Acenda a Lamparina

Nesse final de semana, envolvi-me na preparação da estrutura para ver o jogo de vólei, de forma confortável.
Uma crise renal, seguida de uma tosse resistente, tinham tirado meu juízo e me cansado muito, além de uma maratona de aulas das 9hrs às 17hrs, no sábado.

Então, logo cedo no domingo, comecei a pensar numa estrutura bem confortável.
Um velho colchão no chão, cerveja gelada e perto.
E a TV ligada no único canal digital que estava pegando.
Perto das 12hrs, tive um insight, uma sacada, e se eu virasse um pouco o receptor, esse que você ver na foto – numa prosaica gambiarra que fiz.
A dúvida me açoitava, afinal esse recurso funciona em sinais analógicos de TV.

Mesmo assim, contrariando a posição a antena de meu vizinho, a qual eu tinha tomado como referência, virei a antena no sentido oposto, uns 45 graus.


Chegando na sala, a alegria foi incontida. Agora sim, eu tinha 5 canais digitais e poderia zapear por eles, sempre que o Galvão falasse demais.
Uma mexida de 45 graus e fez-se a luz!
Abri uma Proibida (cerveja), para celebrar meu feito, o que me orgulhara bastante.
E, sozinho, eu e Balu apenas, deitei-me no colchão para torcer pelo vólei. É que o JG se divertia com seu Xbox e dona patroa foi fazer unhas.
Engraçado como quando estamos sós prestamos atenção a coisas que enquanto não nos permitimos ao silêncio não vemos.
Vi a boniteza dos pés da mesa. Essa da outra foto que ilustra essa crônica. Fiquei uns minutos contemplando-a, solenemente, imaginando o artista que a tinha concebido, naqueles toques góticos, quase uma catedral.
Só consegui perceber aquela belezura, por estar rente ao chão, deitado sobre um colchão. Só percebi por estar em silêncio interior e aberto a tudo que no aqui e agora preenchiam meu momento: o rabo de Balu balançando, como quem me perguntava: “Será que o Brasil ganhará?”
O som das espumas de cerveja explodindo na atmosfera do copo. A delícia que é poder mudar de canal, dando ao controle remoto um estado de quase divindade, e aqueles castelos góticos em forma de madeira, que suportam o peso da mesa, lugares nem sempre trabalhados nas mesas em que já me sentei.
Aliás, foi a primeira vez que vi essa arte em pés de mesa.
Fiquei matutando sobre a beleza das coisas que para serem vistas precisamos mudar de ângulo, ou de posição, precisamos acender uma luz em nosso interior, para iluminar a nós mesmos. Como diz a canção de Fagner:
“Beleza só se tem quando se acende a lamparina
Iluminando a alma se entende a própria sina
E quando se vê o arame que amarra toda gente
Pendendo das estacas sob um sol indiferente...”

Iluminar a própria sina é preciso. E, para fazer isso, quantas das vezes temos que mudar a posição de nossa antena interior?
Temos que nos sintonizar noutras estações, nos dar direito a alterar canais. Imagine a pobreza de minha televisão que só pegava um canal digital.
Essa televisão que só pega um canal somos nós quando ficamos insistindo numa única trajetória, numa única narração de nós mesmos, dos outros e da realidade.
Geralmente uma narração reclamona, rabugenta e pessimista.
O outro trecho da canção, o que fala “do arame que amarra toda a gente” remete aos pés de minha mesa.
Quantas das vezes precisamos nos quebrantar para ver algo que esteve sempre ali e nunca vimos, nunca demos valor. Precisamos mudar de posição, sair da soberba, do orgulho insano, de toda falsa aparência e nos permitir sermos a nós mesmos.
Precisamos olhar para o sempre visto de um jeito diferente, de uma prumada nunca ousada olhar, para encantar nossa existência e voltar a nos surpreender com a maravilha de viver.
Têm belezas interiores que só são vistas com olhos mansos e humildes. Elas vão além das aparências, muitas das vezes estão encobertas por toalhas, por véus, que precisam de espaço em corações amorosos, para serem revelados.
Mudar o ângulo da gambiarra da antena digital;
Deitar-se rente ao chão e contemplar os vales de uma mesa;
E ouvir a música Beleza de Fagner.
Deram-se ensinamentos precisos que resumos por agora:
Não adianta querer ser de amor, de mansidão, de generosidade, de ética e paz; quando nossa antena ó sintoniza e amplifica narrações de ódio, briga, egoísmo, não-ética e guerra. Não adianta comprar uma outra antena, se os canais que têm audiência em nosso coração são os das emoções negativas. Quem consome intriga, inveja, violência e maldade acaba tornando-se como tal.

E, muitas das vezes só vemos a tampa de uma realidade. Como quem só ver o tampo da mesa. Achando que ela é uniforme, monolítica, sem nenhuma formosura, quando não coberto por uma bela toalha.
Esquecemos de nos curvar, ajoelhar e perceber o insondável, o não dito, o belo do simples. As catedrais que existem no interior das pessoas.

De uma posição de poder, daquelas de quem olha do alto para baixo, daquela de quem se acha, de quem arrota grandeza, de quem se sente e se porta como se fosse o centro do universo, como deitar-se no chão ver a beleza não aparente das coisas?
A beleza interior das pessoas, muitas das vezes esquecida e encoberta no subsolo de almas sofridas. Indo além das aparências e permitindo-se que elas a ti, e a mim, se revelem por inteiro.

O Legado do Dadá


Perto das 16hrs, o Dadá entra em minha sala com olhos marejados. Vem se despedir de mim. A cena deixa-nos comovidos, a ambos, e no pleonasmo mesmo, pleonasmo de afetos.
Todos os dias Dadá me trazia algo de sua marmita: um pedaço de cuscuz: feito por ele mesmo.
Umas torradas que a mãe dele mandava na marmita, ou um bolinho de chuva.
Era sagrado, todos os dias entre as 8hrs e 9hrs da manhã, ele adentrava em minha sala. E sempre me trazia algo, para que eu tomasse com meu café da manhã.
Logo em seguida, abria a sua bolsa e botava uma folha, um galho, uma flor que durante seu trajeto até o trabalho achou bonita e queria decorar meu altar natural.
Tenho um altarzinho de folhas, galhos e flores que boto em cima de um ficheiro, compondo um quadro em terceira dimensão da natureza, e me lembrando que não somos máquina.
Você deve estar se perguntando o porquê da emoção do final da tarde.
O motivo foi que o Dadá, após treze anos conosco trabalhando como Office-boy, contratado de uma terceirizada, vai seguir por outras veredas profissionais.
Seguirá seu sonho de trabalhar numa oficina de retífica de motores, pertencente ao seu tio.
Dadá é uma daquelas unanimidades que vez por outra brotam no meio corporativo, quase um patrimônio imaterial da empresa.
Basta dizer-lhes que todos tiveram o maior carinho em pegar-lhe de surpresa para uma festinha de despedida. Do Presidente da Companhia ao Zelador, todos contribuíram para abrilhantar a festinha do Dadá, que tomado de surpresa, não se cabia em si de emoção.
Sentirei muita falta do Dadá. Ele sabia ser ir além de sua função. Dadá sabia surpreender-nos.
Tratava a todos com muita atenção, gentileza e disponibilidade. Por mais carregada que estivesse sua agenda, entre certidões cartoriais para registrar, e documentos para protocolar em órgãos governamentais, ele sempre encontrava um jeito de dizer sim.
Sabe aquele tipo de profissional que quando apresentamos para ele um problema, sentimos empatia nele, e que agora o problema é dele também.
Esse era o Dadá.
Dadá nunca se deixou envergar pelo baixo status de sua função. Muito pelo contrário, ele entendeu que tudo que fazia era conectar pessoas e instituições, através dos documentos que circulava, e que era preciso que circulassem.
Nunca mandei Dadá entregar e ele voltou com o documento. Ele dava um jeito. Se não achava quem eu falava que receberia, ele ia bater no chefe da pessoa, não sem antes, da frente dele, perguntar se poderia deixar com essa outra pessoa. “Claro Dadá”.
Sentirei muita falta dele.
Encontrar pessoas com sentido no trabalho, independentemente de seu cargo ou função, nos motivam ao nosso melhor. Aprendemos com eles.
Semana passada ele chegou todo orgulhoso, tinha conseguido “bater a meta” de redução de despesas da copa. Ele era responsável em comprar os mantimentos solicitados pelas Copeiras, e passou a me dizer, periodicamente, as frutas mais baratas e itens que ele tinha trocado por outros de preço melhor, mantendo a qualidade.
É amigos, um simples Office-boy entendeu os valores mais importantes à competitividade empresarial, nos tempos presentes:
Fazer mais com menos;
Foco no cliente.
Compreensão de seu papel organizacional
Ajuda nas metas corporativas, com o que pode fazer no seu raio de atribuição.
Agilidade
E muita, muita mesmo, inteligência emocional.
Se tivéssemos anunciado a saída do Dadá, teríamos que ter alugado um salão de festas para sua despedida. Mas, o preservamos e foi surpresa. Só um seleto grupo, convidado pela Paulinha, a telefonista, teve acesso a esse momento tão rico. Coube a Dona Estela, nossa copeira, preparar na lousa de vidro uma mensagem bem bonita, com letra caprichada.
No dia de ontem ele saiu visitando pessoas amigas pelos 5 andares da empresa. A cada uma delas deixava um cartaz, impresso por ele mesmo, com um agradecimento: “ao que fizeram por mim.”.
Ele começou a prestar serviços aos 17 anos, se vai agora aos 30, homem feito. Nós não queríamos que ele fosse. Mas, aí de nós se não respeitamos o sonho de quem ousar sair da gaiola da imobilidade corporativa. Ele ousou.
Não sem medo, pesar e até muita perda. No seu abraço e choro soluçante senti tudo isso.
O risco do pulo no vazio. Aquela vozinha interior, que uma parte dela diz: segue.
Enquanto a outra, não menos sonora e forte, diz: fica.
Mas ele seguiu, afinal quer ser mecânico de motores na Retífica de seu Tio.
Outra característica bacana que o Dadá preservou foi a humildade, sem ser submisso. Nem todo mundo que gravita no ecossistema de uma Presidência, de qualquer instituição que seja, preserva a humildade.
Tem gente que porque serve cafezinho na Presidência, não se relaciona legal com quem serve café no térreo. Entende a metáfora? O que já vi de eminências pardas gravitando nesses meios, pessoas que o poder transformou, e para pior.
No Dadá não. O poder do Dadá era o do servir, o de se doar ao seu cliente. Poder de encontrar o sentido no trabalho, e gostar do que se faz. Tem poder maior?
Aliás, o Dadá melhorava o clima organizacional quando chegava. Seu dom era ouvir. Nunca o vi mordendo ninguém, nem rabugindo a vida. Reclamação é uma palavra que não morava no coração dele.
O de fazer um monte de amigos no trabalho, tratando a todos com a mesma distinção e respeito. Afinal, 13 anos não são 13 dias.
Ele me revelava que enfrentava dificuldades pessoais, mas que estava animado a vencê-las. Um dia de cada vez.
Apesar de trabalhar servindo ao “alto-clero”, a Presidência e as Diretorias, ele nunca se portou de maneira arrogante, ou abestada, perante seus pares de categorias também humildes como: vigilantes, recepcionistas, zeladores e copeiras.
Nunca. Dadá tinha a complexidade do humilde, encarnada nele. Sabia entrar e sair em qualquer lugar, do Colegiado da PRESI, ao refeitório dos terceirizados, no qual ele almoçava a marmita que sua mãe mandava todos os dias, e que ele gentilmente sempre dividia algo comigo.
Só pelo prazer de me ver feliz com seu gesto.
Na foto, vieram homenagear Dadá: O Presidente, três Diretores, três Gerentes Executivos, um Gerente de Divisão, os motoristas, a telefonista, o pessoal da copa, limpeza, administrativo, e o professor de Inglês.
Todos abriram uns 20 min em suas agendas, algumas delas extremamente disputadas, para celebrarem o momento e desejarem sucesso na nova carreira profissional.
Isso também foi algo que me tocou profundamente. Muitas das vezes os terceirizados não são tratados como importantes nas Instituições.
São quase invisíveis, sem direito a um discurso do Presidente na sua despedida, aliás, nem despedidas têm. Hoje o discurso do Presidente deveria entrar nos livros de gestão, sobre a importância de um público tão desprezado.
São admitidos e demitidos sem nenhum pudor. Pela alta rotatividade, nessa camada do ecossistema corporativo, são o elo mais frágil do turnover organizacional.
Então, os que vão ficando, são sobreviventes do darwinismo institucional. Geralmente, pessoas muito especiais no mundo do trabalho.
Vai Dadá, segue teu sonho de ascensão na cadeia alimentar profissional.
Segue tenho sonho e nos dê notícias.
Bom é sair assim. De coração grato, expressando gratidão, sendo reconhecido, em paz, e deixando um legado. Mesmo como office-boy.
Precisamos reaprender como o Dadá a fazer, e a nos dar, em nosso melhor. Ser o melhor para o mundo, e não do mundo.

Poxa e você fala da queda e não fala da trave?


Estou no estaleiro, com uma tosse de cachorro, literalmente de cachorro.
Eu a peguei de meu labrador, que está doente com a Tosse dos Canis.
Tosse eu, tosse ele. E, partilhamos dos mesmos remédios: fluidificantes do muco e antitussígenos. Ele até se deita para que eu dê remédio. Sabe que estou cuidando dele, e que está melhorando a cada dia, assim como eu.
Mas, a madrugada de ontem foi difícil. O muco espesso escorria pelos brônquios, e a tosse tentava tirá-lo dali, sem êxito. Um negócio super-desconfortável para mim, imagine para Balu que tossia feito um condenado, como se engasgado estivesse.
Depois do almoço, não tive mais condições de trabalhar, aliado à noite insone, um dos remédios é anti-alérgico e dá um sono danado.
Vim pra casa, e após um sono reparador, fiquei na cozinha vendo o balanço do dia das Olimpíadas. Quando minha esposa chegou, comentei que até àquela hora o Brasil não tinha ganho uma nova medalha.
Ela reagiu com espanto e um pouco de decepção. Vendo sua expressão, emendei: "mas ganhamos muita experiência, e estamos no caminho".
Afinal, esse ano conseguimos que nossa equipe masculina, de Ginástica Olímpica, chegasse à final. Conseguimos até ganhar partidas, em esportes que há anos não vencíamos. Estamos no caminho.
Fiquei matutando sobre a importância de se perceber a caminho. De não para ainda, por não ter chegado ao lugar pretendido. Continuar andando, caminhando.
A importância de olhar de uma forma mais generosa para nossas derrotas, não para que nos acostumemos com ela, mas que nos vejamos a caminho, em processo, crescendo competição à competição.
Não esqueço de uma cena que vi, ao término da prova de Ciclismo Feminino. Sentada no chão, uns metros após a linha de chegada, a atleta espera algo.
Eis que ela avista alguém vindo ao longe. E corre pra ele. Mas corre mesmo.
E abre os braços e faz um Brasil nos braços de seu amado.
Daqueles digno de um filme, ou novela de TV.
Curioso para saber o motivo de tão apaixonante abraço, descobri que a atleta brasileira de ciclismo, Flavia Oliveira, esteve muito bem durante toda a competição e acabou com um excelente sétimo lugar, o melhor resultado do ciclismo de estrada brasileiro até hoje na história dos Jogos Olímpicos.
Percebem? Aquele 7. lugar tem gosto de ouro.
Temos um baita complexo de infelicidade.
Complexo de vira-lata. Que não valoriza o esforço para chegar. Apenas o pódio. É tanto que não bastava comentar a impressionante abertura da copa, tínhamos que destinar muitos minutos da reportagem para ressaltar a reação no estrangeiro.
Temos atração pelo estrangeiro, e nem sempre nos damos valor. Até que eles nos deem.
Uma pena.
Não esqueço a entrevista que a emissora SportTV fez Daniele Hypólito, logo após a classificação da equipe dela para as finais.
Repórter: Estou aqui com Daniele Hypólito, que teve uma queda no solo. E você olhando para as câmeras, após a competição, pedindo desculpas.
Daniele: [...] A gente pede desculpa por ser uma maneira de mostrar o carinho e respeito que temos pelos nossos fãs.
Repórter: De qualquer maneira, como você avalia a participação do Brasil nessas competições?
Daniele: Poxa, e você só fala da queda no Solo. E não fala da Trave?
Repórter – É verdade, você foi super bem na Trave. Desculpa Dani.
Daniele - Poxa, vocês em vez de ressaltarem a coisa boa, falam logo da queda?
Dani, ouro para você. Esse cruzado de esquerda que deste no repórter tem meu apoio.
Precisamos parar com isso, e é urgente.
Precisamos nos reeducar para aprender a ser grato pelo que deu pra fazer, diante das condições que tínhamos na oportunidade.
Temos que ampliar a percepção, para além do pódio, olhando o processo, o caminho.
Tá certo, no Solo não deu; mas na Trave ela teve sua melhor performance na série. Mas, o que temos por ele atração é pelo negativo.
Por ressaltar as perdas, contabilizar as perdas.
Aprendemos desde crianças a destacar as caídas no Solo que damos na vida. E vamos perdendo a capacidade de perceber que, ali no cantinho de nosso olhar, temos coisas boas acontecendo na Trave.
Dani, tu está certa. Tanta coisa boa acontecendo, e o cara se pega numa falha.
Fazemos assim como nossos filhos, na educação deles. Fazemos assim com nossos funcionários.
Focamos exclusivamente nas falhas. Esquecemos de valorizar o esforço, o caminho, o processo.
Esquecemos ainda de destacar o lado bom da vida, de nossa vida, como se tudo nela fosse apenas uma queda no tatame, e de bunda como foi a da Hypólito.
Isso acontece quando ficamos presos ás lembranças negativas do passado. Quando não viramos a página, ou fechamos a janela.
Presos a culpas, ressentimentos. Presos ao ruim que conosco ocorreu.
Isso acontece quando perdemos toda a graça de uma viagem de férias, por passar o resto da vida reclamando que nossas malas na chegada foram extraviadas.
Isso acontece quando cegamos ao bom, belo e virtuoso, deixamos de ser grato ao fato de estarmos vivos, deixamos de valorizar nossas sobras, no lugar das perdas.
Tal qual fez o repórter acima, mesmo tendo depois se desculpado.
Por isso gostei da corrida da Flávia, em busca do abraço de seu amado, para celebrar o sétimo lugar.
Quem aprende a celebrar o sétimo lugar, aprendeu uma grande lição na vida, entenda a metáfora.
Estamos criando uma geração de pessoas infelizes, ingratas e que estão sempre resmungando, reclamando e com uma ambição desmedida pelo pódio.
Uma geração com hábitos de infelicidade.
Que aprende a amplificar o que deu errado, a endeusar o problema e a galvanizar as aflições.
Deixando de exercitar os aprenderes da esperança, da gratidão e da visão positiva da vida.
Cultivamos infelicidades como as pragas do jardim.
Portanto, meu amigo(a) leitor(a), pare agora de colocar no altar sua dor, seu luto, aquilo que lhe fez infeliz, tal qual a queda de bunda no tatame que a Daniele sofreu.
Tire isso do altar. Bote as coisas que deram certo, que ainda estão boas, belas e virtuosas em tua vida.
Continuando na metáfora da ginástica, valorize o exercício Trave que deu certo em teu viver.
E treine para não cair de bunda novamente, na próxima vez que fizer o Solo, como hoje a Daniele fez, ao repetir na final o exercício e não caiu.
Valorize seu sétimo lugar em o que quer que seja, desde que para nele chegar tenha sido o melhor que pode, com o maior esforço e disciplina que dedicou.
Ali, naquele sétimo lugar, estava o seu ouro, o seu melhor. Então, não fique se comparando aos de lugares acima. Perdendo a chance e o encanto de celebrar aonde você já conseguiu chegar.
Lembre-se, você está a caminho. E, muitas das vezes, a felicidade estará no caminho, e não na chegada.

Veja o exemplo da comemoração dos 9 a 1, no jogo Hóquei sobre Grama Rio 2016, no qual o Brasil perdeu hoje da Inglaterra. Eles conseguiram marcar o primeiro gol do Brasil na modalidade em uma edição de Jogos Olímpicos. E tome comemoração.
Percebem como um gol que se faz, dentre os nove que se leva, ainda assim pode ser motivo de comemoração?

Tudo depende da lente pela qual se observa a realidade. Têm lentes limitantes, muito focadas só no que aparece na frente.

E têm lentes expansivas, panorâmicas,que capta as coisas para além do que elas aparentam ser, no que carregam de perdas. Esse atletas usaram estas, e nós devemos usá-las também.

Deixo-vos com um poema do Henfil que é uma aula de uma postura sábia, diante dos revezes da vida:
Se não houver frutos, valeu a beleza das flores;
Se não houver flores, valeu a sombra das folhas;
Se não houver folhas, valeu a intenção da semente.

A Escalada da Intolerância Digital


Caro Márcio, coloquei na foto que ilustra esse meu texto, o teu comentário numa revista de grande circulação, em sua versão digital, numa reportagem que versava sobre as agressões preconceituosas que nossa atleta de natação, Joanna Maranhão, sofreu.

Nossa nadadora, Joanna Maranhão, não está com mi-mi-mi. 

Você acha mi-mi-mi que ela defenda a sua honra e dignidade, atacadas de forma violenta e covarde em sua página do Facebook?

Por que alguns brasileiros acreditam que essas coisas são só brincadeiras, que devemos deixar pra lá, que "faz parte de nossa cultura". Que são mi-mi-mi. De qual perspectiva falam, de qual posicionamento?

Veja o que dona Terezinha disse sobre os ataques à sua filha::
“Este é um país de psicopatas, país de doidos, que confundem religião, política e esporte. Minha filha não dormiu direito, ficou abalada, mesmo sendo forte. Foram ofensas pessoais que mexeram com ela.”

Que outros sigam seu caminho Joanna, e empurrem processos nos idiotas da aldeia, expressão criada pelo filósofo Umberto Eco, que tece um ácido diagnóstico sobre a grosseria on-line: "As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis. Antes, eles falavam apenas em um bar, sem prejudicar a coletividade."

Agora,qualquer um projeta sua opinião maliciosa pela autovia digital, e depois que nela ingressa - a opinião do mal, perde-se o controle sobre seu uso, propagação e danos que causará.

O senso de impunidade preserva essas pessoas, quando se escondem atrás de fakes. Mas, o que mais me chama atenção, são para as pessoas reais: com Certidão de Nascimento, RG e CPF, com o mesmo senso de impunidade, pelas merdas que publicam ou comentam.

A nossa Ouro no Judô, Rafaela, passou por isso em 2012 e ninguém apareceu para processar as pessoas. Para ajudá-la.
E, ela era muito pobre, não tinha estrutura intelectual e financeira para bancar sua defesa. E, todos acharam que ia passar.

É assim que muito de nós diz quando o outro é xingado, acharcado, e sofre bullying: " Vai passar, depois ninguém mais comenta isso, é besteira de menino(a) criado por vó".

Então, caro Márcio, sua receita não funcionará para ela. Não adianta dizer-lhe para não dar importância e ir treinar.

Por não darmos importância, e não irmos treinar, é que em nosso Brasil, vem passando uma propaganda da Sadia que sacaneia com quem tem o nome Luís Augusto e fica por isso mesmo.

E alguns, não chamados de Luís Augusto, ainda sacam de nossa cultura para justificar a propaganda: "é deboche e ginga de nosso jeito de ser, o brasileiro é assim mesmo, tira onda com tudo".

Só não perguntaram a uma criança, de nome Luís Augusto, o que ela anda ouvindo na hora do recreio, com as associações de seu nome a um presunto que ninguém quer.

Quanto de bullying deverá está rolando? Mas, para nós, os não Luís Augusto, isso é besteira. Frescura e fricote.

Ou dizemos, "é apenas uma sacada de marketing, uma brincadeira cultural".

Quanto a mim, pau na Sadia! .

Sim Márcio, quanto à sua dica dela ir treinar, ela não precisará mais de treino para as Olimpíadas de 2020.

Não sei se você sabe, ela declarou sua aposentadoria das raias, e vai fundar uma ONG que defenderá e apoiará crianças vítimas de abuso sexual.

Será que alguém que se escondia na barra da saia da mãe, e quando pequena sofreu abuso, teria uma atitude tão corajosa e digna de expor seu próprio drama e de fazer com ele algo cidadão?

Palmas pra ti Joanna. Ouro pra ti.

Isso é postura de quem é corajoso, forte, resiliente. E ela o é.

Sim Márcio, para uma vítima de abuso sexual na adolescência, como a Joanna, sabe o que postaram na página dela do Facebook: "Você devia ser estuprada".

Tu ainda acha mi-mi-mi, Márcio?

Nosso país sofre de um problema crônico de educação, e não seria diferente no mundo virtual. Nele, à sensação de segurança mistura-se uma falsa ideia sobre a liberdade de expressão para disseminar comentários maldosos.

Precisamos sair em defesa das Rafaelas, Joanas e dos Luís Augustos, sob pena de estamos alimentando, mesmo sem nada fazer, o ódio, a intolerância e o autoritarismo.

E outros entrarem nessa mesma lista de vítimas do desrespeito e intolerância.

Precisamos educar nossas crianças e jovens para lidar com esses terroristas digitais, esses Black-Blocs da convivência humana, para que eles não venham a ter sua auto-estima violentada, com graves sequelas emocionais.

Qual o impacto no meu filho, filho de paraibano, quando postarem na página dele que "Só sendo Paraíba mesmo, para fazer isso".

Talvez tenhamos que começar dialogando com eles, na hora em que escutamos pela TV, no fatídico jogo Brasil e Iraque, parte de nossa torcida gritar sandices atrás do goleiro deles, coisas como: "Bicha, bicha, bicha."

Ah Ricardim, mas isso aí já é besteira. Mi-mi-mi de Geração Mertiolate que não arde.

Pra você que pensa assim, pergunto-lhe, E se fosse contigo, com teu filho, com teus amados?

Será que tua reação seria tão debochada, tranquila e favorável, e sem nenhuma empatia, se - em não sendo bicha (opção legítima) te colocassem esse rótulo?

Será?

Afinal, como dizia na minha terra: "Pimenta no nu do outro é refresco.

Joanna, pau no lombo nos idiotas da aldeia!

E, conte comigo para ajudá-la em sua ONG.

Amigos, convoco-lhes para darmos um basta.

Tirar o palanque desses idiotas, denunciando-os à justiça.
Não curtindo, nem compartilhando, nem debatendo com eles.

É isso que eles querem, palco. Querem Letícias Letícia Sabatellas para xingarem e gozarem seu minuto de fama.

Não se importado- com o dano emocional que estão causando, alguns deles irreversíveis, na autoestima.

Chega de acharmos que "somos assim mesmo".

Não somos. Eu não sou, você não é!

Já passou da hora da escalada da intolerância, seja de que fonte vier: política, religiosa, de raça, de gênero, de cultura e região, entre outras, ser barrada.
E isso também depende de mim e de você. E não é mi-mi-mi!
É cidadania.

Deixo-vos com um trecho, do excelente artigo: A Era da Grosseria On-line, de Bruno Ferrari e Gabriela Varella:

"Parece um duelo do Velho Oeste. No lugar da arma, é o dedo no mouse ou na tela do celular. Navegamos pelas redes sociais como se estivéssemos num filme de bangue-bangue. Aguardamos o adversário chegar armado para nos surpreender. Ao sinal de ameaça, “pá!”, ou melhor, “clique!”. Assim, compartilhamos textos esdrúxulos sem ler porque o título é provocativo. Distribuímos fotomontagens malfeitas achando que são imagens reais. Assinamos petições on-line sem saber do que se trata. “É golpe militar? Achei que fosse impeachment.” Quem veste camisa da Seleção Brasileira e vai para a rua é “coxinha”. Quem bate panela em discurso de político é “reaça”. E quem não bate? “Petralha”. Queremos protestar contra os religiosos intolerantes. O que fazemos? Enchemos uma rede social voltada ao público evangélico de filmes pornôs. Destruímos relacionamentos que levaram anos para ser construídos só por causa de um “curtir” ou de um “compartilhar”. E talvez não estejamos nos dando conta disso."

Sobre Rafaela e "Geni"


Em agosto de 2012, todas as manchetes incriminavam a atleta Rafaela Silva, por ter sido desclassificada "por um golpe ilegal", nas Olimpíadas de Londres.
O peso da palavra "Ilegal" colou feito lepra na pobre moça. Noutras manchetes, era mais forte ainda: "Golpe Sujo".
Ela foi vítima de toda sorte de moralismo, de uma sociedade pretensamente ética, quando é nos outros.
Ninguém aprofundou-se no que de fato ocorreu. Saíram feito papagaios de pirata pronunciando a frase: "Desclassificada por um golpe ilegal". E a acusaram-na de ser a vergonha da família, do Brasil, entre outras coisas feias, que vou poupar-lhes.
Na rede social fizeram com ela bullying digital. Muitos dos que hoje a aclamam.
Ninguém perguntou: Mas o que ela fez de ilegal? Mas, era ilegal mesmo?
Passou a ser ilegal a partir de quando?
Essa mesma imprensa que hoje a endeusa, a incriminou sem dar direito aos especialistas falarem sobre as regras.
Sem atenuantes. Ninguém falou que João Derly foi bicampeão mundial fazendo catada de perna.
Ninguém falou que a mudança da regra, que tornava essa prática objeto de desclassificação,ainda estava na fase de assimilação pelos atletas, tendo vários outros sendo desclassificados, pelo mesmo motivo, pois que durante toda sua vida de treinos a incorporaram no seu instinto de luta.
Ninguém, em 2012, falou que a regra mudou em 2009, para resgatar o judô clássico, da escola japonesa. E que era uma questão puramente técnica, e não atitudinal, nem de jogo sujo. Esse erro dos judocas está muito mais associado com falta de orientação dos técnicos para mudar o estilo de luta, o que é algo complexo, e falta de atenção por parte dos atletas, além de uma regra cuja aplicação ainda é bem subjetiva. A desclassificação por catada de perna não é um mau exemplo, nem uma trapaça, é um vacilo técnico e uma desatenção.
Mas, precisamos de Genis: "Joga pedra na Geni".
Ela voltou pra casa e teve uma grave depressão. Sua família a apoiou e quase que dava comida em sua boca, para ela não morrer de inanição.
Sua dor maior era ter sido chamada de "Aquela do Golpe Sujo", e ter recebido xingamentos preconceituosos.
Sua dor maior era na honra, na alma. Dor que pobre sente na pele, sendo a única conquista a que tem direito. Em sua dor, ela não queria levar para a sua família a placa de anti-ética.
Essa mesma impressa que hoje a endeusa, a crucificou. Nenhum destaque saiu de sua versão, afinal, em nossa sede de vingança pelo não-outro precisávamos de um Cristo, de um bode-expiatório, vejam abaixo, trecho recuperado de uma entrevista em 2012, antes dela deprimir:
"Como foi o golpe proibido que te eliminou das Olimpíadas?
Eu entrei e senti a adversária nas minhas costas. Senti que ela tinha desequilibrado, por isso eu meti a mão para ajudar. Os três árbitros deram a pontuação, e o de fora disse que não foi e pediu para marcar o hansokumake (punição que elimina o atleta da luta). Achei que o juíz fosse mudar a pontuação. Mas foi quando eu vi o árbitro da mesa conversando com o central e ele fez o gesto da mão, vi que ele estava falando de hansokumake. Olhei para a Rosi (Rosicléia Campos, treinadora) e ninguém estava entendendo nada, nem a adversária. Quando ele tirou o wazari e deu a penalidade, nem ela acreditou." Agosto de 2012, Wordpress
Fica o ensinamento, precisamos ter cuidado com as palavras. As palavras são como roupas, vestem as ideias, dão estrutura às nossas crenças, que atuam diretamente em nossa ação e agir no mundo.
Aprendi que antes de sair feito papagaio de pirata propagando manchetes, calúnias da alcova, que tal ouvir da própria vítima das fofocas, calunias, maledicências e todo tipo de julgamento, a sua versão.
Que tal repensar nossas palavras com as quais julgamos os outros?
Nesses tempos de redes sociais tão violentas, todo mundo com um teclado na mão o faz de arma.
E tome a disparar no outro palavras cruéis, em qualquer um que pense ou aja diferente dele. Acompanhe o rodapé de qualquer reportagem com comentário aberto e verá.
Era só ter substituído, nas manchetes garrafais, o " Golpe Ilegal", ou o "Golpe Sujo" por: "Golpe Proíbido pelas Regras Atuais)
Há uma enorme distancia, em termos de semiótica, entre os termos: ilegal-sujo, para o termo "proibido".
Quantas coisas proibidas fazemos, e nem por isso nos sentimos ilegais, ou sujos?
Coisas que questionamos sua proibicao, e subvertemos a ordem reinante, expressa naquela placa: "Proíbido nadar no Pier 21, (Lago Paranoá-DF)".
Eu nadei. Regra boba. Se os caras que chegavam ali de lancha e jet-ski podiam se banhar, por que eu não podia? Proibições que não vejo sentido, desconsidero-as solenemente. Mesmo correndo riscos.
Já quanto ao uso de um termo "Ilegal", remete à ilegalidade, remete a crise à moral, e não perdoamos. Mesmo que, muitas das vezes,não possamos jogar a primeira pedra, no quesito moralidade.
Já o proibido, ou permitido, remete às leis vigentes, e nesses casos a ética nossa de cada dia, a ética da vida e de nossa consciência, atua como juiz e nos salva, em algumas situações.
Então, vai minha querida Rafaela, passa na cara de todo mundo o que fizeram contigo, não numa mágoa ressentida, mas num banho de cidadania - para que não se repita.
Somos muito rápidos em sair propagando tudo, sem um aprofundamento, sem uma crítica maior, vendendo postagens de orelhas de livro, como verdades verdadeira. Ou posts de todo tipo de rede social, sem um filtro crítico, humano, justo e ético. Sem passar pela peneira da verdade. Sem dimensionar o mal que podemos estar causando.
Vai Rafaela, e vive teu momento de glória, que é o nosso, se liberte de toda injúria, de toda mancha, de toda nódoa de incompreensão que em ti jogamos, em palavras inapropriadas, que remetiam a coisa muito mais grave, do domínio da atitude anti-ética, sem darem a ti o direito de se defender, apresentando suas próprias versões.
Vai Rafaela e torne-se um ícone de todos que um dia também foram julgados de forma cruel, com palavras cruéis, que distorceram o que eles cometeram, projetando aquilo para algo muito mais grave do que de fato ocorrera. Só com a edição do outro, ou o pinçamento de cenas descontextualizadas.
Somos ávidos por sangue, por ecoar tudo que não presta sobre o outro, não nos permitindo a deter o círculo de violência.
Vai Rafaela, foi preciso você vencer para que eu resgatasse tua história, e que ela me educasse - e por extensão a quem dela degusta, para um maior cuidado e respeito no juízo de valor do outro. E pensar duas vezes antes de sair propagando tudo que a gente lê ou ouve sobre ele. Seja de que "fonte séria" bebamos. Permitindo-nos a um "Será?", libertador da autonomia do outro. E, por tabela, de sua dignidade.
Ps. Um dia depois da publicação dessa crônica.
Redenção - A Imprensa, ao se referir ao que aconteceu com ela em 2012, usa termos corretos: "Um movimento errado". "Um golpe irregular, um erro que qualquer judoca pode cometer". Agora sim!
Perdição - No dia seguinte ao Ouro, a atleta de natação do Brasil, Joana Maranhão, é vítima de todo tipo de achincalhamento digital contra sua honra e dignidade. Sofre de violência cultural, racial e até de gênero.  

Eu te desculpo, Daniele Hypólito!


Gosto de ver como o humano do humano salta aos olhos nos momentos limite. Ali, conhece-se verdadeiramente quem é quem.
O resto é gogó e power-point.
Hoje, dia 07/08/2016, acompanhando as Olimpíadas Rio 2016, fui premiado com cenas do humano em ação.
Numa delas, Daniele Hypólito consegue arrancar minhas lágrimas novamente. Ontem, foi seu irmão quem assim o fez.
Ela ia muito bem na prova que é craque, na Ginástica Olímpica, a da apresentação no Solo, embalada com a música de Anita, que contagiava a todos nós.
Eis que de repente, não mais que de repente, do salto esperançoso se fez a tragédia.
E que tragédia!
Daniele caiu de bunda no tablado.
Silêncio pesaroso se fez, em milhões de lares brasileiros que àquela hora acompanhavam-na, ao vivo, com sua torcida.
Numa fração de segundos que durou uma eternidade, ela olha para os lados, ergue-se e volta à sua apresentação, mordendo a língua, como se nada ocorrera.
Que força! Que altivez e dignidade. Que capacidade de superação. Qualquer um de nós ficaria ali, estatalado no chão, chorando copiosamente. Saberíamos que era o final. Ela não.
Ela seguiu o roteiro, sabia que o jogo da vida só acaba no apito final. Ergueu-se mais bela ainda, e continuou a fazer o que ensaiara por anos a fio, de forma graciosa e perfeita. Dando prosseguimento ao espetáculo.
Minutos após a apresentação, sentada, aguardando sua pontuação, as câmeras a filmam, como fazem com todo atleta, nos instantes em que esperam o resultado.
Ela olha fixamente para a câmera e pronuncia a palavra: "Desculpa".
Não sei leitura labial, mas entendi perfeitamente.
Para garantir que eu tivesse entendido, ela repete o pedido, pronunciando-a novamente.
E aí desabo num soluço incontido, desculpando-a. Ela não precisava pedir desculpas. Esse tipo de acidente é relativamente comum na Ginástica Olímpica.
Mas, seu gesto grandioso, pegou-me desprevenido. E chorei de alegria por existir pessoa tão bela.
Imagino o que se passou em sua cabeça naquela hora: o peso da idade chegando, mil horas de treinos, renúncias, noites sem dormir, dores físicas, e, 4 anos de preparação, para cair de bunda numa competição no seu país, repetindo uma cena que aconteceu com seu irmão, algumas Olimpíadas atrás.
E, diante de toda tragédia, decepção e tristeza, ela arruma um espaço no coração para aquebrantar-se diante de nós, seus fãs, para humilhar-se e pedir-nos desculpas. E, por não ter desistido com a bunda no chão, ainda conseguiu 12.000 pontos para sua equipe.
Não Dani, permita-me chamá-la assim, você não precisava pedir-nos desculpas, não há do que desculpá-la.
Esse seu gesto, de profunda empatia e humanidade, foi a sua medalha de ouro. Você já ganhou!
Como é difícil admitir uma falha e pedir desculpas. Na maioria das vezes, ficamos apenas nos justificando, ou colocando no outro a culpa.
Você foi ouro Dani.
Você pronunciou a palavra OURO: Desculpa.
Aquela que ao ser pronunciada, de forma verdadeira, dilata o coração e abre portas para recomeços. Uma palavra que sara feridas, que reconstrói trajetórias de vida, uma verdadeira enzima emocional, que cataliza os processos de convivência. Palavra que sara feridas, caso dita e sentida de forma verdadeira.
Você deu uma lição de dignidade, na derrota, à população brasileira.
Ultimamente de tão pouco humor, arrogante e cheia de agressividades.
Meu coração foi abençoado por ti, Dani.
Obrigado por existir.
Assim como meu coração foi abençoado por aquele jovem, da seleção de Vôlei, na partida contra o México que foi lá no Banco de Reservas e impôs as mãos no joelho de Lucão, um de nossos atletas que durante a partida se contundira.
Ele aproximou-se de Lucão, colocou as palmas das mãos sobre o joelho dele, e pronunciou algo.
Medalha de ouro pra você também, pelas suas mãos solidárias. Por ter esquecido um pouco de você mesmo e ter ido abençoar o outro, com o que tinha para o momento, apenas mãos em prece,
Com o coração transbordando, nesses dia de esportes e suas metáforas tão fortes sobre o ser humano, vejo uma cena que fez um contra-ponto.
Na repescagem do Judô, a judoca brasileira Erika Miranda aplica um ippon, faltando 10 segundos para terminar a luta com a romena Andreea Chitu, e ganha.
Contudo, ela não percebe que a romena está ferida. Após ser decretada vencedora, ela não olha para sua oponente que não consegue levantar-se do chão. Andreea, aparentemente, quebrou a clavícula com o impacto do ippon. Sua técnica, tenta levantá-la com muita dificuldade do solo. Nenhuma maca aparece. Ela sai do tatame como quem tem uma "asa caída", e nenhum socorro para ajudar-lhe.
Todos foram cuidar de suas vidas, após a vitória, foram comemorar! Sem importarem-se em amparar o vencido, ali estendido no chão e sem ninguém por perto para avaliar a extensão da gravidade de seu ferimento.
Não culpo a Erika. No calor de uma luta super disputada, depois que acaba, o lutador que vence quer mais é sair do ringue e comemorar. Mas, quem estava ali próximo, da organização do evento, bem que podia ter sido mais solidário.
Faltou percepção.
E é a percepção do outro o que torna grande os seres humanos.
Daniele Hipólito percebeu nossa necessidade de uma palavra sua, embora não precisasse. Ela nos foi profundamente cúmplice. Nunca esquecerei aqueles lábios pronunciando "desculpe".
O atleta de vólei percebeu a angústia de seu companheiro. e fez o que podia, colocou as mãos sobre seus joelhos e proferiu algumas palavras, tal qual prece.
E ninguém percebeu que a atleta não estava se levantando do tatame, por estar muito emocionada ou cansada, o problema era outro, ela não tinha força no ombro quebrado para erguer-se.
Perceber as necessidades dos outros nos faz humanidade. Nos torna melhores e catalisa uma chuva de emoções positivas, tão carentes nesses tempos estranhos.
Talvez, esse seja o maior legado do esporte, e não as medalhas, o de aprender a respeitar e cooperar com o outro, o de aprender a ser time, mesmo jogando - algumas vezes, sozinho!

Por falar em desculpas, os jogadores da Seleção Brasileira saíram sem falar com a impressa, ou cumprimentar a torcida, após o fiasco do empate de 0 a 0 com o Iraque, na noite de ontem 07/08.

Como percebem, atitude não é para todos! É para pessoas iluminadas, como a Hypólito.  

Um corpo que cai.



Eis que do ar ela vem caindo. Frágil, miudinha, vem queda livre, sem reação. 
Numa fração de segundos o chão aproxima-se de seu corpo miúdo, pasmo e sem reação ao que ocorre.
Não há nada entre ela e o solo.
Mas, um líder aparece e altera a natureza das coisas.
Líderes são pessoas que alteram o destino das cenas.
E a mão salvadora de seu técnico a ampara.
De forma digna, sem chamar atenção, quase como se ele ali não estivesse.
Depois, ele a ergue até a trave novamente. Para que ela continue sua série.
Esse gesto, de um dos técnicos da seleção Brasileira de Ginástica Olímpica, deveria ser tema de cursos de liderança e gestão.
Sua beleza transcende.
Expressa um cuidado extremo, uma única mão projetada no vazio, barra a força da queda, e a amortece.
Todos precisamos dessa mão que nos ampara quando em queda livre caimos
Todos. Os pais precisam assim fazerem para com seus filhos.
Gestores para seus liderados. Pastores, para suas ovelhas.
Amigos, para seus amigos.
Voltando-me para a vida corporativa, na qual temos urgência de posturas-coaching, o mais comum é ver os chefes lavarem as mãos, quando alguém de sua equipe vem caindo, ou não performa como planejado.
Vão guardando as coisas ruins, como quem faz um inventário, sem qualquer intervenção que possa corrigir rotas, alterar posturas. Sem ter as conversas difíceis, libertadoras da autonomia do ser. Emancipadora de nosso desempenho, desde que amorosas.
Um dia, eles puxam a fatura do inventário e se acham o máximo, por lembrarem-se das quedas que testemunharam, sem nada fazerem após. No sentido de recuperarem a auto-estima e carreira do caído. E o ano passa, e eles começam novo inventário de coisas ruins que vão vendo, sem tomar parte para - juntos, melhorarem como time.
Parece que não é com ele, e não é dele também a responsabilidade.
Gerentes que não acreditam, investem e despertam o melhor potencial humano de seus colaboradores, não é exceção nas organizações do trabalho, infelizmente.
Então, essa cena, durante a apresentação da ginasta Flávia é pedagógica.
Assim como o abraço que ele deu nela, ao término da apresentação, erguendo-a do solo.
Senti-me abraçado por ele. Como gerentes precisam aprender a abraçar. Como!!!
Quem já sentiu, na carreira profissional, o valor de um braço que nos segura na queda, e o de um abraço, naqueles dias em que achamos que não conseguimos, sabe de que falo.
O Valor de um braço que segura, e de dois que nos erguem pra continuarmos na luta, e depois nos abraçam - celebrando o resultado, seja qual for.

Isso sim, é atitude de líder!  O resto é ser chefe. Em qualquer instituição que a liderança atue. 

Cartas ao JG - Cuidado com Posições Inflexíveis, use sem moderação o: Será?


Cuidado com Interpretações de Narrativas Descontextualizadas (Autor Ricardim)
Entendam esse texto como um desabafo de um pai, escrito para seu filho. No caso, o pai sou eu. Temos que ter muito cuidado ao interpretar as narrações da realidade, mesmo que venham de nossos filhos.
Pois, muitas das vezes, não conhecemos nem estivemos no contexto da mesma, e podemos distorcê-las, seja por histórias anteriores vividas , seja por super-proteção, ou até por erro de interpretação mesmo, subindo a "Escada da Inferência" (de Chris Argyris). Segue o texto em forma de carta ao JG (meu quarto filho, o João Gabriel - 7 anos )
---------
Nessa sexta, fomos para o colégio caçando Pokémons. Um barato tem sido como estamos interagindo com esse joguinho.
No caminho, conversamos também sobre um de teus amigos de escola, e sobre a noite de ontem na qual o nosso cachorro parecia estar engasgado com algo.
Despedi-me de você, dizendo-lhe que mais tarde iria trazer-lhe um presente, para você entregar ao seu amigo.
É que houve um terrível mal-entendido entre vocês. Por extensão, entre nossas famílias e a escola. Tudo começou quando recebi um post de tua mãe dizendo-me que você estava machucado no olho, e que dissera que foi um chute dele.
A partir daí, cegamos para qualquer outra hipótese. E saímos acusando e julgando pessoas. Tínhamos uma história anterior com esse garoto, e bem desagradável, e aquela experiência amplificou nossa ira. Então, pessoal e meu filho JG, cuidado com traumas passados, eles alteraram a visão do presente, quando se repetem, mesmo que em novos palcos, cenas e até personagens.
Como o mal entendido fora desfeito?
Na manhã da quarta, quando íamos na Diretoria da escola, conversar sobre o caso, encontrei a mãe de seu amigo, na recepção.
E ela me abordou bem triste com o acontecido.
E eu a acolhi serenamente. Dei-lhe chance de falar-me sua versão.
Minha esposa ainda não chegara, então tinha tempo para ouvir aquela mãe com calma e respeito.
Sabe pessoal, e JG, a mãe de seu amiguinho estava chocada com a extensão do caso. Ela me disse que o seu filho tinha garantido-lhe que não fizera aquilo. Isto é, que não lhe chutou. Que o tratamento que vem fazendo para TDAH está dando certo, ele está cada vez mais concentrado.
E que ainda, (isso foi que me matou mesmo) é ele quem te defende de amigos mais agressivos, por ter te escolhido como melhor amigo dele. E está sentindo a tua ausência no recreio, por nossa recomendação.
Nessa hora, filho meu, um milagre aconteceu. Daqueles milagres que acontecem quando nos permitimos ao diálogo.
Eu me permiti abrir espaço em meu coração para o benefício da dúvida. Será que você tinha inventado?
O milagre é o benefício da dúvida. Apaguei logo uma postagem que tinha feito. Afinal, aquela mãe me fez misericordioso para com ela.
Logo depois de seu relato, ela foi embora e poco tempo depois tua mãe chegou, e seguimos para a reunião com a Diretoria.
Durante a reunião, surpreendi tua mãe, pedi ao diretor que apurasse melhor a versão da mãe de teu amiguinho; E afirmei categoricamente que não garantia mais, com 100% de certeza, que houvera acontecido um chute.
Sua mãe não entedia nada do que rolava na reunião.
Perguntei ao diretor se eles não tinham mais testemunhas, se não tinham câmeras.
Ele, num lampejo de discernimento, lembrou-se que principalmente nas áreas comuns, como ginásio no qual aconteceu o tal chute. E que talvez, como fazia só 48 horas, talvez as cenas de vídeo ainda pudessem estar estar disponíveis.
Mas, não garantia se tinham pego a cena, ou com a qualidade recomendável.
Insisti. E eles ficaram de nos retornar.
Coloquei em dúvida teu parecer. Mesmo me doendo e ter me sentido fuzilado pela mão-loba.
Ontem, quinta-feira, a Direção me ligou com o laudoa das imagens.
De fato, o que provocou a tua ferida perto do olho foi o pé do seu amigo, como num chute. Mas, não houve um chute proposital, como aquele que chutamos uma bola.
Vocês estavam brincando, correndo pela quadra, quando escorregaram e, acidentalmente, ele voou por cima de você, tendo o pé dele resvalado na sua cabeça, machucando-lhe no olho.
De tua posição, caído no chão, e olhando para cima, era o pé dele quem te chutava. Entende filho? Você não mentiu.
Nós, teus pais, é que falhamos em não explorar melhor a perspectiva da cena.
Fiquei muito aliviado, afinal vocês são amigos. Então, como forma de minimizar nossa falha em acusar o seu amiguinho, comprei um brinquedo para ele, e também presenteei a mãe dele com um de meus livros.
E muitos, mais muito mesmos pedidos de perdão.
Se tivéssemos te perguntado em que condições aconteceu o acidente, você mesmo teria dito que escorregou no chão, após um carrinho que deu no seu amigo, e que ele voara por cima de ti.
Pegamos a palavra "Chute", e dela fizemos tragédia.
Percebe que quando colocamos o contexto, no qual se deu o ocorrido, podem aparecer atenuantes?
Procure a verdade das coisas, observando-as de vários ângulos e perspectivas.
Cuidado com as primeiras impressões. Cuidado para não perceber algo, pelas lentes distorcidas das experiências anteriores, ou as do preconceito.
Foi assim que conosco ocorreu, distorcemos a realidade para que ele coubesse dentro de nosso modelo mental, e crucificamos indevidamente o teu amiguinho.
Este final de semana terei que me chicotear muito para expiar essa culpa.
Nesse mesmo dia, em que lhe escrevo sobre a verdade das coisas, um amigo crucifica o jogo Pokémon Go atribuindo-o a coisa do Demo. Um outro me diz com certeza que ele é um jogo de espionagem da CIA, dos EUA.
E aqui vai o segundo ensinamento sobre a natureza das coisas; cuidado com extremismos, radicalismos e visões carregadas de preconceito da realidade.
Cuidado com fundamentalismos.
Desenvolva o pensamento crítico. Pesquise outras fontes, antes de sair acreditando em tudo. E aí, lembrei-me de te falar para ter cuidado com esses extremos que circulam pelas redes sociais.
Não condene ninguém à fogueira da inquisição, por pensar e agir diferente de você.
As coisas são e não são. Nem tudo é 0 e 1. Ou, sim ou não.
Sabe meu filho, tenha cuidado com radicalizações. Busque a verdade das coisas, sem paixão, sem cegar pelo preconceito.
Tenha autonomia para nadar contra a corrente, permitindo-se elaborar uma nova visão sobre algo que ocorre, e que todo ao teu lado, apaixonadamente, metem o bedelho.
Permita-se pensar diferente, exercitar a liberdade do: “Será?”
Uma das melhores formas de pensar diferente é o estudo. É procurar as fontes, as referências sobre algo. É aprofundar-se num tema, possibilitando uma análise crítica mais ampla.
Quando tudo vira uma guerra de ideologias perde-se então o sentido, o prumo. Perde-se o juízo e a visão ponderada.
Cuidado com as ideologias radicais, sejam políticas, sociais e espirituais. Cuidado com seitas, cuidado com gente que é 100% uma única coisa. Cuidado com verdades sagradas. Cuidado com o corporativismo excludente.
Muitas das vezes um chute, será apenas um chute, sem intenção de chutar, entende filho?
Muitas das vezes um Pokémon será apenas um jogo lúdico, de geo-referenciamento, entende filho?
Cuidado com a visão binária da realidade, daquelas do tipo Sim x Não.
Do tipo: “ Ninguém mais convive com ninguém, pois as redes sociais estão acabando com a interação humana presencial.”
Será?
Quantas pessoas tornaram-se mais próximas exatamente após se conhecerem no mundo virtual. Percebe filho? A natureza está sempre grávida do seu contrário.
Não seja um chato radical de coisa nenhuma, nem dieta, nem crença, nem política, nem cultura, nem opção sexual, nem opiniões. Permita-se ao diferente.
Lembre-se, um chute pode não ter sido um chute, mesmo que chutado foi.
Permita-se ao benefício da dúvida. Possibilitando que seu pensamento crítico a encare de outros ângulos, de outras perspectivas, antes de tomar uma decisão, antes de sair julgando e aprisionando tudo no seu modelo mental.
Cuidado nas crenças arraigadas, que alterarão sua percepção.
Cuidado com as experiências anteriores estarem também alterando sua percepção sobre as de agora.
Abra possibilidade, antes de sair julgando e acusando todo mundo, para que a pessoa que acusa ofereça sua própria versão dos fatos.
Nunca seja radical em nada. Abra-se ao novo.
E não julgue quem não gosta do que tu gosta. Eles são apenas diferentes.
Posso não gostar de música eletrônica, mas não posso classificar quem gosta de “ povo estranho”. Afinal, quem de perto é normal?
De perto, somos estranhos. Com identidades e individualidades próprias, e, muitas das vezes, diferentes umas das outras.
Agora vamos caminhar um pouco para chocarmos um ovo do Pokémon. Temos 2 km pela frente. Bora?
Sim, em tempo, continue sendo uma criança meiga e alegre no colégio.
Esqueça o que lhe falei de sair mordendo e batendo em todo mundo, quando se sentisse ameaçado.
A coordenadora notou você bem agressivo, nesses últimos dias, e perguntou o que estava acontecendo em casa?
Sem graça, respondi que você é um menino obediente. rsrs
Nós sabemos o que aconteceu. Portanto, não mude, seja você mesmo, de natureza mansa e amiga.

Carvão Emocional



Estava zanzando, entre um esporte e outro, acompanhando a Olimpíada, ainda ressaqueado da estonteante festa de abertura da noite anterior, quando vi que havia mensagem no whatsapp. Era uma amiga minha, pedindo um help emocional.

"Amigo, diga aí qual é a crônica sua no seu blog ou o vídeo seu de psicologia positiva que se enquadra num dia em que a gente leva um esbregue no trabalho, bate o carro e a geladeira pifa. Dê aí a dica para eu ler/assistir agorinha, por favor".

Com preguiça de procurar no Bode com Farinha (meu blog), algo para prescrevê-la, resolvi escrever o que penso e sinto.

Todo mundo já teve um dia como o dela, inclusive esse que vos escreve.

Aquele dia em que tudo dá errado.

Parece que somos testados no limiar de nossa paciência.

E ficamos exaustos, emocionalmente falando, como minha amiga ficou.

A primeira coisa que devemos fazer, quando temos a auto consciência de um dia difícil, ou de uma fase desgastante que passamos, é o da hora de colocar um carvão.

Como assim, Ricardim?

Deixa eu te contar o que aconteceu comigo, sábado passado, e entenderá.

Meu filho veio cozinhar aqui em casa. Ele fez uma sequencia de camarões. Deliciosa. Mas, algo ficou errado na geladeira.

Havia um cheiro fétido de camarão. Creio que deixei a sacola aberta, na semana que sucedia a comilança, e o cheiro do camarão impregnou tudo.

Perto das 18hrs, naquele sábado, cruzei com meu filho colocando algo na geladeira. Notei que ele acomodava dentro dela umas quatro pedras de carvão.

Não de carvão ativado, de carvão comum mesmo, daqueles de churrasco.

Ele me falou que aquilo seria suficiente para recuperar o cheiro bom da geladeira.

No domingo, desconfiado, abri a porta da geladeira e ainda senti um pouco o cheiro ruim. Não havia nenhuma marca, de resto de camarão derramado, mas ainda tinha um pouco de fedor.

Hoje, ao abrir a geladeira, que grata surpresa. Cheirosa, sem fedor algum.

Quando temos um dia de fúria, com vários incidentes desagradáveis, ao longo dele, temos que achar motivos para colocar carvão em nosso ser interior.

O estrago do que ocorreu não temos como retornar. Nossa vida é como um post do whatsapp, depois que algo ocorre não temos como editá-lo. Ah! como seria diferente se fosse como os posts do Facebook, editáveis.

Mas não!

Minha amiga já não poderia retornar a fita da vida e evitar a batida do carro; evitar a bronca do chefe; ou mandar a geladeira par ao conserto, preventivamente.

A única coisa que ela pode fazer é botar carvão emocional em seu viver.

Carvão emocional são as emoções positivas.

Prescrevi-lhe que desse um abraço na sua filhota, de 1 ano. Ou que fizesse um cafuné no marido. Pode ser tomar um banho gostoso e se perceber vivo ainda.

Ou ainda, que fossem juntos ver o por do sol de algum lugar em paz.

Isso são carvões emocionais, sua influência em nossas vidas, diminui a intensidade do fedor emocional, daquelas coisas que não deram tão certo.

Pode não resolver a geladeira pifada, o carro batido, e a relação com o chefe.

Não amigos; carvão emocional, não resolve as coisas que deram errado. Mas, funciona energizando outras áreas em nossa vida, trazendo aromas de lá, que em oposição aos de fedor, acabarão por neutralizar o seu efeito danoso.

Entendem a metáfora?

Não pode é se prostrar, imobilizado pelo sofrer, aguardando ansiosamente que algo novamente de ruim aconteça.

Se acreditar nisso, que haverá uma quarta coisa fedida no dia, com certeza vai atrai-la.

Procure direitinho, no depósito de seu coração, e verás sacos de carvão prontos a serem usados por você, para aplacar o sofrer.

Um de meus principais carvões é a oração. A oração tira o fedor emocional de um dia ruim. A oração contemplativa, meditativa e de agradecimento.
Muitas das vezes, quando oro, deixo-me elevar pelas notas de uma canção, repetidas vezes colocadas para tocar.

Mentalizo que sou o baterista da banda que aquela música, e o acompanho durante toda a evolução, relaxando pela concentração ativa.

Outro de meus carvões são os filhos, são meus álbuns de fotos, é quando arrumo meu escritório, quando fotografo, quando escrevo.

Algumas pessoas pensam que o pensamento positivo resolve os problemas da vida, como se eles fossem mágicos e uma droga milagrosa.

Nada disso. Não resolvem nada.

Como assim, Ricardim?

Deixa eu te explicar com minha amiga. De que adianta ela olhar para a geladeira e ter um pensamento positivo?

Ou olhar para amassado do carro?

Não funcionará, isto é alienação. Olhar para a geladeira pifada, em pleno sábado e com criança pequena em casa, despertará nela pensamentos negativos, e justos.

Eles são legítimos.

O que recomendo, e que funciona comigo, é não se deixar tolher por eles, mergulhando-os no redemoinho de nosso coração, como aquela sujeiras sobre a água ficam quando tiramos o sifão da pia.

O que recomendo é procurar os carvões e ativá-los, para que eles neutralizem os odores fétidos.

A causa do mal cheiro ele não elimina. No caso, resto de líquido de camarão que derramou na minha geladeira.

Ele apenas me dá tempo, e melhores condições, para que hoje eu possa tirar: gaveta a gaveta, e fazer a limpeza definitiva.

É isso que os carvões emocionais nos dão: tempo. Tempo de recomeçar, tempo de renascer. Tempo de esperança.

Eles são como curativos. Protegem a chaga de nosso sofrer, para que mais coisas tocando nelas não agravem a situação do ferimento.

Se você também está passando por aflições e preocupações, oriundas de dias ruins, descubra o que ainda está legal em teu viver, descubra fontes de prazer, fontes de satisfação, e tragá-lhes ao seu viver. Concentre-se neles. Declare que eles existem. Perceba eles.

Perceba que o carro recebeu um amassão, mas que ainda está funcionando. Que a geladeira pifou, mas que pertinho vende gelo que poderá usar para conservar alimentos por uns dias, enquanto chega o reparo, ou procure ajuda na geladeira do vizinho.

Perceba que o chefe deu uma bronca, mas que tantos dariam a vida para nesse dia terem um chefe, para chamar de seu, mesmo que bronquento.

Isso não é alienação. Isso é colocar as coisas numa prumada positiva, para relativizá-las dentro de um contexto maior, e ao fazer isso o efeito do sofrer, o cheiro ruim, diminui pela força da esperança dos dias melhores.

Quem aprende a valorizar seus carvões, e a tê-los sempre por perto, terá capacidades para lidar com o sofrer, enquanto ganha força para enfrentá-lo melhor.

Quem aprende a relativizar a dor, colocando-a numa perspectiva diferente: ou seja, não é só comigo, não pessoal, não permanente e não geral; verá que o mostro do dia ruim perderá um pouco de sua intensidade, confrontado com uma visão lógica de contabilização dos ganhos que restaram, e não das perdas que causaram.

Entendem, amigos?

A psicologia positiva é uma psicologia da razão. Do autoconhecimento e ampliação da visão do bom, do belo e do virtuoso, que muitas das vezes acontece nas extremidades de nossa visão, lá onde a vista alcança os 180 graus, e de tão aperriados, estressados e nervosos não vemos mais.

Enquanto escrevo recebo um novo post de minha amiga. Eu tinha respondido aquele, do início do texto, com a teoria do carvão. "Amigo, vamos todos comer um carvão. Pegamos nossa filhota, e vamos ver o pôr do sol por aí".

Pronto, entendeu o conceito do carvão. E comendo é melhor ainda. rsrs

Crônicas Anteriores