Por volta das 14h30 do domingo de Páscoa, quando o restaurante ainda fervia de gente e o salão seguia cheio, mas a cozinha já tinha vencido a maior parte da guerra dos pratos principais, algo raro aconteceu.
O ar ainda era quente. Pesado de gordura, vapor e pressa.
O corpo já pedia descanso.
Mas, de repente, seis mulheres pararam.
Ali, no meio do chão branco, ainda úmido de trabalho, elas se juntaram.
Aventais escuros. Mãos marcadas. Cabelos presos.
Rostos vivos.
E então levantaram, quase como quem ergue um pequeno troféu da vida, caixinhas amarelas com três bombons dentro.
Não era encenação.
Era celebração.
Sorriram com a boca inteira. Com os olhos. Com o corpo todo.
Algumas se inclinaram pra frente. Outras ergueram mais alto, como quem quer impedir que o instante escape.
Era alegria sem filtro.
Daquelas que não passam por discurso. Nem por ensaio.
Cada caixa custou quinze reais.
Quinze reais.
Mas ali, naquele instante, aquilo não tinha nada a ver com preço.
Era reconhecimento.
Era alguém dizendo, sem palavras:
eu vejo vocês.
E isso, para quem passa o dia inteiro alimentando gente que nunca vai saber seu nome, é quase um milagre.
Muitas daquelas caixas não seriam abertas ali.
Iriam para casa.
Seriam entregues nas mãos de filhos, de companheiros, de gente querida.
Porque a alegria, quando chega na vida de quem vive na luta, precisa ser repartida para fazer sentido completo.
Naquele pedaço de cozinha, entre o calor e o cansaço, aconteceu uma pequena ressurreição.
Um mar se abriu.
Mas nem sempre é assim.
Na noite anterior, na vigília pascal na igreja do Rosário, vi o contrário.
A igreja estava cheia.
Gente por todos os lados. Fé, expectativa, movimento.
Faltava espaço.
Cadeiras improvisadas. Organização tentando dar conta.
E, no meio disso tudo, uma senhora de cabelos completamente brancos, sentada.
Pouco depois, foi convidada a sair.
Com educação.
Com regra.
Com justificativa.
Não era da família dos batizados.
Ela não discutiu.
Apenas se levantou.
Tentou um lugar no banco de trás.
Cinco pessoas.
Um gesto leve pedindo espaço.
Um não seco.
Ninguém se moveu.
Nem um centímetro.
Ela encolheu os ombros.
Baixou o olhar.
E começou a caminhar para o fundo da igreja carregando algo invisível, mas pesado:
a sensação de não caber.
Até que alguém viu.
Um outro banco chamou.
Cinco pessoas se apertaram.
Ombros se tocaram.
O sexto lugar apareceu.
Ela sentou.
E ali, silenciosamente, outro mar se abriu.
Passei o restante da missa olhando aquilo tudo como quem aprende.
O banco da regra ficou com espaços vazios a noite inteira.
O banco da recusa manteve o conforto intacto.
E o banco do acolhimento fez o único gesto que realmente importa:
diminuiu um pouco de si para caber o outro.
O que isso tem a ver com inteligência emocional e autogestão?
Tudo.
Porque empatia não mora no discurso.
Ela mora no movimento.
Mora no instante em que você escolhe enxergar, mesmo cansado.
Mora em abrir espaço, mesmo quando a regra diz para não abrir.
Toda vez que você faz isso consigo mesmo –
quando reconhece seu próprio cansaço em vez de ignorá-lo,
quando se aperta para caber uma alegria pequena,
quando não se afoga no próprio ritmo ensaiado –
um mar se abre.
E a vida, por alguns instantes, deixa de afogar.
O resto é gestão.
E gestão sem esse mar é só açúcar e rito ensaiado.

.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seu comentário é uma honra.