Fazia tempo que eu não sentia isso.
Aquele friozinho na barriga. Aquela inquietação leve, tal qual o vento Aracati quando muda de direção e avisa que algo está para acontecer. Um misto curioso de expectativa, adrenalina, esperança e dúvida. Algo entre o “vai dar certo” e o “será?”.
Hoje é noite de véspera.
A roupa está separada. O número preso ao peito. Os tênis aguardam ao lado da cama. Brasília amanhecerá fria, abraçada por uma frente fria dessas que convidam a ficar mais alguns minutos debaixo do cobertor. Mas amanhã não.
Amanhã é dia de estrear.
E, aos 61 anos, descubro que ainda gosto de estrear coisas.
Já arrumei roupa para ir trabalhar. Para ir estudar. Para namorar. Para viajar. Para dar palestras. Para tantas jornadas importantes da vida. Mas hoje arrumo roupa para ir correr.
E isso me fez pensar sobre as primeiras vezes.
O primeiro contracheque.
A primeira vez que saí de casa para construir minha própria história.
A espera do primeiro filho.
As primeiras não são apenas acontecimentos. São portais. Travessias. Lugares onde uma versão antiga de nós se despede enquanto outra começa a nascer.
Talvez uma das vantagens da maturidade seja justamente reconhecer essas passagens.
Quando somos jovens, muitas primeiras vezes acontecem sem que percebamos.
Hoje não.
Hoje quero estar completamente presente.
Quero sentir o frio na barriga.
Quero perceber a expectativa.
Quero prestar atenção na conversa acelerada da mente.
Quero guardar o amanhecer.
Quero ouvir o coração.
Porque sei de uma coisa: isso também passará.
A ansiedade passará.
A expectativa passará.
O frio da manhã passará.
A corrida passará.
E justamente por isso merece ser vivida com atenção.
Amanhã, dia 31 de maio, às sete horas da manhã, Brasília ainda estará despertando. A largada acontecerá diante da Catedral de Brasília.
E confesso que gosto desse detalhe.
Há algo de simbólico em iniciar uma travessia aos pés de um dos monumentos mais bonitos da cidade que escolhi para viver há tantos anos.
Enquanto o sol tenta romper a manhã fria do Planalto Central, centenas de pessoas estarão reunidas ali, cada uma carregando suas próprias histórias, seus desafios, seus sonhos e suas razões para correr.
E eu estarei entre elas.
Não para competir.
Não para provar nada.
Mas para viver plenamente aquele instante.
Porque a vida acontece no agora.
E quantas vezes, nesta sociedade tão acelerada, ansiosa e digital, deixamos o presente escapar por entre os dedos?
Estamos pensando na próxima tarefa, na próxima mensagem, no próximo compromisso, na próxima preocupação.
E perdemos o que está acontecendo diante de nós.
O sorriso.
O abraço.
O amanhecer.
O friozinho na barriga.
A primeira vez.
E a vida não devolve esses momentos.
Na vida não existe replay.
Não existe botão de voltar.
Não existe como viver novamente, com a mesma intensidade e o mesmo significado, aquilo que não foi verdadeiramente vivido quando aconteceu.
Por isso quero estar inteiro amanhã.
Presente.
Atento.
Grato.
Saboreando cada passo, cada conversa, cada batida do coração e cada metro percorrido.
Porque algumas memórias não são construídas depois.
Elas são construídas durante.
Como quem prepara uma compota emocional positiva para degustar no futuro.
Há alguns meses eu não imaginava estar aqui.
Vieram os treinos.
Vieram os dias bons.
Vieram as cólicas.
Vieram as dores.
Vieram os dias em que caminhei mais do que corri.
Vieram as manhãs em que a preguiça tentou vencer.
Mas veio também a persistência.
Um treino de cada vez.
Um passo de cada vez.
Até entender que os cinco quilômetros nunca foram realmente o objetivo.
Os cinco quilômetros eram apenas o endereço.
O destino sempre foi outro.
Era voltar a acreditar no corpo.
Era cuidar melhor da saúde.
Era descobrir que ainda era possível construir novos projetos depois dos 60.
Era continuar estreando na vida.
Mas descobri hoje que existe mais uma beleza escondida nesta história.
Amanhã não estarei sozinho na largada.
Quando meus filhos souberam da prova, decidiram correr também.
Tiago.
Rodrigo.
João Gabriel.
E minha nora Carol.
De repente, aquilo que começou como um desafio individual virou uma experiência compartilhada.
E há algo profundamente bonito nisso.
Porque amanhã não correremos apenas lado a lado.
Correremos atravessando gerações.
Um pai.
Dois filhos adultos.
Um filho adolescente.
Uma nora.
Cada um com seu ritmo.
Cada um com sua história.
Cada um com seus próprios desafios.
E talvez esteja aí uma das maiores vitórias desta prova.
João Gabriel viverá sua primeira corrida de rua.
Eu viverei a minha.
E os demais estarão ali, transformando a experiência em algo maior do que uma simples prova.
Algo que poderá virar memória.
Daquelas que a vida guarda com carinho.
Então, nesta noite de véspera, enquanto a cidade desacelera e o dia se recolhe, percebo que nunca foi pelos cinco quilômetros.
Nunca foi.
Foi pela vida.
Foi pela possibilidade de continuar me surpreendendo.
Foi pela coragem de não permitir que a idade me convencesse de que todas as estreias importantes já haviam acontecido.
Foi por continuar dizendo sim ao novo.
Talvez por isso o coração esteja tão inquieto.
Porque há coisas do amanhã que começam a acontecer hoje.
A largada será amanhã.
Mas a emoção já começou.
A corrida será amanhã.
Mas a expectativa já corre dentro de mim.
O encontro será amanhã.
Mas a alegria já chegou.
E quando isso acontece, o tempo parece desafiar os relógios.
O amanhã invade o hoje.
E o hoje se enche de futuro.
Talvez seja por isso que certas vésperas sejam tão especiais.
Porque nelas o tempo deixa de ser apenas uma sequência de horas.
Deixa de ser número.
Deixa de ser calendário.
Deixa de ser ponteiro.
E passa a ser sentimento.
Afinal, existem experiências que acontecem antes de acontecer.
E existem alegrias que chegam antes da chegada.
Talvez seja exatamente isso que eu esteja vivendo nesta noite.
Existe um frio que paralisa.
Mas existe também o frio das boas notícias que ainda não chegaram.
O frio dos sonhos que estão prestes a acontecer.
O frio das primeiras vezes.
Esse frisson manso do bem, do bom e do virtuoso.
Essa inquietação bonita que visita o coração quando algo pelo qual lutamos, esperamos e nos preparamos está finalmente prestes a acontecer.
E talvez seja isso que eu esteja sentindo agora.
Enquanto a cidade dorme.
Enquanto espero o raiar do dia.
Porque amanhã haverá uma largada.
Mas esta noite também merece ser vivida.
Merece ser sentida.
Merece ser guardada.
Afinal, um dia ela também será lembrança.
E quando esse dia chegar, quero recordar não apenas a corrida.
Quero recordar a véspera.
O frio na barriga.
A expectativa.
A gratidão.
E a certeza de que, aos 61 anos, eu ainda era capaz de estrear a vida.
Porque enquanto houver uma primeira vez me esperando na próxima curva, haverá também um pedaço de juventude correndo dentro de mim.
E amanhã, por alguns quilômetros, ela correrá ao lado dos meus filhos.
E isso, por si só, já vale a corrida inteira.
Ps. Abaixo, o registro dos treinos.


Parabéns pela iniciativa e que essa corrida revele tudo que você espera.
ResponderExcluirE junto com seus filhos/nora a emoção também é exemplo. Vou dormir enrolado confortavelmente no edredom e amanhã vou reler seu exemplar e inspirador testemunho.
Obrigado querido amigo. Deu tudo certo, chegamos bem os 5. Eu, 3 filhos, e uma nora.
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