Tempo de fazer a mudança para a cidade de si mesmo.

Era uma sexta recente, de algum mês que já se passou. Logo cedo fui ao Colegiado despachar umas Notas Técnicas. Compartilham aquele ambiente outros Gerentes Executivos.  Sentei-me à mesa do meu Gerente e aguardo ele voltar de uma reunião que ocorria na sala do Diretor.
Ao lado, observo um Gerente Executivo arrumando alguns papéis em sua mesa. Estranho o silêncio no Colegiado. Geralmente na sexta o ambiente é mais informal e sempre um fica zoando com o time de futebol do outro. Todos estão sérios. 
Algo ocorrera.
Continuo então a observar. Gosto de observar. Para mim pessoas são pinturas, são belos quadros expressionistas e gosto de observá-las em suas atividades corriqueiras.
Percebo que alguns papéis ele olha fixamente e os coloca numa caixa de papelão, que jaz aos seus pés. Outros, ele coloca numa fragmentadora que desafia o colossal silêncio do ambiente.
Lembro-me que ele participou de um evento de preparação para a aposentadoria que fizemos. Lembro-me, porque ao final ele me procurou e me contou que fizera o exercício que eu passara. E que ficou com a pontuação de 7-10: “Céu de Brigadeiro”, achando que estava chegando a sua hora. 
Essa pontuação faz parte de um momento da palestra que conduzo, chamada Aposentável, decifra-me ou devoro-te – aspectos psicossociais da aposentadoria.
Caiu a ficha do silêncio, e do que ele fazia com aquela caixa de papelão. Estava despedindo-se do BB, iria aposentar-se e guardava seus objetos pessoais, sua memórias.
Chorei por dentro da singularidade da cena. Nunca tinha testemunhado uma cena daquela.
Ele não via que eu o observava, quase como um voyeur. Ele estava absorto. Longe.
Tirou as fotos que emolduravam sua mesa e as olhou. Quantas horas com a família foram deixadas de lado pela dedicação integral ao trabalho. Todos que trabalham, que gostam do trabalho e são comprometidos, fazem essa escolha. Mas, ao fechar o ciclo, um dos ciclos, ela cobra sua fatura. 
Ele olhava seus entes queridos... aqueles que renunciaram ao seu convívio mais próximo, apoiando-lhe na sua dedicação. Agora eles iam para a caixa de papelão. Seu pedaço de família, naquela mesa, era guardado, desfeito, revivido desde a posse. A partir de agora iria ocupar um outro lugar em sua "baia" existencial.  
Foi desarmando seu ethos corporativo, sua toca, sua “baia”.
Abria as gavetas com cerimônia. 
Limpava, uma a uma, escolhendo o que levaria de pessoal. 
Até o som e cheiro do ambiente ele sorvia. Foi fazendo sua mudança para outra estação da vida e do viver.
Lentamente, sem pressa, como que a confirmar em cada gesto sua decisão.
Lá se iam 32 anos de dedicação ao BB. 
Quando ele falava dos seus projetos, em algumas reuniões que fiz, não tinha como não se contagiar pela sua vivacidade e satisfação com o trabalho. seus olhos brilhavam. Ele falava de mais do que um projeto, ali era sua identidade, sua razão e sentido da vida. Agora chegara a hora da partida. Do divórcio, de uma quase-morte.  
Aproximei-me e ofereci um aperto de mão. Ele olhou-me fixamente, com um sorriso no rosto. Disse-me, “vou aproveitar o Céu de Brigadeiro e voar para as coisas que deixei para trás e para as novas que virão”.
Mordi a língua para não chorar.
Saí de perto e perguntei a outro executivo se não haveria uma despedida, uma festinha. Ele falou que foram pegos de surpresa e que ele pedira que nada fizessem no seu último dia. 
Entendi então que ele estava vivendo seu velório corporativo. Ele estava velando seu próprio crachá.
Se despedindo do sobrenome corporativo. Do ramal. Dos cartões personalizados.
Era um momento de profunda grandeza e humanidade. De rara beleza e sensibilidade. Nunca tinha presenciado.
Aquele dia ele dedicara ao seu luto, às suas próprias despedidas, de silêncio, de contemplação.
Inventei uma desculpa ao meu executivo e fiquei mais um tempo. Uma eternidade observando-o.
Alguns itens de sua mesa eram troféus, com certeza. A maneira que ele os guardava na caixa mais pareciam objetos preciosos.
Aos poucos, a sua mesa a  sua estação de trabalho foram se despindo, ficando sem cheiro de gente. Sem nenhum toque pessoal.
Era como se ele desarmasse sua barraca. Fizesse as malas. Para uma nova viagem, agora definitiva.  Uma viagem em busca de si mesmo, das fantasias perdidas, dos projetos adiados, dos sonhos adormecidos. 
Lentamente ele tirou o crachá.
O olhou...o  olhou... Num olhar de séculos de expressão.
Quanta dedicação estava presente naquele plástico!
Quanta história, realizações, sofreres e prazeres carregava aquela matrícula de oito dígitos!
Por fim, contemplou os lados, como que olha pela última vez. Os seus pares executivos sentiram o peso do momento e fingiam estarem ocupados, lendo documentos vazios.
Lentamente ele tirou o cordão do crachá do pescoço. 
Depositou na caixa. Levantou-se da cadeira, ergueu a caixa como quem carrega parte de sua vida, como quem está de malas prontas e caminhou para a saída da sala.
Iria somente guardar a caixa no carro? Ele voltaria ainda para se despedir? Ninguém ousara erguer a voz e perguntar. Todos emocionados com o momento.  Talvez a dor da separação de amantes fosse tão grande que ele preferiu faze-la como quem sai de casa apenas com as chaves do carro e nunca mais volta. Talvez... Tem apegos, vínculos que de tão fortes precisamos negar a sua perda para sobreviver. E, e uma das formas, e fantasiar a realidade, não olhar pelo retrovisor a vida e tocar pra frente. Atrás tem muita saudade chorada. Muito apego amoroso. Muita coisa boa vivida. Saudade é caprichosa, se se olha muito para ela não se viverá o presente do futuro. Saudade é saudade, não se explica, se vive. Talvez carregando uma caixa de papelão cheia de memórias, sem olhar o que deixou, para ter forças de caminhar para o que virá. 
Na saída, parou... voltou-se para mim e sorriu!  Um sorriso de quem sabe que tudo que fez ecoará na eternidade. Um sorriso de infinitos, de quem está prenhe de novas possibilidades.
Um sorriso de abraços incontidos, um sorriso de quem se vai de bem com a vida, um sorriso cheio cumplicidades, de até-logos. 
Quando a porta fechou eu chorei! 
A gente se apega aos colegas. Somos seres de vínculos. E passamos boa parte do tempo no trabalho. É importante preparar-se para a despedida do crachá, da esposa-instituição. Creio pelo que conversamos meses antes, que ele preparou-se direitinho. 
Que ele voe e ajude a construir um outro mundo possível, com tudo que aprendeu em 32 anos de dedicação. 

Nas horas que agora lhe sobrarão, optará por trabalhar no que quiser e no ritmo mais apropriado, seja em funções remuneradas, ou não, como, por exemplo, as de adotar uma praça, ler para um doente, voltar a estudar ou simplesmente fazer nada, ou tudo ao mesmo tempo, como viajar e aprender finalmente a cuidar de si mesmo e dos amados que foi deixando ao longo do caminho.

5 comentários:

  1. Ricardinho já vi muitas postagens suas... mas essa foi demais. Deu pra viver o momento lendo cada palavra do texto. Sou da Ditec, sou progrid, sou BB e espero muito chegar também nesse dia vivido pelo colega. Parabéns pelo ótimo post e ao colega pela aposentadoria.

    Abs.

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  2. Incrível como vc consegue carregar de sentimentos seus textos... Sentimentos que leio e vejo automaticamente em minha imaginação e vivencio cada um deles... Lendo este texto me lembrei do meu educador na semana de treinamento quando entrei no banco... Ele trabalhava no csl em Brasília, um dos diretores de lá. Ao final da semana de treinamento, eles nos revelou seu tempo de banco: chegava aos trinta anos e preparava-se para se aposentar... Naquela semana que convivi com ele me senti tão cativado e amigo dele que lágrimas rolaram qdo as deles rolaram tbm... Ele foi peça fundamental pra eu acabar de me apaixonar pelo banco e ter a certeza de que estava encontrando meu lugar! Seu texto me trouxe de volta o brilho que vi nos olhos dele ao nos olhar, recém chegados ao banco e cheio de sonhos e esperanças... Sonhos que ainda carrego comigo e esperanças que alimento a todo instante! Obrigado pelo texto!

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    1. Thiago, emocionante teu relato. Obrigado por compartilhar.

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  3. Orgulho de ser nordestino...Esse sentimento não pode parar, temos mesmo que cultivar as nossas amizades.

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    1. Que legal a sensação de pertencer a uma tribo de pessoas que amam coisas simples e verdadeiras, como uma festa de São João.

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