"Não escrevi estas páginas para que vocês admirem a minha vida. Escrevi para que descubram que a de vocês também pode ser extraordinária."
Quem foi o homem chamado Ricardinho
Se vocês estão lendo estas páginas, provavelmente eu já fui embora.
Talvez vocês tenham encontrado este livro numa estante. Talvez dentro de uma caixa antiga, junto com fotografias amareladas, alguns discos de vinil, cartas, cadernos ou objetos que decidiram guardar porque lembravam o avô de vocês.
Espero que não tenham sentido tristeza ao encontrá-lo.
Prefiro que sintam curiosidade.
A curiosidade sempre foi uma das minhas maiores companheiras.
Aliás, acho que ela foi quem me manteve jovem durante toda a vida.
Quero que vocês conheçam o homem que fui.
Não apenas o avô que fazia fotografias e dizia que "a última era a histórica".
Não apenas o escritor.
Nem o psicólogo.
Nem o bancário.
Quero que conheçam o menino.
Porque acredito que existe um menino dentro de todo velho.
O meu nunca foi embora.
Continuou fazendo perguntas até o último dia.
Meu nome é Ricardo de Faria Barros.
Mas pouca gente me chamava assim.
Na infância era Ricardinho.
Depois virei Ricardim.
Sempre gostei mais desses apelidos.
Tinham cheiro de casa.
Cheiro de família.
Cheiro de afeto.
Nasci em Campina Grande, na Paraíba.
Mas costumo dizer que, na verdade, nasci em duas paisagens.
O sertão.
E o mar.
Meu pai, Evandy, nasceu em Juazeirinho, sertão da Paraíba.
Minha mãe, Denise, nasceu em Serra Negra do Norte, sertão do Rio Grande do Norte.
São os bisavós paternos de vocês.
Os pais de minha mãe migraram para João Pessoa.
Então, a minha infância era dividida entre dois mundos completamente diferentes.
Nas férias de junho eu seguia para o sertão.
Nas férias de janeiro eu corria para a praia.
Foi assim que cresci.
Metade poeira.
Metade maresia.
Sou sertão e mar.
Do sertão herdei a resistência.
A simplicidade.
A capacidade de repartir.
A força de continuar mesmo quando quase nada parecia possível.
Do mar herdei a contemplação.
O gosto pelos pores do sol.
O som das ondas.
A sensação de que Deus gosta de conversar olhando para o horizonte.
Talvez por isso eu nunca tenha conseguido escolher entre um e outro.
Eles moram juntos dentro de mim.
Meus pais nunca tiveram grandes riquezas. Eram trabalhadores do SENAI.
Mas me deixaram uma herança que vale mais do que qualquer patrimônio.
Meu pai tinha um hábito curioso.
Quando entrava em qualquer lugar, procurava primeiro o que havia de bom.
Nunca começava reclamando.
Nunca fazia da crítica um modo de existir.
Ele enxergava beleza onde muita gente só via defeitos.
Sem perceber, aprendi a fazer igual.
Acho que foi isso que me tornou um homem otimista.
Não um otimista ingênuo.
Mas alguém que acredita que quase tudo pode ser visto por mais de uma janela.
Mamãe tinha o hábito de ler, de se atualizar, de ter curiosidade pela vida e de cultivar uma fé muito
bonita. Ela dizia que rezva um mistério para mim, porque eu era o filho mais sofrido. Segundo ela.
Acho que por conta dos descaminhos amorosos.
Aprendi com meu pai a abrir as janelas, aquelas por onde entravam mais luz.
Com minha mãe, que não existe impossível, quando se é esforçado e orante.
Levei isso para o trabalho.
Para os relacionamentos.
Para a educação dos filhos.
Para os textos.
Para a política.
Para a fé.
Para a velhice.
Quando alguma coisa dava errado, eu perguntava:
— O que ainda ficou de bom aqui?
Ou me ajoelhava, sileciosamente, eu apenas acolhia o momento, dizendo pra mim mesmo, amanhã será melhor e isso também passará.
Essa pergunta me salvou muitas vezes.
Minha mãe me ensinou outra coisa.
A ternura.
Ela sempre cuidou das pessoas.
Mesmo quando o corpo já não ajudava.
Anos depois a vida me deu o privilégio de cuidar dela também.
Descobri que existe um momento em que os filhos devolvem aos pais um pouco do amor que receberam.
E isso não pesa.
Pelo contrário. É um privilégio.
É uma forma bonita de agradecer.
Desde pequeno fui um menino curioso.
Gostava de desmontar brinquedos.
Gostava de perguntar.
Gostava de descobrir como as coisas funcionavam.
Nunca fui considerado um gênio.
Nem me considero inteligente.
Acho que fui, acima de tudo, estudioso.
Persistente.
Se não aprendia na primeira vez, tentava de novo.
Depois outra.
Mais outra.
Até entender.
Essa talvez tenha sido minha maior qualidade.
Nunca tive vergonha de não saber.
Sempre tive vergonha de desistir antes de aprender.
Na adolescência descobri outra paixão.
A informática.
Hoje isso parece comum.
Mas quando eu tinha dezessete anos quase ninguém tinha computador.
Mesmo assim aprendi a programar num CP-500 da Prológica.
Escrevia programas em BASIC.
Achava fascinante conversar com uma máquina por meio de comandos.
Mal imaginava que décadas depois conversaria com pessoas do mundo inteiro pela internet.
Sempre gostei da tecnologia.
Mas nunca por causa da tecnologia.
Gostava porque ela aproximava pessoas.
Era uma ponte.
Nunca um fim.
Também gostava de colecionar.
Colecionei selos.
Depois decalques de carros.
Mais tarde discos de vinil.
CDs.
Fitas cassete.
Livros.
Fotografias.
Histórias.
Talvez eu tenha sido um colecionador de memórias.
Espero que, quando encontrarem minha coleção de vinis, não tenham pressa em se desfazer dela.
Cada disco guarda um pedaço da minha juventude.
Cada capa tem cheiro de uma época.
Cada música me leva de volta para algum lugar onde fui feliz.
Outra paixão minha sempre foi fotografar.
Gostava de reunir a família.
Organizar todo mundo.
Esperar o melhor sorriso.
E quando todos achavam que a sessão tinha terminado, eu dizia:
— Agora a última...
A histórica!
Todo mundo ria.
Mas hoje percebo que todas eram históricas.
Porque fotografias congelam instantes que nunca mais voltarão.
Elas ajudam a memória.
Talvez por isso eu tenha fotografado tanto.
Na juventude sofri um grave acidente de moto.
Fiquei com uma certa amnésia.
Descobri que fotografar também era uma maneira de guardar aquilo que o tempo poderia apagar.
Nunca fui bom jogador de futebol.
Mas gostava de jogar.
Aprendi cedo que não precisamos ser excelentes para sentir alegria fazendo alguma coisa.
Também nadei.
Corri.
Andei muito de bicicleta.
Pratiquei corrida de rua já depois dos sessenta anos.
Joguei xadrez.
Criei cabras.
Galinhas.
Abelhas.
Cachorros.
Peixes ornamentais.
Fiz jardinagem.
Construí pomares.
Plantei árvores.
Construí duas casas para morar.
Curiosamente, não permaneci em nenhuma delas.
A vida acabou me levando para outros lugares.
Hoje penso que casas são construídas com tijolos.
Mas lar é construído com pessoas.
Sempre gostei mais de feira livre do que de shopping center.
Na feira tudo conversa.
As frutas.
Os cheiros.
Os sotaques.
Os vendedores.
Os fregueses.
Fiz grandes amizades com feirantes.
Com garçons.
Com cozinheiros.
Com gente simples.
Aprendi que sabedoria não mora apenas nas universidades.
Ela também mora atrás de uma banca de verduras.
Num balcão de padaria.
Na cozinha de um restaurante.
Na sombra de uma árvore.
Também gostava das coisas simples.
Dormir numa rede depois do almoço.
Andar descalço.
Olhar a lua cheia.
Ver o nascer do sol.
Esperar o pôr do sol.
Escutar o barulho das ondas quebrando na praia.
Observar um canário pousar na janela.
Parar para admirar uma flor.
Sempre achei que Deus gostava de falar baixinho.
E quase sempre escolhia a natureza para isso.
Nunca gostei de brigas.
Nem de intrigas.
Nem de conflitos.
Sempre achei que a vida já nos oferece dificuldades suficientes.
Não precisamos fabricar outras.
Também nunca fui radical.
Minha fé sempre esteve em Jesus Cristo.
Tenho um carinho enorme por Maria Santíssima e por Santa Teresinha.
Mas nunca gostei de fanatismos.
Nem religiosos.
Nem políticos.
Nem esportivos.
Nem culturais.
Sempre me senti mais confortável construindo pontes do que levantando muros.
Respeitei pessoas de diferentes crenças.
Diferentes culturas.
Diferentes orientações sexuais.
Diferentes formas de enxergar o mundo.
Nunca achei que alguém precisasse pensar igual a mim para merecer meu respeito.
Gostava de música.
De praticamente todos os estilos.
Gostava de filmes.
De viajar de carro.
Conheci todas as capitais brasileiras.
Amo profundamente este país.
Aprendi que o Brasil é muito maior do que as manchetes dos jornais.
O Brasil mora nas feiras.
Nas cozinhas.
Nos pescadores.
Nos sertanejos.
Nos caminhoneiros.
Nas rendeiras.
Nos garçons.
Nos agricultores.
Nas pessoas comuns.
Foram elas que mais me ensinaram.
Gostava de cozinhar.
Inventava receitas.
Misturava ingredientes.
Seus pais chamavam essas experiências culinárias de "gorbachos".
Eu ria.
Nem sempre ficavam bonitas.
Mas quase sempre ficavam saborosas.
Assim também foi minha vida.
Nem sempre perfeita.
Mas intensamente vivida.
E, se eu pudesse resumir quem fui ainda menino, diria apenas isto:
Nunca procurei uma vida perfeita.
Procurei uma vida curiosa.
Porque descobri muito cedo que quem continua curioso nunca envelhece por inteiro.

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