Acorde, vem olhar a lua! (Crônica 500)


Madá, olha que lua linda que nessa noite faz!
Fui buscar a máquina e bater essa foto para ti, a que ilustra essa crônica.
Lembra que te fiquei devendo uma crônica?
Aliás, levei até um puxão de orelha de ti, quando daí retornei, em julho/2016, e fiz uma crônica sobre outro tema.
“Puxa, falou de tudo de Londrina e não falou de nós? ”.
Lembra? Quando li teu comentário, confesso-lhe: abri um sorriso e disse: “Minha sogra sarou, voltou a reclamar. ” rsrs
Têm uns dez dias que venho adiando essa crônica, não que faltassem motivos, mas travei – afinal essa é a 500 crônica de meu blog: o Bode com Farinha.
Quisera o bom Deus que a 500entona fosse para ti. Mas que lua, hein!
Espero que do Céu esteja contemplando-a, mais formosa ainda, com certeza.
Queria tanto que o pedido da canção: “Acorde, vem ver a lua”, fizesse-se realidade. E tu acordasse, viesse passar uns dias conosco, aqui em Brasília, e que tudo não passasse de um mal-entendido, um sonho acordado, ou uma pegadinha divina.
“Acorda, vem ver a lua que dorme na noite escura
que surge tão bela e branca derramando doçura
Clara chama silente, ardendo meu sonhar
As asas da noite que surgem, e correm o espaço profundo
Oh, doce amada, desperta
Vem dar teu calor ao luar
Quisera saber-te minha na hora serena e calma
A sombra confia ao vento, o limite da espera”.
Mas, como bem diz a canção: “a sombra confia ao vento, o limite da espera”. E o vento-Pai sabe a hora de levar, e era chegado teu dia.
Precisava ver como tu estava linda. Tuas filhas capricharam. Estava serena, toda formosa e bela, em paz, e arrodeada por mil flores, e de corações orantes.
Do jeito que gostaria de ser.
Pela manhã de hoje, ao terceiro dia, fiquei um tempo contemplando teu jardim, conversando com a Sandra, enquanto ela o molhava, com água da rua e das suas retinas.
Sandra contou-me o esforço que fez para preparar teu jardim. Contou-me até que tu falou chorando, ao vê-la jardinando pesado, que não se sentia bem vendo-a trabalhando sozinha, sem tu poder ajuda-la, de cansada e fraquinha que se sentia.
Ficou lindo o jardim, destacando mais ainda tuas palmeiras-orquídeas.
Enquanto conversávamos uma senhorinha que vinha descendo a calçada parou e chamou a Sandra pela grade do portão.
Ela disse assim: “Sou a vizinha lá da rua debaixo; outro dia enquanto tua mãe tomava sol eu fiquei conversando com ela um tempão. E ficamos amigas. Ela gostava de ouvir e de falar. Perdi uma amiga. Se precisar de algo de doméstica fale comigo, eu posso ajudar”.
Ficamos mudos. Aliás, tu sabia que aqueles moços que faziam hemodiálise contigo foram se despedir, e deram testemunho idêntico. Dizendo que tu era a distração deles, naquelas 4 horas, falando pelos cotovelos e ensinando-lhes receitas.
Hoje juntamos a família na tua casa, do jeitinho que gostava. Até seu Dito foi. Abrimos as cortinas, janelas, o Marcos deu uma de eletricista e consertou a lâmpada da garagem.
Fui comprar a chuleta do Japa, lá da esquina, aquela que tu comias com prazer.
Madá, tu já deve estar sabendo aí por cima. Dona Iasakuto, a mãe do Japa e tua amiga, faleceu 15 dias depois daquela nossa ida lá, em julho/2016. Ela foi atropelada, quando ia buscar seu marido no mesmo hospital em que tu fazia a hemo. Já pensou?
Jose, tua filha mais velha, preparou uma farofa de cenoura, divina. E aquele teu arroz, que comemos ajoelhado de tão bom. Seu Dito e eu tomamos um cálice de cerveja. Hoje ele estava precisando. Botamos para tocar “Por que Ele vive”, entre outras, almoçando ao som de músicas que nos falam de um amanhã espiritual, consolando-nos mutuamente.
Botei gás para apressar Cristina, para não perdemos o vôo, e te ouvi cochichando, como sempre fazia: “Sandra e Cristina são tudo lerda com horários, tem que começar a chamar pra sair uma hora antes”. Sorríamos de nossas confidências espirituais que só nós ouvimos.
Sim Madá, trouxe umas sementes daquele caramanchão amarelo, do cemitério de Pirajuí-SP. Se as mudas pegarem, vou fazer um pra ti.
As meninas vão caprichar na reforma do jazigo da família, coisa fina, Porcelanato Portinari, fui com elas na Leroy escolher as peças. Fique tranquila, estará tudo bacana para o dia 2/11.
Do lado de cá, o JG pesa que tu “mudou de fase, evoluiu”. Ele sabe que tu morreu, mas na inocência dele não caiu a ficha. Só quando eu o vi hoje, fazendo bagunça no tapete da sala, e ameacei chamá-la para ralhar com ele. Aí ele olhou-me tristemente, deixando transparecer a dor que sente, por um instante sequer. No corpo dele li o que queria dizer e não conseguiu: “Vovó viria era para baixo desse tapete, brincar comigo”. E iria mesmo.


Sim, deixa eu te contar. Não é que aprendi a dirigir carro automático. Eu tinha que levar as meninas no carro da Sandra, por 300 km, até Pirajuí-SP. Aprendi no tranco, dando cada freada por erro que todo mundo balançava a cabeça. Em desaprovação ao cangueiro aqui.
Finalmente o chuveiro de teu quarto funcionou sem pelar minha pele. Após o conserto que a Sandra mandou fazer, ele voltou perfeito. Você deve ter ficado orgulhosa dele, aquela raridade Lorenzetti, da década de 70. Quis roubar tua escova de costas, uma rósea, dentro do box. Queria uma coisa tua por aqui, mas pensei melhor. Não pegaria bem. Vou roubar outra coisa. Que Sandra não me leia.
Sim, buscamos a penteadeira no quarto de despejo e arrumamos teu quarto como ele sempre foi, como era antes de chagarem os equipamentos para a hemo domiciliar.
Ao levantarmos tua cômoda, vimos que estava em cima dela a importância de R$ 90,00 num envelope do Dízimo de tua igreja.
Não teve jeito, ambos choramos.
Choramos de alegria por ver aquela cena.
Eram mais que 10% de tua pouca renda.
Aquilo ali representava gratidão. Não eram noventa reais.
Era um coração agradecido, em forma de cifrões. Sandra contou-me a pouco que foi – nessa noite de domingo, levar ao culto a tua oferta.
Nunca esquecerei Madá a fala emocionada da Sandra, durante teu velório: “Eu só tenho o que agradecer. Ter passado mais de 20 de minha vida cuidando de minha mãe, foram vinte anos ganhos, e não perdidos. Ganhei 20 anos ao lado dela. Ganhei uma companheira, uma amiga, uma confidente, uma cuidadora, torcedora por minhas conquistas e fiel escudeira”.
Aprendi três coisas contigo, nesses dias de tão intensas emoções.
A primeira delas é a que independente de como nos sentimos; do quão pobres e miseráveis nos achamos; de nossas doenças; de sentimentos de mal-estar, fraqueza e até desânimo, é sempre bom ter um envelope aberto, na cômoda de nosso coração, ainda cheio de coisas dentro dele para por elas agradecer ao bom Deus. Em tudo daí graças. Aprendi a prática disso, ao ver aquele envelope no teu quarto.
A segunda coisa é o valor da disponibilidade para um dedo de prosa. Mais de 300 pessoas passaram pelo teu velório, cada uma delas – quase como um papel carbono, destacavam teu dom de ouvi-las, conversar com elas e estimulá-las a ser melhores. “Escuta, você que nesse leito faz hemodiálise por 4 horas, e por semanas percebemos que não fala com ninguém, nós aqui estamos no mesmo barco. Converse conosco, quem você é? ”
E o homem, o “introspectivo”, sorriu e abriu-se para o grupo. Trazendo até fotos da família, para mostrar a todos, nas sessões subsequentes. Sim Madá, a senhorinha que passava pela calçada só queria alguém para conversar. Na sua solidão, de “do lar”, ter alguém quando voltava das compras para saudá-la e prosear era melhor do que tarja preta.
Ela contou-nos isso com olhos marejados, o quanto para ela foi significativo aquele tempo a ela dedicado para escuta e diálogo.
A terceira coisa, e por aqui vou me despedindo, dado que a prosa deve estar boa por aí em cima e não quero atrapalhar, e que aprendi foi o valor da resiliência. Você não desistiu de viver, e em nenhum momento. Nesse vale de lágrimas, entre internações, UTIs, exames, clínicas e hemos, que fazia desde fev/2016, você nunca antecipou sua hora desistindo, ou prostrando-se de forma mórbida e letárgica. Você queria viver. E lutou por sua vida, do seu jeito, honrando e reconhecendo esse dom precioso de nosso bom Deus. Você jogou até o último minuto da prorrogação, afinal, o jogo só acaba no apito final. E você não o antecipou.
Nunca desistiu. Sempre deixava que a Sandra lhe desse banho. Lhe levasse ao médico. Deixava que lhe fizessem os procedimentos, alguns bem invasivos e doloridos. Que outra pessoa, já sentido a fraqueza que sentia, insistiria em ir visitar sua cidade natal - sujeitando-se a dois dias seguidos de hemodiálise, para que pudesse ficar 4 dias em Pirajuí-SP? Isso foi no mês passado, lembra? Quem de nós poderá agora desistir? Alegar que tudo já foi tentado e querer antecipar a hora? Quem pensa em desistir, querendo colher os tomates cereja da calçada, como tu fez?
Por fim, hoje senti muita falta do aroma do café, pelas 6 da manhã, quando eu acordava junto com o tique taque de teu relógio do criado mudo. Sandra fez. Mas, o teu é o teu.
Sim, fique tranquila pela Sandra, nós cuidaremos dela.
Hoje, o Tiago vai dormir lá. Ela nunca estará sozinha, afinal somos uma família. E, quem tem família, nunca está só!.

Olha o pão!!!


Na portaria de meu condomínio, uma simpática carrocinha de pão, daquelas de antigamente, quando o pão passava de casa em casa.
E, nessa proposta uma ideia maravilhosa. É possível cultivar espaços para o exercício da confiança. Pegue seu pão quentinho, 5h30min da manhã, ou 17h30min da tarde, deixe o dinheiro numa caixinha R$2,00, e a metade vai para entidades assistenciais.
São 3 pães, por sacola. E a caixinha estava cheia de notas de 2.
A solução para o Brasil passa pela organização social, em torno do coletivo.
Já vi experiências assim com livros (T-Bone); com preces; com roupas que deixamos em paredes pintadas, e até em redes de doações solidárias, do tipo: pegue lá em casa.
A salvação vem pelo nós. Essa ideia que em nosso país o povo não presta, e, nele não se pode confiar, é errônea.
Têm uns malas? Sim, mas até em nações com mais de 2.000 anos de existência lá também têm os seus.
Fui lá e comprei meu pão. Agora me senti parte de algo maior.
Só precisamos deixar de omissão, de achar que as coisas vão de mal a pior, e acreditar que com pequenas atitudes podemos mudar a natureza das instituições brasileiras. Tais como essa carrocinha faz, em prol de um propósito comum, daqueles dignos de falar dele em casa, ou por aqui.
Precisamos recuperar a autoestima de nosso povo. Parar com esse complexo de inferioridade que só destaca o que temos de pior. Têm muitos projetos legais acontecendo, país afora.
Só precisamos divulgar mais esse circulo virtuoso. E, ingressar em algum deles. Precisamos voltar a participar da construção de uma sociedade melhor, e sarar dessa ressaca institucional.
Agora, vou ali fazer um pão com ovo.

Uma tocha que se ergue.

Ela vinha andando lentamente, com o apoio de uma bengala.
Naquela noite, atravessava os metros mais importantes de sua carreira, desde 1984, quando nos 200 metros rasos ganhou a primeira medalha de ouro do Brasil, numa Paraolimpíadas.
As tochas estavam no caminho da Márcia Malsar, pois luz que é, atrai luz.
Em 1984, o ano de sua redenção no esporte, no qual amealhou 3 medalhas, sendo uma delas de ouro, o símbolo da Paraolimpíadas, realizadas simultaneamente nos EUA e Inglaterra, era uma tocha.
Agora, 12 anos depois, lá estava novamente a Márcia com a tocha.
E lá vinha ela, caminhando qual um graveto soprado ao vento, equilibrando-se a cada passada, sobre a fé em si mesma que conseguiria avançar.
Altiva, seguia firme em direção á pira, até que quis erguer a tocha, como quem a saudar a multidão. E, aquilo desequilibrou seu apoio, levando-lhe a cair.
Numa fração de segundos, a tocha projeta-se pelo chão, ainda acesa. Ela, olha a situação, e ergue-se graciosa, fazendo um sinal para os ajudantes que correram para acudi-la, do tipo: eu estou bem.
Então, levanta-se, recebe a tocha novamente e segue sua missão, não sem antes abrir uma expressão confiante e sorridente, daquelas que só sobreviventes sabem interpretar, aquela do som inaudível de corações corajosos, o som da esperança, um som que diz: "vou tentar mais uma vez".
E tentou, e conseguiu. Nem a chuva e nem a queda a impediram de levantar e continuar seu caminho. Um verdadeiro exemplo de determinação.
Naquele momento o Brasil chorou, a arquibancada ficou de pé e a aplaudiu efusivamente.
Naquele momento, todo mundo que pensa em desistir - diante de situações que os levou ao chão, recebeu uma lufada de ânimo. Todo mundo ganhou um estímulo para resistir mais um pouco, tentar mais um dia, tudo outra vez.
Milhões de telespectadores do mundo inteiro não viram uma Márcia rabugenta, reclamando da chuva, do apoio, da pista, ou da situação, não viram uma Márcia desistindo, metros antes de seu objetivo final.
Ela tinha o álibi perfeito, para ficar ali mesma, para renunciar seu sonho de entregar a tocha, ao próximo atleta, num lugar determinado.
Mas, ela soube levantar-se e perseverar.

Talvez este seja um dos legados mais importantes, a lição de que talvez o mais importante não seja - nessa vida pelejante, evitar sofregadamente não cair. Mas, aprender a levantar-se depressa, queda à queda, sempre mais forte e sábio.
E, com um prazer enorme de continuar, de forma sorridente, sem culpas, ressentimentos, ou terceirizações de responsabilidades.
Simplesmente continuar nossa trajetória, nossa jornada levando nossa chama interior, a da esperança, para outros que dela precisarão, ao longo do caminho. E que em nós se inspirarão para não desistirem.
Márcia, muito obrigado. Você deu motivação a tantos que passam por doenças crônicas, por situações difíceis, ou lutos doloridos a caminharem mais um pouco, resistirem mais um bocadinho, acreditarem que sua chama não apagará, que será reerguida e ainda servirá a muitos que querem desanimar, e verão neles a força do exemplo, a coragem dos grandes, dos sobreviventes. Quem mais quererá ficar sentado à beira do caminho, chorando "o leite derramado", ou sua tocha interior caída no chão, prestes a se apagar, depois de ver o que você fez?
Quem?
Então vamos lá, é hora de se erguer. De levantar novamente seus sonhos, seus projetos, seus valores e motivação de viver.
É hora de resgatar a esperança de que o amanhã será melhor, erguendo sua chama interior de forma altiva, feliz e, passo a passo, mesmo cambaleantes, atravessar os buracos existenciais fruto dos choques do real com as fantasia.

O que tenho aprendido com o Pokémon sobre o sentido da vida. (Autor Ricardim)


Aprendi que mais vale o caminho do que a linha de chegada. Como? No jogo Pokémon-GO, um dos itens recebidos nos postos de distribuição (porketshops) é um ovo. Para chocá-lo o usuário do jogo precisa andar. Sim meus amigos, andar. Uma sacada maravilhosa. Tem ovo de 2km, de 5km e de 10km de caminhada. Depois da qual, eclode - num show a parte, um bichinho para sua coleção. O bichinho é o de menos. Já que muitos são repetidos. O barato mesmo é vê-lo nascer, chocar. É sentir que falta metros para bater a meta, para o novo irromper. É o processo do caminhar. A intencionalidade de sair do lugar. Na vida é assim também, muitas das coisas boas estão no caminho para. E não no quando, ou no se. Estão no agora, degustado enquanto persegue-se um alvo desejado.
Aprendi que a vida pode nos surpreender, a cada instante, e que não devemos nos considerar para sempre, nem imutáveis. Tudo que é sólido pode se desmanchar no ar. Portanto, deguste as coisas boas com intensidade. enquanto as vive. Como aprendi isso? Uma das coisas boas do jogo é lançar um bola (PÓKET), num alvo (o monstrinho, MON), e capturá-lo para sua coleção. Contudo, alguns desses bichinhos - mesmo a bola pegando neles, e bem no alvo, simplesmente retorna à posição original, renascendo das cinzas e voltando a ser tudo como antes. ao m tudo ao que era antes. São falsos, fakes, ilusões de ótica. Agora, quando após o lançamento da bola aparece a mensagem "Gotcha" eu vibro. Sei que de fato capturei, e que não era uma ilusão, uma coisa sem consistência. Assim aprendi a valorizar as brevidades da vida, as pequenas alegrias, e vitórias. Aprendi que um dia de paz não é eterno, que um dia de felicidade também. Então, quando os vivo eu os degusto até a última gota. amanhã, pode ser que o que se apresente como feliz ou em paz seja falso, não se garanta.
Aprendi a cuidar de mim e dos outros que me rodeiam. No jogo têm alguns itens que restabelecem a "saúde" do monstrinho, após suas disputas em Ginásios. Você precisa cuidar de seu Pokémon derrotado. Aplicar nele remédios, que recuperarão parte de sua força. Saber o que nos torna felizes, o que nos machuca, e lidar de forma positiva com esses saberes é um grande ensinamento, que restabelece nossa saúde emocional, que após um dia de trabalho e estudo, com suas próprias preocupações e desafios, consome energia vital e nos leva ao estresse. Saber cuidar de nós mesmos, e dos outros, após as batalhas existenciais, é muito importante. No meu caso, aprendi que esses remédios pokémon podem ser: um amigo, a espiritualidade, um bom livro, ouvir música, e até se doar para alguém. A oração é bálsamo. Saber que, mesmo ferido, outros ainda precisam de mim é um energético potente. Todos os dias aprendo a cuidar de meu ser, e aprendo que o outro também pode ser por mim cuidado.
Aprendi que uma das fortalezas da vida são os relacionamentos. Esse joguinho é feito para interagir. Por exemplo, você pode montar um time para disputar nos Ginásios, ou pode combinar de sair em grupo caçando pokémons e abastecendo-se de itens. Aliás, os parques das cidades estão cheios de gente que não se conhecia e que agora são parceiros de aventura. Eu era apressado demais, andava rápido demais nos corredores, sempre com uma coisa de última hora a fazer, sem tempo para um "bom dia" de 3 segundos. A vida fica muito melhor com relacionamentos significativos. Pessoas com as quais trocar visões de mundo e compartilhar esperanças. Cultivar relacionamentos é uma arte. Cujo resultado fará toda a diferença na percepção de bem-estar na 3 idade.
Aprendi o valor do crer e "SER": crescer. No joguinho, uma das coisas mais legais é ver um monstrinho chegar no nível de evolução. Você clica nele e ele se transforma, sofre uma metamorfose e vira outro bichinho, da mesma família, contudo, mais evoluído. Quem não evolui, vira rocha. Estaciona e fica estagnado. Tudo na vida pede evolução. Pede crescimento. As emoções podem crescer. O otimismo pode crescer. A percepção de si mesmo, do outro e da realidade podem crescer em positividade. Se é uma coisa que nos distingue dos animais é ser um ser que pensa sobre o pensado. Que sabe que sabe: sapiens, sapiens. Um ser incompleto, inacabado e sempre em desenvolvimento, permitindo-a à abertura do evoluir para o SER mais. Essa é uma meta digna de por ela ser vivida. Mas, tem que crer que o nível de evolução irá chegar. Tem que esperar atuando. Aproveitando todos os recursos para ser melhor para o mundo e não o melhor do mundo. Tentando deixar o lugar em que habita melhor do que o que achou. Isso é uma crença, um crer, bacana e potente. Algo que nos dará um propósito, o de construir um legado, de se perceber enquanto missão.
Agora deixa eu ir ali caminhar mais 500 metros pra chocar um ovo.

Capital Emocional (*)


Pense numa pessoa que passou o início da manhã murmurando e reclamando, essa pessoa sou eu.
Até ir buscar um documento no carro e ver que tinha deixado a Bíblia de Jerusalém no banco.
Lembrei-me que nessa tradução, a de Jerusalém, li recentemente um versículo que me encantou, e que só vi nessa tradução, uma das melhores da Bíblia – reconhecida por exegetas do mundo todo. 

“Fazei tudo sem murmurações nem reclamações.” (Fil 2,14)

Quando Paulo escreveu essa Carta aos Filipenses, de Filipos, Norte da Grécia, fundada pelo pai de Alexandre – o Grande. Paulo, ao escrever aquela Carta, estava preso e sofria severas provações, era o ano 48 DC.
Então, ele falava de algo que estava fazendo e vivendo. Aliás, a Carta aos Filipenses é a Carta da Esperança e Alegria.
Bíblia à parte, o que me deixara reclamão e murmurento fora dois atendimentos que tive, bem cedinho pela manhã, e que o gosto amargo deles impregnou minha alma.

Então, como um ruminante mental, fiquei murmurando e reclamando sobre o ocorrido, para todos os amigos com os quais tirava um dedo de prosa, até as 10hrs.
E só aumentava o desprazer. Parece que temos uma verdadeira atração para falar repetidamente sobre o que nos chateou, como um disco de vinil que fica arranhado.

Deixa eu te contar o que me aconteceu.

Manhã de sexta, trânsito bom, sigo caminho para levar o JG à escola.
Vejo que o carro está na reserva. Passo pelo primeiro posto, mas têm filas nas bombas. No segundo, uma beleza. Vazio.
Estaciono e peço para que o frentista complete até o automático. Logo chega o segundo carro, e estaciona nas bombas à minha frente. Naquela hora, eram dois frentistas e dois carros.
Movimento tranquilo. Aí a moça do carro da frente pede que o frentista limpe o para-brisas. Ele começa a limpar, e o outro foi ajudá-lo.
No meu carro a bomba parou, deu aquele estalo de quem chegou no automático.
E eles lá limpando os vidros da moçoila. E eu cá, esperando que eles me vissem.
Aí, fiz um gesto para o primeiro frentista, o que começou a me atender, de que meu carro estava pronto. Mas, ele meio que me desconsiderou. Continuou a “ajudar” o outro frentista a terminar o serviço do para-brisas da moça. E fui ficando puto. Buzinei.
Ele chegou e falei com ele que não gostei de “ter sido deixado para trás, no atendimento”. Ele deu de ombros, e disse que o automático tinha disparado fazia pouco tempo.
Inchei de ira. Saindo de lá, deixei o JG no Colégio e fui na Padaria Savassi, restabelecer as energias emocionais e gastronômicas. Sinto falta da Juliana, atendente de lá que está de licença maternidade. Esta padaria agora é meu cantinho das 7h30min.
A mocinha chegou e fiz meu pedido. Pão com queijo e cafezinho.
A espera estava mais longa do que o normal, para uma sexta, na qual todos têm a ideia de tomarem café no mesmo horário.
Uns 10 minutos depois, ela se aproxima e pergunta: “Qual tipo de queijo mesmo? ”
Aí, saí do sério e cancelei o pedido. Não esperaria mais 10 minutos, já que por não saber o queijo nem começara ainda, e chegaria atrasado. Sempre fui muito severo comigo mesmo em termos de pontualidade.
Então começou a descer as águas dos pensamentos negativos. Ao ficar numa posição ruminante, reclamona e murmurante sobre as qualidades do atendimento que tive.
Aquilo estava tirando o brilho da manhã.
Até que parei, respirei, li o versículo, tomei água, e comecei a mentalizar as coisas boas da vida.
Levar o JG no futebol. Lecionar. Terminar um trabalho. O feriado de quarta. O sistema de irrigação que funcionou. Levar o carro para lavar. Balu, meu cachorro, que tomou um bom banho no pet. Ufa, fui melhorando, melhorando, melhorando...

Aquilo foi ficando menor, diante de outras coisas da vida. Sem importância, já que sobre o que me ocorreu nada mais restava a fazer. A não ser trabalhar a emoção.

Quantos pensamentos negativos habitam nosso ser num minuto?

De coisas que não deram certo, de ansiedades, de aflições ou preocupações, ou de coisas que nos frustraram, em nossas expectativas superdimensionadas.

Esvaziar a mente do rio de água negativa, que desce de forma violenta, coração adentro, é um esforço bacana, na construção de uma felicidade possível, e no aqui e agora: não no futuro dos "quando", ou dos "se".

É exercício permanente. Na percepção do agora: saber como estamos, o que pensamos e as emoções derivadas desse pensar é um exercício de anatomia. Anatomia da alma.
Profundamente necessário para ir modelando nossas emoções, ao longo do dia, e não nos deixar ser tolhidos por episódios desagradáveis, que teimam em ficar martelando o dia inteiro, e alguns deles entram pela boca da noite, e até vão para cama conosco.

Saber dizer: basta! Chega de reclamação ou murmuração para aquilo que sobre o qual nada mais podemos fazer.

Compreender o tempo que aquilo irá nos acompanhar e o momento de virar a página é fundamental. No meu caso, por longas duas horas.

Perdi 120 minutos de percepção do bom, belo e virtuoso, que ia acontecendo também à minha volta, por ter ficado martelando e remoendo nas péssimas experiências de atendimento que sofrera.

Paulo está certo, em sua exortação aos Filipenses. Mais que nunca é preciso cuidar da ecologia emocional de nosso ser.
Cuidar para não levar tão a sério, e até ampliar, os pequenos dissabores que vamos tendo.
Dona Estela entra na minha sala, novamente, e me serve água. Dou um sorriso, comento que seu penteado está bonito. “Bom dia Dona Estela, que diadema bacana no seu cabelo! ”
Ela olha para mim e diz: “Oxe Ricardim, eu já entrei aqui mais cedo, servindo-lhe café, e você falou comigo”.
Peço-lhe desculpa e digo-lhe: “Eu não a vi”.
Ela não entende nada. E eu tudo!
Quando estamos afobados ficamos cegos, e perdemos a capacidade de ver a essência das coisas boas, belas e virtuosas que continuam a acontecer.
Perdemos capital emocional positivo (CEP). E vamos murchando e embrutecendo.
Simples, triste e perigoso assim.

(*) Termo que criei para definir as transações emocionais que acumulamos, frutos de nosso pensar, que alteram nossa escada das inferências, e a percepção de nós mesmos, dos outros e da realidade.

   PS.  Na foto, Dona Estela e seu diadema. 

Carta ao JG - Não banalize o desamor.



Sabe filho, é tarde demais para adormecer, sem que antes eu lhe escreva.
Escrevo sobre uma frase que escutei hoje à noite, no contexto da separação de um casal famoso da TV, após mais de duas décadas de união.
A pessoa referia-se sobre esse fato alegando estar surpresa com a repercussão do caso, "dado que separação é um fato banal na vida dos casais."
Não meu filho, nunca tenha as coisas comuns por banais.
Nunca!
A dor da separação de amantes, jamais pode ser tida como banal. Pode ser corriqueira, comum, mas nunca banal.
Também não é normal.Até porquê ninguém assume uma vida a dois com outra pessoa com prazo de validade, no rodapé da Certidão de Casamento. Ou, casa com bilhete de volta marcado, para o retorno à solteirice.
Isto sim seria normal. Caso assim fosse.
Ninguém quer isso. Refiro-me aos que se enlaçam nutridos por amores verdadeiros, autênticos, livres e pensados.
Quem casa não quer se separar, e faz promessas de amor infinito, além de cultivar sonhos comuns.
Tira fotos para book, como aqueles noivos que vimos no Nicolândia, no Parque da Cidade-DF, posando ao lado dos brinquedos.
Eternizando momentos.
Ou, como aquele casal, perto do trem fantasma que tirava fotos do bebezinho que esperavam. Lembra?
As pessoas hoje em dia estão, elas sim, banalizando o amor. O outro passou a ser descartável, e queremos que tudo gire em torno de nós mesmos.

Como amar verdadeiramente querendo apenas ser amado?

Então, a mídia vende uma imagem de que os separados, uma semana após a separação, já estão na balada, noutra "vibe".
Simplificam o processo, como se separar fosse uma festa, uma grande aventura.
Retiram qualquer aspecto de luto, de sofrer, de se reconstruir no arriscoso processo de saltar no escuro do será.
Não acredite em simplificações, nesse caso.
É mentira. Dói e deixa marcas. Mesmo que tenha sido amigável, amistoso, numa "boa", ainda assim
somos pegos desacossados sem saber o que fazer com as lembranças que ficaram misturadas em nossa história de vida.
E, para os que já não havia como sustentar a relação, em situações a dois explosivas, ou muito delicadas, ainda assim, deixam um pesar.
Um pesar do que poderia ter sido diferente, do que fugiu ao script, ao sonho, ao antes desejado. Fica um gosto de guarda-chuva na boca. Mesmo que a separação represente uma liberdade, um direito de pessoas que precisam se refazerem, tentarem novamente, ou não, uma vida mais amorosa, harmoniosa e significativa a dois.
Mesmo assim, ainda ficam cicatrizes. Nada é fácil, quando se fala em romper.
Eu me separei do primeiro casamento. Até hoje não posso comungar. Foi uma sequela que ficou, entre tantas outras.
Portanto, filho meu, se ao ler essa carta estiver casado, cuide de seu amor.

Faça comidinhas para ela. Faça que ela se alegre. Construa sua felicidade no casamento, e dia a dia.
Apenda a surpreender a rotina, com algo diferente. Aprenda a encantar o tempo, permitindo-se liberar o fluxo da ternura, da carícia essencial. A do diálogo apreciativo.
Como? Escuto-lhe perguntando-me ao longe:
Com fartas doses de perdão, de empatia e de aceitação. Com renuncias e flexibilidade.
Não existe relacionamento pronto. Não existe paraíso à vista. Depois da paixão, resta a construção do amor possível, entre perdas e ganhos, na jornada de almas que se aninham uma na outra, num regaço de afeto se constituindo em novos, sendo os mesmos.
Cultive sempre admiração por ela, pelo mundo dela, pelos seus valores, suas histórias de vida. Interesse-se por ela, genuinamente.
E, seja generoso. A sirva por inteiro. Seja servo dela. Sem ser subserviente.
A cubra noite adentro. Prepare-lhe um chá, em noites frias.
Exercitem fazer pequenas coisinhas juntos: um jardim, uma leitura, um balançar de redes, um cineminha, uma viagem, um caminhar pela praia ou campos, orar juntos, praticar esportes, cozinhar, colecionar qualquer coisas, cuidar da cria ou animais, cultivar um Hobbie.
Fazer coisinhas juntos é místico e mágico, catalisa emoções positivas que fortalecem a relação.
Não filho meu, não banalize sua existência tomando por normal o que é comum. Parece que se tornou chique, coisa da moda, separar-se.
Pode apostar, logo uma revista de grande circulação vai mostrar esse casal do início do texto, cada um com seu parceiro novo, em sorrisos de pasta de dente.

Bacana pra eles. Mas, não mostrará o processo. As noites sem dormir, os assombros na alma, as olheiras, as dores que aspirina não passa. Só vão mostrar a vida editada, para sair na Caras. E mostrarão tudo com glamour, na Ilha de Caras, como se tudo fosse um enorme folhetim midiático. E você vai pensar, porque não faço isso também?

Por que não tenho coragem? Digo-lhe, talvez a maior coragem seja a de recomeçar diariamente, uma relação que ainda tem as brasas do amor, contudo anda sem chama.
Soprar as brasas talvez seja muito mais potente, e significativo, do que desistir. Lógico, se brasas houver, e se valer a pena. Mas, crie a intencionalidade de continuar. Não deixe uma mala arrumada, no armário, pronto a partir ao menor conflito, ou maior. Desfaça as malas. Não deixe a mala pronta para partir, quando atravessar o dia com ela esteja consumindo muita energia, e o relacionamento esteja frio e turbulento. Tal qual fazer a travessia do Antártico, cruzando o Mar de Weddell. Para chegar do outro lado, na circunavegação mais perigosa da terra, tem que ser resiliente, tem que continuar, onda a onda, iceberg a iceberg, acreditando que logo ali, dobrando a curva do horizonte, uma baia protegida estará esperando vocês. Que é só uma fase.
Cuidado quando seus filhos estiverem pelos 8 anos. Ela vai estar bem cansada, novos desafios aparecerão na escola, no trabalho, alguns projetos comuns vão ficando longe de serem realizados, bate frustrações. Divida com ela as responsabilidades da educação da cria.

Não terceirize seu papel de pai, ou abdique dele.

Nessa etapa ela já não estará como a conheceu, nem você. Os compromissos vão ficando maiores, a rotina da sobrevivência mais desafiadora. No trabalho será exigido mais, do casal.

O tempo com os filhos, com o patrão, com as coisas da casa vai desafiando o tempo entre vocês dois.
Tenha calma e paciência, mudaram as estações em novos papeis. Você não é mais aquele garotão. Agora têm responsabilidades, mas, logo logo a faina ficará mais leve.
Não se percam um do outro no Mar de Weddell dos casais, uma verdadeira jornada épica - da travessia a dois do Antártico dos corações que a luta pela manutenção do lar, e a cria das crias, acaba produzindo. Cuidado para esfriarem-se a si mesmos.
Vai passar, essa fase de esfriamento, fruto do estresse e cansaço da lida. Muito diálogo, calma e consideração pelo estado emocional, e mundo do outro, ajudarão. Calma.
Caso não consiga, vencer a travessia, não se culpe ou puna. Refaça sua vida. E a ajude, no que couber, a refazer a dela.
Só peço que tente. Que não desista dela, e do projeto de vida de vocês, sem antes tentar mais uma, duas, três, quatro... n vezes.
Não acredite em alguns amigos, que nas crises recomendarão, sem a menor desfaçatez, que você se separe.

Ou que ainda botarão mais lenha na fogueira.
Faça sua própria história. Cuidado para não pensar e agir como se ela fosse descartável. Não é, embora muitos vão te aconselhar como se fosse.
As crises vão tornar tua história a dois mais bela. Lembre-se da aliança que celebrou com ela e Deus. Lute para que essa aliança seja um energético, e não um fardo.
Não meu filho, uma separação de amantes nunca será banal. Sempre uma estrela se apagará.
Mesmo que tempos depois outra volte a acender, pois o amor se recicla e pode nos surpreender na próxima esquina.
É preciso que se eduque para o relacionamento a dois. Para a arte da convivência. Não queira continuar solteiro, a dois, entende? Exercite a cumplicidade, companheirismo e ofertas generosas de perdão e amor, sem esperar recebê-las para poder retribuir.
Não seja comerciante de afetos, de ternuras arrependidas por não serem expressas. Não barganhe amor. Apenas ame, e de montão!

Acenda a lamparina




Nesse final de semana envolvi-me na preparação da estrutura, em meu lar, para ver o jogo de vólei, de forma confortável. Uma crise renal, seguida de uma tosse resistente, tinham tirado meu juízo e me cansado muito. Além de uma maratona de aulas, das 9hrs às 17hrs, no sábado.
Então, logo cedo no domingo, comecei a pensar numa logística bem confortável. Um velho colchão no chão, cerveja gelada e perto. Mas a TV insistia em só pegar um canal digital.
Perto das 12hrs, tive um insight, uma sacada, e se eu virasse um pouco o receptor? Esse que você ver na foto – numa prosaica gambiarra que fiz.
A dúvida me açoitava, afinal esse recurso funciona em sinais analógicos de TV.
Mesmo assim, contrariando a posição da antena de meu vizinho, a qual eu tinha tomado como referência, virei a minha antena no sentido oposto, uns 45 graus.
Chegando na sala, a alegria foi incontida. Agora sim, eu tinha 5 canais digitais e poderia zapear por eles, sempre que o Galvão falasse demais.
Uma mexida de 45 graus e fez-se a luz!
Abri uma Proibida (cerveja), para celebrar meu feito, o que me orgulhara bastante.
E, sozinho, eu e Balu apenas, deitei-me no colchão para torcer pelo vólei. É que o JG se divertia com seu Xbox e dona patroa foi fazer unhas.
Engraçado como quando estamos sós prestamos atenção a coisas que enquanto não nos permitimos ao silêncio não vemos.
Vi a boniteza dos pés da mesa. Essa da outra foto que ilustra essa crônica. Fiquei uns minutos contemplando-a, solenemente, imaginando o artista que a tinha concebido, naqueles toques góticos, quase uma catedral.
Só consegui perceber aquela belezura, por estar rente ao chão, deitado sobre um colchão. Só percebi por estar em silêncio interior e aberto a tudo que no aqui e agora preenchiam meu momento: o rabo de Balu balançando, como quem me perguntava: “Será que o Brasil ganhará?”
O som das espumas de cerveja explodindo na atmosfera do copo. A delícia que é poder mudar de canal, dando ao controle remoto um estado de quase divindade, e aqueles castelos góticos em forma de madeira, que suportam o peso da mesa, lugares nem sempre trabalhados nas mesas em que já me sentei.
Aliás, foi a primeira vez que vi essa arte em pés de mesa.
Fiquei matutando sobre a beleza das coisas que para serem vistas precisamos mudar de ângulo, ou de posição, precisamos acender uma luz em nosso interior, para iluminar a nós mesmos. Como diz a canção de Fagner:
“Beleza só se tem quando se acende a lamparina
Iluminando a alma se entende a própria sina
E quando se vê o arame que amarra toda gente
Pendendo das estacas sob um sol indiferente...”
Iluminar a própria sina é preciso. E, para fazer isso, quantas das vezes temos que mudar a posição de nossa antena interior?
Temos que nos sintonizar noutras estações, nos dar direito a alterar canais. Imagine a pobreza de minha televisão que só pegava um canal digital.
Essa televisão que só pega um canal somos nós quando ficamos insistindo numa única trajetória, numa única narração de nós mesmos, dos outros e da realidade.
Geralmente uma narração reclamona, rabugenta e pessimista.
O outro trecho da canção, o que fala “do arame que amarra toda a gente” remete aos pés de minha mesa.
Quantas das vezes precisamos nos quebrantar para ver algo que esteve sempre ali e nunca vimos, nunca demos valor. Precisamos mudar de posição, sair da soberba, do orgulho insano, de toda falsa aparência e nos permitir sermos a nós mesmos.
Precisamos olhar para o sempre visto de um jeito diferente, de uma prumada nunca ousada olhar, para encantar nossa existência e voltar a nos surpreender com a maravilha de viver.
Têm belezas interiores que só são vistas com olhos mansos e humildes. Elas vão além das aparências, muitas das vezes estão encobertas por toalhas, por véus, que precisam de espaço em corações amorosos, para serem revelados.
Mudar o ângulo da gambiarra da antena digital;
Deitar-se rente ao chão e contemplar os vales de uma mesa;
E ouvir a música Beleza de Fagner.
Deram-se ensinamentos precisos que resumos por agora:
Não adianta querer ser de amor, de mansidão, de generosidade, de ética e paz; quando nossa antena só sintoniza e amplifica narrações de ódio, briga, egoísmo, não-ética e guerra. Não adianta comprar uma outra antena, se os canais que têm audiência em nosso coração são os das emoções negativas. Quem consome intriga, inveja, violência e maldade acaba tornando-se como tal.
E, muitas das vezes só vemos a tampa de uma realidade. Como quem só ver o tampo da mesa. Achando que ela é uniforme, monolítica, sem nenhuma formosura, quando não coberto por uma bela toalha.
Esquecemos de nos curvar, ajoelhar e perceber o insondável, o não dito, o belo do simples. As catedrais que existem no interior das pessoas.
De uma posição de poder, daquelas de quem olha do alto para baixo, daquela de quem se acha, de quem arrota grandeza, de quem se sente e se porta como se fosse o centro do universo, como deitar-se no chão ver a beleza não aparente das coisas?
A beleza interior das pessoas, muitas das vezes esquecida e encoberta no subsolo de almas sofridas. Indo além das aparências e permitindo-se que elas a ti, e a mim, se revelem por inteiro.

Nos dias ruins, contemple!

Dias atrás, as preocupações e aflições cotidianas transbordaram.
Encheram a lata, parecia que eu tinha pisado em cocô de pato.
Sim meus amigos, também tenho meus dias de fúria.
Uma coisinha chata ali, foi se somando a outra coisinha chata acolá, e, perto do meio dia, eu já estava um coisa chata de chateações.
Um porre e sem energia.
Têm dias assim, e você já deve ter tido os seus.
Aquele dia em que nossa autoestima está fraquinha, fraquinha, e que um sopro qualquer é capaz de nos derrubar.
Aquele dia em que não temos coragem de olhar a nós mesmos no espelho.
Aqueles dias em que tudo perde as cores, sons, aromas, texturas e sabores.
Nos quais, o cão bravo da tristeza anda à nossa espreita.
Estava tudo se encaminhando para terminar o dia assim, até que escrevi num bloco de notas, em meio a uma reunião: “Preciso abastecer o espírito”.
Então, usei o intervalo do almoço para seguir resoluto para tal missão.
Saí em busca das flores, para caçá-las em fotos, tal qual caçadores de pokémons.
Lembrei-me de um ipê branco, no canteiro central da 905 Norte, e segui em sua direção.
Estacionei o carro no canteiro da direita, e fiz minhas fotos daquela presença de Deus, entre nós, que é um ipê em flor.
Já me senti melhor.
Depois, lembrei-me que perto do Iate, na Av. das Nações, tem uma planta com flores róseas, que mais parece um quadro de tão bela. Ainda encantado com a beleza do Ipê branco, segui para lá.
Achei um lugar para estacionar o carro, no canteiro central que seguia para as embaixadas, e caminhei uns 200 metros em direção às flores. Que beleza de flores, tive até vontade de me deitar sobre elas.
Mas, estava de roupa social, e o máximo que fiz foi sentar-me no seu tapete e tirar um self.
Quanta paz dali vinha! Que capricho de Deus.
No caminho de volta, percebi uma frutas em forma de bolotas que pendiam de uma árvore do Cerrado e fui vê-las mais de perto. Eis que testemunho uma família de soldadinhos, como eu os chamava na infância, fazendo da fruta morada.
Uauuu... Delícia de cena.
Entrei no carro revigorado, esquecera os problemas, ou melhor, enfrentaria um a um, e pelas beiradas. Quando estamos cansados tendemos a botar os pés pelas mãos e os problemas ficam maiores ainda. Perdemos a capacidade de enfrentamento, tudo parece maior ainda, ampliado pelas lentes do estresse.
Saí dali e a fome bateu, era perto das 13hrs, já fazia uma hora que eu floreava a vida.
Lembrei-me de um restaurante, perto da Diretoria de Tecnologia, cuja proprietária gosta de mim, e eu dela.
Lá chegando, recebi dela uma profusão de abraços, sinceros abraços. Senti-me qual netos almoçando na cozinha da vovó.
Conversamos um pouco, como velho amigos, entre uma pesada e outra dos pratos que ela fazia, na função de pesadeira de balança de self-service.
Uma alegria invadiu meu ser. Estava em paz e, agora, alimentado no corpo também. Meu ser psicológico, social e biológico havia se energizado.
No caminho de volta, vejo ao longe o que achei que era um ipê lilás. Contudo, depois corrigiram-me com o nome correto, trata-se de um Jacarandá Brasilianna.
Ele fica no pátio da Igreja Nossa Senhora Consolatta, na W5 915 Norte. Uma das árvores mais bonitas que já fotografei.
Após os registros. Aproveitei que a igreja estava aberta e coloquei meus joelhos em prece. Abastecendo-me do espiritual.
Passei uns minutos em oração de contemplação, de gratidão, e dali voltei para o trabalho, bem renovado.
Em estado de gozo, de satisfação. Existe um verbo que exprime o nível avançado de um estado de gozo, se chama regozijar.
Eu me sentia regozijado.
Agora sim, estava recuperado da saúde em seu conceito bio-psico-social e espiritual.
Eu era outro, e aquelas duas horas pareciam dias. Estava com o tecido emocional recuperado. Em estado de gozo, numa alegria boba. Daquelas sem ter de que.
Lembrei-me do que São Paulo falou aos Tessalonicenses, I Carta Cap 5 15-19:
“Siga o bem, tanto uns para com os outros, como para com todos. E, não retribua o mal com o mal. Regozijai-vos sempre. Orai sem cessar. Em tudo dei graças. Não extingas o Espírito.”
São seis dicas, preciosas dicas, que de alguma forma as vivi e que recuperaram meu tecido emocional, e que recomendo firmemente:
1. Siga o bem. Que coisa mais linda e forte. Seguir o bem nos torna belos. Seguir o bem pode ser encontrar um tempo para fotografar flores. Seguir o bem pode ser visitar uma velha amiga para desfrutar de sua companhia, enquanto almoça. Seguir o bem pode ser não se corromper, não imitar o ruim, tão comum em nossos dias.
2. Regozijai-vos sempre. A interpretação desse verbo é difícil. Vamos por partes. Um estado de gozo, ou de fruição (flow) é um estado de extremo contentamento; no qual o tempo para, no qual os pensamentos se esvaziam deles mesmo, para que o motivo do gozo se faça presença e ocupe plenamente o pensado. É uma alegria enorme, quase um estado de o êxtase do gozo. É aquele sentimento que temos quando a febre de nosso filho baixa. Quando passamos no vestibular ou num concurso. É aquele sentimento de ver chegando na rodoviária a nossa amada. Ou o de um filho voltando para casa. Mas, o verbo é mais forte ainda. Tem a partícula RE, ou seja se tudo isso é bom, duplique e sinta novamente. E, o mais interessante, o que quase ninguém comenta, tem a partícula VOS. REGOZIJAI-VOS. Que significa, aprenda a alegrar-se com os outros, alegrar-se com as alegrias dele, alegrar-se por conviver com ele, alegrar-se por ele existir. No meu abraço em Dona Bia, havia um regozijai-vos! Ambos estávamos em alegria profunda pelo nosso reencontro. O tempo parou. Como estamos desaprendendo a se alegrar com quem se alegra. Ou a nos alegrar coletivamente, em comunhão. No "VOS", está o outro, sem o qual nossa alegria regozijada não é completa.
3. Orai sem cessar. Trata-se de uma recomendação-alerta. O estado de contemplação, a percepção do espiritual do viver, deve ser incorporada ao cotidiano. No trânsito, no trabalho, no lar. E, não precisa de muitas palavras. Uma contemplação de um sol que se põe, ou de uma família de soldadinhos numa fruta amarela, já nos conectam, nos religam, com as coisas do alto.
4. Em tudo daí graças. Que bacana! Quando estiver chateado e com auto-estima baixa. Quando teu time perdeu. Quando a tosse não ceder, noite à noite. Quando o carro funcionar ao dar partida. Quando o ônibus chegar. Quando alguém te servir um copo de água fresquinha. Em tudo seja grato. A gratidão é a janela da alma, por ela percebemos o imperceptível; escutamos, o inaudível. E tocamos o que intocável. Um coração grato se aquebranta, se humilha e degusta a vida com encanto. Em tudo que ela tem de melhor e de pior.
5. Não extingas o espírito. Extinguir é um verbo muito severo. Uma coisa extinta é uma coisa que foi exterminada por completo. Apagou, não ficou nenhuma brasinha, para recuperar o fogo. Tudo está acabado, é o que queremos dizer com extinto.

É preciso cuidar das coisas espirituais para que elas não se extingam em nosso viver. Deixar pelo menos uma brasinha ainda chamejante. Não renunciar a esperança de nosso coração.
A esperança é a brasa que evita que o espírito seja extinto.

O Legado do Dadá


Perto das 16hrs, o Dadá entra em minha sala com olhos marejados. Vem se despedir de mim. A cena deixa-nos comovidos, a ambos, e no pleonasmo mesmo, pleonasmo de afetos.
Todos os dias Dadá me trazia algo de sua marmita: um pedaço de cuscuz: feito por ele mesmo.
Umas torradas que a mãe dele mandava na marmita, ou um bolinho de chuva.
Era sagrado, todos os dias entre as 8hrs e 9hrs da manhã, ele adentrava em minha sala. E sempre me trazia algo, para que eu tomasse com meu café da manhã.
Logo em seguida, abria a sua bolsa e botava uma folha, um galho, uma flor que durante seu trajeto até o trabalho achou bonita e queria decorar meu altar natural.
Tenho um altarzinho de folhas, galhos e flores que boto em cima de um ficheiro, compondo um quadro em terceira dimensão da natureza, e me lembrando que não somos máquina.
Você deve estar se perguntando o porquê da emoção do final da tarde.
O motivo foi que o Dadá, após treze anos conosco trabalhando como Office-boy, contratado de uma terceirizada, vai seguir por outras veredas profissionais.
Seguirá seu sonho de trabalhar numa oficina de retífica de motores, pertencente ao seu tio.
Dadá é uma daquelas unanimidades que vez por outra brotam no meio corporativo, quase um patrimônio imaterial da empresa.
Basta dizer-lhes que todos tiveram o maior carinho em pegar-lhe de surpresa para uma festinha de despedida. Do Presidente da Companhia ao Zelador, todos contribuíram para abrilhantar a festinha do Dadá, que tomado de surpresa, não se cabia em si de emoção.
Sentirei muita falta do Dadá. Ele sabia ser ir além de sua função. Dadá sabia surpreender-nos.
Tratava a todos com muita atenção, gentileza e disponibilidade. Por mais carregada que estivesse sua agenda, entre certidões cartoriais para registrar, e documentos para protocolar em órgãos governamentais, ele sempre encontrava um jeito de dizer sim.
Sabe aquele tipo de profissional que quando apresentamos para ele um problema, sentimos empatia nele, e que agora o problema é dele também.
Esse era o Dadá.
Dadá nunca se deixou envergar pelo baixo status de sua função. Muito pelo contrário, ele entendeu que tudo que fazia era conectar pessoas e instituições, através dos documentos que circulava, e que era preciso que circulassem.
Nunca mandei Dadá entregar e ele voltou com o documento. Ele dava um jeito. Se não achava quem eu falava que receberia, ele ia bater no chefe da pessoa, não sem antes, da frente dele, perguntar se poderia deixar com essa outra pessoa. “Claro Dadá”.
Sentirei muita falta dele.
Encontrar pessoas com sentido no trabalho, independentemente de seu cargo ou função, nos motivam ao nosso melhor. Aprendemos com eles.
Semana passada ele chegou todo orgulhoso, tinha conseguido “bater a meta” de redução de despesas da copa. Ele era responsável em comprar os mantimentos solicitados pelas Copeiras, e passou a me dizer, periodicamente, as frutas mais baratas e itens que ele tinha trocado por outros de preço melhor, mantendo a qualidade.
É amigos, um simples Office-boy entendeu os valores mais importantes à competitividade empresarial, nos tempos presentes:
Fazer mais com menos;
Foco no cliente.
Compreensão de seu papel organizacional
Ajuda nas metas corporativas, com o que pode fazer no seu raio de atribuição.
Agilidade
E muita, muita mesmo, inteligência emocional.
Se tivéssemos anunciado a saída do Dadá, teríamos que ter alugado um salão de festas para sua despedida. Mas, o preservamos e foi surpresa. Só um seleto grupo, convidado pela Paulinha, a telefonista, teve acesso a esse momento tão rico. Coube a Dona Estela, nossa copeira, preparar na lousa de vidro uma mensagem bem bonita, com letra caprichada.
No dia de ontem ele saiu visitando pessoas amigas pelos 5 andares da empresa. A cada uma delas deixava um cartaz, impresso por ele mesmo, com um agradecimento: “ao que fizeram por mim.”.
Ele começou a prestar serviços aos 17 anos, se vai agora aos 30, homem feito. Nós não queríamos que ele fosse. Mas, aí de nós se não respeitamos o sonho de quem ousar sair da gaiola da imobilidade corporativa. Ele ousou.
Não sem medo, pesar e até muita perda. No seu abraço e choro soluçante senti tudo isso.
O risco do pulo no vazio. Aquela vozinha interior, que uma parte dela diz: segue.
Enquanto a outra, não menos sonora e forte, diz: fica.
Mas ele seguiu, afinal quer ser mecânico de motores na Retífica de seu Tio.
Outra característica bacana que o Dadá preservou foi a humildade, sem ser submisso. Nem todo mundo que gravita no ecossistema de uma Presidência, de qualquer instituição que seja, preserva a humildade.
Tem gente que porque serve cafezinho na Presidência, não se relaciona legal com quem serve café no térreo. Entende a metáfora? O que já vi de eminências pardas gravitando nesses meios, pessoas que o poder transformou, e para pior.
No Dadá não. O poder do Dadá era o do servir, o de se doar ao seu cliente. Poder de encontrar o sentido no trabalho, e gostar do que se faz. Tem poder maior?
Aliás, o Dadá melhorava o clima organizacional quando chegava. Seu dom era ouvir. Nunca o vi mordendo ninguém, nem rabugindo a vida. Reclamação é uma palavra que não morava no coração dele.
O de fazer um monte de amigos no trabalho, tratando a todos com a mesma distinção e respeito. Afinal, 13 anos não são 13 dias.
Ele me revelava que enfrentava dificuldades pessoais, mas que estava animado a vencê-las. Um dia de cada vez.
Apesar de trabalhar servindo ao “alto-clero”, a Presidência e as Diretorias, ele nunca se portou de maneira arrogante, ou abestada, perante seus pares de categorias também humildes como: vigilantes, recepcionistas, zeladores e copeiras.
Nunca. Dadá tinha a complexidade do humilde, encarnada nele. Sabia entrar e sair em qualquer lugar, do Colegiado da PRESI, ao refeitório dos terceirizados, no qual ele almoçava a marmita que sua mãe mandava todos os dias, e que ele gentilmente sempre dividia algo comigo.
Só pelo prazer de me ver feliz com seu gesto.
Na foto, vieram homenagear Dadá: O Presidente, três Diretores, três Gerentes Executivos, um Gerente de Divisão, os motoristas, a telefonista, o pessoal da copa, limpeza, administrativo, e o professor de Inglês.
Todos abriram uns 20 min em suas agendas, algumas delas extremamente disputadas, para celebrarem o momento e desejarem sucesso na nova carreira profissional.
Isso também foi algo que me tocou profundamente. Muitas das vezes os terceirizados não são tratados como importantes nas Instituições.
São quase invisíveis, sem direito a um discurso do Presidente na sua despedida, aliás, nem despedidas têm. Hoje o discurso do Presidente deveria entrar nos livros de gestão, sobre a importância de um público tão desprezado.
São admitidos e demitidos sem nenhum pudor. Pela alta rotatividade, nessa camada do ecossistema corporativo, são o elo mais frágil do turnover organizacional.
Então, os que vão ficando, são sobreviventes do darwinismo institucional. Geralmente, pessoas muito especiais no mundo do trabalho.
Vai Dadá, segue teu sonho de ascensão na cadeia alimentar profissional.
Segue tenho sonho e nos dê notícias.
Bom é sair assim. De coração grato, expressando gratidão, sendo reconhecido, em paz, e deixando um legado. Mesmo como office-boy.
Precisamos reaprender como o Dadá a fazer, e a nos dar, em nosso melhor. Ser o melhor para o mundo, e não do mundo.

Poxa e você fala da queda e não fala da trave?


Estou no estaleiro, com uma tosse de cachorro, literalmente de cachorro.
Eu a peguei de meu labrador, que está doente com a Tosse dos Canis.
Tosse eu, tosse ele. E, partilhamos dos mesmos remédios: fluidificantes do muco e antitussígenos. Ele até se deita para que eu dê remédio. Sabe que estou cuidando dele, e que está melhorando a cada dia, assim como eu.
Mas, a madrugada de ontem foi difícil. O muco espesso escorria pelos brônquios, e a tosse tentava tirá-lo dali, sem êxito. Um negócio super-desconfortável para mim, imagine para Balu que tossia feito um condenado, como se engasgado estivesse.
Depois do almoço, não tive mais condições de trabalhar, aliado à noite insone, um dos remédios é anti-alérgico e dá um sono danado.
Vim pra casa, e após um sono reparador, fiquei na cozinha vendo o balanço do dia das Olimpíadas. Quando minha esposa chegou, comentei que até àquela hora o Brasil não tinha ganho uma nova medalha.
Ela reagiu com espanto e um pouco de decepção. Vendo sua expressão, emendei: "mas ganhamos muita experiência, e estamos no caminho".
Afinal, esse ano conseguimos que nossa equipe masculina, de Ginástica Olímpica, chegasse à final. Conseguimos até ganhar partidas, em esportes que há anos não vencíamos. Estamos no caminho.
Fiquei matutando sobre a importância de se perceber a caminho. De não para ainda, por não ter chegado ao lugar pretendido. Continuar andando, caminhando.
A importância de olhar de uma forma mais generosa para nossas derrotas, não para que nos acostumemos com ela, mas que nos vejamos a caminho, em processo, crescendo competição à competição.
Não esqueço de uma cena que vi, ao término da prova de Ciclismo Feminino. Sentada no chão, uns metros após a linha de chegada, a atleta espera algo.
Eis que ela avista alguém vindo ao longe. E corre pra ele. Mas corre mesmo.
E abre os braços e faz um Brasil nos braços de seu amado.
Daqueles digno de um filme, ou novela de TV.
Curioso para saber o motivo de tão apaixonante abraço, descobri que a atleta brasileira de ciclismo, Flavia Oliveira, esteve muito bem durante toda a competição e acabou com um excelente sétimo lugar, o melhor resultado do ciclismo de estrada brasileiro até hoje na história dos Jogos Olímpicos.
Percebem? Aquele 7. lugar tem gosto de ouro.
Temos um baita complexo de infelicidade.
Complexo de vira-lata. Que não valoriza o esforço para chegar. Apenas o pódio. É tanto que não bastava comentar a impressionante abertura da copa, tínhamos que destinar muitos minutos da reportagem para ressaltar a reação no estrangeiro.
Temos atração pelo estrangeiro, e nem sempre nos damos valor. Até que eles nos deem.
Uma pena.
Não esqueço a entrevista que a emissora SportTV fez Daniele Hypólito, logo após a classificação da equipe dela para as finais.
Repórter: Estou aqui com Daniele Hypólito, que teve uma queda no solo. E você olhando para as câmeras, após a competição, pedindo desculpas.
Daniele: [...] A gente pede desculpa por ser uma maneira de mostrar o carinho e respeito que temos pelos nossos fãs.
Repórter: De qualquer maneira, como você avalia a participação do Brasil nessas competições?
Daniele: Poxa, e você só fala da queda no Solo. E não fala da Trave?
Repórter – É verdade, você foi super bem na Trave. Desculpa Dani.
Daniele - Poxa, vocês em vez de ressaltarem a coisa boa, falam logo da queda?
Dani, ouro para você. Esse cruzado de esquerda que deste no repórter tem meu apoio.
Precisamos parar com isso, e é urgente.
Precisamos nos reeducar para aprender a ser grato pelo que deu pra fazer, diante das condições que tínhamos na oportunidade.
Temos que ampliar a percepção, para além do pódio, olhando o processo, o caminho.
Tá certo, no Solo não deu; mas na Trave ela teve sua melhor performance na série. Mas, o que temos por ele atração é pelo negativo.
Por ressaltar as perdas, contabilizar as perdas.
Aprendemos desde crianças a destacar as caídas no Solo que damos na vida. E vamos perdendo a capacidade de perceber que, ali no cantinho de nosso olhar, temos coisas boas acontecendo na Trave.
Dani, tu está certa. Tanta coisa boa acontecendo, e o cara se pega numa falha.
Fazemos assim como nossos filhos, na educação deles. Fazemos assim com nossos funcionários.
Focamos exclusivamente nas falhas. Esquecemos de valorizar o esforço, o caminho, o processo.
Esquecemos ainda de destacar o lado bom da vida, de nossa vida, como se tudo nela fosse apenas uma queda no tatame, e de bunda como foi a da Hypólito.
Isso acontece quando ficamos presos ás lembranças negativas do passado. Quando não viramos a página, ou fechamos a janela.
Presos a culpas, ressentimentos. Presos ao ruim que conosco ocorreu.
Isso acontece quando perdemos toda a graça de uma viagem de férias, por passar o resto da vida reclamando que nossas malas na chegada foram extraviadas.
Isso acontece quando cegamos ao bom, belo e virtuoso, deixamos de ser grato ao fato de estarmos vivos, deixamos de valorizar nossas sobras, no lugar das perdas.
Tal qual fez o repórter acima, mesmo tendo depois se desculpado.
Por isso gostei da corrida da Flávia, em busca do abraço de seu amado, para celebrar o sétimo lugar.
Quem aprende a celebrar o sétimo lugar, aprendeu uma grande lição na vida, entenda a metáfora.
Estamos criando uma geração de pessoas infelizes, ingratas e que estão sempre resmungando, reclamando e com uma ambição desmedida pelo pódio.
Uma geração com hábitos de infelicidade.
Que aprende a amplificar o que deu errado, a endeusar o problema e a galvanizar as aflições.
Deixando de exercitar os aprenderes da esperança, da gratidão e da visão positiva da vida.
Cultivamos infelicidades como as pragas do jardim.
Portanto, meu amigo(a) leitor(a), pare agora de colocar no altar sua dor, seu luto, aquilo que lhe fez infeliz, tal qual a queda de bunda no tatame que a Daniele sofreu.
Tire isso do altar. Bote as coisas que deram certo, que ainda estão boas, belas e virtuosas em tua vida.
Continuando na metáfora da ginástica, valorize o exercício Trave que deu certo em teu viver.
E treine para não cair de bunda novamente, na próxima vez que fizer o Solo, como hoje a Daniele fez, ao repetir na final o exercício e não caiu.
Valorize seu sétimo lugar em o que quer que seja, desde que para nele chegar tenha sido o melhor que pode, com o maior esforço e disciplina que dedicou.
Ali, naquele sétimo lugar, estava o seu ouro, o seu melhor. Então, não fique se comparando aos de lugares acima. Perdendo a chance e o encanto de celebrar aonde você já conseguiu chegar.
Lembre-se, você está a caminho. E, muitas das vezes, a felicidade estará no caminho, e não na chegada.

Veja o exemplo da comemoração dos 9 a 1, no jogo Hóquei sobre Grama Rio 2016, no qual o Brasil perdeu hoje da Inglaterra. Eles conseguiram marcar o primeiro gol do Brasil na modalidade em uma edição de Jogos Olímpicos. E tome comemoração.
Percebem como um gol que se faz, dentre os nove que se leva, ainda assim pode ser motivo de comemoração?

Tudo depende da lente pela qual se observa a realidade. Têm lentes limitantes, muito focadas só no que aparece na frente.

E têm lentes expansivas, panorâmicas,que capta as coisas para além do que elas aparentam ser, no que carregam de perdas. Esse atletas usaram estas, e nós devemos usá-las também.

Deixo-vos com um poema do Henfil que é uma aula de uma postura sábia, diante dos revezes da vida:
Se não houver frutos, valeu a beleza das flores;
Se não houver flores, valeu a sombra das folhas;
Se não houver folhas, valeu a intenção da semente.

A Escalada da Intolerância Digital


Caro Márcio, coloquei na foto que ilustra esse meu texto, o teu comentário numa revista de grande circulação, em sua versão digital, numa reportagem que versava sobre as agressões preconceituosas que nossa atleta de natação, Joanna Maranhão, sofreu.

Nossa nadadora, Joanna Maranhão, não está com mi-mi-mi. 

Você acha mi-mi-mi que ela defenda a sua honra e dignidade, atacadas de forma violenta e covarde em sua página do Facebook?

Por que alguns brasileiros acreditam que essas coisas são só brincadeiras, que devemos deixar pra lá, que "faz parte de nossa cultura". Que são mi-mi-mi. De qual perspectiva falam, de qual posicionamento?

Veja o que dona Terezinha disse sobre os ataques à sua filha::
“Este é um país de psicopatas, país de doidos, que confundem religião, política e esporte. Minha filha não dormiu direito, ficou abalada, mesmo sendo forte. Foram ofensas pessoais que mexeram com ela.”

Que outros sigam seu caminho Joanna, e empurrem processos nos idiotas da aldeia, expressão criada pelo filósofo Umberto Eco, que tece um ácido diagnóstico sobre a grosseria on-line: "As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis. Antes, eles falavam apenas em um bar, sem prejudicar a coletividade."

Agora,qualquer um projeta sua opinião maliciosa pela autovia digital, e depois que nela ingressa - a opinião do mal, perde-se o controle sobre seu uso, propagação e danos que causará.

O senso de impunidade preserva essas pessoas, quando se escondem atrás de fakes. Mas, o que mais me chama atenção, são para as pessoas reais: com Certidão de Nascimento, RG e CPF, com o mesmo senso de impunidade, pelas merdas que publicam ou comentam.

A nossa Ouro no Judô, Rafaela, passou por isso em 2012 e ninguém apareceu para processar as pessoas. Para ajudá-la.
E, ela era muito pobre, não tinha estrutura intelectual e financeira para bancar sua defesa. E, todos acharam que ia passar.

É assim que muito de nós diz quando o outro é xingado, acharcado, e sofre bullying: " Vai passar, depois ninguém mais comenta isso, é besteira de menino(a) criado por vó".

Então, caro Márcio, sua receita não funcionará para ela. Não adianta dizer-lhe para não dar importância e ir treinar.

Por não darmos importância, e não irmos treinar, é que em nosso Brasil, vem passando uma propaganda da Sadia que sacaneia com quem tem o nome Luís Augusto e fica por isso mesmo.

E alguns, não chamados de Luís Augusto, ainda sacam de nossa cultura para justificar a propaganda: "é deboche e ginga de nosso jeito de ser, o brasileiro é assim mesmo, tira onda com tudo".

Só não perguntaram a uma criança, de nome Luís Augusto, o que ela anda ouvindo na hora do recreio, com as associações de seu nome a um presunto que ninguém quer.

Quanto de bullying deverá está rolando? Mas, para nós, os não Luís Augusto, isso é besteira. Frescura e fricote.

Ou dizemos, "é apenas uma sacada de marketing, uma brincadeira cultural".

Quanto a mim, pau na Sadia! .

Sim Márcio, quanto à sua dica dela ir treinar, ela não precisará mais de treino para as Olimpíadas de 2020.

Não sei se você sabe, ela declarou sua aposentadoria das raias, e vai fundar uma ONG que defenderá e apoiará crianças vítimas de abuso sexual.

Será que alguém que se escondia na barra da saia da mãe, e quando pequena sofreu abuso, teria uma atitude tão corajosa e digna de expor seu próprio drama e de fazer com ele algo cidadão?

Palmas pra ti Joanna. Ouro pra ti.

Isso é postura de quem é corajoso, forte, resiliente. E ela o é.

Sim Márcio, para uma vítima de abuso sexual na adolescência, como a Joanna, sabe o que postaram na página dela do Facebook: "Você devia ser estuprada".

Tu ainda acha mi-mi-mi, Márcio?

Nosso país sofre de um problema crônico de educação, e não seria diferente no mundo virtual. Nele, à sensação de segurança mistura-se uma falsa ideia sobre a liberdade de expressão para disseminar comentários maldosos.

Precisamos sair em defesa das Rafaelas, Joanas e dos Luís Augustos, sob pena de estamos alimentando, mesmo sem nada fazer, o ódio, a intolerância e o autoritarismo.

E outros entrarem nessa mesma lista de vítimas do desrespeito e intolerância.

Precisamos educar nossas crianças e jovens para lidar com esses terroristas digitais, esses Black-Blocs da convivência humana, para que eles não venham a ter sua auto-estima violentada, com graves sequelas emocionais.

Qual o impacto no meu filho, filho de paraibano, quando postarem na página dele que "Só sendo Paraíba mesmo, para fazer isso".

Talvez tenhamos que começar dialogando com eles, na hora em que escutamos pela TV, no fatídico jogo Brasil e Iraque, parte de nossa torcida gritar sandices atrás do goleiro deles, coisas como: "Bicha, bicha, bicha."

Ah Ricardim, mas isso aí já é besteira. Mi-mi-mi de Geração Mertiolate que não arde.

Pra você que pensa assim, pergunto-lhe, E se fosse contigo, com teu filho, com teus amados?

Será que tua reação seria tão debochada, tranquila e favorável, e sem nenhuma empatia, se - em não sendo bicha (opção legítima) te colocassem esse rótulo?

Será?

Afinal, como dizia na minha terra: "Pimenta no nu do outro é refresco.

Joanna, pau no lombo nos idiotas da aldeia!

E, conte comigo para ajudá-la em sua ONG.

Amigos, convoco-lhes para darmos um basta.

Tirar o palanque desses idiotas, denunciando-os à justiça.
Não curtindo, nem compartilhando, nem debatendo com eles.

É isso que eles querem, palco. Querem Letícias Letícia Sabatellas para xingarem e gozarem seu minuto de fama.

Não se importado- com o dano emocional que estão causando, alguns deles irreversíveis, na autoestima.

Chega de acharmos que "somos assim mesmo".

Não somos. Eu não sou, você não é!

Já passou da hora da escalada da intolerância, seja de que fonte vier: política, religiosa, de raça, de gênero, de cultura e região, entre outras, ser barrada.
E isso também depende de mim e de você. E não é mi-mi-mi!
É cidadania.

Deixo-vos com um trecho, do excelente artigo: A Era da Grosseria On-line, de Bruno Ferrari e Gabriela Varella:

"Parece um duelo do Velho Oeste. No lugar da arma, é o dedo no mouse ou na tela do celular. Navegamos pelas redes sociais como se estivéssemos num filme de bangue-bangue. Aguardamos o adversário chegar armado para nos surpreender. Ao sinal de ameaça, “pá!”, ou melhor, “clique!”. Assim, compartilhamos textos esdrúxulos sem ler porque o título é provocativo. Distribuímos fotomontagens malfeitas achando que são imagens reais. Assinamos petições on-line sem saber do que se trata. “É golpe militar? Achei que fosse impeachment.” Quem veste camisa da Seleção Brasileira e vai para a rua é “coxinha”. Quem bate panela em discurso de político é “reaça”. E quem não bate? “Petralha”. Queremos protestar contra os religiosos intolerantes. O que fazemos? Enchemos uma rede social voltada ao público evangélico de filmes pornôs. Destruímos relacionamentos que levaram anos para ser construídos só por causa de um “curtir” ou de um “compartilhar”. E talvez não estejamos nos dando conta disso."

Sobre Rafaela e "Geni"


Em agosto de 2012, todas as manchetes incriminavam a atleta Rafaela Silva, por ter sido desclassificada "por um golpe ilegal", nas Olimpíadas de Londres.
O peso da palavra "Ilegal" colou feito lepra na pobre moça. Noutras manchetes, era mais forte ainda: "Golpe Sujo".
Ela foi vítima de toda sorte de moralismo, de uma sociedade pretensamente ética, quando é nos outros.
Ninguém aprofundou-se no que de fato ocorreu. Saíram feito papagaios de pirata pronunciando a frase: "Desclassificada por um golpe ilegal". E a acusaram-na de ser a vergonha da família, do Brasil, entre outras coisas feias, que vou poupar-lhes.
Na rede social fizeram com ela bullying digital. Muitos dos que hoje a aclamam.
Ninguém perguntou: Mas o que ela fez de ilegal? Mas, era ilegal mesmo?
Passou a ser ilegal a partir de quando?
Essa mesma imprensa que hoje a endeusa, a incriminou sem dar direito aos especialistas falarem sobre as regras.
Sem atenuantes. Ninguém falou que João Derly foi bicampeão mundial fazendo catada de perna.
Ninguém falou que a mudança da regra, que tornava essa prática objeto de desclassificação,ainda estava na fase de assimilação pelos atletas, tendo vários outros sendo desclassificados, pelo mesmo motivo, pois que durante toda sua vida de treinos a incorporaram no seu instinto de luta.
Ninguém, em 2012, falou que a regra mudou em 2009, para resgatar o judô clássico, da escola japonesa. E que era uma questão puramente técnica, e não atitudinal, nem de jogo sujo. Esse erro dos judocas está muito mais associado com falta de orientação dos técnicos para mudar o estilo de luta, o que é algo complexo, e falta de atenção por parte dos atletas, além de uma regra cuja aplicação ainda é bem subjetiva. A desclassificação por catada de perna não é um mau exemplo, nem uma trapaça, é um vacilo técnico e uma desatenção.
Mas, precisamos de Genis: "Joga pedra na Geni".
Ela voltou pra casa e teve uma grave depressão. Sua família a apoiou e quase que dava comida em sua boca, para ela não morrer de inanição.
Sua dor maior era ter sido chamada de "Aquela do Golpe Sujo", e ter recebido xingamentos preconceituosos.
Sua dor maior era na honra, na alma. Dor que pobre sente na pele, sendo a única conquista a que tem direito. Em sua dor, ela não queria levar para a sua família a placa de anti-ética.
Essa mesma impressa que hoje a endeusa, a crucificou. Nenhum destaque saiu de sua versão, afinal, em nossa sede de vingança pelo não-outro precisávamos de um Cristo, de um bode-expiatório, vejam abaixo, trecho recuperado de uma entrevista em 2012, antes dela deprimir:
"Como foi o golpe proibido que te eliminou das Olimpíadas?
Eu entrei e senti a adversária nas minhas costas. Senti que ela tinha desequilibrado, por isso eu meti a mão para ajudar. Os três árbitros deram a pontuação, e o de fora disse que não foi e pediu para marcar o hansokumake (punição que elimina o atleta da luta). Achei que o juíz fosse mudar a pontuação. Mas foi quando eu vi o árbitro da mesa conversando com o central e ele fez o gesto da mão, vi que ele estava falando de hansokumake. Olhei para a Rosi (Rosicléia Campos, treinadora) e ninguém estava entendendo nada, nem a adversária. Quando ele tirou o wazari e deu a penalidade, nem ela acreditou." Agosto de 2012, Wordpress
Fica o ensinamento, precisamos ter cuidado com as palavras. As palavras são como roupas, vestem as ideias, dão estrutura às nossas crenças, que atuam diretamente em nossa ação e agir no mundo.
Aprendi que antes de sair feito papagaio de pirata propagando manchetes, calúnias da alcova, que tal ouvir da própria vítima das fofocas, calunias, maledicências e todo tipo de julgamento, a sua versão.
Que tal repensar nossas palavras com as quais julgamos os outros?
Nesses tempos de redes sociais tão violentas, todo mundo com um teclado na mão o faz de arma.
E tome a disparar no outro palavras cruéis, em qualquer um que pense ou aja diferente dele. Acompanhe o rodapé de qualquer reportagem com comentário aberto e verá.
Era só ter substituído, nas manchetes garrafais, o " Golpe Ilegal", ou o "Golpe Sujo" por: "Golpe Proíbido pelas Regras Atuais)
Há uma enorme distancia, em termos de semiótica, entre os termos: ilegal-sujo, para o termo "proibido".
Quantas coisas proibidas fazemos, e nem por isso nos sentimos ilegais, ou sujos?
Coisas que questionamos sua proibicao, e subvertemos a ordem reinante, expressa naquela placa: "Proíbido nadar no Pier 21, (Lago Paranoá-DF)".
Eu nadei. Regra boba. Se os caras que chegavam ali de lancha e jet-ski podiam se banhar, por que eu não podia? Proibições que não vejo sentido, desconsidero-as solenemente. Mesmo correndo riscos.
Já quanto ao uso de um termo "Ilegal", remete à ilegalidade, remete a crise à moral, e não perdoamos. Mesmo que, muitas das vezes,não possamos jogar a primeira pedra, no quesito moralidade.
Já o proibido, ou permitido, remete às leis vigentes, e nesses casos a ética nossa de cada dia, a ética da vida e de nossa consciência, atua como juiz e nos salva, em algumas situações.
Então, vai minha querida Rafaela, passa na cara de todo mundo o que fizeram contigo, não numa mágoa ressentida, mas num banho de cidadania - para que não se repita.
Somos muito rápidos em sair propagando tudo, sem um aprofundamento, sem uma crítica maior, vendendo postagens de orelhas de livro, como verdades verdadeira. Ou posts de todo tipo de rede social, sem um filtro crítico, humano, justo e ético. Sem passar pela peneira da verdade. Sem dimensionar o mal que podemos estar causando.
Vai Rafaela, e vive teu momento de glória, que é o nosso, se liberte de toda injúria, de toda mancha, de toda nódoa de incompreensão que em ti jogamos, em palavras inapropriadas, que remetiam a coisa muito mais grave, do domínio da atitude anti-ética, sem darem a ti o direito de se defender, apresentando suas próprias versões.
Vai Rafaela e torne-se um ícone de todos que um dia também foram julgados de forma cruel, com palavras cruéis, que distorceram o que eles cometeram, projetando aquilo para algo muito mais grave do que de fato ocorrera. Só com a edição do outro, ou o pinçamento de cenas descontextualizadas.
Somos ávidos por sangue, por ecoar tudo que não presta sobre o outro, não nos permitindo a deter o círculo de violência.
Vai Rafaela, foi preciso você vencer para que eu resgatasse tua história, e que ela me educasse - e por extensão a quem dela degusta, para um maior cuidado e respeito no juízo de valor do outro. E pensar duas vezes antes de sair propagando tudo que a gente lê ou ouve sobre ele. Seja de que "fonte séria" bebamos. Permitindo-nos a um "Será?", libertador da autonomia do outro. E, por tabela, de sua dignidade.
Ps. Um dia depois da publicação dessa crônica.
Redenção - A Imprensa, ao se referir ao que aconteceu com ela em 2012, usa termos corretos: "Um movimento errado". "Um golpe irregular, um erro que qualquer judoca pode cometer". Agora sim!
Perdição - No dia seguinte ao Ouro, a atleta de natação do Brasil, Joana Maranhão, é vítima de todo tipo de achincalhamento digital contra sua honra e dignidade. Sofre de violência cultural, racial e até de gênero.