A bicicleta ficou para depois...

Uma vitória na Fórmula 1 da longevidade.

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Dedicado à Ilda, Ricardo, Núbia, Nadja, Rose e Jairo. Porque, com vocês, meu portal de pessoas de luz ficou ainda mais reluzente.

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Eram umas seis e quarenta e cinco da manhã quando o Tema da Vitória chegou aos meus ouvidos.

*Tan-tan-tan-tan, tan-tan-tan-tan...*

Vinha de longe, em metais. Aquela música das manhãs de domingo, Ayrton Senna cruzando a linha de chegada com a bandeira na mão e o Brasil inteiro acordando junto. Eu tinha um objetivo no bolso: buscar uma bicicleta elétrica. Queria ganhar velocidade pela orla.

Mas a música chamava. Curioso, segui o som. A vida desviou o volante. Ou melhor, desviou o ouvido.

Era a banda de música do Corpo de Bombeiros. E aqueles metais acordaram uma lembrança que eu tinha guardado num canto e esquecido por lá.

Um mês antes, numa corrida de aplicativo até a rodoviária, conheci Jairo Brilhante. Brilhante de nome e de gesto. Motorista e jogador do time do Carcará. No caminho, ele me contou a beleza do câmbio com o entusiasmo de quem fala de um amor. E me convidou para o campeonato do dia 8 de outubro. Dia do Nordestino. Não podia haver data mais certa. E o dia 8 era justamente aquele.

Fui chegando mais perto. Uns quatrocentos metros depois, parei diante de um portão. Era o Centro de Referência Municipal da Pessoa Idosa, o CRMPI, no bairro do Altiplano, em João Pessoa. A carona de um mês atrás tinha virado um portal.

Cheguei ao time Cabo Branco como um estranho. Sem saber onde pousar as mãos, com aquele frio na barriga de menino no primeiro dia de escola. Aos sessenta e poucos, a gente descobre que esse frio não envelhece. É a longelescência mostrando a cara: o mesmo medo de não ser aceito, a mesma vontade danada de fazer parte.

Aquele portão era mais uma estreia na minha vida. Mais uma primeira vez, numa idade em que muita gente acha que as primeiras vezes acabaram. Eu acredito, e a clínica me confirma todo dia, que o bom envelhecer mora aí: em continuar curioso, continuar estreando. Quem ainda tem estreias pela frente ainda tem futuro pela frente.

A velhice que se fecha diz: já vi de tudo. A longelescência responde: ainda não vi isso aqui.

Mas eles não me deixaram na beira. Abriram a roda como quem puxa mais uma cadeira para a mesa. Sem cerimônia, sem prova de admissão. Em poucos minutos, eu era visitante com crachá de casa.

No Jogo de Câmbio, a bola passa de mão em mão. Um recebe, caminha, entrega. O outro acolhe e devolve. É preciso olhar o companheiro, esperar a hora, confiar. Ninguém joga sozinho. Aquilo era bem mais do que esporte. Era um jeito de tirar a pessoa idosa do sofá e colocá-la no meio do mundo, onde tem gente, riso, suor e conversa.

Ilda joga no Cabo Branco. Ricardo, o marido dela, também. Foi Ilda quem resumiu tudo numa frase: o câmbio é socialização, é interação, é sair de casa e continuar participando da vida.

Havia uma provocação escondida na fala dela. A sociedade costuma reservar para a mulher idosa um papel só, o de cuidar dos netos. Ilda, de bola na mão, recusa esse destino estreito. Cuidar pode ser um dos papéis, nunca o único. Ela é atleta, companheira de equipe, esposa, amiga. Mulher que escolhe estar no mundo.

No banco de reservas, Ilda tinha a companhia da amiga Núbia. E, ambas tornaram-se as minhas professoras das regras do jogo. Já a Nadja, atleta do time, gente boa que só ela, entre um jogo e outro me foi contando pedaços da sua história. Está de malas prontas para a Inglaterra, vai visitar um filho. E já é bisavó, contou toda orgulhosa, com um corpinho que mal cabe nos 60+. Se existe fonte da juventude, ela bebeu de canudinho.

Em pouco tempo, eu já não sabia se estava aprendendo um esporte ou ganhando amigas.

Antes de ir embora, paguei uma rodada de dindin para o time do Carcará e para o Cabo Branco. Sacolé, geladinho, chope de fruta lá no Pará. Cada canto do Brasil chama de um jeito, mas o gosto da gratidão é o mesmo. Foi meu jeito de devolver um pouco da alegria que me deram. Ou, para ser honesto, comprei meu lugar no time do Cabo Branco com dindin. E saiu barato.

Depois veio o maracatu.

As mulheres do Grupo Baila Comigo, todas 60+, entraram na roda e o chão mudou de humor. As saias se abriam feito flor de mandacaru depois da primeira chuva. Cada giro trazia uma história. Cada passo parecia dizer: nós estamos aqui. 


O Maracatu carrega isso no sangue. Resistência, ancestralidade, batuque de comunidade. Uma alegria que não pede licença para existir.

Elas não dançavam tentando esconder a idade.

Dançavam com a idade inteira.

Com os anos vividos, as perdas, as alegrias, as marcas do tempo, tudo virando movimento.

Por trás de cada giro havia uma mão que ninguém via. A de Rosilene, a Rose, coreógrafa do Baila Comigo.

O semblante dela reluzia. Rose não apenas assistia às suas dançarinas. Dançava com os olhos junto delas, contando os tempos em silêncio, sorrindo a cada saia que se abria no compasso certo.

E essa luz tem raiz funda. Mestrado e doutorado em ciências da saúde. Uma vida dedicada à pessoa idosa desde 1990. Mas não foi o currículo que me pegou. Foi o jeito. Rose ama o que faz, e amor de verdade não cabe no papel. Aparece no rosto.

Mal termina de montar uma dança como a do maracatu, já está com a próxima rodando na cabeça. Trabalho assim deixa de ser emprego e vira chamado. E chamado, a gente sabe, não se aposenta.

No jogo, a bola dança. No maracatu, o corpo joga. Uma saia que gira encontra outra saia, um passe só existe se alguém recebe. Ninguém faz a festa sozinho.


A ciência já confirmou o que eles vivem sem precisar ler pesquisa nenhuma: vínculo é remédio.

Todos ali poderiam ter escolhido assistir à vida da janela.

Escolheram jogá-la.

Dançá-la.

Vivê-la no coletivo.

E aí entendi o nome do time de Jairo. O carcará, que João do Vale cantou para o Brasil inteiro ouvir, é ave do sertão. Resiste à seca, enxerga longe, não se deixa dominar. Voa pesado de coragem e leve de céu.

Resistência, visão, força e leveza no viver. Era isso que eu via na quadra e na roda de maracatu. Os jogadores do câmbio e as dançarinas do Baila Comigo são, todos eles, carcarás. E a Revolução Grisalha tem esse jeito de carcará. Não grita. Passa a bola, roda a saia, ocupa a praça, aprende passo novo. E vai transformando tempo vivido em presença e idade em potência.

O caminho de volta

Voltei  pra casa sem a bicicleta. Mas com um sol-risão estampado no rosto.

E não senti falta dela.

Eu tinha saído para buscar velocidade e encontrei gente que acelera de outro jeito.

Jairo, que me abriu a porta.

Ilda e Ricardo, com a bola de um casal que sabe se amar, ao compartilharem o câmbio da vida a dois.

Núbia, que me ensinou as regras no banco de reservas.

Nadja, bisavó de corpo de menina, com a mala pronta para a Inglaterra.

Rose, com seu brilho de quem já sonha a próxima dança.


O time Cabo Branco e as mulheres do Baila Comigo.

Todos na pista da Fórmula 1 da longevidade.

Não disputavam contra o tempo. Aceleraram na direção do encontro. E a cada volta deixavam para trás os adversários de verdade: a solidão, o isolamento, o vazio de sentido.

*Tan-tan-tan-tan, tan-tan-tan-tan...*

A banda já tinha ido embora, mas o Tema da Vitória seguia tocando, agora dentro de mim. E, desta vez, quem cruzava a linha de chegada não era Senna. Eram os carcarás grisalhos que jogavam. As mulheres que dançavam. Gente que saiu de casa e descobriu que o mundo ainda tem lugar para ela.

E eu, que cheguei estranho, cruzei a linha junto. Entrei em casa com o coração cheio, cheio, cheio. Daquele jeito do salmo, em que o cálice transborda.

A bicicleta ficou para depois. A vitória, não.

Porque a longevidade pode até ser uma corrida. Mas o pódio de verdade não é de quem chega primeiro. É de quem não corre sozinho.

Ricardim 

Ricardo de Faria Barros, Psicólogo, escritor e especialista em longevidade feliz e plena de sentido




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