O lanche, a tela e o escurecimento da tarde


Era para ser um final de tarde bacana. Daqueles simples, bons e merecidos. Eu havia passado parte do dia com dois filhos, dois netos e meu genro no Eixão do Lazer, em Brasília. Havia riso daqui, conversa dali, menino correndo, bicicleta cruzando a paisagem, gente devolvendo humanidade à cidade. Tudo seguia num compasso bom: leve, familiar, humano.

No fim da tarde, quando o céu de Brasília começa a mudar de azul para vermelho ouro, pedi um lanchinho vindo do meu lar, para mim e para JG. Um gesto pequeno, desses que combinam com o cansaço bom de um dia vivido ao ar livre, em família. Era para ser só isso. Uma pausa. Um agrado. Um fechamento manso para um feriado bonito.

Mas foi ali que a tarde entortou.

Quando o jovem veio trazer o pedido, em vez de apenas me entregar o lanche, resolveu me perguntar se eu estava sabendo do absurdo da nova lei da misoginia. Achei curioso o modo como ele trouxe o assunto: não como quem quer entender, mas como quem já chega com a conclusão pronta e só precisa de alguém que balance a cabeça em concordância.

Fiz-me de bobo e perguntei qual era o tal absurdo.

Foi então que ele começou a despejar sua fala, inflado por uma certeza emprestada. Disse que agora não se poderia mais dizer nada contra mulher, que um simples flerte poderia dar prisão, que até um esbarrão seria motivo de cadeia. Tentei argumentar com calma. Pedi que ele buscasse a fonte, o texto, a letra da proposta, e não se deixasse conduzir por vídeos feitos para acender medo e ressentimento. Mas ele me mostrou um vídeo de ativista desses de tela pequena e estrago grande, no qual a pessoa lia trechos recortados e, em seguida, servia sua própria interpretação como se fosse verdade revelada.

Eu disse que aquilo era uma distorção. Uma fake embalada em indignação. Que a ideia não era criminalizar flerte, nem transformar qualquer esbarrão em caso de polícia. Que o propósito era proteger mulheres contra ameaças, discriminações, desprezo, aversão e preconceito extremo. Em suma, tentar conter uma cultura de violência que muitas vezes começa no rebaixamento, na piada, no desprezo, e depois escala para coisas piores.

Mas aí ele soltou a pérola, com a segurança rasa dos simplórios: mulher é mais frágil mesmo e homem é mais forte.

Naquele instante, entendi que não adiantava prosseguir. Porque já não se tratava de esclarecer. Quando alguém chega a esse ponto, já não está debatendo; está apenas defendendo um pequeno território interno, murado por preconceitos, slogans e vídeos engolidos sem mastigar. Fiquei pensando de que fortaleza ele falava. Da biológica? Da emocional? Da sociológica? Da cultural? Da histórica? Da força de quem grita mais? Da força de quem bate? Ou da força de quem atravessa séculos sendo diminuída, silenciada, ameaçada e, ainda assim, segue vivendo, criando, trabalhando, sustentando, resistindo e recomeçando?

Há homens que confundem força com volume de voz. Confundem poder com interrupção. Confundem privilégio com mérito. Confundem o hábito de mandar com alguma superioridade natural. E quando uma lei, ou um projeto de lei, tenta proteger as mulheres contra a humilhação e o ódio, sentem-se ofendidos, como se a dignidade alheia lhes roubasse alguma liberdade sagrada.

Mas o que mais me espantou nem foi apenas o teor da fala dele. Foi pensar que um jovem, num dia de feriado, entre uma entrega e outra, em vez de alimentar a cabeça com algo que o alargasse por dentro, estava se deixando sequestrar por vídeos de extrema direita, desses que não informam, apenas inflamam. Em vez de um curso, um documentário, uma minissérie bem feita, uma boa música, não. Estava ali, abastecendo-se de recortes raivosos, versões tortas e certezas de segunda mão. E talvez esteja aí uma das tragédias discretas do nosso tempo: tanta gente com um celular na mão e tão pouca vontade de usá-lo para crescer.

A pobreza mais perigosa nem sempre é a do bolso. Às vezes é a da imaginação, da leitura de mundo e da incapacidade de desconfiar da mentira que chega mastigada pela tela.

O pior é que aquilo não parecia ser um caso isolado. Pedi para ver melhor o vídeo. Havia milhares de seguidores. Muitos comentários favoráveis. Gente repetindo absurdos com a desenvoltura de quem já perdeu o pudor de pensar mal. E foi aí que meus neurônios, que até então descansavam numa rede invisível de sossego, se levantaram todos de uma vez, alarmados. A tarde seguia bonita do lado de fora. O Eixão continuava cheio de vida, rodas, passos, conversa, família, infância, cidade ocupada. Mas dentro de mim alguma coisa havia mudado. A paisagem externa seguiu a mesma. A interna escureceu um pouco.

Fiquei matutando como será o relacionamento daquele rapaz com as mulheres de sua vida. Com a mãe, com uma irmã, com uma namorada, com uma chefe, com uma colega de trabalho, com uma filha, se um dia a tiver. Porque esse tipo de pensamento não nasce para ficar apenas numa conversa qualquer de fim de tarde. Ele costuma vazar para o cotidiano. Vai para o jeito de olhar, de interromper, de diminuir, de duvidar, de achar natural ocupar mais espaço do que o outro. Vai para a piada, para a impaciência, para a superioridade mal disfarçada, para o desprezo embalado como opinião.

E isso, claro, não para nas mulheres.

A mesma cabeça que se fecha à dignidade feminina pode também se fechar ao negro, ao indígena, ao cadeirante, ao nordestino, ao obeso, ao pobre, ao diferente. Todo preconceito, no fundo, é irmão do outro. Muda apenas a roupa da vítima. O que falta ali é alteridade. É a capacidade de reconhecer no outro não uma ameaça, mas uma possibilidade de alargamento humano. É a disposição de se deixar tocar por vidas que não têm a sua cara, o seu corpo, o seu sotaque, a sua história, o seu invólucro. E quem não desenvolve isso empobrece por dentro. Deixa de se enriquecer justamente naquilo que a convivência humana tem de mais bonito: a chance de ser atravessado por outras culturas, outras dores, outras formas de existir.

Talvez estejamos mesmo flertando com uma nova idade das trevas. Não aquela da falta de informação, mas a da recusa da informação. Não a da ausência de conhecimento, mas a da vitória da versão sobre o fato. Um tempo em que o vídeo gritado derrota a leitura serena. Em que o recorte vale mais do que o contexto. Em que a mentira bem editada chega antes da verdade ainda de chinelos. Um tempo em que muita gente não quer compreender a realidade. Quer apenas domesticá-la até que ela caiba no tamanho de seus medos, de seus rancores e de suas velhas hierarquias.

Saí daquela conversa com o lanche na mão e uma tristeza funda na cabeça.

Era para ser apenas mais um fim de tarde bonito em família, no Eixão do Lazer, em Brasília, no dia em que ela completava 66 anos. O céu já tinha trocado o azul pelo vermelho ouro, como só essa cidade sabe fazer, e eu queria guardar daquela tarde apenas o calor bom dos meus, a presença dos meus, a bênção simples de estar ali. Mas bastou um diálogo curto para eu sentir o peso de uma pergunta maior. O que está acontecendo com a nossa capacidade de ler, de pensar, de ponderar, de conviver, de respeitar? Em que esquina foi que tanta gente decidiu trocar o estudo pelo slogan, a empatia pelo espantalho, a complexidade do mundo por uma caricatura raivosa dele?

Era para ser só um lanche no fim da tarde.

Mas veio junto um retrato do tempo.

E o retrato, confesso, saiu bem mais feio do que eu gostaria.

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