Quem nos toma a liberdade? (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Aviso aos Navegantes: Este texto não é sobre Xuxa, ou Jovino, é sobre o Idadismo no Mundo Longevo. 

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Hoje aconteceu uma coisa curiosa.

Descobri, pelo algoritmo fofoqueiro do Instagram, que a Xuxa estava estreando turnê de despedida. Vídeo atrás de vídeo. Gente rindo, debochando, medindo o corpo dela como quem mede terreno alheio. Fui ver a tal polêmica.

Vi uma mulher de 63 anos abrindo "O Último Voo da Nave", show de despedida da nave que a acompanhou por décadas, num estádio lotado em São Paulo. Vi gente que hoje está na casa dos 35, 40, 45 anos, cantando "Ilariê" com a mesma voz de criança que aprendeu aquilo há trinta anos. Gente que cresceu vendo aquela mulher e que, naquela noite, voltou a ser criança por duas horas.

Só isso.

No mesmo dia, outra notícia. Jovino Pereira Neto, 78 anos, aposentado, morador de Palhoça, em Santa Catarina, viúvo havia dois anos e cinco meses. Recebeu uma mensagem de Lineth Sousa, professora, pelo Facebook. Conversaram menos de um mês. Numa manhã de 15 de julho, entrou no carro sozinho e dirigiu mais de três mil quilômetros, sete dias de estrada, até um povoado chamado Cajazeiras, no Maranhão, para conhecê-la.

Bonita, a história. Mas tinha um detalhe que me incomodou mais do que tudo o que li sobre a Xuxa.

Ele saiu escondido. Não contou aos filhos. Não avisou aos netos. Disse depois, já instalado no Maranhão: "se eu tivesse falado do meu desejo, com certeza iam me proibir." Fugiu de casa aos 78 anos para viver um amor, como se amar fosse travessura de adolescente pega em falta.

E aí entendi que eu tinha ido atrás do assunto errado.

Não é sobre a roupa da Xuxa. Não é sobre o juízo que se faz do Jovino. É sobre o que essas duas histórias, juntas, denunciam: uma sociedade que sabe lidar muito bem com idoso doente, idoso quieto, idoso agradecido por ainda estar aqui. E não sabe o que fazer com idoso vivo.

Vivo de verdade. Que dança pra estádio lotado. Que namora. Que erra o passo. Que fica com vergonha, se declara, apanha um fora, tenta de novo, dirige sete dias atrás de um "amor à primeira vista", nas palavras dele mesmo.

Lá em casa, quando eu era menino em Campina Grande, os mais velhos tinham um lugar certo: a cadeira na varanda, o rosário na mão, o silêncio de quem já viveu tudo o que tinha para viver. Era um lugar de respeito. Mas também era, sem que ninguém percebesse, uma sentença.

A gente aprendeu, sem querer aprender, que existe idade para trabalhar, idade para criar filho e, depois de uma certa hora, idade para desaparecer de mansinho. E quando o idoso não desaparece, quando ele sobe no palco ou atravessa o país por amor, a sociedade estranha. Porque ele furou o roteiro que escreveram para ele sem perguntar se ele concordava. Esse idoso, ou idosa está desafinando no coro dos contentes. 

Chamo isso de longelescência: essa segunda adolescência que a longevidade trouxe. A mesma fome de aprender coisa nova, a mesma vontade de pertencer a um grupo, a mesma inquietação do corpo que muda e ainda quer dançar, e sim, também o mesmo medo de ser julgado por isso. Só que agora, em vez de mãe e pai vigiando o horário de chegar em casa, é o Brasil inteiro comentando embaixo do vídeo.

O senhor não fugiu porque estava errando. Fugiu porque tinha certeza do que ia ouvir se contasse.

E isso deveria nos envergonhar mais do que qualquer roupa curta.

Eu, que sou psicólogo e que aprendi com Frankl que a vida cobra sentido até o último dia, digo sem meias palavras: envelhecer não é sair de cena. É continuar escrevendo, só que com letra mais trêmula e mais corajosa. E quem tem fé, como eu tenho, sabe que a vida foi feita para ser vivida inteira, não guardada num armário de bom comportamento à espera do fim.  

Mas eu preciso dizer uma coisa a nós, os longevos. Porque essa história não se resolve só com indignação lida em silêncio.

Existe hoje uma ideologia dominante, e ela é mais educada do que o preconceito de antigamente, mais bem vestida, mais sorridente. Ela não grita "vá pra dentro de casa, velho". Ela diz "descanse, você já fez sua parte". Não diz "cale a boca". Diz "não se exponha assim, na sua idade". E o mais perigoso: ela nos aceita bem quando a gente coopera. Somos bem-vindos quando somos discretos. Bem-vindos quando ajudamos a criar neto sem reclamar. Bem-vindos quando abrimos a poupança pros filhos e fechamos a boca sobre nossos próprios planos. Bem-vindos quando somos fonte de recurso e não fonte de vontade própria.

Essa é a nova aposentadoria que nos oferecem. Não é a das contas em dia. É a aposentadoria do desejo.

Pois eu não aceito.

E convido você, que está lendo isso com seus 60, 70, 80 anos, a também não aceitar.

Não é hora de nos curvarmos. É hora de abrir caminho, e caminho aberto por longevo não se pede licença pra fazer, se faz andando, com bengala, com fôlego curto, do jeito que der, do jeito que o Jovino fez, sete dias de estrada, dormindo uma noite dentro do próprio carro, se perdendo no caminho e recebendo ajuda de um caminhoneiro desconhecido, porque a vontade de recomeçar era maior que o medo de errar. Se a sociedade quer nos empurrar de volta pros aposentos do silêncio, a resposta não é discutir educadamente na porta. É continuar vivendo tão alto que a porta perca a função.

Defender longevo é isso: é a Xuxa não pedir desculpas pelo corpo enquanto uma plateia de gente com 35, 40, 45 anos canta com ela como se o tempo não tivesse passado pra nenhum dos dois lados. É o Jovino não ter precisado fugir escondido. É cada um de nós recusando o papel de avô de estampa de calendário, aquele que só existe pra ser bonzinho e dar bênção. Nós temos direito a desejo, a erro, a recomeço, a ridículo até, porque ridículo também é coisa de gente viva.

Ninguém vai defender essa liberdade por nós. Isso a gente já devia ter aprendido faz tempo.

Talvez o maior trabalho da longevidade não seja inventar mais um remédio, nem prometer mais um ano de vida. Talvez seja simples assim: parar de deixar que roubem de nós a liberdade que ainda temos, e impedir que a roubem também dos que vêm depois.

A liberdade não tem validade.

E o verdadeiro sinal de velhice não são as rugas. É o dia em que a gente deixa que os outros decidam por nós como devemos viver, amar e dançar. É o dia em em que acreditarmos que não temos mais direito a novas estreias na vida!

Esse dia, eu me recuso a deixar chegar. Convido você a se recusar também.

15 comentários:

  1. Só tenho uma palavra: " Excelente".

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  2. Também achei positivo e maravilhoso !!!

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  3. Belo texto p refletirmos sobre as ilimitadas possibilidades de viver cada dia com presença sentimento de pertencimento a esse mundo maravilhoso que muitos tentam nos convencer a imobilidalade e apatia...retirando.nos das convivencia feliz....
    Grata

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  4. Parabéns pela mensagem Ricardinho. Me traz lembranças de algumas decisões, que eram fora da realidade de algumas pessoas.

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    1. Não tinha visto por esse ângulo, que é muito pertinente. Valeu mesmo!

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  5. helio toshiaki sayama29 de julho de 2026 às 09:14

    Parabens Ricardo, muito bom. Manter a nossa lucidez, mobilidade e uma reserva financeira necessária para não ficar dependente é tudo que conquistamos numa vida inteira e agora merecemos usufruir de tudo, desatar aquele nó que insiste em nos dizer para economizar, não gastar atoa, porque ninguem sabe do futuro, ora, a gente já chegou na época de contar a idade não pelo que já vivemos mas que nos resta ainda de vida. Vivamos a vida!!!

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    1. Eita amigo, que reflexão poderosa tu fez. Grato por ter compartilhado.

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  6. Viver a vida, intensamente!
    Dia após dia, curtindo cada momento!!
    Cuidando sempre da saúde para que tenhamos mobilidade e independência física e emocional por todo o tempo que estivermos por aqui!
    Gratidão Ricardo, por chamar nossa atenção sobre essa questão!
    Gratidão por compartilhar esses dois exemplos!
    Aproveitando para comentar q sigo na torcida pelo sr. Jovino! 🥰

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