Páscoa: As passagens do impossível

 


Porque longe é um lugar que não existe, para um coração em Páscoa!

Páscoa é passagem.
Passagem de um lugar para outro.
De um estado para outro.
De uma dor para uma promessa.

São as páscoas do cotidiano.

A passagem do desemprego para o emprego. Da vida profissional corrida para o descanso merecido da aposentadoria. Dos dias de leito de hospital para a alta — aquela porta que se abre como uma aurora. Da vida de solteiro para a de casado. Dos bancos escolares para a colação de grau. Dos dias longos da gravidez para o primeiro choro de uma vida nova no mundo.

Cada uma dessas travessias é uma Páscoa. Libertadora. Cheia de promessas. Carregada de esperança de que o mundo pode ser diferente — e melhor — do outro lado.

São as passagens do impossível.

Porque longe é um lugar que não existe para um coração em Páscoa.

Em 1996, há 30 anos, vivi uma das páscoas mais bonitas da minha vida.
E ela não aconteceu numa igreja.
Nem numa mesa cheia.
Nem cercada de chocolates.

Ela aconteceu numa rodoviária.

Era quase meia-noite na rodoviária de João Pessoa.
Eu esperava meus filhos, que vinham no último ônibus que saía de Campina Grande. Aquele que a gente chamava de ônibus do padeiro.

Eu sempre gostei desses horários em que o mundo parece mais quieto. A gente consegue ver melhor a vida acontecendo.

Foi quando ela chegou.

Uma mulher.
Três filhos.
Vinda do alto sertão da Paraíba, de Cajazeiras.

Na cabeça, uma caixa de papelão.
Numa mão, um resto de mala.
Na outra, o filho menor.

Ela foi até o guichê da Itapemirim. Estava fechado.

E ali, naquele chão duro, onde não havia bancos, ela começou a fazer uma coisa que eu nunca esqueci.

Da caixa, tirou pedaços de papelão.
Dobrou com cuidado.
Forrou o chão.

Sentou.
Puxou os filhos para perto.
Acomodou todos no seu colo, como pôde.

Depois abriu um saco.
De dentro, tirou o que parecia ser biscoitos.
E repartiu entre eles.

E então fez um gesto que me desarmou por dentro.

Tirou um pente da mala.

E começou a pentear o cabelo das duas meninas.
Depois do menino.

Com uma delicadeza que não se aprende em lugar nenhum.
Só se aprende vivendo e amando.

Fiquei ali, por quase duas horas, olhando aquela cena.

Meus filhos iam chegar por volta de uma da manhã.
Os dela já estavam dormindo.

E ela continuava acordada.

Alisando os cabelos deles.
Cuidando.
Velando.

Naquela madrugada eu me fiz algumas perguntas.

Quanto valia aquela passagem?
Para onde aquela mulher estava indo?
Que tipo de libertação ela buscava?

Seria da seca?
Do desemprego?
Da fome?
Ou da solidão de ser mãe e carregar tudo sozinha?

Foi ali que eu entendi uma coisa que nunca mais saiu de mim.

As páscoas não estão só nos livros ou nas igrejas.
Elas estão na vida.

A Páscoa dos judeus foi a libertação da escravidão.
A travessia de um mar que parecia impossível.

A Páscoa dos cristãos é a Ressurreição de Jesus Cristo.
A vida vencendo a morte.

Mas existem também as páscoas do dia a dia.

Um coração em Páscoa é um coração que ainda acredita que pode atravessar.

Que algo bom pode acontecer.
Que a vida pode virar.

Depois de uma noite difícil.
Depois de uma doença.
Depois de uma prova.
Depois de um tempo de aperto.

A vida é cheia de passagens.

A gente está sempre indo de um lugar para outro.
Da noite para o dia.
Da dor para o alívio.
Do medo para a coragem.

E às vezes parece que o mar está fechado na nossa frente.

Mas, de algum jeito, ele se abre.

E a gente passa.

Páscoa é isso.

Não importa a religião.
Ou mesmo se a pessoa não tem religião.

É acreditar que o que está difícil hoje não é o final da história.

Como diz aquele ditado simples, mas cheio de sabedoria
um dia a tapioca vira.

E vira mesmo.

Um dia alguém cuida da gente.
Um dia alguém chega e diz vem comigo.

Um dia alguém oferece um pouco de carinho no meio do cansaço.

Pode ser um pente.
Um biscoito.
Um pedaço de papelão no chão frio da vida.

Pode ser uma palavra.
Um gesto.
Uma presença.


E então me pergunto.

O que, neste domingo, será Páscoa em nossa vida?
O que, em nós, pedirá Ressurreição?

Sim. Ressurreição com R maiúsculo.
Porque não é qualquer recomeço.
É aquele que nos devolve à vida.

O que será motivo de esperança?
O que vai nos mover a atravessar nossos mares difíceis?
O que vai nos ajudar a sair da desesperança e do desânimo?

O que vai nos levar ao nosso melhor?

Que seja a vida.
Que seja o vento.
Que sejam as velas abertas de um coração que ainda acredita.

Vida, vento, velas, levem-me daqui.
Levem-me a um lugar que me faça acordar com vontade de viver.

Resistir.
Insistir.

E, quem sabe, amolecer esse coração quando ele endurece.

Porque talvez seja isso a Páscoa.

Um coração que, mesmo depois de tudo,
ainda escolhe amar.

E mais do que viver a Páscoa…

A gente pode ser Páscoa.

Pode ser cuidado na vida de alguém.
Pode ser acolhimento.
Pode ser esperança.

Pode ser aquele pequeno gesto
que muda a noite de alguém.

Feliz Páscoa.

Que nunca nos falte coragem de caminhar mais um pouco.
Mesmo quando parece difícil.

Porque, no fundo,
a vida sempre encontra um jeito de recomeçar.

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