Tome Territocilina! (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Depois de certa idade, a gente começa a conhecer remédio pelo nome.

Um amigo me mandou uma mensagem perguntando se eu conhecia um novo remédio para a memória, à base de mel. Na hora do almoço, outro amigo, setentão, me revelou, entusiasmado, os superpoderes do magnésio.

É assim. Tem remédio pra memória, pra acidez, pro coração, pra alergia. Tem vitamina pra isso, suplemento pra aquilo. Depois dos 60, uma conversa sobre remédio pode começar antes mesmo do bom-dia.

Mas ultimamente tenho tomado e prescrito um medicamento diferente.

A Territocilina.

Não adianta procurar na farmácia. Fui eu que inventei. E, segundo pesquisas realizadas por mim mesmo e por alguns usuários muito satisfeitos, a Territocilina melhora o humor, a atenção, a disposição e até certas emoções positivas que estavam encardidas por falta de uso.

Seu princípio ativo é muito simples: presença humana.

A Territocilina é fabricada quando você vai à feira e faz amizade com o verdureiro. Quando entra na padaria e, além do café e de dois pãezinhos de queijo, toma um dedo de prosa. Quando conversa com o porteiro, com o vizinho, com o barbeiro, com o garçom que já sabe o que você vai pedir.

Ou quando alguém percebe sua ausência e pergunta:

“Você não veio ontem. Aconteceu alguma coisa?”

Pronto. A dose foi aplicada.

Porque, com o passar dos anos, a gente descobre que não cria vínculos apenas com pessoas. Cria vínculos com lugares.

A praça. A igreja. A feira. O clube. A padaria. O parque. O mercado. O botequim da esquina.

São territórios de afeto. Lugares onde, de tanto chegar, conversar, rir e ser reconhecido, vamos deixando um pedaço de nós.


Talvez seja por isso que, quando uma pessoa muda de cidade, não sente falta apenas dos parentes e dos amigos. Sente falta da esquina. Do cheiro da rua. Do café de sempre. Do banco da praça. Do sujeito que vendia frutas. Do porteiro que dizia bom-dia. De gente que talvez nunca tenha entrado em nossa casa, mas entrou em nossa vida.

Esses lugares são verdadeiras farmácias de Territocilina.

E talvez este remédio esteja se tornando cada vez mais necessário porque combate uma das grandes infecções do século 21: a solidão.

Uma infecção curiosa. Ela não se pega no contato. Muitas vezes, pega-se justamente na falta dele.

E o mais engraçado é que a ciência séria, não a minha, anda dizendo a mesma coisa há tempos: vínculo social protege o coração, protege a memória, protege até o sistema imunológico. A diferença é que a pesquisa deles sai em artigo. A minha sai em prosa.

Mas a Territocilina tem outro efeito, descoberto recentemente em nossos laboratórios. Ela é um remédio um pouco rebelde. Talvez até subversivo. Porque combate a privatização da vida e dos espaços públicos.

A gente foi trazendo tudo para dentro de casa. A comida chega em casa. A compra chega em casa. O filme chega em casa. O banco está no celular. O supermercado está no aplicativo. A conversa está na tela. O trabalho entrou pela sala. O mundo inteiro parece caber na palma da mão.

E, quase sem perceber, fomos deixando a cidade para os carros, para os muros, para as cancelas, para os estacionamentos, para os lugares onde é preciso pagar para permanecer. As praças esvaziam. Os clubes perdem gente. As calçadas perdem cadeiras. A rua deixa de ser lugar de convivência e vira apenas lugar de passagem.

Por isso tomar Territocilina é também um pequeno ato de rebeldia. Ocupar a cidade é dizer: eu ainda estou aqui, essa cidade também é minha.


É sentar num banco de praça sem precisar comprar nada. É caminhar no parque. É ir à feira. É conversar depois da missa. É voltar ao clube. É entrar numa biblioteca. É assistir a uma apresentação na praça. É ir à quermesse. É sentar num botequim. Ou simplesmente puxar uma cadeira para a calçada.

Talvez envelhecer bem tenha também um pouco disso: continuar deixando pegadas no mundo.

O problema é que a Territocilina não chega por delivery. Não adianta pedir pelo aplicativo. Também não dá para comprar três caixas e guardar na farmacinha do banheiro. Ela é metabolizada do lado de fora. É preciso algum movimento. É preciso abrir a porta. É preciso se colocar no caminho da vida.

E isso me lembra uma imagem bonita do Vale do Jaguaribe, no Ceará. No final da tarde, depois do calor de lascar, as pessoas colocam cadeiras na frente de casa para esperar o Aracati soprar sertão adentro. Aracati é uma palavra de origem tupi associada aos bons ventos, aos bons tempos, o vento que vem do litoral e avança terra adentro trazendo um pouco de frescor depois de um dia quente.

Mas o Aracati tem uma exigência. É preciso estar lá para recebê-lo. Quem fica dentro de casa perde a lufada.

Talvez a Territocilina seja justamente isso. Um Aracati psicológico. Um vento de bons tempos que sopra quando a gente se coloca novamente no caminho dele. Precisa abrir a porta. Precisa puxar a cadeira pra calçada. Porque há ventos que não entram pela janela. É a gente que precisa sair para encontrá-los.

E existe ainda um efeito colateral muito interessante em quem toma Territocilina com frequência: a pessoa tende a ficar um pouco menos arrogante diante da vida. Menos rabugenta. Menos reclamona. Mais aberta às diferenças.

Porque, quando saímos de casa, encontramos histórias. Encontramos gente que perdeu e recomeçou. Gente que sofreu e continua sorrindo. Gente que está travando batalhas que ninguém conhece. E ouvir essas histórias vai colocando nossos próprios problemas no tamanho deles.

E existe um vírus que a Territocilina previne com eficácia impressionante: a Síndrome de Intolerância à Gente, o SIG. Os sintomas são fáceis de reconhecer: desculpa inventada pra não sair de casa, fixação mórbida pelo sofá ou pela rede, e apatia pra responder a qualquer tipo de interação, inclusive virtual. Em estágio avançado, o SIG evolui pra uma fobia social bem convincente, e a pessoa passa a preferir qualquer tela a qualquer rosto. A boa notícia é que o SIG tem cura simples. Uma dose regular de presença humana já resolve.

Mas meus laboratórios receberam uma reclamação importante:

“E quem não pode sair de casa?”

Pensando nesses casos, acaba de ser desenvolvida a Territocilina Alfa. Mesma substância ativa. Outra forma de aplicação.

Para quem não pode caminhar pelas ruas, uma voltinha de carro pelo bairro, mesmo sem descer, já pode ser uma dose. Abra um pouco a janela. Veja o movimento. Reconheça uma árvore, uma praça, uma igreja, uma esquina antiga. Veja o mundo acontecendo.

E existe outra possibilidade. Se você não pode ir até o território, traga um pouco do território até você. Convide dois ou três amigos. Faça um café. Jogue um carteado. Reze junto. Leia alguma coisa bonita. Conte histórias. Converse sem pressa.

E a bula recomenda não exagerar na organização. Não precisa toalha bonita. Não precisa mesa posta. Não precisa casa impecável. Café e gente já resolvem boa parte da fórmula.

Porque Territocilina Alfa não significa assistir aos outros viverem pela tela. Significa continuar pertencendo ao mundo.

Pode chegar um tempo em que nosso corpo não consiga alcançar certos lugares. Mas os lugares ainda podem chegar até nós. As pessoas podem chegar. As histórias podem chegar. O riso pode chegar. O afeto pode chegar. O mundo pode chegar.

Territocilina e Territocilina Alfa possuem exatamente o mesmo princípio ativo: gente. Gente que olha. Gente que escuta. Gente que conversa. Gente que pergunta. Gente que percebe nossa ausência. Gente que faz a gente sentir que ainda pertence a algum lugar.

Aqui em casa, eu já tenho minhas três doses diárias. E não abro mão de nenhuma.

A primeira é o café com pão de queijo na lanchonete do Denis, sempre puxando conversa.

A segunda é passar na portaria e trocar um bom-dia com o Francisco.

A terceira é a caminhada no fim da tarde, no parque do bosque, vendo a vida se movimentando debaixo daquele vermelho que só o pôr do sol de Brasília sabe pintar.

Então fica a receita.

Enquanto puder, saia. Circule. Ocupe a cidade. Volte à praça. Volte ao clube. Vá à feira. Converse com desconhecidos. Puxe sua cadeira para a calçada.

E, quando as pernas já não permitirem, que alguém puxe a cadeira para perto de você.

Porque o Aracati continua soprando. Os bons ventos continuam passando. A cidade continua lá fora, esperando ser ocupada.

A farmácia está aberta. A receita não vence.

E a Territocilina é tarja verde, liberada para todas as idades, recomendada para uso sem moderação.

Hoje, antes de dormir, eu vou perguntar pra mim mesmo se tomei minha dose. Você já tomou a sua?

Ricardo de Faria Barros, Psicólogo


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