Força


No  silêncio da noite, naquela madrugada fria, uma mãe vela sua filha...
No leito de um hospital, uma esposa passa os dias a cuidar de seu marido...
Uma avó  cria, em sua casa, seu neto: um órfão, órfão da AIDS...
Como seria a vida dos portadores da AIDS se não tivesse uma mãe a quem recorrer. Quantos são os que se descobrem com AIDS e vêm para o  colo da sua mãe.
De onde pode brotar maior afeto e compreensão para as vítimas da AIDS?
De onde pode brotar mais ternura e esperança para as vítimas da AIDS?
De onde pode brotar mais fé e força de vontade para as vítimas da AIDS?
Só do seio de suas mães!
São elas  que assumem as dores de seus filhos. São elas que não se envergonham de acolhê-los muitos há tanto tempo longe de casa. São elas que se descobrem portadoras da vida, para aqueles que a sociedade vê como portadores da morte.
Simples mães, sem grandes estudos filosóficos, sem grandes estudos humanístico-existenciais, sem grandes "psicologias”... Simples mães.
Mestras, doutoradas, PHDs na arte de amparar e amar a seus filhos.   É claro que, nesta homenagem também estão inclusas as esposas da AIDS. Mulheres  fortes algumas que junto com a AIDS descobriram a infidelidade de seus parceiros. E, mesmo assim, assumiram com redobrado vigor seus lares. Quantas destas, esposas da AIDS, mesmo contaminadas pelo vírus, mantém a serenidade enquanto cuidam de seus maridos, já em fase mais avançada da doença. Quantas são testemunhos vivos de força e de luz para os filhos. Estas esposas da AIDS mereciam um destaque especial neste dia das mães. Bravas e valorosas companheiras de seus maridos. Como que verdadeiras "mulheres de Atenas", elas vão vivendo seus dias e neles tercendo uma  rede da solidariedade e de fortaleza.
     Não fazem perguntas: "Como?”, "Com quem?”, "Quando?”, "Por quê?"...  Elas, em sua sabedoria milenar, sabem que já  não há respostas. O drama da AIDS é por si só, maior que todas as explicações, e elas sabem disso.
     Muitas não querem fazer o teste - não estou sentindo nada, me deixeeu cuidar primeiro de  meu marido. Outras se agarram a seus filhos e, é por eles, que lutam até a última gota pela saúde da família.
     Neste dia, gostaríamos de homenagear a todas as mães que convivem  com a AIDS. Elas são exemplos de grandeza. Exemplos de dedicação, elas são amostras do que há de melhor na humanidade. Elas são as expressões vivas da esperança e da solidariedade.
     Lembro-me da mãe de Carmelucia. Carinhosamente ela molhava os seus lábios ressecados com água. Carmelucia já não conseguia  engolir com facilidade lá estava, ao seu lado, sua mãe a colocar com conta-gotas pequenas quantidades de água em sua boca. Recordo-me de quando Carmem, já nos seus últimos dias, quase que num sussurro falou - no Natal vamos comer uma "galinha à cabidela" feita por mamãe para todo o GAV. Olhos se entrecortaram e aquela mãe num momento de íntima comunhão disse
- vamos sim, filha, você vai se recuperar e farei a galinha para seus amigos.
     Lembro-me da mãe de Rosinaldo lutando, dia e noite, para que seu filho vencesse aquela infecção. Lembro-me da Mãe de Solange, que com tanto amor cuidou dela e de seu neto.  Lembro-me da mãe de Ana Maria que, a tempo oportuno, perdoou sua filha e a acolheu em seu lar.
          Estas mães passaram pelo "vale de lágrimas" com profunda firmeza e coragem. Souberam acompanhar seus filhos até a despedida da morte.  Souberam vencer os muros da intolerância e do preconceito e amar sem medidas.
     Outras mães nos vêm à cabeça. Mães que estão na batalha. Mães que não deixam seus filhos, netos  e esposos desanimarem.
   - Coragem filho a cura da AIDS está por vir...
   - Por que tanta esperança, já estou cansado disto tudo!
   - Deixa de besteira menino, com a sífilis foi assim mesmo e descobriram a Penicilina.
     Cada uma delas nos marca. Umas pela tenacidade e coragem. Outras, pela paz e
Harmonia. É como que em cada gesto de uma mãe se escondesse a infinita beleza do criador. 
     Mães lutadoras. Mães que mesmo diante de mil injustiças sociais mantêm-se fiéis os seus filhos.  São elas que farão construir uma nova sociedade. Onde haja casa, comida, justiça, emprego e saúde para todos.



Retalhos da vovó


Lembro-me com saudade das colchas de retalho de minha vó. Na sua simplicidade,  ela pacientemente juntava cada pedacinho de tecido que sobrava dos cortes, numa sacola.  Passava o ano a costurá-los,  um a um, numa bela colcha multicolorida. Cada cama recebia a sua colcha nova, e ela, ansiosa, esperava a visita de final de ano dos netos. Naquelas camas forradas um pedacinho de cada veste que ela tinha feito durante o ano para seus familiares:   pedaços  da camisa de papai, do calção azul de meu irmão e  da  saia  toda florida de minha mana. Em cada retalho um pouco de nós e de nossa família. Aquela colcha era mística. Era sagrada. Falava e abraçava  quem nela repousava.  Neste final de ano gostaria que toda humanidade se sentisse parte  daquela colcha de minha vó.  Colcha que aceitava as diferenças individuais: azul, branco, amarelo. Também as  diferentes dimensões de cada tecido e numa harmonia divina dava forma, onde todos só viam  caos.  Creio que nosso coração quanto mais parecido ficar  com aquela colcha,  será mais verdadeiro e belo.  Somos   colcha de retalhos quando percebemos, em nós,  fragmentos de uns tantos Outros. Em mim:  meu pai,  irmão,  vizinho, amigo de trabalho, minha companheira, minha filha,  meu templo,  nosso  Deus.
Somos colcha de retalhos quando durante a vida aprendemos a construir, cada dia, tijolo a tijolo os alicerces da esperança e cidadania.   Alguns porém,  infelizmente,  perderam-se no caminho. Não conseguem mais unir os retalhos  e transformar as adversidades em oportunidades de crescimento. Que tipo de colcha formei em 1998? Ela está bonita?  Multicolorida, aconchegante, macia e limpa?   Ou nosso preconceito afastou-nos dos Outros tornando-nos  monótonos e insípidos, um tecido desbotado, uniforme, que não enche de vida os que o observam, que não aconchega  os cansados e desesperados?
Procure no baú de seu coração retalhos de  apertos de mão,  de estímulos, de carícias,  de apoio e compreensão:  um beijo nos filhos, um  doente socorrido, uma  lágrima que teimou em cair,  quando  uma criança pediu  uma coberta e  comida para aplacar o frio e a fome. A colcha que costuro neste ano ainda não terminou. Restam alguns dias. Poderei ainda ir buscar, no fundo do baú de meu coração, alguns retalhos que deixei de lado e que agora são vitais. Acrescentar mais  branco, da paz. Verde, da esperança.  Vermelho, da  fortaleza. Azul,  da pureza. Amarelo,  da fé. Ir buscar nos recônditos mais escondidos de nosso ser um gesto de perdão, um olhar amigo e um sorriso de esperança.
Afinal, vendo-nos como colcha, sabemos que não estamos sós. Que cada um   dos que tomaram parte dela  tornou-se agora o meu sustento, minha alegria e  razão  de viver.  Neste mês,  derradeiro do ano,   escrevamos no nossos retalhos, retalhos de nosso coração, mensagens  com palavras  garrafais escritas nos porta-estandartes  aos que amamos.
Escrevamos com tintas de sangue, de compromisso  o  nome das pessoas que fazem parte de nossa história. Que em nossa colcha eles sejam homenageados e que  saibam quão preciosos e únicos são em nossa vida.

Ame em legítima defesa


O telefone tocava na ONG Aids, chamada Grupo de Apoi à Vida - GAV. Do outro lado da linha uma voz de uma jovem chorando. Perguntamos seu nome , ela não responde , só faz chorar... diz que sua vida está sem sentido. Perguntamos o que a aflige , se é algo relacionado com a AIDS. Mais choros. Começamos a ficar aflitos. Quem seria aquela jovem? Por que drama estaria passando? Como estabelecer uma ponte, um contato mínimo que possibilitasse ajuda-la?
Ela diz que tem que desligar, depois volta a ligar , quem sabe...
Mais uma vez ligou. Demos um endereço para que mantivéssemos um contato pessoal. Ela aparece, constatamos sua juventude e beleza. Ela estava como uma gatinha assustada.
- O que está lhe assustando, você está com AIDS?
Mais choro. Parecia difícil conseguir que ela se abrisse. Começamos a ficar preocupados. O que se passaria no seu coração?
Ela nos fala que é de São Paulo-SP , e veio para C. Grande-PB ha pouco tempo. E que agora sua vida está terminada...
Lentamente , puxa de sua carteira um retrato.
Na foto um jovem bonito.
Quem é ele?
Ela diz que era seu ex-namorado, paulista. Até aí nenhuma razão prá tanto choro. Será possível que está moça tenha errado o telefone , e ao invés de ligar para o CVV ter ligado para o GAV/TELPA - Disque AIDS ? Alguns de nós, pensam logo que o caso é de pura paixonite aguda, sem nenhuma implicação com a AIDS. Outros ficam com uma "pulga" atrás da orelha.
E aí veio a grande revelação. A jovem tinha recebido uma carta de São Paulo , de seus amigos, dizendo que o seu ex-namorado tinha morrido de AIDS!
Apertamos nosso coração, mordemos a língua e perguntamos:
-quanto tempo vocês namoraram? - 4 anos !
Disfarçamos nossa preocupação. Em 4 anos poderia ter rolado muita coisa. Sabíamos de casos de relacionamentos, marido x mulher, que um dos dois não se infectou, mas era pura loteria. Aí, na nossa frente, estava alguém precisando de apoio, atenção e sobretudo muita esperança.
Ela nos falou que já não comia direito. Passava as noites em insônia. E que gardara só para si tal revelação.
Esse quadro de pânico , de medo extremado, somatiza reações das mais descabidas possíveis: febres , suores noturnos , calafrios, diarréias. Todas estas reações ela vinha apresentando , o que segundo ela , era a certeza do diagnóstico- AIDS!
Naquele estado só uma saída, fazer o teste urgente e encarar de frente a situação. Numa manhã fria de sábado, cerramos as portas da Sede e passamos longas horas tentando convece-la a fazer o teste. Sabíamos que, mesmo se não estivesse com o vírus, o seu fantasma não sairia de sua cabeça. Conversamos sobre as possibilidades dos soropositivos, das novas drogas , dos avanços da ciência. Trouxemos outros portadores para dá coragem. Finalmente fomos buscar o analista. Quando ele começou a tirar seu sangue, ela quis puxar o braço e desistir. Foi um momento de grande tensão. Aos poucos ela afouxou o braço e rendeu-se. Aninhou a cabeça nos seios de uma voluntária, como a procurar sua própria mãe.
Lentamente o sangue foi subindo pelo tubo: 5,10,15ml pronto, estavam ali suas esperanças e seus desafios .
Ao término da coleta ela nos beijou. Disse já está mais aliviada; que era como que tivesse terminado de fazer as provas do vestibular. Que tinha se livrado de um peso e que agora estaria nas mãos de Deus. Nunca torcemos tanto. Ela era tão jovem. Tão frágil. Agüentaria um resultado positivo? Teríamos forças para demovê-la da idéia de se suicidar?
Agora quem passou a não dormir fomos nós. Cada dia era uma árdua espera.
Tivemos que nos encher de forças para ir buscar seus exames.
Numa manhã de sábado, tive a infeliz idéia de ligar para o laboratório ,para saber se o exame tinha chegado.
A resposta foi afirmativa. E agora? Os únicos membros do grupo que sabiam do caso estavam numa cidade do interior, fazendo uma visita. Seria justo fazer aquela jovem esperar mais um final de semana. Fui buscar meu primeiro exame. A jovem plantonista me olhou com olhos estranhos. Na requisição estava escrito "HIV". Não agüentei chegar ao carro e rasguei o envelope: "Reação imunofluorescência Anti-HIV - NEGATIVA"
Não acreditei , e acho que fiquei uns bons minutos abobalhado , lendo e relendo aquela frase.
Chegando em casa , peguei o telefone e liguei para ela.
- Olha menina-moça, seu presente de São João: resultado negativo...
- Negativo é bom ou é ruim?
Não me contive e caí numa gargalhada. É bom companheira. Você conseguiu , através de um capricho da natureza e da acidez de sua vagina, conter o vírus ... parabéns!
Ela não se conteve de alegria, soltou o telefone e ficou dando gritos. Acho que seus familiares pensaram que ela tinha endoidado de vez. O que estaria fazendo ,pulando de alegria, aquela que só vivia pelos cantos das paredes choramingando? Esta foi uma historia com um final feliz. Quantas não tem este final?
O terreno está aberto para a AIDS e para as gravidezes precoces. Falta de informação adequada. É aquela idéia que AIDS é doença do "outro". Ou aquela que diz assim: "tá vendo que meu namorado, fofinho, gostosinho , pode está contaminado pelo HIV? "
Não nos cansamos de dizer que a AIDS não vê cara. Não nos cansamos de alertar que a fase da AIDS-Migratoria em C. Grande já passou.
Agora ,nos deparamos com a AIDS em grupos que fazem prostituição em nossa cidade. Já tem gente se sentindo aliviada quando a filha , que chorava pelos cantos da parede , diz está grávida , ao invés de está com AIDS. - Isto é uma absurdo! Da gravidez precoce para a AIDS não falta muita coisa. E mais uma festa popular passou sem que se desse ênfase à prevenção da AIDS. O animador dos palcos mandava um abraço para a barraca do "tuita". Ou, saudava o Sr. fulano de tal que acabava de chegar ao local. Em nenhum momento lembrou-se de alertar que "de prazer não se morre , se vive !". Que usar preservativo é questão vital!
Ame em legitima defesa - exija o preservativo!

Uma atitude amorosa (autor Ricardo de Faria Barros)


Um dia fomos já fomos mais amorosos.
Amorosos da alegria, amorosos da esperança.
Brincávamos com areia, pés no chão, fantasias mil.
Éramos amorosos da vida.
Para encontrá-la: a vida, em sua amorosidade plena, os mínimos recursos de tempo e lugar eram necessários.
Tudo poderia ser transformado com um simples toque amoroso.
O quintal velho, cheio de tralhas, transformava-se num palácio, onde a jovem e bonita criança fingia ser o rei ou rainha, ou até o valente guerreiro que iria resgatar a donzela.
Amorosos. Ah! Como era bom quando éramos amorosos.
Depois, “crescemos” e aprendemos a franzir o cenho, a trapacear com a vida, a sequestrar o desejo, a entupir os vasos das emoções boas.
A nos alienar de nosso eu maior.
Pois, a fomos sendo alimentados com alimentos podres e sem vida, matéria da qual se constitui os medíocres.
Os dias se passaram e, quando olhamos nossas fotos infanto-juvenis, não nos reconhecemos mais. Profissionalizamos a relação com o próximo, instrumentalizando-a, coisificando-o.
Acredito que nos tempos atuais nada é mais revolucionário do que pessoas amorosas.
Ser amoroso é atitude. Ser amoroso é verbo que pedem ações concretas.
É cuidado.
É admiração.
É respeito.
Ser amoroso é despir-se e permitir que o outro faça em nós morada.
Ser amoroso é sentir a presença do amor, mesmo a quilômetros de distância, irradiando fé e fortaleza em nosso caminhar.
Ser amoroso é ter uma razão para voltar para casa.
Ser amoroso é elevar o coração, em poética prece, quando ilumina na retina uma árvore em flor, um luar, um pôr do sol, ou uma criança que brinca .
Mas não é fácil ser amoroso. É que a gente se acostuma com migalhas.
E, pr não receber amor, acabamos nos privando de doá-lo. Sim, caros amigos, amor é doação.
É como se ao nascer recebêssemos um remédio de nome: poção de “amor”. Só que perdemos a receita que o acompanhava. Nesta estava escrito: “quanto maior o uso, em doses oportunas e na medida, mais conservadas ficarão a quantidade e a natureza deste precioso remédio”.
Como “perdemos a receita”, entendemos que aquela poção deveria ser cuidadosamente guardada e conservada, utilizando-a em pequenas doses e parcimoniosamente.
De tanto guardar, reter e conservar ela apodreceu e adoecemos. Em nosso ser, chagas visíveis de feridas narcisísticas. Em nosso ser, um coração apodrecido, dissimulando sua tristeza através de uma relação de ódio, poder, ter e “prazeres anestésicos” com os que nos rodeiam. Tristes, apáticos e opacos vamos conduzindo-nos como quem carrega seu próprio ataúde. Apenas sobrevivendo como plantas longe do sol.
O antídoto a isto tudo você sabe bem qual é. Quando uma voz grita no seu ser e diz “subverta a ordem reinante”. É a sua criança, rebelde e liberta, que apela para melhores dias.
Deixe esta criança agir em você. Você lembra a última loucura que realizou inebriado pela “droga” do amor?
Faz muito tempo?
Uma flor que remeteu para sua filha. Um mimo que comprou de surpresa para o filho. Um telefonema chamando a namorada para um prosaico piquenique, após o trabalho, e longe da rotina do dia-a-dia.
Ser amoroso é ousar. É expor-se a riscos, alguns imaginários outros reais.
Ser amoroso remete à instabilidade e ao desequilíbrio, talvez por isso os verdadeiros amorosos sacudam o pó da monotonia e consigam transformar “velhas em novas todas as coisas”.
Pessoas que cultivam a amorosidade conseguem, periodicamente, retirar a pasta que se acumula nos seus olhos que, como um filtro, as impede de sorrir, encantar-se com o outro, recomeçar, acolher, perdoar e crescer no Ser +.
Amorosos acreditam que os dias são urgentes. Que o efêmero fulgor da felicidade deve ser vivenciado em sua plenitude. Amorosos não sabem quando será o próximo “encontro”, portanto vivem o de agora, com intensidade redobrada.
Ser amoroso é florir, mesmo entre espinhos, continuando esperançando a vida, contra toda desesperança. 

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