Domingo de manhã, eu "despachava" sozinho na Diretoria. O copo vagando por pensamentos e caramiolas quando notei uma movimentação diferente. Mamãe costuma ficar ali, perto da porta da cozinha, na área da toalha rosa. De lá, ela participava das "decisões" da Diretoria, um lugar sombreado por Bougainvilles, no fundo do quintal, que virou nossa área de lazer.
Hoje ela fez diferente e veio até mim, mesmo por um terreno irregular. Há 3 anos fez operação num joelho, tem hérnia de disco, e andar é difícil pra ela.
Três meses se passaram de duas cirurgias pesadas e invasivas. Uma extração de mama e, em seguida, um procedimento de emergência para a contenção de uma hemorragia perigosa. Qualquer pessoa comum estaria prostrada em um quarto escuro, pensando na mama retirada, no câncer, e seus fantasmas, e reclamando da vida. Sua recuperação tem sido exemplar e inspiradora, porque não é fácil o que ela passou. Mulher orante, ela acolheu e seguiu a vida possível. Muitas vezes a dor e o desgaste encolhem as pessoas. A gente vê isso o tempo todo nos relatos de quem chega querendo entender as próprias perdas. O envelhecimento também tem esse poder de isolamento. Muitos decidem construir muros ao redor do próprio sofrimento e viram ilhas inatingíveis. Minha mãe decidiu construir uma ponte de pedras irregulares, e caminhar. Puxou a cadeira de plástico e se fez presente de corpo inteiro. Sem melodrama nenhum. Sentou e pronto. Puxou algum assunto, recebeu telefonema de meu irmão, e ancorou, a nós dois, na realidade do presente.
Esperamos grandes gestos de amor, declarações cinematográficas, atitudes que mudem o eixo da Terra, quando o afeto verdadeiro pode ser uma caminhada difícil, por pedras irregulares, para se fazer presença, e não deixar um filho sozinho, numa manhã de domingo.
A Diretoria definitivamente não estava vazia. Fiquei olhando de soslaio para ela. O tecido da roupa desenhando os ombros curvos, as mãos descansando sobre o colo, a expressão de normalidade de quem acabou de atravessar um deserto particular.
O domingo floresceu e nós ficamos ali, parceiros de Diretoria, exercitando a arte renascer, apesar dos pesares, e com o que se tem para hoje. E está tudo bem.
Você é poeta. Da vida, do cotidiano, da família, do amor. Completo. Parabéns.
ResponderExcluirÉ um prazer refletir sobre um momento tão irrelevante do dia a dia! Mas para quem não vive mais a "reunião de Diretoria" sente no peito a relevante dor da saudade. Saudade que reaviva a memória com lembranças irrelevantes do tempo que não temos mais!
ResponderExcluirParabéns!