A janela do senhor Valdecir


Fui tomar um café com o senhor Valdecir (84) num domingo desses, logo depois de passar pela feira de São Sebastião, aqui no Distrito Federal. Cheguei à casa dele e encontrei um cenário curioso: a casa estava em estado de festa.

Não havia bolo, nem velas, nem data comemorativa. A celebração era outra. Era uma festa de marreta, talhadeira, poeira e esperança. O barulho seco do ferro contra a parede ecoava pela rua, misturado às conversas, aos palpites, ao entra e sai dos filhos, ao alvoroço bom de quando uma casa volta a respirar.

O filho, Welington, havia chamado um amigo de longa data para ajudar na obra. Um daqueles homens que dividem a vida entre o altar e a massa corrida, entre a palavra de Deus e o ofício de pedreiro. E os dois tinham uma missão muito especial naquela tarde: abrir um buraco no muro da frente da casa — aquele que olha direto para a calçada e para a rua.

O motivo era simples, mas vital.

O senhor Valdecir precisava voltar a ver a rua.


Tudo começou por causa de um acidente doméstico. Durante muitos anos, a casa teve um portão vazado, daqueles de grade antiga, por onde se podia acompanhar o movimento da calçada — os vizinhos indo e vindo, o menino da bicicleta, a mulher que passa com sacola de feira, o cachorro que escolhe sempre a mesma sombra.

O mundo em sua miudeza sagrada.

Só que o portão já estava velho, enferrujado, pesado demais para os trilhos cansados. E, num dia infeliz, a gravidade cobrou sua conta da pior forma: o portão caiu inteiro por cima do senhor Valdecir.

Isso foi há uns quatro meses.

Aos 84 anos, ele sofreu uma fratura na bacia. Vieram então os dias duros de internação, as dores agudas, a cama, a limitação dos movimentos. A paciência posta à prova. O corpo pedindo tempo. A alma pedindo coragem.

Para evitar que o acidente se repetisse, os cinco filhos que moram ali pela região — Edite, Edvânia, Welington, Maria de Lourdes e Edson — se organizaram numa dessas forças-tarefa familiares que ainda salvam o mundo em silêncio. Fizeram uma vaquinha, juntaram as economias e encomendaram um portão novo.

Moderno, de metalon, leve para correr no trilho e extremamente seguro.

Resolveram o problema da segurança.

Mas, como tantas vezes acontece na vida, ao resolver uma coisa, criaram outra sem perceber.

A chapa lisa do portão fechou tudo. Do chão ao teto. E, de repente, o senhor Valdecir ficou sem vista. Sumiu a rua. Sumiu o céu entre os postes. Sumiu o entra e sai dos carros. Sumiu o vaivém da vizinhança.

Sumiu aquele cinema cotidiano que alimenta tanta gente.


Ele tinha o hábito quase sagrado de puxar uma cadeira para a parte da frente da casa nas tardes quentes e ficar ali, de frente para o muro, olhando o bairro respirar pelos vãos do portão antigo. Não era curiosidade vazia. Era vínculo. Era pertencimento.

Mas era também outra coisa, que a gente só percebe quando para e pensa bem.

Pelos vãos daquele portão de grade, as pessoas que passavam na calçada também o viam. Viam o senhor Valdecir sentado ali, naquele seu lugar de sempre, do lado de dentro do lote. E paravam um instante, acenavam, sorriam.

Bom dia, seu Valdecir.

Boa tarde, seu Valdecir.

E ele respondia. Com a mão levantada, com a voz, com o sorriso de quem é esperado no próprio território.

Parece pouca coisa. Mas não é.

P


ara quem vive a longevidade em solidão — e são muitos, muito mais do que a gente imagina —, essa saudação simples de um vizinho que passa na calçada, de um rosto conhecido do bairro, é uma das formas mais concretas de pertencimento que existem. É o mundo dizendo: eu te vejo. Você está aqui. Você conta.

O portão novo de metalon resolveu o problema da segurança. Mas calou essa conversa silenciosa entre o senhor Valdecir e a rua. Fechou não apenas a vista — fechou o reconhecimento.

E aí a gente entende que a janela não é só para quem olha para fora.

É também para quem precisa ser visto de dentro.


Incomodado com aquilo, sugeriu chamar o serralheiro para abrir um vão na chapa nova. O profissional não gostou da ideia — disse que danificaria o trabalho inteiro e ficaria feio.

Então fizeram o que tantas famílias brasileiras fazem diante dos impasses: olharam para o lado e inventaram uma solução.

Se o portão não podia ser aberto, o muro podia.


E lá estavam Welington e o amigo, golpeando a alvenaria do muro da frente com talhadeira e marreta. A cada pedaço de reboco que caía no chão formando uma pequena pilha de entulho, aumentava no rosto do senhor Valdecir uma alegria quase infantil.

Ele parecia uma criança esperando o sorvete.

O vão foi surgindo aos poucos. Primeiro uma fresta de claridade. Depois um retângulo torto. Depois um pedaço nítido de mundo.

Quando a poeira começou a baixar, a cena apareceu como revelação: Welington surgiu na abertura recém-feita do muro, apoiando os braços na borda ainda áspera de cimento, com o rosto voltado para dentro, para o senhor Valdecir. O rosto e a barba estavam salpicados de poeira branca, mas o sorriso era largo — desses que misturam cansaço com satisfação, trabalho com amor.

Atrás dele, emoldurados pela abertura, apareciam o céu azul, o teto de um carro vermelho estacionado na rua e o verde meio rebelde do mato do outro lado da calçada.

O bairro voltava a existir.

O senhor Valdecir olhou para aquele retângulo de mundo como quem recebe de volta uma parte de si. E disse, com um alívio quase solene, que agora poderia sentar perto da porta aberta e ficar apenas vendo a vida passar pelo vão novo do muro. Os carros cruzando. As árvores balançando. As pessoas com seus mistérios portáteis.

E, quem sabe, voltar a ouvir:

Boa tarde, seu Valdecir.


Aquela satisfação miúda dele me fez pensar com mais calma no peso real das coisas que a gente banaliza na correria diária.

Nós precisamos de janelas.

Quem inventou a janela conhecia profundamente a natureza humana. Antes dela, a lógica era a da caverna — do fechamento total, da parede sólida erguida contra o frio, as feras e, principalmente, a violência dos próprios seres humanos.

Abrir um buraco intencional na parede foi um gesto de coragem civilizatória.

Foi aceitar trocar uma parte da segurança pela possibilidade de contato com o mundo.

Janela é isso: uma ponte entre o dentro e o fora. Uma negociação silenciosa entre proteção e presença.

Talvez por isso as janelas fiquem ainda mais bonitas quando têm jardineiras de flores. Pequenas caixas apoiadas no peitoril, com gerânios, onze-horas, avencas — cores que se derramam para dentro e para fora ao mesmo tempo. Uma janela com flores parece dizer ao mundo: aqui dentro mora alguém que ainda cultiva beleza.


Você chega a um quarto de hotel que nunca viu antes. Ainda nem abriu a mala. Mas quase automaticamente caminha até a janela, afasta a cortina, abre o vidro e olha para fora.

Quer saber o que existe ali.

Quer ver a rua, a paisagem, o movimento das pessoas.

Algo em nós pede essa abertura desde sempre. Porque o ser humano não nasceu para viver apenas entre paredes. Nasceu para ter frestas de mundo — e, sem elas, por mais segura que seja a casa, algo começa a minguar por dentro.

O senhor Valdecir sabia disso com o corpo todo.


Por isso, quando falo em longevidade que vale a pena, não falo apenas de anos acumulados. Falo de janelas mantidas abertas. Falo da capacidade de ainda se espantar com o verde rebelde do mato, com o teto vermelho de um carro desconhecido, com o sorriso empoeirado do filho que abriu um buraco no muro só para que o pai voltasse a ver o céu.

E voltasse a ser saudado.

Envelhecer bem é, entre outras coisas, resistir ao fechamento. É não deixar que o medo — da queda, da dor, da perda — tape os vãos por onde a vida entra. É ter a sabedoria de pedir a marreta quando necessário.


Cultivar uma janela dentro de si é algo quase mágico. É permitir que a realidade entre sem os filtros do medo ou do endurecimento. É deixar que a vida atravesse nossa experiência com curiosidade, com presença, com espanto.

Uma pessoa que mantém uma janela interior continua capaz de perceber o milagre cotidiano das coisas simples: o vento que passa, o riso de alguém na rua, a árvore que balança, o cheiro do café, a cor do céu mudando no fim da tarde.

Por isso, abra as janelas do seu viver.

Deixe entrar a brisa e a luz.

Deixe que esse descortinar de infinitos te cure, te abrace, te ilumine e te acolha.

Porque a vida, quando encontra uma janela aberta, costuma entrar devagarinho; trazendo junto o vento, a esperança e a silenciosa beleza do agora.


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