Conectados, mas só?










Era uma noite de céu incrivelmente límpido no centro de São Paulo. Na programação, iríamos conhecer o restaurante Terraço Itália, no 42. andar de um prédio no Centro da cidade, na Av. Ipiranga. O segundo edifício mais alto do Brasil, com 165 metros.

Ao chegarmos, um frisson nos acompanhou desde a entrada monumental do local. Era um lugar lindo. Em cada mesa uma vela e flores. Casais apaixonados conversavam pertinho. Um lugar que convidava ao enamoramento, charmoso, envolvente e romântico. Como chegamos na abertura da casa, às 20h30min, pegamos uma mesa bem posicionada, que nos dava uma ampla visão externa e um bom acesso à pista de dança.

Às 21hrs começou a tocar a banda do Elizeu Storion, um show à parte. Sua voz supera finda e rouca lembrava Rod Stewart.
Tudo perfeito.
Antes das 21h30min, todas as mesas já estavam ocupadas, em sua maioria por casais. 
Pedi um bom vinho para esposa e fiz a degustação de todas as cervejas da casa. Não gosto muito de vinho, desculpe se te magoei. 
Não nos cansávamos de olhar a noite de SP, os prédios iluminados, as grandes avenidas tomadas por carros num frenético vai e vem.
São Paulo exala vida e nunca dorme.
Vez por outra helicópteros passavam bem perto das janelas de vidro do lugar, como que a brindar seus ocupantes com a visão da banda e do local aconchegante.
Nossos vizinhos de mesa chamaram nossa atenção.
Todas as vezes que passávamos por eles, em direção à pista de dança, nos chamava atenção o fato de que em plena noite romântica cada um operava o seu iphone. 
Não, eles não estavam brigados. Sim, eram namorados, flagramos um beijo. 
O barato deles era teclar nas suas redes sociais, e vez por outra trocarem entre si os celulares, prova inconteste de confiança e amor. Amor em tempos de WEB. 
Aí, cada um deles via o que rolava na página do outro, davam risadas, e destrocavam os celulares.
Ainda bem que não sentaram perto da banda do Storian, ele teria infartado de desgosto. Indiferença mata.
Quem sou eu para julgá-los? Embora esta foto seja emblemática e ilustre o que víamos.
No outro dia fomos ao teatro, e até o final do primeiro ato, tinha gente à nossa frente “narrando” o espetáculo no seu face-celular. 
Poucos viram do ato em si, concentrados que estavam em expor algo, postar algo, comentar talvez o que estavam fazendo.
De cabeça baixa, perderam a cena da mulher que vestida de noiva relatava na abertura da peça as desventuras dela ao ter se casado com o “traste” do seu marido (Peça Casal TPM). 

No retorno ao trabalho relatei o fato e os amigos disseram-me ser cada vez mais comum este comportamento em todos os locais de ajuntamento humano: b
ares, igrejas, estádios de futebol...
Segundo um deles, um dia desses ficou ao lado de uma mesa com três moças e dois rapazes, todos conectados em suas redes sociais, um silêncio entre eles de dá dó, só cortado por uma ou outra “apresentação da tela do celular” e do que ali rolava para o restante do grupo.

Muita banda larga digital e pouca humana. Conectados, mas sós!
Não se apresse em me julgar quadrado, fora dos tempos modernos. Sou virtual e de muitos tempos atrás, desde os chats do ZAZ. Ou das RBS. 
O que me preocupa é se estamos perdendo a capacidade de conversar, sem ter que editar o texto. De expressar emoções, sem ter que retocar a cena.
De sermos nós mesmos, autênticos, sem virarmos co-dependentes digitais do que o outro acha de nosso post, foto, crônica (como esta), de nossa viagem, etc.!
Preocupa-me o desaprendizado em estabelecer vínculos afetivos reais, quando a presença real está tão próxima que daria para abraça-la, ou tocá-la com nossa mão estendida.
Vivemos o reinado do curtir, comentar, compartilhar, num narcisismo digital que Freud não imaginou que pudesse acontecer.

Haverá o dia que nascerá uma nova especialidade de psicologia, psicologia digital.
No link abaixo, a doutora Sherry Turkle analisa como os nossos dispositivos e personalidades online estão redefinindo conexão humana e comunicação -- e nos pede para pensar profundamente sobre os novos tipos de conexão que queremos. Depois de ler o texto clique abaixo para ver o vídeo, legendado:

Conectados, mas só?
Vale cuidar para que a banda não fique tocando sozinha, os casais dançando, e você vendo a vida passar pela tela de um aparelho qualquer.Descobrimos que nosso garçom é do Ceará, chamava-se Rocha. Descobrimos que gostamos de dançar, mesmo sem saber direito.
Descobrimos que o prato mais suculento é o menos pedido, um Carré de Cordeiro.
Descobrimos que estar juntos, ouvindo uma boa música, sem nada falar, pode ser a maior de todas as comunicações.
Descobrimos que uma vela acesa, dança, e o fogo nos hipnotiza com sua dança, chamando-nos à ternura do encontro.
Mais duas cervejas e um cálice de vinho, descobrimos que ainda podemos conversar de algo diferente do que nosso filho o JG.
Que podemos brincar de contar estrelas, aviões, casais de vermelho e preto, brincar de quem sabe a música...
Descobrimos tudo isto por deixarmos nossos celulares em casa, e nos conectarmos um ao outro.

A conversa face-a-face cura, liberta, transforma.
A conversa virtual cura, liberta, transforma.
As coisas podem ser E e E. Não preciso deixar meu celular em casa. 
Só preciso me abrir às possibilidades que uma vida sem edição pode oferecer. 
Abrir-me ao que acontece ao meu redor. 
Posso me conectar, checar e-mails, páginas pessoais e ainda assim estar presente. 
É tudo uma questão de dosar. Aliás, o face, via celular, trás à mesa a presença de tantos outros. Este relacionamento virtual é super legal e gera novas possibilidades, interações e bons vínculos - impensados anos atrás. Mas, se não cuidar, o outro real se desconectará do também outro real, por falta de banda larga humana. Como em tudo, a diferença entre a droga que mata e a que cura é a dose.

Quanto ao casal, saímos antes deles. Faço votos para que ao término de suas atualizações possam se despir de toda a tecnologia, e se vestirem um do outro para o enlace e dança do encontro.

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