Hoje ganhei um presente raro numa cidade grande: silêncio.
Da janela do meu quarto observo o parquinho do prédio. Aquele chão de areia e brinquedos de ferro foi adotado por uma creche da vizinhança. Lá embaixo a infância acontece em correrias, gritinhos e risadas soltas. Mas o que mais me chama atenção nem são as crianças.
É o silêncio.
Quem vive em quadra residencial sabe como isso é raro. Sempre fica alguém em casa. E quem fica pode ligar rádio, televisão, arrastar móveis, usar furadeira, deixar o cachorro latir ou simplesmente permitir que a vida escorra em ruídos.
Mas hoje não.
Hoje fui presenteado com um oceano de sem som.
Um silêncio tão generoso que eu conseguia escutar o rangido das correntes do balanço. Os risos das crianças não rasgavam a tarde. Apenas boiavam sobre ela. Até as folhas da palmeira pareciam farfalhar mais baixo, como se também soubessem que havia ali uma delicadeza acontecendo.
A professora lá embaixo fazia um revezamento com os três balanços, garantindo a cada criança sua vez de tocar o infinito com os pés. Depois vieram as trocas, tão próprias da infância e também da vida.
O balanço foi deixado pelo escorrego.
O escorrego, pelos docinhos.
Os docinhos, pela ameaça de chuva.
E a própria ameaça de chuva acabou abandonada por um vento de sol radiante, um “SolRiso”, desses que empurram nuvens carregadas para outro rumo.
Fiquei apoiado no batente da janela apenas olhando.
E pensando.
Quem serão aquelas crianças quando chegarem aos sessenta e um anos, idade que tenho hoje? Quantos boletos pagarão, quantos projetos tentarão realizar, quantos amores vão amorar, quantas dores também vão dorar?
Talvez uma das lições mais bonitas daquela tarde tenha sido essa.
Quase nada permanece muito tempo no centro do nosso desejo.
O balanço cede lugar ao escorrego.
O escorrego cede lugar aos docinhos.
Os docinhos cedem lugar ao susto da chuva.
A chuva cede lugar ao sol.
E assim a vida segue, numa coreografia silenciosa de substituições.
Quando fui fechar a janela vi a placa que ganhei do meu irmão. Nela está escrito: “Meu fi, meu fi, um dia a tapioca vira”.
E vira.
Talvez amadurecer seja aprender a observar melhor as cotidianidades. Notar aquilo que antes passava despercebido. Trazer o pensamento de volta ao presente. Mirar os sentidos no agora.
Porque a vida não acontece apenas nos grandes acontecimentos, nas conquistas, nos cargos, nas metas e nas urgências.
Ela também acontece num parquinho visto da janela.
Num recreio interrompido por uma nuvem.
Num vento que devolve o azul ao céu.
Em pequenas cenas que colorem as retinas da alma e amanteigam as emoções.
No fim das contas, a chuva nem veio.
O sol reapareceu.
A porta se abriu.
Era JG, de dezesseis anos, chegando do colégio.
Uns começando a jornada no balanço do parque.
Outros já perto da faculdade.
E eu, cada vez mais inclinado a observar ventos, sons, luares e pores do sol.
Talvez uma das maiores pobrezas do nosso tempo seja esta: andamos tão corridos e tão ocupados que estamos desaprendendo a escutar a delicadeza.
A delicadeza continua acontecendo.
Somos nós que andamos apressados demais para percebê-la.
Ricardo de Faria Barros
Psicólogo | Especialista em longevidade, sentido da vida e bem-estar emocional.

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