Domingo de Carnaval com Gosto de Chá de Galinha

 


Têm domingos que a vida resolve te presentear. Não com fogos de artifício nem com grandes epifania;  mas com pastel de vento, ipê amarelo e uma história de galinhas que faz chorar de ternura.

Comecei o dia com uma frustração digna de nota: a barraca do bode com inhame tinha ido para a praia. Carnaval é carnaval, e até o bode merece férias. Fiquei ali, babando em frente ao portão fechado, como alguém que chega na festa e descobre que a festa foi embora. Mas a vida tem esses desvios que, às vezes, são mais ricos que o destino original.

Foi o desvio que me levou ao Seu Nino.

Seis garrafinhas pet multicoloridas na frente de uma pastelaria não são exatamente um convite sofisticado. Mas algo me disse: entra. E entrei. O suco de manga já foi uma declaração de amor. Mas o pastel — meu Deus, o pastel. Daqueles que se come a massa inteira sem precisar de recheio, porque a massa já é o milagre. O famoso pastel de vento, que não precisa de nada por dentro porque por fora já é completo. Como certas pessoas.

Seu Nino faz a própria massa. Não economiza em manteiga. Abre ali, na frente dos clientes, como quem não tem segredo a esconder — só amor a mostrar. Aprendeu com a mãe, que também tem ponto na Feira da Prata. E tem mais oito parentes com seus pontos espalhados por aquele território de cheiros e histórias. Uma família que fincou raízes num lugar e dele fez reino. Há quanto tempo o Brasil é feito dessa gente que a gente não vê nas manchetes?

Levei um pastel de queijo do coalho pra mamãe. Ela adorou. Claro que adorou.

Depois me lancei em direção a Puxinanã, porque sempre amei esse nome. Tem cidades que parecem ter sido batizadas por poetas em dia de inspiração. O caminho foi presente: ipês amarelos florescendo às beiradas da estrada como se a natureza tivesse decidido decorar o salão antes dos convidados chegarem. O clima meio chuvoso, daquele jeito que só quem nasceu no Nordeste sabe apreciar como bênção — como água no deserto, como notícia boa, como cheiro de terra molhada que a infância guarda dentro da gente.

Voltei. Ajeitei o almoço de mamãe. E me dirigi ao Ô Bar da Fava, a menos de dois quilômetros de casa, para comer uma faça com bode — porque domingo sem bode, no meu vocabulário afetivo, é texto sem ponto final.

Enquanto esperava o arroz de leite com bode, o Instagram me trouxe uma história que aqueceu a alma inteira.

Uma senhora de Hidrolândia, em Goiás, perdeu mais de quarenta galinhas na véspera de Ano Novo. Morreram de infarto — literalmente — perseguidas por cães. Não eram só galinhas. Eram galinhas com nome. Daquelas que a gente cria e que viram família sem cerimônia, sem contrato, sem que ninguém perceba a hora exata em que o bicho deixou de ser animal e virou afeto com penas.

Ela ficou inconsolável. Como se perde alguém.

Os amigos souberam. E, sem ela saber, organizaram um Chá de Galinhas.

No último final de semana, mais de quinze carros foram estacionando na frente da casa dela. Cada pessoa desceu carregando pelo menos um galináceo vivo — galos, galinhas, patos, assemelhados — todos com vida, todos com destino certo. Ela olhou pela janela e achou que alguém tinha morrido. Porque quando muita gente chega ao mesmo tempo, a primeira hipótese do coração é a má notícia.

Mas era o contrário. Era a vida chegando de braços abertos e de galo na mão.

Ela não se conteve. Chorou. Não acreditava.

Fiquei ali, comendo minha faça, olhando para a tela do celular com os olhos marejados, e pensei: quanta gente boa existe nesse mundo que a gente não vê.

Quem organizou o Chá de Galinhas. Quem doou. Quem foi levar. Quem abriu o galinheiro de casa e disse leva, ela precisa mais. Uma corrente de solidariedade que não dá ibope, não vira manchete, não tem hashtag viral — mas que recompõe o que foi perdido e ainda acrescenta juros de humanidade.

Sei que muita gente anda desencantada. E entendo. O noticiário às vezes parece uma curadoria do pior de nós. Mas o pior de nós não é a totalidade de nós.

Ainda existe o Seu Nino que não economiza em manteiga e ensina o filho com a mesma mão que aprendeu da mãe. Ainda existe o ipê amarelo que floresce sem pedir permissão na beira da estrada de Puxinanã. Ainda existe o cheiro de chuva no Nordeste como benção antiga. Ainda existe a senhora de Hidrolândia que chora de alegria abraçada a uma galinha desconhecida que virou símbolo de que não estava sozinha.

E ainda existe domingo de carnaval em que a barraca do bode fecha, e a vida te desvia para um pastel de vento que dissolve na boca — e te lembra que os melhores momentos quase sempre chegam pelo atalho que a gente não planejou.

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