Tem um lugar, na casa de meus pais, em Campina Grande-PB, que guarda memórias ensolaradas, reveladas sob as generosas sombras das bouganvílles. A gente chamava aquele canto de Diretoria. Eu, meu pai e meu tio. Era sob as bouganvílles, que no Brasil não sabem ser discretas, que a gente resolvia o mundo, ou fingia que resolvia. Tinha petisco, tinha copo, tinha música baixa e história alta. Tinha riso que começa no peito e termina nos olhos.
A Diretoria não tinha pauta. Tinha presença.
Meu pai partiu em 2022. Meu tio ficou, mas a coluna não deixa mais ele chegar até aqui com a mesma leveza de antes. Vim de Brasília passar dez dias com minha mãe, dona Denise, 87 anos, que se recupera de uma cirurgia com a delicadeza e a teimosia que só as matriarcas sabem ter. Tinha acabado de voltar da Feira da Prata, onde comprei seriguelas pra ela. E me sentei aqui, nessa cadeira, tomando um café que esfriou devagar, segurando uma fruta na mão como quem segura um pensamento que ainda não virou palavra.
A casa estava silenciosa. Mas a Diretoria ainda existe enquanto eu sentar aqui.
A vida toda somos tomados de barulhos. O barulho do trabalho, o dos filhos pequenos, o dos amores que chegam anunciando festa. A gente aprende a existir no meio do ruído, a se orientar por ele, a confundir movimento com direção.
Passei a vida como Tarzan. De cipó em cipó, de amor em amor, de projeto em projeto, de cidade em cidade. No ar, a gente se sente livre, se sente vivo. O vento no rosto convence que está indo pra algum lugar. E enquanto tem o próximo cipó à vista, não tem medo.
Mas o Tarzan nunca aprende o cheiro da terra.
Quando os barulhos silenciam, o do trabalho que diminuiu, o dos filhos que cresceram, o dos amores que partiram, resta ouvir os sons do próprio ser. Sons antes abafados para acolher tantos outros. E é exatamente isso que esse cantinho oferece: a possibilidade de entrar no deserto.
O deserto assusta. Mas é o lugar dos cinco Rs: redenção, remição, restauração, ressignificação e reinvenção. Sempre foi assim, desde os profetas que precisavam do silêncio árido para ouvir o que importava.
As bouganvílles continuam escandalosas e belas, como se não soubessem de nada. E lá em cima, num galho que vira ninho, duas rolinhas constroem juntas o lugar onde vão colocar vida no mundo.
Fiquei olhando pra elas mais tempo do que devia.
E o café esfriou de vez.
Foi quando mamãe me chamou da cozinha.
Voltei dos meus pensamentos devagar, como quem sobe à superfície depois de um mergulho fundo. Ela queria me dizer uma coisa urgente e importante: que amava seriguela. Que iria comer sozinha o saco inteiro que eu tinha comprado. Peralta e faceira, com seus 87 anos e sua cirurgia ainda fresca, ela estava ali em seu melhor momento, plena, cobiçando as seriguelas com a alegria desavergonhada de uma criança que ganhou o que queria e não vai dividir com ninguém.
Eu sorri.
E percebi que o deserto tinha, ali, uma fruta doce no meio.
É carnaval lá fora. O mundo está em bloco.
Eu estou no bloco do eu e eu. Apenas.
Não é solidão, ou não é só isso. É o forasteiro que voltou à própria cidade e não se reconhece mais nela, nem ela nele, desde que partiu em 1999. É o homem que saiu dos galhos, do voo de amor em amor, de compromisso em compromisso, de barulho em barulho, e descobriu que o infinito não estava lá em cima, estava aqui embaixo, no chão firme, na terra que guarda raiz.
E hoje, nessa cadeira que meu pai também sentou, eu não quero mais tanto cipó. Quero botar o meu bloco na rua. Carregar sozinho o meu estandarte. Me levar pra ver a vida. Acompanhar na pipoca a multidão em seus abadás, com a leveza de quem encontrou, no meio do deserto, a melhor versão de si mesmo.
Não o herói. O esboço.
E o esboço, às vezes, é o mais honesto que a gente já foi.

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