Continue estreando na vida e no viver (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)
Há pessoas que envelhecem porque os anos passam.
E há pessoas que envelhecem porque param de estrear.
São coisas diferentes.
Conheço gente de 40 anos que já desistiu de experimentar novidades.
E conheço pessoas de 80 que continuam inaugurando capítulos inteiros da própria existência.
Talvez uma das maiores armadilhas da aposentadoria seja acreditar que a fase das primeiras vezes terminou.
Que já aprendemos o que havia para aprender.
Que já sonhamos o que havia para sonhar.
Que já amamos o que havia para amar.
Mas a vida costuma ser generosa com quem continua dizendo "sim" ao novo.
Outro dia vivi uma dessas estreias.
Aos 61 anos, participei da minha primeira corrida de rua.
Não era sobre os cinco quilômetros.
Nunca foi.
Os cinco quilômetros eram apenas o endereço.
O destino era outro.
Era descobrir que ainda sou capaz de aprender.
Era perceber que ainda posso me reinventar.
Era voltar a confiar no corpo.
Era descobrir que a idade não determina os limites da alma.
Era continuar estreando a vida.
A corrida tornou-se a nona experiência de uma lista muito especial que comecei a construir.
Uma lista chamada:
As 100 coisas que ainda estrearei, pós 60+.
Gosto dessa ideia.
Aliás, deixo aqui um convite afetuoso.
Compre um caderninho.
Pode ser simples.
Na capa, escreva:
As 100 coisas que ainda estrearei, pós 60+
E vá preenchendo suas páginas devagar.
Não com obrigações.
Não com cobranças.
Mas com possibilidades.
Com sonhos.
Com curiosidades.
Com vontades antigas.
Com pequenas ousadias.
Com tudo aquilo que ainda faz nascer borboletas no estômago.
Porque felicidade não nasce apenas do que já conquistamos.
Ela também nasce do que ainda desejamos viver.
Dos projetos que nos chamam para frente.
Dos convites que fazemos ao futuro.
Dos capítulos que ainda não foram escritos.
Há pesquisas mostrando que pessoas que cultivam objetivos, curiosidade, aprendizado contínuo e senso de propósito tendem a apresentar mais bem-estar, vitalidade e satisfação com a vida.
Talvez porque o cérebro adore novidades.
Talvez porque o coração também.
Ou talvez porque a esperança precise de algum lugar para pousar.
Quando deixamos de estrear, os dias começam a se parecer demais uns com os outros.
Mas quando mantemos espaço para novas experiências, a vida ganha novamente cheiro de aventura.
E não estou falando de aventuras radicais.
Estou falando da coragem simples de continuar aprendendo.
De continuar tentando.
De continuar começando.
De continuar se permitindo.
Lembro-me então de uma das mais belas canções de Flávio Leandro: Mudança.
Nela, o poeta conta que acordou com vontade de cuidar de si.
De arrumar as gavetas.
De colocar tinta na caneta do coração.
De escrever para si mesmo um poderoso "eu me amo".
Que imagem bonita para quem envelhece.
Porque envelhecer bem talvez seja exatamente isso.
Voltar a cuidar das gavetas da alma.
Retirar o que perdeu o sentido.
Organizar afetos.
Revisar crenças.
Jogar fora alguns pesos desnecessários.
E abrir espaço para novos sonhos.
A música nos lembra ainda que, quando mudamos por dentro, algo também começa a mudar ao nosso redor.
Quando mudamos nosso olhar, mudamos a paisagem.
Quando mudamos nossos hábitos, mudamos nosso destino.
Quando mudamos nossas perguntas, mudamos as respostas que a vida nos oferece.
E talvez esteja aí uma das maiores lições da maturidade.
Passamos boa parte da vida tentando mudar o mundo.
Mas, com o tempo, descobrimos que muitas das mudanças mais importantes começam dentro de nós.
A canção termina com um verso simples e profundo:
"O que não muda nesse mundo é somente a mudança."
E talvez seja exatamente por isso que precisamos continuar estreando.
Continuar aprendendo.
Continuar experimentando.
Continuar sonhando.
Continuar começando.
A aposentadoria não precisa ser o encerramento da história.
Pode ser o início do capítulo mais livre dela.
A fase em que já não precisamos provar tanta coisa aos outros e podemos finalmente experimentar mais coisas para nós mesmos.
Por isso, deixo uma pergunta:
Qual será a próxima estreia da sua vida?
Qual será a próxima página do seu caderninho?
Qual será a próxima coisa que ainda fará até os 100 anos?
Talvez ela não esteja tão distante.
Talvez esteja apenas esperando a coragem do primeiro passo.
Porque existe uma juventude que não mora nos músculos.
Não mora na pele.
Não mora na certidão de nascimento.
Ela mora na capacidade de continuar se encantando.
Na coragem de continuar aprendendo.
Na disposição de continuar dizendo sim ao novo.
Talvez a verdadeira velhice não comece quando os cabelos embranquecem.
Talvez ela comece quando paramos de estrear.
E enquanto houver uma primeira vez esperando na próxima curva, haverá também um pedaço de juventude caminhando dentro de nós.
A minha nona estreia foi uma corrida de rua.
A décima ainda não sei qual será.
E talvez seja justamente isso que torna a vida tão bonita.
O fato de ainda existirem páginas em branco esperando para serem preenchidas.
Porque viver não é apenas acumular anos.
É continuar colecionando estreias.
E quem coleciona estreias nunca envelhece por completo.
Apenas muda.
Como o vento.
Como a vida.
Como nós.
Ps. Seguem as minhas estreias até agora.
As 12 Estreias que Mais Me Surpreenderam Após os 60+
Quando olho para esta lista, percebo que ela não fala apenas sobre coisas que fiz.
Ela fala sobre coisas que eu jamais imaginei que faria.
Cada uma delas derrubou uma pequena cerca invisível.
Daquelas que a idade, os hábitos, os medos ou a acomodação vão construindo sem que a gente perceba.
O mais curioso é que, em quase todas elas, a maior surpresa não foi a experiência em si.
A maior surpresa fui eu. Foi descobrir que ainda existiam territórios desconhecidos dentro de mim.
1. Visitar o Show da Monga
Surpreendi-me ao perceber que ainda existia um menino curioso morando aqui dentro.
2. Aprender uma coreografia
Surpreendi-me ao descobrir que rir de mim mesmo pode ser libertador.
3. Participar de um Garage Sale
Surpreendi-me encontrando prazer em garimpar histórias escondidas em objetos simples.
4. Andar de patinete elétrico
Surpreendi-me sentindo novamente aquela sensação de vento no rosto dos tempos de juventude.
5. Pedalar uma bike triciclo na orla de João Pessoa
Surpreendi-me brincando sem me preocupar com a opinião de ninguém.
6. Curtir uma praia com dunas no Rio São Francisco
Surpreendi-me ao encontrar beleza onde jamais imaginei procurar.
7. Andar na Carreta Furacão
Surpreendi-me permitindo que a criança interior assumisse o comando da viagem.
8. Andar de Banana Boat
Surpreendi-me aceitando sair da zona de conforto e me divertir com isso.
9. Boiar no mar
Surpreendi-me aprendendo que confiar também é uma forma de sabedoria.
10. Assistir a um show de Heavy Metal
Surpreendi-me gostando de algo que, durante décadas, imaginei não ser para mim.
11. Tomar banho na ducha do Parque da Cidade
Surpreendi-me encontrando felicidade em algo tão simples e tão gratuito.
12. Participar da minha primeira corrida de rua
Surpreendi-me descobrindo que o corpo ainda é capaz de aprender novos caminhos e que a alma continua gostando de desafios.
Se existe algo que essas doze experiências me ensinaram, é que a aposentadoria não precisa ser uma estação de chegada. Ela pode ser uma estação de partidas. Depois dos 60, percebi que ainda sou capaz de sentir frio na barriga. Ainda sou capaz de aprender. Ainda sou capaz de mudar de ideia. Ainda sou capaz de me reinventar. E talvez seja exatamente isso que me deixou mais feliz.
Não foi a Monga. Não foi a Banana Boat. Não foi o Heavy Metal. Não foi a corrida.
Foi descobrir que eu ainda consigo me surpreender comigo mesmo.
E talvez seja esse um dos segredos da felicidade na longelescência: Nunca parar de colecionar experiências que nos façam dizer: "Rapaz... eu não imaginava que ainda faria isso."
Porque enquanto continuarmos nos surpreendendo, continuaremos crescendo.
E enquanto continuarmos crescendo, continuaremos vivos. Muito vivos.
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