Um homem de setenta e poucos anos amanheceu sem vontade nenhuma de mandar flores para o delegado. Entendedores entenderão. Ele me contou de uma discussão boba com a parceira. Daquelas que, contadas depois, parecem pequenas demais para justificar o estrago.
Mas, enquanto acontecem, crescem. Ocupam a sala, atravessam o corredor, entram no quarto e dormem entre duas pessoas que, até pouco antes, estavam bem. Ele acordou com gosto de guarda-chuva na boca, e foi assim que me contou.
Os dois viviam agora uma espécie de sentença. A punição do silêncio a dois, talvez uma das mais cruéis para quem se ama. Porque não é simplesmente ficar sem falar. É ficar conversando sozinho por dentro. Cada um reconstrói a cena, escolhe suas provas, interpreta o silêncio do outro e vai aumentando a distância sem saber se o outro também sofre do lado de lá.
Setenta e poucos anos, e ainda assim o coração doendo como o de um menino. Isso me tocou. Porque tem gente que acha que numa certa idade a gente já devia estar imune a essas coisas. Não está. E ainda bem que não está.
Ele me perguntou se seria boa ideia mandar flores dali a alguns dias. Não como quem compra perdão numa floricultura. Não como quem diz "eu estava errado em tudo". Muito menos como quem se humilha para ser aceito de volta. Pensava nas flores como quem coloca uma coisa bonita no meio de uma ponte quebrada e diz, sem precisar dizer muito: ainda existe uma ponte aqui.
Achei bonita a pergunta.
Porque depois de uma briga existe uma tentação enorme de ir buscar o chicote. A pessoa começa a se perguntar por que fez aquilo, por que não respondeu de outro jeito, por que deixou a emoção tomar o volante. E quanto mais pensa, mais se castiga. Como se sofrer bastante pudesse voltar no tempo e desfazer o que já aconteceu.
Não desfaz.
E é aqui que um erro costuma abrir a porta para outro erro, maior que o primeiro. O primeiro pode ter sido só uma palavra atravessada. O segundo é transformar essa palavra numa sentença sobre quem somos. O terceiro é concluir que, por termos feito algo ruim, somos gente ruim. E assim uma discussão de uma noite vira condenação de semanas.
Talvez seja aí que mora uma das armadilhas mais silenciosas da vida. Confundir responsabilidade com autopunição.
Responsabilidade olha para o que fizemos e diz: nisso eu poderia ter feito melhor. Autopunição olha para a mesma cena e diz: eu nunca aprendo, eu estrago tudo, eu não presto para viver uma relação. Uma coisa abre caminho. A outra tranca todas as portas por dentro.
Isso vale para muito mais do que uma discussão entre namorados, ou entre dois que se escolheram tarde na vida. Vale para a ruptura de que ainda nos arrependemos, a promoção que não veio, a ausência na vida de um filho ou de um amigo, o esquecimento que virou inesquecível, o eu te amo que chegou tarde, o investimento que virou prejuízo, a decisão tomada com o que sabíamos naquele momento e que hoje, no retrovisor, parece um disparate.
Nada disso precisa virar nosso nome.
São marcas de quem esteve em campo, jogando o jogo de verdade, e continua em campo. Quem viveu, escolheu, amou, arriscou, errou e também acertou carrega algumas cicatrizes. E cicatriz não é sentença. É prova de que a pele fechou.
Sabe do que isso me lembra. Daquelas cerâmicas antigas que a tradição japonesa ensinou a reparar de um jeito que ninguém esquece, o kintsugi. A peça quebra, cai, se estilhaça no chão. E quando volta inteira, volta com as rachaduras preenchidas a ouro, bem à mostra, sem disfarce nenhum.
Ninguém esconde a fratura debaixo de um verniz igualzinho ao original. O ouro entra exatamente onde doeu, e é isso que faz a peça ficar mais preciosa do que era antes de quebrar. Não apesar da rachadura. Por causa dela.
Talvez a gente, quando envelhece direito, vá aprendendo a fazer isso com a própria vida. Não é esconder as rachaduras debaixo do tapete, fingindo que aquele casamento, aquela demissão, aquela palavra dita na hora errada nunca aconteceram. É preencher cada rachadura com alguma coisa que valha ouro. Um aprendizado.
Um perdão dado ou recebido. Uma fé que segurou a barra quando mais nada segurava. A teimosia bonita de continuar sendo, estreando, acontecendo, apesar dos pesares. Cicatriz virada em ouro não é cicatriz escondida. É cicatriz assumida.
Amadurecer, talvez, seja aprender a olhar para essas marcas sem transformar nenhuma delas em identidade. E isso não tem data de validade. Não é tarefa de uma certa fase da vida, é trabalho de todas elas.
Eu errei não quer dizer eu sou um erro.
Eu perdi não quer dizer eu sou um fracasso.
Eu fui rejeitado não quer dizer que sou indigno de amor.
Eu fiz uma escolha ruim não quer dizer que toda escolha minha será ruim.
E, sobretudo, uma relação atravessou uma tempestade não quer dizer, necessariamente, que ela terminou. Nem aos vinte, nem aos setenta.
Tem uma culpa específica que ocorre com certa frequência na longevidade, e que gostaria de nomear aqui. É a culpa que aparece quando a pessoa começa a fazer a revisão da própria vida, coisa que a idade convida a fazer, quase obriga.
Ela olha para trás com mais tempo livre e mais silêncio do que nunca teve, e o passado inteiro fica ali, exposto, como quarto revirado. E é nesse momento que o "e se" entra pela porta dos fundos.
E se eu tivesse ficado no primeiro casamento?
E se eu tivesse feito aquele investimento?
E se eu tivesse dito a verdade naquela hora?
E se eu tivesse pedido perdão antes de ser tarde demais?
O e se é uma prisão sem grades visíveis. Ele não machuca como um soco, machuca como gotejar. Fica ali, pingando, dia após dia, e a pessoa nem percebe que parou de viver o hoje porque está ocupada demais reescrevendo um ontem que não pode ser reescrito. É uma culpa que não corrige nada e ainda cobra juros. Imobiliza. Tira o movimento de quem já tem, muitas vezes, um corpo pedindo justamente o contrário, pedindo para se mexer, para sair de casa, para recomeçar alguma coisa.
E aqui mora uma diferença enorme entre revisar a vida e julgar a vida. Revisar é olhar para trás e colher sentido, mesmo nas partes doloridas, entender o que aquilo ensinou, o que aquilo custou, o que aquilo formou em mim. Julgar é sentar num tribunal interno e ficar repetindo a mesma sentença todos os dias, como se o veredito de ontem precisasse ser lido de novo hoje, e amanhã, e depois de amanhã. A revisão liberta. O julgamento açoita.
Ninguém chega aos setenta, aos oitenta, sem alguns e se guardados na gaveta. Isso não é fracasso, é apenas o preço de ter vivido bastante. Mas guardar não é o mesmo que abrir a gaveta toda tarde para se cortar de novo nos mesmos cacos. Cacos, aliás, também podem virar kintsugi. Só precisam de ouro, não de mais corte.
Aprendi, na clínica e na vida, que entre o que nos aconteceu e o que fazemos com aquilo existe sempre um respiro. Pequeno às vezes, quase invisível, mas nosso. É nesse respiro que a gente escolhe se vai virar prisioneiro do próprio erro ou autor da própria resposta a ele.
Ninguém escolhe o que já foi. Mas todo mundo escolhe o que aquilo vai significar dali para frente, em qualquer idade que esteja.
Algumas coisas precisam de tempo. Algumas conversas só acontecem depois que a temperatura baixa. Alguns pedidos de desculpa precisam ser feitos sem uma única justificativa junto. Algumas flores podem ser entregues sem discurso, só como gesto de delicadeza. E algumas portas, mesmo depois da tempestade, seguem entreabertas.
Mas existe uma sabedoria importante em tudo isso. Não dá para obrigar o outro a atravessar a ponte com a gente. Dá para construir o nosso lado dela. E esperar.
O homem que me contou essa história ainda não sabia se mandaria as flores. Talvez mandasse. Talvez esperasse mais um pouco. Talvez descobrisse outro jeito de reabrir o diálogo.
Eu só disse uma coisa a ele.
Não use as flores para apagar o erro. Use-as, se for o caso, para lembrar que existe uma pessoa do outro lado. E, se não vier resposta, não transforme o silêncio dela em chicote para as próprias costas. Porque errar já dói bastante. A gente não precisa transformar o coração em tribunal, em nenhuma idade.
Cinco dicas para quem também está com o coração revirado:
1. Não decida nada em definitivo durante a tempestade.
O coração molhado enxerga tudo maior do que é, com setenta anos ou com vinte. Espere a chuva diminuir antes de decidir o destino de uma relação.
2. Separe o que você fez de quem você é.
Você pode ter errado sem ser um erro. Pode ter sido imaturo sem ser incapaz de amadurecer, mesmo depois de décadas de vida.
3. Se errou, repare. Não se castigue.
Peça desculpas quando for a hora. Mude o comportamento quando puder. Mas não troque arrependimento por penitência.
4. Não fique dirigindo de olho fixo no retrovisor.
Olhe para trás para aprender, não para continuar morando lá. Tem estrada ainda pela frente, mesmo quando parece que não tem.
5. Faça uma pequena coisa bonita enquanto a vida se reorganiza.
Um café demorado. Uma caminhada. Uma conversa. Uma flor. Um neto no colo. Uma oração baixinho antes de dormir. Não espere o coração ficar inteiro para continuar vivendo.
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Sim, e respondendo à sua pergunta: acho que deve mandar as flores para o delegado. Mesmo sem muita vontade.
Porque flores têm o poder de sarar, redimir, poetizar e eternizar a vida e seus momentos.
Mande flores para aquela mágoa encardida.
Mande flores para aquele perdão que ainda precisa ser dado a você mesmo.
Mande flores para aquela culpa que insiste em te aterrorizar, madrugadas adentro.
Mande flores para aquela decisão que não tomou e que ainda mora no "e se".
Flores abrem portais de possibilidade e de renovação. Ressignificam nossa vida. Amanteigam a alma.
Mande flores. Mesmo sem muita vontade. Porque flores são pontes para um outro amanhã possível.

Sensacional, gostei
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