Vivemos na civilização das montanhas.
Mandaram-nos subir.
Subir de cargo.
Subir de salário.
Subir de patrimônio.
Subir de seguidores.
Subir ao pódio.
Subir na vida.
Desde muito cedo aprendemos que o sucesso mora no alto.
E ninguém nos contou uma verdade simples:
Quase ninguém vive nas montanhas.
Os picos são magníficos.
Mas são inabitáveis.
Lá o ar é rarefeito.
A vegetação é escassa.
A água não permanece.
As pessoas apenas passam por eles.
Depois descem.
Porque a vida não acontece nos cumes.
A vida acontece nos vales.
É nos vales que os rios encontram seu caminho.
É nos vales que a terra se torna fértil.
É nos vales que as árvores criam raízes.
É nos vales que se constroem as casas.
É nos vales que as crianças brincam.
É nos vales que os velhos contam histórias.
É nos vales que o pão é repartido.
É nos vales que a vida insiste em florescer.
E existe uma verdade que quase nunca percebemos.
A montanha só é montanha porque existe um vale ao seu redor.
Sem o vale, não haveria cume.
Haveria apenas uma imensa planície.
O vale não é o contrário da montanha.
É aquilo que lhe dá forma.
É ele que desenha sua altura.
É ele que revela sua beleza.
Curiosamente, passamos a admirar a montanha e a desprezar justamente aquilo que a torna possível.
Fizemos o mesmo conosco.
Aprendemos a admirar apenas os momentos em que estamos no alto.
As vitórias.
Os títulos.
Os aplausos.
Os recordes.
Os cargos.
Os troféus.
Mas esquecemos que tudo isso nasce de uma vida comum.
Da mesa do café.
Da conversa com um amigo.
Do abraço na família.
Da caminhada sem destino.
Da corrida sem relógio.
Do beijo demorado.
Da oração silenciosa.
Do trabalho honesto.
Do descanso.
É no vale que criamos raízes para suportar as alturas.
Talvez seja por isso que tantas pessoas chegam ao topo e continuam vazias.
Subiram sem construir um vale onde a alma pudesse morar.
Lembro de um paciente, lá na clínica. Homem de mais de setenta anos, terno bem cortado, currículo do tamanho de uma vida inteira de trabalho. Sentou-se e disse que tinha conquistado tudo o que um dia quis, e não sentia mais nada. Fiquei muito tempo pensando naquela sessão. Ele tinha subido a vida inteira. Só que nunca tinha aprendido a morar em lugar nenhum.
Durante séculos aprendemos a temer os vales.
Talvez porque nos ensinaram apenas a expressão "vale de lágrimas".
E ele existe.
Existem vales de dor.
Vales de perdas.
Vales de despedidas.
Vales de pântanos.
Vales de vegetação tão fechada que mal conseguimos enxergar o próximo passo.
Vales de cachoeiras difíceis de transpor.
Vales habitados por animais peçonhentos, medos antigos e feras que carregamos dentro de nós.
Mas reduzir os vales às lágrimas é uma injustiça.
Há vales de paz.
Vales de mansidão.
Vales de descanso.
Há o vale no colo de uma mãe que embala seu filho.
Há vales feitos de abraços.
De mãos que afagam.
De ombros que acolhem.
De amigos que permanecem.
De silêncios que curam.
Os vales não são apenas lugares por onde passamos.
São lugares onde nos tornamos humanos.
Mais do que isso.
Os vales são caminhos.
Ligam montanhas.
Conduzem rios.
Recebem viajantes.
São embarques e desembarques nas estações da vida.
Quem atravessa um vale nunca permanece exatamente a mesma pessoa.
Hoje, porém, existe uma nova montanha.
Ela não é feita de pedra.
É feita de desempenho.
Vivemos na sociedade da performance.
Tudo precisa ser medido.
Tudo precisa melhorar.
Tudo precisa render.
Tudo precisa superar.
Tudo precisa aparecer.
Até aquilo que nasceu para ser prazer tornou-se competição.
Olhe para a corrida de rua.
Ela nasceu do movimento mais natural do ser humano.
Correr.
Correr porque o corpo pede.
Correr porque o vento faz bem.
Correr para conversar.
Correr para pensar.
Correr para ver o amanhecer.
Hoje muita gente corre olhando mais para o relógio do que para o horizonte.
O pace.
O VO₂.
A frequência cardíaca.
A planilha.
O RP.
A próxima medalha.
A próxima prova.
O próximo desafio.
Sem perceber, deixamos de correr.
Passamos a perseguir números.
A corrida deixa de ser um encontro com o corpo.
Transforma-se em julgamento do corpo.
O mesmo acontece na academia.
No ciclismo.
Na natação.
Nas trilhas.
Até caminhar parece exigir um aplicativo.
Até descansar virou meta.
Dormimos para produzir mais.
Meditamos para render melhor.
Lemos para performar.
Viajamos para postar.
Abraçamos para fotografar.
Estamos perdendo a capacidade de fazer alguma coisa apenas porque ela é boa de ser vivida.
A sociedade transformou experiências em performances.
O casamento virou performance.
A maternidade virou performance.
A paternidade virou performance.
A espiritualidade virou performance.
A felicidade virou performance.
E o amor...
O amor também virou montanha.
Também ali nos ensinaram a subir.
Transformaram a intimidade em desempenho.
O encontro em performance.
O afeto em resultado.
Parece que tudo precisa ser intenso, extraordinário, inesquecível, como se o amor também tivesse um pódio a conquistar.
E, sem perceber, fomos perdendo a linguagem do vale.
A linguagem dos olhares que permanecem.
Dos silêncios que aproximam.
Do beijo que não tem pressa.
Das mãos que se procuram sem ansiedade.
Da pele que encontra outra pele sem precisar provar nada.
Há o vale das entrecoxas de uma mulher, onde o amor encontra abrigo e, tantas vezes, a própria vida começa.
Da conversa depois.
Do riso compartilhado.
Do cuidado.
Da ternura.
Quando a montanha invade a intimidade, o outro deixa de ser companhia e passa a ser expectativa.
O encontro deixa de ser presença para virar avaliação.
Mas o amor nunca floresceu nos picos da performance.
Floresce nos vales da confiança.
Na liberdade de não precisar impressionar.
Na coragem de simplesmente estar.
Talvez a intimidade mais profunda não aconteça quando duas pessoas tentam alcançar o auge.
Talvez aconteça quando ambas descem das suas montanhas, abandonam as armaduras e caminham, de mãos dadas, pelo mesmo vale.
Porque o amor não é uma escalada.
É uma travessia.
E toda travessia precisa de companhia, não de vencedores.
Descobri isso também correndo.
Minha corrida começou a perder a graça no dia em que deixei de olhar as árvores para olhar o relógio.
O percurso continuava bonito.
O céu permanecia azul.
Os amigos ainda corriam ao meu lado.
O vento continuava tocando meu rosto.
Mas eu já não estava correndo.
Eu estava sendo medido.
E, pior...
Passei a medir a mim mesmo.
Talvez a montanha mais perigosa não seja aquela que escalamos.
Talvez seja a que carregamos dentro da cabeça.
Mesmo quando estamos no vale, continuamos olhando para o pico.
Nunca estamos onde os pés estão.
Sempre estamos onde o ego gostaria de chegar.
É por isso que escrevo este manifesto.
Não contra as montanhas.
Toda vida possui seus cumes.
Celebrar conquistas é bonito.
Realizar sonhos também.
O problema começa quando transformamos o pico em endereço.
Os cumes existem para ampliar nossa visão.
Os vales existem para sustentar nossa vida.
Se um dia eu subir ao pódio, agradecerei.
Tirarei uma fotografia.
Contemplarei a paisagem.
E descerei.
Porque não quero morar no topo.
Minha casa continuará sendo o vale.
Houve um tempo em que eu queria as montanhas.
Toda novidade.
Toda escalada.
Ficava agoniado só de pensar em ficar parado, sem subir nada.
Foi devagar que fui descobrindo a beleza do meu cantinho.
Do meu vale.
A paz de simplesmente habitar nele, sem deixar que a agitação da escalada ocupasse o tempo inteiro de viver.
Fui descobrindo a alegria nas coisas pequenas.
Um café com pão de queijo na lanchonete do Denis.
Uma feijoada com prosa lá no restaurante do Berg.
Um bom dia caloroso, logo cedinho, numa sintonia de assobios entre mim e o porteiro Francisco.
O prazer de arrumar a casa.
De escutar um vinil.
De regar as plantas.
De bater roupa e estender no varal.
De esperar o filho JG, toda quarta-feira.
De ver, da janela do meu quarto, as crianças brincando no parque da praça da esquina, em suas algazarras de infância.
O vale se entranhou no meu viver.
Tirou de mim a rotação alta, a ansiedade com tudo.
Devolveu a contemplação.
A meditação.
O silêncio fecundo dos meus dias.
É ali que mora a paz.
É ali que mora o suficiente.
É ali que mora a conversa demorada.
É ali que mora o abraço sem pressa.
É ali que mora a criança que brinca.
É ali que mora o velho que conta histórias.
É ali que mora a família reunida em volta da mesa.
É ali que mora o amigo que chega sem precisar avisar.
É ali que mora o rio.
É ali que mora Deus.
Talvez a maior ilusão do nosso tempo seja acreditar que a felicidade mora nos picos.
Os picos oferecem momentos.
Os vales oferecem existência.
Os picos emocionam.
Os vales sustentam.
Os picos são fotografias.
Os vales são morada.
Os picos podem ser conquistados.
Os vales precisam ser habitados.
Talvez a maior rebeldia do nosso tempo seja esta:
Ter coragem de viver uma vida suficientemente boa numa sociedade que nunca acha nada suficiente.
Não quero escalar um Everest por dia.
Quero caminhar pelos vales.
Quero conversar sem olhar o relógio.
Quero correr sem que o pace roube a poesia do caminho.
Quero trabalhar sem transformar minha profissão na medida do meu valor.
Quero amar sem transformar o amor numa prova.
Quero envelhecer sem competir com a juventude.
Quero descansar sem sentir culpa.
Quero contemplar sem achar que estou perdendo tempo.
Quero viver sem a obrigação de transformar cada experiência em desempenho.
Porque a vida não é um pódio.
É um vale.
E talvez a verdadeira sabedoria não seja aprender a subir cada vez mais.
Talvez seja aprender a descer.
Descer do orgulho.
Descer da vaidade.
Descer da comparação.
Descer da necessidade permanente de provar alguma coisa.
Descer até onde vivem as pessoas.
Até onde correm os rios.
Até onde a terra produz alimento.
Até onde o abraço encontra morada.
Até onde a esperança continua florescendo.
Porque, no fim, descobri uma verdade que a natureza sempre soube e nós insistimos em esquecer:
A água nunca corre para os picos. Ela sempre escolhe os vales. E é exatamente por isso que os vales nunca deixam de florescer.
Não existe montanha sem vale. Mas pode existir um vale pleno, fértil e feliz sem que ninguém precise conquistar montanha alguma.
Talvez o verdadeiro desenvolvimento humano não seja uma escalada sem fim.
Talvez seja reaprender a habitar os vales.

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