Mães, num pente uma ponte de esperança.


Esperava meus filhos chegarem de Campina Grande, na rodoviária de João Pessoa.

Já era quase meia noite. Esperava dentro do carro, no estacionamento, que tem uma vista privilegiada do setor de compra de passagens da rodoviária. Para matar o tempo, observo as cenas do cotidiano.
Gosto de observar.  
Concentro-me numa pequena "procissão" que segue pela área dos guichês de passagens, todos fechados àquela hora. 
Uma mãe, acompanhada pelos três filhos, caminha vagarosamente em direção ao guichê da Itapemirim, fechado àquela hora. 
Sobre sua cabeça carrega uma enorme caixa de papelão. Nas mãos, sacolas plásticas. Os filhos miúdos a acompanham, em fila indiana.
Ela olha para os lados, como quem a procurar os vigias ou polícia, não os vê, e ali mesmo, na soleira do guichê, larga suas sacolas no chão e desce a caixa.
Das sacolas, tira algo que não identifico de longe e alimenta os filhos.
Deve ser pão ou bolachas.
Da caixa de papelão, ela vai tirando outros papelões dobrados. 
Um a um, vai esticando-lhes no chão à sua frente, forrando-o com esmero. 
Percebo então a grandeza da cena, ela constrói uma base que servirá de cama para seus filhotes.
Os protege do frio e sujeira.
Os meninos acompanham tudo, solenemente.
Estão quietos. Cansados.
Devem ter vindo de longe.
Aqueles papelões dobrados se transformam, pelo amor daquela mãe, numa cama, num leito quentinho e limpo.
Um a um, os meninos vão se deitando sobre o papelão, e disputando a "almofada de colo de mãe". A melhor. 
De repente, ela tira algo da sacola e pede que os meninos se levantem.
De longe saquei o que era. 

Um pente.

Verti lágrimas. 

Cada um vai sendo chamado para perto dela.
E ela penteia seus cabelos, docilmente, vagarosamente, como quem a expressar cuidado, daquele de um amor que excede.  
Beija-lhes e os libera para a "cama" novamente.

Fiquei petrificado com o que vi. Abençoado pente.

Aquele pente foi o que restou de dignidade para aquela mãe. Diante de uma situação de risco social que enfrenta.
Aquele pente transformou-se em ponte: ponte para o amor, para a eternidade de um gesto de cuidado.
Aquele pente, e aquele pentear, mudaram meu viver.
Com tão pouco, com tanta limitações, com tanta miséria, ainda assim, aquela mãe encontrou um espaço do ser, um vir-a-ser, para resgatar o pouco de dignidade que a pobreza lhe levara, a dignidade de dormir penteando.
Banho ela não podia dar.
Perfume, não tinha.
Lençóis cheirosos, muito menos.
O que ela podia dar, era de si mesma. E deu. 
Uns restos de papelão, como mágica, a mágica do amor transformaram-se em cama e lençóis. Umas bolachas guardadas, num fundo de um saco, transformaram-se em jantar. Um pente, transformou-se em banho, cuidado e pijama.
O amor transforma todas as coisas.
A elegância e belezura de pentear os cabelos de seus filhos ecoará na eternidade.
Agora sim, eles estavam prontos para dormirem.
Estavam "limpos". Limpos pelo amor de uma mãe.
Abençoadas mães que quando tudo lhes faltam, quando tudo lhes é negado, ainda assim lembram-se de retirar um pente mágico de uma sacola de retirante e cuidar de seus filhos.
E dele, como que numa varinha de condão, fazer milagre, aconchego, ternura e cuidado.
Abençoadas mães e seus pentes que nos tornam melhores como seres humanos. 

Muitos outros filhos, naquela noite, talvez não tenham recebido o respeito e carinho que aquela mãe doou aos seus, num simples ato de forrar a "cama' para eles, alimentá-los com o que tinha, e pentear seus cabelos. 

Desejo a todas as mães e pães que a força desta mulher, movendo-se na esperança de melhores dias, incentive e ilumine a jornada de tantos que teimam em desafiar as condições da realidade e lutam para que seus filhos tenha melhores condições de vida. 

Pense nesse pente. E, quando tudo lhes faltar, você poderá ter num cantinho qualquer do seu coração, algo que ainda sirva para expressar cuidado, carinho e atenção para com o outro, nem que seja um simples pente.  

Podemos fazer do pente uma ponte de esperança, para os que cruzam nosso viver. 
Que tal?

Um comentário:

  1. Diante de tanta injustiça social e do abandono total dos nossos governantes em relação aos nossos irmãos e a falta de investimento nas regiões mais necessitadas e carentes... esta é a cena que vamos continuar assistindo! Portanto, neste ano 2014 teremos s chance de mudar ... de virar esta página!

    ResponderExcluir

Seu comentário é uma honra.

Crônicas Anteriores