Sim, antes que me esqueça, ainda estou vivo! (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Era uma tarde de terça feira e a paciente, vamos chamá-la de Clarice, sentou-se  na ponta da poltrona, quase pedindo desculpas por ocupar espaço físico no mundo. Ela ajeitou a saia e disse, com a voz embargada de quem engoliu muitas palavras não ditas durante anos, Doutor Ricardo, eu sinto que me tornei um móvel da casa. Sabe aquele aparador no corredor que todo mundo usa para jogar as chaves, mas ninguém nunca repara se está empoeirado ou se a madeira está lascada? Sou eu. Falo, bom dia, e o som bate nas paredes e volta. Tenho a impressão de que se eu desaparecesse hoje, só notariam quando faltasse o café na garrafa térmica. Eu existo, mas não vivo nos olhos dos outros.

Enquanto meu café esfria na xícara de porcelana, criando aquela película fina e triste na superfície, olho pela janela e penso na humanidade que corre lá fora. Estamos em 21 de janeiro de 2026 e a ironia bate à minha porta com a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Li hoje, num jornal digital, sobre a mais nova invenção para a nossa sociedade adoecida, um aplicativo que verifica se você ainda está respirando. É isso mesmo. A tecnologia agora serve de babá para a nossa solidão. Você instala, cadastra uns contatos e, todo dia, o software pergunta, E aí, tá vivo? Se você não responder em 48 horas, ele dispara o alarme para a família. Criamos um sistema automatizado para terceirizar a preocupação, um algoritmo que substitui o abraço, o telefonema, o cheiro de gente.

Essa notícia caiu no meu colo como um tijolo, justamente quando eu refletia sobre a invisibilidade que a Clarice descreveu. A vida moderna virou um grande saguão de aeroporto lotado onde ninguém se olha, cada um arrastando sua mala de ansiedades, com os olhos vidrados em telas luminosas, tropeçando na própria humanidade sem pedir licença. E é curioso notar como essa indiferença pode ser fatal, não apenas metaforicamente, mas literalmente.

Lembro-me de uma crônica antiga, que ecoa perfeitamente neste cenário gélido de 2026. Havia um encarregado de câmara fria, um homem simples, cuja jornada era marcada pelo frio industrial e pela repetição. Mas ele tinha um ritual sagrado, quase litúrgico. Ao final de cada turno, passava pela guarita e distribuía sua colcha de afetos em forma de palavras. Boa noite, fiquem na paz, bom plantão, dizia ele aos vigilantes. Era o único momento do dia em que ele deixava de ser uma função e voltava a ser um homem. Certa vez, o destino, esse roteirista que adora pregar peças, fez com que ele ficasse trancado acidentalmente dentro da câmara fria. O ar faltava, o frio queimava, e a hipotermia batia o ponto. Ele seria apenas mais um dado estatístico de acidente de trabalho se não fosse por um detalhe, o silêncio. Os vigilantes sentiram falta daquele boa noite. A ausência da gentileza foi o alarme. Eles não precisaram de um aplicativo de 2026 para notar que alguém faltava. A humanidade daquele homem o salvou porque ele se fez visível através do afeto.

Hoje, contudo, vivemos o inverso. Estamos trancados em nossas câmaras frias particulares, apartamentos de luxo ou quartos apertados, congelando emocionalmente enquanto o mundo lá fora ferve. Filhos não mandam mensagens para os pais porque estão ocupados demais protagonizando suas próprias vidas severinas, correndo atrás de ventos. Nos grupos de família ou amigos, lançamos uma mensagem como quem joga uma moeda num poço sem fundo. O vácuo. O silêncio absoluto. Nem um emoji, nem uma reação. A sensação é de que somos fantasmas gritando em uma sala à prova de som. A nossa esperança de conexão fica pendurada num varal de sentimentos que ninguém recolhe antes da chuva.

Eu mesmo, Ricardo, peregrina alma neste mundo estranho, sinto na pele essa invisibilidade. Há dois meses frequento uma igreja, sentando me religiosamente no segundo banco da frente, perto do altar, buscando o sagrado. E, no entanto, sou um forasteiro invisível. Nunca fui saudado. Os frequentadores antigos, que certamente notaram a presença deste corpo estranho, passam por mim como se eu fosse feito de vidro. Que planeta é este que estamos criando? Um lugar onde vizinhos dividem a parede, mas não dividem um bom dia? Onde precisamos de um aplicativo para garantir que não apodreceremos sozinhos em casa?

 


Precisamos ser subversivos. A verdadeira revolução hoje não é tecnológica, é humana. É preciso romper com esse narcisismo que nos coloca como o centro do universo e nos cega para o outro. A morte social não é apenas daquele que morre sozinho e é descoberto pelo cheiro dias depois. A morte social acontece agora, quando você lê isso e não se lembra da última vez que olhou nos olhos do porteiro, do colega de trabalho, ou da sua mãe. Precisamos sair das tocas, precisamos do oxigênio de pele humana, precisamos de rostos reais e não de interfaces digitais. Porque chegará o tempo, e talvez já tenha chegado, em que estaremos cercados por uma multidão e nos sentiremos os seres mais solitários da galáxia.

Enquanto escrevo, sinto uma pontada de angústia, mas também um chamado à responsabilidade. A Logoterapia nos ensina que o sentido da vida é encontrado no mundo, não dentro da nossa própria psique fechada. Ao nos tornarmos invisíveis para os outros, também perdemos a capacidade de ver o sentido da nossa própria existência. O homem da câmara fria sobreviveu porque transcendeu a si mesmo através de um simples cumprimento diário. Ele criou um laço. O aplicativo de estou vivo é a prova cabal de que falhamos como comunidade. Se precisamos de um software para lembrar que alguém existe, é porque já matamos essa pessoa socialmente muito antes do coração dela parar de bater. A cura para essa invisibilidade não está em mais notificações no celular, mas na coragem de ser inconvenientemente humano, de furar a bolha da indiferença com a agulha da presença.

O que aprendi. Primeiro, não baixe o aplicativo. Recuse se a ser monitorado por máquinas e comece a ser monitorado pelo afeto. Segundo, torne se um fiscal da vida alheia, mas no bom sentido. Envie hoje, agora, uma mensagem sem motivo para três pessoas que você não contata há tempos. Não pergunte se precisam de algo, apenas diga, lembrei de você e quis saber como está o seu mundo. Terceiro, pratique a cerimônia do porteiro. Cumprimente olhando nos olhos, pare por dez segundos, pergunte o nome se não souber. Quarto, no seu grupo de família ou amigos, seja aquele que responde, aquele que reage, aquele que valida a existência do outro. Não deixe ninguém no vácuo. E, por fim, se você frequenta uma igreja, um clube ou uma praça, procure o forasteiro. Aquele que se senta sozinho no segundo banco. Um simples olá pode ser a chave que abre a câmara fria onde ele está trancado.

 Veja a notícia aqui:

https://www.uol.com.br/universa/colunas/futuro-presente/2026/01/21/voce-ja-morreu-app-responde-e-prova-que-epidemia-de-solidao-virou-mercado.htm

Ricardo de Faria Barros, psicólogo da longevidade.

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