A Geometria do Vento e o Banquinho da Alma (Ricardo de Faria Barros, Psicólogo)



Era dois de janeiro de dois mil e vinte e seis. Eu estava na orla do Bessa, com a alma lavada de sal e as mãos entregues à arquitetura efêmera de uma piscina de areia para os pequenos. Enquanto levantava muros frágeis contra o avanço inevitável do mar, pensei que viver talvez seja exatamente isso: construir com cuidado absoluto, sabendo que tudo é provisório.


Meus olhos, por vezes exaustos da repetição de corpos em exibição e das queixas automáticas de uma humanidade que parece ter desaprendido o encanto, pousaram em uma cena que não pedia legenda, nem aplausos. Pedia apenas presença.


Se eu pudesse emoldurá-la, diria que o azul do céu de João Pessoa dialogava com uma sequência de guarda-sóis vermelhos ao fundo — como flores estendidas ao calor do verão. No centro dessa aquarela viva, um rapaz de camisa azul, da cor do mar profundo, estava ajoelhado. Não em oração, mas em ação inteira. A areia molhada devolvia sua imagem num reflexo límpido, como se o céu e o chão tivessem selado um acordo de silêncio.


O detalhe que costuma provocar o desvio do olhar ou aquela piedade ruidosa — que mais isola do que acolhe — era uma ausência. Faltava-lhe uma perna. Mas a vida, essa peregrina experiente, não trabalha com faltas; ela trabalha com rearranjos. Ele utilizava uma muleta adaptada e, para encontrar o eixo do mundo, apoiava o joelho em um banquinho simples de plástico. Sem drama. Sem heroísmo de vitrine. Apenas o recurso honesto para sustentar o seu estar no mundo.


Ali, naquele banquinho, residia uma lição silenciosa. Ele não desperdiçava energia combatendo o que era imutável. Usava o que tinha para dar suporte ao que lhe fazia sentido: ele empinava uma pipa. O pescoço inclinado para o alto, os olhos bebendo o azul, o corpo inteiro em conversa com o invisível. Não havia pressa, nem comparação, nem a tirania do desempenho. Havia entrega — daquelas em que o tempo afrouxa o nó e a vida passa a caber, inteira, dentro de um instante.


Ao lado dele, uma moça permanecia de pé. Não como cuidadora, nem como plateia vigilante. Ela estava ali como quem entende que presença não é controle, é confiança. Eles não estavam ali para "dar o exemplo". Estavam apenas se dando à vida. Ele oferecia sua disposição de brincar apesar dos limites; ela oferecia sua escolha de estar próxima sem invadir. Um oferecendo o corpo possível, o outro oferecendo o olhar atento.


Ela não o segurava, pois ele não precisava ser segurado. Mas também não se afastava. Seu sorriso não carregava pena, nem o orgulho de quem "suporta" uma carga. Era reconhecimento. E reconhecer o outro na sua integridade é uma das formas mais elevadas de amar. Amar, ali, não era consertar nada; era acompanhar o voo alheio, aceitando que, às vezes, é preciso sentar para tocar as nuvens.


Fiquei imaginando a cartografia dessa jornada. Quantas manhãs foram necessárias para que ele confiasse naquele banquinho? Quantas frustrações precisaram ser atravessadas até que o ato de sentar deixasse de ser derrota para virar estratégia? E quantas vezes ela conteve o impulso de "fazer por ele", aprendendo que o excesso de ajuda pode ser uma forma sutil de roubar a autonomia?


Pensei em meus pacientes. Em tantos que possuem o corpo intacto, mas a alma claudicante. Pensei em nós, essa humanidade ansiosa e barulhenta, econômica nos afetos e perdulária nas mágoas. Gente que corre maratonas sem sair do lugar, enquanto aquele rapaz, sentado, alcançava o horizonte.


Reparei, então, num detalhe final. Ao fundo, uma criança corria em direção ao mar. Corria com as duas pernas livres, rápidas, como quem ainda não conhece o medo. Naquele instante, algo se encaixou em mim: nem o jovem, nem a criança eram definidos pelo que tinham ou pelo que lhes faltava. Ambos eram definidos pelo mesmo verbo: Viver.


O banquinho foi a maior aula de psicologia que recebi naquele verão. Ele ensinava que o bem-estar não nasce da ausência de dificuldades, mas da capacidade de reorganizar os recursos internos. Que a resiliência não é endurecer, mas adaptar-se sem perder a ternura. A deficiência mais perigosa não era a física, mas a incapacidade de se encantar com o comum.


Aquele jovem não fez da sua dor uma identidade. Ele fez da limitação um pedestal. E ela, ao lado, não tentou clarear o céu por ele; apenas compartilhou a paisagem.


Obrigado, jovens desconhecidos. Vocês não quiseram aparecer, e exatamente por isso, permanecerão. A vida, às vezes, precisa sentar-se num banquinho para nos lembrar que o céu continua sendo um horizonte possível e que o verdadeiro voo acontece quando alguém nos olha sem pressa, sabendo que viver é uma construção, não uma competição.


Ricardo de Faria Barros Psicólogo e observador de vidas que ainda sabem se encantar.

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