A Perda dos Sentidos do Trabalho

Outro dia um colega me perguntou se eu já tinha passado por crises, ele me via sempre sorrindo. Comentei com ele que decidi alimentar meu monstro interior da esperança, e não o do pessimismo, mas ambos moram em mim.
Quem me ver assim sorrindo...
Já frequentei psiquiatra e não me envergonho. Há uns nos atrás tive uma infelicidade muito grande, com as coisas do trabalho. Sentia-me estranho, impotente frente a alguns acontecimentos que me aborreceram, angustiado com o volume de demandas e com a perda da qualidade nas entregas. Disseram os homens de preto da época, que nossa área tinha que aprender a simplificar o processo, "para acompanhar a velocidade e ditames do negócio". Eu queria produzir o melhor trabalho, e então fui ficando chateado em ver que nem sempre o povo queria o melhor, queriam algo entre o pior e o regular. Passei a ter fobia social, pânico de atender o telefone e medo de não dá conta, ao receber mais uma demanda atravessada. Tinha umas crises de choro, claro escondidas, e muita angustia apertando o coração. Lembro-me de um dia em que um alto executivo me "propôs" - visando aumentar a disseminação de um treinamento,  para que um de nossos cursos de três dias, fosse dado num ginásio de esportes, para umas 500 pessoas, estilo aula de cursinho, reduzindo sua jornada para 4 horas, ou no máximo, 8 horas. Consegui convencê-lo do absurdo, do ponto de vista de construção de conhecimento, mas aquilo era apenas a ponta do iceberg, mudaram as estações... e eu não me adaptara aos novos tempos. Aquilo tudo foi me matando. Lembro que procurei uma doutora psiquiatra. Aleguei para ela que estava triste com o trabalho, com o rumo que as coisas estavam tomando, com a perda de autonomia e com as ingerências de natureza não-técnica em nossa área, e até de uma certa politização e ideologização que não gostava. Trabalhava na área de pessoas do BB, e com educação corporativa.
Acho que entrei num dia errado na psiquiatra. Entrei com um problema, que mal a mulher me escutou, e sai com três: um com os filhos ("percebi um certo distanciamento emocional em relação aos seus filhos") e um com a esposa ("notei que desvia o tema quando me refiro a ela").
Me lasquei. Devia estar inscrito uma placa ali e não vi:

AQUI,  PROMOÇÃO PSIQUIÁTRICA.
SÓ HOJE, TRAGA UM PROBLEMA E SAIA COM TRÊS.

Ainda frequentei a doutora por seis meses, tomei uns tarjas-preta, mas me curei sozinho. Conversando com a esposa, e desabafando com amigos, ou sei lá, comigo mesmo.

Hoje sei que tive a Síndrome de Burnout, descrita por Freudenberger como " um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional".

Poucos profissionais estão capacitados para tratarem o Burnout.

Muito o confundem com stress ou uma inadequação ao trabalho. Ou, como no caso de minha doutora, não dão o devido valor ao que o paciente alega que acontece consigo, derivado do mundo do trabalho.

Ou ainda dizem, relaxe é só estresse.

E não é.

Burnout é como uma infecção emocional, provocada pelo vírus do desencantamento laboral. 

A melhor comparação que li sobre a diferença entre stress do trabalho e Burnout, é que o estresse é como um elástico puxado, quando some o fator estressante, seja uma campanha de vendas, seja uma mudança no processo de trabalho, o elástico volta a posição original. Hoje chamamos de resiliência. No Burnout ele volta, mais não para a posição original, vai perdendo-se pelo caminho e ficando esgarçado, rígido. Sem resiliência. Perde-se a capacidade de relaxar e sempre as coisas são vistas pela ótica do desânimo para com o futuro dos processos de trabalho.

Desde 2004 passei a estudar este tema e identifiquei-me inteiramente com seus sintomas. Naquele ano tive Burnout.
Segundo Drauzio Varella, ele "se manifesta especialmente em pessoas cuja profissão exige envolvimento interpessoal direto e intenso. Profissionais das áreas de educação, saúde, assistência social, serviço público, recursos humanos, agentes penitenciários, bombeiros, policiais e mulheres que enfrentam dupla jornada correm risco maior de desenvolver o transtorno." Há uma variedade enorme de sintomas, alguns mais comuns são: sensação de esgotamento físico e emocional que se reflete em atitudes negativas, como ausências no trabalho, agressividade, isolamento, mudanças bruscas de humor, irritabilidade, pessimismo e baixa autoestima. Os físicos são dor de cabeça, enxaqueca, cansaço, palpitação,  dores musculares, insônia e distúrbios gastrintestinais.

Aprendi que ele é a doença dos amantes do trabalho. Ele é a perda do encantamento, do enamoramento com o trabalho, quase um luto. Que acontece nos que adoram o trabalho, e querem sempre apresentar o melhor resultado. Naqueles que tem ritmo acelerado, que são produtivos e perfeccionistas, zelosos e detalhistas. Nos que gostam do cliente e querem que ele tenha acesso ao melhor atendimento; seja cliente interno seja externo. De quem se identifica, realiza-se, e quer apresentar sempre o melhor trabalho.
A doença "escolhe para suas vítimas prediletas" pessoas de alto nível profissional, que cobram muito de si, de natureza perfeccionistas, e até revelando uma certa inflexibilidade ou intransigência, por saberem - no fundo, de que a sua proposta é a melhor do ponto de vista técnico.

Burnout, portanto, é um estresse ocupacional que produz um estado de esgotamento emocional, relativamente perene.

A dedicação exagerada à atividade profissional é uma característica marcante de Burnout, mas não a única. O desejo de ser o melhor e sempre demonstrar alto grau de desempenho é outra fase importante da síndrome.

Aprendi a conviver com meu Burnout.

Mas acho que nunca me curei totalmente, aprendi a lidar com ele e a domá-lo.

O que aprendi, com o meu burnout?

Aprendi a senti-lo chegando. Tal qual os sintomas de uma infecção. E a combatê-lo desviando-me da razão da infelicidade, adaptando-me e sendo mais flexível. Assim evito a  burn=queima e out=exterior .

Aprendi que não devo me levar tão a sério, nem tampouco minha organização.  Que os fatos ruins passarão, e nós podemos ser "passarinhos".

Aprendi que 50% de minha qualidade no trabalho poderá ser a de que se precisa, para a urgência do momento.

Aprendi a relevar, a não ficar discutindo os detalhes dos detalhes dos detalhes, de um projeto de trabalho e a focar naquilo que realmente se tirar fará muita falta.

Aprendi a não me cobrar tanto, a ser menos impaciente comigo e com os outros.

Aprendi a botar minha carroças de melancias para caminhar, sem querer ajeitá-las todas na carga antes da saída, compreendendo que muitas delas só vão se ajeitar mesmo é no caminho.  E, algumas nunca se ajeitarão, faz parte do pacote.

Aprendi que não tenho controle sobre tudo, mesmo exaustivamente planejado.

Aprendi que o caos, a desordem, não necessariamente são ruins, podem ser criativos e podem criar um ambiente de melhor relacionamento interpessoal.

Aprendi que não estou num desfile de miss, de mais bonito funcionário.

Que não preciso provar que estou sempre certo, e que aceitar uma posição que entendo não ser a melhor, vinda de outra pessoa, pode ser a possível para que o projeto continue a andar.

Aprendi a buscar as convergências, as interações, as comuns visões. Hoje sofro bem menos. Faço o melhor possível dentro de uma realidade possível. Não me flagelo mais.

Aprendi a desenvolver a competência política de enxergar as situações para além de uma avaliação técnico-cartesiana e racional, compreendendo as subjetividades dos ditos, não-ditos, mal-ditos escondidos nos subterrâneos e porões das organizações.

Burnout é uma doença séria. Tarja preta não te curará enquanto você continuar a confrontar seu sonho de agir laboral com o pesadelo das condições que lhes são oferecidas para esta ação. Dê um desconto. Amanhã o sol continuará a nascer. A lua daqui a pouco volta a ser cheia. Seu chefe nem se lembrará de que te pediu um trabalho, para o qual em sua análise faltava muita coisa para ser entregue.

As muitas coisas que tu acha que faltarão no teu trabalho, para ele ser perfeito e te causar satisfação, podem ser adereços, decorações, o que ele queria mesmo tu já entregou, então não se vitimize. As coisas são como são. E não será teu infeliz manifesto que irá mudá-la.

Adapte-se a um novo contexto no qual inserido. Você não resolverá o problema da saúde pública sozinho, da educação, etc. E da qualidade do atendimento que seu cliente merece. Reduza o ritmo para consigo mesmo. Não deixe que a amante-trabalho leve seu prazer de viver só por que ela anda traindo seu mundo de valores.

E, caso não esteja dando conta, procure ajuda médica especializada.

Só tenha cuidado para não ser um dia de promoção.

4 comentários:

  1. muuuito bom texto. Estes seus aprendizados tb servem pra outros setores da vida...Grata por compartilhar!!!

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  2. Adoro textos com esse nível de detalhamento, faz a gente sentir cada momento vivenciado por ti! Parabéns!!

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