Papai, se estivesse entre nós, teria hoje 89 anos. Partiu em 2021. Mas há pessoas que, mesmo depois da partida, continuam nos ensinando. Não mais com a voz, nem com a presença física, mas com aquilo que deixaram plantado no jeito da gente ver o mundo. Meu pai foi uma dessas pessoas. Sem discurso, sem teoria, sem qualquer pretensão, ele me ensinou uma das lições mais profundas da minha vida: a arte de olhar.
Na juventude, eu era muito diferente dele. Aos 21 anos, jovem bancário, meu olhar era duro, exigente, treinado para a falta. Eu entrava nos lugares para perceber o que não estava bom. O que precisava melhorar. O que não funcionava. Fazia isso com situações, ambientes e, principalmente, com pessoas. Eu cometia sincericídios por minuto. Tinha pouca paciência com quem pensava diferente. Era arrogante, meio metido a besta. E, para piorar, ainda me achava alguma coisa a mais só por ser do Banco do Brasil.
Muito disso vinha das leituras, das amizades, da formação que eu vivia à época, marcada por uma visão crítica do mundo, das estruturas, dos processos e das pessoas, que eu muitas vezes colocava na conta de alienadas. Eu me achava lúcido. Hoje vejo que muitas vezes eu só era duro demais.
Foi convivendo com papai, já num tempo em que eu me tornara homem às pressas, depois de ter sido pai aos 20 anos, que fui aprendendo outra forma de estar na vida. Adultizado com carbureto, fui sendo lapidado por ele. Papai não tinha vida fácil. Vivia se equilibrando no cheque especial, adiando reformas, convivendo com apertos e limitações. Mas havia nele uma sabedoria mansa. Ele sabia festar com o que tinha. Sabia transformar o pouco em acontecimento.
Nunca esqueci nossos sábados no sítio Samambaia, perto de Jenipapo, uns 12 quilômetros de casa. A parada em Jenipapo era sagrada. Um talho de mortadela, uma dose de brejeira, uma conversa boa com o dono da venda. Depois mais uns quilômetros de estrada e chegávamos.
O morador começava a contar tudo o que tinha dado errado na semana. A linha do telhado caiu. Vamos arrumar. A laranjeira morreu pela seca. Vamos arrumar. O poço não deu água. Vamos arrumar. Roubaram as galinhas. Vamos arrumar. Para papai, quase tudo era passível de conserto. E o que não fosse, ele não brigava. Ele atravessava.
Depois de ver tudo, ele entrava na cozinha como quem entra na casa de um irmão. Ria com a dona da casa, levantava a tampa da panela e, mesmo com o feijão ainda só na água e sal, se servia como se fosse o melhor prato do mundo. Ela protestava, dizendo que ainda não tinha temperado. Ele não ligava. Comia com gosto. Com gratidão. Estava inteiro ali.
Sem perceber, eu fui aprendendo. Papai não arengava com a vida. Ele respondia a ela.
Esses sábados foram mudando meu olhar. Fui entendendo que o olhar não é neutro. Ele constrói ou destrói. Amplia ou reduz. Cria possibilidades ou fecha caminhos. Meu pai, sem nunca usar esse nome, era um artesão do olhar.
Anos depois, volto à minha cidade natal. Entro no restaurante Bananal, onde eu ia aos domingos com a família comer picado de bode. Hoje ele não fica mais na estrada, tem filial na cidade. E quem me atende é um dos filhos do dono, um dos galegos. Ele me reconhece. A gente se abraça, conversa, puxa histórias antigas.
Em certo momento, ele me diz: continuo trabalhando meu olhar.
Levei um instante. Depois entendi.
Em algum ponto da vida, depois de aprender com papai, passei também a falar disso para pessoas próximas. E aquele galego, que já era mais do que um garçom, era um amigo, me contou o quanto isso mudou a vida dele. O quanto esse jeito de olhar o ajudou, inclusive, a atravessar o luto pelo irmão mais velho.
Ali caiu a ficha de vez. Esse jeito de olhar pode ser ensinado. Não como fuga da realidade, nem como ingenuidade. Mas como escolha. Como cultivo. Como treino. E nós, que já andamos mais pela vida, podemos ajudar as novas gerações a aprender isso também. Podemos ensiná-las a serem artesãos do olhar.
Papai também me ensinou outra coisa. É preciso ser firme. Reivindicar mudanças. Protestar contra o que oprime. Enfrentar o medo e a injustiça. Mas ele fazia isso com o jeito do amor, do humor, do prazer. Havia firmeza, mas não havia dureza. Quando ele dizia que algo não estava bom, ele convidava ao conserto. Seduzia pela calma. Convencia pela bondade. Corrigia com mansidão.
Outro dia li uma crônica de Hayton sobre um homem que distribui seu melhor bom dia ao caminhar. Fiquei pensando que isso também é artesanato. Distribuir um bom dia verdadeiro é uma forma de melhorar o mundo sem fazer barulho.
Hoje, se eu tivesse de resumir o que aprendi com papai, diria assim. Entre nos lugares procurando o bom, o belo e o virtuoso. Acolha o melhor que as pessoas têm, porque o resto todo mundo já carrega demais. E esteja inteiro diante das dádivas da vida. Reconheça e agradeça. Seja um feijão na água e sal. Seja um talho de mortadela. Seja até o chorinho que vem sem cobrança, só por generosidade.
Papai partiu em 2021. Mas ainda hoje, quando a vida me chega com seus telhados caídos, suas laranjeiras secas, seus poços vazios e suas galinhas roubadas, eu quase escuto sua voz.
Vamos arrumar.
E quando consigo olhar alguém com mais ternura, mais gratidão e menos pressa de julgar, sei que ele continua vivo em mim.
Porque, no fim das contas, o que um pai deixa não é só lembrança. É um jeito de olhar que continua iluminando a vida da gente.
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