A época dos emudecidos (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

Acordei hoje com uma saudade sem endereço certo. Ficou rondando a casa a manhã inteira, feito cheiro de café coado que já não existe mais na cozinha.

Era o tempo do Orkut.

Tinha um tópico chamado Receitas Fáceis. Não era meu, mas eu me inscrevi nele e participava ativamente. Simples assim, sem frescura no nome. E ali dentro a gente trocava muito mais do que ingredientes. Trocava tardes, risadas e aquele tipo de atenção que hoje parece artigo de luxo. Ali rolava de tudo, até noite de São João teve, com direito a quadrilha improvisada e animação que atravessava a madrugada.

Foi lá que conheci a arquiteta Aurora Takiochi, de São Paulo. Um dia contei a ela sobre um terreno e um sonho de casa. Ela nunca havia pisado no meu quintal. Não me conhecia de nada. Mas pegou aquela ideia solta que eu lhe dei, ainda torta, cheia de lacunas, e me devolveu, com uma solidariedade que eu nem havia pedido, um croqui.

Era um desenho de casa nascido de conversa, não de planta baixa.

Depois foi meu pai quem traduziu aquele papel em parede, telhado e vida morada. Isso hoje soa quase como milagre. Naquela época, era apenas uma terça-feira.

Conheci também a Angela, de Aracaju. Com ela e mais uma trupe de gente que só existia ali dentro da tela, eu tocava, à distância, um boteco chamado Mói de Liso. Cada um entrava com seu pedido de música para um garçom de bigode, que existia apenas na nossa imaginação coletiva e, por isso mesmo, era mais real do que muito garçom de carne e osso que já me serviu cerveja.

A gente ria como ri quem está sentado ao redor de uma mesa. Só que a mesa era um fórum de internet discada.

Não sei precisar quando o silêncio entrou.

Foi devagar, como toda enchente que primeiro molha apenas o pé da porta.

Hoje entro em grupos e comunidades de WhatsApp. Entro até na do sangue do meu sangue, na da minha própria família, e vejo o mesmo fenômeno: gente lendo, ninguém respondendo. Um bom-dia com balãozinho. Uma imagem de flor dentro de uma moldura dourada. E depois, o vazio.

Como se todo mundo tivesse combinado, sem combinar, de emudecer.

E não é falta de gente na roda. É excesso.

São tantas as portas abertas ao mesmo tempo, como X, Facebook, Youtube, Instagram, TikTok e o próprio Zap, que a gente vai rolando de uma para outra sem pousar em nenhuma. Lê e não interage. Não fala. Não se coloca. Apenas olha.

Depois volta para sua arquibancada particular, de onde fica assistindo a tela rolar a tela, infinitamente, feito quem compra ingresso para o jogo e passa o tempo inteiro de costas para o campo. Tal qual o time da Argentina fez, na comemoração da Copa. 

Confesso que sinto falta.

Sinto mesmo, e não tenho vergonha de dizer.

Gosto de um papo. De uma prosa que empaca, volta, ri de si mesma e depois continua. Sinto falta daquele ambiente de conversa que o Orkut tinha e que ninguém, nem o Facebook com toda a sua força, conseguiu repetir.

Virei órfão de uma coisa que nem tem nome direito.

Órfão do diálogo. Órfão da boa prosa. Órfão da certeza de que, do outro lado da tela, existe alguém com a vida pulsando, e não apenas um perfil.

E essa falta aperta mais porque, aos 61, moro sozinho.

Tenho minhas plantas para regar de manhã e ainda não decidi entre um aquário ou um cachorro para dividir a casa. Nesse silêncio de morar só, um bom-dia de verdade, com resposta e continuação, pesa diferente. Faz falta de um jeito que talvez ninguém que more acompanhado consiga perceber por inteiro.

O que será que aconteceu com o diálogo? O que aconteceu com a gente?

Acho que a tela, com tantos estímulos disputando um segundo da nossa atenção, drenou uma bateria que a gente nem sabia que existia: a bateria social. E então não sobra energia nem para uma interação breve. Um ok. Um joinha. Umas palmas de emoji.

E para por aí. Parece que gastar mais do que isso vai deixar a bateria no vermelho.

Eu costumo postar texto, vídeo, foto, coisa bonita que encontro pelo meio do caminho. E já me acostumei com o silêncio que vem depois. Não digo que gosto. Digo que me acostumei, o que é bem diferente de fazer as pazes com a situação.

Porque reparei numa coisa curiosa: para a treta, o povo sai correndo da arquibancada. Para discutir política, gol anulado, fofoca de quem fez o quê, aí nasce debate longo, cheio de gente querendo provar quem está certo.

O silêncio, ao que parece, não é uma regra geral. É seletivo.  Mas eu prefiro desafinar essa partitura de silêncio. Continuo postando. Continuo buscando interação. Continuo oferecendo o que acho bom, belo e virtuoso, porque não quero me tornar mais um emudecido diante daquilo que ainda merece ser dito.

Desconfio de uma coisa nesses tempos tão vorazes e velozes: o maior tesouro de hoje já não é dinheiro nem fama.

É doar e receber TAC, essa combinação de Tempo, Atenção e Carinho.

Quem investe tempo numa relação, quem presta atenção de verdade no que o outro precisa e espera, quem ainda tem carinho de sobra para oferecer sem a pressa de passar para o próximo estímulo da tela... essa pessoa virou raridade.

E quem recebe um TAC desses sabe: comeu manjar dos deuses.

Ser doador de TAC é remar contra a maré de telas. É o gesto pequeno de quem não quer virar mais um emudecido nessa epidemia de solidão que mora em casa cheia, rua lotada, tela acesa.


Ontem mandei pro grupo da família uma cópia do meu livro novo, "O Menino que Aprendeu a Olhar" Somos dezoito ali dentro. Postei ontem às 14h40. Hoje de manhã, nove e meia, contei de novo: um único retorno. Não vou chamar isso de sofrência, nem de carência, nem de drama. É só constatação. E constatação triste é a pior de todas, porque não pede colo: pede só que a gente admita o que está vendo.

Mas eu convivi com o outro jeito de partilhar vidas e histórias. De interagir, estando verdadeiramente presente e inteiro. 

Sei que aquele momento, intenso de interação, sob a égide do Orkut, existiu. Tenho até pendurado na parede da memória, um croqui de casa desenhado por quem nunca viu meu rosto. E ainda guardo o gosto da música pedida a um garçom de mentirinha que fazia aquele boteco parecer de verdade.

Aquilo era interação de corpo inteiro, mesmo sem corpo algum ali.

A gente demorava. E era bom demorar.

Não escrevo isso por saudosismo bobo, como quem só sabe olhar para o espelho retrovisor. Escrevo porque desconfio que a gente perdeu o jeito de ficar, não o jeito de se conectar.

Conexão a gente tem de sobra. O sinal chega em toda parte.

Ficar é que ninguém mais fica.

Às vezes penso se essa geração inteira de telas vai sentir, um dia, a mesma falta que sinto hoje. A falta de um tópico chamado qualquer coisa, onde gente desconhecida virava gente da vida.

Se você foi do Orkut, sabe do que estou falando. Se não foi, deixo apenas uma pergunta, sem cobrança de resposta, o que já seria uma ironia digna do assunto:

O que será que drenou tanto a nossa vontade de conversar, a ponto de um joinha parecer energia suficiente para sustentar uma conexão verdadeira?


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