No meu posto de escuta do mundo, numa mesa perto do palco do FunFest, no CINFABB, eu fiquei, confesso, impressionado.
E olha que não faltava motivo. Os shows estavam ótimos. O clima era de alegria, encontro, celebração. Gente se abraçando, se revendo, se reconhecendo. Delegações das cinco regiões do Brasil, cada uma carregando sua história debaixo do braço. Era bonito de ver. Era gente feliz por simplesmente estar ali, e às vezes isso é o suficiente.
Mas, no meio de tudo isso, duas presenças me chamaram mais atenção do que os holofotes.
Dois acendedores de lampiões.
No Brasil do século XIX, eles eram conhecidos como vagalumes. Trabalhadores que acendiam, apagavam e cuidavam dos lampiões a gás ou querosene, antes da eletricidade chegar para mudar tudo. Ao cair da tarde, passavam com uma vara longa acendendo um a um, rua por rua, lampião por lampião. De madrugada ou ao amanhecer, voltavam para apagar. Limpavam os vidros, trocavam peças, cuidavam da chama. Cada um tinha sua rota, feita a pé ou de bicicleta.
Mas o que eles traziam não era só luz.
Era civilidade. Era urbanidade. Era a cidade funcionando depois que o sol se punha. Com os lampiões acesos, as ruas ficavam mais seguras, menos sombra para o perigo, menos escuridão para o medo, menos espaço para as feras à espreita. Os encontros podiam acontecer. Os passeios podiam continuar. A vida não precisava parar só porque a noite chegou.
Com frio, chuva, neve ou calor, lá estavam eles. Pontuais. Confiáveis. Discretos. Se atrasassem, a rua ficava no escuro. E a cidade, um pouco menos cidade.
Às vezes penso que o acendedor de lampiões tinha uma coisa que a gente perdeu: ele sabia exatamente onde cada chama precisava nascer. Não acendia por acaso. Acendia com rota. Com memória do lugar. Com a certeza de que, se faltasse um, o escuro ganhava um pedaço. Hoje a gente quer iluminar o mundo inteiro de uma vez, e acaba deixando apagados os cantos mais próximos.
Cada um do seu jeito.
Alexandre, da delegação de futebol 70+ da AABB Aracaju, esperava o jogo da tarde. Mas não esperava parado.
A concentração dele era a pista.
Dançava twist, inventava passos, fazia gesto de pássaro com os braços. Sorriso largo, energia viva. E foi chegando a torcida de Erechim, lá do Rio Grande do Sul, que veio ver seus parceiros disputarem a categoria 60-70+. Gente animada demais, que fazia festa no salão. E, eles se encontraram com aquele sergipano que não parava quieto. E o que poderia ser só convivência, formal e respeitosa, virou fusão de culturas e comunhão. Sergipe e Rio Grande do Sul, baião e chamamé, num caldo que ficou excelente. As mulheres iam chegando, entrando na dança, uma a uma, como lampiões que se acendem em sequência numa rua comprida.
Ele conduzia sem forçar. Era presença que convida.
E havia mais. Alexandre, de vez em quando, ia até a minha mesa, falava com o time que estava ali esperando a hora da partida, dava uma forcinha, e logo retornava ao palco, todo saltitante, para não perder por um segundo sequer o vigor de existir. Ele não precisava fazer isso. Ninguém pediu. Ele simplesmente ia. Porque ser vagalume também é isso: saber que a luz não fica só no palco. Ela tem que andar, se aproximar, tocar quem está à espera.
Ali estava Alexandre, acendendo lampiões de alegria e coragem.
No dia seguinte, encontrei Dôra.
Oitenta anos. Dançando no cantinho, com Ana Cristina do lado.
Sem querer o centro, mas com uma presença que ocupava tudo.
As duas repetindo os passinhos. De novo. De novo. Até acertar. Ao som de Boate Azul, Roberto Carlos, músicas que carregam história na melodia. Não havia pressa. Havia intenção. Havia cuidado. Havia alegria no processo, não só no resultado.
Sorriso de Mona Lisa. Passos leves, medidos. Um jeito manso de estar no mundo, como quem já aprendeu que a pressa é uma ilusão cara.
Na camisa, uma frase que dizia tudo: faça o simples
E ela fazia. Inteira.
O que mais me tocou, porém, não era a perfeição dos passos. Era a ausência de medo de errar. Dôra não tinha medo de errar os passinhos da dança de salão que fazia com Ana Cristina. Ambas confiavam uma na outra. Aceitavam os erros. Riam. E voltavam a tentar, sem cobranças, sem receios, apenas pela boa e justa cumplicidade de existirem em presença coletiva, uma para a outra na vida, e não da vida, naquele salão.
Teve um momento em que ela parou por uns segundos. Só respirou. Olhou a pista, as outras duplas, o burburinho. E recomeçou. Ali entendi que também isso é ofício de vagalume: saber a hora de apagar por um instante para recarregar a própria luz. Porque ninguém acende o outro se já não aprendeu a guardar brasa dentro de si.
Ali eu entendi: esse ofício não acabou. Só mudou de forma.
Alexandre acende com garra. Dôra acende com paz.
Um com passo firme. A outra com leveza.
Os dois com a mesma sabedoria: a vida do coração também precisa de luz.
Alexandre jogou, competiu, se lançou. Levou cartão. Eu ri. Quem vive com intensidade às vezes passa do ponto, e tudo bem, porque o mundo precisa de gente que arrisca.
Dôra resolve na calma. Sem cartão. Sem pressa.
Um ocupa com energia. A outra ocupa com serenidade.
Nenhum melhor. Só jeitos diferentes de seguir aceso.
Eu saí dali com um lampião aceso dentro de mim.
E fiquei pensando em outra coisa.
Você já viu um vagalume, o inseto, aquele que brilha nas noites de breu lá no campo? Hoje a gente quase não vê mais nas cidades. Foram ficando raros, como certas conversas.
E sabe o que é mais bonito neles?
Ele não pega luz de fora. Ele tira a luz de dentro de si mesmo.
E, preste atenção nisso, para acender a própria luz, ele não precisa apagar a de ninguém.
Cada um brilha no seu canto. E juntos, sem combinar, iluminam a noite inteira.
Acho que esse tipo de gente também está ficando mais raro. Não tanto quanto o inseto, espero. Mas raro o suficiente para a gente parar e notar quando encontra.
Alexandre e Dôra são um pouco disso.
Vagalumes.
Gente que acende a própria luz e, sem esforço nenhum, ilumina quem está por perto, não porque quer aparecer, mas porque simplesmente é assim.
Talvez essa seja uma das lições mais bonitas do longeviver: tirar a luz de dentro de si. Ajudar a acender a luz nos outros.
Ser vagalume.
Porque no fim, o mundo não precisa só de luz. Precisa de gente que brilhe de dentro pra fora, mesmo quando a noite fecha, mesmo quando a rua está no escuro, mesmo quando a vara do lampião pesa.
Porque há corações que estão perdendo a chama de viver. Falta-lhes o pavio, ou o querosene, ou o vidro que os proteja do vento e da chuva. Ou, pior: falta alguém que se aproxime deles e os acenda por dentro. Pessoas exaustas, sozinhas, adoecidas num mundo agitado, violento e pouco empático. Ser vagalume hoje em dia é ser subversivo à ordem reinante. É ser um arauto de novos tempos. É ser curativo para o outro, só com a sua presença. Presença que sara, liberta, restaura e constrói um amanhã possível.




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