EPITÁFIO IV - Aos meus netos (Ricardo de Faria Barros, seu avô, psicólogo e amante da vida e do viver)


Das pequenas coisas que fizeram minha vida imensa

Se vocês chegaram até aqui, talvez já tenham percebido uma coisa.

O avô de vocês nunca precisou de muito para ser feliz.

Nunca fui rico.

Nunca fui famoso.

Nunca tive uma vida perfeita.

Mas tive uma vida cheia.

Cheia de gente.

Cheia de histórias.

Cheia de curiosidade.

Cheia de pequenos encantamentos.

Talvez o maior segredo da felicidade seja exatamente esse.

Aprender a encontrar grandeza nas coisas pequenas.

Sempre gostei de "festar" a vida.

Não apenas as grandes conquistas.

Gostava de festar uma manhã de domingo.

Uma feira livre.

Um café passado na hora.

Uma apresentação de rua.

Um sanfoneiro tocando numa praça.

Um restaurante simples.

Uma conversa comprida.

Uma viagem de carro sem pressa.

Um pôr do sol.

Uma lua cheia.

Uma chuva chegando.

Um almoço em família.

Uma fotografia.

Descobri cedo que felicidade não mora apenas nos grandes acontecimentos.

Ela mora principalmente no cotidiano.

Nunca fui da madrugada.

Depois da uma da manhã meu corpo já queria descansar.

Sempre gostei mais do nascer do sol do que do fim da festa.

Acho que Deus conversa melhor conosco quando o mundo ainda está acordando.

Gostava de andar descalço.

Gostava de rede.

Gostava do cheiro de terra molhada.

Gostava do barulho das ondas quebrando na praia.

Gostava do silêncio do sertão.

Gostava das flores.

Sempre achei que uma flor aberta é uma forma delicada de Deus dizer que continua cuidando do mundo.

Também gostava de jardinagem.

Plantar uma árvore sempre me pareceu um ato de esperança.

Quem planta uma árvore acredita no amanhã.

Gostava de construir pomares.

Talvez porque uma árvore nunca coma os próprios frutos.

Ela sempre produz para quem vier depois.

Que bonito seria se as pessoas fossem um pouco mais parecidas com as árvores.

Sempre gostei mais de feira livre do que de shopping.

Na feira tudo parece conversar.

As frutas.

Os cheiros.

Os vendedores.

Os fregueses.

Os sotaques.

Os temperos.

Fiz grandes amizades com feirantes.

Também com garçons.

Nunca gostei de tratar quem serve como invisível.

Sempre procurei saber o nome das pessoas.

Perguntar como estavam.

Agradecer.

Acho que ninguém deveria passar pela vida sem ser percebido.

Talvez porque eu mesmo sempre tenha desejado ser visto.

Gostava de fotografar.

Vocês certamente encontrarão centenas de fotografias feitas por mim.

E lembrarão de uma frase que repetia em quase todas as reuniões de família.

"Agora a última... A histórica."

Hoje sorrio ao pensar nisso.

Todas acabaram sendo históricas.

Porque nunca mais nos reunimos exatamente daquele jeito.

Colecionei discos de vinil.

CDs.

Fitas cassete.

Livros. Selos.

Fotografias.

Mas, olhando para trás, percebo que minha verdadeira coleção sempre foi de pessoas.

As pessoas são o melhor acervo que alguém pode construir.

Também gostava de cozinhar.

Inventava receitas.

Misturava ingredientes.

Seus pais chamavam essas experiências de "gorbachos".

Nem sempre tinham boa aparência.

Mas quase sempre faziam a família rir.

Aprendi que cozinhar também é uma forma de dizer "eu gosto de vocês".

Sempre gostei de aprender.

Nunca deixei de estudar.

Nunca achei que já sabia o suficiente.

Aprendi informática quando quase ninguém tinha computador.

Fiz especializações.

Mestrado.

Escrevi livros.

Mas continuo acreditando que a melhor universidade continua sendo a vida.

Também aprendi uma coisa importante.

Nunca comparem a vida de vocês com a de ninguém.

Cada pessoa carrega batalhas invisíveis.

Sejam gentis.

Vocês nunca saberão completamente o peso que o outro está carregando.

Outra coisa que me ajudou muito foi procurar diariamente três experiências.

Uma coisa bela.

Uma coisa boa.

Uma coisa virtuosa.

À noite eu voltava ao meu dia e recordava essas três pequenas descobertas.

Isso mudou meu jeito de enxergar a existência.

Passei a perceber flores onde antes via apenas espinhos.

Passei a agradecer mais.

Reclamar menos.

Se algum dia vocês estiverem vivendo um tempo difícil, experimentem fazer esse exercício.

Tenho quase certeza de que algo bonito acontecerá dentro de vocês.

Quero também falar um pouco da família que construí.

Ela é uma das maiores alegrias da minha vida.

Cada filho recebeu um dom muito especial.

Tiago, meu filho mais velho, e Carol, minha querida nora, carregam uma capacidade rara de acolher.

A casa deles sempre parece maior por dentro do que por fora.

Eles têm o dom de fazer amigos.

De incluir.

De fazer as pessoas se sentirem pertencentes.

Acho isso uma virtude enorme.

Priscila, minha filha, e Hugo, meu genro, me ensinaram outra força.

A perseverança.

Nunca os vi desistirem facilmente.

Sempre procuram melhorar.

Estudar.

Crescer.

Encontrar novos caminhos.

São pessoas que seguem caminhando mesmo quando a estrada parece difícil.

Rodrigo, meu filho, e Andreza, minha nora, receberam um talento diferente.

São arquitetos de soluções.

Quando surge um problema, não ficam lamentando. E isso eles fazem conosco também, pois são 

nossos resolvedores de problemas. Para eles, tudo pode ter uma saída.

Gosto muito dessa característica.

O mundo precisa de pessoas assim.

Pessoas que constroem pontes em vez de aumentar os muros.

E meu caçula, João Gabriel...

Ah...

João sempre me ensinou uma paz que eu ainda estava aprendendo.

Ele tem o dom da simplicidade.

Está bem em qualquer lugar.

Não precisa de luxo.

Não precisa de grandes espetáculos.

Carrega dentro dele uma serenidade que admiro profundamente.

Espero que nunca perca isso.

Meus netos também são presentes de Deus.

Cada um deles já nasceu trazendo uma pequena marca.

Dudu chegou espalhando peraltices.

É impossível pensar nele sem sorrir.

Sofia nasceu líder.

Existe nela uma força vital que naturalmente conduz as pessoas.

Laís, a nossa Lalá, trouxe a delicadeza.

Sua meiguice tem o poder de acalmar ambientes.

E Lucas herdou uma das características de que mais me orgulho.

A curiosidade. O gosto em aprender. 

Que ele nunca deixe de fazer perguntas.

Foram elas, as perguntas, que me levaram tão longe.

Talvez vocês estejam percebendo que gosto de olhar para aquilo que cada pessoa tem de melhor.

Aprendi isso com o bisavô Evandy.

Meu pai nunca entrava num lugar procurando defeitos.

Procurava primeiro aquilo que merecia admiração.

Levei essa filosofia para toda a minha vida.

Não porque o mundo seja perfeito.

Mas porque aquilo que alimentamos dentro de nós cresce.

Sempre preferi alimentar a esperança.

Também quero lhes dizer uma última coisa.

Não esperem uma vida sem dores.

Ela não existe.

Mas existe uma vida cheia de sentido.

Sempre que sofri, procurei transformar aquela dor em alguma coisa útil.

Um texto.

Uma palestra.

Um projeto.

Um abraço.

Uma oração.

Uma nova amizade.

Foi assim que consegui seguir em frente.

Se eu pudesse deixar apenas uma herança para vocês, não seria dinheiro.

Seria um jeito de viver.

Olhem mais para as flores do que para os espinhos.

Façam amigos.

Aprendam coisas novas.

Leiam bons livros.

Viajem.

Plantem árvores.

Fotografem quem vocês amam.

Abracem demoradamente.

Perdoem antes que seja tarde.

Digam "eu te amo" enquanto a pessoa ainda pode ouvir.

E nunca deixem que a curiosidade morra.

Porque foi ela que manteve vivo o menino Ricardinho dentro do velho Ricardim.

Se um dia sentirem saudade de mim, não precisam ir ao cemitério.

Vão a uma feira livre.

Sentem-se num banco de praça.

Tomem um café.

Olhem um pôr do sol.

Conversem com um garçom.

Plantem uma muda de ipê.

Escutem uma sanfona.

Ou simplesmente reúnam a família para uma fotografia.

Quando alguém disser que aquela será "a última...

A histórica."

Sorriam.

Provavelmente eu estarei sorrindo junto com vocês.

EPITÁFIO III - Aos meus netos (Ricardo de Faria Barros, seu avô, psicólogo e amante da vida e do viver)


Se vocês chegaram até este capítulo, já sabem que minha vida nunca foi uma linha reta.

Ela foi feita de curvas.

De encontros.

De despedidas.

De lágrimas.

De recomeços.

De algumas vitórias.

E de muitos aprendizados.

Durante muitos anos achei que viver era conquistar.

Conquistar um cargo.

Construir uma casa.

Publicar um livro.

Ter estabilidade financeira.

Encontrar um grande amor.

Ser reconhecido.

Hoje penso diferente.

Hoje acredito que viver é muito mais aprender.

A vida foi, aos poucos, tirando de mim aquilo que eu imaginava ser indispensável.

Tirou casas.

Mudou cidades.

Mudou trabalhos.

Mudou amores.

Mudou projetos.

Mudou certezas.

E, curiosamente, quanto mais ela tirava, mais eu descobria aquilo que nunca poderia ser levado.

Minha curiosidade.

Minha fé.

Minha capacidade de recomeçar.

Meu gosto pelas pessoas.

Meu encantamento pelas pequenas coisas.

Foi aí que comecei a entender o verdadeiro significado da longevidade.

Envelhecer nunca foi meu objetivo.

Meu objetivo sempre foi continuar vivo por dentro.

Foi dessa inquietação que nasceu um dos projetos mais bonitos da minha vida.

A Longelescência.

Muita gente fala apenas sobre envelhecimento.

Eu preferi falar sobre possibilidades.

Sempre acreditei que a idade pode acrescentar.

Pode amadurecer.

Pode ampliar.

Pode libertar.

Nunca gostei quando diziam que determinada coisa "não era mais para a minha idade".

Quem decidiu isso?

Quem escreveu essa regra?

Aos sessenta anos comecei a correr.

Depois voltei a estudar.

Entrei numa pós-graduação em Saúde do Idoso.

Continuei escrevendo.

Continuei dando palestras.

Continuei fazendo planos.

Descobri que o calendário não pode mandar na curiosidade.

Criem esse hábito.

Nunca parem de aprender.

Nunca.

Mesmo quando acharem que já sabem bastante.

Aliás, desconfiem justamente desse momento.

Foi estudando que descobri uma das práticas que mais transformaram minha vida.

Passei a procurar diariamente três coisas.

Uma coisa bela.

Uma coisa boa.

Uma coisa virtuosa.

À noite, antes de dormir, recordava essas três experiências.

No começo parecia um exercício simples.

Depois percebi que ele estava mudando meu olhar.

O mundo continuava tendo violência.

Problemas.

Injustiças.

Mas eu deixei de enxergar apenas os espinhos.

Passei a perceber também as flores.

Não porque elas fossem maioria.

Mas porque eu havia treinado meus olhos para encontrá-las.

Se algum dia vocês estiverem vivendo um período difícil, experimentem fazer isso durante trinta dias.

Tenho quase certeza de que não mudarão o mundo.

Mas mudarão a forma como o mundo habita vocês.

Também aprendi outra coisa.

Nunca deixem que a solidão se transforme em moradora da casa.

Ela pode visitar.

Todos nós ficaremos sós em alguns momentos.

Eu também fiquei.

Muitas vezes.

Mas sempre procurei responder ao vazio com movimento.

Escrevia.

Lia.

Plantava.

Fotografava.

Dirigia.

Ia à missa.

Estudava.

Telefonava para alguém.

Fazia uma feira.

Tomava um café.

Assistia a uma apresentação de rua.

A vida nunca me pareceu pequena.

Sempre havia alguma coisa esperando para ser descoberta.

Outra característica minha era gostar de "festar" a vida.

Não precisava existir motivo.

Eu festejava uma feira livre.

Uma conversa.

Uma música.

Um pôr do sol.

Um almoço simples.

Um café.

Uma caminhada.

Uma fotografia em família.

Aprendi que felicidade raramente faz barulho.

Ela costuma morar nas coisas pequenas.

Também nunca fui de guardar dinheiro apenas para mim.

Sempre que podia ajudava alguém.

Chamava isso de meu dízimo.

Às vezes ajudava um amigo.

Outras vezes alguém que eu nem conhecia pessoalmente.

Como o Major Drive, que acompanho pela internet e ajudei a comprar cerâmicas para o quarto da filha.

Outras vezes fazia uma feira para minha mãe.

Ou mandava uma ajuda inesperada.

Descobri que dinheiro também pode ser abraço.

Nunca fui rico.

Mas sempre tentei ser generoso.

Gostava de olhar o lado bom das pessoas.

Isso aprendi com meu pai.

Nunca entrava num lugar procurando defeitos.

Entrava procurando aquilo que merecia admiração.

Levei esse hábito para tudo.

Para os relacionamentos.

Para o trabalho.

Para as cidades.

Para os restaurantes.

Para as pessoas.

Talvez por isso eu tenha conseguido fazer amigos em tantos lugares diferentes.

Outra coisa que quero lhes contar.

Nunca fui inteligente.

Fui estudioso.

Persistente.

Insistente.

Quando não entendia uma coisa, estudava outra vez.

Depois outra.

Até aprender.

Não tenham vergonha de não saber.

Tenham vergonha apenas de desistir de aprender.

Ao longo da vida publiquei livros.

Escrevi centenas de textos.

Gravei vídeos.

Criei cursos.

Mentorias.

Palestras.

Mas nada disso foi mais importante do que as pessoas que encontrei pelo caminho.

Se algum legado eu gostaria de deixar, não é uma biblioteca.

É um jeito de olhar para a vida.

Um jeito curioso.

Gentil.

Esperançoso.

Também amei.

Amei muitas vezes.

Cada mulher que amei em minha vida deixou um aprendizado. E todas tornaram parte de quem eu 

sou: Diene, Joane, Cristina, Carol, Ieda, Girlane, Ramona, Ana Cristina. E, para elas, meus netos e

bisnetos, eu só tenho uma palavra: gratidão!

Nunca gostei de colecionar romances. Não fui um avô mulherengo. Eu gostava mesmo era de construir
mundos compartilhados.

Aprendia a gostar da cidade delas.

Da família delas.

Dos amigos delas.

Da cultura e estilod e vida delas. 

Quando um relacionamento terminava, eu não perdia apenas uma pessoa.

Perdia um universo.

Hoje entendo isso.

E também entendo outra coisa.

É possível recomeçar.

Mais de uma vez.

Se algum dia vocês sofrerem por amor, não fechem o coração.

Ele nasceu para criar novos vínculos.

Não para guardar ressentimentos.

Hoje, já mais velho, encontrei paz.

Descobri que o melhor amor não é o que acelera o coração.

É o que o acalma.

É aquele ao lado do qual o cérebro deixa de galopar para o futuro e para o passado.

E aprende a morar no agora.

Se um dia encontrarem alguém assim...

Cuidem desse encontro.

Vocês também já sabem que gosto de uma frase.

Então deixo algumas para caminharem com vocês.

Nunca deixem a rotina envelhecer antes de vocês.

Continuem estreando.

Sempre que a vida ferir vocês, procurem responder criando alguma coisa.

Olhem primeiro para o que existe de bom.

As mágoas envelhecem mais depressa do que as pessoas.

Aprendam coisas novas.

Abracem mais.

Perdoem antes.

Façam fotografias.

Plantem árvores.

Digam "eu te amo".

Andem descalços de vez em quando.

Tomem banho de chuva, se puderem.

Olhem a lua cheia.

Agradeçam mais.

Reclamem menos.

E nunca parem de fazer perguntas.

Porque foi a curiosidade que manteve o menino Ricardinho vivo dentro do velho Ricardim.

Se um dia vocês quiserem me encontrar, não procurem apenas nos meus livros.

Nem nas fotografias.

Nem nos vídeos.

Nem neste texto.

Procurem-me quando uma criança rir perto de vocês.

Quando um passarinho cantar.

Quando um pôr do sol colorir o céu.

Quando uma flor nascer onde ninguém esperava.

Quando uma estrada convidar para seguir adiante.

Ou quando vocês decidirem começar alguma coisa que muita gente dizia que já não era para a idade de vocês.

Estarei em todos esses lugares.

Porque, no fundo, foi ali que vivi.

E, se eu pudesse resumir toda a minha existência numa única frase, escolheria esta:

Não colecionei sucessos. Colecionei estreias.

Vivam.

Amem.

Aprendam.

Sirvam.

Recomecem.

E quando a vida parecer difícil demais, lembrem-se de uma coisa que o avô de vocês descobriu depois de muitos anos:

Deus nunca desperdiça uma dor quando encontra um coração disposto a transformá-la em amor.





EPITÁFIO II - Aos meus netos (Ricardo de Faria Barros, seu avô, psicólogo e amante da vida e do viver)


Se no primeiro capítulo contei quem eu era, agora quero contar como a vida foi me transformando.
Hoje, olhando para trás, percebo que minha história foi marcada por rupturas.
Não gosto dessa palavra. Ela parece dura demais.

Mas talvez seja a que melhor descreva o que vivi.

Houve momentos em que um ciclo terminou tão de repente que parecia impossível acreditar que outro pudesse começar.

Na época eu enxergava apenas a perda.

Hoje consigo enxergar também o nascimento.

Aprendi que quase toda ruptura é também um parto.

Alguma coisa termina para que outra possa nascer.

A primeira grande ruptura aconteceu quando eu tinha quinze anos.

Naquela época eu queria ser padre.

Não era uma vontade passageira.

Era um sonho verdadeiro.

Passei a frequentar o seminário menor.

Nos finais de semana seguíamos para a Comunidade São Sebastião, no bairro do Alto Branco, em Campina Grande.

Ali aprendi muito mais do que doutrina.

Aprendi a ouvir as pessoas.

Aprendi a visitar famílias.

Aprendi a preparar catequese.

Aprendi a comentar o Evangelho.

Aprendi que a fé pode ser simples.

Eu era feliz.

Achava que aquele seria meu caminho.

Mas Deus também fala através dos afetos.

E um dia conheci Diene.

Ela participava do JORENAC, um dos grupos de jovens que eu frequentava.

Foi meu primeiro grande amor.

Com ela descobri um mundo completamente novo.

Descobri a beleza feminina.

A delicadeza.

O carinho.

A alegria de caminhar ao lado de alguém.

A intensidade daquele amor fez ruir o sonho do sacerdócio.

Saí do seminário.

Sem grandes planejamentos.

Sem muita reflexão.

Saí porque meu coração apontava outra direção.

Hoje não vejo aquilo como um erro.

Vejo como uma escolha.

Foi ali que compreendi que viver também significa renunciar.

Cada "sim" que damos também contém um "não".

Nunca mais voltei a vestir a batina.

Mas nunca deixei a fé.

Ela apenas mudou de roupa.

Pouco tempo depois também terminei o namoro com Diene.

Até hoje não sei explicar direito.

Na época achei que tinha deixado de amá-la.

Anos depois percebi que eu era apenas um rapaz muito jovem tentando entender os próprios sentimentos.

Não guardo culpa.

Guardo gratidão.

Diene foi a mulher que me apresentou ao amor.

Sempre que penso nela lembro da leveza da juventude.

Algumas pessoas passam por nossa vida apenas para inaugurar sentimentos.

Ela fez isso comigo.

Depois veio Joane.

Com ela aconteceu outra ruptura gigantesca.

Eu tinha apenas dezenove anos.

Vivíamos um namoro cheio de sonhos quando recebemos uma notícia inesperada.

Ela estava grávida.

Meu filho Tiago estava chegando.

Naquele instante deixei de ser apenas um jovem.

Nasceram, ao mesmo tempo, um pai e um marido.

Num dia eu estava dando aulas de religião e frequentando a universidade.

No outro pesquisava preço de fraldas, aprendia a administrar um orçamento apertado e montava minha primeira casa com a ajuda generosa dos meus pais.

A juventude ficou para trás.

A vida adulta chegou sem pedir licença.

Aprendi cedo que a responsabilidade também amadurece as pessoas.

Em julho de 1986 aconteceu outra mudança importante.

Entrei para o Banco do Brasil.

Vocês já sabem que tudo começou por causa de uma bicicleta.

Mas o que talvez não saibam é que aquele concurso mudaria completamente o rumo da minha história.

Poucos meses depois fui transferido para Poções, no interior da Bahia.

Foi minha primeira grande viagem para longe de casa.

Mais de mil e quinhentos quilômetros separavam Campina Grande da pequena cidade onde eu iria trabalhar.

Ali deixei outra parte de mim.

Meus pais.

Meus irmãos.

Minha cidade.

Os amigos.

As referências.

Tudo.

Levei apenas minha pequena família e uma enorme vontade de acertar.

Poções me recebeu de braços abertos.

Aprendi a amar aquela cidade.

Fiz amigos que guardo até hoje.

Participei da comunidade.

Voltei a servir na igreja.

Começava novamente a criar raízes.

Mas seis meses depois outra ruptura bateu à porta.

Joane voltou para Campina Grande com Tiago para passar o Natal.

E decidiu não retornar.

Não houve briga.

Não houve escândalo.

Apenas a decisão de permanecer.

Eu fiquei sozinho.

Foi a primeira vez que senti o peso verdadeiro da palavra solidão.

Era dezembro de 1986.

Uma cidade pequena.

Todo mundo sabia da minha história.

Pensei que seria rejeitado.

Aconteceu exatamente o contrário.

Poções me acolheu.

Nunca esquecerei o carinho daquele povo.

Às vezes uma cidade inteira pode abraçar alguém.

Meses depois consegui transferência para Remígio, na Paraíba.

Outra despedida.

Outra mudança.

Outra parte de mim ficando para trás.

A vida começava a me ensinar que pessoas e lugares podem morar dentro da gente mesmo quando deixamos de morar neles.

Os anos passaram.

Vieram outros filhos.

Rodrigo e Priscila. Minha família crescia.

Meu trabalho também.

Mas as rupturas continuavam me acompanhando.

Em 1997 participei de um congresso no Rio de Janeiro.

Foi ali que conheci Cristina.

Voltei apaixonado.

Hoje olho para trás e vejo o quanto a paixão pode nos tornar impulsivos.

Ela nos faz acreditar que todos os riscos valem a pena.

Alguns realmente valem.

Outros cobram um preço muito alto.

A paixão por Cristina me levou a uma das decisões mais difíceis da minha vida.

Em 1999 deixei Campina Grande.

Deixei meus pais.

Deixei meus três filhos pequenos.

Deixei amigos.

Deixei uma cidade onde eu era feliz.

Fui para Brasília.

Mais uma vez guiado pelo amor.

Nunca gostei de fazer mudanças olhando para trás.

Sempre carreguei comigo a esperança de que o futuro compensaria as perdas.

Brasília representou um recomeço.

Uma nova casa.

Um novo trabalho.

Uma nova família.

Mais tarde nasceu João Gabriel.

Meu quarto filho. Fruto desse amor por Cristina. 

E, quando ele chegou ao mundo antes da hora e precisou lutar pela vida numa UTI Neonatal, nasceu também outra parte importante de mim.

Enquanto ele lutava para respirar, eu lutava para compreender aquele momento.

Escrevi.

Sem imaginar que daquele texto nasceria o Bode com Farinha.

Meu blog.

O lugar onde passei a transformar dores em palavras.

Ali descobri uma coisa que me acompanharia para sempre.

Sempre que a vida me feria, eu respondia criando alguma coisa.

Esse talvez tenha sido o maior aprendizado daqueles anos.

Percebi que a vida não nos pergunta se queremos mudar.

Ela simplesmente muda.

E cabe a nós decidir se faremos dessas mudanças um motivo para endurecer o coração ou uma oportunidade para ampliar a alma.

Eu escolhi ampliar a alma.

Nem sempre consegui.

Mas nunca deixei de tentar.

EPITÁFIO I - Aos meus netos (Ricardo de Faria Barros, seu avô, psicólogo e amante da vida e do viver)


"Não escrevi estas páginas para que vocês admirem a minha vida. Escrevi para que descubram que a de vocês também pode ser extraordinária."
 
Quem foi o homem chamado Ricardinho
Se vocês estão lendo estas páginas, provavelmente eu já fui embora.
Talvez vocês tenham encontrado este livro numa estante. Talvez dentro de uma caixa antiga, junto com fotografias amareladas, alguns discos de vinil, cartas, cadernos ou objetos que decidiram guardar porque lembravam o avô de vocês.
Espero que não tenham sentido tristeza ao encontrá-lo.
Prefiro que sintam curiosidade.

A curiosidade sempre foi uma das minhas maiores companheiras.
Aliás, acho que ela foi quem me manteve jovem durante toda a vida.
Quero que vocês conheçam o homem que fui.
Não apenas o avô que fazia fotografias e dizia que "a última era a histórica".

Não apenas o escritor.
Nem o psicólogo.
Nem o bancário.
Quero que conheçam o menino.

Porque acredito que existe um menino dentro de todo velho.
O meu nunca foi embora.
Continuou fazendo perguntas até o último dia.

Meu nome é Ricardo de Faria Barros.
Mas pouca gente me chamava assim.
Na infância era Ricardinho.
Depois virei Ricardim.

Sempre gostei mais desses apelidos.
Tinham cheiro de casa.
Cheiro de família.
Cheiro de afeto.
Nasci em Campina Grande, na Paraíba.
Mas costumo dizer que, na verdade, nasci em duas paisagens.
O sertão.
E o mar.
Meu pai, Evandy, nasceu em Juazeirinho, sertão da Paraíba.
Minha mãe, Denise, nasceu em Serra Negra do Norte, sertão do Rio Grande do Norte.
São os bisavós paternos de vocês.
Os pais de minha mãe migraram para João Pessoa.
Então, a minha infância era dividida entre dois mundos completamente diferentes.
Nas férias de junho eu seguia para o sertão.
Nas férias de janeiro eu corria para a praia.

Foi assim que cresci.
Metade poeira.
Metade maresia.
Sou sertão e mar.
Do sertão herdei a resistência.
A simplicidade.
A capacidade de repartir.
A força de continuar mesmo quando quase nada parecia possível.
Do mar herdei a contemplação.
O gosto pelos pores do sol.
O som das ondas.

A sensação de que Deus gosta de conversar olhando para o horizonte.
Talvez por isso eu nunca tenha conseguido escolher entre um e outro.
Eles moram juntos dentro de mim.
Meus pais nunca tiveram grandes riquezas. Eram trabalhadores do SENAI.
Mas me deixaram uma herança que vale mais do que qualquer patrimônio.
Meu pai tinha um hábito curioso.
Quando entrava em qualquer lugar, procurava primeiro o que havia de bom.
Nunca começava reclamando.
Nunca fazia da crítica um modo de existir.
Ele enxergava beleza onde muita gente só via defeitos.
Sem perceber, aprendi a fazer igual.

Acho que foi isso que me tornou um homem otimista.

Não um otimista ingênuo.
Mas alguém que acredita que quase tudo pode ser visto por mais de uma janela.
Mamãe tinha o hábito de ler, de se atualizar, de ter curiosidade pela vida e de cultivar uma fé muito
bonita. Ela dizia que rezva um mistério para mim, porque eu era o filho mais sofrido. Segundo ela.
Acho que por conta dos descaminhos amorosos.
Aprendi com meu pai a abrir as janelas, aquelas por onde entravam mais luz.
Com minha mãe, que não existe impossível, quando se é esforçado e orante.
Levei isso para o trabalho.
Para os relacionamentos.
Para a educação dos filhos.
Para os textos.
Para a política.
Para a fé.
Para a velhice.
Quando alguma coisa dava errado, eu perguntava:

— O que ainda ficou de bom aqui?

Ou me ajoelhava, sileciosamente, eu apenas acolhia o momento, dizendo pra mim mesmo, amanhã será melhor e isso também passará.

Essa pergunta me salvou muitas vezes.

Minha mãe me ensinou outra coisa.

A ternura.
Ela sempre cuidou das pessoas.
Mesmo quando o corpo já não ajudava.
Anos depois a vida me deu o privilégio de cuidar dela também.
Descobri que existe um momento em que os filhos devolvem aos pais um pouco do amor que receberam.
E isso não pesa.
Pelo contrário. É um privilégio. 
É uma forma bonita de agradecer.
Desde pequeno fui um menino curioso.
Gostava de desmontar brinquedos.

Gostava de perguntar.
Gostava de descobrir como as coisas funcionavam.
Nunca fui considerado um gênio.
Nem me considero inteligente.
Acho que fui, acima de tudo, estudioso.
Persistente.
Se não aprendia na primeira vez, tentava de novo.
Depois outra.
Mais outra.
Até entender.
Essa talvez tenha sido minha maior qualidade.

Nunca tive vergonha de não saber.
Sempre tive vergonha de desistir antes de aprender.
Na adolescência descobri outra paixão.
A informática.
Hoje isso parece comum.
Mas quando eu tinha dezessete anos quase ninguém tinha computador.
Mesmo assim aprendi a programar num CP-500 da Prológica.
Escrevia programas em BASIC.
Achava fascinante conversar com uma máquina por meio de comandos.
Mal imaginava que décadas depois conversaria com pessoas do mundo inteiro pela internet.
Sempre gostei da tecnologia.
Mas nunca por causa da tecnologia.
Gostava porque ela aproximava pessoas.
Era uma ponte.
Nunca um fim.
Também gostava de colecionar.
Colecionei selos.
Depois decalques de carros.
Mais tarde discos de vinil.
CDs.
Fitas cassete.
Livros.
Fotografias.
Histórias.
Talvez eu tenha sido um colecionador de memórias.

Espero que, quando encontrarem minha coleção de vinis, não tenham pressa em se desfazer dela.
Cada disco guarda um pedaço da minha juventude.
Cada capa tem cheiro de uma época.
Cada música me leva de volta para algum lugar onde fui feliz.
Outra paixão minha sempre foi fotografar.

Gostava de reunir a família.
Organizar todo mundo.
Esperar o melhor sorriso.
E quando todos achavam que a sessão tinha terminado, eu dizia:
— Agora a última...
A histórica!
Todo mundo ria.
Mas hoje percebo que todas eram históricas.
Porque fotografias congelam instantes que nunca mais voltarão.
Elas ajudam a memória.
Talvez por isso eu tenha fotografado tanto.
Na juventude sofri um grave acidente de moto.

Fiquei com uma certa amnésia.
Descobri que fotografar também era uma maneira de guardar aquilo que o tempo poderia apagar.

Nunca fui bom jogador de futebol.
Mas gostava de jogar.

Aprendi cedo que não precisamos ser excelentes para sentir alegria fazendo alguma coisa.

Também nadei.
Corri.
Andei muito de bicicleta.
Pratiquei corrida de rua já depois dos sessenta anos.

Joguei xadrez.
Criei cabras.
Galinhas.
Abelhas.
Cachorros.
Peixes ornamentais.
Fiz jardinagem.

Construí pomares.
Plantei árvores.
Construí duas casas para morar.
Curiosamente, não permaneci em nenhuma delas.
A vida acabou me levando para outros lugares.
Hoje penso que casas são construídas com tijolos.

Mas lar é construído com pessoas.
Sempre gostei mais de feira livre do que de shopping center.

Na feira tudo conversa.
As frutas.
Os cheiros.
Os sotaques.
Os vendedores.
Os fregueses.
Fiz grandes amizades com feirantes.
Com garçons.
Com cozinheiros.
Com gente simples.
Aprendi que sabedoria não mora apenas nas universidades.

Ela também mora atrás de uma banca de verduras.
Num balcão de padaria.
Na cozinha de um restaurante.
Na sombra de uma árvore.
Também gostava das coisas simples.
Dormir numa rede depois do almoço.
Andar descalço.
Olhar a lua cheia.
Ver o nascer do sol.
Esperar o pôr do sol.
Escutar o barulho das ondas quebrando na praia.
Observar um canário pousar na janela.
Parar para admirar uma flor.
Sempre achei que Deus gostava de falar baixinho.
E quase sempre escolhia a natureza para isso.
Nunca gostei de brigas.
Nem de intrigas.
Nem de conflitos.
Sempre achei que a vida já nos oferece dificuldades suficientes.

Não precisamos fabricar outras.
Também nunca fui radical.

Minha fé sempre esteve em Jesus Cristo.
Tenho um carinho enorme por Maria Santíssima e por Santa Teresinha.

Mas nunca gostei de fanatismos.
Nem religiosos.
Nem políticos.
Nem esportivos.
Nem culturais.
Sempre me senti mais confortável construindo pontes do que levantando muros.

Respeitei pessoas de diferentes crenças.
Diferentes culturas.
Diferentes orientações sexuais.
Diferentes formas de enxergar o mundo.
Nunca achei que alguém precisasse pensar igual a mim para merecer meu respeito.

Gostava de música.
De praticamente todos os estilos.

Gostava de filmes.
De viajar de carro.

Conheci todas as capitais brasileiras.
Amo profundamente este país.
Aprendi que o Brasil é muito maior do que as manchetes dos jornais.
O Brasil mora nas feiras.
Nas cozinhas.
Nos pescadores.
Nos sertanejos.
Nos caminhoneiros.
Nas rendeiras.
Nos garçons.
Nos agricultores.
Nas pessoas comuns.
Foram elas que mais me ensinaram.
Gostava de cozinhar.
Inventava receitas.
Misturava ingredientes.
Seus pais chamavam essas experiências culinárias de "gorbachos".
Eu ria.
Nem sempre ficavam bonitas.
Mas quase sempre ficavam saborosas.
Assim também foi minha vida.
Nem sempre perfeita.
Mas intensamente vivida.
E, se eu pudesse resumir quem fui ainda menino, diria apenas isto:
Nunca procurei uma vida perfeita.
Procurei uma vida curiosa.
Porque descobri muito cedo que quem continua curioso nunca envelhece por inteiro.

Crônicas Anteriores