Velejando Sonhos




Na última segunda-feira, aproveitei uma manhã chuvosa no hotel e antecipamos o check-in para ir conhecer esta praia. Peguei a balsa na praia de Maria Farinha (PE), em direção à cidadezinha de Nova Cruz, que por si só já é uma aventura. Encosta-se o carro na área de atracação, pisca-se o farol, e eles vêm nos buscarem, por R$ 13,00.
Pegamos a BR 101 e quase chegando à Goiânia-PE, sentido João Pessoa, entramos à direita.
Seguimos por mais 30 km e descortina-se o paraíso.
Uma praia linda, coqueirais, mansinha, barquinhos coloridos atracados, e de águas mornas.
A praia fica na cidadezinha de Carne de Vaca, uns 2.000 habitantes, quase todos vivendo da pesca. Descobri que o nome Carne de Vaca foi de um navio do “estrangeiro” que ali naufragou, há 150 anos, e o nome os nativos não sabiam pronunciar, algo como “Carnnievakal”.
Gostei de tudo que fui vendo ao chegar. O Salão de beleza: Deus é Fiel. Adorei o nome, para mulheres tementes a Deus e com medo do estrago que possam fazem em seus cabelos o nome acalma.
Seguindo a diante, cruzei com uma simpática placa com a expressão: Abatedouro de Aves, Atendimento ao Cliente. Gostei, pra quem nunca matou uma galinha, como este que vos escreve, em minutos teria uma galinha pronta para à cabidela na panela.
Parei par atirar foto da simpática igrejinha de Santana. Depois estacionei nos fundos de um barzinho e admirei a parede da casa vizinha, toda revestida de conchinhas.
Até então, só tinha visto o mar lá do alto do morro, que antecede à cidadezinha praiana. Num local onde parei para fotográ-lo, de tão belo que era.
Caminhei em direção às mesas frente à praia e fiquei estupefato. Barquinhos ancorados, redes de pesca, pescadores jogando dominó, outros tomando uma cerveja.
Um local no qual a paz escolheu pra tirar férias.
Resolvi circular e conversar com os moradores que ali estavam almoçando. Parei na mesa de dominó e ali conheci o Leno.
Leno é uma daquelas pessoas que você só encontra nos livros de Jorge Amado. Do alto dos seus 61 anos, organiza periodicamente as corridas de Caícos. Caícos é um tipo de jangada à vela.
Todo orgulhoso me falou que das 50 que já houve ele ganhou 12.
Falou-me que a turma queria impedir os concorrentes de Cabedelo-PB participarem. Os barcos deles estavam ganhando as últimas corridas. O de nome Tentação já tinha faturado três corridas, outros dali chegavam em segundo e terceiro. Eles eram mais modernos e melhor construídos. Além de contarem com navegadores experientes nos esportes à vela. Diferente dos pescadores que a vela para eles era o que possibilitava o barco ir e vir, nunca um esporte. Ele disse-me que bateu o pé discordando. Disse a os outros citadinos: “Qual a graça do futebol do Brasil sem a Argentina?” No seu jeito risonho e manso de ser, uma profunda sabedoria!
As corridas subiram a autoestima local que agora objetivava ganhar dos paraibanos que vinham competir com eles.
Ele me contava e seus olhos brilhavam. Ele me disse que falou aos outros jangadeiros: “Um dia os venceremos!”
É que os paraibanos vinham de uma série de corridas vencidas.
Pronto, pegou fogo. Todo mundo passou a torcer por todo mundo, desde que fosse um jangadeiro de Carne de Vaca, e não é que a corrida de 2012 ele ganhou, o próprio Leno. Ele, todo orgulhoso, presenteou-me com um DVD que registra o feito.
Na sua simplicidade, aprendeu uma máxima da administração de empresas, a concorrência faz-nos bater as canelas para inovar e melhorar a competitividade.
Leno aprendeu o tipo de vela apropriado ao tipo de vento. Aprendeu a construir Caícos mais ágeis e formosos. Aprendeu as artes da navegação à vela, olhando para os paraibanos. Leno galgou dialeticamente sua condição social, de jangadeiro para exímio velejador, mesmo que em jangadas. Compreende?
Contou-me que fez de tudo ali, e que sua mãe ainda viva, mora há 101 anos no local.
A luta pela sobrevivência o fez trabalhar desde os 12 anos. Na lavoura, construção civil, pesca, no comércio. Mas, o que sempre fazia era navegar com seus barcos que toscamente o construía, desde pequeno.
Todo orgulhoso, até ser convidado para ser o administrador do vilarejo já houvera sido, por dois mandatos.
Falava com orgulho de sua terra, de sua história e de seus valores. Dizia, com justa razão, que as crianças agora só querem brincar de videogame e que estão perdendo o “jeito” de brincar com as coisas da natureza.
À exceção eram uns poucos filhos de pescadores que brincavam com minibarcos de velas, “treinando” para um dia pilotarem seus Caícos, ali mesmo na praia.
Olhei mais fixamente para a praia, no sentido onde brincavam, e fiquei paralisado com o que vi, tamanha boniteza. A cena era pungente. Pedi-lhe licença e corri em direção ao local no qual uns cinco jovens “disputavam” com seus minibarcos de vela. A alegria deles em ver seu esporte documentado era tamanha. Improvisaram para mim uma corrida de barquinhos, acompanhados por eles ao lado.
Senti a presença de Deus ali naqueles meninos e sua alegria tão humilde.
Voltei para o barzinho, recebi o DVD do Leno, o presenteei com um CD alternativo de Forró que comprei de um compositor de Olinda, coisa boa.
Trocamos um aperto de mão e a certeza de que um dia nos reencontraremos, quem sabe numa corrida de Caícos.
Como seria bom se em cada pequena comunidade tivéssemos um Leno e plantão. Um incentivador e divulgador dos folguedos, esportes e cultura local.
Não tem coisa que mais uma um povo, e ajude na composição e seu tecido social e autoestima do que os valores culturais.
Imagino o frisson naquela cidadezinha dias antes da corrida. O capricho no polir, pintar e preparar as pequenas embarcações para a prova. Os treinamentos das equipes e o corre-corre para ultimar preparativos. Fecho os olhos e imagino-lhes falando dos competidores paraibanos, temendo-lhes, porém sem lhes curvar a cabeça e a motivação de vencê-los.
Depois da corrida, vejo as premiações, os comentários dos mais experientes, as celebrações e o quanto de material simbólico e cultural ficam sendo processados; criando identidades.
Ao serem contadas e narradas, as histórias das equipes competidoras, viravam lenda, trajetórias locais, despertando o sentido de comunidade e tecendo uma rede social e cultural em torno dos feitos. Inclusive com seus heróis, mitos ( o barco Tentação e o ), ícones, dignos de qualquer estudo antropológico.
Leno, com a sua prosaica corrida de barquinhos à vela, deu um propósito àquele povo para se orgulhar, e um por que viver.
Sua liderança, mobilização e esperança em tempos melhores, materializados no aprendizado e treinamento de novas técnicas, para derrotar os paraibanos de Cabedelo-PB na próxima corrida, são estimulantes. Até na coleta das premiações, de liquidificadores à TVs o Leno é uma figura. Sai de porta em porta, buscando patrocínios, públicos ou privados, e até de turistas que ele cativou e que do Brasil e exterior mandam contribuições para as premiações. Vou doar um prêmio para a próxima. Quero de alguma forma fazer parte disso.
Obrigado Leno por deixarem os paraibanos concorrerem na sua corrida, não a enclausurando numa redoma corporativista cultural.
Você ensinou-me muito. Um dia estarei na torcida pelo seu barco e sua equipe.
Para arrematar, ele falou da importância do trabalho em equipe, dos três a cinco que vão no Caíco. “Um olha o vento, outro a vela, outro apruma o leme em direção às marcações, outros se movem pelo barco contrabalançando-o com seu peso...” tudo em sintonia e sinergia, como nem sempre existe em equipes de trabalho por aí afora.
Valeu Leno, você encontrou a sua maneira de fazer a diferença, de criar uma obra, de ser o melhor para a humanidade e não o melhor da humanidade.

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