Era uma vez um São João em que meu pai voltou (por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Era uma vez um São João em que meu pai voltou.

Não, ele não voltou como nos filmes, nem houve qualquer fenômeno sobrenatural. Meu pai, Seu Evandy, partiu em 2021. Mas, naquela manhã de festa junina da escola de meus netos, por alguns minutos, ele esteve comigo novamente.

Cheguei cedo. Como toda família grande faz, tratei logo de juntar algumas mesas na área da alimentação. Teríamos um longo dia pela frente. Eram quatro netos e uma neta sobrinha, cada um em uma série diferente. Das dez e meia da manhã às três da tarde, haveria apresentações para todos eles.

Enquanto aguardava a chegada da turma, fiz uma escolha que, sem saber, mudaria o meu dia. Guardei o celular no bolso.

Não havia nada urgente acontecendo na tela.

Então fiz algo que andamos desaprendendo: comecei simplesmente a olhar.

Olhar as pessoas.

As conversas.

As crianças correndo.

As bandeirinhas colorindo a quadra.

A luz atravessando o ambiente.

Os abraços.

As esperas.

Os reencontros.

E as crianças chegando, uma a uma, prendadas para a festa. Cada uma mais bonita do que a outra. Nenhuma fantasia era igual. Havia vestidos de chita, fitas coloridas, chapéus de palha, remendos cuidadosamente costurados, botas, trancinhas e pinturas nas faces, onde balões, bandeirinhas e corações pareciam contar pequenas histórias. Fiquei ali apenas observando. Aquela explosão de cores amanteigava a alma. Talvez porque as cores também curem. E poucas festas sabem colorir a vida como um São João. Contemplar tanta beleza, tanta criatividade e tanta infância reunidas era, por si só, um presente.

Foi nesse passeio silencioso dos olhos que encontrei meu pai.

Ou melhor, encontrei alguém que poderia muito bem ser ele.

A mesma altura. Os cabelos totalmente brancos. O boné. A jaqueta. O jeito de caminhar. A postura. A forma tranquila de conversar. Até a facilidade de fazer amizades parecia ser a mesma.

Senti um arrepio bom.

Sabia perfeitamente que aquele senhor não era Seu Evandy. Mas minha imaginação, essa artesã das saudades, fez o restante do trabalho.

Passei a conversar com ele em silêncio.

"Papai... já fez amizade por aqui?"

Sorri sozinho.

Claro que ele já tinha feito.

Meu pai nunca chegava a lugar algum sem voltar com novos conhecidos. Parecia carregar uma conversa pronta no bolso e um sorriso disponível para qualquer pessoa.

Fiquei apenas contemplando aquela cena.

Na minha fantasia, dali a pouco ele se levantaria, olharia para mim e diria:

"Rico... tá na hora."

Era nossa senha.

A gente sairia dali e iria para o Libanus abrir uma cervejinha gelada, brindar à vida e conversar sobre tudo e sobre nada, como tantas vezes fizemos.

Por alguns minutos, vivi esse encontro inteiro.

E o mais bonito foi perceber que não doeu.

Foi bom.

Foi leve.

Foi uma dádiva.

Não senti a dor da ausência.

Senti a alegria da presença.

Depois, aquele senhor levantou-se e desapareceu entre as pessoas, certamente para assistir à apresentação de algum neto. Nunca mais o encontrei.

Mas meu pai permaneceu comigo o restante do dia.

Volta e meia eu olhava a fotografia que fiz de longe, não porque ela registrasse um desconhecido, mas porque ela guardava um encontro que só meu coração era capaz de reconhecer.

Aquele também foi um dia especial por outro motivo. Foi o primeiro São João em que meus quatro netos e minha neta sobrinha estudavam na mesma escola. Todo o clã de Seu Evandy e Dona Denise, que há tantos anos migrou para Brasília, estava reunido ali.

Talvez por isso eu tenha sentido sua presença com tanta força.

Naquele desconhecido, meu pai parecia representar todos os bisavós da nossa família.

E o fez exatamente como viveu: com simplicidade, gentileza, elegância e uma luz serena que iluminava qualquer encontro.

Naquela manhã compreendi algo sobre o tempo.

Costumamos imaginar que o ontem ficou para trás, que o amanhã ainda não chegou e que apenas o agora existe.

Mas talvez o tempo seja muito mais parecido com a maré.

Quando recua, traz lembranças, saudades e histórias.

É o ontem.

Quando avança, carrega sonhos, projetos e esperanças.

É o amanhã.

E há momentos em que ela parece repousar.

É o agora.

Só que o agora nunca está sozinho.

Ele acolhe o ontem e, ao mesmo tempo, prepara o amanhã.

Naquela manhã, meu pai era o ontem.

Meus netos eram o amanhã.

E eu estava exatamente entre os dois.

Naquele único instante, vivi as três dimensões do tempo ao mesmo tempo.

Percebi que o presente não é uma linha separando o passado do futuro.

O presente é uma ponte.

Foi nele que reencontrei meu pai.

Foi nele que vi meus netos construindo, sem perceber, as lembranças que um dia guardarão de mim.

Enquanto eu recordava meu pai, eles escreviam, sem saber, a história que contarão aos filhos e aos netos.

Somos filhos das lembranças que recebemos e ancestrais das lembranças que ainda deixaremos.

Também descobri outra coisa.

A maioria desses presentes só acontece quando desaceleramos.

Se eu estivesse mergulhado no celular, respondendo mensagens ou percorrendo as redes sociais, jamais teria percebido aquele senhor.

Não teria encontrado meu pai.

Não teria vivido aquele reencontro.

Na verdade, talvez eu nem tivesse percebido a beleza das crianças, das famílias, das conversas, das cores ou das pequenas cenas que transformaram aquela manhã numa obra de arte.

Observar a vida acontecendo é um exercício extraordinário.

É perceber as texturas, as cores, as luzes, os sons, os silêncios e as pequenas histórias que cada rosto carrega.

É imaginar conversas.

É acolher subjetividades.

É permitir que nossa empatia complete aquilo que os olhos apenas começam a enxergar.

Quando fazemos isso, nossa percepção deixa de ser fragmentada e passa a ser inteira.

É como montar, dentro de nós, um grande caleidoscópio de vivências.

Cada pessoa acrescenta uma cor.

Cada gesto desenha uma nova forma.

Cada encontro amplia nossa maneira de existir.

E, curiosamente, isso acalma.

É como se o cérebro respirasse mais devagar.

Como se a alma fosse reiniciada.

Como se a vida dissesse apenas:

"Fique."

Não custa nada.

Basta sentar num canto.

Olhar.

Escutar.

Sentir.

O resto vem por inteiro.

Foi somente quando cheguei em casa e revi a fotografia que percebi um detalhe que havia passado despercebido.

Meu pai estava exatamente diante de uma enorme placa onde se lia:

SAÍDA.

Sorri sozinho.

Meu primeiro pensamento foi simples.

"Ele já estava indo embora."

Mas continuei olhando.

E, de repente, meu coração contou outra história.

Ele não estava indo embora.

Estava abrindo o caminho.

Como fez durante toda a vida.

Foi assim quando me ensinou a caminhar.

Quando me mostrou que o trabalho dignifica.

Quando me ensinou, sem discursos, que vale mais a pena fazer amigos do que colecionar razões.

Quando me mostrou que a simplicidade é uma forma de grandeza.

Talvez aquela placa nunca tenha sido sobre a saída dele.

Talvez fosse sobre a minha.

A saída do luto.

A saída da ansiedade.

A saída dos dias em que acreditamos que não existe solução.

A saída dos momentos em que a vida parece estreita demais para continuarmos.

Há uma delicadeza ainda maior nessa fotografia.

Meu pai estava de costas para a placa.

Quem lia a palavra "SAÍDA" era eu.

Como se aquela mensagem não tivesse sido escrita para ele.

Mas para o filho que ficou.

Naquele instante, quase pude ouvi-lo dizendo:

"Rico... pode vir.

O caminho existe.

Eu só vim na frente para lhe mostrar por onde seguir."

Voltei para casa com muito mais do que a alegria de ver meus netos dançando.

Voltei com a certeza de que algumas pessoas nunca deixam de ser pai.

Nem quando partem.

Às vezes, elas apenas encontram uma forma diferente de continuar nos guiando.

Naquele São João, meu pai não voltou para o passado.

Veio apenas me lembrar que a presença é o lugar onde o amor vence o tempo.

E que sempre haverá uma saída para quem continua caminhando.

Mesmo quando, por alguns instantes, ela só pode ser vista pelos olhos do coração.

O BOIAR ESTÁ EM EXTINÇÃO - Ou como reaprender a estar inteiro num mundo distraído (Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Das doze estreias que vivi após os 60 anos, e que venho registrando com alegria, surpresa e certa dose de travessura, qual delas mais me marcou? A pergunta chegou simples. A resposta demorou um pouco mais.

Não foi a Carreta Furacão, com sua alegria escancarada e infantil, devolvendo-me por algumas horas ao menino que nunca foi embora. Não foi o Show da Monga, aquele encontro tardio com um dos maiores mistérios da infância. A mulher que virava gorila não era apenas uma atração de parque. Era a materialização dos medos que carregamos desde cedo: o medo da transformação, do desconhecido, do que pode emergir de dentro de nós quando as luzes se apagam. Não foi o patinete elétrico. Não foi a Banana Boat. Não foi o Garage Sale. Não foi a corrida de rua.

Foi boiar.

Simplesmente boiar no mar.

Encher os pulmões, fechar os olhos, entregar o peso à água e confiar.

Parece pouco. Mas para quem passou boa parte da vida acreditando que precisava controlar tudo para não afundar, foi quase uma revolução.

Existe uma lembrança guardada em algum lugar da minha alma. Janeiro. Praia do Bessa. João Pessoa. O céu azul sem economia. O sol nordestino queimando devagar. Minha mãe entrava no mar com aquele bronzeador cor de cenoura que as mulheres dos anos 70 usavam sem medo do futuro. Na beira da água, uma tia conversava enquanto o vento espalhava cheiro de maresia. Mamãe adorava boiar. Podia passar longos minutos entregue ao balanço das ondas, olhando o céu, sem pressa de voltar para a areia. E eu, menino, observava aquela cena com uma paz difícil de explicar. Quando mamãe boiava, eu tinha a sensação de que estava tudo bem no mundo. Como se as ondas, por alguns instantes, levassem embora todas as preocupações que eu ainda nem sabia que existiam.

Décadas se passaram. A vida trouxe suas alegrias, suas ausências, suas perdas e suas reconstruções. Vieram responsabilidades, filhos, boletos, despedidas, recomeços e os inevitáveis pesos da existência. Mas aquela imagem permaneceu. Não exatamente na memória, mas na pele. Porque as lembranças mais profundas não são as que fotografamos. São as que sentimos. São aquelas que o corpo guarda mesmo quando a mente esquece.

Recentemente, diante de um mar calmo, bonito, quase sem vento, resolvi atravessar uma fronteira invisível. O mar estava manso. Não havia perigo. Não havia desafio atlético. Não havia plateia. Mas havia uma barreira interna. A mesma que separa quem observa de quem se entrega.

Então enchi os pulmões, inclinei o corpo, fechei os olhos e confiei.

E o mar me segurou.

Naquele instante aconteceu algo difícil de explicar. O tempo desacelerou. Os pensamentos diminuíram o volume. O corpo ficou leve. A alma também. Por alguns minutos não precisei resolver nada, provar nada, produzir nada ou ser útil para ninguém. Apenas estive. E talvez essa seja uma das experiências mais raras dos nossos dias.

Porque boiar está em extinção.

Não como habilidade física.

Como disposição humana.

Vivemos numa época em que a atenção virou mercadoria. Empresas disputam nossos olhos, nossos ouvidos, nossos segundos e nossa capacidade de permanecer. Nunca estivemos tão conectados. E talvez nunca tenhamos estado tão dispersos.

Muita gente já não consegue ler cinco páginas de um livro sem olhar o celular. Não consegue assistir a um filme inteiro sem verificar mensagens. Não consegue caminhar sem fotografar a caminhada. Não consegue jantar sem registrar o prato. Não consegue ouvir alguém sem interromper a conversa para espiar uma tela.

Criamos uma nova ansiedade coletiva. O medo permanente de perder alguma coisa. Uma notícia. Uma postagem. Uma mensagem. Uma novidade. Como se a vida estivesse sempre acontecendo em outro lugar. E, tentando acompanhar tudo, acabamos não vivendo nada por inteiro.

O cérebro, acostumado aos disparos rápidos de dopamina das notificações, dos vídeos curtos e dos algoritmos infinitos, passa a rejeitar aquilo que exige permanência. A contemplação fica difícil. O silêncio incomoda. A espera irrita. A lentidão parece defeito. Talvez estejamos construindo uma espécie de TDAH Digital coletivo. Não um diagnóstico médico. Mas um modo de existir. Um jeito apressado de atravessar os dias. Um estado permanente de distração.

E é por isso que boiar se tornou terapêutico.

Enquanto se boia, não existe Instagram. Não existe WhatsApp. Não existe feed. Não existe reunião. Não existe planilha. Não existe notícia urgente. Não existe ontem. Não existe amanhã. Existe apenas a respiração. Existe apenas o balanço das ondas. Existe apenas o céu. Existe apenas o corpo sendo sustentado pela água.

Mas existe algo mais.

Existe o canto distante de uma gaivota. Existe o brilho do sol dançando sobre a superfície do mar. Existe o vento tocando o rosto sem pedir licença. Existe a temperatura da água abraçando a pele. Existe o rumor das ondas indo e vindo como uma oração antiga. Existe aquele raro instante em que não estamos consumindo a vida. Estamos apenas vivendo.

Boiar exige algo que o mundo moderno desaprendeu a oferecer: presença.

Quem boia não pode ficar olhando notificações. Quem boia não pode ficar pensando em dez coisas ao mesmo tempo. Quem boia não pode viver no futuro. Quem boia não pode morar no passado. Quem boia precisa estar exatamente onde está.

E talvez seja essa a grande lição.

Boiar deveria ser ensinado nas academias da alma. Nas terapias do ser. Nas escolas. Nas empresas. Nos programas de qualidade de vida. Nos cursos de longevidade. Não como técnica de sobrevivência marítima, mas como exercício de humanidade.

Da mesma forma que aprendemos a meditar, talvez devêssemos aprender a boiar.

Porque boiar ensina confiança. Ensina entrega. Ensina humildade. Ensina presença. Ensina a abandonar, por alguns minutos, a ilusão de que controlamos tudo. Boiar é uma técnica de desconectar o cérebro do ontem e do amanhã para reaprender a habitar o agora.

Frankl talvez dissesse que boiar é uma abertura ao sentido. Você não está construindo nada. Não está produzindo nada. Não está conquistando nada. Está apenas existindo. E, curiosamente, é nesse simples existir que algo profundo acontece. Uma reconciliação silenciosa com a própria vida.

Talvez seja por isso que a imagem da minha mãe continua tão viva. Ela não estava dando uma aula. Não estava fazendo um discurso. Não estava ensinando uma teoria. Estava apenas boiando. Mas, sem saber, ensinava ao filho uma das lições mais importantes que alguém pode aprender: a confiança não é fraqueza. É coragem. Coragem de se entregar. Coragem de descansar. Coragem de não controlar. Coragem de acreditar que nem tudo depende das nossas mãos.

Das doze estreias que vivi depois dos 60 anos, essa foi a que mais me marcou. Não pela adrenalina. Não pela novidade. Não pelo desafio. Mas porque naquele flutuar havia uma herança sendo recebida. Uma conversa com o tempo. Uma criança de João Pessoa finalmente entrando no mesmo mar onde sua mãe boiava e descobrindo que o mar continua segurando, que os pulmões continuam funcionando, que a vida continua convidando e que confiar ainda vale a pena.

Aliás, estou indo para a Paraíba este mês. E confesso: não vejo a hora de entrar novamente no mar. Não para nadar. Não para me exercitar. Não para chegar a algum lugar. Apenas para boiar mais algumas vezes. Treinar o boiar. Aprimorar essa arte tão simples e tão esquecida.

Porque, num mundo onde todos correm, talvez boiar seja uma das formas mais bonitas de permanecer humano.

Quando você vir alguém boiando no mar, não estranhe. Incentive.

Talvez aquela pessoa não esteja apenas descansando o corpo. Talvez esteja cuidando da alma.

E, se puder, ensine aos seus amigos, filhos, netos e familiares a arte de boiar. A arte de se desconectar. A arte de não fazer nada por alguns minutos além de respirar, confiar e estar presente.

Os efeitos costumam ser quase imediatos.

Boiar desacelera pensamentos apressados.

Boiar amansa preocupações.

Boiar afrouxa músculos tensos.

Boiar dissolve, ainda que por instantes, a tirania das urgências.

Boiar cura mentes galopantes, corpos endurecidos e almas afundadas em si mesmas.

Num mundo que nos ensina a correr, produzir, responder, competir e acumular, boiar nos ensina outra coisa.

Nos ensina a permanecer.

Nos ensina a confiar.

Nos ensina a simplesmente estar.

E talvez seja justamente disso que mais estejamos precisando.

Talvez a décima terceira estreia ainda nem tenha nome. Mas ela chegará, como chegam as marés. E talvez também comece com algo simples, quase invisível. Um gesto pequeno por fora, gigante por dentro.

Porque, no fim das contas, envelhecer bem talvez seja isso: não perder a capacidade de estrear, não perder a capacidade de se encantar e, sobretudo, não perder a coragem de boiar.

Num mundo onde quase todo mundo desaprendeu a estar inteiro.

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