Foi então que meus olhos repousaram na porta da padaria. Ali, no chão, perto da entrada, ao lado de uma mesa, vi uma águia de louça. A princípio, achei que alguém tivesse esquecido a peça ali. Mas, poucos segundos depois, a ficha caiu, daquelas antigas, metálicas, que a gente usava nos telefones públicos. A conexão foi imediata. Aquela águia não era decoração. Era estratégia. Uma tentativa engenhosa de afastar os pombos que vivem à caça das migalhas deixadas pelos clientes.
Entendi a jogada, mas, por uma solidariedade instintiva com os desvalidos, passei a torcer pelo pombo.
E não demorou. Da minha mesa, vi um deles, todo serelepe, caminhando em direção à escultura. Passou rente à águia, ignorou sua presença imponente e começou a ciscar o chão, em busca de farelos, sem o menor sinal de medo. Abri um sorriso daqueles que a gente guarda por dentro.
Aquele pombo enfrentou o que, para ele, deveria ser o símbolo máximo do perigo. E venceu, não pela força, mas pela percepção. Ele deve ter percebido que ali não havia vida. Não havia cheiro, nem movimento, nem intenção. Só forma. Só aparência. A águia estava no chão, imóvel. Uma águia de verdade jamais estaria daquela maneira. Mas, até chegar a essa conclusão, ele precisou atravessar um território interno cheio de alertas. Imagino os outros pombos, ao longe, avisando: tem bico curvo, tem asas grandes, tem garras afiadas, é uma águia. E ele foi. Desafiou o óbvio. Questionou o medo. Testou a realidade.
Fiquei ali, mastigando o cuscuz e pensando em quantas águias de louça habitam a nossa vida. Quantos medos sustentamos que já não têm mais vida, mas continuam nos paralisando como se fossem reais.
Porque existe uma diferença fundamental, e nela reside toda a sabedoria. Existe o medo da águia de penas, a águia de verdade, aquela que tem bico, garras e fome. Esse medo é legítimo. Ele nos protege, nos mantém vivos, nos ensina a respeitar o perigo real. Mas existe também o medo da águia de barro, da águia de gesso, da águia de louça. Essa não voa, não ataca, não devora. E, no entanto, é ela que mais nos aprisiona. Confundir uma com a outra é o grande equívoco da alma.
A verdadeira sabedoria está em aprender a distinguir.
Quantas vezes na vida tratamos uma águia de barro como se fosse de penas? Quantas vezes recuamos diante de uma escultura imóvel, achando que ali havia perigo? O namorado que partiu o coração foi uma águia de penas naquele momento. Mas condenar todo amor futuro por causa dele é transformar cada novo afeto em uma águia de louça. O chefe que humilhou foi uma águia de penas. Mas acreditar que toda crítica é aniquilamento é construir uma águia de barro na porta do nosso próprio crescimento.
E assim vamos construindo nossa padaria particular, cheia de águias de gesso, de cimento, de barro. Esculturas imóveis que nos paralisam mais do que um predador real poderia fazer. Estão no chão, perto da entrada, ao lado da mesa onde poderíamos sentar para festejar. Mas não sentamos. Tememos.
Aonde moram nossos medos de águias de louça?

Eles não estão apenas na porta da padaria. Moram na padaria do nosso coração. Moram na nossa mente. Moram em percepções distorcidas que insistem em ver perigo onde só há forma vazia. São medos moldados em afirmações absolutas e negativas sobre nós mesmos, sobre os outros ou sobre a realidade. Medos oriundos da fórmula prisão águia de louça: 3N2T1S. Narrativas pessimistas que começam por aquelas palavras: o nunca, o ninguém, o nada, o todos, o tudo e o sempre. Eu nunca conseguirei perder peso. Ninguém me ama de verdade. Nada do que eu faço é reconhecido pela minha chefia. Todos estão conspirando contra mim. Tudo o que eu invisto não dá resultado. Sempre que acredito em alguém, acabo decepcionado. Essas frases são esculturas bem feitas. Convencem. Impõem respeito. Mas não passam de louça.
E, no entanto, elas governam nossas decisões. Nos impedem de testar. De avançar. De descobrir que, muitas vezes, o perigo já não está mais ali, só a memória dele.
Os medos verdadeiros, da águia de penas, são poucos e exigem prudência. Os medos falsos, da águia de louça, são muitos e exigem coragem para serem desmascarados.
A pergunta que o pombo me deixou foi esta: quanta vida plena estamos perdendo por não nos alimentarmos mais das emoções positivas? Quantas vezes recusamos a bondade, a mansidão, a ternura, o amor e o perdão com medo de sermos devorados novamente, agora por uma águia que nem voa?
Quantos temores são apenas justificativas piedosas para não sairmos do lugar onde estamos? Gaiolas confortáveis, é verdade. Isentas de risco. Mas também isentas da beleza. Isentas da brilhante experiência de viver. Porque viver é isso: sair da varanda, aproximar se da águia que está no chão, descobrir que ela é de louça e, mesmo assim, ciscar o chão em busca das migalhas de felicidade que estão ali, à vista, só esperando um pouco de coragem.
Os medos falsos, da águia de louça, são muitos, mas não sabem voar!
E se não sabem voar, então estão no chão. E se estão no chão, podem ser encarados. Podem ser examinados, tocados, desmontados, atravessados. Eles não sobem aos céus. Não rasgam o vento. Não picam a carne. Apenas pesam, mas o peso deles é o peso da mentira repetida tantas vezes que virou verdade na nossa cabeça.
Eis a grande virada: eles são muitos, sim. Mas você é um. Um só passarinho. E esse um, quando decide, pode mais do que a multidão imóvel. Eles são muitos, mas não sabem voar. Você sabe. Você sempre soube. Basta lembrar. Basta dar o primeiro passo em direção à águia de louça e ciscar o chão como aquele pombo.
"Eles passarão. Nós passarinhos..."
Eles sempre passam, quando a gente se move. O medo fica. A vida também. Mas a vida é mais rápida. A vida é mais leve. A vida tem asas, mesmo que pequenas.
Então, que venham as águias de barro, de gesso, de cimento, de louça. Que venham os nunca, os ninguém, os nada, os todos, os tudo, os sempre. Que venham as frases que nos querem pequenos. Elas são muitas, mas não sabem voar. Eu, passarinho, passarei.
Entre os ovos mexidos e as migalhas da varanda, entendi que crescer é, muitas vezes, isso: aproximar se das próprias águias de louça. E, com um pouco de atenção e ousadia, descobrir que elas nunca voaram.
De forma marota, abri o saco do pão francês, do pão de sal, ou cacetinho, como chamam, e tirei umas migalhas, deixando no chão. Afinal, aquele pombo é mais que um vencedor. Ele é um mestre. E todo mestre merece um café da manhã generoso.


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