasil, trabalhando e aprendendo muito ao lado deles. Nosso filhos se criaram juntos, nos programas que fazíamos nos feriados prologados unindo quatro famílias: A minha, a de Catão, a de Gouveia e a de Ari. E fui ficando tão apegado a eles que os sinto como parte de minha família, e me sinto também padrinho dos filhos deles, padrinho de amor, daquele tipo que não necessita de papel passado para atestar.

Nós temos nossas histórias repetidas, que sempre que nos encontramos as repetimos mais uma vez, e sempre damos boas gargalhadas com elas, como se fosse a primeira vez que as contássemos.
Uma espécie de doidice. E, naquela noite não foi diferente. Num determinado momento, Catão disse que eu voltei a sorrir. E eu falei pra ele: "amigo, quem não sorri sendo levantado todas as manhãs pelo sopro da brica aracati, e que no anoitecer divide um pôr do sol com o amanhã, e quando anoitece é contemplado pelo toque cheio de ternura e amor de uma borboleta azul, dizendo-lhe: "persevere, a vida é o fruto das escolhas que fazemos, após batemos a poeira com aquilo que ela fez conosco?"

Todos emudeceram, e caíram na gargalhada, Gouveia soltou um: "Num entendi nada, repete".
Eu emendei, escutem a canção de Charles Chaplin, de nome Smile, ela explica melhor, eu já bebi mais de uma lata e nem me lembro das abestagens que eu disse. rsrs
Celina, Guia, mamãe e papai não sabiam onde colocavam tanta alegria e quitutes que prepararam: era fava, arrumadinho, ovos de codorna, era o dos meninos: costela de bode na brasa, carne de sol, queijo,castanha, amendoim, porco e assemelhados, tudo chegando com fartura.
Mamãe e papai fizeram surpresa, compraram um bolo para nós e lá fomos apagar as velinhas.
Quem tem amigos têm bênçãos. Eles são parte constituinte de uma vida plena, para os quais deveremos sempre guardar as melhores palavras e gestos de gratidão e de amor.

Um dia frio e uma boa rota para passear. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Acordei no domingo, na casa de meus pais, mais cansado que sozinho. Mas, era cansaço dos bons, tinha feito uma maratona na madrugada do dia anterior, para acomodar os gerânios que trouxe para mamãe, em duas caixas de papelão. Esses gerânios serão um dos temas das próximas crônicas.

Da cozinha, vinha sons e aromas da Celina preparando o café que madruga lá em casa, são barulhos e cheiros que evocam vida, os da melhor qualidade. Entrei no banheiro e fiz a barba, pensando que ali, naquele WC, era meu antigo quarto, pequeninho e aconchegante. Eu dormia no segundo andar, e meu irmão no térreo do beliche. Quando fui tomar posse no BB em Poções-BA, e por lá passei um ano e meio, 1986-1988, meus pais demoliram a casa antiga e construíram uma nova. Quando finalmente voltei, tive um choque.

Onde estavam minhas memórias de infância e juventude?  

Não tinha restado nada da casa anterior. Acho que vamos guardando pedaços de casa dentro de nossa existência. Com paredes, cheiros, texturas, jardins, cores, recantos e esconderijos, somos casa, somos ethos. O sonho de meus pais, de nos dar um conforto maior, não realizou com nenhum de seus três filhos, pois todos migraram para outros estados e casaram-se. Contudo, realizou-se com meus três filhos, criados com muito amor por eles, e pelos uns bons dez anos. Sonhos são assim, muitos deles não são para gente, são para as pessoas que vem lá na frente, dobrando a esquina do amanhã.

Nos cafés dos domingos os padres são sempre bem-vindos. Eles celebram na igreja do Rosário, aos fundos de minha casa, e a mamãe sempre os acolhe para um café, após a primeira missa do domingo. Nesse dia foi o Pe. Isaías, uma simpatia de amorosidade, em forma de padre. Como dizemos por aqui, um “padre que consegue evangelizar os jovens”.

Após o suculento café da manhã, escutei a voz de Sebastião. Sebastião é um daqueles ícones do jardim da mamãe. Há pelo menos 20 anos ele faz o jardim lá de casa, e tem um jeito e paciência de Jó - com as plantas e mamãe. rsrs. Nunca vi Sebastião sério, chateado ou falando mal da vida. Ele sempre está sorrindo, transmitindo paz e gosta muito de se relacionar conosco.

Entramos no carro, fizemos a chamada dos passageiros do passeio e seguimos para conhecer a Rota do Frio, ou da Cachaça, como queiram, acessando-a por Alagoa Grande, e fazendo o que chamamos de Anel do Brejo. Brejo é uma região muito fértil, rica, chuvosa e com um ecossistema único no Brasil. No caminho, árvores enormes, muitas curvas, engenhos ainda em funcionamento, e cidades bem antigas, com mais de 200 anos.

Uma rota para enamorados de tanto charme que dela sai. Paramos em Alagoa Grande e conheci a sua lagoa, que emoldura e dá nome à cidade. De fato, é bem grande pra nós da PB, gente de pouca águas.

Papai ia narrando os lugares, em Alagoa Grande, que já tinha alugado para fornecer cursos técnicos do Senai, uma de suas atribuições como Diretor das Unidades Móveis do Senai, coisa que ele criou a partir de uma experiência que viu no México, em 1970. Nessa experiência, os cursos técnicos eram acomodados em grandes caminhões que migravam por aquele país. Quando ele chegou ao Brasil, junto com outros inovadores do Senai, montaram a estrutura de atendimento móvel, seja em lugares alugados, seja em enormes carretas.

Isso democratizou o acesso a eles, criando oportunidades de profissionalização para povos distantes dos grandes centros urbanos. Tenho muito orgulho de meu pai por ter possibilitado isso a tantas pessoas, viajando por mais de 35 anos pelos rincões da PB. Com água ou sem água, com asfalto ou sem asfalto, com luz, ou lampião, não importava, se tinha um galpão disponível, poderia ter educação profissional, nem que fosse à bateria. E ali, ele e seus instrutores, aportavam para oportunizar esperanças de pessoas se formarem em tornearia, mecânica de automóveis e bicicletas, marcenaria, eletricidade, calçados, hidráulica, panificação, entre outros cursos.

Em Alagoa Grande-PB, chamou a atenção o casario histórico e bem conservado, e seu Teatro Santa Ignez, de 1905, e muito conservado, em suas estruturas de madeira e nichos internos. Um espetáculo de teatro. No caminho para Areia-PB, subindo um dos conjuntos das Serras da Borborema, talvez a mais alta, paramos para fotografar uma bela árvore florida, de beira de estrada.

Perguntei-me quantos já não a olham mais com o nosso assombro. Vistas pelos olhos opacos da indiferença, fruto da rotina de todas as coisas, que vai nos cegando à beleza do cotidiano, aquela que está sempre à mão e por perto, e deixa de ser admirada e reconhecida, por “você me ter fácil demais”... como diz a canção.

Na sua copa florida de rosa, muitas abelhas, beija-flores, borboletas azuis e encantadas, e pássaros faziam a festa. Uma brisa aracati soprava suas pétalas, que caiam no chão como que formassem uma cortina de Deus.

Refeitos de tanta beleza, seguimos subindo a serra. O clima ia ficando frio, para nossos padrões, agora uns 18 graus. E o ar era tão gostoso de respirar, tal qual quem bebe em água de fonte limpa.

Paramos para almoçar no restaurante rural A Bagaceira, em homenagem ao José Lins do Rego, nascido na região.

Esse restaurante por si só já é uma poesia de lugar. A paz e charme estavam ali, e em cada recanto. Comida deliciosa, decoração rústica, preço justo, atendimento impecável, e muitas mudas de flores para mamãe, gentilmente doadas pelo proprietário. Além de uma varanda preguiçosa, com redes e cadeiras de balanço, convidando-nos ao contemplar.

Em Areia-PB ficamos impressionados com a quantidade de casas de arquitetura em ar-decor, rococó e barroco, todas belíssimas. Areia é a joia do brejo, cidade multicultural, cheia de vida, boa gastronomia, com mostra de cinema e teatro nos seus impagáveis festivais de inverno, e com excelentes e premiadas cachaças. Além de ser o berço do Campus de Agronomia, da UFPB, que sempre recebe um monte de estudantes, a cada semestre, o que lhe dar mais vida ainda. Cidade com praça, coreto e matriz, com gente conversando nas calçadas, sentados nas cadeiras, e muita história, a cada esquina.

Ali entrei pela primeira vez numa senzala, com 190 anos, e vi a que ponto a atrocidade humana chegou, no comércio de escravos. Uma pena que esse aspecto não é enfatizado na visita guiada, que reforça mais a conservação histórica e a beleza da casa, com seus telhados em eira, beira, tribeira e quadribeira, sinal de opulência e muita riqueza de quem ali morava, os Rufino. Para mim, eu estava entrando nos porões fétidos da humanidade. Eu podia até sentir as vozes e choro de escravos que ali ficavam amontoados, em oito quartos, verdadeiros cubículos de 3 metros quadrados, sem janelas, esperando que os comprassem, que os viam ao circularem livres por uma espécie de praça, para a qual todos os cubículos abriam sua portinhola.

Fomos nos refazer de tanta energia ruim, visitando o museu de Pedro Américo, cidadão ilustre de Areia, e pintor renomado. Quando nos faltar a esperança na humanidade, vendo do que somos capazes, nada melhor do que mergulhar nas artes para restaurar a crença nessa mesma humanidade, grávida de contradições de si mesma.

Voltamos para casa passando por mais cidades do Brejo, fechando o anel rodoviário que fizemos. No caminho, entramos em Remígio, onde trabalhei no BB e por cinco anos ali fui caixa, e muito feliz. E Esperança-PB, local que no seu hospital público fiz meus primeiros atendimentos como psicólogo, parte do projeto de extensão e integração Universidade e Comunidade. Guardo boas memórias daquele povo tão sofrido que pude atender, dos quais as mulheres mais idosas relatavam muito sofrimento por não terem notícias de parentes, filhos e até maridos, que migraram para SP em busca de melhores condições de vida. Chegamos em casa, pelas 16hrs, após um percurso tão bacana. Senti ao adentrar o jardim uma brisa aracati soprando sobre minhas faces. Notei que da jardineira pendia um cacho de um gerânio vermelho que trouxera, Nele uma borboleta fazia a festa, e era azul. E o dia terminou com chave de outro, agora brindando ao amor!

Tempo de reencontros. (Autor Ricardo de Faria Barros)

O avião taxiava e a Paraíba crescia dentro de mim e me emocionava, novamente, sem ser de novo.
Cada vez que volto na minha cidade natal, a vejo com novos olhos.
Não é ela quem está mudando, com tanta velocidade, são meus olhos.
Neste mês, dei-me de presente 8 dias de férias, e voltei para lá, pela segunda vez esse ano.
Depois de um ano bem extenuante, do ponto de vista de adaptação emocional, e prestes aos 5.3 anos, eu precisava de colo de pais. Se existir melhor terapia, não a conheço.
Engraçado, cada vez que mais me aproximava da "Cordilheira da Borborema" - conjuntos de serras que se estendem por uns 200 km, que funcionam como uma barreira geográfica, barrando os ventos vindos do litoral, produzindo um microclima muito especial, eu pensava em como a minha vida girou em questão de dez meses, data de minha última visita, já aposentado.
Em ambas as vezes que nela entrei, tal qual agora, vivia momentos de ruptura e de recriação de mim mesmo.
Meu pai dirigia bem alegre, e juntos fomos traçando o roteiro dos dias, daqueles dos bons: "sem ter lugar e hora para chegar, e em canto algum".
Entramos em Campina Grande com o sol se pondo sobre o Açude Velho, uma cena de indescritível beleza.
Chegamos em casa, e mamãe esperava lá fora.
Ela aproximou-se de mim, com seu jeito de imensidão de afeto, e me deu um abraço de infinito. Adentrei a casa de meus pais e senti o aroma vindo da cozinha. Cozinhas de casas dos pais são lugares de Deus, e perfumados. Dona Celina, patrimônio imaterial gastronômico de meu lar, caprichara no bode com cuscuz. Já Guia, patrimônio imaterial da arrumação e das restaurações dos santos de mamãe, deixou meu quarto tinindo de limpo e cheiroso. Quanto amor envolvido nas duas.
Comemos bem, e mamãe ficou apreensiva que enchêssemos a barriga, pois tinha o jantar da quermesse, após a missa. Papai piscou o olho, deu de ombros, e disse: "padres jantam tarde, vamos nos garantir logo por aqui". Depois, horas mais tarde, demos razão a ele.
No quarto, eles e meus filhos fizeram-me surpresa, com presentes dos 5.3. Que dia feliz!
Mamãe nos chamou para procissão e missa. E já ouvíamos os preparativos das mesmas, pois que moramos quintal com quintal da Igreja.
Mas, eu estava cansado e dormi, perdendo a procissão de Nossa Senhora do Rosário e Missa. Papai gazeou também, sob pretexto de me fazer companhia.  Acordei com os fogos de artifício, o cheiro de incenso, tão familiar, e os cânticos de louvor cantados na procissão que arrastava nossas penas.
Aquilo tudo era um reencontro para mim, fiquei na rede curtindo aquele momento.
Depois, seguimos para a praça do Rosário, lugar que marcamos de encontrar-nos com mamãe.
A missa terminou, mamãe fazia festa me apresentando às suas amigas de Apostolado de Oração.  Apresentou-me a nossa vizinha, de quando eu tinha a idade do JG, uns 8 anos. E mais emoção aflorou. Eu brincava com a filha dela, a Zênia, e sons de infância evocaram em meu coração, abafando os carrilhões da igreja que tocavam festivamente. A Zênia e eu nos olhamos, como quem olha o passado e nele se encontra, e nos abraçamos festivamente. Será que nossos filhos um dia viverão o que vivi aos 5.3, encontrando-me com uma vizinha de brincar de subir em árvore?


Nesse momento, passou uma pessoa por mamãe e ela comentou: "Evandy, olha Chagas!"
Evandy é meu pai.

Chagas era do Sesi, e papai do Senai, ambos se aposentaram com grande folha de serviço prestados a estas Instituições.
Perguntei a mamãe se o Chagas era o que era o meu Coordenador de Esportes, de quando fazia natação no Sesi. Mamãe confirmou.
Então, saí em disparada e o abordei. Disse-lhe que eu fui atleta de natação da escola dele, por mais de dez anos, e que meu documento mais importante do currículo tinha sido ele quem me dera e certificara. Uma declaração dizendo que eu estava apto a ensinar natação a crianças, meu segundo emprego em Poções-BA. Disse-lhe eternamente grato, e dei-lhe um abraço de quebrar os ossos. Aquele era um dos abraços que eu faltava dar em minha vida, abraço de gratidão. Menos um, viva!
Ah! se pudêssemos reencontrar com muita gente que foi importante em nosso viver,  dizer isto a elas e abraçá-las.
Quando voltei para a calçada da igreja, mamãe estava conversando com o padre que proferiu a homília da missa, a mais festiva por ser a do encerramento da novena, que foi concelebrada por três padres.
E, quando ela fez menção em nos apresentar, já estávamos dentro de um abraço.
Era o Haroldo. Colega de Seminário Menor, de quando eu estudava para ser padre. Um amigão. Aí foi mamãe quem não entendeu nada. E fui explicar que conhecia Haroldo há 35 anos, no mínimo, quando juntos, e tão jovens, éramos vocacionados à carreira sacerdotal. De minha turma, só não vigou eu. Haroldo contou-me que ele, Cristovão, Carlinhos, Valdir e Assis viraram padres. Todos grandes amigos e com eles aprendi a discutir fé e vida, em reuniões que se estendiam pela madrugada, estudando os documentos do Vaticano, a Bíblia e os livros pastorais da Teologia da Liberação.

Era uma época em que queríamos mudar o mundo, com uma fé mais engajada, humanizada e alegre, expressa numa opção radical e preferencial pelos mais pobres, conforme  Concílio Vaticano II e Conferência de Puebla.

E passamos a recordar nossos bons professores e me atualizar da vida dos amigos padres.
Depois nos dirigimos para as mesas da quermesse, tomamos vinho de padre (segundo papai), celebramos aquela noite como de reencontros.

Por que vamos nos perdendo das pessoas que foram importantes na constituição de nosso viver?

Por que tem que ser assim?

Talvez faça parte do ciclo da vida, mas em nos carregamos suas bênçãos, amizade e ajuda fraterna que nos deram. E, sempre que voltamos a vê-las, é como se fosse a primeira vez. Nunca as esquecemos, de fato, em nossos corações.

Quem um dia entrou em nossa vida, e foi por amor - em todas suas expressões, das gavetas de nosso coração jamais sairá, mesmo que estejam fechadas, só esperando as oportunidades que tive para abri-las.  e fazer, com o que brotou de seu interior, uma celebração  celebrar a festa de viver.  Voltei para casa sentindo o amor em minhas faces, sopradas por uma doce brisa aracati, e vendo bailando à minha frente uma borboleta azul, que teimava em acender a luz de seu pirilampo, convidando-lhe a não desistir de si mesmo.

Há de se ter tempo para deitar-se sobre flores. (Autor Ricardo de Faria Barros)


Passei por aquele trecho, à margem da movimentada BR 020 que corta o Distrito Federal, caminhando num ritmo quase de academia.
De longe fui vendo um tapete de flores no chão, lamentei não ter trazido o celular para documentar aquela colcha florida que a mãe natureza fez.
No outro dia já coloquei o tênis com o firme propósito de vê-las novamente. Guardei o celular no bolso do bermudão e disparei, torcendo que as flores ainda estivessem viçosas como no dia anterior.

Eu estava caminhando em direção a elas num dia bem reflexivo. Têm dias que acordamos assim, com arrotos pelas coisas a que temos acesso, que nos entristecem, e que são mal processadas em nosso coração.

Uma das coisas foi ter acolhido logo bem cedo o desabafo do Adalfran, o porteiro do prédio, sobre como ele se sente quando é tratado por alguns moradores que o humilham por ser simples, ou lhe ferem com posturas de discriminação racial e geográfica. Infelizmente tem gente assim.   

Dou mais uns passos e penso no que vi no jornal, sobre uma jovem que foi parada numa blitz, aqui em Brasília, e simulou que foi agredida, arranhando o rosto numa árvore, para complicar a vida dos guardas.

Dobro a esquina e penso noutra reportagem sobre os alunos de uma escola de Mariana-MG que rejeitaram os que foram transferidos para lá, oriundos de São Bento-MG, por terem perdido tudo: suas casas, quintais, parentes, amigos, brinquedos, cultura e até a sua cidade, vítimas da avalanche de lama. Tiveram que construir uma escola só para eles, pelo teor do Bullying que sofreram.

Também pensava em como pode uma pessoa atear fogo numa Creche?

Passando numa parada de ônibus, vi um jovenzinho amarrando os cardaços do sapato de uma senhorinha. Quanto amor envolvido.

Mais à frente, um outro caminhante respondeu ao meu bom dia, que de propósito dou a todos que por mim passam, com um sorriso lua cheia no rosto.

Vejo uma mulher com aqueles trecos redondos (bobes) na cabeça, varrendo a calçada da casa dela, de jardim florido, e de seu do interior da casinha sinto vindo um delicioso cheiro de café. Onde há aroma de café, calçada limpa e plantas há vida naquele lugar. 

Uma fila de crianças passa por mim, guiada por seus pais e cuidadores, em direção a uma escola. Cena comovente, todos falantes, bem arrumadinhos e com suas mochilas abarrotadas.

Vejo jovens com sacolas de roupa e alimentos, esperando que abram a porta do lar dos velhinhos Bezerra de Menezes, aqui de Sobradinho. Pensei, eles foram fazer uma doação, que lindo.

E de longe meu chão de pétalas se descortina, e o amanhecer acontece em meu viver. Faço umas tímidas fotos, olho para um lado, para o outro, e ouso deitar sobre aquela colcha de flores de ipê rosa.
Afinal, já estou na idade em que posso pagar mais micos, sem preocupação alguma com "aparências", tomar menos sopa e mais sorvete, e dar vexames por ainda acreditar em coisas ultrapassadas, como ternura e paz.

Então, deitei sobre as flores. E senti uma paz invadir meu coração. Creio que todo mundo um dia precisará fazer isso. Deixar a vergonha de lado, mandar todo mundo que observa às favas, ligar o "tou nem aí" e deitar-se sobre flores.

Deitado olhei para o céu azul, uma pintura aqui no DF, senti o vento roçar minha face, no nivelem que ele afaga a relva macia. Senti um pássaro cantando de feliz, ao ver-me interagindo com ele, naquela manhã.

Após uns minutos, ergui-me e vi que uma senhora, que também caminhava por aquele local, tinha parado para contemplar a cena.

Aí ela falou, "eu também quero". E deitou-se tentando fazer uma foto com seu celular, um self. Eu me ofereci para documentar a cena, e ela se ofereceu para me fotografar, nessa foto que ilustra esa crônica.

Ela me disse que mora há dez anos numa casa bem perto daquele pé de Ipê Rosa e que sempre quis deitar naquelas flores, e que ao me ver fazendo aquilo ela disse para si mesma: "é hoje!"".

Nos despedimos afetuosamente, cada um seguindo a sua rota caminheira.

E, no meu coração já não havia mais nenhuma presença dos arrotos sociais do início da manhã, pelas coisas que consumi, e agora era só esperança de tempos melhores.

Esperança nutrida por jovens solidários; por quem amarra os cardaços de uma anciã; por crianças alegres indo para escola;  pela vaidade dos bobes da mulher, dialogando com sua lida da casa; pela escuta sincera e disponível de um coração abatido e oprimido; pelas flores que me abraçaram como que a me dizer, somos maiores, melhores e mais abundantes do que tudo isso de ruim que existe na sociedade.

Voltei para casa com o coração em júbilo. Aquele travesseiro de tronco de ipê e cama de suas flores, renovaram meu espírito, e estou pronto para mais transformações em meu pensar e agir. Sim, é possível transformar realidades tão duras, com as quais convivemos, com nossa pequena ação diária, quase imperceptível, cujo resultado é enorme, na vida de quem ajudamos com nosso jeito de ser diferente. Aquele que vai no sentido contrário de tanto ódio, indiferença, egoismo e insensibilidade para com o outro.

Por isso precisamos de nossa cama de flores interior. Precisamos dessa parada diária para nos abastecer de bons sentimentos e de emoções positivas. Cada um que me ler deve ter seus próprios infinitos particulares, lugares que visitam, que em suas pétalas e flores nos deitamos, evocando ali os pensamentos mais nobres seu coração. E, ao de lar sairmos, nos sentimos refrescados e restaurados em nossa esperança e otimismo de existir.

A sua cama de flores não precisa ser real. Pode ser deitar juntinho da pessoa amada, de conchinha. Pode ser lembrar daquele piquenique. Pode ser fechar os olhos e sentir-se dentro de uma cabaninha de amor. Pode ser ouvir a música de um filme tão lindo como Cinema Paradiso. Pode ser abrir a Bíblia e rezar diariamente o Salamo 91, ou algumas Salve Rainhas por pessoas queridas. Pode ser contemplar o sol se pondo, ou tentar ouvir o inaudível: como alegres grilos que defendem, perante sisudas formigas, que o amanhã será melhor, e que isso que estão passando hoje, essa seca sufocante e inclemente, também passará. 

Precisamos lustrar nosso espírito, periodicamente. Precisamos cultivar tempos eternidade, para nós mesmos.  Precisamos elevar nossos pensamentos, ampliar nossa percepção, expandir as fronteiras do pensamento levando-os também ao bom, o belo e virtuoso, que convive junto com o mau, o feio e o sem virtude. Que muitas vezes estão à beira de uma movimentada BR, ou bem perto de casa, e que por dez anos nunca nos permitimos deitar nele, ou parar para fotografá-lo, por não ser percebido, frente às aflições e preocupações que fecham o foco de nosso olhar, apenas para o que deu errado ou apresenta riscos de dar.

Encontrar a paz num cotidiano de tanta dor, vindo das coisas a que temos acesso, e que nos chegam qual dardos envenenados, é subverter a ordem reinante, instalando nela também as cenas do contraditório, que nega o discurso comum, de que as coisas não tem mais jeito e que humanidade como um todo está perdida.

Não acredite nisso. Deite-se no seu colchão de flroes, renove seu espírito e transformai o que está em teu poder e controle de transformar. 

E, continue a dar seu melhor bom dia, mesmo que nada receba em troca. Eles não lhe mudarão, você nãos e tornará o que não quer, pelo menos isso!  E, continuar a dar o seu melhor bom dia já pode ser considerado uma vitória, nos tempos atuais de tão pouca amorosidade.

 "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito. Romanos 12,2






E por falar em amor... (Autor Ricardo de Faria Barros)

Aline e Daniel vão casar. Fico sempre embevecido quando vejo um casal que decide fazer uma aliança, antes de tudo com eles mesmos. Em janeiro desse ano fui o celebrante leigo de enlace de casamento, atendendo ao convite de meus afilhados Suzana e Yuri, e aquele dia marcou meu vier.
Naquela madrugada de sábado, Aline acordou ansiosa, afinal seriam suas primeiras fotos com o seu sonhado vestido de noiva. Fotos que iriam compor o álbum do casamento. Daniel curtia tudo aquilo, com o espírito de roqueiro quando ouve Bono Vox, ou seja, de alma elevada.

Eles estavam fazendo, naquela manhã, o que milhões de outros casais, mundo afora, fazem: preparam o álbum do casamento, colhendo cenas prévias a dois.
O fotógrafo convidou-lhes para fazerem uma tomada ao raiar do dia, tendo os pinheiros do Paranoá (DF) ao fundo, o que faria uma composição e molduras perfeitas.

Ao chegarem ao local, pelas 6 da manhã, deixam-se guiar animados pelo “diretor de fotografia”.
Tudo é festa, tudo é novo para eles. Entre uma foto e outra, beijam-se, como que a celebrarem aquele momento tão especial que vivem, sentindo o do frisson do dia que chega à galope.

Mas, nem sempre as coisas saem como previstas. A deusa da Fatalidade sempre pode aparecer e rodar o carrossel do destino, alterando tudo que antes existia, transformando a realidade e para pior, fatalmente pior.

Ladrões saíram de dentro dos pinheiros, renderam à mão armada o casal, e o fotógrafo, e levaram tudo deles. Carro, máquina, dinheiro, celulares, e o mais que puderam amealhar no local.
Aline e Daniel ficaram em estado de choque. Quem já passou por isso sabe o quão profundo é o trauma que causa. Acredito que tiveram muita sorte. Aliás, não é sorte, é Graça. Muita coisa poderia ter dado pior ainda.  Desde violência física, sexual e até a “queima de arquivo”.  Mas, para quem perde um carro, celular, fotos e dinheiro, e já com as economias minguando,  torna-se um motivo de muito desgosto.

Mas, o principal os ladrões não levaram. O amor entre eles. E, se existe amor, qualquer despesa com festa de casamento, bens materiais e até viagens, caso não possa mais ser realizada, não destruirá o enlace. Pelo contrário, tornará o casal mais forte ainda. Quando o amor impera, o que não nos mata, nos fortalece.  Como diz a canção “Diga Sim”, da Isabela Taviani: “Prometo ser sempre seu abrigo. 

Na dor o sofrimento é dividido.  Eu comprei uma casinha tão modesta. Eu sei, você não liga para essas coisas. Te darei toda a riqueza de uma vida: O meu amor. ”

Sim, a maior riqueza que Daniel pode dar à Aline, e ela a ele, é o amor recíproco entre os dois.
Tenho me espantado com o prazo de validade dos casamentos do Séc. XXI, e aqui não vai nenhum papo careta, do tipo: “fique na merda, sofra muito desprezo, indiferença, seja agredida(o), diminuída(o), anulada(o) e até que a morte os separe”.

Não, longe disso. Só que não acho natural o amor acabar, nem digno de nenhum tipo de comemoração, se um da entre eles já existiu amor. Todo fim, quando havia amor e promessas entre eles, causa dor, pequenas mortes e um monte de culpas e mágoas. E ninguém acorda de madrugada para tirar fotos achando que o que viverá tem um prazo de validade. Ninguém casa já marcando na agenda o dia que descasará.

Então Aline e Daniel vou contar a vocês o que mais escuto na minha clínica de psicologia, quando é esse tema que chega: “Vim aqui para tentar salvar meu casamento”.  Eu fico tão feliz quando é essa a demanda, não pela dor de quem me procura, mas pela grandeza do gesto de quem se propõe a isso.

Portanto, antecipo as recomendações a vocês que se amam, para que essa chama se mantenha por muito mais que cinco anos. Mas, precisam ser praticadas por ambos. São conhecimentos recolhidos em entrevistas com casais que se amam, após décadas juntos. Muitos, descobriram essa fórmula só na terceira estável, ou seja, tiveram que aprender no lombo e na dor. É a fórmula do CAR, a essência de todo amor, não só entre marido e mulher, mas em todas as formas que ele se traduz. 

C de Cuidar.  Cuide dela Daniel. Leve chá quando ela gripar. Ajude nos trabalhos de faculdade. Limpe a cozinha. Divida as tarefas com os filhos. Acorde de madrugada para cobri-la. Ligue durante o dia, mande mil mensagens perguntando como ela está. Nos dias de TPM, não a deixe mais nervosa do que ela já se sente. Cuide dele Aline. Veja como anda a alimentação dele; se está menos sedentário, se fez aquele check-up anual. Proponha a ele beber menos, ou parar de fumar. Prepare um caldinho para esperá-lo nos dias mais frios. 

Cuidar é doar-se ao outro fazendo para ele coisinhas que ele se sinta especial, protegido e estimado. 

Quem cuida ama. Quem cuida preocupa-se com a agenda do outro, com o estilo de vida do outro e quer sempre sua melhora, seu progredir. Quem cuida não fica falando mal do outro, ou destacando nele apenas o que lhe faz falta. Quem cuida, encontra no outro razões para ser feliz, e não para ser infeliz.

Quem cuida não asfixia o outro, não vira dependente dele. Quem cuida confia, não ingressa em paranoias ciumentas doentias, que priva o outro dele mesmo, que tira dele a autonomia do vir-a-ser. Quem cuida dá asas ao outro, pois sabe que amor nenhum, se for dos bons, será perdido pela presença e influência do amado noutros ambientes. Mas, quem cuida também se oferece para deles participar, tomar parte naquilo que o amado está vivendo, mesmo sendo um terreno quase privado.     

A de Admirar.   Admire o mundo ela Daniel. Admire os amigos, a empresa em que ela trabalha. A família dela, a cultura, os gostos e pequenas esquisitices. Admire o mundo dele Aline. O time que torce, o ritmo musical que gosta, os hobbies que possui, os grupos que ele frequenta. Admirar é conversar de forma apreciativa sobre o mundo do outro. É acolher o mundo do outro como o nosso mundo. Inclusive os filhos, caso venham como “passivo amoroso”. Admirar é curtir tudo o que faz parte da vida do outro. 

Quem admira o mundo do outro tem sempre um papo para um jantar a dois. E, o que mais tem destruído os casamentos não é de intimidade física e sim espiritual.  É a solidão a dois, solidão dos presentes. A pessoa começa a ter mais papo com seus amigos das redes sociais do que com o parceiro afetivo. E um vazio enorme começa a nascer, pela falta de um gostoso e rotineiro papo a dois, daquele em que nos sentimos ouvidos de forma atenciosa e paciente, seja a besteira ou banalidade que estejamos contando.

Quem admira deixa o outro fazer morada no coração.  Se o outro coleciona selos, e quem o admira está em viagem pelo exterior, a trabalho, ainda assim encontrará um tempo para ir numa agência de correios e comprar selos, ou num sebo comprar discos de vinil.  Selos e vinis são metáforas do que o outro gosta.  Quem admira o mundo do outro, passa a conhecer as necessidades dele. Então, um dia você se pega numa livraria, procurando um livro para os estudos dela, e abre um sorriso quando o acha. Ou, abrindo mão de seu passeio para a Chapada, para investir em ingressos de uma banda de rock, que ele gosta tanto, e poderem ir juntos. E, por mais paradoxal que seja, mas quem ama me entenderá, e mesmo sem gostar de rock pauleira.

R de Renovar. Daniel, renove todos amanheceres, entardeceres e anoiteceres o amor por Aline. Não deixe que um estresse entre você e ela dure mais que um dia e uma noite. Aprenda a pedir perdão, até quando não fez nada, olhando pela sua ótica. Coloque-se no mundo dela e tente entender o porquê dela ter ficado tão chateada. Para você pode não ter sido nada, não ter feito nada, ou nem ter tido a intenção de machucá-la, mas aconteceu. Então, use da empatia e sabedoria, e faça um cafuné nela, pedindo perdão. E mude, aprenda o que a tira do sério e aprenda a contornar aquilo, para não provoca-la. 

Aline, aprenda a ler o Daniel, em seus sinais não verbais, daquilo que não gostou do que fez. Nem sempre falamos do que nos fez infeliz, e vamos engolindo as coisas. Chame ele para uma conversa amena, sem julgamentos, sem acusações. Tente entender, do ponto de vista do mundo dele, o porquê aquilo o chateou. 

No R, de Renovar, o perdão assume uma função imprescindível. Não há relacionamento que se preze como bom sem dias de tensão. Dias de baixa energia amorosa, de medo, de sofrências e até incertezas pelo futuro a dois.  Mas, o amor usa o sábio compositor do tempo, para tecer a partitura da boa convivência. Não discutam de cabeça quente. Mas, após um dia de ruminação, de ficar matutanto, já é hora de um dos dois ceder e conversarem de forma pacífica, repito, forma pacífica, sobre o que causou desgaste. 

Tenham cuidado com os filhos.   Muitos casais esquecem de renovar entre si o namoro, e todos os dias, por passarem a assumir integralmente os novos papéis de pai e mãe. E a solidão vai entrando no coração de um deles, ou até de ambos. E quando esse assumir, de forma tão radical, os papeis de pais virará uma doença, até asfixiante para os filhos, extinguido pouco a pouco a chama do amor. Tem uma hora que precisamos fazer o desmame deles, e não se perder na relação a dois. O que não significa não lhes amar. Significa preservar o espaço a dois do casal.  Renovem aquelas rosas que davam um a outro.

Renovem as aventuras que achavam um tempo, ao longo do dia, para juntos fazê-las. Renovem as pequenas loucuras, as santas transgressões a que se permitiam com tanta alegria antes. Renovem as esperanças nos projetos e futuro comum. Renovem os votos periodicamente, tenham sempre eles por perto.   E, sempre que uma floreira como a da foto dessa crônica passar por um de vocês, e quando sozinhos estiverem se divertindo com amigos (as) em algum bar da vida, lembrem-se de comprar uma rosa e levar para o amado ausente, fica a dica. Pronto Daniel e Aline, terminou a sessão. Abaixo textos que um dia escrevi sobre os quatro tipos de amor, existentes em quem se ama, que poderão servir como material de reforço à essa crônica-terapia.

Deixo-vos com um casal que tem o CAR em nível avançado, veja a história deles e se inspirem: https://bodecomfarinha.blogspot.com.br/2015/04/passo-passo-em-direcao-vida-quase-ficcao.html 

E, se tiverem um tempinho ainda, antes do casório, leiam juntos as quatro formas de expressão de amor, que precisam ser cultivadas e nutridas entre vocês:



Cartas ao JG - Como sementes na terra, a vida também pede esperas. (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 8 anos)

Era fim de um sábado bonito, daqueles que nos esbaldamos em muitas brincadeiras juntos. Esperávamos tua mãe chegar, e enquanto isto tu brincava no Parque da Cidade (Brasília-DF), naquela área de brinquedos fixos, a que tem o famoso “foguete”, aquele que tu amava em escalá-lo. Talvez ainda tenha, quando tiver adulto e leia estas linhas que teu pai escreve para tu.
Sentei-me no banco, e de longe fiquei babando, pai babão que sou. Aí tu veio correndo em minha direção e soltou um: “Pai, eu posso ir brincar de bola com aqueles menininhos no campinho de areia?”
Acenei positivamente, contive as lágrimas, e deixe para que elas vertessem, face abaixo, após sua saída em disparada.
Sabe quantas vezes você tinha feito isso, até então, agora com teus 8 anos?
Nenhuma!  Esta foi a primeira vez.
Nos sábados anteriores, eu já tinha notado alguma diferença em teu comportamento. É que neles eu teu levei para o apartamento de minha irmã, que fica num condomínio vertical aqui do DF, e te vi saindo sozinho do apartamento para brincar nas áreas de brincadeiras, junto com outras crianças.  Mas, ali era um terreno “seguro”, pois era o local de tua tia e tio.
Sábado foi diferente. O local era “estranho” par teus padrões de até então. E você superou sua timidez social, daquelas de primeiras abordagens, que tanta preocupação gerava em teu pai.  
E não só foi jogar com os pirralhos, como ainda marcou gol, e teu time ganhou, de 2 x 0.
Eu não fiz nada. Apenas deixei de pegar no teu pé, levando-lhe para se socializar puxando-lhe pelo braço, ou “orelhas”, o que muitas vezes fiz, e era errado.
Parei de fazer aquilo e te aceitei como era. Aquele que precisava de um tempinho a mais, para se integrar aos grupos de crianças desconhecidas, e que não era o meu tempo, era o teu.
Minha ansiedade, excesso de amor e vontade de queimar tua etapa interior, só estavam lhe atrapalhando. O rio corre sozinho, e em nosso amor exigente, só precisamos não atrapalhar o seu desenvolvimento, com nossa vontade de que eles, nossos filhos, sejam como nós somos, ou sejam como achamos que éramos nós, na idade deles.
E você está mudando, desabrochando, no seu tempo, ritmo e intensidade que lhes são próprios. E eu fico muito feliz de não ter botado os pés pelas mãos, logo achando em você alguma “doença sócio-emocional”, lascando em tu um rótulo, e em função desse rótulo, mudasse meu comportamento para contigo.
Acreditei em você, amei como tu era, com ou sem a capacidade de fazer amigos estranhos logo de cara, e, ao relaxar pra contigo, você pode ser você mesmo. Sem mais querer somente fazer algo para me agradar, e ao fingir tua existência, assumir uma persona que não era a tua.
Então meu filho, na vida, continue indo jogar bola com os menininhos no campinho de areia.
Verá que fará novos amigos desses encontros, e quem tem amigo tem um tesouro que traça não come e o cupim não rói.
Antes você ficava na intenção. Com olhinhos tristes e pedintes, observava outras crianças correndo pra lá e pra cá, e não saia da barra de nossa “saia”.
E voltava para casa, cheio de intenções. Intenção de ir brincar com os meninos de pular onda no mar. Intenção de rodar no balanço do parque. Intenção de após a apresentação da quadrilha do colégio ir correr com os meninos das demais turmas, já liberados das apresentações, e por todo canto.
Mas não ia. Ficava amofinado, em nossos colos, e não conseguia ir. Era muito para você, e aquela espécie de fobia social lhe imobilizava. Aí eu te pressionava e o desfecho era sempre chato, eu triste para um canto, tu triste para o outro. Até que um dia, há um ano atrás, ou pouco mais que isso, eu te aceitei assim, como eras, sem mais querer exigir um outro JG que fosse mais próximo de um JG que eu achava que estaria mais preparado para enfrentar a vida, sem mim por perto.
Não se deixe “enformar” pelas Instituições.  Do jeito que eu quis fazer para contigo, vários outros vão querer.
Resista.
Seu amor pode querer fazer isso com você, pule fora. Não existe cara-metade, é para ser caras-inteira. Tu inteiro, ela inteira.
Seus amigos também poderão querer te colocar dentro de um padrão, socialmente aceito para eles. Se esse padrão te ferir, diminuir você como pessoa, exigir um custo altíssimo de adaptação a ele, caia fora.
Levamos muito tempo para nos construir como pessoa, e estaremos sempre inacabados nesse projeto interior.
E, e nessa construção, lógico que vamos sendo talhados pelas pessoas e Instituições que frequentamos, ninguém é um eu, somos sempre um nós.
Mas que esse seja um talhe de escultor sobre a pedra bruta. Que com seu cinzel, deixa ela mais bonita. Que não seja talhe de açougueiro, daqueles que laceram a carne.
Que seja de doce, sincero e amigo o molde dos outros em nosso ser.
Daqueles que nos ajudam a erguer nossa âncora, sair da estagnação que inibe o crescimento, e faz-nos levantar velas e singrar pelos sete mares. Um navegar que sem autonomia e liberdade das escolhas, de nada valeria ter sido, apenas para ser querido, promovido ou considerado amigo! Avalie o preço que paga, a cada concessão que fizer de si mesmo, para ser aceito e se adaptar. Para algumas, valerão as penas, pague-as e mude.
Para outras, deixe que outros paguem, saia desse jogo, de um resultado que só te fará infeliz.
Não deixe que tirem de você sua essência, seu jeito particular, diferente e único de ser, pois é isso que lhe tornará uma pessoa.
Quer gostem dela, quer não gostem, é tu quem de ti deverás gostar, ao olhar no espelho.
Mesmo que seja num dia em que não foi brincar com as outras crianças no parquinho, e teu pai ficou bravo.
Tenha calma, ele estava errado, e foi apenas um dia que não foi brincar, e a vida não é feita de um dia!

O Cravo e o Tempo (Autor Ricardo de Faria Barros)

Se tem uma coisa que gosto é de caminhar pelo quintal de minha consultoria e clínica de psicologia, a Ânimo. Desde pequeno gosto de quintais. Acho que um quintal - daqueles do jeito de casa das vovós do interior: cheio de tralhas, esconderijos, bem arejado e fresquinho, com vasos floridos colocados em tudo que é de recipiente, roupa no varal, cheiro de terra molhada, pássaros cantantes, árvores sombreadas, frutas suculentas, galinhas e outros animais de estimação é o que mais de perto conheço do paraíso, da paz de Deus em nossa vida. Quintais são terapêuticos.
No quintal da Ânimo temos dois pés de Cajá, um de Tamarindo, um Abacateiro, alguma Bananeiras e um pé de Cravo.
É amigos e amigas, um pé de Cravo. Eu não conhecia a árvore do Cravo, até que o simático jardineiro apresentou-me a ela.
Para comprovar que era mesmo, ele solicitou que eu mascasse uma de suas folhas.
E, uaauuu!!!
Era Cravo da Índia mesmo, e que sabor, que aroma!!! Pensar que essa especiaria era uma das mais cobiçadas, no campo dos temperos, nas transações comerciais entre os povos,
Criei o hábito de sempre passar pelo quintal, colher uma de suas folhas, e mascá-la com prazer.
Ontem vi uma folha de um verdinho claro, mais novinha do que as utras, de verde oliva, bem escuro.
Pensei comigo, essa folha deve ser uma delícia de mascar, de estar bem molinha e deliciosa.
A parte do molinha eu acertei. Mas, para minha surpresa, não tinha gosto de nada. Gosto de folha. Apenas. Nenhum aroma, nenhum sabor de Cravo da Índia, e eu fiquei decepcionado. Logo colhi uma outra, de cor verde oliva, e pimba. O sabor estava ali, novamente, e o frescor e aroma do cravo invadiu minha vida novamente. Ufa!
O que difere uma folha da outra, em seu sabor e aroma? Se ambas são da mesma árvore?
O tempo. Apenas ele.
Uma tem menos tempo do que a outra, e ainda metabolizou as essências perfumadas e curativas do Cravo.
Tempo, tempo, tempo, tempo...
O tempo é um grande "compositor de destinos", como dia a canção Oração ao Tempo.
E, para cada um de nós, esse compositor tem sua própria partitura. Ninguém vive o tempo da mesma forma. Ninguém.
Pois, ele é função da história e momento de vida, das necessidades, desejos e expectativas sobre algo, que em nós podem ser extremamente diferentes. Vejam por exemplo o texto a Semana, de Alexandre Machado, veiculado numa das propagandas mais premiadas da publicidade brasileira.

A Semana
Para um preso, menos 7 dias
Para um doente, mais 7 dias
Para os felizes, 7 motivos
Para os tristes, 7 remédios
Para os ricos, 7 jantares
Para os pobres, 7 fomes
Para a esperança, 7 novas manhãs
Para a insônia, 7 longas noites
Para os sozinhos, 7 chances
Para os ausentes, 7 culpas
Para um cachorro, 49 dias
Para uma mosca, 7 gerações
Para os empresários, 25% do mês
Para os economistas, 0,019 do ano
Para o pessimista, 7 riscos
Para o otimista, 7 oportunidades
Para a terra, 7 voltas
Para o pescador, 7 partidas
Para cumprir o prazo, pouco
Para criar o mundo, o suficiente
Para uma gripe, a cura
Para uma rosa, a morte
Para a história, nada
Para Época, tudo

Não deixe de ver o vídeo, desse comercial em: Vídeo A Semana

Quer condenar um ansioso? Diga-lhe que espere! 
Quer condenar um casal, peça que um deles diga ao outro que só o tempo dirá o que será da vida comum entre eles. 
Quer condenar uma mãe, diga que só poderá avaliar melhor a situação de saúde do filho, após um certo tempo, "tem que evoluir mãe...".
Quer libertar um ansioso? Diga-lhe que o vôo está no horário.
Quer libertar um casal enamorado, marque as data de um amanhã possível, entre eles. 
Que libertar uma mãe, diga-lhe a data que o filho distante virá visitá-la. 

Todos temos nossos relógio do tempo interior, e encontrar a paz no ritmo dele, que é função muitas  das vezes do ritmo do outro, é um grande exercício sabedoria, uma verdadeira maturação interior.

É o processo que a folha verde claro, mais novinha, terá que passar. Não adianta ela querer queimar etapas. Ela terá que acolher sua jornada, que pede o tempo da natureza, que dia à dia, noite à noite, vai transformando ela numa folha verde-oliva, cheia de óleos aromatizados e saborosos. Mas, tem que saber sofrer a espera do tempo. De nada adiantará ela clamar á natureza que fique logo perfumada e gostosa de mascar. De nada adiantará. Precisa passar pelo vale de lágrimas do tempo, com suas angustias e sofrências, vivendo esse momento de espera com um coração confiante na força das sementes que para vingarem precisarão ainda de muitos amanhãs vindouros. 

Assim é com o tempo, quando sua espera e vivência é feito na graça de Deus, e no tempo das horas Dele. Somente Dele!
Isso nos tornará mais aromatizados e saborosos, ao viver qualquer que seja o tempo de uma espera de forma orante. Se se avexar. 
Por falar em avexar, expressão que tem um de seus sentidos como: não se agonie; não fique nervoso; não se aperrei; tenha calma..., o poeta Acioly Neto fez uma obra prima sobre o tempo, em ritmo de forró, de uma sabedoria que impressiona, vejam: 
"Se avexe não
Amanhã pode acontecer tudo
Inclusive nada
Se avexe não
A lagarta rasteja até o dia
Em que cria asas"

Então, caros amigos e amigas, esse texto é para você que vive numa expectativa da espera por algo. Se avexe não, deixe o compositor do tempo escrever na partitura de sua vida, e no ritmo dele. 
Viva qualquer que seja a experiência que está passando como se ela estivesse produzindo em ti capital emocional positivo, tivesse trabalhando na folha de sua vida, tornando-a melhor, mais aromatizada e saborosa.

Coisa que só o tempo faz em nossa vida e o viver, desde que aprendamos a vive-lo como dom, graça e nos infinitos de nosso coração.

Nada é para ontem, e tudo pode vir a ser no amanhã.   E, esse capital tempo, enquanto ainda não vira uma folha de cravo bacana, daquela que cumpre com seu propósito, pode se investido em tanta coisa que pede o teu olhar de rosa, sobre elas.

Resumindo. Enquanto espera por algo, contemple e intervenha na paisagem, tornando-a melhor!  O maior capital que temos é do dia que vivemos. E não podemos fazer desse capital algo sem valor. Precisamos com ele construir o nosso quintal, e confiar que um dia aquele quintal era apenas um terreno abandonado, cheio de mato, material de construção ou lixo. E foi a mão paciente, perseverante e esperançosas, de uma vovó caprichosa, que fez do nada surgirem roseiras em flor, frutas maduras e todo tipo de vida que nele procura abrigo e alimento. 

Mas, se voltar os ponteiros do implacável relógio do tempo, verá que um dia nada daquilo era esse quintal que agora caminho, por entre alamedas sombreadas de pés de cajás de mais de 20 metros de altura. Um dia, há uns 30 anos atrás, alguém trouxe duas mudas dessa árvore do Nordeste, e hoje elas estão frondosas e cheias de vida em seu interior. Foi preciso tempo para isso acontecer.  Assim será sempre com nosso amadurecer como ser humano, precisaremos passar por situações, experiências e acontecimentos, que ao longo do tempo, vão nos constituir como vinagres (ácidos, resignados e rancorosos), ou um bom vinho (doces, esperançosos e otimistas). Para ambos, o tempo dos acontecimentos foi o mesmo, o que mudou foi o olhar, a ação e o aprendizado sobre os mesmos.

Portanto, não apresse o rio. Ele corre sozinho, apenas confie. E, enquanto confia, lubrifique as engrenagens do relógio de seu destino. Não espere nada de braços cruzados! Nem que seja orando, faça algo para que essa espera seja um tempo de maturação e daqueles bem proveitosos. 

Reset e Power de Si Mesmo. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Há um tempo de resetar, e outro tempo de reinicializar o sistema humano.
Estava fazendo uma sessão de life-coaching e minha cliente chegou naquele dia com visíveis sinais de júbilo.
É que após dez longas semanas de sessões, nos quais cultivamos de espaços de autoconhecimento, ela teve uma iluminação e se sentia potente para avançar à próxima etapa, a do autodesenvolvimento para a alta performance, na vida profissional e pessoal.
Brinquei com ela dizendo que ela tinha resetado seu sistema cognitivo-emocional, ao se permitir fazer aquele profundo mergulho em si mesma. E que agora, ela ousou teclar o power novamente, acionando aquela tecla para reinicializar seu sistema novamente.
Ela sorriu e confirmou.
Quantas vezes em nossa vida precisamos ter coragem para mergulhar em nós mesmos, e tirar de nossa vida tudo que é enganação e que nos oprime.
Não se trata de um processo fácil, e cada um dos que me lê sabe dos momentos de resets que já teve na vida.
É aquele instante em que sacamos que não dá mais para ser feliz, continuando fazendo as coisas do mesmo jeito, se de fato queremos que aconteçam coisas diferentes em nosso viver.
Considero um dos momentos mais ricos na vida e crescimento de um ser humano.
É quase como se trocássemos de pele, como as cobras fazem, ou de garras, como as velhas águias também.
Um monte de coisas foram se juntando ao nosso sistema cognitivo-emocional e estão pesando.
Nesse momento da sessão ela falou de uma viagem que fez num parque num país da América do Sul. Ela sabia que teria que prover sua alimentação e de mais duas pessoas que a acompanhavam, e por dez dias. E que, ao entrar na trilha, estaria pela sua própria responsabilidade a responsabilidade, visto que os guias só acionam o resgate após o prazo que ela pactuou na entrada de permanência nas montanhas e vales escarpados, sujeitos a ataques de pumas, no caso dela de dez dias.
Então, marinheira de primeira viagem, ela comprou muito mais mantimentos do que necessitava, e a viagem que deveria ser prazerosa, tornou-se um martírio, pelo peso extra da tralha.
Ela contou que tinha vontade de comer logo tudo aquilo, pela dificuldade de carregar, mas que estava ainda insegura. Ao retornar, sobrara pelo menos uns três quilos de comida. E, caminhar 40 km com três quilos a mais, viram três toneladas.
No ano passado ela retornou, e só levou o necessário para fazer uma caminhada feliz. E sobrou muita pouca coisa, mas em nenhum momento ela teve falta de nada, ou privação. Ela aprendeu a fazer a jornada com menos peso, para encontrar o prazer no caminho, e não no descanso arfando, embaixo de raras sombras de árvore.
Por isso é importante o tempo de resetar. Do mesmo jeito de um computador, nosso sistema interior fica rodando mais devagar, fica pesado, não carrega direito as aplicações, não nos obedece no tempo e situação em que mais precisamos, ele trava a todo instante. E não é vírus. É um monte de coisas que está rodando em paralelo, ou sendo carregado na inicialização do sistema, que diminuir a capacidade de processamento, consomem memória.
Na nossa vida é justamente assim. Temos que levar menos bagagem na jornada, temos que decidir o que de fato vale a pena ficar pensando naquilo, ficar rodando aquele arquivo em paralelo, aquele mesmo que rouba energia emocional e cognitiva para outras áreas de nossa vida, que precisam de atenção.
São mágoas que vão ficando pregadas em nosso ser; são perdas que tivemos e que nos fazem olhar muitas vezes para trás; são expectativas superdimensionadas dos outros com os quais nos relacionamos; são traumas e sofrimentos a que fomos submetidos e que nos marcaram. São coisas que grudam em nosso aparelho cognitivo-emocional e tiram dele a capacidade e a coragem de avançar, vida a dentro, assumindo novos riscos, permitindo-se novas aventuras, deslumbrando-se com novos aprendizados e assombrando-se com a beleza de simplesmente viver.
Mas, não basta apertar o reset. Embora seja o botão mais difícil de apertar, após um certo tempo de “apagamento”, importante para se conhecer, avaliar melhor a situação, e se permitir beijar a lona, é necessário do reset sair. Chamo esse tempo de deserto cognitivo-emocional. Um tempo de pouco florescimento interior, mas de muitas descobertas do tipo de solo e sementes de que de fato queremos cultivar em nosso jardim interior. Eu ando no meu tempo de resetar, e aproveito o deserto para selecionar novas sementes, limpar o solo e arejá-lo para que seja como uma macia cama, para as sementes que lançarei, na nova fase que virá, a do Reinicializar.

Aquela que quando chegar, num belo dia, ao nos olharmos no espelho e gostamos do que vemos. Ainda um esboço, somos sempre nosso melhor esboço possível. Aí pela primeira vez, na fase de resetado, aquelas lembranças não tiram mais nossas lágrimas, aquela pessoa, passou, finalmente. Aquela cena, parece tão distante. E aquele luto, vira uma doce memória, ou apenas uma tíbia assombração, sem força para nos paralisar de medo. Aí, vamos chegando perto da tecla power, um tanto sem jeitos, um tanto desconfiados, sem acreditar que estamos prontos, embora inacabados, para nos reinicializar.
Apertamos o power, e decidimos o que deverá carregar em nosso sistema cognitivo-emocional, e o que deverá ser deixado de lado, já não nos pertencem mais, já deram, páginas viradas.
E passamos a rodar melhor, mais livres, autônomos e seguros, de que os velhos condicionantes e circunstâncias ficaram para trás. Mudamos de fase. Agora renovados e restaurados em nossos propósitos de vida.
E a esperança, mãe de todo reinício vem nos saudar com um beijo na testa, daqueles que nos dizem, eu confio em ti!

Então chegarão tempos de resetar, tempos de reinicializar o sistema da vida, sem mais carregar tantas tranqueiras, diferente, mais leve e feliz.

Resetar-se de um estilo de vida excessivamente ambicioso e alto custo para manter as aparências.
Resetar-se de uma sede inesgotável pelo consumo e pelo ter.
Resetar-se de pessoas que oprimem e te jogam para baixo, destacado em ti apenas o teu pior.
Resetar-se da fome de poder, das vaidades e da arrogância de todo tipo de orgulho e saber.
Resetar-se de toda ansiedade e correria, até daquelas piores, as que fazemos como quem a mendigar aceitação e valorização dos outros.
Resetar-se das culpas dos sonhos não realizados, projetos inacabados e objetivos não alcançados.
Resetar-se das expectativas dos outros sobre si mesmo, e da suas sobre eles.
Resetar-se das emoções negativas e de toda carga de sofrimento delas derivadas.
Resetar-se das lentes pelas quais vê a vida, que foram ficando embaçadas pela indiferença, ou pensamentos negativos sobre si mesmo, o outro e a realidade.
Resetar-se de tudo que abala a autoestima tais como espelhos cruéis, balanças sádicas e de oráculos tiranos, com suas profecias negativas sobre você.
E, ao permitir-se o reinicializar, que seja mais leve, com menos tralhas emocionais desnecessárias para ser mais feliz, sem mais as coisas resetadas acima. E, agora na vida novamente, podemos não saber direito ainda o que queremos, para onde iremos, o que nos tornaremos, mas sabemos muito o que não mais queremos, para aonde não mais iremos e o que não queremos mais ser.

Garanto-lhes, isto na beleza de existir é um tremendo avanço!
É um acontecimento digno de um brinde ao vir-a-ser, como todo bom power consigo carrega!
Se é!

Salvem as Bromélias Humanas (Autor Ricardo de Faria Barros)

Sábado, ao esperar lavarem o carro, percorri as lojas de plantas da vizinhança e me embeveci numa delas, na qual havia muitas bromélias expostas, cada uma mais linda do que a outra.
Tenho uma relação antiga com bromélias e se eu pudesse colocar em mim os valores das plantas, eu escolheria os das bromélias, mesmo correndo o risco de magoar meus preciosos Jequitibás, Cagaitas, Paineiras, Umbuzeiros, Algarobas e Ipês, minhas outras paixões!
Esse relacionamento têm uns 30 anos. Ou seja, já fez o tempo de uma geração, então é amor.  Lembro que todo sábado papai me pegava em casa para irmos juntos na sua pequena propriedade rural, nas imediações de Campina Grande-PB, chamada de Samambaia.  Passamos agradáveis dias, naquele recanto de esperança. 
O original nome do sítio, dado pelos ancestrais dos Barros, tinha como motivo a forte presença de Samambaias na propriedade, que afloravam das locas de pedras. Eita lugar para ter pedras. 
Sim amigos e amigas, havia muitas rochas no sítio Samambaia, naqueles seus 12 hectares,  pouco mais de 5 alqueires. E, algumas delas eram como se Deus pai tivesse pavimentado o solo em grandes áreas de pedra plana, quase no nível do solo, chamadas de lajedos. Tinha os lajedos planos e tinha também os que formavam pequenas montanhas de pedras,  com seus abismos íngremes, ou ainda cavernas e grandes buracos nas rochas que acumulavam as águas das chuvas, virando cisternas naturais. 
O maior lajedo, de uns 300 metros quadrados, era monumental. O ingresso dele era por sobre uma pedra plana, uma laje natural no nível da terra. Depois ele ia mergulhando no solo, formando um abismo sensacional e perigoso, que pelo lado oposto conseguíamos acessá-lo por baixo e mergulhar nas águas que nele ajuntavam. Mas, sem papai ver. Pois ali juntava-se raras águas para beber, e não podia-se tomar banho. Papai dizia que o buraco do centro do lajedo se caísse uma pessoa dentro dali não sairia, pois era cheio de água e profundo, e os paredões de difícil. De tanto procurar lajedos, para fotografá-los no sítio, eu dei de cara com as bromélias. Elas amam juntamento de pedras. 
E, vez por outra, eu era brindado com um pendão colorido que dela saia, como uma espécie de exótica flor. 
Ficava um tempão olhando para aquilo e tentando entender como ela sobreviva ali, naqueles costões e ajuntamentos de pedras, e bem afastadas de qualquer fonte de água, inclusive do poço que num dos lajedos se formavam. Nele, quem reinava eram as samambaias, que gostam de muita umidade, daquelas que sobrem pelas paredes rochosas.

Perto de um bromélia há vida. Aliás, as bromélias são plantas colonizadoras de ambientes. Após sua chegada, em qualquer tipo de solo, a vida acontece.

Suas raízes mergulham em fendas e dessa fixação formam como uma malha que vai retendo a poeira que circula no ar, nelas caindo, formando uma espécie de solo por cima delas. 

Então, elas criam solos para outras plantinhas que dele vão precisar. Nas suas folhagens, acumulam-se as águas das chuvas, em espirais internas que sua formatação produz. Essa água vai sendo liberada as poucos, irrigando toda uma vizinhança. Como uma esponja. E elas evitam que as águas sumam, ladeira abaixo. Então, esses "poços" permitem que pequenos animais matem sua sede, ou que no seu interior habitem rãs, lagartos, grilos, e insetos dos mais variados tipos, que são o início da cadeia alimentar de regiões tão inóspitas, possibilitando que outros animais deles sobrevivam. Suas folhas formam um a espécie de "tanque"com água que fecundam as sementes que nelas caem, possibilitando que uma vegetação desenvolva-se nas suas imediações. As bromélias resistem às situações mais adversas possíveis, principalmente as de solo rochoso e as de árvores. 

Viram o porquê deu gostar delas? Deixa eu dizer o que aprendi com elas, e para a vida.  

a. Podemos ser alimento para pessoas famintas. Não podemos fixar raízes na vida de uma forma egoísta e de personalidade acumuladora. Daquelas raízes que só se importam com elas mesmas. Podemos garantir nossa existência, com nossas raízes, mas podemos com elas abençoar muita gente. Ajudar, cooperar, fazer pagamentos justos de quem nos presta serviço, podemos adotar causas, pessoas, situações difíceis a que somos confrontados e que pedem a segurança de nossas raízes. Nossas raízes podem juntar coisas boas, como a poeira circulante que nas bromélias vira solo fértil. Solo fecundo e seguro que poderá ajudar emocionalmente muita gente. Ou seja, nossas raízes podem gerar condições de vida ao nosso redor, e não de morte, podem ensinar a cuidar um do outro. Fazendo isso, tu estás sendo as raízes das bromélias. 

b. Podemos ser água para pessoas sedentas. Liberar fonte de vida, nossa água, para pessoas e almas sedentas. Como as folhas das bromélias fazem para todo tipo de animal e sementes que dela precisam de um refrigério. Liberar perdão, liberar amor, liberar gentileza, liberar estímulos, reconhecimento, cuidado, admiração, liberar mansidão e generosidade.  Podemos tornar o ambiente mais fecundo para o nascer das sementes dos outros, ou para quem em nós procure matar sua sede emocional  Quando você anima uma pessoa, que está se sentindo frágil, desprotegido, inseguro quanto ao futuro, e tu o estimula a lançar sementes, perto de tuas folhas, tu está dizendo a essa pessoa que não vai deixar a esperança dele morrer, e que de ti sairão gotas de água que irrigarão as sementes; aquelas mesmas que ela achava que não mas iria lançar, por falta da água da esperança em dias melhores. Ou seja, as águas que se juntam nas folhas das bromélias ensinar a cuidar um do outro. Fazendo isso, tu estás sendo as folhas das bromélias. 

c. Podemos ser renovação, para pessoas estagnadas nelas mesmas. Criar ecossistemas; essa é a última característica das bromélias que acredito nos ensina muito. Elas deixam um legado melhor do terreno que acharam quando ali chegaram. Quantas famílias destruídas pelas mágoas? Quantos pais apreensivos pelo rumo que tomou algum dos filhos? Quantas pessoas destruídas emocionalmente, por não se recuperarem dos tombos que levaram? Quantas pessoas, perto delas, parece que a vida se foi. E aí, tu ou eu, bromélias que podemos ser,  e termos aprendido a não terceirizar nossa missão nesse mundo, chegamos perto delas e podemos fazer a diferença em suas vidas. Alterar esse ambiente de insalubridade emocional, só com nossa paz e tenacidade emocional. Uma única pessoa pode alterar um ecossistema emocional com sua presença ativa, diminuindo a incidência da chuva ácida emocional, dos dejetos afetivos, dos lixões fétidos comportamentais e de toda a toxidade de mágoas - daquelas colecionadas e criadas como animais de estimação.  Podemos restaurar ambientes, renovar esperanças e alimentar estimas nas pessoas.  Mesmo que seja difícil que não vejamos a mudança acontecendo, digo-lhe, continue! Não se altera um ecossistema emocional, não se "recoloniza um ambiente humano", daqueles bem degradados, de um dia para a noite. Mas, nossa presença pode ser como uma enzima, pode catalisar reações comportamentais e emocionais mais positivas nos lugares em que convivemos.  Perto de uma bromélia há vida. Perto de nós há vida? A vida consegue acontecer nos locais onde nossa presença habita o mundo?  

Salvem as Bromélias Humanas!

Um Portal do Bem-Estar Chamado Paul. (Ricardo de Faria Barros)


Adalfran tem um cavalo que se chama Paul.  Paul mora de aluguel, num rancho na área rural de
Sobradinho-DF, a 8 km de onde Fran trabalha e mora.
O pangaré custa por mês 1/4 do salário de Adalfran, recebido como zelador do prédio.
Todos os domingos ele visita Paul e ambos passeiam pelos prados, montanhas e até pelas áreas urbanas de Sobradinho-DF.
Quando Adalfran monta no seu Paul, ele deixa de ser um zelador-histórico, daqueles que viram patrimônio imaterial dos prédios em que trabalham, no caso dele, desde 1999. Ele vira um garboso cavaleiro, e segue valente desafiando o carrossel do destino de seu viver.
Quando ele fala do Paul seus olhos faíscam de felicidade, e sua expressão é de ternura.
Um dia vou dar uma volta no Paul, ele já me chamou, e não vou perder essa chance. Embora não saiba cavalgar.

Adalfran não tem vida mole. Ele é o único zelador de um prédio com 4 torres, de três andares, e 48 apartamentos. Ele trabalha muito, e está sempre de bom humor, uma de suas marcas Ele sempre tem uns segundos de atenção para cumprimentar quem por ele passa.
Seja com um bom dia caloroso, ou com alguma pergunta sobre algo da vida dos "seus" moradores.
Logo depois ele volta à vassoura, ao rodo, mangueira e tudo mais que usa no seu trabalho de varrer, limpar, recolher lixo indevidamente colocado e molhar as plantas.
Conheço ele desde dezembro de 1999, quando comprei o meu apartamento no Ed. Vitória, o 312, e ele sempre foi assim. Atencioso, cortês e uma profissional que exerce na prática a liderança servidora.

E ainda ajuda os moradores com dificuldade de locomoção a subirem com suas compras, ou harmoniza brigas dos mais intolerantes uns com os outros, por erros de estacionamento.
Sem falar que é uma mão na roda para guiar os visitantes perdidos, sem saberem qual a torre correta de seus amigos.

É meus amigos!, Adalfran é um daqueles profissionais que faz de seu trabalho serviço e que desaprendeu a resmungar e a passar o dia inteiro procurando razões para ser infeliz nele.
E isso torna-se perceptível na forma pela qual nos trata e na qualidade do trabalho que produz.
Adalfran é uma daquelas pessoas que ocupam o espaço com sua presença, e tornam melhor a vida de quem por elas passam.

Uma marca de sua presença é o assobio. Eu sei que ele está por perto pelo seu assobio. O assobio do Fran é uma de minhas companhias prediletas, quando tenho contrações literárias, ao parir meus textos, produzidos nos silêncios das manhãs como este que escrevo.

Ontem, quando fui deixar o lixo lá fora, deparei-me com ele limpando a sela de Paul. Uma sela toda estilosa que trouxera da Paraíba. Ele a limpava com tanto esmero, quase em estado de Flow(*), que nem me viu chegando perto.
E eu pude contemplar a cena de longe, degustando-a em sua completude e boniteza. Depois, dirigi-me à ele devagarinho, curtindo mais um pouco aquele momento de profunda entrega.
Ele alisava os pelos da sela, e com olhos de lince procurava sujeiras entranhadas na parte debaixo da sela, aquela que faz contato com o Paul. Como que não querendo que nada o machucasse, além do fato de morar num estábulo. Disso ele entende, de estar  como que preso num estábulo na vida, sem maiores oportunidades para a ascensão social.  Mas, nunca o vi reclamar de sua saga. Fran não é de reclamar das ondas da vida, ele aprendeu a surfá-las, com o melhor que tem e como pode.

Sempre que quero me sentir melhor pergunto ao Adalfran sobre o Paul. Aí, quando ele começa a falar de seu cavalo eu, por osmose, recebo uma lufada de emoções positivas. E, quando saio de sua presença, sinto-me de mente arejada novamente.
Paul é terapêutico. rsrs
Paul significa para Adalfran um portal por onde ele acessa o desejo.  Por ali, ele atravessa a si mesmo e transforma-se em nova criatura, agora não mais refém do personagem que vive, a maior parte do tempo, em sua sina tão pobre e dura.

Precisamos de nossos Pauls. Precisamos de portais de esperança. Precisamos ter um cantinho de visitar nossos desejos, para que periodicamente renovemos e restauremos a coragem, ou ousadia, de existir.  
Imagino a felicidade dele quando vai se aproximando a hora de encerrar o expediente no sábado e poderá ir ver o Paul.
Imagino as vezes em que ele teve que renunciar a outros gastos, para não faltar o pagamento das despesas do Paul.
Imagino eles conversando sobre a vida e o viver, quando ambos tomam o vento da liberdade nas suas faces de apenados do destino.
Imagino a expressão deles, a troca de carinho, de afetos mil, ao terem que se despedir, no final de um domingo de muita amorosidade.

Quem já se despediu de quem gosta, ou tem saudade de amor distante, sabe do que falo.

Paul é um Portal de Vida para Adalfran.  E na vida, precisamos de portais do tipo Paul.
Precisamos de portais que nos remetam a algo para desejar, algo para amar, algo para esperar, algo para cuidar e algo para admirar.  Aqueles que nos projetam para além de nossas vidas severinas.
Daqueles, que ao nele ingressarmos, ficamos reluzentes, transformados e novas criaturas somos.
Escuto o Adalfran assobiando novamente. O assobio dele é um de meus portais.
Acho que ele solfeja o tema de Cinema Paradiso, ou será que agora sou eu quem entra em Flow ao evocar a amorosidade que essa canção me remete?
=========
(*) FLOW - O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, em seu livro sobre o Flow, o define como:  “um estado mental onde o corpo e a mente fluem em perfeita harmonia, é um estado de excelência caracterizado por alta motivação, alta concentração, alta energia e alto desempenho, por isso também chamado de experiência máxima ou experiência ótima. As experiências de FLOW muitas vezes são lembradas como os momentos mais felizes da vida da pessoa, os momentos onde ela se sentiu no seu melhor. Geralmente a pessoa entra no Estado de Fluxo (Flow) quando ela está fazendo aquilo que ela mais gosta de fazer. Pessoas entram em fluxo dançando, cantando, correndo, praticando esportes, desenhando, pintando, escrevendo, meditando e até trabalhando. Naquele momento, você não pensa em mais nada, não pensa nos problemas que ocorreram antes, nem no que terá de fazer depois, fica inteiramente focado no presente – no aqui e no agora.

Cartas ao JG - O Presente do Naruto (Por Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 8 anos)

Aguardava tua saída do colégio, ruminando pequenos aborrecimentos. Acabara de ter uma discussão feia com o porteiro do teu colégio. Não gosto de sentir que perdi o controle emocional. Te esperando, ainda com raiva de minha atitude e da dele, fui espiar teu sanduíche que compro nos dias que tem o Kumon, após as aulas. E ele veio errado. Mais ruminação negativa. No mundo digital, eu ainda processava algumas chateações acontecidas pela manhã, coisas da vida virtual. Então, era uma espera num clima de baixa umidade emocional. Quase sufocante. E, vez por outra, meu homem ruim me dizia para eu ir lá fora, dar uns murros no porteiro, e depois corresse. rsrs.

Até que você apareceu segurando o boneco Naruto que recentemente te dei de presente. Estava todo feliz, até perceber que perdeu a cabeça do Naruto.  Logo saímos à caça da cabeça e achamos a mesma largada no chão. Você ficou tão feliz, como se o Naruto voltasse á vida.

O teu melhor amigo e o pai dele, o Pedro, passaram por nós quando nos dirigíamos ao estacionamento.

Aí, tu me contou que hoje era aniversário dele. E com olhinhos tão doces me perguntou se poderia dar o Naruto de presente ao Pedro.

Eu disse que sim.

Você correu e o presenteou.  Pedro ficou sem palavas, acho que ele desejava muto aquele boneco, e te abraçou.  Eu e o pai dele, nos cumprimentamos efusivamente, celebrando a grandeza de teu gesto.

Aí entramos em nosso carro e nos dirigimos para o Kumon.  No caminho, disse-lhe que teu gesto foi muito bonito, mas que não pode dar todos os presentes que recebe, pois eles carregam uma carga afetiva, e aquele tinha sido eu quem te deu.

Vocês escutou com atenção e perguntou o que é a "quequeca" que o Pedro tem na cabeça.

Eu não entendi a pergunta e pedi que explicasse como eram os sintomas. Aí você me contou que ele sente um pino entrando na cabeça, tem dor e que na hora que cantaram parabéns para ele ele chorou, pois estava doendo muito.   Ahh, enxaqueca. O Pedro tem enxaqueca, disse-lhe. E você perguntou-me se passa, se cura, disse-lhe que sim. Aí fez cara de aliviado.

Falei que o Naruto ia ajudar o Pedro a desviar o foco da dor de cabeça, ao abraçar o amor que nele estava contido, pelo altruísmo do gesto. Expliquei com outas palavras o termo altruísmo, de dificil compreensao.

"JG, altruísmo é quando você doa seu lanche, ao saber que um amiguinho está sem tomar café da manhã, pois a mãe dele foi hospitalizada pela madrugada e o pai esqueceu de colocar a lancheira na mochila, pelo nervoso da situação."

"JG, altruísmo é doar o Naruto querido, presenteado pelo pai, a um amiguinho dele desejante, que sofre com uma dor de cabeça inclemente."

 Sabe filho, esse teu gesto deverá continuar presente em teu viver.  Não esqueça de doar teus Narutos a quem deles mais precisar.  São apenas coisas materiais, mas o amor que irá neles, pode transformar vidas, de quem os receberá, de quem os doará.

Outro dia fui palestrar num evento de reflexão para a aposentadoria.  Vi uns livros num pacote, e associei que seriam usados na próxima palestra, que era a de um amigo meu, o Gustavo Boog.

Olhei a capa do livro e o tema era: É urgente ser feliz. Lembrei-me que na minha palestra tem um slide que divulgo boas obras para a fase da vida da pós-carreira. Então, peguei o celular, fiz uma foto do livro, enviei para meu gmail, baixei no computador, e a inseri na minha apresentação. Tudo aos 30min do meu início, coisa que não se deve fazer, até para não se perder a cocnentração. Mandei os riscos às favas. Comecei a palestra e vi que o Boog chegara, e sentara nos fundos da sala. Veio prestigiar-me, e fiquei feliz.

No meio da palestra, mostrei o slide com os livros que sugeria, inclusive o dele. E fiz o reconhecimento ao seu trabalho a terceira idade e sobre a envelhescência.

Voltando para Brasília, vi que o livro que fotografei não era do Boog, era do Beto, o palestrante do outro dia, a foto dele era muito parecida no livro.

Altruísmo foi o Boog perceber meu erro e não intervir.  Altruísmo foi a intenção de divulgar a obra de um amigo, num mercado editorial tão carente de público consumidor.

Então, amado filho, continue assim. Hoje você emocionou-me profundamente. Até em não responder ao meu discreto puxão de orelha, de doar tudo que tem de valioso, ao colocar o contexto da doação, o Pedro estava com "quequeca".

Nessa sociedade, dita pós-moderna, cultivar espaços de doação generosa de si mesmo ao outro, a uma causa ou à própria transformação interior, em busca de uma maior iluminação, é vital para a sobrevivência da coletividade.

Precisamos aprender a doar nossos melhores e mais raros Narutos.  Doar tempo, doar afeto, doar encotnros, doar perdão, doar abraços, doar recomeços.

Por falar em recomeço, quarta vou pedir desculpas ao porteiro. Estávamos, os dois, de cabeça quente. E não é fácil a lida dele, naquela área de alta segurança. Um pedido de perdão, de forma sincera, pode ser também um gesto altruísta.

Sei que muitos te dirão para deixar de ser besta, bonzinho, afetuoso e solidário. Digo-lhe, não os escute.

Siga pelo bom caminho, mesmo se todos ao teu lado embrutecerem o coração, continue manso e atencioso para com a vida. Não se perca de seus melhores valores.

Ao conservá-los, pelos menos eles não terão conseguido te mudar.  

Ser + gente na vida não é uma questão de só dar o que se recebe.  É uma escolha incondicional.

Sem colocá-la como barganha, como comércio, por mais justo que pareça ser.

Na tua juventude e vida adulta, e até velhice, guarde esse menino que doou o seu melhor boneco, aquele da hora, para um amigo que sofria de dor de cabeça no dia do aniversario dele.

Não mate essa criança em você. Será ela que em ti fará rebrotar a vida, após aperreios pelos quais passará.

Pois, quando nos doamos ao outro, nossa vida não tem como permanecer igual ao que era antes do gesto, ela torna-se melhor e mais feliz!

E quem presencia estes gestos também fica feliz, por osmose, e acaba se vai nele toda a baixa umidade emocional, como se o amor do gesto que ele testemunhou, o preenchesse por osmose e inteiro, eliminando dele toda raiz de amargura e secura de seu coração,  dando-lhe paz e renovada esperança de ser.

Ps. São 18h06min de 18/09/2017, o porteiro Adalfran toca a campainha e condia-me para descer, até o térreo no apartamento dele, para tomar chá, de capim santo e cidreira, e ainda convida-me para de lá ir caminhar com ele.  "Pois somos sobreviventes e temos que nos cuidar". Diz, referindo-se às complicações cardíacas pelas quais passamos. São ou não são gestos altruístas?  Disse-lhe que amanhã caminho, pois hoje escrevo para ti.

Não se preocupe, Tiago teu irmão já comprou o outro boneco no Naruto, ele me disse ontem. É aquele de nome esquisito que tu nos pediu no último sábado. E, caso cena semelhante aconteça, pode doá-lo também, caso teu coração fale mais alto.

Ps. 2. Como demorei a descer, ainda parindo esse texto, ele subiu e trouxe uma garrafinha de chá, a foto documenta esse instante. Percebe filho meu? A força de um coração que se doa?  Ele sobe escadas, se preciso for, só para ver o bem estar de quem receberá dele, mais do que um chá, ou um Naruto, o gesto de amor.   Sim, o chá estava ótimo.

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