Não Era Apenas um Rodo (Por Ricardo de Faria Barros)


Saí cedinho para pegar o primeiro horário na dentista, que me atende no Paranoá, uma das Regiões Administrativas do DF.
Ao estacionar, fui comprar pão de queijo, que já virou tradição levar para o pessoal da clínica. Um agrado para quem cuida muito bem de mim.
Olhei no relógio e vi que ainda faltava um tempão para meu horário das 9h, e que tinha chegado cedo demais.
Então, fui escutar músicas no carro. Enquanto isto, observo a abertura das portas dos estabelecimentos comerciais, para que seus funcionários entrem.
Vejo uns chegando mais apressados, por certo perderam a hora.
Outros se despedindo dos filhos, que devem ir para as escolas.
Um outro, aproveita para fumar lá fora, com um olhar distante.
De repente, eis que todos se reúnem na calçada e começa um verdadeiro ritual. Um com a mangueira, outro com balde, e tem a turma do rodo e da vassoura.
Demoro um pouco para entender o que ocorre.
Eles estão tirando o excesso de sujeira que está ficando nas calçadas, de acesso aos estabelecimentos, por conta de uma obra que por ali se faz.
Noto que uma das funcionárias não tem muita intimidade com o rodo.
E, até baixo o som do carro para ver a preleção da mais experiente.
"Amiga, faz assim, segura firme e passa como quem alisa um bolo, indo colado ao chão e para frente".
Ahh, agora entendi onde era o erro dela. rsrs
Mas, a carinha da mocinha era de quem estava chegando naquela firma agora. Talvez até nesta semana, na qual o comércio começa a aquecer com as festas juninas e as férias de meio do ano.
Ela meio que estava sem jeito com aquilo que ali ocorria.
Contido, ela sorria, um sorriso humilde, de quem não tinha ideia de que iria enfrentar uma limpeza de calçada, como parte de suas atribuições laborais.
Mas, ela não desistiu. Minutos depois, já estava toda desinibida, e até tirando onda com a outras, dizendo que o pedaço dela já estava limpo e o das outras ainda estava sujo e molhado.
Sorri também com ela.
E humanizei meu coração ao dela.
Podia ser minha filha. Podia ser a tua filha.
Se fosse a minha menina Priscila, hoje com seus 34 anos, e ela comentasse comigo nesta noite; sobre o que tem feito na primeira semana de trabalho, naquela firma do rodo, eu diria para ela ser a melhor lavadora de calçadas da equipe.
Simples assim.
Quando precisamos trabalhar, não há trabalho ruim. É o que temos para hoje e nele temos que nos envolver, até para que possamos aproveitar alguma oportunidade de crescimento. Ou para que num processo de demissão, nosso nome seja poupado.
Diria:
- “Priscila se envolva com o trabalho que tu tens. E, nele dê o seu melhor.
É importante que você ressignifique esta tua experiência.
No lugar de se sentir humilhada, envergonhada, sinta-se parte de um time, comprometida, engajada e conectada com o que precisa ser feito.
E o que precisava ser feito, nesta manhã, era criar melhores condições de limpeza para que os clientes acessem à tua empresa, e sem esperar pelos serviços públicos, que deveriam se responsabilizar por esta iniciativa.”

É importante olhar em perspectiva. Em muitas empresas são os próprios profissionais que assumem a copa e a limpeza. E isto não é desonra para ninguém. É que estas empresas, pelo porte delas, não têm condições de contratar zeladoras e pessoal da copa, para com este tipo e serviço.
Lógico, que quanto maior a empresa mais as funções vão se segregando e eu não consigo ver isto funcionando de forma legal, pois que seria uma forma de assédio, de desvio de função, e de economia ultrajante de custos.
Mas, não é o caso.
O caso é que não dá tempo de pensar em algo do tipo. A poeira é sazonal, fruto de uma obra local, e é preciso juntar o time e resolver a parada.
Eu já entrei em situações assim, quando trabalhava no BB, e não me senti humilhado. Embora não estivessem bem nas minhas funções, eu sabia que aquilo lá era uma contribuição e que eu podia ajudar.
Lembro quando Betinho foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz, o Banco do Brasil mobilizou a sociedade para angariar assinaturas que defendessem a indicação, a nível mundial.
O gerente da agência me chamou e perguntou se eu tinha coragem e aceitava ir para um ponto movimentado da cidade de Campina Grande-PB, o Calçadão, e ali ficasse angariando assinaturas.
Perguntei-lhe: “Cadê a mesa, as cadeiras e a prancheta com o abaixo-assinado? Vamos é pra já!”
Noutra vez, o BB foi convidado a pagar uma determinada quantia aos flagelados da seca, e o acordado era que eles não iam se dirigir ao Banco, e sim o Banco iria até eles.
O gerente perguntou qual caixa queria ir levando o dinheiro dentro de um carro da PF, e passar o dia pelos sítios, cooperativas, escolas e associações pagando os flagelados da seca. E isto por uns 15 dias.
Topei na hora.
Trabalhar naquelas condições insalubres, e de altíssimo risco, não estava nos meus planos, mas alguém precisava fazer. E eu entendi o contexto da iniciativa, e a ela me conectei, mudando a forma como muito de meus pares estava enxergando aquela iniciativa de filantropia social.
Esta mocinha me orgulhou muito.
De não ter desistido. De ter mudado sua postura. De ter treinado a resiliência e o trabalho em equipe.
De lutar por seu lugar ao sol. Num mercado de trabalho tão frágil e sem garantias como o dos profissionais do varejo. Principalmente quando a economia não está nos seus melhores dias.
Fiquei pensando nos rodos que posso pegar e ajudar na limpeza de tantas calçadas. Seja na minha família, seja na sociedade, seja nos locais por onde passo e que posso ser contribuição.
Sendo o melhor que puder para o mundo, e não o melhor do mundo.
Obrigado pela lição de profissionalismo e resiliência, mocinha do rodo de camisa vermelha. Sinta-se acolhida e respeitada.
Com certeza, você irá longe nas ocupações de trabalho que vier a assumir.




 

4 comentários:

  1. Fico maravilhada em ler suas crônicas vividas! Cada dia realmente nos trás os desafios para nos tornarmos pessoas melhores e mais humanas!

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  2. Este blog, embora se proponha a ser de psicologia positiva e logoterapia, é muito mais de observação social e de reflexões filosóficas ! Parabéns Ricardo!!!

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  3. Que linda lição de vida, professor!! 🥰
    Se dedicar com amor e afinco a tudo o que nos propomos a fazer! 🙏👏👏

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  4. Sem sombra de dúvidas, seu texto trás de forma bem simples com uma linguagem acessível a todos, porém com a glamour da nossa lingua, uma mensagem relevante nesse mundão da tecnologia, em que os olhares são voltados, não para as qualidades naturais e inerentes ao ser humano, mas para os que de forma subrogada assumem a os dons trazidos em nossa essência. Fiz várias inversões dessa natureza no decorrer de minha vida como fiscal do BB nas entranhas do Maranhão. Hoje relembro com muito orgulho de trabalhos voluntários voltado exclusivamente ao bem comum, sem nenhuma pretensão de agradar o chefe para galgar uma patente maior, mas simplesmente pelo prazer de fazer o vem ao próximo.

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