EPITÁFIO II - Aos meus netos (Ricardo de Faria Barros, seu avô, psicólogo e amante da vida e do viver)
Se no primeiro capítulo contei quem eu era, agora quero contar como a vida foi me transformando.
Hoje, olhando para trás, percebo que minha história foi marcada por rupturas.
Não gosto dessa palavra. Ela parece dura demais.
Mas talvez seja a que melhor descreva o que vivi.
Houve momentos em que um ciclo terminou tão de repente que parecia impossível acreditar que outro pudesse começar.
Na época eu enxergava apenas a perda.
Hoje consigo enxergar também o nascimento.
Aprendi que quase toda ruptura é também um parto.
Alguma coisa termina para que outra possa nascer.
A primeira grande ruptura aconteceu quando eu tinha quinze anos.
Naquela época eu queria ser padre.
Não era uma vontade passageira.
Era um sonho verdadeiro.
Passei a frequentar o seminário menor.
Nos finais de semana seguíamos para a Comunidade São Sebastião, no bairro do Alto Branco, em Campina Grande.
Ali aprendi muito mais do que doutrina.
Aprendi a ouvir as pessoas.
Aprendi a visitar famílias.
Aprendi a preparar catequese.
Aprendi a comentar o Evangelho.
Aprendi que a fé pode ser simples.
Eu era feliz.
Achava que aquele seria meu caminho.
Mas Deus também fala através dos afetos.
E um dia conheci Diene.
Ela participava do JORENAC, um dos grupos de jovens que eu frequentava.
Foi meu primeiro grande amor.
Com ela descobri um mundo completamente novo.
Descobri a beleza feminina.
A delicadeza.
O carinho.
A alegria de caminhar ao lado de alguém.
A intensidade daquele amor fez ruir o sonho do sacerdócio.
Saí do seminário.
Sem grandes planejamentos.
Sem muita reflexão.
Saí porque meu coração apontava outra direção.
Hoje não vejo aquilo como um erro.
Vejo como uma escolha.
Foi ali que compreendi que viver também significa renunciar.
Cada "sim" que damos também contém um "não".
Nunca mais voltei a vestir a batina.
Mas nunca deixei a fé.
Ela apenas mudou de roupa.
Pouco tempo depois também terminei o namoro com Diene.
Até hoje não sei explicar direito.
Na época achei que tinha deixado de amá-la.
Anos depois percebi que eu era apenas um rapaz muito jovem tentando entender os próprios sentimentos.
Não guardo culpa.
Guardo gratidão.
Diene foi a mulher que me apresentou ao amor.
Sempre que penso nela lembro da leveza da juventude.
Algumas pessoas passam por nossa vida apenas para inaugurar sentimentos.
Ela fez isso comigo.
Depois veio Joane.
Com ela aconteceu outra ruptura gigantesca.
Eu tinha apenas dezenove anos.
Vivíamos um namoro cheio de sonhos quando recebemos uma notícia inesperada.
Ela estava grávida.
Meu filho Tiago estava chegando.
Naquele instante deixei de ser apenas um jovem.
Nasceram, ao mesmo tempo, um pai e um marido.
Num dia eu estava dando aulas de religião e frequentando a universidade.
No outro pesquisava preço de fraldas, aprendia a administrar um orçamento apertado e montava minha primeira casa com a ajuda generosa dos meus pais.
A juventude ficou para trás.
A vida adulta chegou sem pedir licença.
Aprendi cedo que a responsabilidade também amadurece as pessoas.
Em julho de 1986 aconteceu outra mudança importante.
Entrei para o Banco do Brasil.
Vocês já sabem que tudo começou por causa de uma bicicleta.
Mas o que talvez não saibam é que aquele concurso mudaria completamente o rumo da minha história.
Poucos meses depois fui transferido para Poções, no interior da Bahia.
Foi minha primeira grande viagem para longe de casa.
Mais de mil e quinhentos quilômetros separavam Campina Grande da pequena cidade onde eu iria trabalhar.
Ali deixei outra parte de mim.
Meus pais.
Meus irmãos.
Minha cidade.
Os amigos.
As referências.
Tudo.
Levei apenas minha pequena família e uma enorme vontade de acertar.
Poções me recebeu de braços abertos.
Aprendi a amar aquela cidade.
Fiz amigos que guardo até hoje.
Participei da comunidade.
Voltei a servir na igreja.
Começava novamente a criar raízes.
Mas seis meses depois outra ruptura bateu à porta.
Joane voltou para Campina Grande com Tiago para passar o Natal.
E decidiu não retornar.
Não houve briga.
Não houve escândalo.
Apenas a decisão de permanecer.
Eu fiquei sozinho.
Foi a primeira vez que senti o peso verdadeiro da palavra solidão.
Era dezembro de 1986.
Uma cidade pequena.
Todo mundo sabia da minha história.
Pensei que seria rejeitado.
Aconteceu exatamente o contrário.
Poções me acolheu.
Nunca esquecerei o carinho daquele povo.
Às vezes uma cidade inteira pode abraçar alguém.
Meses depois consegui transferência para Remígio, na Paraíba.
Outra despedida.
Outra mudança.
Outra parte de mim ficando para trás.
A vida começava a me ensinar que pessoas e lugares podem morar dentro da gente mesmo quando deixamos de morar neles.
Os anos passaram.
Vieram outros filhos.
Rodrigo e Priscila. Minha família crescia.
Meu trabalho também.
Mas as rupturas continuavam me acompanhando.
Em 1997 participei de um congresso no Rio de Janeiro.
Foi ali que conheci Cristina.
Voltei apaixonado.
Hoje olho para trás e vejo o quanto a paixão pode nos tornar impulsivos.
Ela nos faz acreditar que todos os riscos valem a pena.
Alguns realmente valem.
Outros cobram um preço muito alto.
A paixão por Cristina me levou a uma das decisões mais difíceis da minha vida.
Em 1999 deixei Campina Grande.
Deixei meus pais.
Deixei meus três filhos pequenos.
Deixei amigos.
Deixei uma cidade onde eu era feliz.
Fui para Brasília.
Mais uma vez guiado pelo amor.
Nunca gostei de fazer mudanças olhando para trás.
Sempre carreguei comigo a esperança de que o futuro compensaria as perdas.
Brasília representou um recomeço.
Uma nova casa.
Um novo trabalho.
Uma nova família.
Mais tarde nasceu João Gabriel.
Meu quarto filho. Fruto desse amor por Cristina.
E, quando ele chegou ao mundo antes da hora e precisou lutar pela vida numa UTI Neonatal, nasceu também outra parte importante de mim.
Enquanto ele lutava para respirar, eu lutava para compreender aquele momento.
Escrevi.
Sem imaginar que daquele texto nasceria o Bode com Farinha.
Meu blog.
O lugar onde passei a transformar dores em palavras.
Ali descobri uma coisa que me acompanharia para sempre.
Sempre que a vida me feria, eu respondia criando alguma coisa.
Esse talvez tenha sido o maior aprendizado daqueles anos.
Percebi que a vida não nos pergunta se queremos mudar.
Ela simplesmente muda.
E cabe a nós decidir se faremos dessas mudanças um motivo para endurecer o coração ou uma oportunidade para ampliar a alma.
Eu escolhi ampliar a alma.
Nem sempre consegui.
Mas nunca deixei de tentar.
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